sexta-feira, 29 de junho de 2012

COMISSIONADOS.



Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em o nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; instruindo-os a observar todas as coisas que vos tenho mandado. Eis que eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo. Mateus 28:19-20
Este texto é geralmente conhecido pelo nome de “a grande comissão”. Mas, qual é o sentido do termo comissão? Sejam quais forem os muitos conceitos que a missiologia (estudo sobre a missão cristã) traz sobre a palavra comissão, há um princípio que jamais poderá e deverá ser esquecido: toda missão cristã não pode ser outra coisa senão o reflexo da ação de Deus em e através do Seu povo adquirido!
Quem são os comissionados? Comissionados são as pessoas conquistadas pelo amor do Pai presente na obra do Seu Filho e revelada pelo Seu Espírito! São pessoas chamadas para viver, proclamar e ensinar em nome Daquele que as chamou para partilhar da Sua glória. É por esta razão que na igreja de Cristo não existem voluntários predispostos a “tapar brechas” ou “cargos eclesiásticos” mas, chamados a exercer e suportar as cargas de ministérios que foram dados e capacitados pelo Pai.
Através do texto bíblico em questão, podemos constatar que os comissionados são toda a Sua igreja e em todas as épocas! A missão destes comissionados consiste em glorificar a Deus, vivenciando, proclamando e ensinando sobre a revelação da Pessoa e Obra de Deus em Cristo e capacitados pela ação do Seu Espírito! Logo, na comissão dada pelo Pai Celestial não há nada que possamos fazer por nós mesmos! Nossa nova vida (regeneração) e comissão (ministérios) são somente e inteiramente o reflexo da ação de Deus em Cristo!
Mergulhando neste texto bíblico podemos observar que o verso 19 traz uma forma verbal que sinaliza um tipo de ação inequívoca e certeira que deveria ser praticada pelos discípulos de Cristo. É um modo verbal definido pela realidade de um fato crido e praticado. Expressa a maneira como o “ide” deveria ser praticado: eles deveriam “indo sempre”. É um sentido imperativo (uma ordem) para se praticar uma ação de modo dinâmico e jamais estático.
Aqui o ide de Jesus é uma ação que não transmite a ideia de término ou cessação de atividade. Fazer discípulos a maneira de Deus em Cristo deve ser encarado como atividade constante da igreja cristã e sem se preocupar com a limitação de tempos na cronologia da história humana. O pronunciamento de Jesus é direcionado àquelas pessoas que praticariam ação do “ide” durante toda a trajetória terrena da igreja de Cristo.
A conjunção portanto nos dá uma ideia de continuidade daquilo que Jesus havia falado com o ensinamento que virá a seguir. Aqui, a palavra portanto tem a função de ligar enfaticamente a ordem inicial do ide a outra ação subsequente, dando-lhe a conotação de continuidade dos propósitos de Deus na e para a vida de Seus discípulos. O verbo fazei discípulos também pode ser traduzido como “façam com que sejam Meus discípulos”.
Na verdade os discípulos são feitos pala ação Divina e o mandado é dado aos discípulos no sentido de serem os pregadores e ensinadores de um discipulado que só O Senhor pode fazer! Só Deus faz discípulos em Cristo e pela ação do Seu Espírito. Neste caso a função da Sua igreja é “sair a campo” com esta comissão.
Também é importante ressaltar que nos primórdios do cristianismo não havia “classes de discipulado” por tempo determinado e com direito a certificados de conclusão. Existiam discípulos e discípulas sendo “moldados” à imagem do Filho de Deus! Muitas vezes importamos modelos criados pela pedagogia humana e os incorporamos às atividades da igreja de Cristo sem muito critério bíblico. É imprescindível que examinemos a essência, a sequência e a maneira de Deus fazer Seus discípulos, para que não façamos nada que não seja orientado pela Sua palavra revelada.
O discipulado é uma atividade que também envolve o treinamento de pessoas por tempo “indeterminado”. Discipular é um imperativo ou uma ordem a ser cumprida por toda a “era da evangelização” sem que haja a preocupação com a sua cessação por parte da igreja.
Ninguém faz de ninguém um discípulo de Cristo. Também ninguém nasce discípulo. Discípulos são feitos exclusivamente pela ação do Pai! O discipulado de Cristo é um trabalho que enfatiza a extensão grandiosa e sem fronteiras desta ação de Deus em alcançar e moldar pessoas de todas as nações e povos do mundo. Por isso, é impossível à igreja medir ou determinar o número de pessoas a serem alcançadas pelo evangelho e os limites geográficos da sua comissão. Fica evidente que neste texto bíblico não existe a ideia de que O Pai faça alguma distinção entre pessoas de qualquer nação organizada ou grupo étnico isolado da suposta “civilização humana”.
O verbo batizando-os, também pode ser traduzido como batizando esses seguidores. Isto dá uma ideia muito interessante sobre a ordem das coisas. O batismo seria uma ordenança para tornar pública a experiência de uma pessoa já conquistada pelo Espírito Santo! Ou seja, o batismo seria ministrado somente aos que já eram discípulos de Cristo! O batismo era uma cerimônia celebrada e repetida cada vez que novos discípulos eram ganhos para Cristo.
É como se fosse um ato de obediência para com aqueles que já haviam respondido positivamente ao “ide” e ao “fazei discípulos”. Batizando-os é um verbo particípio presente ativo, denota uma ação de natureza contínua, devendo ser praticada sempre e em obediência à comissão dada pelo Mestre.
O jogo de palavras em o nome traz-nos uma ideia que salienta a instrumentalidade do “nome” ou da pessoa de Jesus como o fundamento e agente do ato batismal mencionado acima. Todas estas ações anteriores (ide, fazei discípulos e batizando-os) seriam legitimadas pela participação da Trindade Santa: em o nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. O batismo bíblico é uma ação da Trindade! A sequência formada pela preposição, pelos artigos e substantivos que identificam a Trindade enfatiza claramente de quem vem a autoridade de quem comissiona a igreja para ir, fazer discípulos e batizá-los.
É importante deixar claro que a primeira palavra desta sequência, a preposição em, dá-nos um sentido de “inclusão” numa nova realidade. Tal batismo simbolizaria externamente uma realidade espiritual interna de inclusão da pessoa discipulada e batizada na obra de Deus em Cristo e pela ação do Espírito. Inclusão legitimada com a participação ativa de toda a Trindade.
O verso 20 começa com o verbo instruindo-os que possui também uma força “imperativa” em relação aos seus futuros seguidores, ou seja, trata-se de outra ordem ou mandado expresso e enfático da parte de Jesus. A ordem agora é que os Seus discípulos sejam encarregados da continuidade do projeto evangelístico de Deus: instruir pessoas vivas para Deus que irão viver a nova vida que receberam. É gente viva ensinando pessoas vivas a viverem a vida de Cristo!
É uma “classe de gente que tem a vida do Filho”. Esta é a instrução bíblica relacionada somente aos viventes seguidores, aptos a receber o ensino sobre o evangelho de Cristo. A ação deveria ser contínua por causa do modo particípio e do tempo presente. Também, fica claro que a ação de ensinar deveria ser da responsabilidade dos que já fossem discípulos de Cristo.
Aqui temos também a ideia da obediência como forma de resposta da parte da turma de novos discípulos de Cristo. Estes novos discípulos deveriam refletir uma postura de contrapartida ativa àquilo que lhes fora ensinado sobre as verdades concernentes ao evangelho. É uma questão de compartilhar do evangelho através da vida de Cristo gerada nestes novos discípulos.
Instruindo-os a observar significa que a verdadeira vida só se transmite através da Vida de Cristo. Observar não tem o sentido de mera transmissão de conceitos sobre Deus. A expressão pode ser traduzida como instruindo-os a conservar ou manter aquilo querendo ressaltar a vida que já lhes foi implantada: a vida de Cristo!O tempo presente e a voz ativa aplicada definem que a ação de discipular pessoas deveria ser uma prática constante da parte dos discípulos.
A palavra toda ou todos significa que o ensino do evangelho deveria ser observado em todas as suas implicações da vida humana. O ensino de Cristo deveria invadir todas as dimensões da vida de Seus discípulos. A expressão que é uma forma enfática de se falar de todas as coisas que deveriam ser ensinadas, em outras palavras, os ensinos de Jesus deveria ser transmitidos em sua “integralidade”. A revelação bíblica sobre o evangelho de Cristo não aceita as fragmentações teológicas que somos capazes de produzir.
O verbo eu ordenei ou tenho ordenado nos dá a ideia de uma ação sem tempo definido para acabar, ou melhor, de uma prática ininterrupta até segunda ordem, de forma certeira e de uma maneira que implicaria em benefício aos Seus discípulos. Ou seja, é como se Jesus estivesse dizendo assim: “Eu ordeno que vocês certamente transmitam o Meu ensino, por tempo indeterminado, como forma de benefício para vocês mesmos”.
E, por fim, o verbo eu estarei sempre convosco ou estou sempre vocês menciona uma ação inerrante, certeira, constante e ativa que tão logo estará sendo praticada por Jesus Cristo. Estou ou estarei, são as possibilidades de se traduzir para a nossa língua uma realidade (ação) constante da parte do nosso Mestre. As palavras todos os dias já nos trazem uma dimensão temporal até o cumprimento previsto pelo Pai e uma ênfase na segurança em relação à presença de Cristo em Seus discípulos.
A última palavra desta série merece uma atenção especial pelo fato de ser um elemento determinante, indicando um tempo futuro e indefinido, sendo traduzida por até e que tem a função de fechar o pronunciamento de Jesus como últimas instruções aos Seus discípulos. Ressalta que a soberania sobre o “tempo” pertence em última instância a Deus. Podemos traduzir este jogo de palavras assim: o fim dos tempos ou até que os tempos sejam completados.
Por aquilo que esse conjunto de palavras representa, temos a nítida ideia de que o tempo de Deus está além da sequência e da medição da cronologia humana. O tempo de Deus é um tempo sem tempo. É a eternidade invadindo a finitude da história humana. Mais do que as dimensões de tempo, de espaço e de matéria, Jesus se apresenta “a garantia da presença de sua Pessoa e Obra” naqueles que foram conquistados pelo Seu amor e são reproduzidos através da Sua vida! Amém!

