segunda-feira, 30 de maio de 2011

OS INIMIGOS DA CRUZ DE CRISTO - IRMÃO GLENIO FONSECA PARANAGUÁ.




Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. Filipenses 3:18.

Paulo, o apóstolo censurado pelos estigmas da cruz, censura aqui, afirmando com lágrimas, que há muita gente adversária da cruz de Cristo. Este antagonismo não é ranhetice de um povo estranho ou de uma turma forasteira. Trata-se da aversão visceral de uma tropa de elite da própria igreja. É um pessoal disfarçado que anda entre os filhos de Deus.

Os opositores da cruz de Cristo não são tipos exóticos, isto é, estrangeiros. São endógenos, forjados nos intestinos da comunidade. É gente da própria igreja e não do mundo. É um grupo que tem a linguagem correta, mas um espírito de hostilidade.

Paulo se refere a eles como muitos. Não se iludam: o pelotão é grande. A tática do “velho capitão” é infiltrar o maior número possível de agentes secretos na igreja de Cristo. Estes têm a farda de anjos, mas as entranhas são de demônios. São crentes na passarela e hereges nos bastidores. O discurso pode ser perfeito, mas o concurso é puro despeito.

O apóstolo chora diante deste quadro triste. Em sua biografia, nós o vemos cantar louvores debaixo da taca; mas ele não suporta a dor causada pelos adversários da cruz de Cristo. A farsa do humanismo é um lamento inconsolável para quem sabe discernir o valor da salvação eterna, patrocinada por Cristo crucificado.

Na lamentação do apóstolo, nos percebemos algumas particularidades destes antagonistas mascarados. Ele destaca alguns traços para nos ajudar a identificar os opositores da cruz de Cristo no seio da igreja. Vejamos como Paulo os percebe: O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas. Filipenses 3:19.

Primeiro: O destino deles é a perdição. A palavra destino, no grego, é telos, que pode ser traduzida também como: propósito. O intento dos inimigos da cruz de Cristo é a não salvação dos perdidos. Apesar de estarem na igreja, eles não são salvos e, sendo assim, o seu encargo principal é impedir aqueles que seriam salvos, de serem salvos. Eles procuram ocultar a mensagem da cruz, para que os perdidos não sejam alcançados pela graça.

Nem sempre é uma ocultação teológica. Eles até pregam a mensagem, mas o espírito como anunciam não é de um crucificado: são invejosos e disputam um lugar no espaço como se precisasse de reconhecimento dos irmãos.

Por outro lado, se Deus tivesse outro meio para a salvação dos pecadores fora de Cristo crucificado e não tenha usado este método, então, temos que admitir que Deus seja mau, muito mau, porque submeteu o seu Filho a um sofrimento atroz, tendo ele outra escolha. Porém, se esta é a única opção, não há como não apresentá-la aos perdidos, já que esta é a alternativa sine qua non para a salvação dos pecadores.

Como os inimigos da cruz de Cristo são o joio no meio do trigo; ou os lobos com peles de cordeiros; eles não somente fingem que são salvos, como também atrapalham a salvação dos perdidos. A finalidade deles é a perdição dos pecadores. Não pregam o evangelho em sua essência, pois o que os motiva é a condenação eterna dos incrédulos.

Jesus definiu a turma destes ímpios com esta censura severa: Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando! Mateus 23:13.

Lamento dizer: quem não evangeliza ou promove a evangelização dos perdidos, por meio de Cristo crucificado, é um inimigo figadal da cruz de Cristo.

Segundo: o deus deles é o ventre. Aqui temos a base de sua adoração. Os contendedores da cruz de Cristo são viscerotômicos, isto é, vivem da veneração de suas entranhas. São pessoas devotas aos seus apetites, endeusando as suas ambições carnais.

O culto dos adversários do evangelho da graça é movido aos instintos intestinais e aos desejos da carne. Eles vivem de bajulação com o objetivo de satisfazer a sua fome de reconhecimento. A ênfase do louvor neste preito encontra-se na personalidade pública e nunca no altar privativo diante do Senhor. Paulo diz que eles cultuam a koilia, isto é, a concavidade vazia de um estômago faminto por fama, mas que come qualquer porcaria.

Eles não sabem discernir o Pão do céu do pão dormido; o pão duro do humanismo. Não sabem distinguir o Maná de Deus do menu da religião; a ceia do Senhor, dos brioches da revolução francesa; o Pão nosso de cada dia, que é Cristo, do sustento diário.

A propina também faz parte deste culto idólatra do deus guloso. Desde Esaú, que vendeu a sua primogenitura por um prato de comida, até os esfomeados pós-modernistas, que negociam a ênfase da cruz por uma posição no pódio religioso, a tática é a mesma. É a profanação do sagrado e a secularização do santo.

O “deus ventre” é ainda ventríloquo, pois a sua boca fala inspirando a marionete da hipocrisia religiosa. Ao sonegar a pregação da cruz de Cristo, o divo das feições falsificadas promove a conduta humanista como se fosse o verdadeiro estilo de vida cristã. Essa é a tática mais perigosa dos inimigos da cruz de Cristo: a proclamação do humanitarismo como se fosse o cristianismo em sua essência.

Terceiro: a glória deles está na sua infâmia. Se há um fulgor que se realça no procedimento dos inimigos da cruz de Cristo é o investimento na desonra dos outros. Os oponentes do evangelho vivem saboreando o prato podre da vergonha alheia. Eles se estimulam com as fofocas e se nutrem das sujeiras que gostam de destacar. Como abutres, apreciam a carniça e se deleitam naquilo que causa embaraço e infâmia em alguém.

Uma vez que o evangelho se agrada em cobrir com amor as feridas da vergonha, os contrários às boas notícias se especializam em espalhar o seu mau cheiro por todo lugar. O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões. Provérbios 10:12.

Uma das peculiaridades do evangelho é garantir com amor a decência do humilhado. Não se trata de encobrir o pecado alheio, mas de assumi-lo como sendo seu, enquanto avoca para si a dívida do devedor. Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados. 1 Pedro 4:8.

É bom ressaltar. Não é encobrir o pecado, mas cobri-lo. Não se trata de ocultação de cadáver, mas de tomar a dívida do culpado, pagando-a como se fosse sua própria dívida. Foi assim que o nosso Senhor Jesus Cristo fez conosco.

A glória dos inimigos da cruz de Cristo visa detonar a imagem dos trôpegos, tornando-os motivo de escândalo perante os outros. Os humanistas se aperfeiçoam num moralismo esnobe e numa religiosidade mascarada, para, em seguida, deslustrar todos os que pisam na bola. Eles se vangloriam com o fracasso dos outros.

Quarto: só se preocupam com as coisas terrenas. Se você quiser reconhecer um inimigo da cruz de Cristo na igreja, veja a sua ênfase. A sua agenda enfoca apenas os assuntos relacionados com o aqui e o agora. Eles são terrenos e vivem enterrados com as preocupações das coisas que o fogo vai consumir. Só pensam nos eventos perecíveis.

Essa mentalidade rasteira valoriza somente os tesouros do chão. Para eles o patrimônio econômico é mais importante do que os bens eternos. O dinheiro da “igreja” vale mais do que a salvação de uma alma. O saldo da conta bancária na terra tem mais significado do que os depósitos em pessoas, enviados para o “banco celestial”. Eles não aquilatam a estima que Abba nutre pelas pessoas carentes e perdidas.

Os inimigos da cruz de Cristo, que andam entre nós, são humanistas de carteirinha, gente de bons antecedentes criminais, mas também, são os mentores da não pregação do evangelho de Cristo crucificado. Eles procuram impedir a proclamação da nossa morte e ressurreição com Cristo, e, quando não conseguem, adaptam a mensagem usando uma linguagem semelhante, enquanto boicotam os pregadores nos bastidores.

Com disse anteriormente: não basta pregar a mensagem correta de Cristo crucificado. É preciso ter também o espírito de um crucificado. O discurso da cruz deve ser seguido pelo curso de uma vida que traz as marcas da co-crucificação. A teologia certa da cruz de Cristo carece da certeza de que fomos realmente crucificados com ele.

Os piores inimigos da cruz de Cristo estão no seio da igreja. O mundo é um adversário ferrenho da pessoa de Cristo, enquanto os falsos cristãos são os inimigos ferozes, mais persistentes da obra de Cristo, embora, permaneçam disfarçados como discípulos.

O apóstolo disse que eles eram muitos, quando a população do mundo era pequena e os números da igreja bem menores do que agora. Não vamos subestimar a taxa nos dias de hoje. Acredito que temos uma multidão incalculável dos inimigos da cruz de Cristo convivendo com santos na igreja contemporânea. Por isso mesmo, precisamos de cuidado e acuidade espiritual para podermos não entrar no seu jogo.

A visão espiritual desta comunidade é: Conhecer a Cristo crucificado e fazê-lo conhecido em todo o lugar por meio da graça. Não podemos nos intimidar com as pressões, nem deixar por menos esta mensagem. Que o Senhor nos dê intrepidez para anunciar com toda ousadia a sua morte e ressurreição, bem como, a nossa morte e ressurreição juntamente com ele, no espírito de humildade e mansidão do próprio Cristo.

Rogo, pelas misericórdias do Pai, para que não percamos de vista a ênfase divina na pessoa de Cristo e na sua obra graciosa realizada na cruz. O humanismo, com todas as suas táticas satânicas, vai sempre, disfarçado, disputar um lugar no seio da igreja, promovendo algo semelhante ao cristianismo e trazendo muita confusão na vida dos ingênuos e desavisados. Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça. Mateus 13:9. Amém.

domingo, 29 de maio de 2011

A FÉ RI DAS IMPOSSIBILIDADES - IRMÃO LEONARD RAVENHILL.






Pedro na prisão! Que abalo!

Estamos muito longe da cena real para capturar a atmosfera de horror que os Cristãos sentiram neste dia.

Pedro foi movido do Pentecostes para a prisão, dos insultos para a lança. Ele foi guardado por dezesseis soldados. Pergunte a si mesmo o porque de um homem indefeso necessitar de um semelhante grupo para vigiá-lo. Poder-se-ia ser que Herodes temeu o sobrenatural, visto que ele soube que Jesus escapou de um grupo semelhante que O guardava?

Se Pedro tivesse sido cercado por cento e dezesseis soldados, o problema não seria aumentado nem a fuga seria menos certa. Pedro não estava confinado somente pelas duas correntes, mas também pelas grossas paredes da prisão, pelas três divisões da prisão e finalmente por um portão de ferro.

Quando Pedro estava na prisão, a igreja organizou um plano para libertá-lo? Não. Quando Pedro estava encarcerado, os crentes ofereceram uma petição a Herodes ou sugeriram um preço para oferecer aos legisladores para sua liberdade? Não. Pedro tinha libertado outros na hora da oração; agora outros deveriam crer na sua libertação.

Com freqüência através do livro de Atos, que poderia ser chamado Os Atos da Oração, encontramos oração e mais oração. Escave no livro e descubra este poder que motivava a igreja primitiva. No capítulo doze de Atos encontramos um grupo que orava. Apesar de um exército acampado contra Pedro, nisto aqueles crentes confiavam: havia um Deus que poderia e que livraria. A operação de resgate que nunca falhou foi a oração. Não havia limites nas orações daqueles que fizeram intercessão por Pedro. A oração era feita sem cessar pela igreja à Deus por ele. Eles não estavam preocupados se Herodes morreria ou não. Eles não oraram para que eles pudessem escapar do destino de Pedro. Eles não pediram que eles tivessem outro êxodo para uma nação mais hospitaleira. Eles oraram por uma pessoa: Pedro. Eles oraram por uma coisa: sua libertação. A resposta provou o prometido: "E, tudo o que pedirdes na oração, crendo, o recebereis".

Alguns pobres intérpretes desta história têm disto que quando aqueles que oravam ouviram que Pedro estava à porta, não acreditaram. Eu não posso aceitar esta suposição. Estou certo de que eles oraram com esperança. Eu gosto de pensar que eles ficaram por um momento chocados com a instantaniedade da resposta. Eles poderiam ser escusados se tivessem levantado suas sobrancelhas quando Pedro disse: "Eu escapei facilmente com a escolta de um anjo" (Próxima vez que você passar na porta mágica automática em seu supermercado, lembre-se que a primeira porta a abrir-se de seu próprio acordo foi funcionada de cima!).

Libertações operadas por anjos parecem não encontrar lugar na nossa teologia moderna. Talvez gostaríamos que o Senhor respondesse nossas orações com o mínimo embaraço para nós. Além do mais, quem esperará que as filas angelicais sejam perturbadas para trazer libertação a uma alma que ora? Porém, aconteceram resultados sobrenaturais para muitos dos santos que oravam nos dias apostólicos. O Senhor usou um terremoto devastador para a libertação do apóstolo. A oração é uma dinamite.

Não há nenhuma arma fabricada contra a oração que possa neutralizá-la. Algumas coisas podem atrasar as respostas à oração, mas nada pode parar o supremo propósito de Deus. "Se tardar, espera-o".

O primeiro requerimento na oração é crer.

- Crer que Deus é "galardoador dos que O buscam".
- Crer que Deus está vivo e que, portanto tem poder não somente para a libertação de Pedro, mas também para a nossa.
- Crer que Deus é amor e que Ele tem cuidado dos Seus.
- Crer que Deus é poder e, portanto nenhum poder pode opor-se a Ele.
- Crer que Deus é verdadeiro e, portanto não pode mentir.
- Crer que Deus é bom e que Ele nunca abdicará Seu trono ou falhará em Sua promessa.

Refletindo sobre a história de Pedro, fui repreendido, humilhado, envergonhado e atormentado. Por que? Porque há grandes santos de hoje em dia, Watchman Nee por exemplo, que por anos têm sofrido e têm permanecido cativos pelos comunistas e outros. Muitos dos santos de hoje estão quietos na prisão. O mesmo destino tem sucedido a algumas testemunhas escolhidas de Deus no Vietnã e em Congo.

Tais perigos a outros membros do Corpo demandam preocupação, concentração e consagração para um plano comprometido de oração em favor deles. Eu temo que orações não têm sido feitas a Deus sem cessar por estes sofredores membros da família.

O Sr. Bunyan nos mostra seu Cristão cativo pelo Gigante Desespero no Castelo da Dúvida. A chave para sua libertação foi Promessa. Nós Cristãos estamos no cativeiro em muitos níveis hoje pessoais, domésticos, da igreja e de iniciativa missionária. Mas as correntes se quebram e as masmorras caem quando a oração é feita pela igreja à Deus:

- Oração sem cessar;
- Oração que destrói nossa situação atual;
- Oração que nos drena de qualquer outro interesse;
- Oração que nos emociona por suas imensas possibilidades;
- Oração que veja Deus como Aquele que do alto governa, Todo-Poderoso para salvar;
- Oração que ria das impossibilidades e grite: "Será feito";
- Oração que veja todas as coisas debaixo dos Seus pés [de Deus];
- Oração que é motivada com o desejo pela glória de Deus.

