quarta-feira, 5 de maio de 2010

A IGREJA DE JESUS CRISTO UMA PERSPECTIVA HISTÓRICO-PROFÉTICA.

ÍNDICE


PALAVRAS DO TRADUTOR................................................................................03

CONTEÚDO.............................................................................................................04

PREFÁCIO................................................................................................................06

CAPÍTULO I-ÉFESO

(1ª Parte).......................................................................................................................08
(2ª Parte).......................................................................................................................16
(3ª Parte).......................................................................................................................29

CARTA AOS ESMÍRNIOS........................................................................................36

CAPÍTULO II-ESMÍRNA

(1ª Parte).......................................................................................................................40
(2ª Parte).......................................................................................................................51

MARTÍRIO DE POLICARPO DE ESMIRNA...........................................................63
EPÍSTOLA A DIOGNETO.........................................................................................68


CAPÍTULO III -PÉRGAMO

(1ª Parte)......................................................................................................................74
(2ª Parte)......................................................................................................................83
(3ª Parte)......................................................................................................................94

EDITOS IMPERIAIS ( EDITO DE MILÃO)..........................................................104
EDITO DE TESSALÔNICA....................................................................................106
DECRETO DE TEODÓSIO.....................................................................................106

CAPÍTULO IV-TIATIRA

(1ª Parte)....................................................................................................................108
(2ª Parte)....................................................................................................................121
(3ª Parte)....................................................................................................................130
(4ª Parte)....................................................................................................................140

DOAÇÃO DE CONSTANTINO.............................................................................152

CAPÍTULO VI-SARDES

(1ª Parte).......................................................................................................................153
(2ª Parte).......................................................................................................................164
(3ª Parte).......................................................................................................................174

TAXA CAMERAE.....................................................................................................184
DISCUSSÃO SOBRE O VALOR DAS INDULGÊNCIAS......................................187
TESES DO ARMINIANISMO VERSUS O CALVINISMO....................................191

CAPÍTULO VI- FILADÉLFIA

(1ª Parte)......................................................................................................................194
(2ª Parte)......................................................................................................................204

ALGUNS TESTEMUNHOS DOS IRMÃOS...........................................................217

CAPÍTULO VII- LAODICÉIA..............................................................................218

BIBLIOGRAFIA......................................................................................................229
















PALAVRAS DO TRADUTOR

Amados irmãos!

É com muita alegria e satisfação no espírito que vos apresento esta obra que Espírito Santo trouxe para a língua portuguesa tendo em vista a edificação do corpo de cristo, da igreja de fala portuguesa. Particularmente, nunca vi uma exposição da história da igreja com uma visão tão ampla e equilibrada como a apresentada neste livro. O desejo do meu coração é que o Senhor use esta literatura para encher e renovar a mente dos Santos e dar-lhes clareza do porque hoje estamos enfrentando essa apostasia e esfriamento.
Que possamos estar apercebidos, com nossas vasilhas cheias e transbordantes do óleo que o é Espírito de Deus. Que O Senhor use esta ferramenta para despertar aos que dormem, antes que se dê o grito: Eis o Noivo!!
AGRADECIMENTOS

Quero deixar escrito neste livro palavras de gratidão que transbordam em meu coração.
Em Primeiro Lugar quero agradecer ao Meu Senhor Jesus Cristo que por intermédio de Seu Espírito, me conduziu à tradução de uma riquíssima obra sobre a nossa história, desprezando o fato de que não falo o Espanhol, o Senhor mostrou que Ele é a minha provisão! Cristo é meu tradutor!! Cristo é meu Dicionário! Cristo é minha disposição! Cristo é minha perseverança, e por isso, por mérito exclusivo do Senhor, esta obra agora poderá ser lida pelos irmãos de fala portuguesa.
Agradeço também à minha querida esposa Tatiane e minha filha Pâmela, pelo apoio que me prestaram durante a tradução, me encorajando e orando junto aos meus amados irmãos da cidade de Alegrete, Rio grande do Sul.
Agradeço ao Irmão Arcadio Sierra Díaz pelas constantes orações juntos aos irmãos das igrejas da Colômbia, especificamente a igreja que está em Bogotá; e por ter permitido a tradução desse livro para o Português.


Paulo Almeida.


A IGREJA DE JESUS CRISTO
UMA PERSPECTIVA HISTÓRICO-PROFÉTICA
Por: ARCADIO SIERRA DÍAZ
1998
Traduzido pelos irmãos da cidade de Alegrete-RS
Email para contato: paulo.s.a.o@hotmail.com


CONTEÚDO
Prefácio
Capítulo I – ÉFESO


A carta a Éfeso -Panorâmica sobre o fundamento da Igreja -Uma igreja unida -O Reino de Deus -O candeeiro- Uma Igreja cheia de amor -Os apóstolos -Primeiras Heresias: a) Ebionismo, b) Docetismo, c) Gnosticismo 25. -O Amor é sofrido e paciente -Éfeso desliza. -Os nicolaítas -Ouvidos Surdos -Recompensa para os vencedores -A continuidade apostólica -Apêndice do Capítulo I-Carta de Inácio aos Esmírnios

Capítulo II – ESMIRNA


A carta a Esmirna -Bebida Amarga -Ricos na pobreza -Sinagogas de Satanás -Hereges e heresias: a) Marcionismo, b) Sabelianismo, c) Montano e os montanistas,
d) O maniqueísmo, 68. -As dez perseguições: 1) Nero, 2) Domiciano, 3) Antonino Pío, 4) Marco Aurélio, 5) Sétimo Severus, 6) Maximiano Traciano, 7) Décio, 8) Galio, 9) Valeriano, 10) Dioclesiano. -Constantino o Grande -O dano da segunda morte -Os Pais: a) Clemente de Alexandria, b) Orígenes, c) Gregório Taumaturgo, 81. -Escolas teológicas: a) de Alexandria, b) da Antioquía, c) da Ásia Menor, d) do Norte da África. -Os apologistas: a) Cuadrato, b) Aristides, c) Epístola a Diogneto, d) Justino Mártir, e) Melitão, f) Apolinário de Hierápolis, g) Atenágoras, h) Milciades, i) Teófilo, j) Taciano, k) Minucio Félix, l) Hermias. -Os polemistas: a) Ireneu,b) Tertuliano. -Apêndice do Capítulo II: I. Martirio de Policarpo - II. Epístola a Diogneto

Capítulo III- PÉRGAMO


A carta a Pérgamo -O trono de Satanás -Matrimônio com o mundo -A Igreja morando na terra -O edito de tolerância -A doutrina de Balaão -O caminho de Balaão -O terror de Balaão -Constantino o Grande -Consolidação dos nicolaítas -A Igreja chamada a cortar com o mundo -O asceticismo -Grandes exponentes da patrística: a) Eusébio de Cesaréia, b) Atanásio de Alexandria,
c) Os Capadócios: Basílio o Grande, Gregório de Nissa e Gregório Nazianzo, d) Ambrosio de Milão, e) Jerônimo, f) João Crisóstomo, g) Agustinho de Hipo. -Heresias em Pérgamo: a) Donato e o donatismo, 143; b) Ario e o arianismo, 144; c) Apolinário e o apolinarismo, 146; d) Pelagio e o pelagianismo, 146; e) Nestório e o nestorianismo, 148. -O maná escondido -Transição entre Pérgamo e Tiatira -Apêndice do Capítulo III - Editos imperiais


Capítulo IV – TIATIRA

A carta a Tiatira -Torre alta -Obras na apostasia -Mulher dominante -Babilônia a grande -Raízes do cesaropapismo -As fraudes pios e a feudalização do papado-O cesaropapismo no apogeu -Alguns paradoxos do papado romano -A coroa pontifícia -O clero -A inquisição -O Índice -Os Jesuítas -Escolasticismo: a) Anselmo, b) Abelardo, c) Hugo de São Víctor, d) Pedro Lombardo, e) Boaventura, f) Alberto Magno, g) Tomás de Aquino, h) João Duns Escoto, i) Guilherme de Ocam. -As indulgências -A condição de Tiatira não melhorará -O juízo da grande prostituta -O remanescente de Tiatira -O ladrilho e a pedra -Os vencedores de Tiatira -Os pré-reformadores: a) Francisco de Assis, b) Pedro de Bruys, c) Henrique de Lausana, d) Arnaldo de Brescia, e) Os Valdenses, f) os Cátaros, g) os Albigenses, h) John Wycliffe, i) John Huss, j) Jerônimo Savonarola. -Apêndice do capítulo IV - Doação de Constantino

Capítulo V – SARDES


A carta a Sardes -Os refugiados de Tiatira -Começa a restauração da casa de Deus -Lutero e a Reforma -As indulgências para São Pedro -O conflito com Roma -A Dieta de Worms -As obras imperfeitas de Sardes -A origem das “igrejas nacionais”: a) Na Alemanha, b) Na Suíça, Ulrico Zwinglio, João Calvino, c) Na França, d) Na Escócia, e) Na Inglaterra. -A paz de Westfalia -Como ladrão na noite -As grandes denominações: a) Anabatistas, b) Menonitas, c) Puritanos, d) Batistas, Carlos H. Spurgeon, e) Quaquers, f) Presbiterianos, g) Metodistas, Jorge Withefield, João Wesley, David Livingstone .-Ecumenismo -Vestidura sem mancha -Os vencedores de Sardes-Pietismo -Apêndice do capítulo V: I. Taxa Camaræ. II. As 95 Teses de Lutero. III. As teses do Arminianismo vs. Calvinismo

Capítulo VI – FILADÉLFIA


A carta a Filadélfia- Amor fraternal -Uma porta aberta -Precursores da restauração- A história moderna de José- Quatro características judaizantes: 1. O sacerdócio intermediário - 2. O código escrito - 3. O templo físico - 4. -As promessas terrenas -A hora da prova- Os IrmãosJohn Nelson Darby Benjamin Wills Newton -A coroa de Filadélfia -Colunas no templo -A restauração na China-Watchman Nee -Na América -Resumo do capítulo VI: Testemunho dos irmãos

Capítulo VII – LAODICÉIA


A carta a Laodicéia-O juízo do povo - Filadélfia degradada-A igreja tíbia-A desventura da jactância-Ouro refinado no fogo-O Senhor castiga aos que ama-O Senhor está à porta-Os vencedores de Laodicéia-Epílogo-Bibliografia






PREFÁCIO


Antes do final do primeiro século da era cristã já haviam igrejas locais em muitas cidades de algumas das nações aldeãs da bacia do Mediterrâneo, como Judá, Samaria, Galiléia, Síria, Grécia, Macedônia, Egito e o norte da África, Roma, nas regiões da antiga Mesopotâmia, Média; mas sobre toda a Ásia Menor; e o curioso é que de todas elas o Senhor quis escolher preferencialmente as sete, no tempo em que o apóstolo João foi confinado na ilha de Patmos, a fim de estampar em várias cartas as profecias referentes ao curso da história que eventualmente viveria a Igreja de Jesus cristo, e o que João registra magistralmente nos capítulos 2 e 3 de Apocalipse. Em certa forma, o profundo conteúdo profético das sete cartas vem sendo subestimado, e daqui o desconhecimento que, sobre o particular, vem atrapalhando o entendimento do que é a Igreja de Jesus cristo, em seu sentido escritural e verdadeiro. Essas sete igrejas foram escolhidas na Ásia Menor como protótipos de setes diferentes períodos proféticos da história da Igreja, de tal maneira que as características locais e históricas de cada uma delas nesse tempo, simbolizam o desenrolar de determinado período profético de toda a Igreja nesta era até que o Senhor regresse, tema que queremos abordar panoramicamente no presente estudo histórico-profético e arque típico. Nas sete cartas encontramos a história completa da Igreja até o fim desta era. Tenhamos em conta que o Apocalipse é um livro eminentemente profético, e que as sete cartas de Apocalipse são sete profecias (Compare Apocalipse 1:3 e 22:18).quando dizemos a Igreja, de nenhuma maneira nos referimos a alguma das organizações religiosas históricas, quando infundavelmente pretendam exibir títulos de legitimidade apostólica ou reclamem direitos sucessórios e de Antigüidade, ostentem o nome que ostentem, pois a Igreja de Jesus cristo não se confunde nem se identifica com nenhuma das organizações religiosas terrenas, mesmo que dentro de algumas dessas organizações cristãs haja povo de Deus. O Senhor jamais teve o propósito de criar uma organização hierárquica com cobertura imperial, mundial, nacional, ou provincial; não! Se essa fosse a realidade, seguramente que ele se houvesse dirigido a essa organização e a sua “representação visível”. O Senhor se dirigiu a sete igrejas representativas e tipológicas, em várias localidades da Ásia Procônsular. O que geralmente se é chamado cristianismo, envolve certo grau de imprecisão quanto à compreensão da verdadeira Igreja do Senhor. Tanta imprecisão encerra o termo “cristianismo”, que dentro de suas corrompidas estruturas religiosas, acontecem a maiores divisões, surpreendentes ódios, guerras, perseguições e contradições; não obstante, na comunidade cristã, Deus tem suscitado homens e mulheres aos quais tem revelado Sua vontade, lhes tem dado luz e lhes guia para seu momento histórico-profético e seu ambiente cultural, com visão da edificação da unidade de Seu Corpo.Em cada época da marcha da humanidade, Deus trabalha para que surja uma perspectiva nova, novos acontecimentos são acrescidos, de acordo ao período profético que corresponda, porque Deus é também o Senhor da história, pois está estabelecido que da história da Igreja de Jesus Cristo nada pode por o ponto final. Não é nossa intenção expor os feitos somente abaixo da perspectiva histórica, senão também e com maior consolidação desde o ponto de vista profético, porque não nos limitamos a separar o acontecer histórico, senão que nossas raízes bebem as águas Límpidas da Palavra de Deus, a qual é eminentemente profética, eterna e verdadeira, digna, além disso, de toda confiança. A Palavra de Deus é imutável, infalível e não está sujeita a modificação; disto não há de se ter a menor dúvida. Os princípios bíblicos estão vigentes como o primeiro dia, não obstante que na história têm sido obscurecidos pelas tradições eclesiásticas da cristandade professante. Os princípios bíblicos são subestimados em altares da prosperidade material, poder temporal e o reconhecimento dos homens. Do futuro, o historiador não pode oferecer mais que conjecturas; em troca o profeta de Deus está seguro e convencido dos planos e propósitos do Senhor, para todos os tempos. Que o diga um Daniel na Babilônia, um Jeremias em Jerusalém e um João em Patmos. Mas devemos ser justos ao declarar que a história e a profecia se entrelaçam, pois Deus tem um plano profético para a história, plano que têm sido revelado com luxo de detalhes ao largo de toda Sua Palavra. A encarnação do Verbo de Deus e a obra de Cristo na cruz são os acontecimentos históricos mais importantes para a Igreja, e durante os quatro primeiros séculos desta era se consolidou o registro canônico desses feitos, mas o processo de entendimento da Igreja acerca da revelação divina, incluídos esses feitos tão importantes, não teve o suficiente desenvolvimento em sua oportunidade, senão ao contrário, sofreu sérios retrocessos no curso da história, e com o tempo a Igreja perdeu algumas coisas que recebeu no depósito, tratando a sua vez de justificar essa perdida suplantando os princípios de Deus com argumentos de fatura humana. Mas Deus ia permitir que todos se perdessem? De maneira nenhuma. O Senhor vem trabalhando para que todo o perdido se recupere e se leve à prática da Igreja, o fruto do pleno entendimento de todo o depósito de Deus. A história do cristianismo corre paralela com a da humanidade; porém, mais que a história do cristianismo, é nosso interesse ir atrás dos contos do reino de Deus. Visto abaixo a perspectiva da Igreja do Senhor, o qual não se pode lograr senão com os olhos de quem é nascido de novo, porque o reino de Deus não é deste mundo, e não pode ser reconhecido pelos deste mundo, mesmo quando está diante de seus olhos. Não importa que se trate de um leigo ou um intelectual, um doutor em teologia, ou alguém que represente os interesses da cristandade nominal em qualquer de suas facções. Para ver o reino de Deus é requisito indispensável pertencer a ele. O evangelho nos diz que Jesus regozijou no espírito por esta realidade, e por isso disse ao Pai: “Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.” (Lucas 10:21). Chegou o momento em que os sábios deste mundo intentaram tomar o controle e o governo da Igreja de Jesus pela supremacia de sua sabedoria, mas Deus enlouqueceu a sabedoria deste mundo, para que nada por meio dessa sabedoria enlouquecida pudesse chegar a Deus, senão por meio do que os sábios, intelectuais e filósofos desta era tratam de descartar apelidando-o de loucura, isto é, o evangelho e verdadeiro propósito de Deus com o homem e a criação, o qual nos revela a autêntica sabedoria de Deus, Seu Filho Jesus Cristo.Não é o propósito do presente trabalho abundar em datas e detalhes históricos, senão apenas os suficientes para demonstrar o cumprimento histórico da palavra profética. Para o mundo greco-romano e sua interpretação filosófica, a história não era mais senão uma série de ciclos repetitivos moldurados em um destino incerto e por determinação da cega sorte, como uma tediosa e pessimista maneira de ver o destino humano. Em contraste, para o cristão a história começa em Gênese com a criação do homem pela mão de Deus, e há de continuar conforme os parâmetros traçados na Palavra de Deus, até que se cumpra a triunfal consumação de tudo, e o governo de Deus tenha sua expressão milenar, dando-lhe assim um significado diferente à história. Quando eventualmente ocorrer o fim da história, haverá amanhecido para a Igreja.

Arcadio Sierra Díaz




É F E S O
(1ª. parte)
SINOPSE DE ÉFESO


Panorâmica sobre o fundamento da Igreja
-A encarnação do Verbo de Deus - Seu ministério terreno com Seus discípulos - Sua paixão, morte, ressurreição, ascensão e vinda do Espírito Santo em Pentecostes.

A Igreja primitiva
Os sete candeeiros de ouro dos finais do primeiro século - O Corpo de Cristo unido em sua expressão local: uma só assembléia em cada cidade - A aparência do reino dos céus.

Fundamentos legítimos e fraudulentos
Os apóstolos: Os verdadeiros e os falsos - Primeiras heresias: Ebionismo, docetismo, gnosticismo - As primeiras perseguições.

O começo do deslize
Decai o primeiro amor - Os ágapes se contaminam - Aparição das obras dos nicolaítas - Raízes do clericalismo.

Os vencedores de Éfeso

Primeira recompensa: comer da árvore da vida.

A CARTA À ÉFESO

"Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro:
2 Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos;
3 e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer.
4 Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.
5 Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas.
6 Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio.
7 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus.” (Apo. 2:1-7).*(1)

Panorâmica sobre o fundamento da Igreja

A antiga cidade jônica de Éfeso estava situada na costa oriental do mar Egeu, e chegou a ser a próspera capital da província romana da Ásia Menor, nos tempos em que o Senhor quis que fosse marco privilegiado da obra missioneira da equipe apostólica de Paulo. Nesta bela cidade havia um famoso porto, pois se tratava de um centro comercial da região. Ali se encontrava uma das sete maravilhas do mundo antigo, o Artemisão, o templo da plurimamaria Ártemis( Diana), a grande deusa da fecundidade da Ásia Menor, muito estimada pelos efésios, de acordo com o contexto de Atos 19:23-41. Por isso era chamada esta cidade “Guardiã do Templo”. A cultura desta importante cidade antiga era a herança indiscutível do mundo greco-romano da época. Cada um dos nomes gregos destas localidades refletia a condição espiritual da respectiva igreja. Se diz que o significado de Éfeso é “desejo ardente, desejável”, o que tem haver com o que ao final do período primitivo a Igreja mesmo era desejável para o Senhor; também significa “soltar”, assim como “afrouxado” ou “descansado”, aspecto que tem muito haver com essa característica de haver deixado, a igreja do Senhor na localidade de Éfeso, seu primeiro amor. No matrimônio costuma ocorrer isso. Nos interessa muito esse vivo retrato que nos faz João das condições reais e históricas do candeeiro na localidade de Éfeso, porque ali vemos tipificadas as peculiaridades do final do primeiro período profético, dos sete que caracterizam à Igreja de Jesus Cristo, nos eventos compreendidos entre a gloriosa ressurreição do Senhor e Seu segundo advento. Porém mais que o aspecto local da igreja como casa de Deus, nesta perspectiva histórico-profética nos interessa enfocar as prefigurações das distintas etapas do vital desenvolvimento do Corpo de Cristo. A seu passo pelos séculos nos anais de nossa era, incluídos seu nascimento, seus sofrimentos, seu cativeiro, e os passos que têm vindo dando o Senhor para a restauração total da expressão da unidade de Seu Corpo. Com freqüência vemos na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento, que feitos reais e históricos alegorizam e tipificam situações, feitos, condições e sentidos mais profundos e espirituais, no marco dos propósitos eternos de Deus.
*(1) O Apocalipse foi escrito nos tempos do imperador Domiciano, ao redor do ano 95 d.C.

Em que se radica a importância de estudar a Igreja do Senhor em sua etapa primitiva? Que interesse pode ter para nós conhecer a “gênese” da Igreja depois de vinte séculos? Muito e em grande maneira, porque por meio desse conhecimento podemos compreender melhor a perfeita vontade de Deus para com Sua Igreja; a natureza da Igreja, sua autêntica e original estrutura, características, governo, metodologia, condições muito diferentes das atuais, pois com o correr do tempo o homem determinou esquecer-se, apartar-se, deixar as normas, diretrizes e exemplos estabelecidos por Deus em Sua Palavra, muitas vezes desconhecendo-os, ignorando-os ou deturpando-os; como se o livro dos Atos houvesse perdido vigência. A igreja primitiva, conforme se desenvolve no livro dos Atos, é o patrão ou modelo de Deus para Sua Igreja, válido para todos os tempos. É uma falácia pensar que as normas da Igreja de Jesus Cristo devam mudar e ajustar-se a determinadas mudanças cronológicas, e que hoje haja que estudar e por em prática novas estratégias introduzidas pelo engenho humano, como se o modelo autêntico e original de Cristo para Sua Igreja já fosse anacrônico para os tempos que vivemos. Toda vez que o Senhor nos da a oportunidade de conhecer melhor a verdadeira e normal Igreja de Cristo, podemos apreciar em sua justa medida a forma em que os homens se afastaram dela.O primeiro período profético da Igreja do Senhor, com seus sub-períodos apostólico e pós-apostólico, começa quando o Senhor da suas últimas instruções no Monte das Oliveiras depois de Sua ressurreição, e ascende ao Pai afim de enviar o Consolador que havia prometido, período que culmina ao finalizar o primeiro século da era cristã, nos tempos em que o ancião apóstolo João finalizara sua escritura do livro de Apocalipse na ilha de Patmos. Uma vez acontecida a vinda do Espírito Santo sobre a Igreja no dia de Pentecostes, se cumprem as palavras do Senhor de que estaria sempre com a Igreja, guiando-a, ensinando-a, transformando-a, enchendo-a de poder e sabedoria, e é assim como aqueles humildes pescadores foram guiados por Deus desde Jerusalém a transtornar o mundo inteiro. Deus, desde toda a eternidade, desde antes que o mundo fosse, tem Seus propósitos com a criação, com a terra em particular, e especialmente com o homem, e esses propósitos os têm em Seu Filho Unigênito. A Palavra de Deus diz que Deus nos escolheu em Cristo desde antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e sem mancha diante dele, para que se cumpra em nós esses propósitos, para qual fomos predestinados. Quais propósitos? O Pai fez a criação para Seu filho e se propôs reunir todas as coisas em Cristo, e nós temos sido predestinados para que fossemos feitos conformes à imagem de Cristo. Todos os escolhidos estão chamados a conformar a Igreja, a qual é também o Corpo de Cristo, e Ele é a Cabeça. A Igreja de Jesus Cristo é assim mesmo o verdadeiro templo de Deus, e para isso foi criado o homem, para que conheça a Deus, o represente; para que Deus se incorpore no homem por Seu Espírito e, como Igreja, o homem o expresse. Também o homem foi criado por Deus visando a preparação de uma esposa para Seu Filho, a qual será levantada sem mancha nem ruga (cfr. Efésios 1,3,4,5; Romanos 8:29,30), ou seja, gloriosa e limpa de todo contágio do velho homem . Por meio da obra de Seu Amado Filho, Deus quis dispensar-se ao homem; Tem sido Seu desejo e propósito entregar a Si mesmo ao homem corporativo, para ser contido primeiro pelo homem, esse ser tripartido, criado por Deus dotado de espírito, alma e corpo, e logo ser expressado corporativamente pela Igreja. A Igreja estava no plano de Deus antes da criação do homem. O Filho, chegado o tempo determinado pelo Pai, veio a esta terra e se encarnou por obra do Espírito Santo em Maria, uma humilde virgem hebréia da família de Davi, e para ele por sua própria vontade tomou forma de servo, esvaziando-se, despojando-se, despindo-se de todas Suas prerrogativas como Deus; o que se chama no grego a kenosis; assumindo assim as limitações inerentes à humanidade, como verdadeiro homem. Com esse desconcertamento, Cristo se submeteu a uma condição de inferioridade. E assim viveu e cresceu, em obediência ao Pai, em Nazaré da Galiléia, quando o César Tibério Augusto reinava sobre todos os domínios do Império Romano, aquela quarta besta sanguinária e terrível, espantosa em grande maneira, que havia sido revelada a Daniel por Yahveh em visões nos tempos do cativeiro babilônico (cfr. Daniel 7:7,19-23).Chegado o momento, à idade de trinta anos foi batizado no Jordão; logo chamou a seus discípulos, dentre os quais escolheu doze, aos que também, chamou apóstolos. Mas o curioso é que para essa escolha não necessariamente teve-se em conta a classe sacerdotal de sua nação; não consultou o assunto com o sumo sacerdote, senão com Seu Pai; não escolheu seus imediatos colaboradores dentre a tribo de Levi e a família de Arão, senão que se foi à beira do mar de Galiléia e chamou primeiro a quatro pescadores de profissão, a Simão a quem chamou Pedro e a seu irmão André, filhos de Jonas; em Betsaida, Galiléia; a João e a Tiago (chamado o Maior), filhos de Zebedeu e Salomé, naturais também de Betsaida, a quem encontrou remendando as redes, e lhes disse que desde esse momento seriam pescadores de homem, e quem mais tarde receberam de Jesus o nome de “filhos do trovão”. Depois chamou a Felipe, natural de Betsaida; a Bartolomeu, também chamado Natanael; em Cafarnaum convidou a segui-lo a Mateus, chamado também Levi, um cobrador de impostos na Judéia por conta dos romanos; a Tomé ou Dídimo, quem mais tarde duvidou do acontecimento da ressurreição do Senhor até que o viu e tocou Suas chagas; a Tiago (chamado o Menor) filho de Cleófas e Maria (prima da mãe de Jesus); a Judas chamado Tadeu; a Simão chamado Zelote ou Cananeu, e a Judas Iscariotes, filho de Simão, natural de Kariot, quem era o administrador dos fundos do grupo do Senhor e o qual mais tarde chegou a trair-lhe. Com a companhia íntima desse reduzido grupo, e seguido muitas vezes por outros discípulos e uma grande multidão, Jesus pregou as boas novas do evangelho do reino de Deus; para ao longo de três anos e meio ser julgado pelas autoridades políticas e religiosas tanto de sua nação como da potência dominante em Jerusalém e ser crucificado no monte Calvário ou da Caveira, nos arredores da cidade, onde derramou Seu sangue e ofertou Sua vida pela Igreja. Ao terceiro dia ressuscitou, sendo o primeiro dia da semana se levantou da tumba, e depois de transcorrer quarenta dias, ascendeu aos céus, ao trono do Pai e enviou o Espírito Santo, o Consolador, como havia prometido, feito ocorrido no dia da festa dos judeus chamada de Pentecostes ou qüinquagésima e que no tempo do Antigo Testamento era conhecida como a festa das semanas ou da sega dos frutos da terra, de modo que o Consolador desceu com poder sobre a Igreja apostólica cinqüenta dias depois da ressurreição do Senhor, e esses 120 irmãos que estavam reunidos representavam as primícias da sega de Cristo, aos quais Eles entregavam as primícias do Espírito, provas de nossa herança celestial. Esse dia de Pentecostes ocorreu a fins da primavera do ano 30 d.C., no qual o Espírito Santo veio a dar-lhe à Igreja a vida mesma de Cristo. Nesse primeiro Pentecostes da Igreja começou o povo de Deus a recolher uma grande colheita, e esse labor mesmo não há terminado, pois esse glorioso Pentecostes que havia sido preparado e prometido, também se têm prolongado, porque o Espírito Santo sempre têm estado habitando na Igreja, começando pelos apóstolos do Senhor Jesus, até o mais humilde servo de Cristo que habite nesta terra nesses dias.

Uma Igreja unida

Assim como Gênesis é o livro dos princípios, onde se semeia as sementes da revelação divina, Apocalipse é o livro da consumação de todas as coisas; um livro profético por antonomásia onde o Senhor descobre o véu dos acontecimentos finais, pois precisamente o termo apocalipse significa tirar o véu, revelação, a revelação de Jesus Cristo, verdadeiro autor e objeto deste maravilhoso livro. Seus primeiros três capítulos se destacam e se diferenciam devido a que tratam acerca das sete cartas que o Senhor ordena a João que escreva à igrejas históricas de igual número de localidades na Ásia Menor. A primeira é dirigida a Éfeso: “A o anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro:” (Ap. 2:1).Ainda que a carta está dirigida ao anjo da igreja da localidade de Éfeso, no entanto, é também para a igreja, para todos e cada um dos crentes do Senhor, e as demais para cada igreja constituída nas diferentes cidades e aldeias de muita parte do mundo greco-romano. Nesse tempo o corpo do Senhor era expresso em uma perfeita unidade e comunhão espiritual em cada localidade onde houvessem redimidos pelo precioso sangue do Senhor. Os santos não se haviam dividido em seitas separatistas frutos da carnalidade. Isso se sucedeu em séculos posteriores, e é o que o Senhor está corrigindo na época presente. Não importa que os homens se oponham a este trabalho de restauração do Senhor. O edifício deve ser construído conforme o modelo de Deus. Quem é o anjo da igreja local? Não há entre os exegetas um acordo sobre o particular. Diz John Nelson Darby: “O anjo é o representante místico de alguém que não está presente na cena. Assim pois, esta palavra sempre é empregada mesmo nos casos quando não se trata, de uma maneira positiva, de um mensageiro celeste ou terrestre. O vemos nas expressões ‘O Anjo de Jeová’, ‘seus lhes’ (falando dos meninos), ‘o anjo de Pedro' ”. (John Nelson Darby. Estudo sobre o Livro de Apocalipse. A Boa Semente, 1988. Pág. 31). Este mesmo ponto de vista o vemos na seguinte exposição de F. F. Bruce: "Os anjos das igrejas devem se entenderem à luz da angeologia do Apocalipse -não como mensageiros humanos ou ministros das igrejas, senão como celestial contraparte ou personificação das diversas igrejas, cada um dos quais representa a sua igreja no aspecto em que se faz responsável da condição e conduta da respectiva igreja-. Podemos compara-los com os anjos da nações (Daniel 10:13,20; 12:1) e de indivíduos (Mateus 18:10; Atos 12:15)”. (F. F. Bruce (Revelation, en A Bible Commentary for Today, Pickering and Inglis, 1979, pág,1682). Citado por Matthew Henry, em seu comentário Bíblico).