Escritor: Pastor Mauricio Montovani.

terça-feira, 26 de junho de 2012

O LEGALISMO.





Há muitos anos, um colega da faculdade me disse: "Eu não acho que você seja uma pessoa muito espiritual".
Fiquei perplexo, porque ele não me conhecia o bastante para extrair aquela conclusão, então perguntei a ele porque dissera aquilo.

"Porque você não vai às reuniões de oração no meio da semana", ele respondeu.

"O que isso tem a ver com a minha espiritualidade?", perguntei. "Eu posso muito bem passar o dia e a noite em oração."

"Não", ele disse. "Pessoas espirituais vão às reuniões de oração."

Se ele tivesse dito que pessoas espirituais oram, eu teria concordado e confessado que eu necessitava orar mais fiel e fervorosamente. Mas condenar as pessoas por não manterem regras humanas e rituais religiosos é legalismo. Jesus encarou isso freqüentemente em seus conflitos com os fariseus. Paulo adverte sobre isso em Colossenses 2.16-17:

Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das cousas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo.



Paulo se dirigia às pessoas legalistas que estavam nas igrejas e acreditavam, com efeito, que somente um relacionamento pessoal, vital e profundo com Cristo não é suficiente para satisfazer a Deus. Eles haviam acrescentado regras e requisitos que governavam o exercício de certos deveres que eles achavam essenciais à espiritualidade — regras sobre o comer, o beber, o vestir e a aparência, rituais religiosos e assim por diante. Na economia Mosaica, Deus concedeu muitas leis externas com o propósito de proteger Israel da interação social com povos pagãos corruptos. Tais leis também foram dadas para ilustrar verdades espirituais internas que se cumpririam em Cristo.