A oração de um crente pode tornar-se um ritual. O lugar da oração é mais do que território onde atiremos todas nossas ansiedades, preocupações e temores. O lugar da oração não é um lugar para deixar cair uma lista de compras diante do trono de um Deus com infinito suprimento e ilimitado poder.

Eu creio que o lugar da oração não seja somente um lugar onde eu perca meus fardos, mas também um lugar onde eu receba um fardo. Ele compartilha meu fardo e eu compartilho a Seu fardo. "Meu jugo é suave e meu fardo é leve". Para conhecer este fardo, devemos ouvir a voz do Espírito. Para ouvir esta voz, devemos calar e saber que Ele é Deus.

Esta hora calamitosa nos assuntos dos homens demanda uma igreja mais saudável do que a que temos. Esta manifestação evidente do mal na juventude e na violação dos mandamentos de Deus por todo o mundo requer uma fé que não recua.

Podemos deixar nossas espadas de oração enferrujadas nas bainhas da dúvida? Poderemos deixar nossas desentoadas harpas de oração penduradas nos salgueiros da descrença?

- Se Deus é um Deus de inigualável poder e inacreditável força,
- Se a Bíblia é a imutável Palavra do Deus vivo,
- Se a virtude de Cristo é tão nova hoje como quando Ele primeiro fez a oferta de Si mesmo a Deus depois de Sua ressurreição,
- Se Ele é o único mediador hoje,
- Se o Espírito Santo pode nos ressuscitar como Ele fez como nossos pais espirituais, Então todas as coisas são possíveis hoje.

Os mares estavam agitados, os ventos estavam uivando, os marinheiros estavam chorando, os mastros estavam voando, as estrelas estavam escondendo-se, o Euro-aquilão explodindo. As pessoas estavam encolhendo-se e gritando, gemendo e suspirando. Somente um homem estava louvando. Todos estavam esperando a morte, exceto Paulo. No meio de uma cena de desespero, se alguma vez houve uma, Paulo clamou: "Senhores, eu creio em Deus" (Atos 27).

Como as coisas parecem estar totalmente diferentes estes dias, eu vou me unir a Paulo. Eu vou dizer com fé: "Senhores, eu creio em Deus". Você se unirá a mim?

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O OUTRO LADO DA CARNE - IRMÃO WATCHMAN NEE.


Existem só as obras da carne que mencionamos até agora, ou há outras obras carnais? Os pecados da carne que temos feito notar até aqui são as paixões do corpo humano.
Mas agora devemos fixar nossa atenção em outro aspecto da carne. Recordarão que anteriormente afirmamos que a carne consiste nas obras da alma assim como também as paixões do corpo.
Até agora só falamos sobre a parte do corpo, deixando quase sem tocar a parte da alma. É totalmente certo que o crente deve desprender-se dos pecados do corpo, mas também tem que opor-se às obras de sua alma, porque aos olhos de Deus são tão corruptas como os pecados do corpo.
Segundo a Bíblia, as obras da «carne» são de duas categorias (embora ambas sejam da carne): as más e as hipócritas. A carne não somente pode produzir pecados repelentes mas também condutas louváveis; não só o baixo e o ruim mas também o elevado e o nobre; não só as paixões pecaminosas mas também a boa intenção.
É a esta segunda parte que vamos nos dedicar agora.
A Bíblia emprega a palavra «carne» para descrever a vida ou a natureza corrupta do homem, que abrange a alma e o corpo. No ato criador de Deus, a alma foi colocada entre o espírito e o corpo, ou seja, entre o que é celestial ou espiritual e o que é terrestre ou físico. Seu dever é administrá-los de acordo com a função de cada um, conforme a sua adequação, mas mantendo-os intercomunicados, para que, por meio desta perfeita harmonia, o homem possa finalmente alcançar a plena espiritualidade. Desgraçadamente, a alma cedeu à tentação que surgiu dos órgãos físicos, escapando assim da autoridade do espírito e aceitando o controle do corpo. Em conseqüência, a alma e o corpo ficaram unidos para ser a carne. A carne não só está «livre do espírito», mas também é totalmente contrária ao espírito. Por isso a Bíblia afirma que «a carne luta contra o espírito» (Gl. 5:17).
A oposição da carne contra o espírito e contra o Espírito Santo é dupla:
1) pecando: se rebela contra Deus e infringe a lei de Deus, e
2) fazendo o bem: obedece a Deus e segue a vontade de Deus.
Naturalmente, o elemento corporal da carne, cheio de pecado e de paixões, não pode fazer outra coisa senão expressar-se em muitos pecados, entristecendo o Espírito Santo. A parte da carne que é a alma, no entanto, não está tão poluída como o corpo. A alma é o princípio de vida do homem; é seu eu próprio, e consta das faculdades da vontade, da mente e da emoção.
Do ponto de vista humano, as obras da alma podem não ser todas más. Simplesmente se centram no pensamento, na idéia, no sentimento e nas preferências e aversões da pessoa.
Embora todos estes se concentrem no eu, não são necessariamente pecados poluentes. A característica básica das obras da alma é a independência ou auto-dependência: Embora a parte da alma não esteja tão poluída como a parte corporal, mesmo assim é contrária ao Espírito Santo. A carne põe o eu no centro e eleva a vontade própria acima da vontade de Deus. Pode servir a Deus, mas sempre segundo sua idéia, não segundo a idéia de Deus. Fará o que seja bom a seus olhos. O eu é o princípio que está detrás de cada ato. Pode ser que não cometa o que o homem considera pecado; pode ser, inclusive, que tente cumprir os mandamentos de Deus com todas suas forças; entretanto, o «eu» nunca deixa de estar no coração da atividade.
Quem pode desentranhar a falsidade e a vitalidade deste eu? A carne não só se opõe ao espírito, pecando contra Deus, mas também tentando servi-Lo e agradá-Lo. Opõe-se ao Espírito Santo e o apaga, apoiando-se em sua própria força, em vez de confiar por completo na graça de Deus e deixar-se levar pelo Espírito.
Podemos encontrar muitos crentes ao nosso redor que, por natureza são bons, pacientes e afetuosos. Agora bem, o que o crente odeia é o pecado; em conseqüência, se pode livrar dele e das obras da carne descritas em Gálatas 5, versículos 19 a 21, então se sente satisfeito.
Mas o que o crente admira é a justiça; em conseqüência, se esforçará em agir corretamente, desejando possuir os frutos de Gálatas 5, versículos 22 e 23. Entretanto, o perigo se encontra aqui, porque o cristão não chegou a aprender a aborrecer a sua carne em sua totalidade.
Deseja simplesmente livrar-se dos pecados que surgem dela. Sabe como resistir um pouco às ações da carne, mas não vê que a própria carne, em sua totalidade, deve ser destruída.
O que o engana é que a carne não somente pode produzir pecado mas também pode fazer o bem. Se ainda fizer o bem é evidente que ainda está viva. Se a carne tivesse morrido definitivamente, a capacidade do crente de fazer o bem e de fazer o mal teria morrido com ela.
Uma capacidade para operar coisas boas mostra que a carne ainda não morreu.
Sabemos que os homens originalmente pertencem à carne: A Bíblia ensina claramente que não há ninguém no mundo que não seja da carne, posto que todo pecador nasceu da carne.
Mas, além disso, reconhecemos que muitos, antes de nascer de novo, e inclusive muitos que em toda sua vida nunca acreditaram no Senhor, fizeram e continuam fazendo muitas coisas louváveis. Alguns parecem ter nascido com o dom da amabilidade, da paciência ou da bondade. Observem o que o Senhor diz a Nicodemos (Jo. 3:6); apesar desse homem ser bom por natureza, mesmo assim o considera da carne. Isto confirma que a carne pode deveras fazer o bem.
Na carta de Paulo aos Gálatas vemos outra vez que a carne pode fazer o bem.

«Havendo começado com o Espírito, estão terminando com a carne?» (3:3).

Os filhos de Deus na Galácia haviam caído no engano de fazer o bem com a carne. Tinham começado no Espírito Santo; porém não continuaram assim para serem feitos perfeitos. Em vez disso quiseram aperfeiçoar-se por meio de sua justiça, da justiça segundo a lei. Por isso o apóstolo lhes fez semelhante pergunta. Se a carne dos crentes gálatas só tivesse podido fazer o mal, Paulo não teria que fazer uma pergunta assim, posto que eles mesmos saberiam de sobra que os pecados da carne não podiam aperfeiçoar em modo algum o que se começou com o Espírito Santo. Que desejassem aperfeiçoar com sua carne o que o Espírito Santo havia iniciado mostra que para alcançar uma posição perfeita dependiam da capacidade de fazer o bem de sua carne. Realmente tinham tentado fazer o bem com grandes esforços, mas o apóstolo nos mostra aqui que as boas ações da carne e as obras do Espírito Santo são dois mundos distintos. O que uma pessoa faz com a carne o faz ela mesma.
Jamais se pode aperfeiçoar o que Espírito Santo começou No capítulo anterior pudemos encontrar o apóstolo dizendo outra coisa importante sobre o mesmo tema: «Mas se torno a edificar aquilo que derrubei, constituo-me a mim mesmo transgressor» (2:18). Assinalava aos que, tendo sido salvos e tendo recebido o Espírito Santo, ainda insistiam em conseguir a justiça segundo a lei (vs. 16,17,21) por meio de sua própria carne.
Fomos salvos por meio da fé no Senhor e não por meio de nossas obras: isto é ao que se referia Paulo com as «coisas derrubadas». Sabemos que sempre tinha lançado por terra as obras dos pecadores, considerando estas ações sem absolutamente nenhum valor na salvação de uma pessoa.
Se fazendo o bem tentamos «voltar a construir essas coisas» que tínhamos destruído, então, segundo Paulo, «demonstramos que somos transgressores». O apóstolo nos está dizendo que da mesma maneira que um pecador não pode salvar-se por seus próprios esforços, do mesmo modo os que fomos regenerados não podemos ser aperfeiçoados por meio de nenhuma boa ação de nossa carne. Que inúteis continuam sendo essas ações!
Romanos 8 sustenta que «os que estão na carne não podem agradar a Deus» (v. 8).
Isto implica que os carnais tentaram agradar a Deus, embora sem êxito. Certamente, isto se refere especificamente às boas ações da carne que fracassam por completo em agradar a Deus. Agora vamos conhecer, em profundidade, precisamente o que a carne pode fazer: é capaz de realizar boas ações, de fazê-las com competência. Freqüentemente concebemos a carne sob o aspecto de suas paixões e concupiscências, e por conseguinte a consideramos categoricamente poluída, sem ver que compreende mais que o aspecto das paixões. Mas as atividades das variadas faculdades da alma não têm por que ser tão poluídas como as paixões.
Além disso, a palavra «paixão», tal como às vezes é utilizada na Bíblia, não tem nenhum sentido de contaminação, como, por exemplo, na luta da carne (com paixão) contra o Espírito, e do Espírito contra a carne» em Gálatas 5:17. Vemos que o Espírito também tem paixão — contra a carne —. Neste exemplo, paixão simplesmente transmite a idéia de um desejo intenso.
Tudo o que uma pessoa é capaz de fazer antes da regeneração simplesmente é o resultado dos esforços da carne. Por isso pode fazer o bem, como também pode fazer o mal. O engano do crente reside precisamente aqui, em que só sabe que o mal da carne deve ser destruído, mas ignora que tem que acontecer o mesmo com o bem da carne. Desconhece que a virtude da carne é da carne tanto quanto a sua maldade. A carne permanece sendo carne, seja boa ou seja má. O que põe um cristão em perigo é sua ignorância ou sua rejeição em enfrentar a necessidade de desprender-se de tudo da carne, inclusive do que é bom. Deve reconhecer categoricamente que o bom da carne não é em nada melhor que o mau, posto que ambas as coisas pertencem à carne. Se não se enfrentar com a carne boa, um cristão não pode esperar ser livre do domínio da carne jamais. Porque se deixar que sua carne faça o bem, logo a encontrará obrando o mal. Se não destruir sua virtude, sem dúvida alguma teremos que nos enfrentar com sua maldade.