A carta, a envia o Senhor; João é apenas um escrevente neste caso. A cada uma das igrejas se apresenta na forma diferente, identificando-se de acordo com a condição de cada uma. A Éfeso escreve, o que tem as sete estrelas em sua destra, e anda no meio dos sete candeeiros de ouro; é o Senhor Jesus Cristo mesmo dizendo à igreja que Ele tem em Suas mãos as rédeas de Sua Igreja, tem total autoridade e controle sobre a Igreja, à qual governa, guia, exorta, alimenta, dá vida, corrige, constrói, alenta, com Sua única potestade. O Senhor sujeita firmemente as sete estrelas, em sinal de que é dono e senhor das igrejas; passeia no meio dos candeeiros, em sinal de constante vigilância. Como a lua alumia com a luz solar, a igreja alumia na escuridão da noite com a luz do Senhor, e Ele tem também estrelas em Sua destra, anjos celestiais, que ajudam à Igreja. Essas estrelas também simbolizam os irmãos espirituais que tem a responsabilidade do testemunho de Jesus. Estamos nas seguras e poderosas mão do Senhor; o Senhor cuida de Sua Igreja; isso significa que nada pode nos arrebatar de Sua destra. O Senhor Jesus não pode estar menos senão no meio da Igreja, o Sumo Sacerdote sempre presente nela, porque sem Ele não pode existir Igreja, e isso é muito alentador. A Igreja é Sua morada e também Seu Corpo e Ele é o Cabeça, e, por tanto, está inteirado permanentemente de todos os eventos em todos os lugares, tanto no tempo como no espaço. É responsabilidade da igreja local dar testemunho do Senhor Jesus pelo Espírito Santo ante os homens, para que os homens conheçam a Deus pelo testemunho da igreja. O testemunho e a expressão de Jesus é a Igreja, e Cristo é o Testemunho de Deus. Mas tenha-se em conta que a Igreja universal se expressa nas igrejas locais. João nos disse que o Senhor Jesus Cristo é Deus, quando afirma que “ Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.” (1 João 5:20). Mas desde sempre o diabo vem querendo desvirtuar a pessoa do verdadeiro Jesus, e mesmo na atualidade, muitas pessoas, movimentos, organizações, doutrinas e diversas escolas de opiniões, pregam a um Jesus diferente ao que pregaram João e o resto dos apóstolos. Nos tempos em que andava com seus discípulos, um dia lhes perguntou: “Indo Jesus para os lados de Cesaréia de Filipe, perguntou a seus discípulos: Quem diz o povo ser o Filho do Homem? 14 E eles responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias ou algum dos profetas”. (Mateus 16:13,14). Além disso, algumas pessoas tiveram a Jesus simplesmente como o filho do carpinteiro do povoado; outros o tinham como um agente de Belzebu, príncipe dos demônios. Hoje é diferente a visão? É pior; aumenta a gama de diferentes Jesus. Há pessoas que se inclinam por chama-lo o filho de Maria, alguns os têm por um grande político, mas Jesus nunca quis ter nada haver com métodos políticos, e jamais se enredou nos negócios deste mundo. Outros tem proclamado que foi o primeiro comunista, ou um guerrilheiro da linha dos zelotes; outros o têm localizado no extremo oposto afirmando que foi um integrante da seita dos essênios; e mesmo outros querem capitalizar dizendo que Jesus foi um espiritualista ou grande mestre gnóstico, que adiantou estudos esotéricos na Índia ou no misterioso Egito. Mas, além de João, Pedro também recebe revelação do Pai, quando proclama, dizendo ao Senhor: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt. 16:16).

O Reino de Deus

Lemos em Mateus 6:10: " venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; ". O que significa isto? Desde a queda do homem no Édem, na terra deixou de se fazer a perfeita vontade de Deus, pois o homem entregou a soberania da terra a Satanás ao obedecer-lhe; e os filhos da desobediência, a descendência adâmica seguiram a corrente deste mundo; corrente que não é segundo Deus, e sim conforme Satanás, o espírito rebelde, o qual usurpou o que era de Deus. Desta maneira a vontade de Deus não pode realizar-se assim na terra como no céu. E precisamente o Verbo de Deus foi encarnado, entre outras coisas, para trazer o domínio celestial à terra. Adão perdeu o domínio, e Cristo, o novo Adão, veio recobrá-lo, como verdadeiro homem, de conformidade com a economia de Deus; e então seja feita a vontade de Deus na terra como no céu. O senhor Jesus é o novo Rei! Seus seguidores, os que têm vencido já vivem a realidade atual do reino dos céus. De maneira que se amamos esse estabelecimento do reino dos céus na terra, devemos orar que se manifeste primeiramente em nossa pessoa, e em segundo lugar em toda a terra, até que a terra seja completa e totalmente recobrada para Deus e Seu Cristo, e que se faça a perfeita vontade de Deus em toda a terra. Diz a Bíblia que "Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho." (Mar. 1:14,15). A expressão “reino de Deus” não significa exatamente o mesmo que “reino dos céus”, pois o reino de Deus é o reino no sentido amplo, desde a eternidade até a eternidade, e o reino dos céus é apenas uma parte, a que se inicia com a Igreja no dia de Pentecostes e que compreende a era da Igreja e do milênio. Para entrar no reino de Deus têm que nascer de novo; é a regeneração (João 3:3,5); em troca para participar do reino dos céus, há de se cumprir certos requisitos proclamados pelo Rei no sermão do monte. Antes da vinda de João Batista, o reino dos céus não havia chegado. Os cidadãos do reino dos céus se caracterizam fundamentalmente por serem pobres de espírito, porque a Palavra de Deus diz que deles é o reino dos céus. Jesus começou sua pregação dizendo que o reino de Deus havia acercado; ou seja, o poder de Deus já estava se manifestando sobre os homens, porque quando Cristo veio o trouxe consigo, e os demônios estavam sendo privados de seu mortal poder sobre os homens. Mas quem não nasce de novo, quem não houver experimentado a regeneração espiritual, quem não houver recebido a vida de Deus em seu espírito pela obra redentora de Cristo e pela ação do Espírito Santo, não pode perceber o reino de Deus, não pode entrar e pertencer a ele; nem sequer vê-lo, porque não é uma instituição visível, senão uma possessão interior, em sua manifestação atual. O atual aspecto do reino de Deus é a Igreja. “Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós.” (Lucas 17:20-21). Não é possível confundir nem identificar o reino de Deus com nenhuma organização eclesiástica; pois mesmo que já é uma realidade, entretanto, é assim mesmo uma esperança para a idade futura, o reino milenar, no qual Cristo e os crentes vencedores reinarão sobre todas as nações. De acordo com a escala de valores, o mundo se interessa pelas coisas materiais, as riquezas, as possessões, o conforto, o luxo, os festivais patronais, o supérfulo; mas, por contraste, o Senhor diz que é tão importante o reino dos céus, que nossa ânsia deveria concentrar-se em buscá-lo primordialmente, antes que ao vestido, a comida, por mais essenciais que sejam em nosso diário existir. Diz a Palavra de Deus que uma pessoa não têm começado realmente a viver e a possuir vida eterna e abundante, enquanto não pertença ao reino de Deus. Para ver o reino de Deus é necessário estar localizado em certa posição, em uma perspectiva espiritual adequada; há crentes que não têm ajustado essa posição e sua visão é confusa. Como se caracterizam os que pertencem ao reino de Deus? Para compreendê-lo melhor podes estudar todo o Sermão do Monte, nos capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho segundo Mateus, e em especial nas bem-aventuranças. O Sermão do Monte descreve a atual realidade do reino dos céus, que está em nós. Alguns mistérios concernentes ao reino de Deus, os encontras nas sete parábolas de Mateus 13. Essas parábolas descrevem a aparência do reino dos céus; aspecto que se cumpre no cristianismo nominal atual. A Palavra que proclama o reino e é semeada no coração dos homens; o enfrentamento entre as duas sementes: a da mulher, Jesus, e a da serpente, o trigo e o Joio; em um desenvolvimento anormal da aparência do reino, começa como a mais pequena das sementes e se converte em uma árvore grandiosa onde se aninham as aves do céu. É um tesouro escondido, ou uma pedra preciosa e excepcional, que para adquiri-la o Senhor vende tudo o que tem e na cruz compra a terra, a redime, para obter este tesouro, a Igreja, para o reino; e ao final haverá uma separação entre os homens, entre os maus e os justos para a possessão do reino de Deus, o qual é de grande gozo. Para entender estas parábolas há de se levar em conta que a Igreja de Jesus Cristo jamais estará composta pela maioria do mundo, senão por um pequeno remanescente redimido; e mesmo dos redimidos, só participarão do reino milenar os vencedores. Em todas as raças da terra, incluindo os judeus, os autênticos seguidores de Deus e de Seu Cristo sempre tem sido uns poucos. O Senhor chama a Sua Igreja de pequeno rebanho. “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino.” (Lucas 12:32).O mundo esta em aberta oposição ao reino de Deus, devido a que o mundo inteiro esta no maligno. Uma pessoa que segue a corrente do príncipe deste mundo não pode possuir o reino de Deus, a menos que seja através de um novo nascimento; saindo do mundo e de sua obscuridade satânica. Desde o ponto de vista objetivo e histórico, porque o judaísmo e o Império Romano determinaram levar Jesus até a morte? Simplesmente porque essas duas organizações viam no Senhor um perigo para sua própria subsistência estrutural. Os representantes legais tanto do sistema religioso do judaísmo como do poder político do Império, percebiam que se Cristo fosse seguido fiel, firme e massivamente por todas aquelas multidões que o assediavam, essas duas organizações estavam condenadas a desaparecer. Ainda que faz dois mil anos começou com Jesus o reino de Deus no âmbito da Igreja, Aliás, há de se manifestar dispensacionalmente; será o reino de mil anos como o descrevem os capítulos 24 e 25 de Mateus, e a história sem dúvida chegara a sua culminação, pois é necessário que Deus julgue a humanidade e se manifeste eventualmente Sua soberania e Seu reino entre os homens. Os primeiros discípulos do Senhor também compartilhavam a expectativa do povo judeu contemporâneo acerca da restauração do reino em Israel, e convencidos de que o Senhor era o Messias esperado, antes da eventual ascensão de Jesus ao Pai, lhe fizeram essa pergunta, “Senhor,restaurarás o reino a Israel neste tempo?” (Atos 1:6). Mas o Senhor julgou que não era oportuno falar-lhes nesse momento sobre esse tema, pois era algo que só o Pai sabia; e ao contrário que se ocuparam de ser Seus testemunhos por toda a terra. Inclusive mesmo depois do dia de Pentecostes, a igreja apostólica cria no iminente retorno do Senhor a restaurar o reino de Deus.

O candeeiro

O Senhor Jesus anda no meio dos sete candeeiros de ouro. O número sete significa a plenitude; é o número que Deus usa para indicar totalidade em Sua obra, que Ele não deixa nada incompleto nem quer nada incompleto; isso simboliza à totalidade de todas as igrejas locais em todos os lugares e ao longo de toda história, e o Senhor Jesus anda no meio de todos os candeeiros. Há de se levar em conta que quando esta carta foi escrita estava se terminando o período de Éfeso. E em ambos os casos, tanto a igreja na localidade de Éfeso, como o primeiro período profético da Igreja haviam começado a decair, a deslizar desse nível alto, dessa plenitude à qual o Senhor havia elevado a Igreja no dia de Pentecostes. O que significa essa expressão? O que representa o candeeiro de ouro? No verso 20 do capítulo 1 nos dá a resposta, quando afirma: “Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas”. Isso significa que a igreja de Jesus Cristo em cada localidade está tipificada por um candeeiro, nas quais Ele se move como Cabeça que é; o candeeiro se relaciona com o testemunho. Uma igreja em Éfeso, um candeeiro em Esmirna, outro em Pérgamo, outro em Jerusalém, outro em Valledupar, outro em Bucaramanga, assim como outro em Teusaquillo, outro em Usaquén, no marco do Distrito Capital, *(2) etc. Em uma localidade não pode aparecer mais de um candeeiro. Uma só igreja em cada localidade, jamais dividida em vários grupos ou congregações ou supostas "igrejas", porque o candeeiro que fez Moisés no deserto constava de seis braços e um caniço central, mas era de uma só peça, pois o caniço e os braços terminavam em lamparinas, que a sua vez eram alimentadas pelo azeite de um só depósito e tudo sustentado em um só pé, porque Jesus Cristo é o único fundamento da Igreja. Existe como um só candeeiro na igreja local, mas a somas de todos os candeeiros formam a Igreja universal; daí o número sete, que significa plenitude.
*(2) Valledupar e Bucaramanga são as capitais dos departamentos colômbianos do Cesar e Santander, respectivamente. Teusaquillo y Usaquén são localidades das que integram a Bogotá, Distrito Capital da Colômbia, América do Sul.

O candeeiro estava dentro do tabernáculo (o Corpo de Cristo), mas o candeeiro em si é a expressão local do Corpo do Senhor. No tabernáculo havia um só candeeiro, mais tarde, no templo de Salomão haviam dez candeeiros,*(3) e isso mostra que os candeeiros estão se multiplicando; agora o Senhor se dirige a sete candeeiros, número de plenitude; e em cada localidade o Senhor está estabelecendo um candeeiro, e anda em meio deles cuidando, alimentando o depósito com mais azeite (Seu Espírito), para que não se apaguem e alumiem em meio da obscuridade do mundo. No tabernáculo se tipifica a unidade do candeeiro, no templo de Salomão a multiplicação dos candeeiros, e em Apocalipse a plenitude. No candeeiro está tipificada a Trindade de Deus: O ouro representa a natureza de Deus Pai, por ser o ouro o metal mais precioso. O filho é representado na forma que se lhe da a esta natureza divina, pois Ele é a imagem de Deus, e o Espírito Santo está tipificado no azeite que alimenta as lamparinas para que alumiem, pois a Igreja é a luz do mundo (cfr. Êxodo 25:31-40; Mateus 5:14-16; 1 Corintios 12:12). Para isso desceu o Espírito Santo.
*(3) O 10 é o número das nações; significa que a Igreja é sacada de todas as nações da terra, de todas as etnias, de todas as línguas, mas é representada por um candeeiro em cada localidade.

O Senhor está edificando Sua Igreja, e na Bíblia, desde o livro de Êxodo, o candeeiro está relacionado com essa edificação de Deus. O candeeiro por sua estrutura é uma unidade coletiva. Neste tempo é necessário que os crentes recebam revelação a fim de compreender este mistério dos sete candeeiros de ouro, e ver as igrejas locais, as quais conjuntamente formam a Igreja universal. Não encontramos no Novo Testamento nem um só versículo em que o Espírito Santo autorize e permita aos apóstolos edificar "igrejas" de apóstolos em particular, ou de missionários ou pastores, ou de nenhuma outra índole ou doutrina, que não seja a igreja de Jesus Cristo unificada em cada localidade. Uma igreja local é uma igreja integrada por todos os filhos de Deus em uma cidade, localidade, povoado, vila, vereda; unidos em atitudes inclusiva, no amor e na comunhão do Espírito, que tenham por única Cabeça ao Senhor Jesus, que participem de um mesmo pão e que obedeçam a um só presbitério. A Igreja não é construída com madeira, ladrilhos e pedras naturais, senão com pedras vivas, cuja verdadeira vida é Cristo. “Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus, inclusive bispos e diáconos que vivem em Filipos” (Fp. 1:1). Eis aí uma igreja local normal. A exceção de algumas dirigidas a certas pessoas, as cartas neotestamentárias foram dirigidas às igrejas locais, e o livro do Apocalipse foi escrito para ser enviado às igrejas locais. Há muita desorientação quando não se compreendem estas coisas. A Bíblia não registra outro tipo de igreja que não seja as igrejas locais. O pregar o evangelho e estabelecer igrejas locais foi o trabalho que o Espírito Santo assinou ao apóstolo Paulo e sua equipe de apóstolos, desde o momento em que foi apartado para a obra em companhia de Barnabé na localidade de Antioquia, de acordo com o contexto dos capítulos 13 e 14 do livro dos Atos. Quando o povo hebreu recebe a ordem de Deus de tomar um cordeiro por família para sacrificar-lo com motivo da grande salvação e libertação da escravidão egípcia, esse cordeirinho imolado na festa da páscoa; Era uma figura perfeita, admirável e magnífica, de Cristo crucificado por amor de nós; E o caso é que não foi um só cordeiro por toda a congregação dos filhos de Israel, senão um cordeiro por família, para tipificar, dentro dos detalhes da grande maquete veterotestamentaria da Igreja, que cada família comendo o cordeiro com ervas amargas, expressava a igreja local ao redor do Cordeiro de Deus, dentro do marco da Igreja de Jesus Cristo, igreja unida em cada localidade, reunida no nome do Senhor Jesus pela comunhão do Espírito Santo. Os israelitas não se reuniram ao redor do cordeiro com outro pretexto, nem pessoa, nem objeto, nem mandato, nem centro, nem sistema, nem doutrina, nem ordenança, nem determinação particular, nem nome que não foram ordenados por Jeová. Cada família era a expressão local do povo de Deus, assim como a igreja de cada localidade é a expressão local da Igreja do Senhor, e a nenhuma família lhe foi dado imolar mais de um cordeiro. Assim mesmo agora também na Igreja somente participamos de um pão não fracionado e dividido, senão um único e mesmo pão, para alimentar nos Dele e mantermos em uma santa comunhão com Ele, porque esse é o testemunho de Deus. A Igreja de Deus é uma; nem um só osso do corpo do Senhor foi quebrado.






É F E S O
(2a. parte)

Uma Igreja cheia de amor

“2 Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos;3 e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer.” (Apo. 2:2, 3).É absolutamente inegável que a profunda experiência pentecostal da Igreja apostólica, a mudou radicalmente, iluminando o entendimento dos irmãos acerca das verdades de Deus; puderam ver com clareza o que realmente era o reino de Deus; foram transformados em verdadeiras novas criaturas; Deus provendo um odre novo para que contenha e preserve Seu vinho novo; foram cheios de poder espiritual, da autoridade representativa de Deus, sabedoria divina, poder de convicção; foram confirmados os dons, ministérios e operações no âmbito individual para o serviço corporativo, e começaram alumiar as lâmpadas começando desde Jerusalém. O Senhor ressalta as boas obras e virtudes da igreja em Éfeso; o árduo trabalho, a paciência, que os movia a difundir as boas novas, aperfeiçoar os santos, a esmerar-se pelo cuidado das necessidades dos santos pobres, a edificar a unidade do Corpo e a edificação da casa de Deus. A igreja em Éfeso não se descuidava no trabalho para o Senhor. Também era sofrida e paciente. Nesses primeiros tempos a Igreja corporativamente trabalhava movida pelos estreitos vínculos do amor de Deus, do amor ágape, o amor que os crentes devem sentir uns pelos outros, e a unidade no Espírito. Tenhamos por claro que o Senhor sempre nos ama. O crucial é que nós o amamos, e que esse amor permaneça, que não se desfaleça; quando nosso primeiro amor não se afrouxa, então há vida, e o amor nos proporciona as condições para alimentar-nos da árvore da vida, que é Cristo; e quando na Igreja há vida, então há luz, a luz do candeeiro. O assunto está em nós, não no Senhor. Quando a igreja primitiva se reunia, com freqüência celebravam um ágape, no qual também partiam e comiam o pão e bebiam do cálice em memória do Mestre, porque Ele havia ordenado que fizesse isto até que Ele voltasse. Eles comiam o pão da unidade, e o Senhor quer que nós hoje sigamos participando daquele mesmo e único pão; não um pão fracionado e sectário, porque fazemos parte de um só Corpo. A Palavra de Deus nos dá testemunho dessa unidade de vida e desse obrar pela vida do Senhor em Sua Igreja. “32 ¶ Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum.
33 Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça.
34 Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes
35 e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade.” (At. 4:32-35).Durante o sub-período apostólico, a Igreja se caracterizava por sua absoluta obediência à vontade do Senhor glorificado. Já ao final desse período, a Igreja mesmo era desejável ao Senhor, e Deus havia encontrado fidelidade e obediência entre os redimidos, em contraste com a infidelidade e rebelião das criaturas começando no céu com Lúcifer, o querubim protetor, quem a sua vez havia feito cair no mesmo pecado a toda humanidade através do primeiro par. Na história, havia encontrado Deus um homem obediente, Abraão, e através dele formou o povo de Israel, mas esse povo também falhou. Finalmente a Igreja lhe foi obediente, vivendo a comunhão do Espírito, a vida corporativa, de maneira que o testemunho dos irmãos constituía nesse tempo uma poderosa influência pelo meio da qual transtornar o mundo. Era uma Igreja ; todos davam testemunho do evangelho; todos se esforçavam porque estavam cheios do amor de Deus e amavam ao Senhor e a Sua obra, e o Senhor se manifestava com a realização de grandes prodígios e milagres. A Igreja não tinha faltas; quando alguém ousou incorrer no egoísmo, avareza e falsidade, imediatamente caiu morto. Reinava o gozo na comunhão e no corpo se vivia o interesse por ajudar aos mais necessitados, os santos pobres.Nesse tempo mesmo a Igreja estava integrada em sua totalidade por judeus, com a exceção de alguns prosélitos que, como Nicolau o diácono e o etíope eunuco, se tratava de gentios que inicialmente haviam se convertido à fé dos judeus, e agora haviam crido no Senhor Jesus pela pregação dos apóstolos, como aparece no livro dos Atos no dia de Pentecostes (cfr. Atos 2:10). Não obstante estes e outros exemplos, as declarações das Escrituras e as próprias palavras do Senhor em suas instruções finais, nenhum deles podia nem sequer imaginar que os gentios pudessem chegar a serem admitidos; não havia sido plenamente revelado o mistério sobre a Igreja, que “os gentios são co-herdeiros e membros do mesmo corpo, e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho” (Ef. 3:6). Foi conflitante para muitos dos primeiros cristãos terem clareza sobre se a Igreja se configurava como uma seita mais dentro do judaísmo, ou uma assembléia independente e distinta. Daí a razão pela qual o apóstolo Pedro necessitava de uma visão do Senhor e a insistência do Espírito Santo para que se submetesse a ir à casa de Cornélio, o centurião romano, para pregar o evangelho a ele junto com toda sua família, o qual se registra no livro dos Atos como o terceiro gentio convertido. É necessário esclarecer que é compreensível que no alvorecer da Igreja, algumas facções ultra judia, sobre tudo da seita dos fariseus, contendiam que não podia haver salvação fora de Israel, e com muita energia apregoavam que os discípulos gentios deviam observar todas as regras da lei judaica, como o do sábado como dia de descanso, circuncidar-se, a distinção entre os alimentos limpos e os impuros, etc..., como meio para se justificar ante Deus. À raiz desta forte controvérsia, se viu ameaçada a unidade da Igreja, pelo qual foi necessário que no ano 50 D. C. se realizasse um concílio com os apóstolos e anciãos em Jerusalém, por meio do qual chegaram a um sábio acordo, por momento, abaixo da iluminação do Espírito Santo, pois a lei só ata aos judeus, e não aos gentios crentes em Cristo. Uma parte destacada dos cristãos, entre eles Paulo, insistiam que se os discípulos de Cristo se submetiam a observar a lei, depreciavam a graça de Deus em Cristo e caíam dela, dando mostras de não entender a essência do evangelho (cfr. Atos 15 e Gálatas 5:1-6). A Igreja do Senhor Jesus é para toda raça e nação e não exclusiva para os judeus. Era necessário, além disso, que a Igreja não parecia como uma das seitas do judaísmo, ou uma mais das múltiplas religiões que brotavam por todo o império romano. Não obstante a Escritura registra que o trabalho de escavação dos judaizantes continuou por muito tempo em várias localidades como as da região da Galácia, com as conseqüências que presenciamos inclusive no dia de hoje. Por ser em sua maioria de raça judia os santos da igreja em Jerusalém, costumavam em certas horas do dia ir ao templo orar, como fizeram Pedro e João, entretanto, é notório que desde seu nascimento a Igreja se reunia nas casas para celebrar a Ceia do Senhor, sua reunião principal, como registra Atos 2:46: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração,”. Eles foram iluminados pelo Espírito Santo para compreender que o verdadeiro templo de Deus é a Igreja, composta pelos santos redimidos; que não deviam dar importância aos edifícios feitos pelos homens. O diácono Estevão explicou diante do sumo sacerdote e os anciões do Sinédrio de Israel, quando disse: “...Entretanto, não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas;...” (Atos. 7:48), e este discurso o levou ao apedrejamento até o martírio. Mais tarde, passada uma geração, o Senhor permitiu que o templo da obsoleta religião judaica, fosse destruído totalmente, sem que até o momento de escrever estas cartas (1997) haja sido novamente construído. Nesse ardoroso sub-período apostólico, quem ia à vanguarda da Igreja do Senhor, indiscutivelmente era o apóstolo Pedro; defendendo-la, extendendo-a, representando a autoridade e o poder do Senhor em todas as frentes do desenvolver da Igreja. Este Ato de nenhuma maneira significa que o apóstolo Pedro haja sido papa, ou que haja recebido do Senhor algum encargo do tipo político ou governativo. O mesmo declara que não foi papa, quando escreve aos santos expatriados da dispersão na região do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, dizendo: “Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo...” (1 Pe. 5:1). Aqui a palavra ancião significa também, e assim é traduzida em diferentes versões, presbítero, pastor, bispo; sem que necessariamente se constituiria no bispo dos bispos. O papado é uma instituição italiana de origem pagã, desenvolvido nos tempos da idade média, que está muito longe de ter raízes na Bíblia e na revelação dada pelo Senhor, de maneira que um homem da estatura espiritual de Simão Pedro, longe está de haver sido o primeiro papa romano. Mesmo entre o tempo em que viveu Pedro e o início do papado em Roma, média ao redor de uns cinco séculos. Estaremos rondando sobre este tema no capítulo IV, quando estaremos estudando o período de Tiatira. Com o ministério de Paulo, o apóstolo do mundo não judaico e especialmente o mundo helenista, na segunda metade do primeiro século, se desenvolveu o ensinamento das grandes e profundas doutrinas e dogmas da Igreja cristã. Em sua terceira viajem missionária veio até Éfeso, onde permaneceu por mais de dois anos ensinando cada dia na escola de um discípulo chamado Tirano; constituindo assim a Éfeso como centro neurálgico da obra, cujos resultados foram manifestos não só na igreja dessa localidade, senão também na propagação do evangelho por toda a província da Ásia, onde estavam localizadas as sete igrejas da Ásia que são objetos de sendas cartas em Apocalipse, assunto que estamos examinando. Indubitavelmente nesse tempo a igreja na localidade de Éfeso passava por um período de grande amadurecimento espiritual, tanto que ao redor do ano 64, Paulo, abaixo da inspiração do Espírito Santo, escreveu uma das cartas mais profundas que poderia ter escrito.

Os apóstolos

De acordo com os versículos 2 e 3, a igreja de Éfeso recebe palavras de aprovação do Senhor, e um dos motivos é devido a que eles provaram em seu tempo aos que se diziam ser apóstolos e na realidade não o eram, senão que haviam comprovado que eram falsos. Os acharam mentirosos, hipócritas, com a aparência de piedade própria dos mestres relacionados com o gnosticismo, os quais já começavam a contaminar as igrejas com seus erros. Também nos indica que além dos doze, o Espírito Santo já havia constituído outros apóstolos, entre os quais se camuflavam alguns falsos, para semear a confusão e o engano. Que significa ser um apóstolo? A palavra apóstolo vem do grego apóstolos (απόστολος), que significa enviado ou apartado para. Conforme a Palavra de Deus, os apóstolos são os que Deus escolhe e envia a fim de que trabalhem em Sua obra, seguindo a linha de Sua soberana vontade e iniciativa. As três Pessoas da Trindade se encarregaram de enviar apóstolos. O Pai enviou a Seu próprio Filho, o Senhor Jesus, que foi o primeiro Apóstolo (cfr. Hebreus 3:1). Assim como o Pai enviou ao Filho, o Senhor chama e envia Seus doze apóstolos ao trabalho que Deus há determinado previamente (João 20:21; Éfesios 2:10). O Pai os toma do mundo, e sendo de propriedade do Pai, se lhos dá ao Filho, quem a Sua vez os envia (João 17:6). De maneira que a primeira e mais importante característica de um verdadeiro apóstolo de Jesus Cristo, é que não é voluntário; não se foi feito apóstolo por sua própria vontade, senão que é enviado por Deus. Aí temos o exemplo nos doze que o Senhor escolheu, pois nem mesmo Matias, o que substituiu a Judas Iscariote, se ofereceu voluntariamente, senão que o Espírito Santo o confirmou, segundo Atos 1:15-26.O Senhor Jesus ascendeu ao Pai, mas enviou ao outro Consolador, ao Espírito Santo, quem desde esse tempo retomou a responsabilidade de nomear a outros apóstolos com o encargo de continuar com o trabalho da obra de Deus iniciada pelo Senhor e os doze, na edificação e crescimento do Corpo. Existem algumas escolas de pensamento no campo teológico que sustentava que fora as testemunhas da ressurreição do Senhor, não há mais apóstolos; mas de acordo com Palavra do Senhor, por exemplo os versos 11 e 12 do capítulo 4 de Efésios, os sucessores dos doze são ministros da edificação do Corpo de Cristo, assunto este que nos ensina claramente também a Palavra em Atos 13:2 e seguintes, quando o Espírito Santo aparta e envia a Saulo e a Barnabé à obra do Senhor, e a quem também se lhes chama apóstolos (Atos 14:4,14). Os ministérios de Efésios 4:11, incluído o apostolado, existem e existiram na Igreja do Senhor, para o trabalho de capacitação e aperfeiçoamento dos santos, a fim de que todos nos ocupemos “na edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, a um varão perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef. 4:12-13). Não devemos ignorar que o Senhor está trabalhando para que essa unidade se aperfeiçoe e se reflita em nosso tempo. Agora bem; no livro dos Atos dos Apóstolos, assim como nas cartas do apóstolo Paulo, encontramos com freqüência evidências de que o Espírito Santo havia constituído a muitos outros irmãos como obreiros de Deus, enviados a efetuar a obra à que Ele previamente os havia chamado; mas o assunto é que começaram a aparecer falsos apóstolos, que inclusos recorriam às igrejas da obra, entre os quais é possível que se encontrassem os judaizantes, que pretendiam que os santos procedentes dos gentios, se escravizaram a guardar certos ritos da lei judia como a circuncisão e o observar as festas religiosas judias; isto, além de perverter o evangelho de Cristo, produziu perturbação entre eles, já que, como é de se supor, denegriam a Paulo, dizendo que não era um autêntico apóstolo, segundo eles, porque não fazia parte dos doze e alegavam que Paulo não pregava o legítimo evangelho. Com base principalmente nessas considerações, Paulo escreveu a epístola aos Gálatas, e por outro lado faz a defesa de seu apostolado nos capítulos 11 e 12 da segunda epístola aos Coríntios. “13Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. 14 E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. 15 Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça; e o fim deles será conforme as suas obras.” (2 Co. 11:13-15).De acordo com o contexto dos capítulos 11 e 12 da segunda epístola do apóstolo Paulo aos Coríntios, falsos apóstolos houveram desde a igreja primitiva, e por serem falsos não são enviados por Deus senão que são ministros de Satanás; e aí confirma que suas características principais, entre outras, pelas quais se podem detectar, é que se gloriam na carne, se enaltecem em seus conhecimentos, se envaidecem em suas posições; que desejam ser exaltados e glorificados, muitas vezes pregando um evangelho diferente; mais centrado no homem, buscam o que tem o homem; preferem mais receber que dar, e serem atendidos e regalados; destacam sua necessidade; dá gosto a eles escravizar aos santos, impondo-lhes cargas doutrinais e econômicas que eles mesmos não podem suportar; os devoram, e é tão forte tudo isso, que os tratam como se usassem de violência para atingir seus fins. A igreja primitiva, pelo menos em sua etapa apostólica, soube descobri-los a tempo, e isso foi elogiado pelo Senhor.