Paulo também disse: "Porque nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne" (Filipenses 3.3). O que ele quis dizer com isso? Os versículos 4-9 respondem:

Bem que eu poderia confiar também na carne. Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu, quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus meu Senhor: por amor do qual, perdi todas as cousas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo, e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé.

Nenhuma circuncisão humana torna alguém justo diante de Deus, apenas o verdadeiro amputar do pecado por meio da salvação em Cristo.

Quando Cristo veio, os elementos cerimoniais da lei foram postos de lado, porque Ele era o cumprimento de tudo que eles prenunciavam. No entanto, os legalistas na igreja primitiva insistiam que todas as cerimônias — incluindo a circuncisão, a observância do sábado e leis dietéticas — deveriam ser mantidas como padrões de espiritualidade. Visto que eles não estavam genuinamente dedicados a amar a Jesus Cristo, eles ficaram com uma aparência de santidade em vez da verdadeira espiritualidade.

Seu legalismo estava em direto confronto com o ensino do próprio Cristo. Jesus deixou claro que leis dietéticas eram simbólicas e não tinham a inerente habilidade de tornar alguém justo, quando Ele disse que nada que entra no homem pode contaminá-lo. É o que sai de uma pessoa (maus pensamentos, palavras e outras expressões de um coração pecaminoso) que causa contaminação (Marcos 7.15). Esta foi uma declaração chocante, porque o povo judeu sempre crera que havia certos alimentos que contaminavam o corpo. Eles haviam entendido mal o simbolismo das leis dietéticas e pensavam que segui-las realmente poderia tornar alguém justo.

Em Atos 10, Pedro teve uma visão de vários tipos de animais impuros que Deus ordenara que ele matasse e comesse. Quando Pedro fez objeção, porque ele nunca havia comido "cousa alguma comum e imunda" (v. 14), uma voz do céu disse: "Ao que Deus purificou não consideres comum" (v. 15). Um novo dia chegara. Deus estava revelando a seu povo que as leis dietéticas não estavam mais em vigor. Pedro entendeu a mensagem (v. 28). Os crentes estavam livres da escravidão da lei, fortalecidos pela graça para cumprir a justiça da lei sem se escravizarem a seus detalhes cerimoniais. Paulo resume a questão em Romanos 14.17:

"Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo".

Em 1 Timóteo 4.1-5, Paulo adverte contra aqueles que apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência, que proíbem o casamento, exigem abstinência de alimentos, que Deus criou para serem recebidos, com ações de graça, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade; pois tudo o que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graça, nada é recusável, porque pela palavra de Deus e pela oração é santificado.

Um evangelho de obras efetuadas pelo homem não é nenhum evangelho (Gálatas 1.6-7; 5.2). Se batismo, orações, jejuns, uso de vestes especiais, presença na igreja, vários tipos de abstinência ou outros deveres religiosos são necessários para se ganhar a salvação, então a obra de Cristo não é verdadeiramente suficiente. Isso é zombar do evangelho.

O legalismo é tanto uma ameaça à igreja hoje como o foi em Colossos. Mesmo nas igrejas evangélicas há muitas pessoas cuja certeza de salvação está baseada em suas atividades religiosas, ao invés de confiarem somente no Salvador todo-suficiente. Elas presumem que são cristãs porque lêem a Bíblia, oram, vão à igreja ou realizam outras funções religiosas. Elas julgam a espiritualidade na base da atuação externa em lugar do amor interno a Cristo, do ódio ao pecado e de um coração devotado à obediência.

Obviamente a leitura da Bíblia, a oração e a comunhão dos crentes podem ser manifestações da verdadeira conversão. Mas, quando isoladas da devoção a Cristo, essas coisas reduzem-se a insignificantes rituais religiosos que até incrédulos podem realizar e pelos quais são enganados quanto à sua vindoura condenação. Jesus disse:

Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.
(Mateus 7.22-23)

Não se intimide pelas expectativas legalistas e superficiais da parte de outras pessoas. Deixe que seu comportamento seja o resultado do seu amor a Cristo e das santas aspirações produzidas em você pela habitação do Espírito e pela presença permanente da sua Palavra (Colossenses 3.16).

Escritor: John MacArthur.

A IGREJA VERSUS O MUNDO!




Por que os evangélicos tentam cortejar desesperadamente o favor do mundo? As igrejas planejam seus cultos com o objetivo de agradar as pessoas que não freqüentam qualquer igreja. Artistas cristãs imitam todas os estilos efêmeros do mundo tanto na música como no entretenimento. Os pregadores estão horrorizados com o fato de que a ofensa do evangelho pode colocar alguém contra eles, por isso omitem deliberadamente partes da mensagem que o mundo não aprovara.

O evangelicalismo parece ter sido seqüestrado por legiões de porta-vozes carnais que estão fazendo o melhor que podem para convencer o mundo de que a igreja pode ser tão inclusiva, pluralista, mente aberta como as pessoas mais mundanas.


A busca pela aprovação do mundo é o mesmo que prostituição espiritual. De fato, essa foi exatamente a figura que o apóstolo Tiago usou para descrevê-la. Ele escreveu: "Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus" (Tiago 4.4).

Sempre existiu e existirá uma incompatibilidade fundamental entre a igreja e o mundo. O pensamento cristão não se harmoniza com todas as filosofias do mundo. A fé genuína em Cristo envolve uma negação de todos os valores mundanos. A verdade bíblica contradiz todas as religiões do mundo. O cristianismo é, por essa razão, oposto a quase tudo que este mundo admira.

Jesus disse aos seus discípulos: "Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia" (João 15.18-19).

Observe que nosso Senhor considerou uma realidade absoluta o fato de que o mundo desprezaria a igreja. Em vez de ensinar seus discípulos a tentarem conquistar o favor do mundo, por reformularem o evangelho, para que este se adequasse às preferências do mundo, Jesus advertiu expressamente que a busca pelos louvores do mundo é uma característica dos falsos profetas: "Ai de vós, quando todos vos louvarem! Porque assim procederam seus pais com os falsos profetas" (Lucas 6.26).