A natureza das boas obras da carneDeus se opõe à carne energicamente porque conhece por completo sua condição autêntica.
Deseja que seus filhos se libertem por completo da velha criatura e experimentem plenamente a nova. Seja boa ou má, a carne ainda é carne. A diferença entre o bem que provém da carne e o bem que surge da nova vida é que a carne sempre tem o eu no centro. É o meu eu que pode fazer — e faz — o bem, sem necessidade de confiar no Espírito Santo, sem necessidade de ser humilde, de esperar em Deus, de orar a Deus. Posto que é o eu quem quer, penso e faço sem necessidade de Deus, e que, em conseqüência, considero o quanto melhorei, a altura a que cheguei com meu próprio esforço, então não é inevitável que eu me atribua a glória? É evidente que estes atos não levam as pessoas a Deus; em vez disso, enchem o eu. Deus quer que todos venham a Ele num espírito de absoluta dependência, totalmente submissos a seu Espírito Santo e esperando humildemente nele. Algo bom da carne que gire em torno do eu é uma abominação aos olhos de Deus, porque não procede do Espírito de vida do Senhor Jesus, mas sim do eu, e glorifica ao eu. O apóstolo afirma solenemente em sua carta aos Filipenses que ele «não põe sua confiança na carne» (3:3). A carne tende a ser confiante em si mesma.
Como são tão capazes, os carnais não precisam confiar no Espírito Santo. Cristo crucificado é a sabedoria de Deus, mas quanto um crente confia na sua própria sabedoria! Pode ler e pregar a Bíblia, pode escutar e acreditar a Palavra, mas faz tudo com o poder de sua mente, sem a mínima necessidade de depender totalmente da instrução do Espírito Santo.
Em conseqüência, muitos acreditam possuir toda a verdade, quando simplesmente conseguiram o que têm escutando outros ou estudando a Bíblia. O que é do homem ultrapassa em muito o que é de Deus. Não têm o coração aberto para receber sua instrução ou para esperar no Senhor, que Ele lhes revele sua verdade em sua luz.
Cristo crucificado também é o poder de Deus. Mas quanta confiança em si mesmo há no serviço cristão! realizam-se mais esforços em planejar e em preparar, do que em esperar no Senhor. Dedica-se o dobro de tempo a preparar a exposição e a conclusão de um sermão do que a receber o poder do alto. Mas todas estas obras são mortas aos olhos de Deus, não pelo fato de que não se proclame a verdade, ou que não se confesse a pessoa e a obra de Cristo, ou não se busque a glória de Deus, mas sim pela confiança na carne. Quanta ênfase colocamos na sabedoria humana e nos esforçamos por achar argumentos satisfatórios em nossas mensagens, e como procuramos ilustrações apropriadas e outros meios variados para comover, e empregamos sábias exortações para induzir os homens a que tomem decisões!
Mas onde estão os resultados práticos? Até que ponto confiamos no Espírito Santo e até que ponto confiamos na carne? Existe mesmo algum poder na velha criatura que possa capacitar as pessoas a herdar algo na nova criatura?
Como já dissemos, a segurança e a confiança em si mesmo são as brechas das boas obras da carne. Para a carne é impossível descansar em Deus. É muito impaciente para tolerar qualquer demora. Enquanto se considerar forte nunca confiará em Deus.Mesmo nos momentos de desespero, a carne continua fazendo planos e procurando uma saída. Nunca tem a sensação de dependência total. Isso pode ser uma indicação para o crente saber se uma obra é ou não é da carne. Tudo o que não for resultado de esperar em Deus, de confiar no Espírito Santo, é da carne sem dúvida alguma. Tudo o que uma pessoa decide segundo seu critério em lugar de procurar a vontade de Deus, surge da carne. Sempre que há ausência de uma confiança absoluta, isto é obra da carne. Agora entendam, as coisas que se façam podem não ser más ou equivocadas. De fato podem ser boas e piedosas (como ler a Bíblia, orar, adorar, pregar), mas se não são feitas num espírito de total confiança no Espírito Santo, então tudo é obra da carne. A velha criatura está disposta a fazer qualquer coisa — inclusive submeter-se a Deus — contanto que se lhe permita viver e permanecer ativa! Por muito boas que possam parecer as ações da carne, o «eu», oculto ou visível, sempre aparece no horizonte. A carne jamais admite sua debilidade nem reconhece sua inutilidade; inclusive embora se evidencie seu fracasso até o ridículo, a carne continua acreditando firmemente em sua capacidade.
«Tendo começado com o Espírito, terminarão com a carne?» Isto põe à vista uma grande verdade. Uma pessoa pode começar bem, no Espírito, e mesmo assim não continuar por esse caminho. Nossa experiência confirma o fato da relativa facilidade com que uma coisa pode começar no Espírito mas terminar na carne. Freqüentemente ocorre que o Espírito comunica uma verdade e que, apesar disso, em pouco tempo esta verdade se converte em uma jactância da carne. Os judeus cometeram este mesmo engano. Com que freqüência, quando se trata de obedecer ao Senhor, de negar de novo o eu, de receber poder para salvar almas, uma pessoa pode confiar seriamente no Espírito Santo no inicio, mas, em pouco tempo esta mesma pessoa converte a graça de Deus em sua própria glória, considerando o que é de Deus como se fosse dele.
Ocorre o mesmo com nossa conduta. Por meio da obra do Espírito Santo há, no princípio, uma poderosa transformação na vida de uma pessoa, que faz que ame o que antes odiava e que odeie o que antes amava. Entretanto, pouco a pouco o «eu» começa a introduzir-se sorrateiramente. A pessoa interpreta cada vez mais estas mudanças como êxitos próprios e chega a admirar-se; ou se torna indiferente e gradualmente atua segundo o eu em lugar de confiar no Espírito Santo. Há milhares de coisas na experiência do crente que começam bem, no Espírito, mas que desgraçadamente terminam na carne. Por que muitos filhos queridos de Deus procuram desejosos uma consagração absoluta e desejam impacientes mais vida abundante e apesar disso fracassam?
Freqüentemente, ao escutar as mensagens, ao conversar com pessoas, ao ler livros espirituais ou ao orar em privado, o Senhor lhes dá a conhecer que é perfeitamente possível ter uma vida de plenitude no Senhor. Os faz perceber a simplicidade e a beleza de uma vida semelhante e não vêem nenhum obstáculo em seu caminho que os impeça de consegui-la.
Verdadeiramente experimentam uma bênção, poder e glória como nunca antes. Oh, que maravilhoso! Mas ai! Logo se desvanece. Por que? Como? É devido a quê sua fé não é perfeita? Ou sua consagração não é absoluta? Por certo sua fé e sua consagração ao Senhor são plenas. Então, por que semelhante fracasso? Por que razão se perde a experiência e como se pode recuperar?
A resposta é simples e precisa. Confiam na carne e tentam aperfeiçoar por meio da carne o que começou no Espírito. Substituem o Espírito pelo eu. O eu deseja ir à frente e ao mesmo tempo espera que o Espírito esteja a seu lado para o ajudar. A posição e a obra do Espírito foram substituídas pelas da carne.
Há ausência de uma dependência total da direção do Espírito. Também há ausência de uma espera no Senhor.
Tentar segui-Lo sem negar o eu é a raiz de todos os fracassos.

Os pecados resultantesSe um crente estiver tão seguro de si próprio que se atreve a completar a tarefa do Espírito Santo com a energia da carne, jamais alcançará uma maturidade espiritual completa. Em lugar disso chegará um momento em que os pecados que antes tinha superado voltarão a aparecer nele com força.
Não se surpreendam com o que estão lendo. É coisa bem conhecida que sempre e em qualquer lugar em que a carne sirva a Deus, ali e naquele momento o poder do pecado se reforça.
Por que os orgulhosos fariseus se fizeram escravos do pecado? Acaso não foi porque estavam muito convencidos de sua justiça e serviam a Deus com muito zelo?
Por que o apóstolo repreendeu os gálatas? Por que manifestavam as ações da carne? Não era porque desejavam estabelecer sua própria justiça pelas obras e para aperfeiçoar pela carne a obra que tinha começado o Espírito Santo?
O maior descuido que os cristãos cometem na vitória sobre o pecado se encontra no fato de não usar o meio adequado para prolongá-la. Em vez disso tentam perpetuar a vitória com suas obras, sua decisão e sua firmeza. Podem ter êxito momentaneamente. Entretanto, não passará muito tempo sem que vejam que voltam para seus pecados de antes, que possivelmente difiram na forma, mas não na essência. Então se afundam no abatimento, ao chegar à conclusão de que o triunfo persistente é impossível de alcançar, ou então tratam de ocultar seus pecados sem confessar sinceramente que pecaram.
E então, o que é que causa este fracasso?
Da mesma maneira que a carne lhes dá força para operar corretamente, também lhes dá o poder para pecar. Sejam bons ou maus, todos seus atos são expressões da mesma carne. Se não damos à carne oportunidade de pecar, ela está disposta a fazer o bem, e embora lhe dê oportunidade de fazer o bem, logo voltará a pecar.
Aqui Satanás engana os filhos de Deus. Se os crentes mantivessem normalmente a atitude de ter a carne crucificada, Satanás não teria nenhuma oportunidade, porque «a carne é o ateliê ou oficina de Satanás». Se toda a carne, não só uma parte, estiver realmente sob o poder da morte do Senhor, Satanás ficará totalmente sem trabalho. Por isso ele está disposto a permitir que levemos a parte pecaminosa de nossa carne à morte, se puder nos enganar para que retenhamos a parte boa. Satanás sabe perfeitamente que se a parte boa permanecer intacta, a vida da carne ficará preservada. Ainda terá uma cabeça de ponte com a qual prosseguirá sua campanha para recuperar o território que perdeu. Ele sabe muito bem que a carne pode vencer e recuperar sua vitória no reino do pecado se a carne conseguir excluir o Espírito Santo no que diz respeito ao serviço a Deus.
Isto explica porque muitos cristãos tornam a servir ao pecado depois de ter sido libertos.
Se o espírito não mantiver realmente um controle total e constante em questão de adoração, não poderá manter o domínio na vida diária. Se eu não me neguei por completo diante de Deus, não posso me negar diante dos homens, e por causa disto não posso vencer meu ódio, mau gênio e egoísmo. Estas duas coisas são inseparáveis.
Por causa de sua ignorância desta verdade, os crentes da Galácia chegaram a «morder-se e devorar-se uns aos outros» (Gl. 5:15). Tentaram aperfeiçoar pela carne o que tinha começado no Espírito Santo, porque desejavam «fazer um bom papel na carne», para «poder glorificar-se em sua carne» (6:12,13). Evidentemente, seus êxitos em conseguir fazer o bem com a carne eram muito escassos, enquanto que seus fracassos em vencer o mal eram numerosos. Não percebiam que, enquanto servissem a Deus com suas forças e suas idéias, indubitavelmente serviriam ao pecado na carne. Se não proibiam à carne que fizesse o bem, não podiam impedi-la de que fizesse o mal. A melhor maneira de não pecar é não fazer o bem com o eu. Ao desconhecer a absoluta corrupção da carne, os crentes gálatas, em sua necessidade, desejavam usá-la sem reconhecer que há a mesma corrupção na carne ao gabar-se de fazer o bem que ao seguir as más paixões. Não podiam fazer o que Deus queria que fizessem, porque por um lado tentavam realizar o que o Espírito Santo tinha começado, e pelo outro tentavam inutilmente livrar-se das paixões da carne.

5. A atitude definitiva do crente com a carne
A opinião de Deus sobre a carneNós, cristãos, necessitamos ser relembrados sobre o julgamento de Deus sobre a carne. O Senhor Jesus diz que «a carne não serve de nada» (Jo. 6:63). Tanto faz se for o pecado da carne ou a bondade da carne, tudo é vão. O que nasce da carne, seja o que seja, é carne e jamais pode ser «descarnada». Tanto faz se for a carne no púlpito, a carne no auditório, a carne nas orações, a carne na consagração, a carne na leitura da Bíblia, a carne no canto de hinos ou a carne na prática do bem, Deus afirma que nada disso serve. Por muito que os crentes possam trabalhar ardentemente na carne, aos olhos de Deus tudo é inútil; porque a carne nem beneficia à vida espiritual nem pode levar a cabo a justiça de Deus.
Vamos ressaltar umas quantas observações sobre a carne que o Senhor faz por meio do apóstolo Paulo na carta aos Romanos.
1) «Porque a inclinação da carne é morte» (8:6). Segundo Deus há morte espiritual na carne. A única saída é levar a carne à cruz. Apesar dela ter capacidade para fazer o bem ou planejar e maquinar para conseguir a aprovação dos homens, Deus pronunciou contra a carne simplesmente uma sentença: a morte.
2) «A inclinação da carne é inimizade contra Deus» (8:7). A carne se opõe a Deus. Não existe a mínima possibilidade de uma coexistência pacífica. Isto não só ocorre com os pecados que surgem da carne mas também com seus pensamentos e ações mais nobres. É óbvio que os pecados contaminantes são contrários a Deus, mas tenhamos presente que também se podem fazer boas ações independentemente de Deus.
3) «Não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser» (8:7). Quanto melhor trabalha a carne mais se afasta de Deus. Quantas pessoas «boas» estão dispostas a acreditar no Senhor Jesus? A justiça própria não é justiça absolutamente; em realidade é injustiça. Ninguém pode jamais obedecer todas as doutrinas da santa Bíblia. Uma pessoa pode ser tanto boa quanto má, mas uma coisa é certa: não se submete à lei de Deus. Se for má, infringe a lei; se for boa, estabelece outra justiça fora de Cristo e deste modo passa por cima do propósito da lei («pela lei vem o conhecimento do pecado» [3:20]).
4) «Os que estão na carne não podem agradar a Deus» (8:8). Este é o veredicto final. Apesar de quão bom um homem possa ser, se o que faz sai dele, não pode agradar a Deus. Deus só se compraz com seu Filho. Além dEle e de sua obra, ninguém pode agradar a Deus. O que se faz com a carne pode parecer perfeitamente bom, mas como vem do eu e se faz com a força natural não pode satisfazer a Deus. O homem pode planejar muitas formas de fazer o bem, de melhorar e de avançar, mas isso é carnal e não pode agradá-Lo. Isto ocorre não só com os não regenerados; também é o mesmo com os regenerados. Por muito louvável e efetivo que seja o que o crente faça com suas próprias forças, não conseguirá a aprovação de Deus. Agradar ou desagradar a Deus não depende do princípio do bom e do mau. Pelo contrário, Deus procura a origem de todas as coisas. Uma ação pode ser totalmente correta, mas entretanto Deus pergunta: «Qual é sua origem?»
Por essas referências bíblicas podemos começar a compreender o quanto são vãos e inúteis os esforços da carne. Um crente que veja claramente a avaliação de Deus nesta questão dificilmente tropeçará. Como seres humanos distinguimos entre boas obras e más obras. Deus vai mais além e faz uma distinção apoiada na origem de cada obra. A melhor das ações da carne desagrada a Deus tanto quanto a obra mais malvada, porque as duas são da carne. Do mesmo modo que Deus aborrece a injustiça, também aborrece a justiça própria. As boas ações que se fazem de um modo natural, sem regeneração ou união com Cristo ou dependência do Espírito Santo, não são menos carnais para Deus do que a imoralidade, a impureza, a libertinagem, etc. Por muito formosas que possam ser as atividades do homem, se não surgir de uma absoluta confiança no Espírito Santo, são carnais e, por conseguinte, Deus as rejeita. Deus odeia e rechaça tudo o que pertence à carne, sem ter em conta as aparências externas, tanto se tratando de um pecador como de um santo. Seu veredicto é: a carne deve morrer.