Primeiras heresias

Dentro da atividade dos falsos apóstolos pode se levar em conta a difusão de erros doutrinais e heresias para confundir aos santos. Antes que terminasse o primeiro século, já alguns estavam negando que Cristo houvesse vindo em carne, já prefigurando movimentos hereges com as idéias e princípios relacionados com o judaísmo, o docetismo e o gnosticismo. Em sua obra "A Refutação", Hipólito de Roma (o primeiro chamado antipapa) refuta as ramas filosóficas gregas que deram origem a heresias. Diz o irmão Witness Lee que "o inimigo, Satanás, tem usado três pontos principais para ferir a Igreja: a religião judaica, a filosofia grega e a organização humana. Estas são as fontes principais das divisões, a ruína e a corrupção da Igreja” *(2). Aqui somente nos limitaremos a expor sucintamente as principais heresias que perfilavam contra a unidade da Igreja, da doutrina dos apóstolos e da preciosa verdade da Palavra de Deus no período de Éfeso, e que no segundo século fomentaram maiores fontes de divisão.
*(2) WITNESS LEE, A História da Igreja e das Igrejas Locais. Living Stream Ministry, 1991, pág, 8

Ebionitas

É difícil descrever com objetividade algo relacionado com os ebionitas. A maneira de ilustração anotamos a existência de uma linha de opinião que nos ensinamentos que se trata de uma seita integrada pelos seguidores de Ebion, judeu de Samaria do século I, que negavam a filiação divina de Jesus, considerando-o um mero homem, um profeta, um porta- voz de Deus, como o eram os grandes profetas hebreus do passado, de extraordinária sabedoria e poder, adotado por Deus; que negavam o nascimento virginal, e que só aceitavam o evangelho de Mateus, ao qual consideravam dirigido aos hebreus, e mesmo dele suprimiam alguns capítulos. A copia que eles usavam deste evangelho tinha certos desvios típicos ebionitas, como a de que Jesus era filho de José e Maria. Uma das colunas da Hexapla de Símaco, líder ebionita, era esta versão do evangelho de Mateus. Por outra parte se diz que Ireneu utilizou pela primeira vez o termo ebionitas para referir-se a uns judeus cristãos que viviam ao leste do Jordão. Também é provável que esse nome, ebionita, seja derivado do hebreu ebyon (pobre) e que guarda alguma relação de origem com a igreja de Jerusalém anterior ao ano 70 D. C., a qual se trasladou a Pella, cidade gentia ao leste do Jordão, e ali sobreviveu por algum tempo, atendendo a recomendação do Senhor Jesus em Mateus 24:15-18. Alguns observam que com o decorrer do tempo, seus descendentes, por falta de contato com o resto da Igreja, conceberam algumas idéias heterodoxas acerca da encarnação. Há de se levar em conta que dentro dos cristãos que saíram de Jerusalém havia um grupo de irmãos que fazia parte dos fariseus relacionados com o sinédrio de Atos 15, que pretendiam obrigar aos cristãos gentios a guardar a lei. Mas se pode afirmar que os ebionitas faziam parte dessas minorias de judaizantes que afirmavam que os discípulos de Jesus deveriam ficar dentro do redil judaico. Os ebionitas estavam como se diz, entre a espada e a parede porque eram considerados pelos judeus como apóstatas, e melhor, por sua atitude fechada e exclusivista, não eram muito bem vistos pelos cristãos gentios. Curiosamente, uma facção da igreja local de Jerusalém, liderada por Tiago, irmão do Senhor Jesus, tendia a este ponto de vista dentro do processo de judaização e o esclarecimento dos fundamentos cristãos. Destacamos que Tiago chamava Senhor a Jesus. Os ebionitas repudiaram a Paulo, declarando que ele era apóstata da lei, o mesmo que a seus escritos por quanto suas epístolas reconheciam aos gentios como cristãos (cfr. Atos 21:17-27). Mas provavelmente a raiz dos ensinamentos de Paulo e a epístola aos Gálatas, chegaram a compreender que as práticas do judaísmo não eram obrigatórias para os cristãos gentios. Alguns escritores os mencionam como nazarenos, e entre eles houveram escritores que afirmavam que Jesus era o Messias, o Filho de Deus, e que Seus ensinamentos eram superiores aos de Moisés, mas que os cristãos judeus deviam observar as leis judaicas relativas à circuncisão, a observância sabática, e os alimentos. Alguns deles aceitavam o nascimento virginal de Jesus; Mas outros, talvez os "ebionitas gnósticos", propagavam a doutrina de que o Senhor era Filho de José e Maria, que ao batizar-se, foi quando o Cristo descendeu sobre o homem Jesus em forma de pomba, proclamando logo ao desconhecido Pai, mas que o Cristo, quem não devia sofrer, se afastou de Jesus antes de Sua crucificação e ressurreição. Do ebionismo surgiram várias ramos heréticos que alimentaram o unitarismo e alguma variedade de gnosticismo. Outras datas acerca dos ebionitas se encontram na história eclesiástica de Eusébio de Cesaréia. São de corte ebionita alguns escritos primitivos como os chamados evangelhos apócrifos dos ebionitas e nazarenos, e as chamadas Homilias Pseudoclementinas (atribuídas a Clemente de Roma). Estes documentos deram base à escola modernista de Baur de Tubingem, para sua interpretação dialética do cristianismo primitivo. Sem lugar a dúvidas, os modernos "messiânicos" são os defensores das idéias ebionitas.

Docetismo

O docetismo, palavra que vem do grego doceiko, "aparência", dokeo, "parecer", consistia na opinião de que Jesus Cristo, o Filho de Deus, realmente não se fez carne, senão que só pareceu fazê-lo; que não é verdadeiro homem, senão em aparência, negando assim a encarnação e, por conseguinte, a expiação e a ressurreição. Por Eusébio sabemos que Cerinto, herege docetista e gnóstico da Ásia Menor, foi em Éfeso um opositor do apóstolo João. Daí que João enfatiza reiteradamente as palavras carne e sangue escrevendo contra esta heresia, e declare que “e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo. " (1 João 4:3). A origem desta heresia está em uma mescla da filosofia grega com as religiões orientais. Inácio de Antioquia faz menção desta heresia, anotando: "...ele sofreu verdadeiramente, assim como verdadeiramente ressuscitou a si mesmo, não segundo dizem alguns infiéis, que só sofreu em aparência. Eles sim que são a pura aparência! e, segundo como pensam, assim lhes sucederá, que se fiquem em figuras incorpóreas e fantasmais" (INÁCIO DE ANTIOQUIA, Carta aos Esmírnios, II,1, BAC,1985).Cerinto, com seus princípios gnósticos, ensinava que o mundo não havia sido criado pelo único e supremo Deus, senão por um demiurgo. Negava que a pessoa do Senhor Jesus fosse a vez divina e humana. Dizia que Jesus havia sido só um homem comum e corrente ao qual, no ato do batismo no Jordão, no momento em que desceu o Espírito Santo em forma de pomba, foi quando desceu o Cristo espiritual, o Logos ou Verbo divino; e com base nestas premissas o que seguia era negar a encarnação do Verbo e desvirtuar de passo Sua crucificação, afirmando que na crucificação somente havia sofrido Jesus, o humano, pois Cristo, como Deus, era impassível e não podia padecer. Também há correntes gnósticas que afirmam que o Verbo divino voltou ao homem Jesus na cruz, quando exclamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. O apóstolo Paulo contradisse também a heresia de Cerinto na epístola aos Colossenses, como o apóstolo João, tanto em seu evangelho como na primeira epístola. As Escrituras dizem que “o Verbo foi feito carne”, e isso significa que a preexistente Pessoa divina do Filho estava com o Pai desde antes da fundação do mundo, que é consubstancial com o Pai e de sua mesma essência, porque no princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus, e o Verbo era Deus, e aquele Verbo se fez carne. Na formação e desenvolvimento destes erros, teve muito haver a filosofia grega. De acordo com o pensamento helenista, sobre tudo pelos princípios do platonismo e neoplatonismo, havia uma rígida separação entre o espírito e a matéria. Contrastando com a tradição judaica, e em particular com os ensinamentos do Senhor Jesus, essas disciplinas filosóficas consideravam a matéria, incluindo a carne, como mal, e o puro espírito como bom, onde concluíam que o homem devia emancipar seu espírito da contaminação da carne, o que gerou conflitos com os ensinamentos da encarnação e a crucificação. Também reflete num grande dano na aparição posterior do ascetismo e o pseudomisticismo, que não são outra coisa senão rudimentos do mundo. “20 Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: 21 não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, 22 segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem.23 Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade.” (Col. 2:20-23).

Gnosticismo

Movimento filosófico-religioso que surgiu nos tempos da Igreja primitiva, composto de diversas seitas e alimentado em uma grande variedade de mananciais, como as filosofias gregas e correntes religiosas de tipo orientalista, armas com as quais Satanás quis destruir a Igreja do Senhor desde suas raízes. O gnosticismo recebeu contribuições do dualismo órfico e platônico, dualismo persa, as religiões dos mistérios, a astrologia mesopotâmica e a religião egípcia. É provável que haja tido sua origem na Ásia Menor, que alguns consideraram como um foco de idéias fantásticas da mente de gregos místicos e desequilibrados. Mas há consenso na opinião de que um personagem proeminente na criação do gnosticismo é Simão o Mago. A Palavra de Deus no livro dos Atos dos Apóstolos afirma que Simão exercia a magia em Samaria antes de professar sua conversão, mas foi registrado que foi acusado por Pedro de querer comprar o poder de dar também o Espírito Santo ao impor as mãos. De acordo com uma tradição, se têm conhecimento de que Simão foi o iniciador de algumas derivações falsas do cristianismo. O gnosticismo é um movimento altamente sincretista, e entre os sistemas filosóficos gregos, foi o platonismo o que mais influenciou para dar um verniz intelectualóide a esse fenômeno do gnosticismo; e o neoplatônismo foi a base para a união da filosofia com a religião, com o resultado de que a religião começou a ser ensinada saindo dos esquemas puramente religiosos, envolta em mitos de origem pagãs. Também tem raízes no panteísmo estóico, o qual está relacionado com os espíritos do mundo, ou elementares do cosmos, todo o qual enquadra com a chamada "nova era". Seu nome se origina pela pretensão deles de dizer que possuíam uma gnose ou conhecimento secreto sobre a origem do universo e o destino do homem. Enfocam sua não bem definida doutrina através de uma cosmogonia que ensinava que o mundo é o resultado da intervenção do Demiurgo (alguns o identificam com o Deus do Antigo Testamento) de categoria inferior ao Ser Supremo (o Deus do Novo Testamento). Ensinando assim mesmo que entre o Ser Supremo e o mundo material intermediavam uma série escalonada de entidades (eóns) que emanavam Dele, entre os quais estavam os arcontes ou poderes demoníacos que habitavam os planetas, e quem governavam o universo. Isto tem haver muito com a astrologia e a grande mentira dos horóscopos, pois eles ensinam que os homens, tanto que permanecem neste mundo, estão submetidos aos planetas, ou seja, aos arcontes. Tudo isto, como é de se supor, para jogar por terra todo o relacionado com a salvação por meio de Jesus Cristo. Os gnósticos sustentavam que os homens somente podem salvar-se de sua miserável condição mediante a Gnosis ou conhecimento de sua verdadeira natureza; uma espécie de luz mística interna. Que esse conhecimento é superior à fé simples dos crentes. Então, quem é Cristo para os gnósticos? Para eles o Senhor não é o Unigênito de Deus, o Verbo Eterno, e sim apenas um dos seres mais Notáveis da Divindade absoluta, uma dessas emanações de Deus, uma espécie de fantasma, afirmando que veio a salvar aos homens não com Seu sacrifício expiatório, senão através do conhecimento (gnosis) que nos trouxe da parte de Deus. A filosofia gnóstica se baseava na distinção moral dos gregos entre matéria e espírito, considerando assim que a matéria era intrinsecamente mal, e por tal razão, não podia conceber uma autêntica encarnação do Verbo, senão aparente. O mesmo que afirmava Cerinto, mas com outras palavras outro enfoque. A carta de Paulo aos Colossenses é decisiva para rebater as doutrinas gnósticas, este espantoso engano, e onde se insiste com muita clareza na divindade essencial de Cristo. “12... dando graças ao Pai, que vos fez idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz. 13 Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, 14 no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. 15 Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;16 pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele17 Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.18 Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia,19 porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude20 e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” (Cl. 1:12-20). “3... em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos. 4 Assim digo para que ninguém vos engane com raciocínios falazes. 5 Pois, embora ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito, estou convosco, alegrando-me e verificando a vossa boa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo.” (Cl. 2:3-5).Também pelos escritos do apóstolo João nos inteiramos que nas igrejas primitivas houveram muitos cristãos de tendência gnóstica entre os quais haviam assinalado manifestações de falsos dons carismáticos, até que foram expulsos da comunidade cristã por hereges. Outros se organizavam em congregações a parte, com seus ritos peculiares, inclusive semelhantes a clubes de mistérios, tão comuns no Império Romano, provenientes a sua vez de mistérios anteriores, gregos, egípcios e mesopotâmicos. Mas João nos adverte: “1 Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. 2 Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; 3 e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo. 4 Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo.” (1 João 4:1-4).
A gnose é um amálgama de crenças e dogmas de origem orientalista Sob um verniz bíblico. Afirmam que o sentido alegórico da Escritura é mais importante que o literal, pelo qual só pode ser entendida por uma elite de "iniciados", ou seja, os que possuem essa iluminação especial de que falam. Tinham incorporado tradições esotéricas como a metempsicosis ou transmigração das almas, que não é outra coisa senão a falsa doutrina chamada reencarnação. Também incluem a astrologia babilônica, o dualismo persa, a cabala judia, e o hermetismo de Hermes Trimegisto do Egito. Diz-se que o maniqueísmo foi praticamente uma seita gnóstica. O historiador cristão Eusébio de Cesaréia, em sua História Eclesiástica, nos diz que no primórdio do cristianismo houveram muitos cristãos de tendência gnóstica ou abertamente gnósticos, dentro dos que se contam Cerinto (da Ásia Menor, século I); do século II temos a Basílides (de Alexandria), Bardesanes, Valentino (de Alexandria), Marcion (do Ponto), Ptolomeu e Heracleon (154-180), discípulo de Valentino. Mas essa informação a obtém Eusébio dos tratados deixados por Ireneu, quem escreveu suas obras Contra os hereges (Adversus Hæresus), para refutar os desvios gnósticos e defender a pureza do depósito deixado pelo Senhor. Outros que em sua oportunidade se opuseram ao gnosticismo foram Tertuliano com suas obras a Prescrição e Contra Marcion, Hipólito de Roma com sua obra A Refutatio, e Epifânio de Salamina, cuja obra chave foi "Panærión". Nos séculos posteriores, o gnosticismo chegou a tomar tanta força, que até Clemente de Alexandria foi influído no pensamento por alguns de seus postulados. Na prática, os gnósticos são antinomianistas por excelência. O antinomianismo*(3) tende a sacar conseqüências falsas de Romanos 6:15. Agora estamos embaixo da graça, mas isso não significa que nos é permitido desobedecer a lei. Não nos salvamos por cumprir a lei, senão que a cumprimos pela graça do Espírito que mora em nós.
*(3) Antinomianismo vem de anti, contra, e nomos, norma, lei. Heresia dos que se opõem à lei. Mas o antinomianismo é o oposto à heresia do legalismo; é dizer, converter em libertinagem a graça.

O amor é sofrido e paciente

A Palavra declara enfaticamente que Deus é amor, um amor sublime que se revela em Seu Filho, Jesus Cristo, e que consiste em dar a Si mesmo totalmente, e o ideal da Igreja se encaminha à plena expressão e realização deste amor em cada um dos santos, e assim mesmo corporativamente. Quando a Igreja é impulsionada por este amor, na unidade e a vida no Espírito, nada a detém para o cumprimento da obra de Deus, nem mesmo a perseguição. A igreja, desde seus primeiros dias em Jerusalém, foi objeto de perseguição e sofrimento, cárceres e martírios. O livro dos Atos narra com luxo de detalhes os padecimentos de Pedro e João e a grande perseguição que se desatou no tempo em que dirigentes religiosos como Saulo de Tarso perseguiram aos santos; como o caso do primeiro mártir, o diácono Estevão. Mais tarde, o mesmo Saulo, convertido já no apóstolo Paulo e em nova criatura, foi objeto de muito sofrimento, pois desde a primeira viagem recebeu em sua carne os embates da violência, a tal ponto que na cidade de Listra o apedrejaram com tanta ira, que lhe arrastaram fora da cidade, pensando que estava morto. A causa da perseguição, muitos crentes foram espalhados por diferentes cidades e povos, mas a onde queira que fossem, pregavam o evangelho e estabeleciam igreja em cada localidade: Damasco, Samaria, Antioquía, Jope, Cesaréia. A igreja primitiva era sofrida e tinha paciência porque estava cheia do amor de Deus. Essa é a máxima prova do poder espiritual. Neste campo se destaca também o caso de Tiago, irmão de João, quem no curso de uma perseguição na qual também encarceraram ao apóstolo Pedro, foi morto a espada em Jerusalém por ordem do rei Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande, quem por sua vez morreu comido pelos vermes sentado em seu tribunal, no ano 44 D. C. (cfr. Atos 12) Não deve confundir-se este Tiago com o irmão do Senhor, que se diz foi o primeiro dirigente da igreja em Jerusalém, e que foi morto por ordem do sumo sacerdote Anás no ano 62, conforme o afirma Flavio Josefo, quando diz: "Sendo Anás deste caráter, aproveitando da oportunidade, pois Festo havia falecido e Albino (o novo procurador romano) estava a caminho, reuniu o sinédrio. Chamou a juízo ao irmão de Jesus que se chamou Cristo; seu nome era Tiago, e com ele fez comparecer a vários outros. Os acusou de serem infratores da lei e os condenou a serem apedrejados".*(4) Uma das primeiras e mais famosas perseguições foi a desencadeada por Nero, o pior e mais cruel de todos os imperadores romanos. Diz-se dele que para desvirtuar o rumor de que havia mandado incendiar a Roma, culpou aos cristãos, pois eram acusados por seus contemporâneos de ódio. Muitos gostaram do martírio. Despedaçados pelos cães depois de haverem sido envoltos em peles de animais; outros foram crucificados, ou envoltos em chamas, como tochas vivas, para iluminar um circo nos jardins privados do imperador, que hoje são os assentos dos palácios do Vaticano. Há uma tradição que diz que o apóstolo Paulo foi decapitado na mesma cidade no ano 64 D.C por ordens de Nero. Não obstante que sobre o apóstolo Pedro se têm afirmado que foi decapitado em Roma no ano 67 DC., também por ordem de Nero, não há evidência bíblica que diga que ele esteve em Roma.
*(4) FLAVIO JOSEFO, Antigüidades dos Judeus, CLIE, Tomo III, livro XX, capítulo IX,1

Éfeso se desliza

“4 Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. 5 Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas.” (vv.4, 5).Ao analisar a igreja histórica na cidade de Éfeso, simultaneamente o estamos fazendo com a condição do período profético correspondente aos tempos da Igreja do Senhor, e temos diante de nós uma Igreja enamorada do Senhor, de Sua obra; uma Igreja em perfeita comunhão no Espírito, cheia de amor pelo Senhor. Os irmãos vivendo na unidade, no Espírito; estava mesmo longe de se perder a vida corporativa da Igreja e a obediência absoluta à vontade de Deus; uma Igreja cheia de gozo na comunhão dos santos e a vida interior; um período no qual havia um só candeeiro em cada localidade e se vivia a unidade da igreja local; se conservava fresco o odre novo que Deus havia provido para Seu vinho novo; se vivia sob o senhorio de Cristo, o kyrios, a autoridade espiritual e o apostolado.Mas depois da morte do apóstolo Paulo, começou a se cingir sobre a Igreja o que alguns costumam chamar "a idade das trevas"; ora pelas contínuas perseguições, ora pelo vazio de informação sobre esse período subapostólico. Mas o verdadeiramente sombrio radica em que a Igreja começou a se deslizar, a decair; o primeiro amor se foi esfriando na segunda geração, e do avivamento inicial não ficava senão as obras, pois com freqüência pode se dar o caso de que haja muita atividade sem que realmente se ame ao Senhor, e ao Senhor o que lhe agrada é o trabalho de nosso amor, porque “Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei.” (1 Co. 13:2). Mais interessa ao Senhor que se lhe ame e se lhe obedeça, que o afã excessivo de fazer muitas coisas externas, nas quais às vezes se ufana a carne e se infla o ego. Isso vem a constituir uma traição ao Senhor. O Senhor não quer que lhe façamos nada sem amor; Ele quer nosso coração; quer que amemos mais a Ele que a Sua obra. Uns trinta anos antes, o apóstolo Paulo havia escrito aos irmãos de Éfeso: “15 Por isso, também eu, tendo ouvido da fé que há entre vós no Senhor Jesus e o amor para com todos os santos, 16 não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações” (Ef. 1:15,16). Quando uma igreja local não mantém o testemunho de Deus no mundo, seu candeeiro é retirado. Éfeso caiu de seu nível original e foi baixando tanto que lhe foi retirado o candeeiro de seu lugar até que deixou de ser uma cidade cristã para converter-se em um centro muçulmano. Em Apocalipse, não há palavras que indiquem que o candeeiro de Éfeso havia de continuar existindo até a segunda vinda do Senhor Jesus. Igual sucede com Esmirna e Pérgamo. Esse período histórico-profético corre com a mesma sorte da cidade de Éfeso, cuja importância se perdeu nos anais históricos, e no lugar que ocupou se levanta hoje uma aldeia turca. Ao deslizar-se, a Igreja começou a deixar seu primeiro amor. Qual é esse primeiro amor? Não pode ser o amor do corpo, o erótico, biológico e carnal, que vem do grego Eros; tampouco pode ser o amor entre marido e mulher, nem entre os irmãos, entre amigos, ou afetivo, da alma, do grego psiqué, senão o amor derivado de uma terceira palavra grega, ágape (αγάπη) e esta de agapao (amar), a classe de amor manifestado por Deus em Cristo, e por Cristo ao dar-se a si mesmo. Ágape designa o amor que os crentes sentem por Deus, e uns pelos outros. O amor é um dos dons mais excelentes que nos têm dado o Senhor. Ao falar do primeiro amor, a palavra grega que se traduz primeiro é a mesma que em outros textos se traduz melhor, como em Lucas 15:22. De modo que devemos amar ao Senhor com o melhor e mais excelso de nosso amor. Recorda, reflita de onde tens caído; volte, como o filho pródigo (Lucas 15:17).Na Igreja primitiva, e se da notícia disto sobre tudo em Jerusalém e Corinto, a Ceia do Senhor ocupava um lugar proeminente na vida comum da Igreja; e a Palavra deixa entrever que havia uma comida ou ceia fraternal, o ágape, ou "festa do amor", que os primeiros cristãos celebravam juntos antes da Ceia do Senhor. É possível que Paulo mesmo as houvesse estimulado na igreja da localidade grega de Corinto, a julgar pelo contexto de 1 Corintios 11:17-34. Inácio de Antioquia e a Didache mencionam esta comida em relação com a santa ceia, apesar de que Paulo havia indicado, já que não formava parte da ordenança que o Senhor Jesus instituiu, senão que ao contrário era suscetível de abusos que deviam ser evitados. Cada um trazia seus próprios alimentos e bebidas, e os melhores aprovisionados não costumavam compartilhar com os irmãos que traziam pouco ou nada. Desafortunadamente, e para pena de Paulo, com o tempo surgiram abusos graves nestas festas, porque a raiz do anterior se fomentou nelas a glutonaria, imoralidade, e alguns se ficavam bêbados, e outros, por contraste, ficavam com fome. Como se começasse as disputas entre os ricos e os pobres no seio da Igreja do Senhor. Aos finais do século I, já se celebrava a ceia do Senhor sem ser precedida por nenhuma comida. “Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis. 21 Porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague. 22 Não tendes, porventura, casas onde comer e beber? Ou menosprezais a igreja de Deus e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto, certamente, não vos louvo. 27 Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. 28 Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice;29 pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si 30 Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem 31 Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados.32 Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo.33 Assim, pois, irmãos meus, quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros.34 Se alguém tem fome, coma em casa, a fim de não vos reunirdes para juízo. Quanto às demais coisas, eu as ordenarei quando for ter convosco.” (1 Co. 11:20-22, 27-34).
“Estes homens são como rochas submersas, em vossas festas de fraternidade, banqueteando-se juntos sem qualquer recato, pastores que a si mesmos se apascentam; nuvens sem água impelidas pelos ventos; árvores em plena estação dos frutos, destes desprovidas, duplamente mortas, desarraigadas;" (Jd. 12).
É mais provável que o texto de 2 Pedro 2:13 seja "enganos" em vez de "ágapes" em algumas versões, não obstante o contexto fala sempre de comilões. Precisamente devido a estes abusos foi desaparecendo a festa, ao menos como celebração ao lado da Ceia do Senhor. Entretanto, há sido recuperado entre algumas agrupações cristãs, como entre os irmãos Morávios no século XVIII, de onde John Wesley introduziu aos primeiros metodistas, particularmente entre pequenos grupos. Hoje se pratica de maneira especial nas igrejas do Senhor de cada localidade já recuperadas e não vinculadas a organizações denominacionais, o candeeiro em cada localidade. “As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios, afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens da sua casa pelo amor, seria de todo desprezado.” (Cantares 8:7).A igreja na localidade de Éfeso chegou a crescer até alcançar um alto grau de amadurecimento espiritual e fidelidade ao Senhor. Paulo dedicou suficiente tempo de seu ministério, ocupado principalmente em ensinar na escola da obra, e mais tarde, desde sua prisão, chegou a escrever uma de suas mais profundas epístolas, onde compartilha de alguns mistérios e revelações relacionadas com a pessoa de Cristo, e da Igreja como casa de Deus. Nessa carta não há repreensões, não era necessário naquele momento. Paulo se interessou muito pela obra do Senhor entre os Efésios, e durante sua última visita pela região, em vista de que não podia chegar até Éfeso, desde Mileto mandou chamar aos anciãos da igreja, e entre outras coisas lhes disse: “28 Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue. 29 Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. 30 E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles.” (At. 20:28-30). Aos finais do século primeiro, quando o ancião apóstolo João escrevia as visões do Apocalipse em Patmos, a igreja de Éfeso havia caído de sua posição original. É ilustrativo o caso da igreja na localidade de Corinto. Tanto havia degradado a Igreja na perca de seu primeiro amor, que encontramos em Corinto uma mostra muito diferente à de sua posição original em Jerusalém. Até aos ouvidos de Paulo chegou a notícia da situação da igreja de Corinto na Grécia, a tal ponto que no ano 55 D.C de Éfeso lhes escreve a que se conhece como a primeira epístola aos Coríntios, na qual o problema que trata primeiro é o âmago ou intenção de divisão que pairava sobre essa igreja local. “10 Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer 11 Pois a vosso respeito, meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há contendas entre vós.12 Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo.” (1 Co. 1:10-12). Estava ameaçada a unidade da igreja, e a causa era a falta de amor entre os irmãos. A Igreja é o Corpo de Cristo. No verso seguinte Paulo lhes diz: "Acaso está dividido Cristo?". De acordo com o contexto da carta, isso estava ocorrendo ali simples e sutilmente pela carnalidade e falta de amadurecimento dos irmãos, mas concretamente o mal se originava pela falta de amor, como se declara no capítulo 13. Nos tempos em que Clemente de Roma escreve sua epístola aos Coríntios, já se havia protocolizado outra divisão nessa igreja.*(5) A Palavra de Deus não autoriza senão que condena enfaticamente toda insinuação sequer de divisão em Sua Igreja, porque isso destrói a unidade de Seu Corpo. Não há sequer indícios na Palavra de Deus de que as diferentes e legítimas equipes apostólicas do primeiro período da Igreja, ou alguns dos apóstolos a título pessoal, pretenderam constituir "missões" cismáticas e denominações, que fossem exemplos de protótipos e padroeiros para legitimar as divisões dos últimos séculos. Mesmo que o Senhor Jesus dera pouca atenção a uma organização permanente e à instituição de um governo central, é inegável e bíblica a realidade da comunhão apostólica e o amor fraternal dos santos desde os primórdios da Igreja. O ideal proposto pelo Senhor para Sua Igreja no Novo Testamento foi o da unidade inclusiva.
*(5) CLEMENTE DE ROMA, Epístola aos Coríntios XLVII:1-7

Em seguida, o Senhor recomenda à igreja de Éfeso a recordar de onde caiu, qual era o nível que ocupava ao princípio, que veja a causa pela qual se deslizou, que veja tudo o que se havia perdido; trata de ajudar a voltar a essa posição do princípio, pois já começaram a ver certas conseqüências negativas. O candeeiro tem um depósito, e esse depósito estava começando a se perder. O livro dos Atos dos Apóstolos e as epístolas de Paulo e os apóstolos dão testemunho do estado original desse depósito deixado pelo Senhor para Sua Igreja. O Senhor convida à igreja a que se arrependa e a que faça as primeiras obras, as obras em amor, pois tudo o que se faz sem amor não serve de nada. O Senhor convida a que volte a ser fiel; se pode fazer muitas coisas sem ser fiel ao Senhor, e sem levar em conta que Cristo é o Senhor, o que deve ordenar as coisas conforme Sua vontade. Se podem estar fazendo muitas coisas na Igreja sem que necessariamente esteja intervindo o Senhor. No caso de que a igreja não se arrependesse, o Senhor tiraria o candeeiro de Éfeso. Essa igreja seria disciplinada pelo Senhor, pois o candeeiro é a igreja, e o Senhor esta no meio dos candeeiros. Sem a presença do Senhor, do Espírito Santo, não pode haver luz no candeeiro, e nessa forma não se pode fazer a obra de Deus nem dar o testemunho de Sua presença. Historicamente o primeiro que começou a se perder na Igreja do Senhor foi o primeiro amor. Com freqüência descuidamos o amor ao Senhor por amar Sua obra, no qual há o perigo de confundir os termos, e em vez de tê-la por "Sua obra", nos tenta o pensar que é "nossa" obra, e a carne começa a requerer elogios. Para que quer o Senhor uma grande obra sem amor? Se abandonarmos o primeiro amor ao Senhor, é inevitável que sobrevenham as degradações. Sem amor não há vida, e sem vida não há luz. O Senhor não quer que Sua noiva não o ame, nem quer que esteja morta, caminhando em trevas. Na medida em que finalizava o período apostólico, iam se temperando no panorama judeu alguns atos que mudariam por muito tempo a história do povo terreno que Deus escolheu para manifestar-se e bendizer ao mundo, trazendo consigo conseqüências que repercutiriam também na Igreja. Não muito depois que a Terra Santa sucumbiu abaixo do domínio do Império Romano, no ano 42 A.C começou a surgir um forte ressentimento entre os judeus contra Roma, em forma tal que uma geração depois da crucificação do Senhor Jesus, aquele ódio amadureceu tanto, que degenerou em uma estrondosa rebelião no ano 66 d.C., que trouxe como resultado a destruições de cidades e enormes matanças por parte das tropas romanas ao mando do general Vespasiano, que foi chamado a Roma para ocupar o trono imperial, deixando à frente do exército na Palestina a seu filho o general Tito. Como as coisas pioravam, depois de um prolongado sítio, finalmente, no ano 70 D.C., ocorreu a destruição de Jerusalém e do templo judeu, sob o mandato de Tito, cumprindo-se assim o dito pelo Senhor: “Ele, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada.” (Mat. 24:2). Esta profecia do Senhor advertiu aos irmãos, para que pudessem sair a tempo da cidade antes que sucumbisse, e este feito serviu para que se rompesse toda relação entre o judaísmo e a Igreja, pois nos primeiros anos, no Império Romano tinham à Igreja como uma seita a mais da religião judia. A vontade do Senhor foi a de que se estabelecesse
uma clara diferenciação entre Israel e Sua Igreja; que não se confundisse a figura da adoração com a verdadeira adoração, nem a sombra das coisas com a realidade . A nação dos judeus foi destruída, até o dia 15 de maio de 1948, fecha em que se produziu sua restauração como o moderno estado de Israel. A intenção inicial do general Tito não era destruir a formosa cidade de Jerusalém, nem muito menos ao prodigioso templo, mas a teimosia dos judeus e suas contendas desde as muralhas, o obrigaram a tomar a decisão de atacar tão ferozmente, que sobreveio o pior. Relata o historiador judeu Flávio Josefo, testemunha presencial deste histórico evento, que Tito havia dado a ordem de não destruir o templo mesmo quando houvesse sido tomada a cidade. Mas dentro as tropas de assalto tiveram mais fome de apoderar-se de todo esse ouro e riquezas do templo que, acidentalmente, foi provocado um voraz e incontrolável incêndio que deu lugar a que todo esse ouro se fundisse introduzindo-se entre os interstícios das grandes pedras das paredes do templo; o que obrigou aos ávidos soldados a irem arrancando e derribando pedra sobre pedra, a fim de sacar o cobiçado ouro que com o fogo se havia derretido. O templo de Jerusalém não foi reconstruído desde sua destruição no ano 70 D. C. até o dia de hoje, mesmo que profética e eventualmente deverá ser construído antes da vinda do Senhor, no mesmo lugar que ocupa o templo muçulmano chamado a Mesquita de Omar ou Domo da Rocha. Diz-se que usando essas antigas pedras do autêntico templo jerosolimitano, com o tempo os judeus construíram o famoso Muro das Lamentações no mesmo recinto, e o único que atualmente se conserva dele, ao que comparecem os judeus clamando pela vinda do Messias. Durante o sítio a Jerusalém por parte dos exércitos do Império Romano ao mando do general Tito, pode haver sucedido algo similar ao ocorrido no sítio da cidade santa por Nabucodonosor e seu exército babilônico, por volta de seis séculos e meio atrás. Em ambos os casos os sitiadores não tinham em primeira instância o propósito de destruir a cidade e o templo, mas os judeus resistiam, pensando que pela presença do templo em meio da cidade, Deus não permitiria que os incircuncisos pudessem penetrar nela e a destruíssem junto com o templo e saquearam tudo. Também alimentaram a crença de que Israel estava destinado a conquistar e dominar ao mundo inteiro, e que isso os fazia inexpugnáveis. O templo de Jerusalém foi tirado; o mesmo ocorreu com o candeeiro em Éfeso. Os judeus chegaram a amar mais sua religião e seus interesses que a Deus; os crentes primitivos se foram degradando, perdendo o testemunho do Senhor. Se abandonarmos nosso primeiro amor, perdemos nosso testemunho e o candeeiro é tirado.