Depois, ele esclareceu: "O mundo... me odeia, porque eu dou testemunho a seu respeito de que as suas obras são más" (João 7.7). Em outras palavras, o desprezo do mundo para com o cristianismo origina-se de motivos morais, e não intelectuais: "O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem argüidas as suas obras" (João 3.19-20). Essa é a razão por que, não importando quão profundamente diversa seja a opinião do mundo, a verdade cristã nunca será popular no mundo.

No entanto, em quase toda a era da história da igreja, tem havido pessoas na igreja que estão convencidas de que a melhor maneira de ganhar o mundo para Cristo é satisfazer os gostos do mundo. Essa maneira de agir sempre trouxe detrimento à mensagem do evangelho. As únicas épocas em que a igreja causou impacto significante no mundo foram aquelas em que o povo de Deus permaneceu firme, recusou comprometer-se e proclamou com ousadia a verdade, apesar da hostilidade do mundo. Quando os cristãos se esquivaram da tarefa de confrontar as ilusões mundanas populares com as verdades bíblicas impopulares, a igreja perdeu a sua influência e mesclou-se impotentemente com o mundo. Tanto a Escritura como a história atestam esse fato.

E a mensagem cristã não pode simplesmente ser mudada para se conformar com as vicissitudes das opiniões do mundo. A verdade bíblica é fixa e constante, não sujeita a mudança ou adaptação. Por outro lado, a opinião do mundo está em fluxo constante. As tendências e as filosofias que dominam o mundo mudam radicalmente, com regularidade, de geração a geração. A única coisa que permanece constante é o ódio do mundo para com Cristo e o seu evangelho.

Com toda a probabilidade, o mundo não adotará por muito tempo qualquer ideologia em voga neste ano. Se o padrão da história serve como indicador, quando os nossos netos se tornarem adultos, a opinião do mundo será dominada por um sistema completamente novo de crença e todo um novo sistema de valores. A geração de amanhã renunciará todas as modas e filosofias passageiras de hoje. Todavia, uma coisa se manterá inalterada: até que o Senhor volte e estabeleça seu reino na terra, qualquer ideologia que ganha popularidade no mundo será hostil à verdade bíblica, como o foram as suas antecessoras.
 Escritor: John MacArthur.