A experiência do crenteMas como um crente pode ver o que Deus viu? Deus é inflexível com a carne e todas as suas atividades, mas parece que o crente que só rejeita seus aspectos maus e se mantém afetuosamente abraçado à própria carne. Não a rechaça categoricamente em sua totalidade; em vez disso continua fazendo muitas coisas na carne: toma uma atitude segura e orgulhosa como se estivesse cheio da graça de Deus e capacitado para atuar corretamente. Literalmente o crente se serve da carne. Por causa deste auto-engano, o Espírito de Deus deve levá-lo pelo caminho mais vergonhoso, para que conheça sua carne e alcance a perspectiva de Deus.
Deus permite que essa carne caia, se debilite, e inclusive peque, para que possa compreender se há ou não algo de bom na carne. Isso costuma ocorrer ao que pensa que está progredindo espiritualmente. O Senhor o põe à prova para que se conheça si mesmo. Freqüentemente o Senhor revela sua santidade de tal modo, que o crente não pode fazer mais que considerar contaminada sua carne. Às vezes, o Senhor consente que Satanás o ataque, para que, através do sofrimento, perceba sua condição. É uma lição extremamente difícil e que não se aprende da noite para o dia. Só depois de muitos anos, chega gradualmente a compreender o quão pouco confiável é sua carne. Há impureza inclusive no melhor de seus esforços. Em conseqüência, Deus o deixa experimentar Romanos 7 até que esteja disposto a reconhecer, como Paulo: «Porque eu sei que em mim, isto é, em minha carne, não habita bem algum» (v. 18). Como é difícil aprender a dizer isto de modo genuíno! Se não fosse pelas inumeráveis experiências de derrota penosa, o crente continuaria confiando em si mesmo e considerando-se capaz. As centenas e milhares de derrotas o levam a admitir que é impossível confiar na justiça própria e considerar-se a si mesmo capaz. Esse tratamento enérgico, no entanto, não termina aqui. O auto-exame deve continuar. Porque quando um cristão cessa de julgar-se a si mesmo e falha em tratar a carne como extremamente inútil e detestável, mas assume, em vez disso, uma atitude levemente vã e aduladora para si mesmo, então Deus se vê obrigado a fazê-lo passar pelo fogo, a fim de consumir a escória. Poucos são os que se humilham e reconhecem sua imundície! A menos que alguém se dê conta deste estado, Deus não vai retirar seus toques de atenção. Como o crente não pode livrar-se da influência da carne nem um momento, nunca deveria deixar de exercitar o coração a julgar a si mesmo; de outra maneira logo vai recomeçar nas jactâncias da carne.
Muitos supõem que só as pessoas do mundo precisam ser convencidas do pecado pelo Espírito Santo, pensando assim: Pois o Espírito Santo já não me convenceu de meus pecados para que eu cresse no Senhor Jesus?
Mas os cristãos devem saber que uma operação como essa do Espírito Santo é tão importante nos santos como nos pecadores. Por necessidade, o Espírito deve convencer os santos de seus pecados, não somente uma vez ou duas, mas sim a cada dia e incessantemente. Oxalá experimentássemos mais e mais a convicção do pecado produzida pelo Espírito Santo, para que nossa carne pudesse ser posta sob julgamento de modo incessante e nunca lhe permitíssemos reinar! Que não percamos, nem mesmo por um momento, a idéia verdadeira do que é nossa carne e da avaliação que Deus faz dela. Que nunca acreditemos em nós mesmos, e nunca mais confiemos em nossa carne, sabendo que isso jamais pode agradar a Deus.
Confiemos sempre no Espírito Santo, e em nenhum momento cedamos o nem um mínimo espaço ao eu.
Se jamais houve no mundo alguém que pudesse se gabar de sua carne, esta pessoa tinha que ser Paulo, porque quanto à justiça que é da lei era irrepreensível. E se alguém podia se gabar de sua carne depois da regeneração, certamente tinha que ser também Paulo, porque tinha passado a ser um apóstolo, havia visto com seus próprios olhos ao Senhor ressuscitado, e era usado grandemente pelo Senhor. Mas sua experiência de Romanos 7 o capacitara a compreender plenamente quem é. Deus abriu seus olhos para que visse, pela experiência, que em sua carne não habitava o bem, só o pecado. A justiça própria de que se tinha orgulhado no passado, soube que é só lixo e pecado. Aprendeu esta lição, e a aprendeu bem; daí que não se atreveu a confiar mais na carne. Mas Paulo não parou aí, de modo algum. Não. Paulo continuou aprendendo. E, assim, o apóstolo declara que não «confiamos na carne. Se bem que eu poderia até confiar na carne. Se algum outro julga poder confiar na carne, ainda mais eu.» (Fp. 3:3,4). Apesar das muitas razões que pôde enumerar para confiar em sua carne (vs. 5,6), Paulo se dá conta de como Deus a vê e entende muito bem que é indigna de confiança e que não pode confiar-se nela absolutamente. Se seguimos lendo Filipenses 3 descobriremos o quanto Paulo é humilde em relação a confiar em si mesmo. «Não tendo minha própria justiça» (v. 9); « para ver se de algum modo posso chegar à ressurreição dentre os mortos. » (v. 11); « N , ou que seja perfeito; mas vou prosseguindo, para ver se poderei alcançar aquilo para o que fui também alcançado por Cristo Jesus » (v. 12).
Se um crente aspirar alcançar a maturidade espiritual, deve preservar sempre esta atitude que o apóstolo Paulo apresenta ao longo do caminho espiritual; ou seja: «não que já a tenha alcançado». O cristão não deve atrever-se a ter a menor confiança em si mesmo, satisfação e gozo em si mesmo, pensando que pode confiar em sua carne.
Se os filhos de Deus se esforçarem sinceramente em alcançar a vida mais abundante e estiverem dispostos a aceitar a avaliação que faz Deus da carne, não terão a si mesmos em maior estima que aos demais, por maior que seja seu progresso espiritual. Não vão dizer palavras como: «Naturalmente, eu sou diferente dos outros.» Se esses crentes estiverem dispostos a permitir que o Espírito Santo lhes revele a santidade de Deus, e não temerem que claramente lhes exponha sua corrupção, então chegarão a perceber, pelo Espírito, sua corrupção de um tempo prévio, possivelmente com uma diminuição posterior nas experiências penosas de derrota.
Entretanto, quão lamentável é que, mesmo quando a intenção da pessoa seja de não confiar na carne, apareça por baixo da superfície alguma pequena impureza porque essa pessoa ainda crê que tem alguma força. Em vista disto, Deus tem que lhe permitir encontrar-se em várias derrotas, a fim de eliminar até a mais leve confiança em si mesmo.

A cruz e a obra mais profunda do Espírito SantoComo a carne é grosseiramente enganosa, o crente requer a cruz e o Espírito Santo. Uma vez que tenha discernido o que Deus pensa da carne, deve experimentar a cada momento a obra mais profunda da cruz por meio do Espírito Santo. Tal como um cristão deve ser libertado do pecado da carne por meio da cruz, também deve agora ser liberto da justiça da carne por meio da mesma cruz. E tal como andando no Espírito Santo o cristão não vai seguir a carne para o pecado, assim também andando no Espírito Santo não vai seguir a carne para a justiça própria.
Como um fato que se encontra fora do crente, a cruz foi consumada de modo perfeito e completo; aprofundar o assunto aqui é impossível. Mas, como um processo dentro do crente, a cruz é cada vez experimentada de forma mais profunda; o Espírito Santo vai ensinar e aplicar o princípio da cruz em um ponto atrás do outro. Se a gente for fiel e obediente vai ser guiado continuamente a experiências mais profundas do que a cruz realizou já nele. A cruz, objetivamente, é um fato absoluto, ao qual não se pode acrescentar nada; mas subjetivamente é uma experiência progressiva e sem fim que pode ser realizada de uma forma cada vez mais penetrante.
O leitor, a estas alturas, deveria conhecer algo mais do caráter completamente abrangente do fato de ter sido crucificado com o Senhor Jesus na cruz; porque só sobre esta base o Espírito Santo pode atuar. O Espírito não tem outro instrumento para atuar do que a cruz. O crente deve agora já ter uma nova compreensão de Gálatas 5:24. Não se trata só de «suas paixões e desejos» que foram crucificados; a própria carne, incluindo toda sua justiça assim como seu poder de operar justamente, foi crucificada na cruz. A cruz é o lugar em que as paixões e os desejos — e a mola que ativa estas paixões e desejos — são crucificados, por admiráveis que possam parecer. Só no caso que alguém ver isso e estar disposto a negar toda sua carne, boa ou má, pode, de fato, andar conforme o Espírito Santo, agradar a Deus e viver uma vida espiritual genuína. Esse "estar disposto" não deve faltar, por sua parte, porque embora a cruz, como um fato consumado, seja completa em si mesma, sua realização na vida de uma pessoa é medida pelo conhecimento, pela preparação e pela fé da mesma.
Suponhamos que o filho de Deus recuse renegar o que houver bom de sua carne.
Qual será sua experiência? Sua carne pode parecer extremamente sábia e poderosa em numerosas atividades e empreendimentos. Mas, por boa e forte que seja, a carne não pode responder nunca às demandas de Deus. Daí que quando Deus o chama realmente a preparar-se para ir ao Calvário e sofrer, o cristão logo descobre que sua única resposta é retrair-se e ficar mais fraco que a água. Por que os discípulos falharam de modo tão lamentável no Jardim do Getsêmani? Porque «o espírito na verdade estava pronto, mas a carne era fraca» (Mt. 26:41). A fraqueza aqui causa falhas ali. Aparentemente, a carne só pode desdobrar seu grande poder, em questões que se adaptam a seus gostos. Por esta razão, a carne se retrai diante da chamada de Deus. Sua morte, pois, é essencial, de outro modo nunca se poderá fazer a vontade de Deus.
Tudo o que fazemos tem por intenção a ostentação própria, com o objetivo de ser visto e admirado por outros que pertencem à carne. Há bem natural assim como mal natural nesta carne.
João 1:13 nos informa da «vontade» da carne. A carne pode querer e decidir e fazer planos para executar atos bons a fim de receber o favor de Deus. Mas ainda pertence à carne humana e por isso deve ir à cruz.
Colossenses 2:18 fala da «mentalidade» de sua carne. A confiança de um cristão em si mesmo não é nada mais que confiar em sua sabedoria, pensando que conhece cada um dos ensinamentos das Escrituras e como servir a Deus.
E 2 Coríntios 1:12 menciona a «sabedoria» da carne. É altamente perigoso aceitar as verdades da Bíblia com sabedoria humana, porque este é um método escondido e sutil que invariavelmente faz que o crente aperfeiçoe com sua carne a obra do Espírito Santo. Uma verdade preciosa pode ser entesourada de modo seguro na memória; no entanto, é meramente na mente da carne! Só o Espírito pode vivificar; a carne não aproveita nada. A menos que todas as verdades sejam vivificadas continuamente pelo Senhor, não produzem benefício nem para nós nem para outros. Não estamos discutindo o pecado aqui, mas sim a conseqüência inevitável da vida natural no homem. Tudo o que é natural não é espiritual. Não só temos que negar nossa justiça mas também nossa sabedoria. Esta deve ser cravada na cruz também.
Colossenses 2:23 nos fala de uma «devoção» ou reputação de sabedoria da carne. Isto é «adoração» ou «culto», na nossa opinião. Cada método que imaginamos para estimular, procurar ou adquirir um sentido de devoção é culto na carne. Não é nem adoração segundo o ensino das Escrituras, nem adoração sob a direção do Espírito Santo. Daí que existe sempre a possibilidade de andar pela carne; tanto na questão da adoração, como na obra cristã, ou no conhecimento da Bíblia, ou no salvar almas.
A Bíblia menciona com freqüência a «vida» da carne. A menos que seja rendida à cruz, vive tanto dentro do santo como do pecador. A única diferença é que no santo há oposição espiritual a ela. Mas fica para ele a possibilidade de pegar essa vida e tirar recursos, fazer uso dela. A vida da carne pode ajudar a servir a Deus, a meditar sobre a verdade, a consagrar-se ao Senhor. Pode motivar a executar muitos atos bons. Sim, o cristão pode tomar sua vida natural como verdadeira vida, de tal maneira que lhe dá a impressão de que está servindo a vontade de Deus.
Temos que entender que dentro do homem há dois princípios de vida diferentes. São muitos os que vivem uma vida mista, obedecendo a um destes preceitos agora, e depois ao outro. Algumas vezes dependemos totalmente da energia do Espírito; em outras ocasiões misturamos nossa própria força. Não há nada que pareça estável e firme. «Faço-o segundo a carne, para que haja comigo o sim, sim e o não?» (2Co. 1:17). Uma característica da carne é sua volubilidade: alterna entre o Sim e o Não, e vice-versa. Mas a vontade de Deus é: «que não andemos segundo a carne, mas segundo o Espírito» (Rm. 8:4).
«Nele também fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mãos no despojar do corpo da carne, a saber, a circuncisão de Cristo» (Cl. 2:11). Deveríamos estar dispostos a permitir à cruz que, como uma faca na circuncisão, cortasse completamente tudo o que pertence à carne. Uma incisão assim deve ser profunda e cortante de modo que não fique nada da carne escondido ou à vista. A cruz e a maldição são inseparáveis (Gl. 3:13). Quando consignamos nossa carne à cruz a entregamos a maldição, reconhecendo que na carne não há nada bom e que não merece nada a não ser a maldição de Deus. Sem esta atitude no coração é extremamente difícil que nós aceitemos a circuncisão da carne. Todo afeto, desejo, pensamento, conhecimento, intenção, adoração e obra da carne deve ir para a cruz.
Ser crucificado com Cristo significa aceitar a maldição que nosso Senhor aceitou. Não foi um momento glorioso para Cristo ser crucificado no Calvário (At. 12:2). Seu corpo foi pendurado no madeiro, o que significava ser maldito de Deus (Dt. 21:23). Como conseqüência, que a carne seja crucificada com o Senhor implica simplesmente ser maldito pelo Senhor. Tal como temos que receber a obra consumada de Cristo na cruz, assim também temos que entrar na comunhão da cruz. O crente deve reconhecer que sua carne não merece outra coisa senão a maldição da morte. Sua comunhão prática com a cruz começa depois que vê a carne tal como Deus a vê. Antes que o Espírito Santo possa encher plenamente uma pessoa, tem que haver uma entrega completa da carne à cruz. Oremos para que possamos saber exatamente o que é carne e como tem que ser crucificada.
Irmãos, não somos bastante humildes para aceitar de boa vontade a cruz de Cristo! Resistimos em admitir que somos impotentes, inúteis e totalmente corruptos até o ponto que não merecemos nada a não ser a morte. O que falta hoje não é viver melhor, mas sim morrer melhor! Temos que morrer uma boa morte, uma morte consciente.
Falamos bastante sobre a vida, o poder, a santidade, a justiça; falemos agora sobre a morte!
Oh, que o Espírito Santo penetre em nossa carne profundamente pela cruz de Cristo, para que possa chegar a ser uma experiência válida em nossa vida!
Se morrermos corretamente, viveremos corretamente. Se estivermos unidos com Ele em sua morte, certamente estaremos unidos com Ele em sua ressurreição. Peçamos ao Senhor que abra nossos olhos para que possamos ver o imperativo absoluto da morte. Está preparado para isto? Está disposto a permitir que o Senhor mostre suas fraquezas? Está disposto a ser crucificado abertamente fora da porta? Vai deixar que o Espírito da cruz atue dentro de você?
Oh, que saibamos mais de sua morte!
Que possamos morrer por completo!
Deveríamos ter bem clara a idéia de que a morte da cruz é contínua em sua operação. Não podemos entrar nunca em um estágio de ressurreição que deixe a morte totalmente de fora, porque a experiência da ressurreição se mede pela experiência da morte. Um perigo que há entre os que perseguem a vida de ascensão é que se esquecem da necessidade categórica de reduzir continuamente a carne a nada. Abandonam a posição da morte e avançam a de ressurreição. Isto tem como resultado, ou tratar levianamente as obras da carne, como se não houvesse um risco sério para o crescimento espiritual, ou espiritualizá-las, isto é, assumir que as coisas da carne são do espírito.
É essencial que vejamos que a morte é o fundamento de tudo! O reino chamado ressuscitado e ascendido será irreal se não se mantiver continuamente a morte da carne. Não nos enganemos pensando que somos tão avançados espiritualmente que a carne já não tem poder para nos seduzir. Essa é tão somente a intenção do inimigo de nos apartar da base da cruz com o objetivo de nos fazer carnais interiormente e espirituais por fora. Muitas orações do tipo de «Te dou graças, Senhor, porque já não sou isto ou aquilo, mas isto outro agora», são simplesmente ecos da oração inaceitável que se registra em Lucas 18:11,12. Somos suscetíveis ao engano por parte da carne quando estamos a ponto de sermos tirados dela. Temos que permanecer constantemente na morte do Senhor.
Nossa segurança se acha no Espírito Santo. O caminho seguro está em nossa boa disposição para sermos ensinados, temerosos de que do contrário cedamos terreno à carne. Temos que nos submeter alegremente a Cristo e confiar no Espírito Santo para que nos aplique a morte de Jesus, para que possa ser ostentada em nós a vida de Jesus. Tal como antes estávamos cheios da carne, agora seremos cheios do Espírito Santo. Quando Ele tenha controle completo, vamos derrotar o poder da carne e manifestar Cristo em nossa vida. Poderemos então dizer que «a vida que agora vivo na carne, não a vivo eu, mas Cristo que vive em mim». Entretanto, o fundamento dessa vida é e foi sempre o «fui crucificado com Cristo» (Gl. 2:20).Se vivermos por fé e obediência podemos esperar que o Espírito faça uma obra extremamente Santa e maravilhosa em nós.

«Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito.» (Gl. 5:25).

Deveríamos simples e descansadamente acreditar que nosso Senhor nos deu seu Espírito e que agora habita em nós.
Creiamos em seu dom e confiemos que o Espírito Santo habita em nós. Tenhamos isto como o segredo da vida de Cristo em nós: seu Espírito reside no mais profundo de nosso espírito.
Meditemos nisso, creiamos nisso, e recordemo-lo até que esta verdade gloriosa produza em nós um temor e assombro santos de que o Espírito Santo habita realmente em nós!
Agora aprendamos a seguir sua direção. Esta direção não surge da mente ou dos pensamentos; é algo da vida. Temos que ceder diante de Deus e deixar que seu
Espírito governe tudo. Ele vai manifestar o Senhor Jesus em nossa vida, porque esta é sua missão e tarefa.

Palavras de exortaçãoSe permitirmos ao Espírito de Deus que faça uma obra mais profunda por meio da cruz, nossa circuncisão vai ser cada vez mais real.

«Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne.» (Fp. 3:3).

Essa confiança na carne foi abandonada por meio da circuncisão executada não por mãos. O apóstolo faz do glorificar-se em Cristo Jesus o centro de tudo. Explica-nos que há perigo por um lado, mas segurança por outro. Pôr a confiança na carne tende a destruir o glorificar-se em Cristo Jesus, mas o adorar em espírito nos dá o gozo bem-aventurado da vida e a verdade. O Espírito Santo eleva ao Senhor Jesus, mas humilha a carne. Se de modo genuíno desejamos nos glorificar em Cristo e lhe permitir que assegure sua glória em nós, temos que receber a circuncisão da cruz e aprender a adorar no Espírito Santo. Não sejamos impacientes, porque a impaciência é da carne.
Não experimentem métodos diferentes, porque só são úteis para ajudar a carne. Temos que desconfiar da carne inteiramente, por boa e capaz que seja. Temos que confiar, em troca, no Espírito Santo e nos submetermos somente a Ele. Com esse tipo de confiança e obediência, a carne será conservada em humildade em seu próprio lugar de maldição e, em conseqüência, perderá todo seu poder. Que Deus seja misericordioso conosco para que não coloquemos nossa confiança na carne; sim, que possamos olhar para nós mesmos e reconhecer quão pouco digna de confiança e quão inútil e estéril é nossa carne. Esta é uma morte muito real. Sem ela não pode haver vida.

«Não usem a liberdade como pretexto para a carne» (Gl. 5:13).

Obtivemos liberdade no Senhor; não devemos dar, pois, nenhuma oportunidade à carne, porque seu lugar apropriado é a morte. Não concebamos de modo inconsciente a atividade do Espírito Santo como se fosse a nossa própria, mas sim estejamos sempre em guarda para que a carne não possa reviver. Não usurpemos a glória de um triunfo e com isso proporcionemos à carne uma oportunidade para voltar a empreender suas operações. Não nos tornemos confiantes demais por causa de nossas poucas vitórias; se o fizermos, nossa queda será maior. Quando tiver aprendido a vencer a carne e esta já tenha perdido seu poder, não imagine nunca que a partir de então já tem o triunfo definitivo sobre ela. Se não depender do Espírito Santo, logo vai estar uma vez mais envolvido em experiências penosas. Com santa diligencia deve cultivar uma atitude de dependência, pois de outro modo vai ser o alvo dos ataques da carne. Quanto menos orgulho ostente, menos oportunidades terá a carne. O apóstolo, imediatamente depois de dar seu ensinamento sobre a crucificação da carne e o andar no Espírito, diz: «Não nos tornemos vangloriosos» (Gl. 5:26). Se reconhecer humildemente quão inútil é diante de Deus, não vai tentar se envaidecer diante dos homens.
Suponhamos que dissimule a fraqueza de sua carne diante dos homens a fim de receber glória. Não estará, sem se aperceber, dando ocasião à carne para sua atividade? O Espírito Santo pode nos ajudar e nos fortalecer, mas Ele mesmo não vai nos substituir na realização daquilo que é nossa responsabilidade. Portanto, para cumprir esta responsabilidade, nós, por um lado, temos que manter uma atitude que não dê ocasião alguma à carne; mas por outro lado temos que pôr essa atitude realmente em prática quando sejamos chamados a negar a carne em todas as realidades de nosso afazer diário.
«Não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências», admoesta Paulo (Rm. 13:14). Para que a carne possa operar, necessita uma oportunidade ou ocasião. É por isso que não devemos proporcionar-lhe essa oportunidade Se a carne tiver que ser mantida no lugar de maldição, temos que estar sempre alerta. Temos que examinar nossos pensamentos continuamente para ver se albergarmos presunção ou não, porque, certamente, uma atitude assim dará uma grande oportunidade à carne. Nossos pensamentos são muito importantes aqui, porque o que acontece no segredo de nossa vida intelectual vai irromper ao exterior abertamente em palavras e feitos. A carne não deve ter nenhuma oportunidade nem base.
Inclusive quando conversamos com outros, temos que estar atentos para que nas muitas palavras a carne não ache oportunidade para executar sua obra. É possível que nós gostemos de dizer muitas coisas, mas se estas coisas não são enviadas pelo Espírito Santo é melhor não dizê-las. O mesmo se aplica a nossos atos. A carne pode elaborar muitos planos e métodos e estar cheia de expectativas. Tem opiniões, poder e habilidade. Aos outros, e inclusive a nós mesmos, todas elas podem aparecer como dignas de elogio e aceitáveis. Mas sejamos bastante ousados para as destruir, inclusive as melhores delas, por temor de infringir o mandamento do Senhor. O melhor que a carne tem para oferecer deve ser entregue de modo inexorável à morte, pela simples razão de que pertence à carne. A justiça da carne é tão aborrecível como o pecado. Seus atos bons deveriam ser objeto de arrependimento por nossa parte com a mesma humildade que se fossem atos pecaminosos. Sempre temos que ter em conta o ponto de vista que tem Deus da carne.
Em caso de falharmos, temos que nos auto-examinar.

domingo, 15 de maio de 2011

A IGREJA NO TEMPO DO FIM - IRMÃO JESSIE PENN-LEWIS.




Esta é uma hora de grandes movimentos. O mundo todo está num estado de revolta, e “visões mundiais” de todos os tipos estão prendendo a muitos. A grande questão é: estão essas “visões mundiais” em harmonia com a Palavra de Deus? O diabo pode dar “visão mundial” (Mt 4.8), e por essa razão é necessário que tenhamos nossa visão ajustada às condições que a Bíblia revela como as que caracterizariam os últimos dias.

Vamos primeiramente olhar, de maneira breve, a mensagem do Senhor glorificado para Filadélfia, conforme registrado em Apocalipse 3.7-13, pois esta é a primeira referência à Sua “vinda breve” que encontramos nestas cartas às Igrejas.

1. A verdadeira Igreja no tempo do fim

Note que (1) será um tempo em que tudo ao redor dos cristãos será tão antagônico para todo serviço do evangelho que somente o próprio Senhor estará apto a abrir portas para Sua mensagem e Seus mensageiros e mantê-las abertas (vv. 7,8); (2) um tempo em que Seu povo terá apenas “pouca força” comparado às forças contra ele; (3) um tempo em que o máximo que é possível será vitória negativa, isto é, a vitória do que eles não farão, e não do que eles são capazes de cumprir — “não negaste o Meu nome” (v. 8).

No mundo religioso (4) será um tempo de confissão (v. 9) sem verdadeira comunhão com Deus, e (5) um tempo em que a única palavra que o Senhor falará ao Seu povo será “paciência”: “guardar a palavra da Minha paciência” (v. 10). Nada mais será possível. Nada de “progresso” ou “faça grandes coisas”, mas paciência. Nessa condição, da paciência de Deus trabalhada em Seus santos, Ele será capaz de mantê-los no “recôndito do Seu tabernáculo” durante as trevas que precedem a hora terrível que está por vir sobre a terra habitada (v. 10). Se o Seu povo é impaciente, eles não podem ser guardados de ser envolvidos nas tribulações e sofrimentos, pois a impaciência leva o crente para fora do cuidado poderoso de Deus, provavelmente mais do que qualquer coisa.

O Senhor, portanto, fala: “como guardaste a palavra da Minha paciência, também Eu te guardarei”. Para os santos será também (6) um tempo de conflito, no qual o preço da coroa está em risco. “Guarda o que tens para que ninguém tome a tua coroa” (v. 11).

2. A condição do mundo no tempo do anticristo

Agora vamos passar a ver as condições do mundo nos últimos dias, quando o anticristo tiver sido revelado, conforme registrado em Apocalipse 13.1-18. Aqui temos uma figura completa do reino do anticristo em dois aspectos: civil e religioso.

Quando a “besta”, o anticristo, obtém o trono do mundo, e “grande autoridade”, a condição das coisas, como descrita em Apocalipse 13, não terá chegado àquele ponto repentinamente, mas será o resultado climático de trabalhos forjados previamente por espíritos do anticristo (ver 1Jo 2.18). Conseqüentemente, quanto mais perto chegamos da volta do Senhor, mais os crentes descritos na mensagem à Filadélfia se encontrarão à negra sombra do reinado vindouro da besta e serão capazes, à luz da Palavra de Deus, de ver progressivamente as evidentes características marcantes do terror por vir.

Vamos ver brevemente algumas das linhas centrais do que é descrito em Apocalipse 13 e nos perguntar se já não vimos alguns dos sinais daquilo que está à frente. Note primeiramente que toda situação será resultado direto dos planos e do poder do dragão. “O dragão deu-lhe o seu poder, e o seu trono e grande autoridade” (v. 2). Diz claramente que o dragão governará o mundo através de dois instrumentos: a besta — o anticristo —, como cabeça de toda autoridade civil, e o falso profeta, como cabeça de todos os movimentos religiosos da época (vv. 11,12).

Observe algumas das características fundamentais da besta:

1) ela recebe adoração, reverência de todo o mundo, e, através desta reverência à besta, o dragão obtém adoração mundial, pela qual havia anelado desde o momento em que disse, em eras remotas: “serei como Deus” (Is 14.14). Sua grande ambição é obter a adoração devida apenas ao Mais Elevado, e ele obtém isso por um breve período antes do Senhor retornar em glória.

2) Observe as descrições impressionantes dadas das características principais da besta, pelas quais “toda a terra se maravilhou” dela e rendeu-lhe adoração. Ela teve uma “chaga mortal” que foi curada.

A besta foi1 alguém miraculosamente curado. E curado tão assombrosamente que “toda a terra se maravilhou” e se curvou diante de tal evidência de poder sobrenatural. Isso mostra claramente que o dragão é capaz de “curar” e falsificar a ressurreição do Senhor, e que o anticristo e o falso profeta obterão seu poder sobre “todos os que habitam sobre a terra” inteiramente pelo poder satânico. (3) A influência da besta foi exercida principalmente através do discurso; “falando grandes coisas e blasfêmias”; ela blasfemou contra Deus, contra Seu nome, contra Seu tabernáculo, contra os céus e os redimidos que habitam no céu. Que terrível descrição do estado do mundo sob o governo do arcanjo caído, Satanás! Blasfêmias abertas contra Deus e contra todos os que Lhe pertencem, penetrando através de “toda a tribo, e língua, e nação”. (4) À besta foi permitido fazer guerra aos santos, para vencê-los e matá-los e, ao fazê-lo, ele aparentemente se torna o mestre de toda terra habitada (v. 7).

3. O cordeiro falsificado e seus milagres

Na segunda besta, vemos uma descrição extraordinária de uma imitação sobrenatural da verdadeira obra do Espírito Santo de Deus. Parece que o anticristo pode apenas obter e manter seu poder sobre toda a terra por meio de uma falsa religião, com sinais dos céus para provar que ela veio de Deus. A figura toda (vv. 11-18) é de uma imitação sobrenatural de realidades divinas — não de apostasia intelectual — e de uma forma de divindade sem o poder.

A segunda besta ressuscita na forma de um cordeiro, imitando Cristo, o verdadeiro Cordeiro de Deus, apenas distinguível do verdadeiro por seu discurso, por seus ensinamentos e doutrinas. Ele se parecia com um cordeiro, mas falava como um dragão (v. 11). Ele tinha poder equivalente ao da primeira besta, com semelhante influência (v. 12), e foi totalmente devotado a induzir todos os habitantes da terra a adorar o anticristo e, não vamos nos esquecer, tudo isto por trás do anticristo, o dragão (v. 4).

Como o falso cordeiro obtém a “adoração”? (1) Ele fez “grandes sinais” (v. 13). (2) Ele fez descer fogo do céu, não de baixo, mas do céu, no qual o príncipe do poder do ar vagueia à vontade (v. 13). (3) Ele engana os habitantes da terra por meio de milagres (v. 14). (4) Ele estava apto a dar vida a uma imagem da besta e induzi-la a falar (v. 15), mas tudo será forjado pelo “poder” suprido pelo dragão.

4. Os santos vencedores no tempo do anticristo

E os cristãos verdadeiros? Não há exceções para esta reverência mundial à besta e para o dragão por trás dela? Sim! Os santos do Calvário viram o poder por trás dos fatos, e recusaram-se a adorar (v. 8). E qual foi o resultado? A besta tinha “poder para fazer com que todos os que não adorassem (…) fossem mortos” (v. 15).

Aqui há um vislumbre do poder do dragão para matar os santos que se recusam a reverenciá-lo. E posteriormente, “faz que a todos (…) lhes seja posto um sinal (…) para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal” (vv. 16, 17). Isso foi para subjugar pela fome aqueles que não adorassem. No mundo ímpio, podemos ver o crescente trabalho de espíritos anticristãos blasfemando contra Deus, e no mundo religioso, espíritos anticristãos imitando Cristo e fazendo grandes maravilhas.

Diante deste quadro panorâmico dos dias vindouros, e do inegável fato de que já estamos na preparação mundial para sua plena manifestação, a grande questão para a Igreja agora é: “O que esperamos de Deus em tal tempo?” As Escrituras nos mostram Deus fazendo “sinais e prodígios” em competição com as “imitações” que o espírito do anticristo e do falso profeta já está fazendo na terra? Ou a figura enfatiza que o único poder que capacitará os santos a permanecer nos dias maus é o conhecimento da cruz, e que o único caminho para eles é o caminho da cruz?