É F E S O
(3a. parte)

Os nicolaítas

"6 Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio ".O Senhor volta a comparar-se com a igreja de Éfeso e a louvar de novo, dizendo que lhe agrada que Éfeso aborreça o que Ele aborrece, as obras dos nicolaítas. Quem são os nicolaítas? O termo nicolaíta, vêm do grego "nikoláos", das raízes nikaos, governante, dirigente, guia, também tem a conotação de conquistar ou vencer, e laite ou laos (λαός), gente comum, secular, povo, laicado; da qual se deriva a palavra laico, significando, pois, "os que vencem ao povo", ou os que exercem autoridade sobre o povo, os que vencem aos laicos, pessoas que se têm por superiores aos crentes comuns; é esse afã de exercer autoridade e domínio sobre o povo, formando assim um tipo de hierarquia (governo da casta sacerdotal). De onde se deduz que aqui o Senhor condena a mesma incipiente tendência na Igreja, de criar um partido de pessoas ambiciosas que se erijam por cima das demais, ávidas de poder, e que finalmente haviam de criar um sistema clerical divisório e exclusivista, formando assim dois grupos na Igreja: um minoritário, elitista e soberbo, chamado clero, e outro integrado pela grande massa dos santos, o laicado, governado e submetido pelo primeiro, hierarquia que vemos tomar força nos sistemas do catolicismo e o protestantismo, estorvando assim a economia de Deus. Isso aborrece o Senhor da Igreja. O Senhor aborrece os ambiciosos de poder ao estilo Diótrefes. Mesmo no povo hebreu, Deus quis que Seu povo fosse todo um reino de sacerdotes (Êxodo 19:6), mas devido à adoração ao bezerro, perderam esse privilégio, e foi escolhida a tribo de Levi para exercer (Êxodo 32; Deuteronômio 33:8-10). A respeito dos nicolaítas, diz Matthew Henry: "É, pois, possível que se trate de uma seita de "iniciados" (gnósticos), que pretendiam estabelecer uma divisão do povo de Deus em castas, o qual havia de derivar, no decorrer do tempo, no estabelecimento da casta sacerdotal dentro da Igreja oficial do Império; isto havia de comportar os ritos e cerimônias que abundam em todas as religiões mistéricas, como pode ver-se mesmo na Igreja Romana, e mais todavia na chamada Ortodoxia. Mesclando o cerimonialismo judeu com a filosofia grega, temos já uma seita que combina o entusiasmo espiritual com o relaxamento moral; muita fantasia religiosa mesclada com despreocupação ética; orgulho e vaidade de mística retórica e de caráter "superior" que, na realidade, introduzia na Igreja o egoísmo, a soberba, o descuido do amor fraternal; afinal de contas, a mesma ortodoxia estava também em perigo. Como se defender de tais inimigos? Nos diz claramente a palavra de Deus: "Minhas ovelhas ouvem minha voz", diz o Senhor (João 10:27). E o próprio João nos diz: " E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento.... Permaneça em vós o que ouvistes desde o princípio.... Isto que vos acabo de escrever é acerca dos que vos procuram enganar. (1 João 2:20, 24, 26)". (Matthew Henry. Comentário Bíblico do Apocalipse. CLIE. 1991. Pág.: 334).
A Igreja de Jesus Cristo toda é sacerdotal, e a imposta classe clerical mediadora prejudica o sacerdócio universal dos crentes. O Senhor não tolera que nada venha a se assenhorear de Sua Amada, a que Ele comprou com Seu sangue. O livro dos Atos e as cartas de Paulo determinam o governo da igreja local em mãos de um presbitério ou grupo de anciãos ou bispos (pastores). Não obstante, se adverte que no período de Éfeso só se conhece certos esforços pessoais, como o caso de Diótrefes (cfr. 3 João 9,10), de exercer autoridade sobre os santos; mas há indícios de que ao final do primeiro século e concretamente no segundo, ao redor do ano 125, talvez em um intento de imitar o cerimonialismo judeu, começou a dar-se a inclinação de elevar a um bispo sobre seus companheiros anciãos, assunto este que paulatinamente conduziu ao clericalismo, em detrimento da autêntica dependência do Senhor e do sacerdócio de todos os santos. A institucionalização da tribo de Levi e a família sacerdotal de Arão, não foi a intenção inicial de Deus no povo hebreu, e no Novo Testamento Deus volta a Seu propósito original (cfr. 1 Pedro 2:5,9; Apocalipse 1:6; 5:10). Hoje se desenvolveu o clericalismo no sistema babilônico e suas ramas. No começo do século segundo, Inácio, bispo da igreja de Antioquía, registra o Ato que já se estava dando em alguns lugares com relação à errônea diferenciação entre bispo e presbítero. Inácio, no curso de sua viagem a Roma como prisioneiro, rumo ao martírio, escreveu cartas a várias igrejas locais, quase todas na Ásia Menor (Éfeso, Magnésia, Trália, Filadélfia, Roma, Esmirna, e a Policarpo), nas quais encontramos a cita mais antiga sobre a distinção entre bispo e presbítero. Ali pela primeira vez aparece o que estava dando de colocar hierarquicamente o bispo por cima dos presbíteros e declarando que o bispo (o nomeava em singular) era o representante de Deus o Pai, e que os presbíteros são o sinédrio de Deus, a assembléia dos apóstolos. (Favor ler a carta de Ignácio aos Esmírnios no apêndice ao final deste capítulo). Com o tempo isto degenerou na nefasta divisão entre o clero e laicos. Foi se introduzindo a hierarquia na Igreja. Foi se estabelecendo e generalizando sutilmente essa "vaidosa" forma episcopal de governo, a qual chegou a ser dominante e universal. É possível que até o final do período de Esmirna hajam persistido as duas modalidades, a do bispo de uma só igreja local, e a do bispo que agia como se tivesse o direito de dirigir-se com autoridade às igrejas em outras localidades. Diz-se que depois do ano 150 D. C., os concílios eram celebrados unicamente com esta classe particular de bispos, e logicamente que as leis eram ditadas só por eles. Muitos alegam um acervo de razões para que isto se sucedesse, mas ante as razões do Senhor não há justificação alguma. Como quais razões lutam? Entre outras, como o crescimento e extensão da Igreja, as perseguições, fazer frente ao surgimento de seitas, heresias e divisões doutrinais. Mas devemos em justiça observar a constância que durante os períodos de Éfeso, Esmirna, e muita parte de Pérgamo, nenhum bispo reclamou para si autoridade de caráter universal sobre o resto dos bispos e da Igreja inteira, como mais tarde o fez o bispo de Roma. Conforme a Palavra de Deus, um bispo (em grego episkopos, supervisor) não é de maior hierarquia que um ancião. Tomemos novamente o exemplo de Atos 20, no qual o apóstolo São Paulo chama anciãos aos dirigentes da igreja da localidade de Éfeso; e a esses mesmos anciãos, no verso 28 lhes chama bispos e também pastores, porque diz: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes (ofício de pastores) a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue.”. Os líderes das igrejas locais são os anciãos, constituídos pelos apóstolos da obra (Atos 14:23; Tito 1:5), sem que ele signifique que ocupam hierarquicamente uma posição mais elevada. legítimos pastores são aqueles irmãos mais maduros espiritualmente da igreja local, quem, por seu amadurecimento e visão mais ampla de Cristo, se constituem em desinteressados e humildes servidores de seus irmãos. O Senhor Jesus foi enfático quando afirmou:" 25 Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles.26 Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;27 e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo;28 tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. " (Mt. 20:25-28).O ancião ou bispo não deve assenhorear-se da igreja do Senhor, senão a supervisar e a vigiar no amor do Senhor. A igreja apostólica se distinguia porque em cada igreja local não havia um mas vários bispos (episkopoi) ou presbíteros (presbuteroi), que eram os mesmos anciãos ou pastores, pois se tratava de títulos que se davam aos mesmos ofícios, como atesta a Bíblia em Atos 20:17,18; Tito 1:5,7; 1 Timóteo 5:17; 1 Pedro 5:1; Filipenses 1:1; a primeira de Clemente aos Coríntios, capítulos 42, 44 e 57. Também Jerônimo, Agostinho de Hipona, o papa Urbano II (1091) e Pedro Lombarde admitiram que em sua origem bispos e presbíteros eram sinônimos, mas com o tempo o homem foi mudando as coisas de Deus, e o concílio de Trento (1545-1563) se encarregou de que esta verdade fosse convertida em uma heresia. Têm havido uma interpretação errônea quanto a alguns versos de Hebreus 13. No 7 diz: "Lembrai-vos dos vossos guias,(1*) os quais vos pregaram a palavra de Deus...". No 17 diz: "Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas...". No 24 diz: "Saudai todos os vossos guias...". Em primeiro lugar se observa que sempre se fala no plural ao referir-se aos guias ou pastores; como quando Paulo escreve à igreja da localidade macedônica de Filipos, e na saudação lhes diz: "Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os bispos e diáconos". Isto é saudável porque evita que um só indivíduo se assenhoreie da igreja, como se vê atualmente em certas congregações. Em segundo lugar, voltando aos Hebreus, essa obediência dos santos a seus pastores de nenhuma maneira deve ser cega, senão que deve tratar-se de uma sujeição à luz dos postulados do evangelho; uma obediência na comunhão espiritual, na qual tome parte ativa o Espírito Santo; uma obediência iluminada e guiada inteligentemente pelo Espírito do Senhor, no conhecimento do amor de Cristo, o qual se faz corporativamente. Qualquer sujeição forçada e hierarquizada na Igreja é abominável ao Senhor. *(1) Em Hebreus 13:7,17 e 24, o original grego para a palavra pastores usa hegouménon, que significa "guias" ou "dirigentes". Pela frase que segue no verso 7 se deduz que a expressão não pode limitar-se só aos pastores (os que governam), mas também aos mestres, os que ensinam.

O clericalismo dos sistemas religiosos cristãos é uma mescla de elementos do judaísmo com alguns traços da organização sacerdotal da religião babilônica, com suas distintas variantes culturais. Babilônia é a berço da religião satânica, e tudo o que provém de Satanás vai de rumo a desvirtuar os princípios do Senhor para Sua Igreja. Na religião babilônica, com suas variantes egípcia, grega, romana, etc..., havia uma casta sacerdotal dominante. No judaísmo houve uma organização sacerdotal temporal, que foi mudada por um sacerdócio eterno, que inclui a Igreja. Na legítima Igreja do Senhor não existe o clericalismo, pois todos somos sacerdotes. O apóstolo Pedro o manifesta com suma clareza em 1 Pedro 2:5, assim: "... também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo”. Outros textos que fortalecem e confirmam esta afirmação podemos tomar em Apocalipse 1:6 e 5:10:"... e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém! "."... e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra".Não há lugar a dúvida alguma de que não é a vontade do Senhor que em Sua Igreja haja posições e classe clericais, nem muito menos que os homens se assenhoreie de algo tão importante para o Pai, como é a Igreja, a Esposa que Ele se propôs conseguir a Seu Filho. A autoridade na Igreja é o Espírito Santo. Quando o ancião da igreja atribui a si essa autoridade emanada de seu cargo, acarreta conseqüências desastrosas no rebanho do Senhor. Se há confundido o ministério, trabalho ou serviço de pastor com um cargo revestido de uma autoridade mal interpretada e pior aplicada, devido a que se ha substituído a norma bíblica pela interpretação humana (cfr. Colossenses 2:20-22).Nas igrejas locais, os anciãos presidem, pastoreiam, ensinam, guiam, mas não governam com senhorio, pois essa classe de governo implica certa cota de poder, e o poder quer controlar tudo, convertendo-se em abuso do poder, tratando com dureza as ovelhas. Há de se levar em conta que todo poder tende a personalizar-se e a assenhorear-se. É um princípio claro do Senhor que em Seu Corpo não haja distinção entre clérigos e laicos. Na época em que se reuniu o concílio de Jerusalém, ao redor do ano 50 D. C., na Igreja não havia distinção mesmo entre ministros e laicos. Ali diz que “Então, se reuniram os apóstolos e os presbíteros para examinar a questão.” (Atos 15:6). Diz o apóstolo Pedro em sua primeira epístola 5:1-3:" Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada:2 pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade;3 nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. ".Isto escreve, abaixo da inspiração do Espírito Santo, o homem que o catolicismo romano proclama como o primeiro papa; sistema hierarquizado, clerical e assenhoreador por excelência. Mas lastimosamente não só esse sistema adoece dessas exaltações, mas os diferentes sistemas religiosos dentro da cristianismo, que se vão desmembrando do sistema mãe, herdando, como é de se supor, muitas de suas formas externas, incluindo metodologias, liturgias, clericalismos e sistemas eclesiológicos extra bíblicos. Mesmo que os primeiros passos firmes se deram no século segundo, período de Esmirna, entretanto, a carta à igreja de Éfeso nos indica que já se levantavam homens interessados em promover a perda da igualdade entre os irmãos, foi quando começou a se deteriorar o sacerdócio de todos os santos. A Igreja do Senhor começou quando existia a escravidão institucional mesmo entre os santos; mas tanto o escravo como o amo eram iguais na igreja e diante do Senhor. Eventualmente podia dar-se em qualquer das igrejas locais que o escravo fosse bispo enquanto que o amo não. Se observares detalhadamente os sistemas religiosos cristãos de hoje, verás que no catolicismo romano persiste o sacerdócio, nas igrejas nacionais e denominações institucionalizadas existe o sistema clerical e nas igrejas congregacionais e independentes, o sistema pastoral.

Ouvidos surdos


“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus”. Há um adágio popular que diz: "Não há pior surdo que aquele que não quer ouvir", e algo disso encerra o contexto da vez que o Senhor ensinava usando a parábola do semeador, e ao final da exposição da mesma, diz: "9 Quem tem ouvidos para ouvir, ouça". Quando Seus discípulos lhe pediram alguma explicação tanto da parábola como do porque lhes falava por parábolas à multidão, uma das razões que o Senhor responde é "13... Por isso, lhes falo por parábolas; porque, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem, nem entendem14 De sorte que neles se cumpre a profecia de Isaías: Ouvireis com os ouvidos e de nenhum modo entendereis; vereis com os olhos e de nenhum modo percebereis.15 Porque o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram com os ouvidos e fecharam os olhos; para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados.” (Mt. 13:9, 13-15).A frase: "O que tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas", é uma constante que aparece em todas e cada uma das sete cartas que estamos desmembrando. Por que se repete esta frase e aparece a palavra igrejas no plural? Porque estas sete cartas de Apocalipse não necessariamente estão dirigidas só às igrejas históricas nas localidades de Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia, mas também a todas as igrejas que estejam vivendo a mesma situação e características que aparecem em cada uma destas igrejas da Ásia Menor, através do tempo, como também é uma profecia que nos diz que essas mesmas condições históricas e num lugar geográfico, prevaleceram em determinada época de toda a Igreja. Mas acontece que através da história se vai tendo ouvidos para ouvir, mas não se têm ouvido a voz do Senhor, e a Igreja começou a perder paulatinamente esses princípios de vida corporativa previstos e revelados pelo Senhor em Sua incorporação à Igreja. Nesta mesma ordem de idéias, parece ser que se há semeado a semente em terreno rochoso. O Senhor fala às igrejas, não a denominações, seitas, religiões ou grupos particulares. Se o cristão vive nesta perspectiva, corre o risco de não ouvir nem entender o que fala o Espírito. Se tens capacidade para ouvir, poderás ver muitas coisas espirituais. Primeiro tem que ouvir a voz de Deus, e logo se tem a visão de Deus. O Espírito não fala a uma igreja única em particular nem às que não a são. O Espírito fala a Seu verdadeiro candeeiro em cada localidade. No candeeiro se ouve a voz do Senhor, e por isso se pode ver o que Deus está fazendo em Sua Igreja conforme Sua economia. A casa de Deus tem sua própria economia; e a economia de Deus tem que ver com a administração de Sua casa, e é necessário que essa administração produza o efeito que Deus deseja, conforme Seus propósitos eternos. Em grego, a palavra oikonomía se compõe de oiko, que significa casa, lar, e nomia, norma ou lei; a lei da casa ou norma do lar. Devemos obedecer essas normas da casa de Deus. Há muitas congregações denominacionais que erroneamente a si mesmas se chamam igreja local, e isso se deve a que não têm tido ouvidos ungidos para ouvir o que esta falando o Senhor em Sua Palavra. De acordo com o anterior cabe perguntar, que diz aqui o Espírito Santo, que o Senhor convida às igrejas a ouvir? O Senhor deixou um depósito e os homens começaram a esquecerem desse depósito e se afastarem da vontade do Senhor para sua Igreja. O depósito é todo o conjunto doutrinal revelado, assim como as promessas, as esperanças e os privilégios que comporta a condição cristã. O depósito encerra a vida, o dogma e vivência do andar da Igreja. Diz em 2 Timóteo 1:12-14: "12 e, por isso, estou sofrendo estas coisas; todavia, não me envergonho, porque sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia.13 Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus.14 Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós.". E em Judas 3, se fala de " exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos", significando o conjunto de crenças ou ensinamentos considerados básicos para o cristão.O Senhor quer que trabalhemos com Ele para a recuperação da unidade do candeeiro em cada localidade. O Senhor diz que constantemente esta observando a obra das igrejas; que esta atento quanto a autenticidade na nossa alegria em servir-lhe, se o fazemos com amor, com esse bendito e grande amor com que Ele trabalha em nós e nos da tudo, pois quando o motor ou força que nos move a servir ao Senhor, é o amor a Ele e não a nós mesmos, a glória Dele e não a nossa, Seus interesses e não os nossos, o exaltar a Ele e não a nós mesmos, essa é a obra que lhe agrada. Também diz que leva em conta nosso sofrimento e nossa paciência ante as adversidades, e que isso não significa que nos abandona a nossa sorte. O Senhor tem palavras aprobatórias sobre o sofrimento na Igreja; mas o cristianismo contemporâneo despreza o sofrimento, o evita, e em troca proclama e se ocupa da prosperidade nesta terra, o poder conjuntural. Paulo escreve a Timóteo: "3 Participa dos meus sofrimentos como bom soldado de Cristo Jesus. 12 se perseveramos, também com ele reinaremos” (2 Tm. 2:3,12). Assim mesmo se adverte que o Senhor descarta a moderna teologia da prosperidade, quando diz a seus discípulos: "24 Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. 25 Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. 26 Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma? " (Mt. 16:24-26). Também o Senhor nos abre os olhos ante os falsos obreiros; que voltemos ao primeiro amor de onde nós caímos. A Igreja como Corpo do Senhor não tem apego nem interesses terrenos, e sim espirituais e celestiais, mas no curso da história os papéis foram se trocando e a escala de valores se modificou de tal maneira, que as pessoas perderam o ouvido espiritual, e começaram a não entender a linguagem de Deus. Chegou o momento em que se esqueceram das verdades bíblicas e a substituíram pelas tradições, os estatutos e regulamentos dos homens, invalidando a Palavra de Deus. Na igreja primitiva começou a lagarta a comer a vinha do Senhor, mas no curso dos seguintes períodos da Igreja, " O que deixou o gafanhoto cortador, comeu-o o gafanhoto migrador; o que deixou o migrador, comeu-o o gafanhoto devorador; o que deixou o devorador,comeu-o o gafanhoto destruidor" (Joel 1:4).


Recompensa para os vencedores


Outra frase constante nas sete cartas é: "Ao que vencer". O Espírito fala às igrejas, ou seja, à Igreja como um todo, mas a Igreja não ouve e fala, vai deslizando, piorando. Então o Senhor se dirige às pessoas individualmente para que se esforcem e vençam, sejam vitoriosas, e, conforme à história da Igreja, em todos os tempos tem havido pessoas vitoriosas; em todas as épocas se têm registrado pessoas vencidas, mas também vencedores, e para todos eles há galardão. Analise a parábola das dez virgens. É necessário vencer a respectiva situação degradada, e no caso de Éfeso se refere a recobrar o primeiro amor pelo Senhor e recusar o ensinamento e a hierarquia dos que querem se assenhorear da obra do Senhor. Também em todas as cartas há uma recompensa diferente para os vitoriosos. A recompensa aos que vençam na carta à igreja em Éfeso é, diz o Senhor: “Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus”. O paraíso de Deus é a Nova Jerusalém vindoura, distinto do paraíso que aparece em Lucas 16:23-26 e 23:46, onde aguardam a ressurreição os santos que provaram a morte. A árvore da vida é Cristo mesmo, é a vida que nos alimenta. “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor” (João 15:1). É uma enredadeira que esta a um e outro lado do rio da água da vida no meio da praça da Nova Jerusalém, a cidade esposa do Cordeiro, na qual culminará a Igreja dentro da economia de Deus (cfr. Apocalipse 22:1-2). Há vários tipos de Cristo como alimento, como o maná, o produto da boa terra de Canaã e sobre tudo a árvore da vida, que se remonta ao Gênesis. O comer da árvore da vida era o propósito original de Deus, e agora ele o restaura com Sua redenção. A Igreja deixa de alimentar-se de Cristo, por receber outros alimentos fornecidos pela religião através das doutrinas de Balaão, dos nicolaítas, de Jezabel e das profundezas de Satanás. Mas a Igreja deve voltar ao banquete oferecido pelo Senhor, porque o caminho à árvore da vida foi aberto de novo, um caminho novo e vivo em Cristo (Hebreus 10:19-20). É necessário abandonar a religião e nos alimentarmos de novo de Cristo, desfrutar, voltando a Ele com o primeiro amor. O Senhor é nosso pão da vida (João 6:35, 57). Não é o mesmo alimentar-se de ensinamentos doutrinais, que de Cristo como nosso pão de vida. Sempre há circulado falsas doutrinas que tem trazido perturbação ao povo de Deus. Esta promessa é um incentivo para estimular aos filhos de Deus para que não se deixem enganar com doutrinas perturbadoras e em troca desfrutem ao Senhor, e se fará efetiva como galardão no reino milenar; mas todo vencedor pode começar a desfrutar desde agora, porque a vida da Igreja hoje é um gozo antecipado da Nova Jerusalém. O vencedor que se alimente de Cristo hoje, tem já assegurado que o comerá como árvore da vida na Nova Jerusalém. Os galardões são muito diferentes à salvação. Os galardões são prêmios para os vencedores receberem no reino milenar, e a salvação é um presente de Deus para seus escolhidos desde antes da fundação do mundo, e um presente nem se ganha, nem se merece, nem se perde.

A continuidade apostólica


Como decorreu o enlace e continuidade apostólica do período de Éfeso com o de Esmirna? Há consenso em que o período de Éfeso, ou primeiro grande período da Igreja, finalizou com a morte do apóstolo João o evangelista, ao redor do ano 100 D. C. Se sabe por Policarpo, o grande bispo de Esmirna, que João se estabeleceu em Éfeso desde o ano 60 D. C. e ali supervisou e salvaguardou as igrejas da Ásia Menor. Se indica assim mesmo que nos últimos anos do imperador Domiciano, ao redor de 86 D. C., foi deportado à ilha de Patmos, frente à costa ocidental da Ásia Menor, por causa de seu testemunho firme no Senhor Jesus Cristo, mas voltou a Éfeso de novo nos tempos do Imperador Nerva, onde morreu. Disto o sabemos por Papias e Eusébio de Cesaréia. No curso do período de Éfeso foi escrito todo o Novo Testamento, cujo último livro, como se sabe, é o Apocalipse de João, o discípulo amado, o último a morrer de todos os apóstolos do círculo do Senhor. Mas essa linha, tradição e ensinamento apostólico não se perdeu com a morte do apóstolo João, pois discípulos e companheiros dele continuaram; homens de Deus como Policarpo (69-156), bispo de Esmirna, haviam sido ensinados pelos apóstolos, em especial João. Policarpo foi queimado vivo nos tempos do imperador Antonino Pío. Policarpo por sua vez seguramente influenciou na formação de Irineu (130-195), outro nativo de Esmirna, e que mais tarde formou parte de um grupo de evangelistas enviados desde Esmirna como missionários às Gálias (hoje França), e chegou a ser bispo de Lyon. Deve-se muito a Irineu haver combatido os erros e heresias, em especial ao gnosticismo. Em uma visita a Roma, escreveu um extenso tratado "Contra heresias", afirmando que os apóstolos haviam transmitido fielmente o que haviam recebido do Senhor Jesus, sem mesclar esse depósito com idéias estanhas. Discípulo de João e companheiro de Policarpo foi assim mesmo Inácio (31 - 107), bispo que foi da igreja da localidade de Antioquía, e martirizado abaixo a perseguição do imperador Trajano. Outro discípulo do apóstolo João foi Papías (60 - 130), quem chegou a ser bispo de Hierápolis, na Frígia (hoje região da Turquia). Por Eusébio conhecemos um testemunho de Irineu no que afirma que Papías foi ouvinte ou discípulo de João, e companheiro de Policarpo. De Papías se diz que escreveu cinco livros, "Explicação de sentenças do Senhor", a primeira obra de exegese do Novo Testamento, desafortunadamente perdidos, exceto os fragmentos conservados na "História eclesiástica" de Eusébio de Cesaréia. Mas há quem afirma que Eusébio se absteve de conservar mais dos escritos de Papías por não compartilhar de suas idéias milenaristas, como também sobre a queda dos anjos e a explicação dos primeiros capítulos de Gênese, que constitui uma exegese acerca da simbologia de Cristo e a Igreja. Por Papías se conhece a autenticidade dos autores dos evangelhos de Mateus, Marcos, João, as cartas de João e o Apocalipse. Padeceu o martírio em Pérgamo. É importante mencionar também a Clemente, que foi bispo de Roma nos anos 90-100, e é autor de uma carta aos Coríntios, a qual é considerada por muitos como um dos documentos mais valiosos e mais antigos depois do Novo Testamento, a qual, antes de que se formasse o cânon definitivo da Bíblia, foi considerada como inspirada por algumas igrejas primitivas. O nome de Clemente aparece em "O Pastor" de Hermas, e se supõe que se identifica com Clemente que Paulo menciona em Filipenses 4:3, um colaborador íntimo da equipe de obreiros do grande apóstolo. Além do mais da carta mencionada, a Clemente falsamente se atribui a autoria de outros livros apócrifos como "Segunda epístola aos Coríntios", “Cartas às Virgens", "Homilias Pseudoclementinas" e "Relatos”. A fim de que o leitor vá se familiarizando mais com alguns detalhes destas sete igrejas do Apocalipse, notamos que no período da Igreja correspondente a Éfeso, Esmirna e Pérgamo, ou seja, os três primeiros, o Senhor não menciona sua vinda; por tanto se considera como períodos que expiraram sem que se registre continuidade e existência histórica perdurável até a segunda vinda do Senhor. Não ocorre assim com as quatro restantes, como veremos mais adiante, aos quais o Senhor lhes revela Sua vinda. Isto significa que quando ocorre eventualmente a segunda vinda do Senhor, não encontrará santos na situação de Éfeso, nem de Esmirna, nem de Pérgamo. Notemos que a chamada que o Senhor faz ao final a todas as igrejas ("o que tem ouvidos...") e a promessa aos vencedores ("ao que vencer...") se invertem nas quatro últimas cartas (Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia). Esmirna e Filadélfia são as únicas que não recebem reprovação alguma; em troca, Laodicéia é a única que não recebe nenhum louvor. Éfeso e Laodicéia encontram-se em grave perigo; Esmirna e Filadélfia, em excelente situação; Pérgamo, Tiatira e Sardes, atravessam por um estado espiritual medíocre.


CARTA DE INÁCIO AOS ESMÍRNIOS

(Neste documento se encontra o registro escrito mais antigo sobre o que já se estava ocorrendo em algumas partes, que houvesse distinção entre bispo e presbítero, considerando ao bispo superior aos presbíteros ou anciãos. Não obstante que este documento pode ter algum valor histórico-cultural, deve se adverter que seu conteúdo, em alguns aspectos como o caso de bispado de seu capítulo VIII, é contrário às Escrituras e, pelo menos, para o povo cristão essa parte não teria nenhum valor espiritual)

Assinatura e saudação.

Inácio, por sobrenome Portador de Deus: À Igreja de Deus Pai e do amado Jesus Cristo; a que alcançou misericórdia em todo dom da graça; a que está cheia de fé e caridade, e sem que lhe falte carisma algum; Igreja diviníssima e portadora de santidade, estabelecida em Esmirna da Ásia: Minha mais íntima saudação no espírito irreprovável e na palavra de Deus.


Elogio ao destinatário. Profissão de fé.


I. Eu glorifico a Jesus Cristo, Deus, que é quem até tal ponto os há feito sábios; pois muito bem me deu conta de quão apercebidos estais de fé incomovível, bem assim como se estiveras cravados, na carne e no espírito, sobre a cruz de Jesus Cristo, e que afiançados na caridade pelo sangue do mesmo Cristo. E é que os vi cheios de certeza no tocante a nosso Senhor, o qual é, com toda verdade, da linhagem de Deus segundo a carne, Filho de Deus segundo a vontade e poder de Deus, nascido verdadeiramente de uma virgem, batizado por João, para que fosse por Ele cumprida toda justiça. 2. De verdade, finalmente, foi cravado na cruz abaixo Pôncio Pilatos e o tetrarca Herodes, de cujo fruto somos nós, fruto, digo, de sua divina e bem aventurada paixão-, a fim de alcançar bandeira pelos séculos, por meio de sua ressurreição, entre seus santos e fiéis, ora venham dos judeus, ora dos gentios, reunidos em um só corpo de sua Igreja.




Os docetas, entes superficial.


II. Porque tudo isso sofreu o Senhor por nós a fim de que nos salvemos; e o sofreu verdadeiramente, assim como verdadeiramente ressuscitou a si mesmo, não segundo dizem alguns infiéis, que só sofreu em aparência. Eles sim são a pura aparência! E, segundo como pensam assim lhes sucederá, que fiquem em organismos incorpóreos e fantasmáticos.


"Tocar, apalpar e ver”.

III. Eu, por minha parte, sei muito bem, e nele ponho minha fé, que, depois de sua ressurreição permaneceu o Senhor em sua carne. 2. E assim, quando se apresentou a Pedro e seus companheiros, lhes disse: Toca-me,apalpe-me e veja como eu não sou um espírito incorpóreo. E ao ponto lhe tocaram e creram, ficando compenetrados com sua carne e com seu espírito. Por isso depreciaram a mesma morte, ou melhor, se mostraram superiores à morte. 3. E mais, depois de sua ressurreição, comeu e bebeu com eles como homem de carne que era, se bem, espiritualmente estava feito uma só com seu Pai.

Feras em forma humana.
IV. Agora bem, caríssimos, tudo isso os exaltou, mesmo sabendo que também vós sentis assim. Mas é que eu me faço de sentinela por vós contra essas feras em forma humana, é necessário que não só nunca os recebais entre vós, senão que, se possível, nem mesmo topar deveis com eles. A única coisa que vos cumpre é que rogueis por eles, porque se há maneira de que se convertam, coisa por certo difícil. Entretanto, isso cai dentro do poder de Jesus Cristo, verdadeira vida nossa. 2. Porque se só em aparência foram feitas todas estas coisas por nosso Senhor, logo também eu estou carregado de cadeia em aparência. Por que então me entreguei muito entregue à morte, à espada, às feras? Mas a verdade é que estar perto da espada é estar perto de Deus, e encontrar-se em meio as feras é encontrar-se em meio de Deus. O único que faz falta é que ele seja em nome de Jesus Cristo. A troca de sofrer juntamente com Ele, tudo suportou, como quis Ele mesmo, que se fez homem perfeito, é quem me fortalece.


Os que negam, são negados.

V. A Ele, por desconhecer, lhe negam alguns; ou melhor, tem sido por Ele negados, como advogados que são antes da morte que da verdade. Gente a quem não tem logrado convencer os profetas nem a lei de Moisés, nem sequer, até o presente, o Evangelho mesmo, nem os sofrimentos de qualquer de nós. 2. E é que sobre nós professam também a mesma opinião.Porque, de que me aproveita que alguém me louve, se maldiz a meu Senhor ao não confessar que leva uma carne? O que isto não confessa, lhe há negado absolutamente, e é ele então quem levam sobre si um cadáver.3. Agora, pelo que faz a seus nomes, como são de gentes infiéis, não me pareceu bem declara-los aqui. E mais: nem mesmo lembrar-me quisera deles até que se convertam àquela paixão que é nossa ressurreição.



Caridade, pedra de toque.

VI. Que nada se leve ao engano: mesmo as potestades celestes e a glória dos anjos e os príncipes, visíveis e invisíveis, se não crêem no sangue de Cristo, estão também sujeitos a juízo. O que possa entender que entenda. Que nada se envaideça pelo lugar que ocupa, pois tudo está na fé e no amor, às que nada se pode antepor. 2. Pelo demais respeito aos que professam doutrinas alheio à graça de Jesus Cristo, vindo a nós, podemos ver de quão contrários são ao mover de Deus. A prova é que nada se lhes dá pelo amor; não lhes importa a vida e o órfão, não se lhes da nada ao atribulado, nem se preocupam de quem esteja preso ou solto, Faminto ou sedento.


Os hereges fogem da Eucaristia.