COLOSSENSES 1.1-8




A carta de Paulo aos Colossenses é uma impressionante obra escrita que tece conjuntamente alta teologia com santidade de vida, e exortações com admoestações. Um de seus principais temas é a plenitude de Cristo, e a plenitude que Cristãos tem nele. Com isto dizemos que a pessoa e obra de Cristo são completos, e Cristãos tem se beneficiado desta completude. Desde que este é o caso, qualquer tentativa de suplantar ou substituir a pessoa e obra de Cristo é na verdade enfraquecer e desvalorizá-lo, assim severamente comprometendo a integridade da fé Cristã.
Esta é provavelmente uma carta ocasional que Paulo escreveu para combater uma heresia específica que sobre a igreja. Contudo, é desnecessário presumir este conhecimento prévio para julgar a carta inteligível. Isto porque sua exposição categórica de sólida doutrina é tão rica, tão ampla e profunda, que empresta a si mesma a uma aplicação universal.
Este comentário básico provê auxílio básico para compreender e apreciar os escritos de Paulo endereçados aos Colossenses. No processo o leitor irá encontrar nossas discussões sobre as principais, e algumas vezes controversas, doutrinas e questões. Dentre estes está a incompreensibilidade de Deus e a origem do pecado e do mal. Outras características incluem um apanhado de teologia sistemática sob a perspectiva da cristologia, discussões sobre verdade versus falsa filosofia, verdade versus falsa espiritualidade, o que significa ver o Pai por “olhando para” Jesus, as prioridades de Paulo em vida e oração, e a verdadeira natureza da Grande Comissão.
COLOSSENSES 1,1-2: “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, aos santos e fiéis irmãos em Cristo que estão em Colossos: A vocês, graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo”.
Uma vez que a carta de Paulo aos Colossenses é considerada uma admoestação e correção contra uma heresia ameaçando a igreja, iremos começar com uma breve palavra sobre a natureza de cartas ocasionais.
Como sugerido pela palavra “ocasional”, estas cartas são “ocasionadas” – e escritas para abordar necessidades particulares, questões, ameaças, eventos, e assim por diante. Uma carta ocasional representa apenas um lado da conversação, e desde que o significado da linguagem depende do contexto, isto pode representar dificuldades na interpretação, especialmente quando existe pouca informação concernente aos assuntos que pretende abordar. Por esta razão, muitas vezes é dada ênfase na averiguação do lado “perdido” da conversação, e então nossa interpretação da carta trona-se dependente do que pensamos que sabemos sobre o propósito pelo qual foi escrita.
Contudo, a dificuldade que isto constitui para interpretação bíblica é frequentemente exagerada, e também a importância do acesso a este lado da conversação. Isto porque a dificuldade é com frequência suficientemente reduzida e algumas vezes completamente eliminada pela profundidade do lado da conversação que está diante de nós.
Para ilustrar, suponha que alguém me pergunte, “Pode uma religião não-Cristã salvar-me da ira de Deus?” Uma resposta “não” é correta, e tão longe quanto é possível, também suficiente. Neste caso, é verdade que alguém que tem acesso apenas ao meu lado da conversação – a palavra “não” – pode não ter entendimento do que a resposta negativa realmente signifique ou o que pretende declarar. Portanto, minha resposta não ensinaria tal pessoa nada sobre a doutrina de Cristo.
Mas ao invés de um simples “não”, eu poderia dizer, Todos os homens caíram em Adão, e tem caído bruscamente dos mandamentos de moral e retidão de Deus. Mas Deus ordenou e enviou Cristo para tomar um corpo humano e morrer pelos pecados dos escolhidos para a salvação, assim todos que receberam o soberano dom da fé podem ser salvos através dele. Porque redenção dos eleitos por Cristo é o único plano de salvação de Deus, assim como Cristo é o único que satisfez a ira de Deus e redimiu os eleitos, a única maneira que qualquer pessoa pode ser salva é pela fé em Cristo.” Esta resposta muito mais completa é também correta e relevante.
E é mesmo possível que eu respondesse a questão desta forma, isso é, nos momentos em que eu não ministrasse uma explicação ainda mais longa.
Sem conhecimento da questão que ocasionou minha resposta, embora alguém possa não perceber qual questão intenciono responder, preenchi meu lado da conversa com tanta informação que a questão original é praticamente dispensável para compreender minhas declarações. A partir de minha resposta, alguém poderia fazer uma possível reconstrução da questão original, mas isto seria desnecessário de ser feito a menos que o objetivo fosse reconstruir todo intercâmbio em vez de entender o meu lado da conversação.
Mais além, não apenas minha resposta é compreensível por si mesma, ela também provê ampla informação na doutrina Cristã que pode ser afirmada e aplicada por alguém não familiar com o intercâmbio original, mas que tem acesso a apenas a minha resposta à questão. Em ato, uma resposta tão extensa por si mesma é mais instrutiva em relação a Cristianismo do que se alguém fosse ter ambos os lados da conversação mas com uma resposta simples – como somente a palavra “não” – no meu lado do intercâmbio.
Também podemos observar que apenas porque minhas declarações são formuladas como resposta a uma questão não significa que cada detalhe na resposta precise corresponder a algo mencionado na questão. Por exemplo, a idéia de redenção é essencial na minha resposta, mas a questão em si não contém o conceito de redenção. Não pergunta se precisamos de redenção, ou se Cristo é o único que redime os pecadores. Ou seja, seria irracional pensar que porque a questão não contém o conceito de redenção, então nem minha resposta pode se referir a isto, ou que porque minha resposta refere a isto, então a redenção deve ser mencionada primeiramente na questão.
Como em nossas próprias conversas, as cartas de Paulo consistem em muito mais que um “sim” aqui e um “não” lá. Elas incluem exposições intensivas de sólida doutrina e detalhadas refutações a seus oponentes. Os assuntos tratados são frequentemente declarados, explanados e reformulados. A dificuldade muitas vezes associada com a falta de contexto histórico na interpretação de cartas ocasionais é um exagero pois elas contém tanta informação positiva como indicações diretas e indiretas com relação aos assuntos tratados que raramente é um impedimento possuir apenas as cartas, ou este lado da conversa. Uma ameaça muito maior à interpretação é a tendência de alguns de especular sobre as informações que não possuímos, ao invés de prestar atenção ao documento que temos bem diante de nós.
Existe algum debate sobre a natureza da heresia a que a carta escrita por Paulo supostamente se refere. Se agirmos pela (injustificada) suposição que toda questão de destaque mencionada por Paulo na carta tem como intenção contradizer um elemento correspondente na falsa doutrina a que escreve em resposta, então pareceria que a heresia contém uma mistura de misticismo, ascetismo, Gnosticismo, e tradição Judaica. Embora o Gnosticismo não tenha sido sistematizado até o segundo século, tendências Gnósticas há muito tem se infiltrado em algumas escolas de pensamento Judeu e Grego, por tanto é concebível que Paulo tenha tido que combatê-las durante seu ministério.
