quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O DEUS DOS LOUCOS - PR ALEXANDRE CHAVES.



Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. 1 Coríntios 1:23


Depois do Renascentismo, o Iluminismo, movimento cultural surgido na Inglaterra, Holanda e França nos séculos XVII e XVIII, que teve como precursor o matemático francês René Descartes (1596-1650), tem sido um dos movimentos que mais influenciou e continua influenciando a formação do pensamento ocidental em nossos dias. Este movimento traz entre suas características primordiais, o conceito segundo o qual a razão é o principal meio para se adquirir conhecimento em todas as áreas.

Tal movimento trouxe muitos avanços para humanidade na área do conhecimento, criando as condições para a revolução industrial e a produção das tecnologias que hoje conhecemos. Associado à revolução francesa, este movimento também deu causa a um significativo impacto político à sociedade.

Porém, como tudo que é produzido pelo homem, e que busca no homem sua identidade e origem, acabou frutificando em morte. Isto porque, o homem separado de Deus, com sua pretensão de sustentar a si, está morto, tornando-se ao mesmo tempo, produtor de morte. “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.” Romanos 5:12.

Assim como um Midas às avessas, tudo o que o homem toca e cria, produz morte. Isto acontece como reflexo de sua própria essência, contaminada pela morte, como consequência natural de uma existência sem Deus, pautada pela ciência do bem e do mal. “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”Gênesis 2:17.

O homem depois da queda é alguém que tem poder para começar uma história, mas não tem poder sobre seus desdobramentos. É como o trabalhador que acende um fósforo para aquecer sua refeição e acaba por incendiar uma floresta inteira. Por ter poder para começar algo, tem a ilusão de que é livre, mas como diz Jacques Ellul: “ o conceito de liberdade deve ser substituído pelo conceito de autonomia.”

Esta sua condição criativa, dá a ele uma sensação de poder. Mais do que isso, uma pretensão de ser como Deus; uma teomania, ou seja, o pecado em sua forma mais pura, o qual o impede de dar crédito à palavra de Deus; uma cegueira que não lhe deixa perceber o seu fracasso. Assim procedendo, está dando crédito à palavra do diabo: “Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal.” Genesis 3:5.Cego pelo pecado de querer ser Deus, o homem segue sua saga histórica repleta de evolução cientifica, desigualdade e morte.

O Iluminismo, com sua proposta de racionalizar tudo, surge como uma reação a meu ver legítima, porém desequilibrada, trazendo em si uma crítica à Idade Média - período histórico marcado pelo monopólio da igreja. Neste período, a igreja institucional católica, obliterava toda forma de conhecimento que punha em perigo sua hegemonia política, sua credibilidade como detentora da verdade, seu lucro e seu controle sobre a sociedade e a vida das pessoas, período este que passou a ser conhecido, a partir de então, como a idade das trevas.

Porém, fazer da razão o meio para alcançar todo tipo de conhecimento, a ponto de Descartes afirmar em sua obra “Discurso do método” que: “A partir da dúvida racional pode-se alcançar a compreensão do mundo, e mesmo de Deus” é uma pretensão própria da soberba humana. Além do que, as pessoas que difundiam essas idéias, julgavam-se propagadores da luz e do conhecimento, sendo por isso chamadas de iluministas. Entretanto, a Bíblia, falando de Jesus Cristo diz o seguinte: “Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo.” João 1:9.

Alguém poderia argumentar. Por que a razão não pode ser o instrumento adequado para a compreensão do mundo, e mesmo de Deus? A crítica que apenas se propõe a dizer o que está errado, mas não diz o porquê é vazia e infantil. Usemos a própria razão neste caso. Pode um copo conter toda a grandeza do mar, sua biodiversidade, profundeza e mistérios? Pode o finito conter o infinito? Tampouco poderá o homem explicar Deus. “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” Romanos 11:33.

Só o fato de estarmos argumentando sobre isto, mostra o quanto somos pequenos e infantis. Tendo em vista se tratar de um argumento que deveria estar ultrapassado, pois fere até mesmo a lógica da razão. Mas, como a Bíblia sagrada afirma que, “A ciência incha, mas o amor edifica”. 1 Corintios 8:1, a humanidade ensoberbecida pelo conhecimento e desprovida de amor, ao invés de negar a si mesma, reconhecendo sua finitude e incompetência diante de questões espirituais, prefere antes, negar a Deus e suas obras. “Pela altivez do seu rosto o ímpio não busca a Deus; todas as suas cogitações são que não há Deus”.Salmos 10:4.

Quando olhamos para a fé cristã em tempos de pós-modernidade, percebemos que este conceito de querer que Deus seja contido por neurônios humanos, tem migrado para o campo da fé. Abraçamos muitas vezes a sabedoria deste mundo, rejeitando assim a loucura de Deus, mas a Bíblia nos ensina que. “... a loucura de Deus é mais sábia do que os homens”. 1Corintios 1:25a.E também, que Deus chama a sabedoria deste mundo de loucura. “...Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? 1 Corintios 1:20.

Permita-me dizer algo: nós não precisamos de mais lógica, conhecimento e cultura. Nós precisamos de uma dose cavalar de loucura; da maravilhosa loucura de Deus. Do tipo de loucura de alguém que levanta a cabeça e de forma confiante, atravessa a largura da praia em direção ao mar, sabendo que o mar se abrirá, porque Deus o disse. Ou como aquele que sai do barco e pisa sobre as águas como quem pisa em terra firme, mesmo que isto contrarie sua lógica e cultura aprendidas durante toda sua vida, expressando assim uma fé simples no seu salvador que diz: Vem.