VII. Apartem-se também da Eucaristia e da oração, porque não confessam que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, a mesma que padeceu por nossos pecados, a mesma que, por sua bondade, ressuscitou o Pai. Assim pois, os que contradizem ao don de Deus, morrem e perecem entre suas Indagações. Quanto melhor lhes fora celebrar a Eucaristia, a fim do que ressuscitou!2. Convém, por tanto, apartar-se de tais gentes, e nem privada nem publicamente falar deles, e sim prestar toda atenção aos profetas, e exclusivamente ao Evangelho, em que a paixão se nos faz patente e vemos cumprida a ressurreição. Toda divisão, em troca fuga, como princípio do mal.



Tudo abaixo a dependência do bispo.

VIII. Segui todos ao bispo, como Jesus Cristo ao Pai, e ao colégio de anciãos como aos apóstolos; em quanto aos diáconos, reverenciados como ao mandamento de Deus. Que nada, sem contar com o bispo, se faça quanto ao que se refira à Igreja. A Eucaristia há de se ter por válida que se celebre pelo bispo ou por quem dele tenha autorização. 2. Onde quer que apareça o bispo, ali esteja a multidão, ao mesmo modo que onde quer que esteja Jesus Cristo, ali esta a Igreja universal. Sem contar com o bispo, não é lícito nem batizar nem celebrar a Eucaristia; senão, melhor, aquele que o aprovar, isso também é agradável a Deus, a fim de que quanto fizéreis seja seguro e válido.


Exortações e gratas recordações.

IX. Razoável coisa é que por fim voltemos sobre nós mesmos, enquanto temos tempo para converter-nos a Deus. Bem está que sabemos de Deus e do bispo. O que honra ao bispo é honrado por Deus. O que as ocultas do bispo faz algo, rende culto ao diabo. 2. Que tudo, pois, redunde em graça para vós, pois dignos sois dele. Em tudo me aliviastes, como a vós outros rogo; vos alivie Jesus Cristo. Ausente ou mesmo que presente me hão dado provas de vosso amor. Que Deus seja vossa paga, a quem alcançareis como tudo suportais por seu amor.




Minhas cadeias, resgate vosso.

X. Bem fizestes em receber como a ministros que são de Cristo Deus, a Filón e Reo Agatópode, que me vem acompanhando com a visão de Deus. Eles dão também graças ao Senhor por vós, por os haverem aliviado a eles de todas as maneiras. Nada disso há de ser perdido para vós outros. 2. Por resgate vosso ofereço meu espírito e minhas cadeias, que vós não depreciastes altivamente nem os envergonhastes delas. Tampouco de vós se envergonhará aquele que é vossa honesta esperança: Jesus Cristo.


Um embaixador de Deus a Antioquía.

XI. Vossa oração tem chegado até a igreja de Antioquia da Síria, desde onde, carregado destas diviníssimas cadeias, vou saudando a todos, eu, que não sou digno de contar-me entre eles, pois sou o último de todos; entretanto, porque assim quis o Senhor, e não pelos méritos de que eu tenha consciência, e sim da pura graça de Deus - e Oxalá me seja dada cumprida!-, fui feito digno, por vossa oração, de alcançar a Deus. 2. Agora bem, para que vossa obra chegue a sua perfeição, tanto na terra como no céu, é conveniente, para honra de Deus, que vossa igreja eleja a um embaixador divino que vá até a Síria e lhes felicite por gozar de paz e haver recobrado sua própria grandeza e se haja restabelecido o próprio corpo daquela igreja. 3. Assim, pois, me há parecido coisa digna de Deus enviar a algum dos vossos com uma carta, a fim de que celebre juntamente com ela a bonança divina que lhes há sobrevindo e que por vossa oração hajam felizmente atracado já ao porto. Se sois perfeitos, tendes também pensamentos de perfeição. Porque se vós estais decididos a agir bem, pronto esta Deus também a procurar os que houverem de necessitar.


Saudação e despedida.

XII. Os saúda no amor dos irmãos de Troas, desde onde também os escrevo por mão de Burro, que enviastes comigo juntamente com os Efésios, irmãos vossos, e que em tudo me tem aliviado. E prouvera a Deus que todos lhe imitaram, como modelo que é no ministério de Deus! Que a graça se lhe recompense de tudo em tudo. 2. Saúdo a vosso bispo, digno de Deus; ao divino colégio de anciãos, e aos diáconos, conservo meus, e a todos os do povo em geral, em nome de Jesus Cristo, em sua carne e em seu sangue, em sua paixão e ressurreição, corporal a par que espiritual, na unidade de Deus e de vós outros. Que a graça seja convosco; a misericórdia, a paz e a paciência em todo momento.



Saudações particulares.

XIII. Saudação às famílias de meus irmãos, com suas mulheres e filhos, às virgens que são chamadas "viúvas". Recebei meu adeus na virtude do Pai. Os saúda Filón, que está comigo. 2. Minhas saudações à família de Tavías, à que rogo se firme na fé e no amor, tanto corporal como espiritual. Saúdo a Alce, nome para meu querido, e a Dafno, o incomparável, e a Eutecno, e nominalmente a todos. Adeus na graça de Deus.
PAIS APOSTÓLICOS. Versão de Daniel Ruíz Bueno. BAC, Madrid. Quinta edição de 1985. Páginas 488 a 496.

Capítulo II
E S M I R N A
(1a. parte)

SINOPSE DE ESMIRNA

Tempos da amargura da Igreja

Período dos mártires - Grandes provas para os santos - Os catecúmenos - Sinagogas de Satanás - Os judaizantes.

Heresias dos séculos II e III


Hereges e heresias: Marcion - Sabelianismo - Montanistas - Maniqueísmo.

As dez grandes perseguições

Debaixo do governo dos imperadores romanos: Nero - Domiciano - Trajano - Antonino Pío - Marco Aurélio - Sétimo Severus - Maximiano Traciano - Décio - Valeriano - Diocleciano - Grandes mártires: Pedro - Paulo - João - Clemente de Roma - Policarpo de Esmirna - Justino Mártir - Perpétua e Felicita - O diácono Lorenzo.

Os primeiros chamados pais da Igreja

Clemente de Alexandria - Orígenes - Gregório Taumaturgo - Escolas Teológicas: Alexandria - Antioquia - Ásia Menor - Cártago.

Os apologistas e polemistas

Apologistas: Aristídes - Epístola a Diogneto - Justino Mártir - Melitão - Apolinário de Hierápolis - Atenágoras - Milciades - Teófilo -Taciano - Minúcio Félix - Hermias - Polemistas: Irineu - Tertuliano.

Os vencedores de Esmirna

Segunda recompensa: Receberão a coroa da vida e não sofrerão o dano da segunda morte – O que é a segunda morte? A que se refere o sofrer o dano da segunda morte?


A CARTA À ESMIRNA.


“8 Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver:9 Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás.10 Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.11 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte.” (Apocalipse 2:8-11).

Bebida amarga

A localidade de Esmirna estava situada na Ásia Menor, nas costas do mar Egeu, no golfo do mesmo nome. Foi uma antiga colônia dos jônios, e mais tarde fez parte da província romana da Ásia. Diz-se que debaixo da proteção de Roma foi, no Império bizantino (de Constantinopla), um dos centros de expansão do cristianismo. Hoje é uma cidade da Turquía, conhecida no idioma turco como Izmir, e é a capital da província homônima. É a segunda carta das sete de Apocalipse, e está dirigida a uma igreja que representa a condição e características da Igreja no período profético compreendido entre final do século primeiro até o ano 313 D. C.; é como dizer, entre o subperíodo subapostólico e morte do apóstolo João até a promulgação do Edito de Tolerância, o Edito de Milão, do imperador Constantino o Grande. A carta começa dizendo: "Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver: (v.8).O termo Esmirna (Izmir) procede da mesma raiz grega de mirra, ou seja, myrrh, cujo significado é "amargura", o qual se relaciona com o sofrimento. A mirra é uma seiva preciosa que se obtém praticando incisões na casca da planta, e dessas feridas fluí a mirra em forma de lágrimas, que ao dessecar se tornam avermelhadas, translúcidas, frágeis e de fatura brilhante. Nos tempos antigos, a mirra, considerada um material precioso, foi usada em incensos, perfumes, ungüentos, medicinais, e se fazia oferenda dela no culto e nos sacrifícios. Entre os elementos que eram acrescentados ao óleo da santa unção, estava a mirra, que representa a obra do Senhor na cruz, ou seja, a morte; por isso a mirra servia para embalsamar aos mortos, como quiseram fazer as mulheres que visitaram a tumba do Senhor Jesus. Do anterior deduzimos o profundo significado da palavra Esmirna, significado que nos revela a condição da igreja nessa cidade e do segundo período histórico-profético da Igreja, a Igreja sofredora.A situação dos santos da igreja na cidade de Esmirna era estreita, pressionados em um foco de adoração ao César, qualquer que fosse o imperador de turno. Se diz que nessa cidade residiam muitos judeus que não perdiam oportunidade de incitar às autoridades e à gente comum à perseguição contra os cristãos. No começo os principais perseguidores eram os judeus aferrados a sua religião, pois lhes parecia que estavam sendo socavadas suas amadas e milenares instituições e tradições judaicas. O período de Esmirna se caracteriza porque durante esse lapso a Igreja foi objeto de dez grandes perseguições por parte dos imperadores romanos. É o período dos mártires da Igreja perseguida, é a Igreja em prova, não porque estava passando por uma queda espiritual, não; ao contrário, isso demonstra que se tratava de um período de muito amadurecimento espiritual, não eram uns meninos na fé, pois aos meninos não se pode ter a suficiente confiança para submete-los a semelhantes provas.Por amor, o Senhor concede aos maduros passar por provas, porque a Palavra de Deus diz que isso é necessário para a Igreja; E o Senhor os estava preparando para maiores provas que se aproximavam. É a Igreja em amargura. Já a Igreja de Cristo havia passado pelo período de gestação, da gloriosa plenitude da presença e o poder do Espírito Santo, dotando-a das ferramentas necessárias para um trabalho sobrenatural no meio de um mundo saturado pelos princípios satânicos, mas havendo começado a perder seu primeiro amor desde a época de Éfeso, e a beira de iniciar uma época de sangrentas perseguições, por isso a esta igreja, o Senhor se apresenta como o primeiro e o último, ou seja, o eterno, atributo só de Deus; primeiro porque ele deu origem a Seu propósito eterno, e último porque leva a consumação de tudo o que se há proposto; só Ele é eterno, e isso significa também que não teve princípio nem terá fim, e como Deus jamais muda, é imutável e, portanto confiável, digno de toda confiança. A perseguida igreja em Esmirna necessita do respaldo do Senhor, fiel, poderoso, imutável, o Cordeiro que foi destinado e imolado desde antes da fundação do mundo como sacrifício por nossos pecados (cfr. 1 Pedro 1:20; Apocalipse 15:8). Isto significa que Cristo foi o primeiro mártir, mas vive porque ressuscitou e a morte não pode vencê-lo. Ele os alenta como se lhes dissesse: Não temas, pois o juízo e a morte a que vos submetem agora são passageiros; Mas Eu sou o juiz do último juízo, e sou a ressurreição e a vida. Isso da segurança à Igreja. Há ocasiões críticas no existir humano, mesmo na vida de muitos santos, em que paradoxicamente não é fácil sustentar-se na fidelidade de Deus, pois não importa que sejas um gigante na fé; tem cuidado!Podes falhar. Mas Ele está conosco; sempre está conosco. Ele quer animar e infundir confiança aos santos de Esmirna. Além das credenciais anteriores, também o Senhor se apresenta como o que esteve morto e viveu, onde o Senhor está se referindo a Sua morte por crucificação e gloriosa ressurreição ao terceiro dia. Ele pediu à Igreja que seja fiel até a morte porque Ele mesmo havia sofrido antes, Ele mesmo havia passado por essa amarga experiência. Isso é de grande ajuda, alento e consolo para a Igreja sofrida. Cristo levou na cruz o poder religioso, o judaísmo, associado com um político, o Império Romano; o Senhor não se mesclou com esse binômio, e foi crucificado em uma aparente derrota, de onde saiu vitorioso, pois o Senhor foi glorificado por Sua morte, e ao ressuscitar, Seu poder superou ao que havia tido nos dias de Sua humanidade. O Senhor foi o primeiro vencedor. Diz o apóstolo Paulo que se o Senhor Jesus Cristo não houvesse ressuscitado, seríamos, os cristãos, as pessoas mais dignas de compaixão de todos os homens, pois vã seria nossa fé (cfr. 1 Coríntios 15:17,19); de maneira que o Senhor está vivo, e o mesmo poder que ressuscitou ao Senhor Jesus, eventualmente nos ressuscitará. Devemos permanecer firmes na grande vitória de Cristo sobre a morte e sobre Satanás. A grande onda de psicologia e apologia da prosperidade que tem invadido ao cristianismo tende a cobrir com uma grande cortina da fumaça do sofrimento na Igreja; por Sua bondade e Sua sabedoria, o Senhor nem sempre nos livra da angústia e tribulação; mas se não se sofre não se pode triunfar. Que se entende por triunfar? Cuidado! Não confundas as bênçãos materiais de Deuteronômio 28, prometidas para um povo terreno como Israel, com as bênçãos de tipo espiritual exclusivas da Igreja, Corpo de Cristo, escondida com Ele em lugares celestiais. Nossa posição com relação ao Senhor é diferente à de Israel. Para Israel são as promessas de tipo terreno, para a Igreja tomar a cruz a cada dia e seguir ao Senhor em um mundo em que somos peregrinos. Se a Igreja se interessa por triunfar nas coisas materiais e nas ambições de poder que com freqüência se escondem nos assuntos da política e demais enredos deste mundo, imediatamente se desvia do verdadeiro propósito do Senhor. O Senhor tem determinado para a Igreja uma classe especial de trabalho e posição ante o mundo, que necessariamente implica no sofrimento, porque a Igreja de Cristo é também um exército em constante luta, e essa é a razão pela qual o Senhor nos diz que nós temos que nos fortalecer Nele, e no poder de Sua força. Por quê? " 12 porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes." (Ef. 6:12). Constantemente o sofrimento deve estar na agenda do crente, assim como o Senhor Jesus Cristo esteve sempre consciente dessa situação, e de saber que Sua encarnação se devia a que veio a morrer vicariamente por nós, com toda essa bagagem de sofrimento que suportou. Se o Senhor estima que devemos sofrer, é porque nos convém sofrer. Que a seu tempo, Ele determine livrar-nos do sofrimento, que isso Ele decida conforme a sua infinita sabedoria, misericórdia e soberania. Sejamos sóbrios e não nos deixemos hipnotizar ou embriagar pela miragem do triunfo secular. Nosso verdadeiro triunfo está com o Senhor em Seu reino. Se o Senhor permite a tribulação em Sua Igreja, é porque a Igreja necessita. O cristão vencedor regozija em meio às tribulações e apesar delas (cfr. Fp. 2:17; 2 Co. 7:13; 12:10). Mesmo que pareça um paradoxo, por um lado nada pode continuar a redenção do Senhor, mas por outro é necessário que a Igreja cumpra o que falta de Seus sofrimentos, tanto a nível individual como coletivo. Diz o apóstolo Paulo: “Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja” (Col. 1:24). Levemos em conta que a obra da redenção na cruz foi consumada uma vez por todas (Hb. 9:28; 10:12,14); mas uma coisa é a obra da redenção, que está completa, e outra é a aplicação da redenção através da história, pois o mesmo Cristo que nos redimiu na cruz, é o mesmo que agora vive no crente (Gl. 2:20), completando assim em nossa carne, completando o que falta do que Ele realizou em Sua própria carne na cruz, porque nós somos agora Seu corpo, a Igreja. Nós fomos também crucificados.

Ricos na pobreza

"Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás." (v.9).Louvamos ao Senhor porque Ele conhece as obras da Igreja. No segundo período profético da Igreja, a pesar dos conflitos internos, os crentes de antes da época de Constantino continuavam formando comunidades que não haviam desviado dos princípios do Novo Testamento, e em meio desse ambiente hostil à Palavra de Deus, a Igreja do Senhor se distinguia por sua qualidade de vida frente ao mundo pagão. A modo de exemplo, comentamos que nessa época não se havia introduzido o batismo das crianças, pois as famílias cristãs esperavam que seus filhos reconhecessem por si mesmos e recebessem voluntariamente ao Senhor (mesmo que alguns cristãos tenham visto em certos versículos bíblicos que se referem ao batismo, a possibilidade de que hajam sido batizados algumas crianças, como no caso de Atos 16 em relação com as famílias do carcereiro de Filipos e de Lídia de Tiatira). Não obstante devemos recordar no texto de Atos 8, a resposta de Felipe à pergunta do eunuco sobre quais eram os requisitos para o batismo, e a resposta foi, a fé. Deve-se ter consciência de que o batismo não é condição necessária para a salvação, e sim um ato público de testemunho e obediência, e era realizado por imersão. Mesmo que no começo não tivesse sido assim, chegou o tempo em que os convertidos passavam por um período de aprendizagem ou preparação para o batismo; eram os catecúmenos. Em muitos casos os catecúmenos eram batizados em seguida. Não obstante, que a Igreja continuava no deslize iniciado na segunda metade do período de Éfeso, nos atrevemos a afirmar que mesmo nessa época o amor era o vínculo mais forte de união. Nas igrejas locais costumavam destinar as ofertas a um fundo comum principalmente para a ajuda dos santos pobres, com a participação e direção dos anciãos da igreja. Os que recebiam uma ajuda sistemática eram os matricularii, pois estavam inscritos na matrícula, ou seja, que havia uma lista ou cânon das viúvas, órfãos, anciãos sem recursos, os que haviam perdido seus bens por causa de uma desgraça (um naufrágio, por exemplo), os que nos tempos da perseguição haviam caído na miséria, e demais necessitados. Por exemplo, é digno de menção que na comunidade cristã de Roma levavam um registro dos irmãos que haviam sido enviados a trabalhos forçados nas minas da ilha mediterrânea de Cerdenha, para mandar-lhes ajuda. A Igreja não se cuidava de entesourar nem de incrementar seu patrimônio; não havia o interesse de construir luxuosos e grandiosos templos para as reuniões, e o dinheiro não era desviado a cobrir gastos que não foram estritamente necessários, aparte de atender aos santos pobres. A Igreja de Jesus Cristo carece de tesouros terrenos, como testemunhou o diácono Lorenzo quando, ante o tribunal pagão, se lhe impôs a que entregasse os tesouros da igreja, ele contestou que os tesouros da comunidade cristã são os santos pobres. De onde provinham estes recursos? A oferta é um ato de adoração e honra ao Senhor, e deve ser voluntária. Diz Tertuliano que "cada um dá uma vez ao mês ou quando quer, se é que quer alguma vez, e se pode, pois a nada se lhe obriga". A Respeito disto, é digno de mencionar também que Justino Mártir na descrição das reuniões dominicais da igreja para a Ceia do Senhor, e que a meados do século segundo começaram a chamar de eucaristia, de uma palavra grega que significa o dar graças. Diz que as contribuições feitas pelos irmãos abastados, eram depositadas em mãos do oficial presidente da reunião, o qual se encarregava de usar esses fundos para socorrer às viúvas, aos órfãos, aos enfermos, aos prisioneiros, aos estranhos que visitavam aos cristãos e a outros que atravessavam por alguma necessidade. No período de Esmirna, a Igreja é alentada. É uma das duas, com Filadélfia, que não recebe reprovações do Senhor, e a anima e aprova essas obras no sofrimento. O Senhor sabe qual é a origem desse sofrimento; Ele conhece a tribulação devida à amarga perseguição de que é objeto Sua amada, e que por trás dos bastidores é Satanás quem na verdade está interessado em destruir à Igreja de Jesus Cristo, mas o querubim caído se vale de seus instrumentos humanos para realizar sua obra destrutiva, e nesses duzentos anos do período de Esmirna usou todo o poderio imperial para efetuar seus maléficos desejos. O Senhor permite a tribulação em Sua Igreja, entre outras coisas, para capacitar-la para que participe e desfrute das riquezas da vida do Senhor.Eventualmente a história registra a ação dos imperadores romanos. Que motivos aparentes moviam aos Césares a perseguir aos cristãos e pretenderem extermina-los? Que mal faziam os santos ao Império e a sociedade? Eram os crentes uns delinqüentes? Os cristãos faziam o bem; conformavam um grupo obediente à lei, mas eram odiados e perseguidos de morte devido a que não compartilhavam a idolatria e a adoração aos deuses alheios; em conseqüência eram considerados uns alienados, pessoas anti-sociais, desafetuados ou aborrecedores dos demais seres humanos; eram considerados também uns ateus porque não criam nos deuses pagãos, e tudo isso ia alimentando um antagonismo excitante. Também consideram os historiadores que a negativa de muitos cristãos a exercer cargo de magistrados, portar armas e render culto ao imperador, os fizeram oficialmente suspeitos. Nos primeiros séculos, nos tempos da República, se rendia culto a Roma, mas com o estabelecimento do império, os imperadores, com o título de Augustos, foram considerados "divinos", pois lhes chamavam præsens divinus (divindade encarnada), e reclamaram culto à sua pessoa, talvez seguindo o costume herdado desde os tempos de Alexandre Magno. Similar ao que ocorre hoje em torno das religiões idolátricas e supersticiosas, com essa efervescência na fabricação de toda sorte de objetos religiosos, esse grande comércio com missas fúnebres, responsos, crucifixos, imagens, escapulários, estampas, medalhas, sufrágios, veladoras e milhares de coisas mais, nesse tempo haviam cristalizado fortes interesses financeiros na indústria religiosa pagã; sacerdotes e laicos relacionados com os templos dos ídolos, os fabricantes de imagens, escultores, arquitetos de templos, artesões de réplicas de templos, como o caso dos ourives de Éfeso; todos eles viam afetados seus abundantes negócios pelo avanço da Igreja, e incitavam e promoviam a perseguição contra os santos. O Senhor também disse à Igreja em Esmirna que conhece sua pobreza. Alguns exegetas consideram que se trata de uma pobreza econômica, o qual em parte pode ser verdade; e consideramos que estar atribulado e perseguido em meio de escassez já é em si uma grande calamidade. Mas se analisarmos mais detalhadamente o contexto e aprofundarmos o significado, obteremos novas luzes sobre este trecho tão importante da caminhada da Igreja no período de Esmirna. Quando o Senhor disse que conhece sua pobreza, a continuação, e em contraste, lhe adiciona as palavras "mas tu és rico"; é o mesmo que dizer, que há uma riqueza no Senhor que gera essa pobreza de espírito. É tudo ao contrário do que Ele disse à igreja em Laodicéia: “pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.” (Ap. 3:17). Diz-se que esta riqueza de que se orgulha a igreja em Laodicéia não é necessariamente de tipo material, mesmo que também haja parte disso; nota-se que por si mesma essa expressão conota soberba, e o Senhor expõe sua verdadeira condição espiritual. O verdadeiro vencedor é pobre em espírito e rico em Deus. Assim mesmo ocorre no caso de Esmirna. A pobreza desta sofrida igreja pode ter seus aspectos de necessidades materiais, e de fato os tem se levarmos em conta que por causa das perseguições eram despedidos de seus trabalhos, seus bens confiscados e sofriam perdas por diferentes motivos; mas a tribulação, a pobreza, a blasfêmia, o cárcere e a morte, são os ingredientes da amargura de Esmirna. Não há base escrituraria para afirmar que a pobreza seja algo bom, nem que garanta a espiritualidade da pessoa; como tampouco a Bíblia faz apologia à riqueza. Há ricos santos e humildes, assim como há pobres altivos. O Senhor tem outros interesses e outros propósitos. Diz em Mateus 5:3: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.”. Nem sempre a riqueza material gera soberba, pois de fato há crentes endinheirados que são humildes de coração, mas a carência de pobreza espiritual se traduz com freqüência em altivez; a pobreza espiritual é característica fundamental do cristão normal. É notório que há um aspecto em que o cristianismo denominacional se assemelha muito ao mundo e é que em muitos setores do protestantismo se defende com regularidade a prosperidade e ao êxito material e se despreza a humildade. Uma das nefastas conseqüências desta orientação é a marcada tendência a dividir-se em congregações com distinção de classes, posição social, situação econômica e até profissionais. O Senhor apóia que haja igrejas de ricos e igrejas de pobres? Não é vergonhoso diante do Senhor que haja igrejas de brancos e igrejas de negros? Está conforme o Senhor com todas essas discriminações, exclusivismos, divisões, altivez e esnobismos que costumam dar-se em Seus filhos, pelos quais derramou todo o Seu sangue o Ser mais humilde que haja pisado nesta terra? Ser pobre no espírito é não confiar no que tens, nem no que sabes, nem no que és, senão que toda sua confiança está posta no Senhor. Nisto se diferencia o homem natural e o cristão. Uma pessoa que tem ao Senhor Jesus Cristo como seu único suporte, seu único tesouro e sua única riqueza, é verdadeiramente rica. A respeito cabe perguntar, o que dizem os apologistas da chamada teologia da prosperidade?

Sinagogas de Satanás

Também o Senhor se manifesta à igreja em Esmirna que está atento à blasfêmia dos que se dizem ser judeus e não o são, e sim que se converteram em Sinagoga de Satanás. É inegável que desde seu nascimento a Igreja do Senhor foi objeto dos ataques por parte dos judeus, assim como havia sido o Senhor em seu ministério terreno. Observamos que as primeiras perseguições se originaram por conta dos judeus. Mais tarde o apóstolo Paulo em seus percorridos pregava primeiro nas sinagogas dos judeus; alguns criam, mas os que se opunham blasfemavam e fomentavam a perseguição, e mesmo muitos dos que criam também importunaram com a pretensão da judaizarão na Igreja. Mas o assunto vai mais além; tudo isso encerra a simbologia de algo mais profundo, pois à luz da Palavra, o termo judeu é genérico para todos os crentes, os que tenham “11 E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve ( Abraão ) quando ainda incircunciso; para vir a ser o pai de todos os que crêem, embora não circuncidados, a fim de que lhes fosse imputada a justiça, 12 e pai da circuncisão, isto é, daqueles que não são apenas circuncisos, mas também andam nas pisadas da fé que teve Abraão, nosso pai, antes de ser circuncidado.” (Ro. 4:11-12). Também esclarece Paulo quando diz: " 28 Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne.29 Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus." (Ro. 2:28,29). “7 nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. 8 Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa.” (Ro. 9:7, 8). Então um verdadeiro crente em Cristo tipologicamente é um verdadeiro judeu, e também nessa modalidade de judeu pode haver falsos judeus (cfr. João 8:39-47). Pode aparentar ser judeu. Isto nos deixa a séria inquietude de que também existem congregações que se dizem cristãs sem ser, e sim sinagogas de Satanás, onde não se prega o evangelho total. E se não se faz a vontade do Senhor, a vontade de quem se faz? Quem se opõe à vontade do Senhor, se faz um com Satanás. E onde não se honra ao Senhor, e sim que se lhe persegue, perseguindo aos filhos de Deus. Nas sinagogas dos judeus se havia chegado a esse lamentável estado. Há muitos que, como os judeus, presumem de sua legítima origem histórica e da Antigüidade de sua respectiva organização religiosa, e seguem sem ver o mal que praticam, aborrecendo inclusive aos que não militam em sua religião, desprezando aos que não compartilham de suas idéias, desconhecendo o Corpo do Senhor, mas o Senhor descobre sua verdadeira situação. A sinagoga utilizou a política e o poder imperial para perseguir ao Senhor e logo à Igreja. Na história, correntes oficiais da religião, como o catolicismo e o protestantismo, tem utilizado o poder político para perseguir a Igreja e opor-se à economia de Deus. Somente Deus sabe quando uma congregação e mesmo uma instituição eclesiástica se converte em sinagoga de Satanás. Há evidência na Palavra, por exemplo, nas cartas de Paulo aos Gálatas, Romanos e Colossenses, dessa parte judaizante da Igreja, que tem persistido até hoje, com seus ensinamentos baseadas em parte na lei mosaica e parte na graça que veio por meio de Jesus Cristo; e o que é pior, com carga de leis, normas e estatutos adicionados de outras fontes não bíblicas. A esse tipo de ensinamento é dado um exagerado valor e se é institucionalizado, invalidando de passo o verdadeiro propósito do Senhor. Muitos eclesiásticos hoje, mesmo que não sejam judeus, insistem em preservar as práticas do judaísmo, tais como uma casta sacerdotal, rituais de sacrifício, templos materiais, mas na verdade tudo isso são tipos que tem achado cumprimento e que tem sido substituído por Cristo, porque não foram senão a maquete do verdadeiro edifício. A todas essas coisas Paulo chama rudimentos do mundo. Por exemplo, há quem enfatiza o guardar determinado dia, e insistem nesta famosa forma de judaizar, Mas Paulo diz que nada te julgue pelo que comas ou deixes de comer, nem pelo dia que hajas de guardar, pois tudo é sombra do que há de vir (cfr. Colossenses 2:8,16-17). Crês que as cartas do apóstolo Paulo fazem parte da Palavra de Deus? Se judaíza assim mesmo com o fomento das castas sacerdotais e o clericalismo; é como se propagar um evangelho diferente, coisa que há de se evitar. Busquemos ao Senhor Jesus Cristo; Nele estamos completos.




Hereges e heresias

O Senhor conhece a blasfêmia dos que se dizem judeus e não o são, senão sinagoga de Satanás; o qual nos indica que há quem pretenda ser o que não são com o fim de obter cortesia, preeminência e prerrogativas especiais, o qual encerra blasfêmia. Isso foi o que fez Lúcifer no céu. Então o conteúdo do termo “blasfêmia” é amplo. (Inclui escarnecer e injuriar o nome de Deus, a idolatria, e o que traz como conseqüência o descartar a fé e a boa consciência, que podem resultar em cair em heresias). No período de Esmirna, séculos II e III, surgiram os ataques satânicos. Uns com novas heresias, outros como continuação das iniciadas no período anterior. Os erros cristológicos têm surgido desde o mesmo começo da história da Igreja. Vemos essas três grandes frentes de ataques de Satanás nos três primeiros séculos: Os judaizantes, as heresias e as perseguições imperiais. É sumamente importante levar em conta que naquela Alexandria do antigo Egito se respirava uma rara atmosfera religioso filosófica saturada do gnosticismo dos egípcios, judaísmo, dualismo dos persas, zoroastrismo, politeísmo e filosofias gregas, à maneira de um grande ensopado onde se cozinharam muitas heresias que enfileiraram seus venenos contra a Igreja. O processo de mesclar o cristianismo com judaísmo e filosofias gregas e orientais deu como resultado a perversa mistura de heresias que têm desviado milhões de pessoas da verdade de Deus. Não podemos esquecer que no período da Igreja perseguida se desenvolveu a doutrina, principalmente para fazer frente ao surgimento das heresias, e foi composto o famoso "Credo dos Apóstolos", e isso deu lugar a um curioso feito. Enquanto isso no período apostólico a fé e entrega era autêntica, de coração, e nele se vivia mais a vida no Espírito, em troca no de Esmirna se foi generalizando gradualmente uma fé mais mental, de intelecto, pelo rigor e ênfase no sistema de doutrinas; recitar o credo chegou a ser em determinado momento como uma prova de pertencer à Igreja, sem que com ele se negue a existência de verdadeiros santos enriquecidos pelo Espírito Santo. Neste período profético, com maior ênfase em fins do século segundo, se diz que em parte como uma reação aos movimentos considerados como heréticos (gnosticismo, marcionismo e montanismo), foi se desenvolvendo na Igreja uma organização visível e a formulação intelectual de crenças. Começaram a dar forma ao sistema clerical e um sistema administrativo que se concentrava ao redor dos bispos. E havia passado o tempo em que em uma igreja local houvesse vários bispos ou presbíteros, senão que havia um só bispo em determinada cidade, para determinada área, de acordo com o número de cristãos. As palavras bispo e presbítero haviam deixado de ser intercambiáveis. Entre as heresias mais representativas do período de Esmirna podemos mencionar:

Marcion

Rico e proeminente herege do século II. O nome mais famoso entre os primeiros dirigentes gnósticos. Cristológicamente era docetista. Filho do bispo de Sinope, porto no Ponto, na costa sul do Mar Negro, e proprietário de barcos. Supõe-se que ao ser filho de um bispo, haja sido criado no marco dos ensinamentos cristãos. Havendo ingressado à igreja em Roma, fez ali uma generosa dádiva; mas mais tarde começou a ensinar os erros que lhe deram tanta fama, e depois de haver sido separado da comunhão da igreja ao redor do ano 144, fundou seu próprio movimento eclesiástico rival ao cristianismo ortodoxo, com uma influência em muitas partes do Império Romano de quase uns dois séculos. Não se conhece muito acerca da personalidade de Marcion senão através dos escritos e testemunhos de Irineu, Hipólito e Tertuliano, que foram seus opositores e o combateram e puseram as bases para uma explicação sistemática da fé cristã e sua diferença com um sistema filosófico. Levemos muito em conta que o Evangelho é revelação, e não filosofia. Entre as características dignas de menção do gnosticismo de Marcion temos a obrigatoriedade da continência e o voto de virgindade (celibato), a rejeição do Antigo Testamento e sua redução das Escrituras ao Evangelho de Lucas e às epístolas de São Paulo, mas não sem antes expurgar delas o que ele considerava acréscimos. Se opunha ao Deus "terrível" do Antigo Testamento, o Deus "bom" do Novo Testamento, Deus de amor que se havia mantido escondido até que se revelou em Cristo.É curiosa a concepção marcionista acerca de Deus. Marcion relaciona as palavras do Senhor Jesus no sentido de que uma árvore boa não pode produzir maus frutos, para ensinar que este mundo cheio de sofrimentos e maldade, não pode ser obra senão de um ser malvado e não de um Deus bom; e a esse Deus criador dos judeus, que se comprazia com os sacrifícios sangrentos, o designava com a palavra platônica Demiurgo. Os marcionistas recusavam a salvação pela graça, através da fé obtida na justificação por Cristo, senão por una espécie de ciência ou conhecimento (gnoses) superior, privilégio de uns poucos iniciados. De acordo com estas confusas opiniões, Cristo não tinha nenhuma relação com o Demiurgo, e portanto não nasceu como os homens, criaturas do Demiurgo, e, por conseguinte, à maneira dos fantasmas, só parecia que tivera corpo. Para Marcion, Cristo não veio a liberar aos homens da escravidão satânica, e sim do governo do maligno, tirano e legalista Demiurgo.Heresias como a de Marcion, quem mutilava a Bíblia, levaram os grandes homens de Deus a se interessarem por distinguir entre os autênticos e os falsos escritos inspirados, e na fixação definitiva do cânon. É a época também em que começaram a aparecer os credos ou confissões de fé, espécie de corta síntese de doutrinas essenciais da fé cristã, dirigidas em especial para os catecúmenos e candidatos ao batismo.