Dito isto, como Paulo não se refere diretamente a nenhuma heresia na carta, alguns argumentam que ele não escreve em absoluto para confrontar uma ameaça específica. Talvez seja apenas uma carta de instruções e exortações gerais, ou na melhor das hipóteses seu conteúdo corresponde, não a uma heresia específica, mas à cultura intelectual e religiosa geral que cerca os Colossenses.
Apenas porque Paulo enfatiza a supremacia de Cristo não significa que existam falsos professores denegrindo a suficiência de Cristo. Apenas porque ele estabelece uma Cristologia precisa e exaltada, insistindo na divindade e na humanidade de Cristo, não significa que exista uma heresia que ameace qualquer aspecto da doutrina. E apenas porque ele escreve, não significa que hajam de fato indivíduos ali buscando reforçar estas tradições. É possível, mas não necessariamente verdade. A carta aos Colossenses é diferente de uma carta como a aos Gálatas, em que falsos professores e falsos ensinamentos são explicitamente descritos.
Por tanto, embora a presença da heresia seja possível, e talvez seja empregada como uma suposição prática ao explorar a interpretação precisa da carta, não há recomendação sólida em insistir nisto. E se a suposição é falsa e a interpretação é feita para depender dela, então o resultado poderia ser um entendimento impreciso da carta. O ponto é, neste caso, que o lado de Paula na conversa é tão extenso que nenhuma perda é sofrida pela incerteza sobre a situação em Colossos.
Sendo assim, Barclay está enganado quando escreve, “Estas, então, foram grandes doutrinas Gnósticas; e todo tempo estivemos estudando esta passagem, e de fato toda a carta, temos que tê-las em mente, pois apenas contra elas a linguagem de Paulo tornou-se inteligível e relevante”.
Ao contrário, as idéias principais da carta são inteligíveis e relevantes para qualquer leitor comum mesmo sem qualquer explicação, ou qualquer conhecimento do antigo pensamento Judeu e Gnóstico. A afirmação de que é necessário ler a carta de Paulo contra o passado das doutrinas Gnósticas é absurda e irresponsável [1].
COLOSSENSES 1,3-8: “Sempre agradecemos a Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, quando oramos por vocês, pois temos ouvido falar da fé que vocês têm em Cristo Jesus e do amor por todos os santos, por causa da esperança que lhes está reservada nos céus, a respeito da qual vocês ouviram por meio da palavra da verdade, o evangelho que chegou até vocês. Por todo o mundo este evangelho vai frutificando e crescendo, como também ocorre entre vocês, desde o dia em que o ouviram e entenderam a graça de Deus em toda a sua verdade. Vocês o aprenderam de Epafras, nosso amado cooperador, fiel ministro de Cristo para conosco, que também nos falou do amor que vocês têm no Espírito”.
Algumas pessoas têm aversão à palavra “religião” e preferem ter nada que ver com isto. Entre estes, aqueles se consideram Cristãos opõe-se à palavra com a justificativa de que Cristianismo não é uma religião mas uma “vida” ou um “relacionamento”. Mas este desdém pela palavra é baseado em ignorância e falsa piedade.
Primeiramente, devemos questionar se as palavras “vida” e “relacionamento” são de fato descrições adequadas à fé Cristã. O relato bíblico desta vida e relacionamento é muito mais rico que do que a maior parte das pessoas que preferem estas descrições da fé tem em mente. Na verdade, Escritura inclui muitas coisas em sua exposição desta vida e relacionamento que muitas destas pessoas buscam excluir pela rejeição da palavra “religião”.
Em Merriam-Webster, uma das principais definições de religião é “o serviço ou adoração a Deus.” Isto pode parecer muito específico para alguns filósofos, mas o Cristão comum mal poderia protestar contra. Mesmo que a definição seja insuficiente, não há nada repulsivo ou não espiritual nisto. E é claro, “o serviço ou adoração a Deus” pode incluir a idéia de uma vida ou um relacionamento, mas é também amplo para incluir mais, ou mais das coisas que estão envolvidas em vida e relacionamento.
Então, a segunda definição é “um conjunto pessoal ou sistema institucionalizado de atitudes religiosas, crenças e práticas.” Esta provavelmente representa a idéia de “religião” que muitos Cristãos desassociam de sua fé ou qualquer vida espiritual legítima. Todavia, não há nada inerentemente errado com esta idéia de religião; ao contrário, precisamos saber o que é que foi personalizado ou institucionalizado. Se é uma religião verdadeira, então deve ser personalizada. Se é religião verdadeira, endossa a forma organizacional de seu funcionamento, então deve ser institucionalizada.
Institucionalizar algo significa apenas “incorporar em um sistema estruturado e muitas vezes altamente formalizado.” Isto pode ser certo ou errado, e a maneira como é feito pode também certa ou errada. Um “sistema altamente formalizado” pode canonizar um conjunto de tradições humanas, resultando no repúdio da ortodoxia doutrinal e liberdade espiritual. Contudo, a culpa então recai no que é formalizado, e não na própria idéia de uma organização formal. Então mesmo a institucionalização não tem nada de inerentemente questionável em si, tampouco é necessariamente adversa para ou pelo Cristianismo.
Assim, por exemplo, se não é errado para um crente dizer que “o Cristianismo é o único verdadeiro serviço ou adoração a Deus,” então não é errado para ele dizer que “o Cristianismo é a única religião verdadeira.” Da mesma forma não há problema com a primeira e segunda definições do Webster’s New World Dictionary: “crer em um poder ou poderes divinos ou supra-humanos a serem obedecidos e adorados como criador(es) e governante(s) do universo” e “qualquer sistema específico de crença e adoração, frequentemente envolvendo um código de ética e uma filosofia.”
Se uma pessoa insiste em uma definição privada de religião que apresente-se errônea ou não bíblica, então é claro que este não deve aplicá-la ao Cristianismo, mas não tem base para impor tal definição a outras pessoas. O ponto é que quando operamos por definições de dicionários comuns, a declaração “Cristianismo não é uma religião”, é falsa, e na verdade não bíblica. É claro que Cristianismo é uma religião. E se nós agirmos por estas definições, então a pessoa que diz “Me dê Jesus, não religião” está nos dizendo que deseja nada ter com “o serviço e adoração a Deus.”
A necessária distinção não é entre religião e relacionamento, ao menos a partir das definições dos dicionários comuns, a religião pode sustentar um relacionamento. Antes, a distinção necessária é entre boa e má religião, ou verdadeira e falsa religião. O Cristianismo é superior a Islamismo, Budismo, e outros, não porque o Cristianismo é um relacionamento enquanto estas são meras religiões. Todas estas são religiões. A diferença é que o Cristianismo é verdadeiro e o resto é falso. O Cristianismo é uma religião revelada divinamente. É a própria palavra de Deus no próprio serviço e adoração a Deus. Todas as outras religiões são invenções humanas e demoníacas.