5. Os santos do Calvário antes e durante o reinado da besta

“Todos (…) adoraram-na, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida, do Cordeiro morto desde a fundação do mundo” (v. 8). O quadro é de todos os habitantes da terra dando ao dragão adoração, exceto, em toda a terra, dos santos do Calvário, aqueles que sustiveram a única verdade do Cordeiro morto, e aqueles que preferem morrer por Ele a render um ato sequer de adoração ao dragão (Ap 12.11). Isso não se parece com Deus vindo com sinais e prodígios para combater os imitações de Satanás.

Antes, isto está na linha dos princípios da obra de Deus descritos pelo Senhor. “E nenhum sinal lhes será dado, senão o sinal do profeta Jonas” (Mt 16.1-4). “Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e noites no seio da terra” (12.38-40). O único sinal que Deus deu aos judeus que pediram a Cristo um “sinal do céu” foi sua morte no Calvário, e o grande sinal que haverá Dele nos dias do anticristo será Seu testemunho da morte resgatadora de Seu Filho por meio daqueles que partilham do Espírito de Cristo, sacrificando a própria vida por Ele.

Isso parece confirmado também em Apocalipse 20.4-6. Aqueles que “viveram e reinaram com Cristo durante mil anos” eram aqueles que tinham sido mortos por seu testemunho do Cordeiro morto e por manter a Palavra de Deus, e eram estes os que não adoraram a besta nem receberam sua marca para poder comprar e vender e, então, viver. Pelo fato de todas essas condições estarem presentes na terra, parece claro que não há promessa para os últimos dias de movimentos de “sinais e prodígios” dados por Deus, nem mesmo de um ajuntamento rápido de multidões de almas para Cristo. Mas haverá movimentos mundiais permitidos pelo príncipe do poder do ar quando o evangelho da cruz será omitido ou obras fraudulentas de espíritos do anticristo visando a encobrir a mensagem da cruz em seu pleno poder. Tampouco há base alguma para esperar por um triunfo visível dos santos vencedores, pois “foi-lhe [à besta] permitido fazer guerra contra os santos e vencê-los” (Ap 13.7).

6. O conhecimento da cruz é necessário nos últimos dias

“O Cordeiro morto desde a fundação do mundo” (Ap 13.8). É surpreendente encontrar essa declaração no meio do manifestado reinado do anticristo sobre o mundo. A expressão engloba toda a obra de Cristo no Calvário, como o Cordeiro que morreu por aqueles cujo nome está no Seu livro da vida. A única necessidade para os filhos de Deus no tempo do fim é conhecer, em toda a sua plenitude, o significado da cruz, para usar isso como uma arma de vitória sobre o dragão em todos os seus vários ataques contra o povo de Deus.

7. Como distinguir o verdadeiro poder do falso

Não há também “obras elevadas”, “curas” de Deus e “milagres” feitos por Ele? Seguramente há, mas a diferença entre as obras forjadas do anticristo e a obra do Espírito Santo é que o verdadeiro poder de Deus invariavelmente alcança a alma via Calvário, não por meio de espetacular “competição” com os prodígios prenunciados dos espíritos de Satanás, de modo que o mundo espectador dos homens não pode distinguir o falso do verdadeiro, mas numa profunda aplicação trabalhada interiormente, pela palavra da cruz como o poder de Deus, pelo Espírito de Deus, por meio do qual o crente é liberto, não apenas do poder do pecado, mas também é-lhe dado conhecer, em sua carne mortal, a vida pela qual Jesus venceu a morte em toda a força do seu poder.

Os “milagres” de Deus não são sempre externamente cumpridos, mas trabalhados no íntimo do espírito do homem via Calvário. Mais profundo e mais pleno do que qualquer cura do corpo é a maravilhosa obra de Deus, pela qual “aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos” vivifica o corpo mortal (Rm 8.11) do crente, tanto que ele é “entregue à morte diariamente por causa de Jesus” (2Co 4.10-12).

“Por seus frutos o conhecereis”, disse o Senhor a seus discípulos, pois o fruto, como resultado da vida interior, revela a origem oculta de ação. “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus (…) muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas?” (Mt 7.15-23). Os feiticeiros no Egito, trabalhando pelo poder de Satanás, puderam produzir “sangue” falso (Êx 7.22) e o inimigo sutil é capaz de introduzir seus “prodígios” sob uma imitação do “sangue do Cordeiro”, como visões do “sangue” cobrindo a alma, e “rios de sangue” enchendo uma sala. Mas o sangue do Senhor Jesus Cristo fala nos céus no trono de misericórdia, e não tem forma material em sua aplicação para o crente.

“Os discípulos chegaram-se a Ele, em particular, e lhe pediram: Dize-nos (…) que sinal haverá (…) da consumação do século. E ele lhes respondeu, dizendo: porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24.3,24). Ele não diz que enganar os eleitos não é possível, mas, sim, que o propósito do impostor é alcançá-los.

“Vede que vo-lo tenho predito”, disse o Mestre, mostrando claramente que é através de “sinais e prodígios” que o perigo virá aos sinceros filhos de Deus, num tempo em que anormalidades serão abundantes, e em que o amor esfriará de muitos. Nestes dias perigosos vamos vigiar e ser sóbrios (1Ts 5.6; 1Pe 4.7).

1No original, o verbo está no passado, provavelmente para concordar com os verbos em Apocalipse, todos sempre no passado. (N.E.)

Jessie Penn-Lewis

(Extraído da extinta revista O Chamamento Celestial 4, publicada por CCC Edições, abril de 2002)

Site Campos de Boaz


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Exaltando o Senhor“Todo-Poderoso , aquele que era , que é, e que há de vir.”
“Ora, vem, Senhor Jesus!”

A IGREJA E AS IGREJAS - IRMÃO WATCHAMAN NEE.




A Palavra de Deus nos ensina que a Igreja é uma só. Por que então os apóstolos fundaram igrejas em cada lugar que visitaram? Se a Igreja é o Corpo de Cristo, Ela só pode ser uma. Assim, como podemos falar de igrejas?

O vocábulo igreja quer dizer os chamados para fora . Esse termo é usado duas vezes nos Evangelhos: uma vez em Mateus 16:18 e outra em 18:17. Além disso, achamos esse vocábulo freqüentemente em Atos e nas Epístolas. Nos Evangelhos o termo é usado pelo Senhor nas duas ocasiões, mas é empregado em sentido diferente em cada vez.

“Também Eu te digo que tu és Pedro, e sobre essa rocha edificarei a Minha igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18). Que igreja é essa? Pedro confessara que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo, e o nosso Senhor declarou que edificaria a Sua Igreja sobre essa confissão, a de que, quanto à Sua Pessoa, Ele é o Filho de Deus, e, quanto à Sua obra, Ele é o Cristo de Deus. Essa Igreja compreende todos os salvos, sem referência a tempo ou a espaço, a saber, todos os que são redimidos no propósito de Deus por meio do sangue derramado do Senhor Jesus, e nasceram de novo mediante a operação do Seu Espírito. Essa é a Igreja universal, a Igreja de Deus, o Corpo de Cristo.

“E, se ele recusar ouvi-los, dize-o à igreja” (Mt 18:17). O vocábulo igreja é usado aqui num sentido bem diferente do de 16:18. A esfera da igreja a que se refere o termo aqui é claramente não tão abrangente como a esfera da Igreja mencionada na passagem anterior. Em 16:18, Igreja é a Igreja que não conhece tempo ou espaço, mas a igreja em 18:17 é obviamente limitada, tanto ao tempo como ao espaço, pois pode-se falar a ela. A Igreja mencionado no capítulo 16 inclui todos os filhos de Deus em todas as localidades, ao passo que a Igreja mencionada no capitulo 18 inclui somente os filhos de Deus que vivem em uma localidade; e é por ser limitada a um só lugar que é possível dizer aos crente que a compõe quais são as nossas dificuldades. É óbvio que a igreja aqui é local, e não universal, pois ninguém consegue falar de uma só vez a todos os filhos de Deus em todo o universo. Só é possível falar de uma só vez aos crentes que vivem num só lugar.

Temos claramente perante nós dois aspectos da Igreja: a Igreja e as igrejas, ou seja, a Igreja universal e as igrejas locais. A Igreja é invisível; as igrejas são visíveis. A Igreja não tem organização; as igrejas são organizadas. A igreja é espiritual; as igrejas são espirituais, contudo físicas. A Igreja é puramente um organismo; as igrejas são um organismo, contudo são ao mesmo tempo organizadas, fato esse comprovado por haver nelas presbíteros e diáconos.

Todas as dificuldades da Igreja surgem em conexão com as igrejas locais, e não com a Igreja universal. Esta é invisível e espiritual; logo, ultrapassa o limite humano, ao passo que aquelas são visíveis e organizadas; logo, são passiveis de ser tocadas por mãos humanas. A Igreja celestial é tão distante do mundo que é possível não ser afetada por ele, mas as igrejas terrenas são tão próximas a nós que, se surgem problemas nelas, nós os sentimos vividamente. A Igreja invisível não põe a prova a nossa obediência a Deus, mas as igrejas visíveis nos provam severamente, pondo nos frente a frente com questões no plano intensamente prático da vida terrena.

Extraído do livro: A Vida Cristã Normal da Igreja – Editora Árvore da Vida

A IDENTIDADE DO TESTEMUNHO DA IGREJA - IRMÃO GINO IAFRANCESCO VILLEGAS




Oremos

“Senhor, obrigado Pai pelo Senhor Jesus, obrigado Pai em nome do Senhor Jesus, obrigado Senhor pelo teu Espírito, pela tua fidelidade, pela tua bondade, pela tua presença, pela tua realidade, obrigado Pai; confiamos integralmente nosso ser ao Senhor; guarda-nos de nós mesmos e do inimigo; na tua confiança em Cristo Jesus. Amém”


A NOSSA HERANÇA

Irmãos, tenho para compartilhar com a Igreja aqui em Almirante Tamandaré, algo que o Senhor em várias ocasiões e em vários lugares me coloca para compartilhar com diversas igrejas. Isto que vou falar com os irmãos é algo que tenho falado também em outros lugares. Quem sabe algumas coisas vocês já conhecem, possivelmente tudo, mas é a carga do Espírito lembrar aos irmãos alguns pontos essenciais

A carga do meu coração para com a Igreja hoje aqui é para que o Espírito Santo possa nos dar discernimento da identidade de nosso testemunho. Nós, a Igreja, somos um testemunho do Senhor na terra, e o Senhor tem encomendado à Igreja, somente à Igreja, certas “coisas”, e vou falar “coisas” entre aspas porque é claro que o que o Senhor deu é muito mais do que “coisas”, Ele mesmo se deu, mas para resumir vamos usar uma palavra fácil

Às vezes com muita facilidade nós nos perdemos pelos ramos, ficamos pela periferia; às vezes damos voltas pela periferia sem discernir as prioridades e sem discernir o conteúdo que nos foi confiado. Então gostaria de chamar a atenção para alguns itens deste conteúdo que o Senhor deu à Igreja. Como estávamos cantando, “é a nossa posse, é a nossa herança”, é algo que somente nós, a Igreja, temos. É algo que é particular dos cristãos, particular da Igreja, você não encontra isso nem se quer nos monoteísmos judaico ou islâmico. Somente que, o que vamos lembrar e tomar consciência de novo, é algo próprio da nossa identidade cristã, e se encontra somente na Igreja. Não se encontra nem mesmo na academia ou na ciência, a menos que entre eles existam alguns irmãos, mas não quanto a acadêmicos, não quanto a cientistas, mas quanto a irmãos, a academia pode ter algumas destas coisas que vamos estar lembrando


OS FILHOS NOVOS

Vamos imaginar que estamos abrindo um livro e que chegamos àquela página inicial onde aparece o conteúdo, o índice, onde aparecem mencionados os títulos dos capítulos. Se você quer ter uma idéia do que trata o livro, você lê o conteúdo e então tem uma idéia do que trata este livro, qual é o tema do livro. Isso é o que vamos fazer hoje à noite. Vamos somente dar uma olhada panorâmica; vamos com a ajuda do Senhor identificar alguns itens de suprema importância para a Igreja, os quais foram confiados à Igreja, são nosso tesouro, têm que ser nossa riqueza constante e nosso testemunho

Como o Senhor constantemente está recebendo filhos, e a mãe Igreja, como Paulo diz em Gálatas, está também tendo seus filhos para o Senhor, então a Igreja precisa estar alimentando bem aos filhos novos. Eles precisam conhecer quais são os “assuntos”, e vou falar entre aspas, porque não são só “assuntos” fundamentais. Cada um destes itens que vamos mencionar tem sido terrivelmente atacado pelo diabo. O diabo procura no máximo possível evitar que essas “coisas” sejam claras para a Igreja. Ele procura por todos os lados nos confundir, introduzir heresias, confusões, nos afastar do central e nos levar pelas periferias e pelos ramos. Então irmãos, gostaria que tomássemos nota em nosso coração para não esquecermos algumas “coisas” que gostaria de mencionar


A TRINDADE

A primeira palavra que devemos tomar em conta, a primeira “coisa”, e não é “coisa”, que foi confiada à Igreja, a qual é o maior tesouro da Igreja e que é também o maior espetáculo, porque existem alguns espetáculos, e o maior espetáculo que sempre seguirá sendo por toda a eternidade é a própria Trindade. O próprio Deus que se revelou a nós como um Deus que é trino. Um Deus que é Pai, Filho que também é Deus com o Pai, e o Espírito Santo que é o Espírito do próprio Deus, que também é divino. Como Deus poderia ter um Espírito que não fosse divino? Que fosse uma meia “coisa” ou “coisa”? Todo o Deus é divino, o Pai, o Filho e o Espírito Santo de Deus são o único Deus, mas este Deus se revelou trino à Igreja. Só a Igreja conhece a Deus em Trindade

O diabo procurou combater isto introduzindo, desde o começo da história da Igreja, heresias para confundi-la, para que ela não conhecesse a Deus e a Cristo. Se a Igreja não conhece a Cristo, não conhece Deus. Se a Igreja não recebe a Cristo, não recebe a Deus. Se não honra ao Filho não honra ao Pai. Irmãos, essa é a grande tragédia daqueles outros monoteísmos que não são o monoteísmo da Igreja. A grande tragédia do judaísmo que rejeitou ao Messias Jesus Cristo, a grande tragédia do islã que ama ao único Deus, que eles chamam Alá, e querem dar a vida por ele. Muitos estão se suicidando com bombas em uma guerra santa por motivos religiosos. Eles estão fazendo isso pensando que o fazem por Deus. Que coisa triste é isso, mas é verdadeira e tem que ser dita. Quem não recebe ao Filho, não recebe ao Pai; quem não tem o Filho, não tem tampouco o Pai; quem não honra ao Filho, não honra ao Pai

O único monoteísmo verdadeiro é o monoteísmo do cristianismo. É o monoteísmo, usando esta palavra da história da Igreja, trinitário. Esse é o maior espetáculo; não existe maior foco para nos concentrar e que nos atrai do que o próprio Deus. O assunto da Trindade não é somente um assunto teológico para os seminaristas ou quem sabe para os pastores ou alguns mestres. Deus se revelou trino à Igreja e isso é para toda ela. A Igreja conhece a Deus pelo Espírito e por Cristo. Graças ao Espírito conhecemos a Cristo e graças a Cristo conhecemos a Deus nosso Pai