Sabelianismo

Este movimento, chamado também monarquianismo modalista e patripassianismo porque ensinava que o Pai sofreu a paixão, deriva seu nome de Sabélio, seu exponente mais famoso, e negava a distinção de pessoas na Trindade. O primeiro defensor desta linha de pensamento herético ao princípio do terceiro século, Noeto em Esmirna, ensinava que o Pai nasceu na pessoa de Jesus Cristo, para difundir o erro de que o Pai veio a ser assim o Filho, e que o Pai morreu e ressuscitou dentre os mortos. Logo foi difundido e levado a Roma por Sabélio, quem com Praxeas ensinava que o Pai, o Filho e o Espírito Santos são uma mesma pessoa e três modos ou aspectos de Deus, e usando um sofisma o comparava com o sol, que é brilhante, quente e redondo.Esta linha de pensamento teológico, que hoje em dia se conhece como o unitarismo, reconhece só a Jesus Cristo na Trindade. Calixto, bispo de Roma, mesmo que excomungou a Sabélio, lhe deu um respaldo a esta heresia com algumas controvertidas modificações. Marcelo de Ancira tinha tendências sabelianistas e foi aprovado pelo papa de Roma. O papa Zeferino, sucessor de Calixto, também tinha a mesma linha. Mas este erro foi combatido por Tertuliano em seu livro Contra Praxeas, e por Hipólito, presbítero e mestre da igreja em Roma, assim como escritor e teólogo distinto.

Montano e os montanistas

Há evidências que na segunda metade do século segundo floresceu em Frígia, Ásia Menor, um despertamento espiritual que tomou seu nome de Montano, oriundo dessa terra. Os montanistas insistiram no chamado a uma vida de jejum e oração, consagrada, austera e estrita devido à crença profunda da iminente vinda do Senhor, e que a Nova Jerusalém desceria pronta do céu e se estabeleceria na Frígia. Ainda que seus ensinamentos foram em seu tempo condenados pela Igreja, há a opinião de que não se deve classificar este movimento como seita herege, e sim como puritanos que observavam o deslize da Igreja e proclamavam voltar à altura espiritual que ensinou o Senhor Jesus, e à simplicidade dos cristãos primitivos. Montano em seu batismo falou em línguas e profetizou ser o escolhido pelo Paracleto como o profeta de Deus para preparar esse segundo advento do Senhor Jesus. Com Freqüência Montano dizia estar abaixo da influência do Espírito Santo, de tal maneira que podia ser o instrumento para receber novas revelações à Igreja. Havia, além disso, duas mulheres profetizas, Priscila e Maximila, discípulas dele, e uma das profecias da primeira foi tomada como uma lamentação do Espírito Santo pelo fato de que a Igreja o estava repudiando, tanto nesse tempo como em muitos outros períodos.O movimento montanista se extendeu amplamente e persistiu até meados do século quinto, e um fato de não pouca importância é a propaganda para esse movimento, foi o ingresso a suas fileiras de um homem das qualidades de Tertuliano, o teólogo mais importante de seu tempo, o qual havia servido amplamente á Igreja defendendo o cristianismo do mundo pagão e refutando heresias em seu interior. Poderíamos sintetizar três aspectos que os montanistas reafirmavam e que segundo eles, a Igreja ia abandonando: 1. O Espírito de Deus como fonte de poder na Igreja. O contínuo ministério sobrenatural do Espírito Santo. O sacerdócio de todos os crentes, e não somente do clero. Necessidade que a obra da Igreja fosse realizada no poder do Espírito. Forte protesto contra o crescente clericalismo. Se considera negativo do movimento o buscar as formas mais sensacionais de profecia, êxtase, sonhos e predições do futuro, mesmo que se diz que eles não aprovavam as revelações que fossem contrárias às Escrituras.2. Combatiam o relaxamento de vida espiritual e a indisciplina na Igreja. Se considera negativo do montanismo o fato de não distinguir entre a verdadeira santidade e o ascetismo, práticas estas que consideravam como obrigatórias, assim como o jejum. Tertuliano escreveu um tratado para provar que não era lícito fugir em tempos de perseguição. 3. Reafirmavam a verdade da iminente vinda do Senhor. Eles se consideravam não separados do resto da Igreja, senão um grupo dos "espirituais". Diz-se que as mártires Perpétua e Felicia eram montanistas, e tampouco há evidências concretas de que Tertuliano haja sido excluído da comunhão da Igreja. Considera-se negativo que houveram desprestigiado com suas extravagâncias essas mesmas verdades que enfatizavam. Considera-se assim mesmo negativo o agregar novas revelações às que já havia dado o Senhor. Na época moderna, John Wesley aprovou a maior parte dos ensinamentos montanistas; assim mesmo Harnack, o eminente e controvertido erudito patrístico moderno, também as tem aceitado.

O maniqueísmo

Manes ou Maniqueo (216-276), seu fundador, foi um aristocrata persa educado na Babilônia, onde teve a idéia de perfeccionar os ensinamentos do parsismo de Zoroastro e mesclar com as do cristianismo e o judaísmo. Dando como resultado o que ele chamou os dois princípios divinos ou reinos, o do bem e do mal, um de luz e outro de trevas, que lutam no mundo, e que tem igual origem e similares poderes. Não é nosso propósito expor aqui suas fantásticas doutrinas, mas podemos esboçar que as mesmas estavam associadas com o dualismo persa; também negavam a Jesus, e em troca tinham um "espírito do sol" ao que chamavam o "Cristo celestial". Manes chegou à convicção de ser comissionado por uma visão divina para ser profeta; e se diz que encabeçava suas cartas com "Manes, Apóstolo de Jesus Cristo", e declarava ser ele mesmo o Paracleto prometido pelo Senhor Jesus, o bem que o Paracleto falava através dele. Os maniqueístas formavam sociedades similares às igrejas cristãs, cultivavam o celibato; como as doutrinas de tipo esotérico, proibiam comer carne; também eram severos no ascetismo. Agustinho de Hipona, um dos mais importantes teólogos da Igreja, era maniqueísta antes de sua conversão, mas o maniqueísmo não satisfez suas perguntas e a busca espiritual que em sua oportunidade o inquietava.

As dez perseguições

“Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.” (v.10).Assim como o Senhor Jesus foi o Apóstolo, o enviado pelo Pai, indiscutivelmente assim mesmo foi o primeiro mártir pela causa do Pai. Desde o começo desta carta, o Senhor anima à igreja em Esmirna apresentando-se como o que esteve morto e viveu, o que padeceu e sofreu, mas saiu triunfante. Agora lhes diz que não temam, porque a vitória de Cristo é a mesma vitória da Igreja. Satanás não pode acabar com a Igreja usando a blasfêmia; agora vai mais longe e acende uma tribulação que começa com o cárcere dos santos. São os seguidores e imitadores de quem foi crucificado porque foi considerado uma ameaça a ordem estabelecido. Costumamos ver as pessoas, os governantes, mas a Bíblia uma e outra vez declara que por trás de todas as pessoas que perseguem à Igreja de Cristo, está o ventríloquo maior movendo seus bonecos; é o diabo mesmo com uma poderosa organização de hostes malignas arrastando ao mundo em sua corrente de maldade.É necessário que sejamos provados. Mas as provas, por mais amargas que sejam, tem uma razão e também um limite. Dez dias significa que a tribulação seria por um tempo; também isso se refere a dez grandes perseguições ordenadas por certos imperadores romanos durante os três primeiros séculos da Igreja, as quais tem sido consideradas mesmo pela história secular como cruéis e sangrentas. A Igreja sofreu um largo século de perseguições que ia aumentado gradualmente, até começos do século quarto. Aí vemos a religião satânica aliada com o poder político demoníaco tratando de exterminar a Igreja de Jesus Cristo. Mas o Senhor a fortaleceu e ao invés de ser exterminada, sempre saia fortalecida e vitoriosa. O Senhor sabia que muitos iam sofrer o martírio e lhes convida a serem fiéis até a morte, prometendo-lhes a coroa da vida, o qual não se refere à salvação eterna, mas sim a um galardão dispensacional no milênio. A essas amargas perseguições as trataremos de sintetizar usando uma ordem cronológica e coerente.

1. Nero

Cláudio César, imperador romano entre os anos 54-68 D. C. Associada com o nome do imperador Nero, teve lugar a mais famosa das primeiras perseguições contra a Igreja de Jesus Cristo. Tomou como pretexto um incêndio que destruiu parte de Roma no ano 64 D. C., para culpar aos cristãos, ao quais foram acusados de ódio à raça humana, iniciando com este pretexto a primeira, breve porém cruel perseguição contra a Igreja. Diz-se que o povo murmurava atribuindo o incêndio a Nero, quem buscava favorecer sua projetada reforma urbanística, então ele viu uma saída acusando aos cristãos de tal incêndio. Durante esta perseguição foi martirizado o apóstolo Paulo por mandato de Nero. Há uma tradição que diz que o apóstolo Pedro também foi vítima de Nero, e que morreu em Roma; mas, lembremos, não há passagem bíblica que dizem que o apóstolo houvesse estado nesta cidade. Tão feroz e sangrenta resultava a perseguição desatada por Roma, que João para referir-se a esta cidade e suas instituições político religiosas, cuidava de nomeá-la com o misterioso apelido de Babilônia, a cidade “embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus;” (Ap. 17:6), depois voltaremos a ver isto em detalhe.




Capítulo II
E S M I R N A
(2a. parte)



2. Domiciano


Tito Flávio, imperador romano entre os anos 81-96 D. C., filho de Vespasiano e irmão e sucessor no trono de Tito, famoso este por haver comandado as legiões romanas que destruíram a Jerusalém no 70 D. C. Durante o reinado de Domiciano a Igreja sofreu perseguições cruéis, carregadas de ódio, impulsionada pela ira de um governante supremamente tirano. Em seu reinado acentuou a obrigação de que toda pessoa em todo o território do Império Romano oferecesse incenso a César pelo menos uma vez ao ano. Era uma espécie de adoração que no império tributavam à pessoa do imperador reinante; assunto este que não necessariamente havia tido sua origem em Roma; pois já se praticava em culturas anteriores. Recordemos o caso de Nabucodonosor na Babilônia, registrado no capítulo 3 do livro do profeta Daniel. O imperador romano era considerado divino; e os cristãos primitivos recusaram reconhecer o título de Kyrios Káiser ao imperador, ou seja, o senhor de toda a terra, dono inclusive da vida e bens de seus súditos, reservando-o única e exclusivamente para Cristo. Dentro do Império constituía um delito, por que não dizer um crime de lesa-majestade o acatar, obedecer e adorar a outro Kyrios (Senhor) que não fosse o imperador. No culto ao imperador não vemos outra coisa senão a Satanás fazendo-se adorar na pessoa de um homem, que na ocasião é seu sumo sacerdote, o espírito do anticristo fazendo sentir sua influência malévola desde a antigüidade. Os santos eram levados aos tribunais acusados além de transgressores das leis contra a tradição religiosa, sacrilégio, magia, prática de um culto estrangeiro, hostis ao estado por não tomar parte nos ritos do culto imperial. A multidão considerava os santos do Senhor como uns desleais e conspiradores de uma revolução, pelo fato de que os observavam louvando e adorando a outro Kyrios, outro Rei, "um tal Jesus, que dizem que ressuscitou". De modo que todas essas circunstâncias alimentavam o fogo dessas ferozes perseguições. Durante o reinado de Domiciano, ao redor do ano 86, foi deportado o ancião apóstolo João de Éfeso à ilha de Patmos por seu testemunho do Senhor, onde se lhe aparece o Senhor Jesus e lhe descobre o véu dos acontecimentos finais, escrevendo assim o livro de Apocalipse. *(1)
*(1) Ainda que a maioria dos historiadores não tem considerado como perseguição, entretanto registramos que durante o reinado de Marco Úlpio Trajano, imperador romano entre os anos 98-117 D. C. Durante seu reinado, no ano 107 D. C., por ordem do governador romano na Palestina, foi executado Simão, sucessor de Tiago como cabeça da igreja em Jerusalém, e também irmão menor do Senhor (Marcos 6:3). Também Inácio, por sobrenome Theophorus o portador de Deus, bispo de Antioquía de Síria, foi jogado às feras no anfiteatro romano no ano 107, depois de haver comparecido ante o mesmo Trajano, quem o submeteu a um dramático interrogatório. Durante sua viagem a Roma para ser martirizado, Inácio escreveu umas cartas às igrejas nas localidades de Éfeso, Magnésia, Trácia, Roma, Filadélfia e Esmirna, entre outras, assim como uma a Policarpo, o bispo de Esmirna, e que se tem conservado; as quais nos transmitem valiosos informes sobre a fé cristã naquela época. Também dizem essas cartas acerca da reação frente ao docetismo. Diz-se que Trajano sustentava uma cruzada correspondência com Plínio filho (o menor), quem na ocasião servia como legado imperial na Bitínia, indicando que o cristianismo estava oficialmente proscrito; que se os cristãos se retratassem, podiam ser perdoados, do contrário haviam de serem executados. Durante seu reinado também foi martirizado Clemente, bispo em Roma, em circunstâncias bastante curiosas, pois há testemunho de que foi jogado ao mar, ataram ao seu pescoço uma âncora de ferro. Durante o reinado de seu sucessor, Adriano (117-138), houve perseguição em menor grau. Entre os mártires desse tempo se encontra Teléforo, pastor da igreja em Roma.

3. Antonino Pio


Imperador romano entre os anos 138-161 D. C. Considerado o mais nobre dos imperadores romanos; seu reinado é considerado a idade de ouro da glória de Roma. Abaixo de seu reinado os cristãos sofreram em Roma e outras províncias do Império. Por exemplo, no ano 155, Policarpo, bispo em Esmirna, morreu queimado na fogueira, mas vendo que seu corpo não se consumia com o fogo, o rematador lhe fincou um punhal no peito. Antonino Pío fez parte dos chamados "cinco imperadores bons", com Nerva, Trajano, Adriano e Marco Aurélio, e durante seus governos nenhum crente poderia ser preso sem que se comprovasse algum delito. Entretanto, talvez pelas razões que temos exposto, quando Policarpo compareceu ante o procônsul, se lhe pediu que amaldiçoasse o nome de Jesus Cristo. Estando no estádio, o procônsul lhe disse: "Jura e te ponho em liberdade. Maldiz a Cristo". Então Policarpo disse: "Oitenta e seis anos fazem que lhe sirvo e nenhum dano tenho recebido Dele; como posso maldizer o meu Rei, que me salvou?" Os juizes incitavam a este ilustre mártir pronunciar o Kyrios Káiser (o César é o Senhor), como se tratasse de algo fútil, com o qual se livraria da morte; mas ele se recusou a pronunciar essa gravíssima blasfêmia. É provável que Policarpo fosse o último sobrevivente dos que haviam falado com testemunhas oculares de Jesus e Sua gloriosa ressurreição. (Favor ler o martírio de Policarpo no Apêndice I ao final deste capítulo).

4. Marco Aurélio.


Imperador Romano entre os anos 161-180 D. C. Diz-se que este filósofo estóico foi o melhor, o mais magnânimo e consciencioso dos imperadores Romanos. Autor de "Meditações" sabias sentenças carregadas de altos sentimentos acerca do próximo; mas em parte mal aconselhado por seus mentores que o fizeram crer que o cristianismo era um movimento imoral, que inculcava o obstinado afã de morrer, e também em parte porque por motivos políticos procurava restaurar a antiga religião imperial, chegou a professar muita aversão pelos inovadores cristãos, pois muitos de seus súditos pagãos afirmavam que o descuido da adoração aos antigos deuses que haviam levado Roma a gozar de todo esse grande poder, era causa dos desastres que estava sofrendo o império. Via aos cristãos como um perigo que pairava contra a estrutura da civilização imperial que ele estava propugnando. Mas, o que havia atrás de tudo isto? Por que havia decaído a adoração aos antigos deuses no Império Romano? Marco Aurélio, por muito moralista que fosse, entretanto, não deixava de ser o chefe, o sumo pontífice da religião satânica, e era guiado por seu deus e pai a exterminar a grande força dos santos que com suas orações estavam fazendo cambalear a idolatria e essa nuvem de demônios que pairava sobre o céu imperial. O leão que ruge ao derredor dos santos guiava a seu agente humano com o fim de que acabasse com a Igreja de Jesus Cristo, e lhe dava poder para que levasse a cabo sua nefasta empresa. Durante seu reinado permitiu perseguições inclusive na Gália, como a que se desencadeou em Lyon no ano 177, e em seus domínios os santos eram decapitados ou devorados pelas bestas na arena, entre os quais temos a Justino Mártir, antigo mestre filósofo, um dos homens mais capacitados de sua época e um dos mais ilustres apologistas da fé. Seus escritos ainda existem. Foi martirizado no ano 166.

5. Setimos Severus.

Lúcio, imperador Romano entre os anos 198-211 D. C. No século III, ao decair os cultos tradicionais, o cristianismo se transformou em uma força considerável. Setimo Severus procurou em vão restaurar as decadentes religiões imperiais de outros tempos. No princípio de seu reinado não se mostrou desfavorável aos cristãos; inclusive se diz que alguns deles faziam parte de sua família oficial, e que confiava a uma ama-de-leite cristã a criança de Caracala, seu filho. Mas a partir de 202 em todos seus domínios perseguiu ferozmente à Igreja, até o final de seu reinado e morte, e o fez com tanta crueldade, que muitos escritores cristãos o consideraram como o anticristo. Desta perseguição se registra na cidade de Lyon dezenove mil mártires. Onde mais se maltratou foi no Egito e todo o norte da África. Por exemplo, Leônidas, o progenitor do grande teólogo Orígenes, foi decapitado na Alexandria, e Orígenes quis correr a mesma sorte do pai, mas sua mãe evitou, escondendo sua roupa. Na cidade de Cártago, foram despedaçadas pelas ferozes bestas no ano 203, Perpétua, uma mulher nobre dessa cidade, e Felicia, sua escrava.

6. Maximiano o Traciano


Caio Júlio Vero. Imperador Romano entre os anos 235-238 D. C. Responsável por ter avivado em alto grau a perseguição contra os cristãos em seu curto reinado. Nesse tempo Orígenes salvou-se se escondendo.

7. Décio.


Caio Mesio Quinto Trajano, imperador Romano entre os anos 249-251 D. C. Igual a Maximino Tracio, era oriundo da região da Trácia. Tentou impor a unidade religiosa no Império, causa pela qual desatou uma terrível perseguição geral contra os cristãos; a mais severa que se havia sofrido até então. Sua intenção pode ter sido a de extirpar o cristianismo como uma ameaça ao bem comum. Diz-se de Décio que seus admiradores o louvavam como a personificação das velhas virtudes Romanas, incluindo uma preocupação devida que no império estavam abandonando aos deuses Romanos, os quais, desde seu ponto de vista, haviam engrandecido a Roma, o qual havia acarretado muitas calamidades e a decadência que afetava a sociedade. Isto o induziu a ordenar por meio de uma série de editos, a que todos os cidadãos do império oferecessem sacrifícios aos deuses, afetando amargamente aos santos. Muitos pagaram com suas vidas antes que apostatar de sua fé; alguns, como o caso de Orígenes, foram encarcerados. Afortunadamente seu reinado teve curta duração, e com sua morte a perseguição à Igreja teve um tempo de cessação. Os bárbaros mataram Décio a flechadas.

8. Galo.


Caio Vibio Treboniano, Imperador Romano entre 251-253 D. C., depois da morte de Décio, quando foi proclamado imperador pelas tropas de Mesia e Trácia, mas foi morto por seus soldados a fins de 253 em Terni. Seu reinado é conhecido pela perseguição que empreendeu contra os cristãos.



9. Valeriano.


Publius Licinius. Imperador Romano entre os anos 253-260 D. C. Em 257 decretou astutamente uma perseguição geral contra os cristãos, de curta duração, mas com fúria redobrada, famosa devido a que durante ela foi decapitado Cipriano, o célebre bispo de Cártago, ao norte da África, um dos mais eminentes escritores e dirigentes da Igreja em seu tempo. *(2) É importante atentarmos no fato de que durante a perseguição de Decio, Cipriano teve que fugir de Cartago. Em seu regresso pronunciou um discurso contra os lapsi, que eram os cristãos que apostatavam de sua fé em tempos de perseguição, e passada esta, solicitavam ser readmitidos de novo na comunidade da Igreja, para escapar do sofrimento. Cipriano não se deteve ai, senão que, além disso, escreveu muitas cartas e um livro titulado "Os lapsi", opondo-se à fácil readmissão sobre tudo dos que haviam livrado da perseguição por haver sacrificado aos ídolos, ou o haviam logrado mediante suborno às autoridades imperiais, solicitando assim mesmo duras penitências a estas pessoas. Novaciano, bispo da igreja em Roma, foi ainda mais longe se opondo fortemente a sua admissão, e se produziu o cisma de Novaciano, dando origem ao novacionismo, que durou até meados do século quinto, seguido pelos donatistas, nome tomado de Donato, bispo de Cártago. Durante a perseguição ordenada por Valeriano chegou a confiscar os bens, o desterro para as matronas cristãs e a escravidão para os cristãos oficiais do exército. Em Roma foi morto o bispo, e o diácono Lorenzo assado sobre uma grelha.
*(2) A morte de Valeriano não pode ser mais cruel. Disse Maurício da Châtre: "Aos fins do ano 260, vendo-se depois de uma derrota rodeado pelos persas, sem esperança de poder escapar, teve uma conferência com Sapos, rei dos persas, que lhe reteve prisioneiro, sem querer jamais devolver a liberdade. O pérfido monarca, depois de haver tratado com a maior indignidade por espaço de nove anos, fazendo servir de apoio para montar a cavalo, ou subir no seu carro, lhe fez ao fim dar morte em 269, negando-lhe as honras da sepultura; porque depois de sua morte, Valeriano foi degolado por ordem daquele bárbaro, salgado seu corpo e sua pele curtida e posta em um templo para eterno monumento de afronta dos Romanos. Todos os cristãos têm reconhecido o dedo de Deus no deplorável fim de Valeriano". A história dos Papas e os Reis. CLIE 1993. Tomo I, pág. 189.

10. Diocleciano.


Caio Aurélio Valério. Imperador romano entre os anos 284-305 D. C. Um dos mais poderosos imperadores Romanos. Em política religiosa quis restaurar as antigas crenças, o que lhe pôs em conflito com os cristãos, aos que perseguiu duramente. Este Imperador iniciou em 303 a mais terrível e sistemática de todas as perseguições contra a Igreja de Jesus Cristo, a qual continuou seu sucessor Galério até o ano 311. Seu proceder contrasta com as circunstâncias que lhe rodeavam, pois à idade de cinqüenta anos, rodeado de cristãos no corpo oficial, sua própria esposa e filha à vez esposa de seu sucessor Galério, eram cristãos, ou favoráveis à fé da Igreja, entretanto, desatou, talvez instigado pelo ambicioso Galério, a mais cruel das perseguições. O governo imperial ordenou a queima de todo exemplar da Bíblia confiscado; decretou a destruição de toda edificação construída como centro de reunião da Igreja; que todos os que não renunciassem a sua fé perderam sua cidadania e ficassem fora da proteção da lei. Ordenou-se a degradação de cristãos que ocupavam postos de honra no império. Dava-se o caso de que era incendiado o lugar de reunião, estando os crentes em reunião, perecendo em conseqüência os santos dentro das paredes. Seguiam emanando editos ordenando o encarceramento de dirigentes das igrejas, a escravidão dos serventes domésticos que não abjuraram de sua fé, e oferecimento de liberdade aos cristãos que ofereceram sacrifícios aos velhos deuses, e, pelo contrário, tortura e morte para quem teimasse. A intenção de Diocleciano era a de exterminar a "superstição cristã", como costumava chamar à Igreja. Mas o Senhor sempre esteve presente. Ele havia morrido e ressuscitado primeiro, e houve ocasiões em que metia Sua mão, como a vez em que animais ferozes deixaram ilesos aos cristãos que lhes eram expostos, e atacaram aos perseguidores dos santos. Ante uma contenda tão desigual entre um império dotado de um poderoso e cruel exército e a resistência passiva da Igreja do Senhor, ante os olhos dos homens, quem poderia sair vitorioso? Oh! Propósitos insondáveis os do Pai; o vitorioso não foi precisamente o governo imperial com suas forças satânicas e sua confiança na magia pagã, senão que o exército de Cristo foi o vencedor, mesmo que haja sido o único que pôs os milhares de mortos e mártires. Recorde-se que na Igreja todos estão qualificados para ser mártires vitoriosos. O termo diocese, que utiliza a Igreja Católica Romana, provém de Diocleciano. Durante seu reinado dividiu as províncias ou regiões de seu império, e a essas divisões chamaram dioceses. Todas estas perseguições tiveram um fim nos propósitos do Pai, e ao invés de ser exterminada, a Igreja saia mais fortalecida, mais santificada de cada uma delas. Por que saia a Igreja mais fortalecida? Porque tem dentro dela a vida de ressurreição. A vida de ressurreição vence a perseguição, e o vencedor recebe o prêmio da coroa da vida, como acréscimo da salvação. Cada irmão que permanecera fiel mesmo que tivesse que ir a cárcere ou dar sua vida, tinha a promessa de reinar com o Senhor no reino dos céus. Satanás poderá receber poder para quitar-nos a vida, mas não pode ir mais adiante; não pode ultrapassar os umbrais da morte e roubar-nos a coroa da vida, pois essas chaves só o Senhor Jesus as tem. Somente o Senhor conhece a grande multidão de santos mártires que derramaram seu sangue antes que render culto de adoração à criatura ou instituição criada pelos homens. Indubitavelmente Deus permitiu todo esse período sangrento para sua Igreja para fundamentar e arraigar a fé nos corações de Seus filhos; uma vez que cessaram as perseguições, se deu o início ao período de queda. Não é vão que está estampada como que em caracteres de ouro a seguinte afirmação: “14 Respondi-lhe: meu Senhor, tu o sabes. Ele, então, me disse: São estes os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro,15 razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo.” (Ap. 7:14-15).



Constantino o Grande


A morte do imperador Constâncio Cloro em 306, de quem se diz que jamais esteve de acordo com a perseguição aos cristãos, seu filho Constantino, quem se encontrava em York, Britânia, foi proclamado imperador augusto por suas tropas, mas seus rivais se opuseram pelo qual foi escalando posições na política imperial, não sem antes travar uma prolongada contenda. Dotado de um poderoso exército foi derrotando seus oponentes, e no ano 312, logo atrás da morte de Galério, deu um passo decisivo com relação à Igreja. Aliado com Licínio, com quem até o momento dividia o Império, o primeiro inimigo que teve de enfrentar foi a Maxêncio, ele era forte na Itália e havia se apoderado de Roma, mas Constantino o derrotou na batalha junto a ponte de Múlvia, perto de Roma. O bispo Eusébio de Cesaréia narra em um de seus livros que Constantino, na ocasião amigo seu, contou haver tido, às vésperas dessa batalha, a visão de uma cruz nos céus, que levava a inscrição em latim, "In hoc signo vinces" (Com este sinal vencerás), e que mediante um sonho Deus lhe confirmou, aparecendo a ele com o mesmo sinal, mandando que se fizesse um sinal semelhante, a fim de que a usasse como estandarte em suas batalhas com seus inimigos.Disse Eusébio que ele mesmo viu o estandarte que foi feito por ordem de Constantino, o qual constava de uma lança coberta de ouro e pedras preciosas que bordavam um monograma com as letras gregas ji e rho (Χρ) do nome de Cristo. No ano seguinte, em 313, Constantino e Licínio celebraram uma entrevista em Milão, onde tomaram a decisão de adotar uma política de tolerância para os cristãos de todo o Império, por meio da proclamação de um edito, assunto que Licínio aceitou para que se beneficiasse a parte oriental do Império, debaixo de seu domínio. Mas as relações entre ambos os imperadores, ainda que fossem cunhados, foram se deteriorando sobre tudo no terreno religioso, pois Constantino propendia por favorecer aos cristãos e Licínio aos pagãos. Por último sobreveio a irremediável guerra e Licínio foi derrotado nas batalhas de Andrianópolis e Crisópolis no ano 324, ficando assim em mãos de Caio Flávio Valério Constantino I, o Grande, o governo de todo o Império Romano.

O dano da segunda morte.


" 11 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte. " (v.11).O que o Espírito Santo convida à Igreja a ouvir aqui ? Em primeiro lugar que não esqueçamos que o Senhor Jesus foi crucificado no Gólgota, mas ressuscitou glorioso; que não temamos o que eventualmente tenhamos que padecer por causa do Senhor, pois Ele tem o controle de tudo o que ocorre no universo; que sejamos fiéis a Ele até a morte; vale a pena, pois as provas aperfeiçoam nossa fé; que Ele está a par de tudo o que nos sucede e sabe o que nos convém; Sabe perfeitamente quem são os verdadeiros filhos de Deus e quem mentem ao afirmar ser-lo, e se reúnem para reverenciar ao diabo ou servir-se a si mesmos e não ao Senhor. O que tem de vencer os irmãos da igreja em Esmirna? A vitória aqui se trata da fidelidade ao Senhor até a morte. Se forem infiéis terminam em derrota. Se foges do sofrimento, incluindo o martírio, estás em derrota. Se amas mais tua própria vida e não estás disposto à ofertar pelo Senhor, é possível que sofras o dano da segunda morte.*(3) Por ser um tema de controvérsias, no presente livro não analisaremos o “dano da segunda morte”, mas deixamos sentado a clara doutrina bíblica de que os crentes hão de ser julgados quando o Senhor vier. O apóstolo Pedro diz que o juízo começa pela casa de Deus (cfr. 1 Pedro 4:17). De fato, o primeiro juízo que presidirá o Senhor Jesus em Sua segunda vinda, será o da Igreja; Sua própria Igreja.
*(3) Para uma melhor compreensão do que significa não sofrer dano da segunda morte, recomendo ao leitor a que leia meu livro "Os Vencedores e o Reino Milenar"

Como filhos de Deus, temos a responsabilidade diante Dele de fazer o que nos corresponde, de conformidade com Seus propósitos, e do qual devemos dar conta. Deus não tem deixado a Sua criação nem muito menos a edificação de Sua Igreja ao arbítrio dos homens. É necessário agir de acordo com um plano minuciosamente traçado pelo Senhor. "Porque é necessário que todos nós compareçamos ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que haja feito enquanto estava no corpo, seja bem ou seja mal" (2 Co. 5:10). Aqui não se refere ao mundo e sim à Igreja, aos santos. Também falando aos discípulos, em Mateus 16:27, o Senhor lhes disse: " Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras. ". Não se trata de fazer as coisas de acordo com nosso próprio plano propósito, e assim nos pareça muito louvável, Senão segundo Deus. É necessário que desviemos nossa atenção dos interesses terrenos, tanto de tipo pessoal como de índole organizacional e não descuidar a salvação de nossa alma. "... desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor" (Fp. 2:12); e a razão disto a encontramos também na bendita Palavra de Deus, quando diz: "Porque que aproveitará ao homem, se ganhar todo o mundo, e perder sua alma? Ou que recompensa dará o homem por sua alma?" (Mt. 16:26). De acordo com o contexto, isto não disse o Senhor às multidões mundanas, mas sim a seus discípulos. Sofrer dano da segunda morte não é sofrer a segunda morte (Ap. 20:14), que é eterna, mas sim participar temporariamente de algum tipo de sofrimento dispensacional durante o período do reino milenar; sofrimento de qual o crente não vencedor há de sair uma vez que haja pago até o último quadrante; Até que realmente sua alma haja sido transformada (cfr. Mateus 5:25,26).