Sendo assim a questão crucial não é se o Cristianismo é uma religião, mas que tipo de religião é. Um modo pelo qual a Escritura caracteriza a religião Cristã é com palavras de fé, amor, e esperança (v. 4-5). [2]
Quando significados subjetivos e emocionais são atribuídos a essas palavras, eles não podem transmitir nada de substancial sobre o Cristianismo ou acentuar suas características distintas contra outras religiões e filosofias. Mas quando entendidas de acordo com seu emprego bíblico, estas palavras são capazes de personificar alguns aspectos fundamentais da religião Cristã, tanto que alguns escritores têm organizado sua dogmática sob elas. É claro, a mesma informação pode ser apresentada de maneiras diferentes em termos de estrutura e ênfase.[3]
Fé não é crença geral ou confiança. Às vezes as pessoas são impelidas a “ter fé” sem menção ao conteúdo desta fé. Mesmo os descrentes são encorajados a ter fé neste sentido. Se esta fé intenciona produzir um resultado desejável ou causar-lhe esforço e perseverança de prosperar, então qual é a base para esta confiança? “Fé” neste sentido geralmente se refere a nada mais que uma força de vontade ou expectativa irracionais.
A Escritura fala de fé de muitas maneiras. Aqui mencionaremos apenas dois de seus significados gerais. Primeiro, “fé” pode se referir à própria religião Cristã, ou seja, o conjunto de doutrinas e práticas que a definem, como quando dizemos, “a fé Cristã” e “lutar pela fé” (Judas 3). Ou, “fé” pode se referir a uma crença pessoal nesta religião, como quando dizemos “ter fé em Deus” (Marcos 11:22) e “temos ouvido de sua fé em Jesus Cristo” (Colossenses 1:4). Este tipo de fé é um presente de Deus, produzida por seu Espírito naqueles que ele escolheu. Quando afirmamos a doutrina da justificação pela fé, afirmamos que Deus nos salva ao nos dar fé em Jesus Cristo.
Como discutimos fé, amor, e esperança juntos, estamos interessados neste segundo sentido de fé – que é “fé em Jesus Cristo.” Existe o equívoco popular que “acreditar em” Deus não é o mesmo que “acreditar que” o que ele tem revelado sobre si mesmo é verdade, ou seja, acreditar nestas coisas “sobre” Deus. Algumas vezes a distinção é feita entre confiança e crença, ou confiança e concordância. Todavia, a distinção apropriada é a feita entre fé verdadeira e falsa, não “acreditar em” e “acreditar que” fé, ou entre confiança e crença. Seria absurdo dizer, “eu acredito em Cristo, mas não acredito em nada a respeito dele” – “acreditar em” Cristo desta maneira é sem sentido. Ter fé em alguém é acreditar em algo sobre ele, e é impossível ter fé em alguém de uma forma que é além ou outra que o que temos fé sobre ele, ou o que cremos sobre ele.
Tem sido discutido que o significado de “acreditar em” e “acreditar sobre” (ou “acreditar que”) não são necessariamente idênticos desde que acreditamos em certas coisas sobre uma pessoa que nos dá uma base para “acreditar em” ou “confiar” nele além do que é imediatamente indicado por estas coisas que cremos sobre ele. A menos que “confiança” refira-se a uma suposição afirmada por pura força de vontade, que no caso não é fé bíblica de maneira alguma, dizer que você “confia” em Deus além do que você acredita “sobre” ele é apenas dizer que o que você acredita “sobre” ele fornece a base para você fazê-lo, o que por sua vez significa que esta “confiança” permanece idêntica ao que você acredita “sobre” ele. Ou seja, a distinção ou “distância” feita entre confiança e concordância é em si mesma outro objeto de assentimento. E isto significa que a distinção é de fato falsa e que a “distância” entre ambos é não-existente.
Deste modo dizer que temos fé em Cristo é uma abreviação para dizer que acreditamos em um número de afirmações sobre Cristo. A palavra “fé” indica a positiva e desejável natureza das coisas que acreditamos sobre ele, na medida em que esta fé é bíblica, estas seriam afirmações bíblicas. Assim como Paulo tem em mente uma fé que é específica – que é “fé em Jesus Cristo” – ele tem em mente um amor que também é específico – que é “o amor que tens por todos os santos.” Alguns comentaristas observam que nesta passagem é caracteriza nosso relacionamento “vertical” com Deus, enquanto o amor caracteriza nosso relacionamento “horizontal” com outras pessoas. Isto é de longe verdade para esta passagem, mas seria um erro inferir a partir disto um princípio vasto que rigidamente estabeleça a distinção. Isto porque, entre outras coisas, amor deve também caracterizar nosso relacionamento vertical com Deus.
Embora a fé seja algumas vezes associada com um sentimento de confiança, não deve ser identificada com o sentimento em si. Antes, fé é acreditar em afirmações divinamente reveladas é em si mesma independente de sentimentos que podem oscilar. Sentir-se bem com relação uma afirmação bíblica é diferente de acreditar nela. Da mesma forma, embora o amor seja muitas vezes acompanhado por certas emoções, o amor e si não é uma emoção. A idéia que o amor é ou uma emoção ou necessariamente e proporcionalmente associado a certas emoções tem infringido danos desastrosos ao desenvolvimento intelectual e ético de crentes sem conta.
A Bíblia fala de amor como uma disposição a pensar e agir com relação a outras pessoas (incluindo Deus) de acordo com preceitos e leis divinas – ou seja, tratá-los como Deus nos diz para tratá-los. Este amor não tem conexão direta e necessária com qualquer emoção, sem qualquer conotação inerente negativa, definimos como um tipo de perturbação mental [4].
Como Paulo escreve em Romanos:
Romanos 13,9-10: “Pois estes mandamentos: “Não adulterarás”, “não matarás”, “não furtarás”, “não cobiçarás”, e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: “Ame o seu próximo como a si mesmo”.
O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da lei”.
Note que amor é o cumprimento da lei e não a substituição da lei. Nós não tratamos as pessoas com amor ao invés de tratá-las de acordo com a lei. Ao contrário, tratá-las com amor é tratá-las de acordo com a lei, ou os mandamentos de Deus.
Ele diz que os mandamentos, como “Não adulterarás” e “Não matarás”, estão resumidos no mandamento de amar. Uma síntese não é diferente ou superior às coisas que personifica. De fato, para realmente entender os detalhes representados pela síntese, deve-se examinar as coisas que sintetiza. Assim o mandamento de amar não é diferente ou superior aos outros mandamentos – o amor é definido por estes mandamentos em primeiro lugar.
A Escritura define nosso amor para Deus da mesma maneira. Jesus diz a seus discípulos em João 14:23 “se alguém me ama, obedecerá meus ensinamentos” – não que ele vá sentir de certa maneira ou ter certa emoção. Se ama, obedece. Então ele diz, “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros como eu os amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” – João 15,12-13. Não há emoção aqui. A ordem é amar, e este amor significa ação heróica e sacrificial pelo benefício de outros.