Vejo irmãos sofrendo porque querem fazer da vida cristã uma ciência. Porque estão viciados em uma lógica explicativa para tudo. Querem compreender para depois crer. Querem compreender o mecanismo funcional das coisas espirituais para, quem sabe, mudá-las, aperfeiçoá-las e depois comercializá-las - como muitos fazem hoje em dia.

Este pensamento é estimulado por alguns que se acham detentores dos conhecimentos secretos de Deus, abrindo um pressuposto de que talvez Deus possa ser contido pela mente humana, como um ser previsível e limitado. Depois, cobram um alto preço por estas informações, disfarçados de homens de Deus e cheios de supostas intenções espirituais.

São estes os pajés imantados, os xamãs que julgam confinar Deus aos seus conhecimentos, e que determinam a Deus que satisfaça suas vontades egoístas, simplesmente porque pensam que descobriram a lógica manipulatória da divindade, da qual Deus não pode escapar.

Tornam-se com isto senhores da divindade. São eles que agendam a hora em que este pseudo deus ira atuar - normalmente na sexta-feira, que é o dia do milagre. Querem obrigar Deus a encher seus bolsos de dinheiro – posto que o deus deles é o ventre – assim como os bolsos de seus ouvintes, mesmo que isto signifique mantê-los escravizados ao mais tirano dos ídolos que é Mamom; o qual exigirá deles sacrifícios dos mais terríveis como: sua saúde, relacionamentos e família, não obstante estejam sendo levadas para o inferno. Manipular o divino como se a dimensão espiritual fosse refém da lógica humana é coisa das religiões animistas, e não da fé cristã verdadeira.

Tentar conter Deus e as coisas de Deus na mente humana não é algo novo. Nos dias em que o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, o filho de Deus, andou entre nós como homem, isto acontecia. Podemos tomar como exemplo, um sábio de Seu tempo, como Nicodemos, querendo saber o mecanismo lógico para a loucura do novo nascimento. Disse-lhe Nicodemos: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?”João 3:4.

Jesus então se detém a explicar na lógica do céu, na lógica do vento, na esperança de que Nicodemos pudesse entender, tendo em vista, ser ele considerado mestre em Israel, familiarizado com a maravilhosa e sábia loucura de Deus; perpassado pela cultura e pela história do seu povo profundamente envolvida pelo agir de Deus; história esta cheia de fatos inexplicáveis e, além disso, vivendo cercado pela dimensão do sagrado, em meio a templos, sacrifícios e sacerdotes.

Jesus, então, passa a dizer-lhe: “Em verdade, em verdade, te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, mas o que é nascido do Espírito, é espírito. Não te maravilhes de eu te dizer:Necessário voz é nascer de novo. O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, e nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito.”João 3:5-8. Porém, o questionamento persiste.“...como pode ser isto?”João 3:9b.

O aparente espanto de Jesus é notório: “...tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas? João 3:10. Muitas pessoas que são mestres em suas comunidades cristãs, familiarizadas com as escrituras e até mesmo com milagres, que nasceram em lares cristão, tendo em sua formação cultural uma ligação histórica com a religião cristã, também sofram do mesmo problema: não conseguem ver o reino de Deus.

Vivem um vida angustiada, preocupada com o dia de amanhã, como se o reino de Deus não tivesse chegado até elas, ainda que afirmem: é chegado a nós o reino de Deus. Vivem assim porque procuram racionalizar a fé cristã. Não quero dizer com isto que a fé cristã é irracional, mais sim, que transcende nossa razão, está acima da nossa capacidade racional.

Sofrem porque estão buscando em si mesmos, a prova dos nove, algo que lhes proporcione a certeza de que são novas criaturas. Porém, em face de sua finitude não conseguem chegar, racionalmente, à conclusão de que são novos nascidos. Então, se desesperam, ou buscam o gabarito da religião, ou um certificado de batismo, que possa lhes conferir o título de nova criatura, mas no fundo, se vêem incapazes de amar ou perdoar.

Diante disto, essas pessoas poderão tomar dois caminhos possíveis. Primeiro, se entregam a sua realidade histórica de pecado e a sua natureza carnal. Neste caso, a Vida Nova estará sempre condicionada a padrões inatingíveis, fazendo da existência, um morrer contínuo, sem esperança de vitória sobre o pecado e a morte. Segundo, se acomodam a um personagem proposto pela religião, e a uma existência de mentira, buscando esconder seu pecado e fracasso, perdendo a sua identidade, na tentativa de ganhar a aceitação do mundo, ainda que seja o mundo religioso, sem atentarem que para isto perdem também as suas almas.

Vivem em um estado de bipolaridade terrível. Dependendo da geografia e das circunstâncias, passam de crentes carolas, a pessoas capazes de pecados inimagináveis. Jamais usufruem da síntese e do poder do evangelho que, pela fé, é capaz de fazer nova todas as coisas: da morte suscitar vida, transformando pecadores em santos, filhos do diabo em filhos e filhas de Deus.

Não conseguem ganhar a dimensão da Nova Vida porque são sábios aos seus próprios olhos, porque no fundo, ainda que pertencentes a alguma esfera religiosa, acham infantil o argumento bíblico. Rejeitam a cruz porque lhes parece loucura, e não sabem que ela é o poder de Deus. “Pois a palavra da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.” 1 Coríntios 1:18. Esta Palavra é o único poder capaz de nos libertar desta vida claustrofóbica, medíocre e sem sentido, e nos transportar para a dimensão do eterno, da vida e da liberdade, onde as crianças é que são sábias, e os sábios é que são loucos. Lugar onde Deus, ainda que não se possa explicar, faz todo sentido. Talvez seja sensato, ouvirmos a sugestão do poeta em sua canção,“É este o vírus que eu sugiro que você contraia, na procura pela cura da loucura quem tiver a cabeça dura vai morrer na praia”.


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