A Patrística

É sumamente importante traçar um ligeiro perfil dos principais protagonistas e alguns atos de interesse deste amargo, mas frutífero período da Igreja do Senhor. Alguns desses grandes mestres são os chamados pais da Igreja.

Clemente de Alexandria (150-215 aproximadamente). Nasceu provavelmente em Atenas e foi formado na atmosfera cultural e filosófica helênica; se conformava com o temperamento eclético filosófico greco-romano, e em sua busca do ensinamento apostólico foi atraído por Panteno, de quem foi sucessor na direção da escola de Alexandria. No ano 203 e a causa da perseguição do imperador Setimo Severo, abandonou Alexandria, e se sabe que nas igrejas das localidades de Jerusalém e Antioquia lhe chamavam "o bendito presbítero". Clemente chegou a se convencer que o homem sábio não deve gloriar-se em sua sabedoria e que "a sabedoria deste mundo é necessidade para com Deus", mas à vez sustentava as bondades da filosofia grega para o avanço do evangelho. Clemente afirmou a não oposição entre as verdades religiosas contidas no cristianismo e a filosofia grega, à que considerava como uma antecipação e uma preparação para a exposição das verdades cristãs. Segundo Clemente, fé e saber filosófico se complementam. Paradóxicamente, a par que repudiava aos chamados gnósticos, dizia que há uma gnose cristã, que vem pela fé e não pelo raciocínio. Clemente ensinava que a Deus só se lhe pode conhecer por meio do Logos, (a Palavra, o Verbo) o qual existe desde sempre e é o perfeito reflexo e rosto de Deus, por quem se manifesta e se dá a conhecer. Dizia que Jesus é o Logos, o Deus santo, que derramou seu sangue para salvar aos homens; o Paidagogós ou instrutor dos crentes. Mas parece que não pensava em Jesus como verdadeiro homem senão somente na aparência. Afirmava que o Senhor Jesus é a Palavra (Logos) de Deus, o Espírito feito carne. De modo que através destes e outros conceitos, vemos a forte influência da filosofia grega neste varão. Quase todos os seus livros foram escritos em defesa do cristianismo contra o paganismo, entre os quais tem sobrevivido o Protreptikós, dirigido aos gregos para alentar aos pagãos a converterem-se, o Paidagogós (Instrutor), com instruções morais para os crentes, e os Stromata, ou títulos da filosofia cristã, obra apologética e expositiva com instruções mais avançadas.
Orígenes (185-254). Indubitavelmente desempenhou um papel de maior influência este sucessor de Clemente como diretor da escola de Alexandria, desde quando somente tinha 17 anos de idade. Grande teólogo e estudioso bíblico, nascido em Alexandria, de pais cristãos. Seu pai foi encarcerado e morto, e os bens da família confiscados durante a perseguição ordenada pelo imperador Setimo Severo. Se não fosse por sua mãe que escondeu suas roupas, ele haveria se apresentado voluntariamente ao martírio. Tomando ao pé da letra o dito pelo Senhor em Mateus 19:12, Orígenes se fez eunuco, e também para aceitar algumas em suas conferências e evitar a possibilidade de qualquer escândalo. Foi estudante do neoplatonismo. Visitou a Roma, Arábia, Grécia e Palestina. Na Palestina foi ordenado presbítero pelos bispos de Cesaréia e Jerusalém. Isso lhe acarretou problemas com Demétrio, bispo de Alexandria, que alegava que não haviam respeitado sua jurisdição, mas no fundo parece que havia motivos de ciúmes pelo prestígio de Orígenes. Porque este teve que se estabelecer em Cesaréia, onde prosseguiu suas atividades pedagógicas e de escritor ubérrimo, e onde também teve a oportunidade de trazer desde o Ponto a Gregório Taumaturgo, quem recebeu toda colaboração dos ensinamentos de Orígenes. Nesse tempo os homens haviam se apartado muito dos princípios bíblicos sobre o presbitério e o governo da igreja. Morreu Orígenes como conseqüência das torturas durante a perseguição ordenada por Décio, com a idade de sessenta e nove anos e foi sepultado em Tiro. Suas obras principais foram:* A Hexapla. Texto do Antigo Testamento colocado em seis colunas paralelas; a primeira o texto hebreu, a segunda o mesmo texto hebreu transliterado em caracteres gregos, e o resto várias traduções gregas. Somente se conservam fragmentos. Diz-se que Jerônimo usou a Hexapla para a tradução da Bíblia latina, a famosa Vulgata. * Comentário sobre as Escrituras. * Sobre Princípios Primeiros (De Principiis). Quatro livros. A primeira obra dogmática ou de teologia cristã, que se trata da primeira exposição metódica e compreensiva da fé cristã. * Contra Celso. São oito livros de apologia para rebater os ataques e a mais aguda crítica que contra o cristianismo havia dirigido sessenta anos antes o pagão Celso. Considera-se a mais hábil defesa do cristianismo produzida até então. * Escritos menores. Um chamado de ressurreição, outro sobre oração, outro sobre a exortação ao martírio. É indiscutível, como se sucedeu a muitos outros homens de Deus que haviam sido educados nas canteiras da filosofia grega, que Orígenes, tanto em seus escritos como no enfoque de sua linha teológica, deixava entrever algum sinal dessa herança. Mas se aplicava no minucioso e profundo estudo da Bíblia, vendo nela três planos de significado: a) o comum ou histórico, o sentido literal, o da carne, o que está na superfície, para as pessoas simples; b) a alma das Escrituras, o sentido moral, o que edifica aos que o percebem, etc...) o espiritual, místico, para os espirituais, que encerra algo escondido de baixo o que superficialmente repugna à consciência, mas que uma vez discernido pode ser expressado em forma de alegoria. Mas é difícil manter estes três pontos de vista através de toda a Palavra de Deus. Querer harmonizar a filosofia com os ensinamentos do cristianismo, ou o que é o mesmo, explicar os ensinamentos do Senhor em termos filosóficos e lógicos, além de sustentar alguns outros pontos de vista errôneos, acarretaram a Orígenes haver sido assinalado como herege em alguns pontos por sínodos regionais celebrados em Alexandria (399), Jerusalém e Chipre. Posteriormente, em dois concílios celebrados em Constantinopla (543 e 553) formularam o catálogo dos "Erros de Orígenes". A principal contradição de Orígenes foi seu antigo discípulo Metódio de Olimpo, quem foi o que deu começo às controvérsias.
Gregório Taumaturgo (213-270). Advogado pagão da Nova Cesaréia, em Ponto, Gregório Taumaturgo (obreiro de maravilhas) provinha de uma família rica e de renome; assim teve contato com Orígenes em Cesaréia, Palestina, a quem buscou como distinto mestre de filosofia, e nele encontrou, mais que filosofia e conhecimentos seculares, a fé cristã, com as ênfases distintas de Orígenes. Ao regressar a Ponto chegou a ser bispo da igreja de sua localidade, ao redor do ano 240. Quando Gregório morreu, a grande maioria de seus conterrâneos havia se convertido. Dele se conta uma curiosa e interessante anedota retórica. Diz-se que quando foi constituído bispo, somente havia uns dezessete irmãos cristãos integrando a igreja, e que a sua morte, trinta anos mais tarde, só ficavam dezessete pagãos na cidade. Isso significa que seu ministério teve muito êxito. Alguns opinam que fez ali grandes esforços para apartar aos crentes das festividades pagãs instituindo festas na memória dos mártires. A opinião de outros é que Gregório usou para ele um meio duvidoso, pois foi fazendo a transição para seus paisanos tão fácil como fora possível, substituindo festejos em honra aos mártires cristãos pelas festas dos deuses pagãos, o qual se pode tomar como uma prolongação da idolatria.

Escolas teológicas

Diante da necessidade da instrução catequista dos novos convertidos provenientes de lugares pagãos, surgiram e foram estabelecidas quatro grandes escolas de teologia e pensamento cristão, as quais se converteram mais tarde em centros de preparação avançada de teologia e doutrina para os dirigentes e mestres da Igreja. Nessa época que necessitava de uma centralidade na doutrina cristã frente à avalanche de erros e heresias. Há de se levar em conta que nessa época a exegese bíblica estava em sua infância e na Igreja não existia um sistema desenvolvido de hermenêutica. Essas escolas foram as de Alexandria, Ásia Menor e Norte da África, às quais estavam associados grandes mestres. A escola de Alexandria, foi fundada por Panteno ao redor do ano 180, em uma das mais cultas e importantes cidades do Império Romano, fundada por Alexandre o Grande no século IV A.C. Dotada que havia sido de uma das mais completas bibliotecas da Antigüidade, Alexandria foi o berço da última das filosofias greco-romanas não cristãs, o neoplatonismo; e floresceu também ali o gnosticismo. Como importante centro cultural do mundo helênico, em Alexandria, desde os tempos de Ptolomeo Lagi (323-285 a.C.) e Ptolomeo Filadelfo (285-247 a.C.) se foram dando citação a diversas escolas de pensamento, o mesmo que as correntes místicas asiáticas, as diferentes filosofias gregas, a influência do judaísmo e o direito romano, se purificando de passagem, o gosto pela alegoria sobre tudo no terreno religioso, método exegético praticado por estudiosos do porte de Filom e Orígenes. O judeu helenista Filon, foi um estudioso da Bíblia, mas usava um sistema eclético de interpretação, inclinando-se pelas especulações filosóficas gregas, aplicando em especial o arbitrário método alegórico, herança que pagou à teologia cristã Alexandrina. Deve se ter em conta que em Alexandria os mestres cristãos, entre eles Panteno, Clemente de Alexandria e Orígenes, consideravam a filosofia grega como uma ferramenta que devia ser usada, ferramenta que em ocasiões resultou em dois gumes. Panteno foi um filósofo estóico convertido e era eminente pelo fervor de seu espírito, do qual só se conservam fragmentos de seus escritos.A escola de Antioquia, fundada por Luciano. Relacionados com esta escola encontramos aos grandes, Deodoro de Tarso, Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto de Ciro, Doroteo, e o mais sobressalente, João Crisóstomo. A diferença da escola de Alexandria, que era alegórica, a de Antioquia era exegética, gramático-histórica, e as vezes céptica em algumas coisas. Desafortunadamente, devido ao rigor na aplicação deste método exegético, nesta escola caíram em alguns desvios, como o exagerado racionalismo, chegando inclusive a descartar o aparentemente incompreensível da Bíblia. Estes métodos especulativos de captar a Revelação chegaram a degenerar em excessos como o de Luciano, um dos precursores do arianismo, ou o de Teodoro de Mopsuestia, quem apesar de ser um dos melhores comentaristas bíblicos da antigüidade, não por ele deixou de cair no erro de negar a inspiração de alguns livros do Antigo Testamento.A escola da Ásia Menor, se caracterizava porque, a diferença da de Alexandria, não estava centrada em uma cidade em especial, e sim que consistia em uma linha de pensamento e trabalho conjuntural de um grupo de mestres e escritores de teologia. Irineu foi o mais notável exponente desta escola, grande evangelista, conferencista e escritor, defensor da causa de Cristo.A escola do Norte da África, tinha seu centro em Cártago. Foi a escola que mais contribuiu à formação do pensamento teológico da Europa. Ali se destacaram importantes escritores e teólogos da estatura do brilhante, célebre, controvertido e fervoroso Tertuliano, e do hábil bispo Cipriano.


Os apologistas


Não obstante atravessar a época mais amarga e sangrenta da Igreja, e devido a que o cristianismo se enfrentava também com as idéias opositoras surgidas do paganismo, alguns escritores cristãos dos anos 120 a 220 escrevem para defender o fazer a apologia da fé dos seguidores do Senhor Jesus, e buscar a conversão dos pagãos. Estas obras se caracterizam porque foram escritas em um estilo untado de ideologias filosóficas gregas, pois uma das dificuldades para os pagãos era aceitar a divindade de Cristo, por isso recorreram ao Logos para buscar uma compreensão entre os platônicos helenistas de seu tempo. A doutrina do Logos era conhecida dos pagãos e é usada por Justino para expor como Deus revela Sua sabedoria. O estoicismo e o neoplatonismo exerceram marcada influência no pensamento cristão dos primeiros séculos; por exemplo, muitos dos apologistas e dos chamados pais usaram o estoicismo para fundamentar teoricamente a ética.O estoicismo ensinava que no universo havia uma razão divina dominante, da qual saiu uma lei moral natural, a que para muitos intelectuais cristãos era idêntica com a lei moral cristã, mesmo que conservassem o contraste entre o cristianismo e o mundo. Moldadores dos pensamentos cristãos tão proeminentes como Orígenes e Clemente de Alexandria, eram estudantes da filosofia grega, particularmente o neoplatonismo e o estoicismo. Parece que o neoplatonismo teve sua origem precisamente na Alexandria. Ambrósio de Milão havia bebido em fontes estóicas, e Agostinho nas do neoplatonismo. Enfocando de novo os apologistas, temos estado distante dos tempos das inquisições da parte de uma organização religiosa que persegue a quem não pensavam como eles, os cristãos do tempo de Esmirna se atrevem a pedir liberdade religiosa. Os apologistas cristãos condenaram energicamente os cultos pagãos, tão abundantes no Império, negando a fazer contemporização alguma com eles. Entre os que lucraram por defender a fé cristã contra as calunias e ataques dos judeus e pagãos politeístas, temos a:
Quadrato. Era um profeta que conheceu aos apóstolos. Em sua apologia menciona esses quinhentos discípulos que vieram ao Senhor ressuscitado. Segundo Eusébio de Cesaréia, escreveu a primeira das apologias conhecidas, a qual foi apresentada ao imperador Adriano em Atenas, no inverno de 124-125, e da qual só se conserva um fragmento. Muitos consideram que sua Apologia é a mesma Epístola a Diogneto.
Arístides. Este contemporâneo de Quadrato escreveu a segunda destas apologias. Eusébio diz que a redigiu durante o reinado de Adriano e a tradução siríaca durante o reinado de Antonino Pío; mas é mais forte a opinião que foi dirigida a este último. Tratou-se de um cristão filósofo, de acordo com a necessidade do momento e por ser dirigida à oposição originada na cultura helenista, Aristides inicia sua apologia com um esboço demonstrando a existência de Deus baseando-se no argumento do filósofo Aristóteles que se relaciona com a origem do movimento. O texto desta apologia não se veio a ter senão até 1878, em que os monges armênios do monastério As Arestas, de Veneza, publicaram uma versão Armênia. A versão siríaca foi descoberta no monte Sinai em 1889 por Rendel Harris.

Epístola a Diogneto. Existe um brilhante e anônimo documento apologista chamado Epístola a Diogneto, obra atribuída supostamente a Panteno, mas com mais argumentos fundamentados a Quadrato, e dirigida a um certo Diogneto, que provavelmente se trate do imperador Adriano. Esta carta oferece uma excelente apresentação dos postulados da Igreja frente ao paganismo e ao judaísmo, ante a acusação nessa época de que o cristianismo ia debilitando a estabilidade e as estruturas do Império Romano, a Epístola a Diogneto declarou: "O que alma é ao corpo, são os cristãos ao mundo... A alma está aprisionada no corpo, mas ela conserva ao mesmo corpo; e os cristãos estão aprisionados no mundo como em um cárcere, mas eles mantêm unidos ao mundo". (Se pode ler este documento no Apêndice II no final do presente capítulo).

Justino Mártir. Era natural de Samaria. Escreveu duas das mais famosas apologias do cristianismo durante o reinado de Antonino Pío. O perfil deste mártir é o de um homem de uma personalidade excepcional, como humano e por sua inegável influência na Igreja. Em sua obra Diálogo com Trifon narra algumas datas biográficas. Estudioso em algumas escolas filosóficas gregas antes de conhecer ao Senhor, até que falou a verdade em Cristo, em quem o Logos historicamente havia encarnado e tomado forma humana. Em Roma fundou uma escola a maneira dos filósofos pagãos. É curioso o contraste entre Marciom e Justino. Enquanto aquele usa a filosofia para adulterar os ensinamentos da Igreja, Justino põe esses conhecimentos ao serviço do evangelho, para defendê-lo e propaga-lo. Da obra de Justino se conserva muito pouco, mas pelo historiador Eusébio se sabe que escreveu muito, e que era um filósofo no estilo, e desde esse ponto de vista usava o método platônico, mas no conteúdo era um verdadeiro cristão. Justino ganhou seu qualificativo por haver morrido pela fé no Senhor Jesus.

Melitão. Eusébio o cita como bispo de Sardes durante o reinado de Marco Aurélio, e nos da uma lista de sua obra, da qual só se conservam fragmentos, citando entre suas obras uma apologia ao imperador Cômodo, filho e sucessor do anterior. Ainda assim se conserva sua obra a Homília sobre a Páscoa. Nessa mesma época escreve também outro apologista chamado Apolinário de Hierápolis.

Atenágoras, o filósofo cristão de Atenas, Escreveu sua apologia dirigida aos imperadores Marco Aurélio e Cômodo, e faz a entrega em Atenas, sua cidade natal. Contradiz as calunias aos cristãos quando os acusam de ateus, afirmando que crêem em um Deus superior. Escreve um tratado sobre "A ressurreição do corpo", tocando um tema inaceitável para os filósofos de seu tempo. Defende a divindade do Logos. Nessa mesma cidade e em similares circunstâncias escreve e atua o apologista Milcíades.

Teófilo, apologista que foi bispo de Antioquía, escreveu três livros apologéticos a seu amigo Autólico, nos quais aparece pela primeira vez o termo Trindade (em grego, Tríada).

Taciano, contemporâneo com Teófilo, floreceu este outro apologista, nascido no ano 110, quem depois de haver sido discípulo de Justino (mártir) em Roma, no ano 172 voltou ao Oriente e fundou uma rigorosa seita gnóstica encratita, movimento de onde havia saído, a seita rigorosa contra o matrimônio. Antes de dar este passo, escreveu “Oratio ad Græcos”, obra apologética onde defende a origem divina do cristianismo. É mais conhecido por sua obra O Diatessarão, uma espécie de história da vida de Cristo; é uma harmonia ou correlação dos Quatro evangelhos.

Minúcio Félix escreve uma simpática apologia chamada “Octavius”, por meio da qual defende ao cristianismo usando um diálogo entre um pagão chamado Cecílio e um cristão de nome Octavio. Cecílio expõe as calunias difundidas contra a Igreja e Octavio lhe responde mostrando as verdades cristãs.

Hermias. Tem uma Sátira contra os Gregos, onde ataca e ridiculariza a filosofia grega.


Os polemistas


Além dos chamados pais apostólicos que conheceram diretamente aos apóstolos, e dos apologistas na época das perseguições, registramos no período profético de Esmirna aos polemistas, o seja, os que combateram contra as heresias, contra os gnósticos e defenderam valentemente a divindade de Cristo frente a todos os ataques do inimigo. Os mais famosos exponentes são:
Irineu (130-195). Provavelmente nasceu em Esmirna, onde desde criança conheceu a Policarpo, e desde ali foi enviado às Gálias (França) fazendo parte de um grupo de evangelistas. Mais tarde chegou a ser bispo de Lyon, onde realizou um trabalho tão meritório, que se registra que quase toda a cidade foi feita cristã, convertendo-se em um centro de onde saíram muitos missionários a evangelizar a Gália. É talvez o personagem que reveste maior importância em todo este período de Esmirna. Foi o principal opositor dos ataques dos gnósticos e marcionitas, heresias que conheceu e refutou em defesa da Igreja. Para combater o gnosticismo escreveu importantes livros como "Contra heresias" (Adversus Hæresus), e sua "Demonstração da pregação apostólica". No processo da formação do cânon, e devido a que alguns colocavam em dúvida a posição do Evangelho segundo João, defendeu a tese de que tinha que haver quatro evangelhos; assim mesmo expressa claramente a questão da sucessão apostólica. Por outro lado, sustentava que o Logos que se fez carne em Jesus Cristo, era o Filho de Deus, e dava ênfase a sua convicção de que Jesus Cristo era tanto plenamente homem como Deus, e que Jesus Deus-homem sofreu a crucificação pelos homens, em contraposição aos postulados gnósticos de que Cristo era um mero fantasma, e dos marcionitas com seu raro dualismo. Então em reação contra o velado politeísmo dos gnósticos e os dois deuses dos marcionitas, Irineu é um representativo da unidade de Deus, morreu como mártir.

Tertuliano, Quintus Setimus Florens (160-220). Este polêmico e grande teólogo e apologista cristão nasceu em Cártago, no Norte de África, de pais pagãos, ricos. Figura de controvérsia na história da Igreja, muito instruído na filosofia estóica; exercitou sua profissão de advogado em Roma. Em sua juventude parece haver sido instruído na filosofia estóica. Sua conversão ao Senhor ocorreu em sua idade mediana, chegando a ser presbítero. Conheceu bem o grego, mas escreveu muito em latim. Caracterizava-se por ser um cristão ortodoxo e composto um extenso tratado contra Marciom. Outras obras suas são “Prescrição Contra os Hereges, e contra os pagãos, a apologia o Apologético. Quando já envelhecia se tornou montanista até sua morte. Dele se diz que longe de ser herege, era o campeão da Igreja contra a heresia. Como bom apologista e advogado se atreveram a declarar no ano 212 que "é um direito do homem, um privilégio de sua natureza que cada qual possa adorar segundo suas próprias convicções". Os cristãos dos primeiros tempos encontraram sérias dificuldades para expor algumas verdades teológicas, e não poucas ocasiões se valeram assim de princípios filosóficos e legais para sua tarefa didática e apologética. Para referir-se a Deus, por exemplo, Tertuliano usava a palavra latina “substantia”, tomada da terminologia legal romana com a conotação da posição relativa do homem na comunidade; usando-la para se referir a que Deus em substância é um, mas que Pai, Filho e Espírito Santo, em essência, forma e aspecto, são três pessoas. Ao usar a palavra (personæ) pessoa, em sua disciplina de advogado, Tertuliano tinha em mente seu uso na lei romana, com o significado de: "uma parte em alguma ação legal"; de maneira que as três Pessoas da Trindade Divina tem seu respectivo lugar na economia ou atividade administrativa de Deus. Tertuliano entendia que o Filho estava subordinado ao Pai, e que o Espírito Santo procedia do Pai por meio do Filho.Já temos mencionado que para esta época começava a aparecer em algumas igrejas locais o episcopado com tendências monárquicas, e em alguma forma ia se pondo as bases para o grande salto que deu a Igreja a partir dos primeiros anos do século quarto, quando se dá o começo do período profético de Pérgamo, com todas suas conseqüências.

APÊNDICE I DO CAPÍTULO II- ESMIRNA

MARTÍRIO DE POLICARPO
BISPO DE ESMIRNA

(Carta incluída nas obras de Irineu, discípulo de Policarpo)

As igrejas de Deus que habita como forasteira em Esmirna, à igreja de Deus que vive forasteira em Filomélio, e a todas as comunidades, peregrinas em todo lugar, da santa e universal Igreja:
Que em vós se multiplique a misericórdia, a paz e o amor de Deus Pai e de nosso Senhor Jesus Cristo.
I. Os escrevemos, irmãos, a presente carta sobre o sucesso dos mártires, e assinaladamente sobre o bem-aventurado Policarpo, que, bem assim como quem põe o selo, fez cessar com seu martírio a perseguição. E é assim que todos os acontecimentos que precederam, podemos dizer, não tiveram outro fim que mostrar-nos novamente o Senhor Seu próprio martírio, tal como nos relata o Evangelho. 2. Policarpo, em efeito, esperou ser entregue, como o fez também o Senhor, a fim de que também nós lhe imitemos, não visando só nosso próprio interesse, mas também o de nossos próximos. Porque é de verdadeiro e sólido amor o não buscar só a própria salvação, senão também a de todos os irmãos.
II. Agora pois, bem-aventurados são só aqueles martírios que se têm cumprido conforme a vontade de Deus; porque é necessário que, guardando a devida cautela, atribuamos a Deus a força contra todos os tormentos.
2. E, em efeito, quem não admirará a nobreza de nossos mártires, sua paciência e o amor a seu Dono? Eles sofreram, dilacerados pelos algozes, até chegarem a distinguirem-se a disposição da carne dentro das veias e das artérias, de sorte que os mesmos espectadores se moviam às lástimas e rompiam-se em lamentações; os mártires, em contrapartida, se levantaram a tal ponto de nobreza, que nenhum deles exalou um ai! Nem um gemido, como que demonstravam a todos nós que, naquele momento de tortura, os nobilíssimos mártires de Cristo haviam emigrado fora de sua carne, ou melhor, que o Senhor mesmo, posto a seu lado, conversava amigavelmente com eles. 3. E sustentados pela graça de Cristo, depreciavam os tormentos terrenos, pois pelo sofrimento de uma só hora se preparavam ao gozo da vida eterna. O mesmo fogo dos inumanos atormentadores lhes resultava refrigerante, pois tinham ante os olhos as claras e eternas mansões que jamais perecem, e com os olhos do coração contemplavam já os bens reservados aos que valorosamente resistem; bens que nem ouvidos ouviram nem olhos viram e nem jamais penetrou em coração humano, mas para eles mostrava o Senhor como a quem não eram homens, senão anjos.
4. Igualmente, também os que foram condenados às feras sofreram tormentos espantosos, estendidos que foram sobre conchas marinas e submetidos a outras formas de variadas torturas. Pretendia o inimigo, se possível, obrigá-los a renegar da fé à força de contínuo tormento.
III. Muitos foram, em efeito, os artifícios que o diabo pôs em jogo contra eles; mas glória a Deus! Contra ninguém prevaleceu. Porque foi assim que o nobilíssimo Germânico superou com sua constância a covardia dos demais. Ele foi o que mais ilustre combate susteve com as feras. Porque, tratando o procônsul de persuadir e dizendo que tivera pena de sua idade, ele mesmo incitou a fera para que se arrojasse contra ele, pois queria quanto antes ver-se longe de uma vida sem justiça e sem lei como a que os pagãos levam. 2. Neste ponto, pois, toda a multidão, maravilhada da valentia da raça dos cristãos, que ama e rende culto a Deus, prorrompeu em gritos: "Morram os ateus! tragam a Policarpo!”
IV. Houve, entretanto, um, por nome Quinto, frígio de nação, chegado recentemente da Frigia, que, vendo as feras, se acovardou. Mas é que este se havia denunciado a si mesmo, e assim induziu a alguns a se apresentarem espontaneamente ao tribunal. A este, pois, logrou o procônsul, atrás de muitas importunações, persuadir a jurar pelo César e sacrificar. Dai irmãos, que não aprovemos aos que de si e ante si se apresentam aos juizes, posto que não é esta a doutrina do Evangelho.
V. Pelo que se refere a Policarpo, homem digno de toda nossa admiração, em primeiro lugar, ouvido que ouviu como se lhe reclamava para a morte, não se turbou, senão que estava decidido a não sair da cidade; entretanto, a maioria dos irmãos lhe aconselharam que se escondesse fora. Retirou-se, pois, a um imóvel que não era muito distante da cidade, e ali passava o tempo com uns poucos fiéis, sem outra ocupação, dia e noite, orarava por todos, e assiduamente pelas igrejas espalhadas por toda a terra. Coisa, que mais costumava fazer.
2. E foi assim que, orando uma vez, três dias antes de ser preso, teve uma visão em que se lhe apresentou seu travesseiro totalmente abrasado pelo fogo. E voltando-se aos que estavam com ele, lhes disse: "Tenho que ser queimado vivo.”
VI. Como persistiram as buscas para o prenderem, teve que se mudar para outro imóvel, e momentos depois chegou a guarda. Como não o acharam, prenderam a dois escravos, e um deles, submetido à tortura, declarou seu paradeiro. 2. Era já impossível seguir oculto, uma vez que os que lhe traiam pertenciam aos domésticos. Por sua parte, o chefe da polícia, que, por certo, levava o mesmo nome que o rei da paixão do Senhor, Herodes, tinha pressa por conduzir a Policarpo ao estádio, para que este alcançasse sua sorte, feito partícipe de Cristo, e os que lhe haviam traído sofreram seu merecido, é como dizer, o mesmo castigo de Judas.
VII. Levando, pois, consigo ao escravo, em uma sexta feira, era a hora de comer, saíram os caçadores, todo um esquadrão de cavalaria, armados com as armas do diversas, como se estivessem saindo atrás de um bandido. E chegado a hora tardia, lhe acharam acostado já em um celeiro de piso superior. Todavia Policarpo podia escapar pra outro esconderijo, mas se negou dizendo: Faça-se a vontade de Deus.
2. Conhecendo, pois, pelo ruído que se ouvia debaixo, que haviam chegado seus perseguidores, abaixou e se pôs a conversar com eles. Maravilhando-se estes, ao vê-lo, de sua avançada idade e de sua serenidade, não se explicava todo aquele aparato e afã por prender a um velho como aquele. Ao ponto, pois, que Policarpo deu ordens de que se lhes servissem de comer e beber naquela mesma hora, o quanto desejassem e ele lhes rogou, por sua parte, que lhe concedessem uma hora para orar tranquilamente. 3. Eles o permitiram, e assim, se pôs a orar tão cheio da graça de Deus que por espaço de duas horas não lhe foi possível calar. Estavam maravilhados os que lhe ouviam, e assim muitos sentiam remorso de haverem vindo prender a um ancião tão santo.
VIII. Uma vez que, finalmente, terminou sua oração, depois que havia feito nela memória de quantos em sua vida haviam tido trato com ele, pequenos e grandes, ilustres e humildes, e toda a universal Igreja espalhada ao redor da terra, vindo o momento de empreender a marcha, lhe montaram sobre um asno, e assim lhe conduziram à cidade, dia que era de grande sábado.
2. Topou com ele no caminho o chefe da policia, Herodes, e seu pai Nicetas, os quais, fazendo montar em sua carruagem e sentando a seu lado, tratavam de persuadi-lo, dizendo: "Mas que inconveniente há em dizer: "César é o Senhor” *(1), e sacrificar e cumprir os demais ritos e com ele salvar a vida?"
*(1) Em grego, Kyrios Kaisar. Nota do Autor.