Muitas pessoas que sentem-se completamente perturbadas por dentro ao menor sofrimento em outros jamais sacrificariam nem seu conforto pessoal para salvá-los, sem mencionar suas próprias vidas. Mas ele foram ensinados – por cultura, por tradição, por filosofias anti-Cristãs, mas não pela Escritura – que isto representa compaixão. Lamentam e choram por eles – não é isto amor?
Embora isto possa permitir a eles mesmos sentirem-se muito compassivos e espirituais, isto não tem nada que ver com amor.
Em seus momentos mais sóbrios, teólogos e comentaristas admitem que amor bíblico tem a ver com pensar e agir de acordo com os mandamentos de Deus com relação a outras pessoas, e que isto não tem relação com um tipo particular de perturbação mental, ou emoção. A Escritura é clara nisto; não é difícil reconhecer. Como um comentador escreve, “A Bíblia fala disto como uma ação ou atitude, não apenas uma emoção… Cristãos não têm um pretexto para não amar porque o amor Cristão é uma decisão de agir no melhor interesse dos outros” (5).
Definir amor como uma emoção deixa alguém com uma desculpa, uma vez que nossos sentimentos podem oscilar. Além do mais, tal definição gera culpa desnecessária naquele que nem sempre sente o que pensa que deveria sentir com relação às pessoas. E se o amor é uma emoção, então qual emoção é exatamente? Quer dizer, como deveria sentir-se? Mas de acordo com a Bíblia, se uma pessoa irá consistentemente tratar os outros de acordo com os mandamentos de Deus, independente de como se sinta, então anda em amor. Por outro lado, a pessoa que não faz nada mais do que sucumbir numa desordem emocional a qualquer sinal de sofrimento humano não anda em amor. É um desamor incômodo, e seria melhor que parasse de fingir.
A esperança Cristã também é específica, uma esperança que está “reservada nos céus” Temos visto que fé também pode ser usada com um sentido objetivo, como em “a fé Cristã,” ou em um sentido subjetivo, como em “a sua fé em Cristo.” Da mesma forma, há um sentido objetivo para esperança, e então um sentido subjetivo. Mesmo quando usada no seu sentido subjetivo, a esperança do evangelho é muito mais do que uma expectativa geral de ou desejo por um futuro positivo, ou a espera de algo. Um mero desejo frequentemente não tem base para sua satisfação, e fora da promessa do evangelho, a natureza do que é desejado está aquém da herança do crente em sua glória e pureza. Por outro lado, a esperança Cristã baseia-se na promessa de Deus e na realidade da redenção.
Em qualquer caso, ao passo que fé é usada no sentido subjetivo nesta passagem, esperança é usada no sentido objetivo – a importância disto será notada em um momento. Isto é evidente porque, primeiro, uma esperança subjetiva é uma atitude, condição, ou disposição da mente – novamente, não necessariamente e proporcionadamente conectada com a perturbação da mente, ou uma emoção – mas aqui a esperança é armazenada no céu, não na mente.
Segundo, Paulo diz que os Colossenses “ouviram sobre” esta esperança, portanto não é algo somente sentido, percebido, opinado, ou afirmado na mente, mas algo proclamado e descrito. E terceiro, se realmente compararmos o que os crentes tinham recebido nos versos 5 e 12, então “esperança” é dita como sendo uma “herança,” que é algo objetivo, não subjetivo.
Embora esta esperança esteja guardada no céu, de forma que os benefícios totais estão reservados para um tempo futuro, pelo Espírito Santo nós agora desfrutamos os poderes a era vindoura. Ademais, está armazenado no céu não no sentido de que está fora de nosso alcance, mas de que está reservado para nós. Isto não é algo que desejamos ou trabalhamos para – não é uma possibilidade mas uma realidade. Deus predestinou a nossa salvação, e nada pode afastar a nossa herança, porque nada pode nos arrebatar de sua mão. A esperança objetiva é a fundação de nossa fé subjetiva. O significado, portanto, é que nossa fé não se baseia na presunção ou possibilidade, mas destino e realidade.
Um modo de usar estas três palavras para incorporar um curso de dogmática é colocar o aspecto doutrinal do Cristianismo sob a fé, a ética sob o amor, e a escatológica sob a esperança. Estas distinções são significativas, mas não precisas ou perfeitas, pois tanto a ética quanto a escatologia podem também cair sob a doutrinal, de forma que a religião toda pode ser chamada de fé Cristã. Também, quando usadas neste contexto, todas as três palavras assumiriam seus sentidos objetivos.
Dizemos que a religião Cristã é caracterizada por estas três coisas, mas outras religiões também oferecem fé, amor, e esperança? Quando propriamente definidas, vemos que não. Novamente, Paulo não se refere a uma fé geral ou crença sem relação com seu objeto. A fé aqui é “fé em Jesus Cristo.” Se não-Cristãos pudessem ter fé em Jesus Cristo no sentido especificado na Escritura, então eles já seriam Cristãos.
Não-Cristãos não têm fé. E desde que amor implica obediência aos comandos de Deus como tem sido revelado na Bíblia Cristã, então nenhuma religião, filosofia, ou visão ética não-Cristã pode oferecer ou produzir amor verdadeiro. Não-Cristãos não têm amor. Todavia, note que quase todas as filosofias não-Cristãs – de Budismo a Satanismo – podem conter amor se for definido como um tipo de emoção. Então, nossa esperança ser refere à “herança” dos santos como prometido na Escritura, guardada para nós no céu descrito na Escritura. É específica e exclusiva. Portanto não há fé, nem amor, e nem esperança exceto na religião Cristã.
A fé e o amor dos Colossenses “brotam” da esperança que está guardada no céu, e eles ouviram sobre esta esperança “na palavra da verdade – o evangelho” (v.5). Este evangelho é uma mensagem sobre a graça de Deus, carregadas de frutas constituídas de fé, amor, e esperança uma vez que são ouvidas e compreendidas (v. 6). E é ouvido e entendido quando uma pessoa o ensina para uma audiência.
Porque a fé Cristã é transmitida quando é explicada e entendida, é intelectual por natureza. Podemos pensar sobre ela, e falar sobre ela. Podemos explicá-la, e compreendê-la. A idéia de que a fé é “apanhada, não ensinada” é contra todo o espírito da religião Cristã, é também um ataque à revelação verbal da Escritura. A verdadeira piedade começa e cresce precisamente da maneira oposta – é ensinada, não apanhada. A idéia de que a graça de Deus é além de nosso entendimento vem da falsa humildade e a rejeição da natureza do evangelho em favor da tradição e filosofia humanas sobre a “incompreensibilidade” de Deus. Alguém que não entenda algo sobre a graça de Deus não pode crer nela, pois não haveria nada para crer, portanto realmente não é um Cristão.
Um comentarista observa que Paulo não inclui “conhecimento” na sua lista de coisas que caracterizam a fé Cristã, mas “ele deliberadamente omite a palavra ‘conhecimento’ por causa do aspecto de ‘conhecimento especial’ da heresia”, sendo, a heresia do Gnosticismo. Mas dizer isto é tão equivocado que quase deveria ser considerado uma heresia.
Escrito por: Vincent Cheung 
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