A primeira “coisa” importante que foi revelada à Igreja, foi o próprio Deus. A criação, e ainda a redenção, foram reveladas somente por causa de Deus. Primeiramente estava o Pai e o Filho com o Espírito Santo; e foi por causa deste relacionamento interno da Trindade que veio a existir a criação e a redenção. A criação e a redenção têm origem e têm um destino que é a Trindade




A Trindade abrange tudo, é o “Alfa” e o “Omega”, tudo está nela. Foi porque o Pai amou o Filho e então quis dar-lhe um presente é que criou no Filho e com o Filho. Com Ele planejou e criou, nEle e para Ele; o Pai fez tudo no Filho. Esse é um assunto entre o Pai e o Filho. A criação, a redenção e o evangelho é um assunto entre o Pai e o Filho. É o Pai que ama o Filho e quer fazê-Lo marido de uma mulher, de uma esposa mística, a Igreja. Quer casá-Lo, quer que Ele seja o Cabeça de todas as coisas, de todo principado e potestade, e de todo varão, mas principalmente da Igreja. Ele quer casar Seu Filho com a Igreja; quer que Seu Filho Unigênito seja o Primogênito entre muitos irmãos. Todas as coisas foram feitas por causa deste relacionamento íntimo de Deus, o Pai com o Filho no Espírito Santo


O RELACIONAMENTO NA TRINDADE

Irmãos, vamos continuar martelando mais neste ponto. Depois, se Deus nos conceder, passaremos para outros pontos; vamos nos deter um pouco mais aqui. O fato de que Deus tem um Filho Unigênito Eterno com Ele no Seu seio desde a eternidade e que Deus delegue a Ele o que delegou, isso nos fala muito de Deus. Conhecemos a Deus por causa do Filho; Deus tem um Filho e aí vemos a essência e natureza de Deus que é amor. Conhecemos a Deus, a Sua essência e a Sua natureza, porque Deus tem um Filho e agradou ao Pai que no Filho habitasse toda a plenitude; isso nos revela Deus. Se Deus não tivesse um Filho, se o Deus único não tivesse um Filho igual a Ele mesmo, seria que Deus é amor? Mas o Deus único, centro legítimo de todas as coisas, princípio e fim de tudo, um Deus que é amor, diz que tem um Filho. Tudo o que Deus faz, o faz por causa da paixão que tem pelo Filho. É um Deus que não faz nada sem o Filho

Deste relacionamento interno da Trindade resulta o modelo e a dinâmica para as famílias, para a Igreja e para a sociedade, se receberem a Cristo e ao testemunho da Igreja. Este assunto da Trindade não é somente teológico, mas é extremamente prático; é sociológico e psicológico. Da Trindade vem a realização de todas as coisas; todas as coisas se realizam na Trindade, pela Trindade, diante dela e para ela. O “assunto” da Trindade é uma grande prioridade que a Igreja tem que ter e nunca deve esquecê-la


O CONHECIMENTO DA TRINDADE

Quanto temos que aprender ao ver com olhos espirituais este espetáculo. Que o nosso espírito possa ver o espetáculo da Trindade. Não estou falando somente da doutrina intelectual da Trindade, ainda que precisamos do intelecto, pois Deus nos deu e precisamos dele, mas estou falando de uma percepção espiritual da Trindade. É do relacionamento do
Pai com o Filho que o Espírito Santo nos faz conhecer e perceber a Trindade. Na medida em que vamos percebendo, vamos sendo conquistados, vamos cedendo a Ele e a essa visão dEle. O Pai vai transferindo o que é dEle a nosso ser e vamos sendo transformados na medida em que conhecemos a Deus na Sua Trindade

Quantas coisas o Pai poderia ter feito sozinho, mas Ele nunca quis. Nada do que foi feito foi feito sem o Filho. Antes de fazer, diz Provérbios capítulo 8, a Sabedoria de Deus, que é Cristo conforme primeira aos Coríntios 1:24, estava como o Seu Arquiteto. O Filho é o Arquiteto do Pai. Um arquiteto trabalha em comum acordo e segundo os interesses, a personalidade, o caráter e os objetivos do dono do que ele está fazendo. O Pai quer construir uma casa e o Arquiteto tem que conhecer o que Pai quer. Eles conversam e dizem: "Vamos fazer isso aqui, vamos colocar isso ali, vamos levantar isso assim"

Irmãos, olhem para o caráter de Deus, que é onipotente, que sabe tudo, que não precisa de nada, e é um Deus que compartilha a criatividade e não quer fazer nada sozinho. Os que são casados vão me entender, especialmente os que viajam. Quando saímos de viajem e vemos uma paisagem formosa, a primeira coisa que pensamos é: ‘Ah se ela estivesse comigo para que eu pudesse mostrar tudo isso a ela, para que ela se alegrasse comigo e para que eu desfrutasse com ela desta paisagem. Olhe que mar tão lindo! Olhe que montanhas e bosques!’ Queremos sempre compartilhar. Quando Deus falou: “não é bom que o homem esteja só”, não falou somente do homem Adão que era a figura daquele que viria. Em Romanos 5 fala sobre isso e em segunda aos Coríntios fala de Eva tipificando a Igreja. Paulo disse que não queria que assim como Eva foi enganada pela serpente a Igreja fosse também enganada. Ele estava comparando Eva com a Igreja e Adão com Cristo


A TRINDADE NA CRIAÇÃO

Assim, essa Palavra: “não é bom que o homem fique só”, nasce do caráter de Deus; e por causa do Seu caráter Ele tomou essa determinação; esse foi o juízo de Deus, a Sua sentença: “Não é bom que o homem esteja só”; estar só é algo egoísta, é algo sem sentido. Deus é amor, e o que é bom e Aquele que é amor, compartilha o que é bom. Então Ele disse: “façamos uma ajudadora idônea para ele”; aqui Deus não estava falando somente de Adão e Eva; claro que também estava falando deles, mas estava falando mais. Adão e Eva são uma figura e também são pessoas históricas reais que servem de figura assim como Abraão, Sara, Agar, Ismael, Isaac que são personagens da história mas que servem de alegoria. Assim Adão é o primeiro homem histórico e Eva a primeira mulher histórica e por detrás destas pessoas históricas Deus está projetando revelação. Ele constituiu estas pessoas históricas, Adão e Eva, como figuras; por isso Ele disse: “Deixará o homem seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher e os dois serão uma só carne.” “Mas eu digo isto”, disse Paulo, “de Cristo e a Igreja”, ou seja, o matrimonio é uma figura mística do mistério de Cristo e a Igreja; O que expressa Cristo e a Igreja? Expressa o caráter de Deus, Ele é amor

“Não é bom que homem esteja só”; assim como Deus, que é suficiente em si mesmo, que é amor, não ficou tranqüilo se não criasse. Se Ele tivesse criado somente até certo nível, não ficaria tranqüilo. Assim Ele tomou a decisão, o Pai o Filho e o Espírito Santo juntos: “Façamos o homem a nossa imagem e nossa semelhança”. Vamos fazer uma criatura que não fique pela metade, nem noventa por cento, mas vamos fazer uma criatura que seja como nós. Assim foi sempre, o Pai com o Filho, e continua sendo com o homem, com a Igreja; esse é o caráter de Deus. Quando vemos a relação do Pai com o Filho no Espírito, daí provem toda classe divina de inspiração e de realização

Ele é o Seu Arquiteto diante de Deus; “comigo são suas delícias” disse a Sabedoria de Deus que é Cristo, o Filho, o Verbo de Deus. Ele é a Palavra que expressa Deus. Cada palavra expressa uma coisa; microfone expressa isso; flor expressa isso; Bíblia expressa isso; mesa expressa isso; mas o Verbo de Deus é a Palavra que expressa e define claramente a Deus. É o Verbo de Deus que é a Palavra que expressa o autoconhecimento e a Revelação de Deus. Ele sempre está com Deus como o Unigênito dEle


A VIDA NA TRINDADE

Como o Pai tem vida em si mesmo deu ao Filho também ter vida em si mesmo. Assim os dois têm vida em si mesmos, ou seja, a vida divina, a vida em si, a vida eterna, a vida que vem de si mesmo. Nós todos temos a vida que vem dEle. Nossa vida é contingente e depende dEle, mas a vida dEle é auto-suficiente, é vida em si mesma, a vida divina

A essência de Deus que o Pai tem, Ele quis que o Filho também tivesse, mas não quis no tempo, pois isto foi uma decisão na eternidade. Então o Filho tem a mesma essência do Pai; é tão divino quanto o Pai somente que é Unigênito e o Pai é Ingênito. O Pai gerou o Filho mas não no tempo, porque o Filho é Sua imagem com a qual Ele se conhece, e pela qual Ele se revela. A imagem do Deus invisível é o Filho, e o Pai é o Deus invisível. A imagem pela qual Ele se revela, porque primeiro se conhece para depois se revelar, é o Seu Filho

A imagem é o Filho. Ele tem vida em si mesmo dada, e o Pai tem vida em si mesmo sem que ninguém dê. Ninguém deu vida em si mesmo ao Pai, mas o Filho tem a mesma vida, essência e natureza do Pai, somente que dada pelo Pai, e por isso Ele é chamado de Unigênito

O Pai deu vida em si mesmo, deu a arquitetura, deu a criação, e esta é a característica do amor: delegação, participação e comunhão, que é querer fazer com o outro, envolver o outro e interessar-se pelo outro


O COMPARTILHAR NA TRINDADE

O Filho foi “contratado” como Arquiteto pelo Pai; Ele poderia fazer tudo sozinho, mas não quis fazer nada sem o Filho; tudo Ele faz pelo Filho. O Pai não precisa de anjos para nos cuidar, mas os anjos cuidam dos Seus santos; é do caráter de Deus. Um Deus que compartilha, que dá, que é solidário, que delega, que gosta da participação do outro, que gosta da realização e do gozo do outro. Conhecemos isso ao ver o Pai e o Filho

Vida em si mesmo, arquitetura, revelação de Deus também foi delegada ao Filho, que é o resplendor da glória do Pai. Ninguém pode ver o Pai diretamente senão através do Filho. O Pai é chamado o Deus invisível, mas se faz declarado através do Filho. Todas as aparições tiofênicas parciais de Deus na história bíblica foram através do Filho que é o Revelador de Deus. A revelação foi delegada ao Filho; não há revelação de Deus sem o Filho, assim como não há criação de Deus sem Ele; não há planificação sem o Filho; não há amor de Deus sem o Filho




A DELEGAÇÃO NA TRINDADE

Há outra coisa grande que o Pai delegou ao Filho. Que coisa! Que confiança imensa! O Pai conhecia o Filho e ninguém sabia do que Ele era capaz. Mas o Pai conhecia o Filho e sabia do que Ele era capaz. O Pai que criou com Seu Filho sabia da rebelião, da queda, da miséria e do mal que viriam. Ainda assim o Pai delegou ao Seu Filho três coisas mais: redenção, juízo e reino

O Pai delegou ao Filho a redenção. Que coisa terrível, pois, exigia a santidade, a justiça e a glória de Deus depois do pecado do homem. Quem faria isso? O Pai sabia quem era Seu Filho, quem faria isso e quem seria tão leal para dar a vida por Deus e pelo povo de Deus

O sacrifício de Cristo tem dois aspectos: o aspecto de holocausto que é só para Deus, para vindicar a Sua glória, a Sua santidade, a Sua justiça que foi ferida, blasfemada e ofendida pelo homem; e a outra parte, a qual nós precisamos, que é a expiação. A expiação é para nós, e o holocausto é para Deus

Deus tinha que ser satisfeito e nós tínhamos que ser remidos. E a quem confiou o Pai isso? Ao Filho. O Pai permitiu tudo para mostrar o Seu Filho; isso é uma coisa que o Pai gosta. Como o Pai ama o Filho, Ele sabe o que o Pai quer fazer. O Pai quer revelar o Seu Filho e quer mostrar quem Ele é. Tudo o que o Pai permitiu tinha como objetivo mostrar quem é Seu Filho. O deleite do Pai é o Filho e Ele quer compartilhar esse deleite que tem no Filho

O Pai quer que nós também conheçamos Seu Filho e ao conhecê-Lo verdadeiramente vamos querer de todo coração ser como Ele; vamos querer nos colocar nas mão de Deus para que Ele possa trabalhar em nós e nos faça semelhante a Seu Filho. Este será o maior gozo do Pai, ver Seu Filho sendo formado e aparecendo em outras pessoas, filhos dos quais Seu Filho é o Primogênito


A REDENÇÃO, JUÍZO E REINO NA TRINDADE

Irmãos, a redenção abriu o coração de Deus e mostrou o conhecimento que o Pai tem do Filho. Este plano de redenção executado pelo Filho, que foi provado em tudo porque Ele não foi eximido da provação, é uma coisa muito grande. O Filho não foi eximido da prova mas foi provado diante dos anjos e dos homens
Todos nós muitas vezes temos perdido a provação e temos sido reprovados. Mas graças a Deus que aquele Filho Unigênito de Deus que se fez Filho do Homem, que foi provado em tudo conforme a nossa semelhança, foi aprovado

A vida pública, e antes a privada, foram declaradas agradáveis a Deus por Ele próprio publicamente. Da vida privada, que ninguém conhecia, no momento do batismo Deus disse: “Este é meu Filho amado em quem tenho prazer”. Ninguém conhecia essa vida privada, só o Pai. Antes do ministério público o Pai declarou que tinha contentamento naquele Seu Filho. A vida privada foi vivida para agradar a Deus. Ninguém estava entendendo o que estava acontecendo, só Deus. Deus estava entendendo a vida privada e por isso deixou duas testemunhas no Novo Testamento, irmãos dEle: Tiago e Judas Tadeu. Estes irmãos de Jesus O chamam de “Kurios”, de Senhor. Eles aplicam palavras a seu irmão Jesus que só podem ser aplicadas a Deus. Pedro, Tiago, o outro Tiago mais velho, de Zebedeu, e João foram testemunhas do ministério público e viram a Sua glória na Sua transfiguração no monte Tabor. Mas Tiago e Judas Tadeu foram testemunhas de outra coisa, foram testemunhas da vida privada de seu irmão

Quando lemos a epistola de Tiago que diz: “Senhor Jesus Cristo”, para nós, depois de vinte e um séculos de cristianismo, pode não significar muito; mas ele, sendo Seu irmão na carne, chama-Lo de Senhor! Isso só se fala a Deus. Por isso Deus escolheu estas duas testemunhas no Novo Testamento. O Pai delegou a redenção ao Filho e Ele deu testemunho de uma vida irrepreensível

Depois delegou o juízo, e foi por isso que o Senhor Jesus disse: “O meu Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo juízo porque Ele é o Filho do Homem”. O Pai se absteve de julgar e preferiu confiar o juízo ao Seu Filho. Mas o Filho não julga por si mesmo senão que ouve ao Pai. Vemos nós aí este relacionamento formoso? Vemos que não existe outro espetáculo maior, outro assunto maior que a Trindade, que o relacionamento do Pai e o Filho no Espírito Santo. O Juiz que Deus constituiu para julgar a todos os homens e as demais criaturas, é o Seu Filho

Também delegou ao Filho o Reino, assentou o Filho à Sua destra, e é através dEle que conhecemos a Deus. Tudo isso, vida em si mesmo, arquitetura, criação, revelação, redenção, juízo e Reino, que são sete assuntos, mostram o que o Pai deu ao Filho

A IMPORTÂNCIA DA TRINDADE

O Pai quis ter um Filho; isso nos mostra como Deus é e como o Filho é. Do mesmo jeito que o Pai é com o Filho, o Filho é com a Igreja. Assim como o Pai deu ao Filho, o Filho deu à Igreja. Assim como o Pai quer fazer tudo com o Filho, o Filho quer fazer tudo com a Igreja. O Pai delega glória ao Filho e o Filho diz, “A glória que me deste eu dei a eles”. Assim como o Pai passa para o Filho e o Filho passa para a Igreja, a Igreja passa para os maridos, os maridos passam para suas esposas, os pais passam para os filhos, as famílias passam para a sociedade; é um rio de vida, de inspiração e de realização que vem da Trindade

Irmãos, vendo a Igreja a importância deste “item” fundamental, que é o próprio Deus, não pode haver outra coisa anterior a ele. Nada mais pode ter o primeiro lugar. Este primeiro “item”, Trindade, a Igreja precisa conhecer, a divindade do Filho, a eternidade do Filho, a coexistência eterna do Filho com o Pai, a co-inerência das divinas pessoas e o que é distintivo de cada pessoa na Trindade

Só estou falando isso, o primeiro “item”, para que a Igreja celebre. Voltemos aqui e coloquemos aqui de novo o enfoque, nesta relação interna de Deus o Pai o Filho e Espírito Santo


O ASSUNTO CENTRAL: A TRINDADE

Irmãos, quando o Espírito Santo começou a trabalhar na Igreja, quando lemos a história da Igreja podemos ver qual era a Sua tônica. Qual era o “assunto” ao qual o Espírito Santo estava conduzindo a Igreja nos primeiros séculos. Ele queria abrir os olhos da Igreja sobre quem é Jesus Cristo, que relação tem o Filho com o Pai

Alguns poderiam pensar que Jesus fosse um homem, ou um profeta que Deus adotou, acima do qual veio a unção; havia muitas opiniões acerca de Jesus. Mas o Espírito Santo esteve ensinando à Igreja, pois isto é o que Ele faria: “Quando vier… Ele me glorificará”. Quando o Espírito Santo veio começou a glorificar o Filho, a demonstrar quem é esse Filho. A Igreja começou a confessar a consubstancialidade do Filho com o Pai, e isto é o que escandaliza o judaísmo e o islã. O Espírito Santo mostrou à Igreja quem é o Filho de Deus

A ENCARNAÇÃO

Então, irmãos, chegamos ao segundo “item” que já estava implicado no primeiro, mas tem que ser expressado de maneira explícita. O primeiro “item” é a riqueza e o tesouro da Igreja, pois é o que a Igreja tem por comida, a Trindade. O segundo item, que é o segundo espetáculo, porque também é um grande espetáculo, é a palavra chave: encarnação

Depois da palavra Trindade vem a palavra encarnação. A Igreja precisa conhecer a encarnação que é o segundo espetáculo: manifestado na carne, justificado em Espírito, visto dos santos, pregado aos gentios, crido no mundo e recebido acima na glória. Não há história maior, não há evento maior na história do que a encarnação do Filho de Deus, a vida humana do Verbo de Deus, que é o todo divino-humano

Em que consistiu a encarnação? É o despojamento, concepção no ventre da virgem Maria, nascimento e crescimento em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e diante dos homens. Aprendendo pelo padecimento, pela obediência, e sendo aperfeiçoado como homem. Deus não tem que ser aperfeiçoado; Ele não tem nada o que aprender, mas Ele se fez Homem, Seu Filho o Verbo Divino, e viveu a vida humana mais singular

Esta é a segunda “coisa” a qual chamo a atenção da Igreja. A Igreja tem que estar vendo estes assuntos: Trindade e encarnação. A encarnação é o segundo grande tesouro da Igreja. Irmãos, é a Igreja que entende isso, é a Igreja que come disto; fora da Igreja as pessoas não entendem nada disso, estão cegas. É a Igreja que está tendo os seus olhos um pouquinho abertos para conhecer a Cristo, o Verbo encarnado de Deus que foi feito homem e em tudo semelhante ao homem; com espírito humano, com alma humana, com corpo humano; provou tudo segundo a nossa semelhança, mas sem pecado

Irmãos, não existe aqui uma coisa maior do que esta vida humana ter sido vivida na terra. Essa classe de vida teve que ser limpíssima e da qual o próprio Deus deu testemunho. Deus se sentiu obrigado, por causa de Seu caráter, de dar testemunho desta vida. Ele falou publicamente “Este é o meu filho amado em quem tenho prazer”

Já tinham profetizado acerca dEle que não se encontrou engano na Sua boca, nunca fez maldade e foi simbolizado por um Cordeiro sem defeito. Nesta vida precisamos nos deter, nesta Pessoa humana, divina e humana, Filho de Deus e ao mesmo tempo Filho do Homem, Profeta, Sacerdote e Rei

A EXPIAÇÃO

A encarnação nos leva ao terceiro grande item, riquíssimo para a Igreja, terceira palavra chave dos assuntos da Igreja que nunca podemos esquecer: expiação. Terceira palavra chave, terceira riqueza e profundeza de Deus, expiação

O que é expiação? Da Trindade à encarnação, o Verbo Divino de Deus feito homem, foi morto pelos nossos pecados; isso é entrar no sentido da expiação

Irmãos, às vezes parece que a Igreja não viu o que é expiação. Houve séculos que pensavam que Ele morreu para nos dar exemplo de martírio. Algumas pessoas pensavam que a morte dEle era uma morte como a de outro mártir para nos dar exemplo. Claro que Ele nos deu exemplo, mas Ele não morreu só para nos dar exemplo, porque esse foi o preço dos nossos pecados

Recomendo aos irmãos um livro que já está publicado em português, demorou muito para ser publicado, mas agora já está nas livrarias cristãs. Este livro é do século onze, “Cur Deus Homo” é seu título em latim, e em português “Por que Deus se fez homem?” Do nosso irmão Anselmo de Cantuária. Ele foi o irmão que Deus usou na história da Igreja para que o Espírito Santo através dele tocasse a tecla da expiação. Depois que nos primeiros séculos Ele mostrou quem era Jesus como Deus e como homem, nos séculos médios mostrou a expiação


O ENTENDIMENTO DA EXPIAÇÃO

Irmãos, entender a Deus, a Cristo e a obra de Cristo tem sido o trabalho da Igreja por séculos. O Espírito Santo conduziu a Igreja nos primeiros séculos para que ela compreendesse quem era realmente Cristo. Finalmente no Concílio de Nicéia confessaram, como tinham que confessar, e não é que ali tenha começado o assunto, pois ele está na Bíblia, mas por fim foi entendido pela Igreja publicamente, que o Filho é consubstancial com o Pai, é Deus com o Pai. Ele é Deus de Deus e Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; esta foi a conclusão de quatro séculos

Bem, mas agora que já sabemos que o Verbo é Deus como fica este assunto de que Ele é homem também? Como se relaciona a divindade com a humanidade na Pessoa dEle? E aí vieram outros mais de dois séculos, o quarto, o quinto, e ainda o sexto para compreender bem o relacionamento entre a humanidade e a divindade na Pessoa única do Filho de Deus que se fez também Filho do Homem. Mas depois de que isso foi esclarecido na Igreja pelo Espírito Santo, chegou a era de compreender a expiação, ou seja, por onde Deus começa. Ele começa pela Pessoa e então pela obra de Cristo

Dentro do templo, no lugar santíssimo, no lugar central do testemunho de Deus, está a arca de ouro e madeira que fala da divindade e da humanidade do Senhor Jesus. Mas o que está em cima da arca? O propiciatório que nos fala da expiação. Propiciatório ou propiciação é a mesma coisa que expiação




Então quais são as “coisas” centrais as quais a Igreja tem que estar conhecendo? Ela tem que estar conhecendo a Trindade, a encarnação que é a humanidade de Cristo, e a expiação que é a obra de Cristo na cruz. Ela tem que estar conhecendo quantas coisas foram feitas na cruz, o que abrange a cruz de Cristo; a expiação e tudo o que está na cruz de Cristo

Como falei, somente estamos vendo o índice dos assuntos. Estou lembrando estes assuntos e trazendo a tona porque são “coisas” nossas, da Igreja, para que ela saiba que “coisas” formosas têm nas mãos. Não tem somente as doutrinas da Trindade, mas tem a própria Trindade. Não tem somente a doutrina da encarnação, mas tem o próprio Cristo. Não tem somente a doutrina da expiação, mas tem a experiência da salvação


A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ

A palavra chave depois de expiação é justificação pela fé. Os irmãos novos têm que ver a importância destas “coisas”. O que é Trindade? O que é a encarnação? O que é expiação? O que é a ressurreição? Quem é o Espírito Santo? O que é justificação pela fé, perdão e limpeza dos nossos pecados, da mancha do pecado? O que é a crucificação do velho homem? A justificação, santificação, regeneração, renovação, vivificação, transformação e conformação na imagem de Cristo, toda a obra de Cristo

Foi depois dos séculos médios onze, doze, treze, quando o assunto da expiação ficou forte, graças principalmente ao trabalho do nosso irmão Anselmo, então chegou a era da Reforma. Aí o Espírito Santo começou a chamar a atenção para a outra tecla da melodia, a justificação pela fé

Já falamos que Ele é o Filho, que é o Deus também, tanto Deus como homem, e da morte expiatória; então agora somos salvos não pelas obras, mas pela fé, “Justificados, pois pela fé tendes paz para com Deus”.Foi quando veio Lutero que começou a Reforma e vieram com ele outros reformadores. Então o Espírito começou a tocar nesta nova tecla da melodia, esta nova página da partitura do drama da redenção. Então, irmãos, temos que desfrutar de novo com frescura, com realidade, como sendo nosso, e que seja posse dos novos este assunto da justificação pela fé

Irmãos, todos estes “itens” são combatidos pelo diabo. Ele não quer que creiamos na Trindade, na encarnação, na expiação, na essência do Evangelho, a justificação pela fé e a salvação eterna. Tudo isso o diabo combate, mas a Igreja aprecia, a Igreja vigia, a Igreja conhece, defende e proclama o testemunho. Tudo isso é o tesouro da Igreja. Essa palavra que é tão simples para os crentes protestantes, a justificação pela fé, tem que ser mastigada, desfrutada, conhecida e ser a posse dos irmãos mais novos. Eles têm que ter clareza do que é ser justificado pela fé e serem salvos pela graça de Deus. Esta é a primeira etapa, a primeira parte da salvação e é o aspecto jurídico dela


A IGREJA

Então irmãos, a Trindade, a encarnação, a expiação, a ressurreição, o Espírito Santo e a justificação pela fé; agora chegamos a este item; “O Corpo”, a Igreja. Agora sim podemos passar do lugar santíssimo para o lugar santo onde encontramos a mesa e o candeeiro. Mas a mesa e o candeeiro estão em segundo lugar; em primeiro lugar esta a arca do testemunho. Deus e Cristo e a obra de Cristo recebida pela fé, então resulta a Igreja de Deus

Somente depois que ficou claro quem está dentro e quem está fora, quem é salvo e quem não, é que se pode entender a Igreja. Não adiantava o Espírito Santo tocar na “iglesiologia” se não esclarecesse primeiro o assunto da expiação e da justificação pela fé. Tinha que vir primeiro Lutero, Calvino, Melâncton, Zwínglio, todos eles, para depois virem os irmãos e começarem a ver o assunto da Igreja que é um Corpo

Quando vemos na história da Igreja, a sua separação do estado, aquela parte da Igreja, especialmente os Anglicanos que falavam que o rei da Inglaterra era seu vivo cabeça, toda aquela mistura e confusão, os irmãos estavam tratando de definir se a Igreja é visível ou invisível, se o estado tem direito sobre a Igreja ou não. Quantos irmãos morrendo por se libertar do estado, separando a Igreja do estado. Irmãos, aqueles séculos dezesseis, dezessete, até o dezoito, foi o parto da Igreja, para que ela compreendesse a si mesma como “O Corpo de Cristo”. Hoje em nosso século somos devedores deste longo parto da Igreja. Hoje recebemos a comida mastigada mas levou séculos para se mastigar, dissolver, digerir até ficar claro


A ESCATOLOGIA

Depois vem a escatologia; ela é o último capítulo da Teologia Sistemática. Se compreendemos a Igreja, o assunto dos vencedores, o assunto do arrebatamento, o Reino, o Milênio, depois da iglesiologia vem a escatologia, mas só depois de entender a Igreja. Não se pode entender a Igreja sem entender a justificação pela fé (salvação), e não se pode entender a justificação pela fé (salvação), se não entender a expiação; não se pode entender a expiação se não entender a encarnação (Cristo), e não se pode entender a encarnação (Cristo), sem entender a Trindade

Trindade, encarnação, expiação e todo o demais, ressurreição, Espírito Santo, e o efeito em nós da justificação pela fé, os demais efeitos; e então a Igreja, “O Corpo”. Somos um Corpo que guarda este conteúdo, este Deus, este Cristo, este Espírito, esta Vida, esta salvação, este testemunho; porque somos isto temos então esta esperança


O PROPÓSITO

Agora sim chega o propósito. A Igreja também conhece o propósito eterno de tudo isto, da criação, da encarnação, da expiação, o propósito para a Igreja. Também conhece a escatologia, Cristo a esperança da glória, a glória de Deus expressada na Esposa. Deus tendo se revelado e Si dado plenamente, agora consumando o Seu amor, novo céu, nova terra e nova Jerusalém, uma Esposa tendo a glória de Deus

Então, irmãos, estas são minhas últimas palavras; ainda que últimas são também importantes: Corpo, Igreja, propósito eterno, Reino, nova Jerusalém, consumação e escatologia; vamos parar aqui. Era uma visão panorâmica para nos lembrar dos assuntos que são nossos, são da Igreja e que é o nosso pão diário, o pão para nossos filhos e para os filhos de Deus. Amém

Oremos

“Pai, agradecemos ao Senhor porque nos concedeu considerar algo da tua Palavra;possua-nos, conquista-nos para Ti, conquista-nos para a noiva do Teu Filho, conquista-nos, Senhor, para a alegria do Teu coração. Conceda-nos Te servir nos Teus assuntos, a Ti pessoalmente por meio do Teu Filho e do Teu Espírito em nome do Senhor Jesus; amém”







Fonte: Editora Restauração