Policarpo, no princípio, não lhes contestou nada; mas como voltaram à falar, lhes disse finalmente: "Não tenho intenção de fazer o que me aconselhais.”
3. Eles, então, fracassados em seu intento de convencer por bem, se desataram em palavras injuriosas e fizeram baixar precipitadamente da carruagem, de sorte que, a medida que baixava, se feriu na canela. Entretanto, sem fazer caso dele, como se nada houvesse passado, caminhava agora a pé animadamente, conduzido ao estádio. E era tal o tumulto que neste reinava, que não era possível entender nada.
IX. Na hora que Policarpo entrava no estádio, uma voz sobreveio do céu que lhe disse: "Tem bom ânimo Policarpo e porta-te varonilmente." Nada viu ao que este lhe disse; mas a voz a ouviram os que dentre os nossos estavam presentes. Seguidamente, segundo lhe conduziam ao tribunal, se levantou um grande tumulto ao correr a boato de que haviam prendido a Policarpo. 2. Vindo, em fim, à presença do procônsul, este lhe perguntou se ele era Policarpo.
Respondendo o mártir afirmativamente, tratava o procônsul de lhe persuadir a negar a fé, dizendo:
Tem consideração a tua avançada idade, diga: "Jura pelo gênio do César. Muda o modo de pensar; grita: Morram os ateus!"
A estas palavras, Policarpo, olhando com grave rosto a toda a escória de pagãos sem lei que enchiam o estádio, dando um suspiro e fitando seus olhos ao céu, disse:
Sim, morram os ateus!
3. Jura e te ponho em liberdade, Maldiz a Cristo. Então Policarpo disse:
Oitenta e seis anos faz que lhe sirvo e nenhum dano tenho recebido Dele; como posso maldizer o meu Rei que me tem salvo?
X. Como novamente insistira o procônsul, dizendo-lhe:
Jura pelo gênio do César, Respondeu Policarpo:
Se tens por ponto de honra fazer-me jurar pelo gênio, como tu o dizes, do César, e finges ignorar quem sou eu, digo com toda clareza: Eu sou cristão. E se tens interesse em saber em que consiste o cristianismo, dá-me um dia de trégua e escuta-me.
2. Respondeu o procônsul:
Convence ao povo. E Policarpo disse:
A ti te considero digno de escutar minha explicação, pois nós professamos uma doutrina que nos manda tributar a honra devido aos magistrados e autoridades, que estão por Deus estabelecidas, enquanto ele não vai em detrimento de nossa consciência; mas a esse povão não lhe considero digno de ouvir minha defesa.
XI. Disse o procônsul:
Tenho feras às que te vou a jogar se não mudar de parecer.
Policarpo respondeu:
Podes trair-las, pois uma troca de sentir do bom ao mal, nós não podemos admitir. O razoável é mudar do mal ao justo.
2. Voltou a insistir-lhe:
Te farei consumir pelo fogo, já que menosprezas as feras, caso não mudes de opinião.
E Policarpo disse:
Me ameaças com um fogo que arde por um momento e em pouco tempo se apaga. Bem se vê que desconheces o fogo do juízo vindouro e do eterno suplício que está reservado aos ímpios. Mas, o fim, a que tardas? Trai o que quer.
XII.Enquanto estas e outras muitas coisas dizia Policarpo, lhe viam pleno de força e alegria, e seu semblante irradiava tal graça que não só não se notava nele desânimo pelas ameaças que se dirigiam, senão que foi melhor o procônsul que estava fora de si e deu, por fim, ordem a seu heraldo, que, posto na metade do estádio, dera por três vezes este pregão:
Policarpo tem confessado que é cristão!
2. Apenas disse isto pelo heraldo, toda a turba de gentios, e com eles os judeus que habitavam em Esmirna, com raiva, incontinente e a grandes gritos, se puseram a bradar:
Esse é o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses, o que tem induzido a muitos a não sacrificarem nem adora-los.
Em meio a estas vozes, gritavam e pediam ao asiarca Felipe que soltasse um leão contra Policarpo. Mas o asiarca lhes contestou que não tinha permissão para isso, uma vez que haviam terminado os combates de feras. 3. Então deram todos a gritar unanimemente que Policarpo fosse queimado vivo. E é que tinha que cumprir a visão que se lhe havia manifestado sobre seu travesseiro, Quando a viu, durante sua oração, queimando-se todo, e disse profeticamente, volto aos fiéis que o rodeavam: "Tenho que ser queimado vivo.”
XIII. A coisa, pois, se cumpriu em menos tempo do que se custa contar, pois o povo se lançou ao ponto de recolher madeira e lenha seca, dando-se sobre tudo os judeus, mãos a labor com o singular fervor que têm de costume.
2. Preparada foi a pira, havendo Policarpo tirado todo o seu vestidos e descendo o cinturão, tratava também de tirar as calças, coisa que não houvera tido que fazer antes, quando todos os fiéis tiveram empenho em prestar este serviço, insistindo sobre quem tocaria antes seu corpo. Porque, mesmo antes de seu martírio, todo o mundo lhe venerava por sua santa vida.
3. Em seguida, pois, foram colocados em torno dele todos os instrumentos preparados para a pira. Mas como se acercaram também com intenção de cravar-lhe em um poste, disse:
Deixa-me tal como estou, pois o que me dá força para suportar o fogo, me dará também, sem necessidade de assegurar-me com vossos cravos, para permanecer imóvel na fogueira.
XIV. Assim, pois, não lhe cravaram, senão que se contentaram em lhe atar. Ele então, com as mãos atrás e atado como um carneiro ilustre, escolhido dentre um grande rebanho preparado para holocausto aceito a Deus; levantados seus olhos ao céu, disse: "Senhor Deus onipotente: Pai de teu amado e bendito servo Jesus Cristo, por quem temos recebido o conhecimento de Ti, Deus dos anjos e das potestades, de toda a criação e de toda a casta dos justos, que vivem em tua presença: 2. Eu te bendigo, porque me tiveste por digno desta hora, a fim de tomar parte, contado entre teus mártires, no cálice de Cristo para ressurreição de eterna vida, em alma e corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo: Seja eu com eles recebido hoje em tua presença, em sacrifício abundante e aceitável, conforme de antemão me preparaste e me revelaste e agora o tem cumprido, Tu, o inefável e verdadeiro Deus. 3. Portanto, eu te louvo por todas as coisas, te bendigo e te glorifico, por mediação do eterno e celeste Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, teu servo amado, pelo qual seja glória a Ti com o Espírito Santo, agora e no século porvir. Amem”.
XV. Apenas havia enviado ao céu seu amem e concluída sua súplica, os ministros da pira colocaram fogo na lenha. E naquele momento, levantando-se uma grande labareda, vimos um prodígio aqueles a quem foi dado vê-lo; aqueles, por demais, que temos sobrevivido para poder contar aos demais o sucedido.
2. O caso foi que o fogo, formando uma espécie de abóbada, como a vela de um navio enchida pelo vento, rodeou por todos os lados como uma muralha o corpo do mártir. E estava em meio da chama não como carne que se assa, e sim como pão que se cozinha ou qual ouro e prata que se acenda ao forno. E é verdade, nos percebemos um perfume tão intenso qual se levantara uma nuvem de incenso ou de qualquer outro aroma precioso.
XVI. Como queira que fosse, vendo os sem lei que o corpo de Policarpo não podia ser consumido pelo fogo, deram ordem ao rematador, que chegasse a dar o golpe de misericórdia, cravando-lhe um punhal no peito. Cumpriu-se a ordem e brotou da ferida tal quantidade de sangue que apagou o fogo da pira, e a multidão gentil ficou pasmada de que houvesse tal diferença entre a morte dos fiéis e a dos escolhidos. 2. Ao número destes eleitos pertence Policarpo, varão sobre toda ponderação admirável, mestre em nossos tempos, com espírito de apóstolo e profeta, bispo, no fim, da igreja de Esmirna. E é assim que toda palavra que saiu de sua boca ou há tido já cumprimento ou o terá com certeza.
XVII. Mas o diabo, nosso rival, invejoso e perverso, o inimigo declarado da raça dos justos, vendo não só a grandeza do martírio de Policarpo, senão sua vida irreprovável desde o princípio, e que estava já coroado com a coroa da imortalidade, ganhado o prêmio do combate que nada lhe podia já disputar. Dispôs de tal modo às coisas que nem sequer nos fora dado apoderar-nos de seu corpo, por mais que muitos desejavam fazê-lo e possuir seus santos restos. 2. O caso foi que sugeriu o demônio a Nicetas, pai de Herodes e irmão de Alce, que suplicasse ao governador que não nos autorizasse a retirar o cadáver do mártir; "Não seja, se dizia, que essa gente cristã abandone a seu Crucificado e comecem a render culto a este". Os judeus eram os que sugeriam tais coisas e faziam força no caso, eles, que montaram guarda quando nós íamos a recolher o corpo da pira. Mas ignoravam uns e outros que nós nem podemos jamais abandonar a Cristo, que morreu pela salvação do mundo inteiro dos que se salvam; Ele, inocente, por nós pecadores, nem temos de render culto a outro nenhum fora Dele. 3. Porque a Cristo adoramos como Filho de Deus que é; mas aos mártires lhes tributamos com toda justiça a homenagem de nosso afeto como a discípulos e imitadores do Senhor, pelo amor insuperável que mostraram a seu rei e mestre. E prouvera a Deus que também nós chegássemos a participar de sua morte e sermos condiscípulos seus!
XVIII. Como vira, pois, o centurião a obstinação dos judeus, pondo o corpo no meio, o mandou queimar, costume pagão. 2. Deste modo, pelos menos, pudemos nós mais adiante recolher os ossos do mártir, mais preciosos que pedra de valor e mais estimados que ouro puro, os que depositamos em lugar conveniente. 3. Ali, segundo nos for possível, reunidos em júbilo e alegria, nos concederá o Senhor celebrar o natalício do martírio de Policarpo, para memória dos que acabaram já seu combate e exercício e preparação dos que tem ainda que combater.
XIX. Tal foi o martírio do bem-aventurado Policarpo, que, havendo sofrido, com onze irmãos mais de Filadélfia, martirizados em Esmirna, ele só é carinhosamente recordado por todos, de sorte que até mesmos os pagãos falam dele por todas as partes. Ele foi, em efeito, não só mestre insigne, senão mártir eminente; daí que todos desejem imitar um martírio sucedido segundo o ensinamento do Evangelho de Cristo. 2. E agora, depois de haver derrotado por sua paciência ao príncipe iníquo deste mundo e recebido assim a coroa da imortalidade, glorifica jubiloso, em companhia dos apóstolos e de todos os justos, ao Deus e Pai onipotente e bendiz a nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador de nossas almas, piloto de nossos corpos e pastor de toda a universal Igreja espalhada ao redor da terra.
XX. Havíeis-nos pedido que os relatássemos com todo os detalhes o acontecido; mas tivemos que nos limitar, por agora, a um resumo do principal, que os mandamos, por obra de nosso irmão Marciom. Agora, pois, uma vez que vós os hajais inteirado, tende a bondade de remeter esta carta aos irmãos dos arredores, a fim de que também eles glorifiquem ao Senhor, que é quem escolhe aos que quer dentre seus servos. 2. Ao que é poderoso para introduzir a todos pela graça e dádiva sua, em Seu reino eterno, por meio de Seu Servo, Seu Unigênito Jesus Cristo, a Ele seja a glória, honra, poder e grandeza pelos séculos.
Saudai a todos os santos. A vós, saudações de todos os aqui presentes, e em particular de Evaristo, o Escrevente, com toda sua família.
XXI. O bem-aventurado Policarpo (69-155) sofreu o martírio no segundo dia do mês Jântico ( fevereiro/ março), sete antes do inicio de março, dia do grande sábado, à hora oitava. Foi preso por Herodes, abaixo o sumo sacerdócio de Felipe de Trales e o proconsulado de Estácio Quadrado, reinando pelos séculos nosso Senhor Jesus Cristo. A Ele seja a glória, honra, grandeza, trono eterno de geração em geração. Amem.
PAIS APOSTÓLICOS, Edição bilingüe, Daniel Ruíz Bueno. BAC, Madri, 1985. Págs. 672-687.


APÊNDICE II DO CAPÍTULO II

EPÍSTOLA A DIOGNETO


Exórdio

Excelentíssimo Diogneto,

1. Vejo que te interessas em aprender a religião dos cristãos e que, muito sábia e cuidadosamente te informaste sobre eles: Qual é esse Deus no qual confiam e como o veneram, para que todos eles desdenhem o mundo, desprezem a morte, e não considerem os deuses que os gregos reconhecem, nem observem a crença dos judeus; que tipo de amor é esse que eles têm uns para com os outros; e, finalmente, por que esta nova estirpe ou gênero de vida apareceu agora e não antes.

Aprovo este teu desejo e peço a Deus, o qual preside tanto o nosso falar como o nosso ouvir, que me conceda dizer de tal modo que, ao escutar, te tornes melhor; e assim, ao escutares, não se arrependa aquele que falou.


Refutação da idolatria

2. Comecemos. Purificado de todos os preconceitos que se amontoam em sua mente; despojado do teu hábito enganador, e tornado, pela raiz, homem novo; e estando para escutar, como confessas, uma doutrina nova, vê não somente com os olhos, mas também com a inteligência, que substância e que forma possuem os que dizeis que são deuses e assim os considerais; não é verdade que um é pedra, como a que pisamos; outro é bronze, não melhor que aquele que serve para fazer os utensílios que usamos; outro é madeira que já está podre; outro ainda é prata, que necessita de alguém que o guarde, para que não seja roubado; outro é ferro, consumido pela ferrugem; outro de barro, não menos escolhido que aquele usado para os serviços mais vis? Tudo isso não é de material corruptível?

Não são lavrados com o ferro e o fogo? Não foi o ferreiro que modelou um, o ourives outro e o oleiro outro? Não é verdade que antes de serem moldados pelos artesãos na forma que agora têm, cada um deles poderia ser, como agora transformado em outro? E se os mesmos artesãos trabalhassem os mesmos utensílios do mesmo material que agora vemos, não poderiam transformar-se em deuses como esses? E, ao contrário, esses que adorais, não poderiam transformar-se, por mãos de homens, em utensílios semelhantes aos demais? Essas coisas todas não são surdas, cegas, inanimadas, insensíveis, imóveis? Não apodrecem todas elas? Não são destrutíveis? A essas coisas chamais de deuses, as servis, as adorais, e terminais sendo semelhante a elas. Depois, odiais os cristãos, porque estes não os consideram deuses.

Contudo, vós que os julgais e imaginais deuses, não os desprezais mais do que eles? Por acaso não zombais deles e os cobris ainda mais de injúrias, vós que venerais deuses de pedra.e de barro, sem ninguém que os guarde, enquanto fechais à chave, durante a noite, aqueles feitos de prata e de ouro, e de dia colocais guardas para que não sejam roubados? Com as honras que acreditais tributar-lhes, se é que eles têm sensibilidade, na verdade os castigais com elas; por outro lado, se são insensíveis, vós os envergonhais com sacrifícios de sangue e gordura. Caso contrário, que alguém de vós prove essas coisas e permita que elas lhe sejam feitas. Mas o homem, espontaneamente, não suportaria tal suplício, porque tem sensibilidade e inteligência; a pedra, porém, suporta tudo, porque é insensível. Concluindo, eu poderia dizer-te outras coisas sobre o motivo que os cristãos têm para não se submeterem a esses deuses. Se o que eu disse parece insuficiente para alguém, creio que seja inútil dizer mais alguma coisa.

Refutação do culto judaico

3. Por outro lado, creio que desejais particularmente saber por que eles não adoram Deus à maneira dos judeus. Os judeus têm razão quando rejeitam a idolatria, de que falamos antes, e prestam culto a um só Deus, considerando-o Senhor do universo. Contudo, erram quando lhe prestam um culto semelhante ao dos pagãos. Assim como os gregos demonstram idiotice, sacrificando a coisas insensíveis e surdas, eles também, pensando em oferecer coisas a Deus, como se ele tivesse necessidade delas, realizam algo que é parecido a loucura, e não um ato de culto.

“Quem fez o céu e a terra, e tudo o que neles existe”, e que provê todo aquilo de que necessitamos, não tem necessidade nenhuma desses bens. Ele próprio fornece as coisas àqueles que acreditam oferece-las a ele. Aqueles que crêem oferecer-lhe sacrifícios com sangue, gordura e holocaustos, e que o enaltecem com esses atos, não me parecem diferentes daqueles que tributam reverência a ídolos surdos, que não podem participar do culto. Os outros imaginam estar dando algo a quem de nada precisa.

O ritualismo judaico

4. Não creio que tenhas necessidade de que eu te informe sobre o escrúpulo deles a respeito de certos alimentos, a sua superstição sobre os sábados, seu orgulho da circuncisão, seu fingimento com jejuns e novilúnios, coisas todas ridículas, que não merecem nenhuma consideração. Não será injusto aceitar algumas das coisas criadas por Deus para uso dos homens como bem criadas e rejeitar outras como inúteis e supérfluas? Não é sacrílego caluniar a Deus, imaginando que nos proíbe fazer algum bem em dia de sábado? Não é digno de zombaria orgulhar-se da mutilação do corpo como sinal de eleição, acreditando, com isso ser particularmente amados por Deus? E o fato de estar em perpétua vigilância diante dos astros e da lua, para calcular os meses e os dias, e distribuir as disposições de Deus, e dividir as mudanças das estações conforme seus próprios impulsos, umas para festa e outras para luto?

Quem consideraria isto prova de insensatez e não de religião? Penso que agora tenhas entendido suficientemente por que os cristãos estão certos em se abster da vaidade e do engano, assim como das complicadas observâncias e das vanglórias dos judeus. Não creias poder aprender do homem o mistério de sua própria religião.

Os mistérios cristãos

5. Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e a especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em casa gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal.

Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros.Toda pátria estrangeira é pátria deles, a cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põe a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem as leis estabelecidas, as com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, deste modo, lhes é dada a vida; são pobres e enriquecem a muitos; carecem de tudo e tem abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida.

Pelos judeus são combatidos como estrangeiros, pelos gregos são perseguidos, a aqueles que os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio. A alma do mundo 6. Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as partes do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível está contida num corpo visível; os cristãos são vistos no mundo, mas sua religião é invisível. A carne odeia e combate a alma, embora não tenha recebido nenhuma ofensa dela, porque esta a impede de gozar dos prazeres; embora não tenha recebido injustiça dos cristãos, o mundo os odeia, porque estes se opõem aos prazeres.

A alma ama a carne e os membros que a odeiam; também os cristãos amam aqueles que os odeiam. A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; também os cristãos estão no mundo como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo. A alma imortal habita em uma tenda mortal; também os cristãos habitam como estrangeiros em moradas que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos céus. Maltratada em comidas e bebidas, a alma torna-se melhor; também os cristãos, maltratados, a cada dia mais se multiplicam. Tal é o posto que Deus lhes determinou, e não lhes é lícito dele desertar.



Origem divina do cristianismo

7. De fato, como já disse, não é uma invenção humana que lhes foi transmitida, nem julgam digno observar com tanto cuidado um pensamento mortal, nem se lhes confiou a administração de mistérios humanos. Ao contrario, aquele que é verdadeiramente senhor e criador de tudo, o Deus invisível, ele próprio fez descer do céu, para o meio dos homens, a verdade, a palavra santa e incompreensível, e a colocou em seus corações. Fez isso, não mandando para os homens, como alguém poderia imaginar, algum dos seus servos, ou um anjo, ou algum príncipe daqueles que governam as coisas terrestres, ou algum dos que são encarregados das administrações dos céus, mas o próprio artífice e criador do universo; aquele por meio do qual ele criou os céus e através do qual encerrou o mar em seus limites; aquele cujo mistério todos os elementos guardam fielmente; aquele de cuja mão o sol recebeu as medidas que deve observar em seu curso cotidiano; aquele a quem a lua obedece, quando lhe manda luzir durante a noite; aquele a quem obedecem as estrelas que formam o séqüito da lua em seu percurso; aquele que, finalmente, por meio do qual todo foi ordenado, delimitado e disposto: os céus e as coisas que existem nos céus, a terra e as coisas que existem na terra, o mar e as coisas que existem no mar, o fogo, o ar, o abismo, aquilo que está no alto, o que está no profundo e o que está no meio.

Foi esse que Deus enviou. Talvez, como alguém poderia pensar, será que o enviou para que existisse uma tirania ou para infundir-nos medo e prostração? De modo algum. Ao contrário, enviou-o com clemência e mansidão, como um rei que envia seu filho. Deus o enviou, e o enviou como homem para os homens; enviou-o para nos salvar, para persuadir, e não para violentar, pois em Deus não há violência. Enviou-o para chamar, e não para castigar; enviou-o, finalmente, para amar, e não para julgar. Ele o enviará para julgar, e quem poderá suportar sua presença? Não vês como os cristãos são jogados às feras, para que reneguem o Senhor, e não se deixam vencer? Não vês como quanto mais.são castigados com a morte, tanto mais outros se multiplicam? Isso não parece obra humana. Isso pertence ao poder de Deus e prova a sua presença.

A Encarnação

8. Quem de todos os homens sabia o que é Deus, antes que ele próprio viesse? Quererás aceitar os discursos vazios e estúpidos dos filósofos, que por certo são dignos de toda fé? Alguns afirmam que Deus é o fogo - para onde irão estes, chamando-o de deus? - Outros diziam que é água. Outros ainda que é dos elementos criados por Deus. Não há dúvida de que se alguma dessas afirmações é aceitável, poderíamos também afirmar que cada uma de todas as criaturas igualmente manifesta Deus.

Mas todas essas coisas são charlatanices e invenções de charlatães. Nenhum homem viu, nem conheceu a Deus, mas ele próprio se revelou a nós. Revelou-se mediante a fé, unicamente pala qual é concedido ver a Deus. Deus, Senhor e criador do universo, que fez todas as coisas e as estabeleceu em ordem, não só se mostrou amigo dos homens, mas também paciente.

Ele sempre foi assim, continua sendo, e o será: clemente, bom, manso e verdadeiro. Somente ele é bom. Tendo concebido grande e inefável projeto, ele o comunicou somente ao Filho. Enquanto o mantinha no mistério e guardava sua sábia vontade, parecia que não cuidava de nós, não pensava em nós. Todavia, quando, por meio de seu Filho amado, revelou e manifesto o que tinha estabelecido desde o princípio, concedeu-nos junto todas as coisas: não só participar de seus benefícios, mas ver e compreender coisas que nenhum de nós teria jamais esperado.

A economia divina

9. Quando Deus dispôs todo em si mesmo juntamente com seu Filho, no tempo passado, ele permitiu que nós, conforme a nossa vontade, nos deixássemos arrastar por nossos impulsos desordenados, levados por prazeres e concupiscências. Ele não se comprazia com os nossos pecados, mas também os suportava. Também não aprovava aquele tempo de injustiça, mas preparava o tempo atual de justiça, para que nos convencêssemos de que naquele tempo, por causa de nossas obras, éramos indignos da vida, e agora, só pela bondade de Deus, somos dignos dela.

Também para que ficasse claro que por nossas forças era impossível entrar no Reino de Deus, e que somente pelo seu poder nos tornamos capazes disso. Quando a nossa injustiça chegou ao máximo e ficou claro que a única retribuição que poderiam esperar era castigo e morte, chegou o tempo que Deus estabelecera para manifestar a sua bondade e o seu poder. Oh imensa bondade e amor de Deus! Ele não nos odiou, não nos rejeitou, nem guardou ressentimento contra nós. Pelo contrário, mostrou-se paciente e nos suportou. Com, misericórdia tomou para si os nossos pecados e enviou o seu Filho para nos resgatar: o santo pelos ímpios, o inocente pelos maus, o justo pelos injustos, o incorruptível pelos corruptíveis, o imortal pelos mortais.

De fato, que outra coisa poderia cobrir nossos pecados, senão a sua justiça? Por meio de quem poderíamos ter sido justificados nós, injustos e ímpios, a não ser unicamente pelo Filho de Deus? Oh doce troca, oh obra insondável, oh inesperados benefícios! A injustiça de muito é reparada por um só justo, e a justiça de um só torna justos muitos outros. Ele antes nos convenceu da impotência da nossa natureza para ter a vida; agora mostra-nos o salvador capaz de salvar até mesmo o impossível Com essas duas coisas, ele quis que confiássemos na sua bondade e considerássemos nosso sustentador, pai, mestre, conselheiro, médico, inteligência, luz, homem, glória, força, vida, sem preocupações com a roupa e o alimento.

A essência da nova religião

10. Se também desejas alcançar esta fé, primeiro deves obter o conhecimento do Pai. Deus, com efeito, amou os homens. Para eles criou o mundo e a eles submeteu todas as coisas que estão sobre a terra. Deu-lhes a palavra e a razão, e só a eles permitiu contemplá-lo. Formou-os à sua imagem,.enviou-lhes o seu Filho unigênito, anunciou-lhes o reino do céu, e o dará àqueles que o tiverem amado. Depois de conhecê-lo, tens idéia da alegria com que será preenchido? Como não amarás aquele que tanto te amou? Amando-o, tu te tornarás imitador da sua bondade. Não te maravilhes de que um homem possa se tornar imitador de Deus. Se Deus quiser, o homem poderá. A felicidade não está em oprimir o próximo, ou em querer estar pro cima dos mais fracos, ou enriquecer-se e praticar violência contra os inferiores.

Deste modo, ninguém pode imitar a Deus, pois tudo isto está longe de sua grandeza. Todavia, quem toma para si o peso do próximo, e naquilo que é superior procura beneficiar o inferior; aquele que dá aos necessitados o que recebeu de Deus, é como Deus para os que receberam de sua mão, é imitador de Deus. Então, ainda estando na terra, contemplarás porque Deus reina nos céus.

Aí começarás a falar dos mistérios de Deus, amarás e admirarás os que são castigados por não querer negar a Deus. Condenarás o erro e o engano do mundo, quando realmente conheceres a vida no céu, quando desprezares esta vida que aqui parece morte, e temeres a morte verdadeira, reservada àqueles que estão condenados ao fogo eterno, que atormentarás até o fim aqueles que lhe forem entregues. Se conheceres este fogo, ficarás admirado, e chamarás de felizes aqueles que, com justiça, suportaram o fogo passageiro.



O discípulo do Verbo

11. Não falo de coisas estranhas, nem busco coisas absurdas. Discípulo dos apóstolos, torno-me agora mestre das nações e transmito o que me foi entregue para aqueles que se tornaram discípulos dignos da verdade. De fato quem foi retamente instruído e gerado pelo Verbo amável, não procura aprender com clareza o que o mesmo Verbo claramente mostrou aos seus discípulos? O Verbo apareceu para eles, manifestando-se e falando livremente. Os incrédulos não o compreenderam, mas ele guiou os discípulos que julgou fiéis, e estes conheceram os mistérios do Pai. Deu enviou o Verbo como graça, para que se manifestasse ao mundo.

Desprezado pelo povo, foi anunciado pelos apóstolos a acreditado pelos pagãos. Desde o princípio e apareceu como novo e era antigo, a agora sempre se torna novo nos corações dos fiéis. Ele é desde sempre, e hoje é reconhecido como Filho. Por meio dele, a Igreja se enriquece e a graça se multiplica, difundindo-se nos fiéis. Essa graça inspira a sabedoria, desvela os mistérios e anuncia os tempos, alegra-se nos fiéis, entrega-se aos que a buscam, sem infringir as regras da fé nem ultrapassar os limites dos Pais.

Celebra-se então o temor da lei, reconhecesse a graça dos profetas, conserva-se a fé dos evangelhos, guarda-se a tradição dos apóstolos e a graça da Igreja exulta. Não contristando essa graça, saberás o que o Verbo diz por meio dos que ele quer e quando quer. Com efeito, quantas coisas fomos levados a vos explicar com zelo pala vontade do Verbo que no-las inspira! Nós vos comunicamos por amor essas mesmas coisas que nos foram reveladas.

A verdadeira ciência

12. Atendendo e ouvindo com cuidado, conhecereis que coisas Deus prepara para os que o amam com lealdade. Transformam-se em paraíso de delícias, produzindo em si mesmos uma arvora fértil e frondosa, ornados com toda a variedade de frutos. Com efeito, neste lugar foi plantada a árvore da ciência e a arvora da vida; não é a arvora da ciência que mata, e sim a desobediência. Não é sem sentido que está escrito: No princípio Deus plantou a arvora da ciência da vida no meio do paraíso, indicando assim a vida por meio da ciência. Contudo, por não tê-la usado de maneira pura, os primeiros homens ficaram nus por causa da sedução da serpente. De fato, não há vida sem ciência, nem ciência segura sem verdadeira vida, e por isso as duas árvores foram plantadas uma perto da outra.

Compreendendo essa força e lastimando a ciência que se exercita sobre a vida sem a norma da verdade, o Apóstolo diz: “A ciência incha; o amor, porém, edifica.” De fato, quem pensa que sabe alguma coisa sem a verdadeira ciência, testemunhada pela vida, não sabe nada: é enganado pala serpente, não tendo amado a vida. Aquele, porém, que sabe com temor e procura a vida, planta na.esperança, esperando o fruto. Que a ciência seja coração para ti; a vida seja o Verbo verdadeiramente compreendido.

Levando a arvora dele e produzindo fruto, sempre colherás o que é agradável diante de Deus, o que a serpente não toca, nem se mistura em engano; nem Eva é corrompida, mas reconhecida como virgem. A salvação é mostrada, os apóstolos são compreendidos, a Páscoa do Senhor se adianta, os círios se reúnem, harmoniza-se com o mundo e, instruindo os santos, o Verbo se alegra, pelo qual o Pai é glorificado. A ele, a glória pelos séculos. Amém.

PAIS APOSTÓLICOS, Daniel Ruíz Buenio. BAC, Madrid, 1985, págs. 845-86o

Capítulo III
P É R G A M O
(1a. parte)


SINOPSES DE PÉRGAMO

Antecedentes de um matrimônio múltiplo
Compromisso matrimonial de onde mora Satanás. - O trono de Satanás - O altar de Pérgamo - Matrimônio da Igreja com o mundo e o Estado - A Igreja morando na terra.

Consolidação do matrimônio infiel

Constantino o Grande e o Edito de Tolerância - A Doutrina de Balaão: A corrupção do povo santo - O caminho de Balaão: Amor ao prêmio da injustiça - O erro de Balaão: Os falsos profetas que correm atrás de lucro.

Frutos do matrimônio

A falsa conversão de Constantino e a perversão da Igreja - A doutrina dos nicolaítas e a criação do clero - O cristianismo: religião oficial do Império Romano. -As duas capitais do Império: Roma e Constantinopla - Reações dos santos: o ascetismo dos eremitas.

Exponentes da patrística em Pérgamo.

Eusébio de Cesaréia - Atanásio de Alexandria - Basílio o Grande - Gregório de Nissa - Gregório de Nazianzo - Ambrósio de Milão - Jerônimo - João Crisóstomo - Agostinho de Hipo.

Algumas heresias em Pérgamo.

A reação cismática donatista. - Ário e a negação da divindade de Cristo no Concílio de Nicéia. - Apolinário e a negação das duas naturezas em Cristo. - Pelagio e a negação da depravação total na qual nasce homem. - Nestório e sua afirmação de que Jesus ao nascer só era a pessoa humana, ao que mais tarde veio o Cristo, o Logos divino.



Os vencedores de Pérgamo

Terceira recompensa: O Senhor lhes dará a comer o maná escondido e uma pedrinha branca, e na pedrinha um nome novo, nome que só conhece o vencedor que o recebe.

A CARTA À PÉRGAMO

“12 Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve: Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes:
13 Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita.
14 Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição.
15 Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas.
16 Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca.
17 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe.” (Apo. 2:12-17).

O trono de Satanás

A antiga, rica e paisagística cidade grega de Pérgamo situava-se na Mísia; a doze quilômetros ao norte de Esmirna e ao noroeste de Ásia Menor. Desde o século terceiro antes de Cristo foi uma das cidades mais importantes do mundo helenístico, provida de artísticos monumentos, com uma famosa biblioteca, e sob o reinado de Eumenes II, ali se fabricou pela primeira vez o pergaminho, que tomou o nome da cidade, para substituir ao papiro como meio de escrita. Pérgamo se destacou por ser um grande centro de idolatria, cidade de templos e altares dedicados a muitos deuses, aos quais lhes ofereciam cultos pagãos enquanto praticavam toda classe de desenfreio.
Não obstante ao anterior, seus habitantes eram tolerantes, faziam outros cultos, e devido a isso, em Pérgamo não houve perseguição aos cristãos como em Esmirna. Da época greco-romana, se conservaram de suas ruínas a Acrópole, que inclusive entre outros o templo dórico de Atenas Polias; um templo Corinto chamado Traianeum, e um templo de estilo jônico, dedicado a princípio a Dionísio e posteriormente ao Imperador romano Caracalla. Também tinham o templo a Esculápio, o deus da medicina, o que é representado por um humano com uma serpente, ao qual se lhe atribuíam poder curativo. Era tanta a atividade idolátrica, que várias correntes de interpretações conjecturam que o trono de Satanás, o qual se encontrava desde o princípio na Babilônia, sede de seu domínio desde quando o recebeu na queda de Adão, mais tarde na eventual queda e destruição da Babilônia, esse trono foi trasladado a Pérgamo, conforme diz na carta. E o curioso é que se registra a existência nesta cidade do Altar de Pérgamo, o altar do templo de Zeus, construído sob o reinado de Eumenes II, E que hoje se conserva no Pergamon Museum em Berlin. Será mera casualidade? Zeus era o deus supremo do Olímpo dos gregos; o mesmo Júpiter dos romanos, chamado o Optimus Maximus; o mesmo deus babilônico Marduk, "senhor de todos os deuses do céu e da terra", segundo eles; o qual não é outra coisa que uma espécie de materialização do mesmo diabo em busca da adoração dos homens.
Ao separar detalhadamente a afirmação anterior, devemos nos transladar a Bíblia para saber o lugar aproximado da localização topográfica do Éden, cenário da queda de Adão. Em Gênesis 2:10-11,13-14 diz : “10 E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se dividia, repartindo-se em quatro braços.
11 O primeiro chama-se Pisom; é o que rodeia a terra de Havilá, onde há ouro .13 O segundo rio chama-se Giom; é o que circunda a terra de Cuxe.
14 O nome do terceiro rio é Tigre; é o que corre pelo oriente da Assíria. E o quarto é o Eufrates.” O anterior nos indica que o Éden estava localizado na antiga Mesopotâmia e a região de Sinar, onde foi edificada a cidade da Babilônia.
De acordo com o capítulo três de Gênesis, ali o homem foi despojado, pelas artimanhas do diabo, de seu senhorio sobre a terra, e começou Satanás a ser o príncipe deste mundo. Ali constituiu seu trono. Mas o diabo necessitava de um centro de operações, e foi assim como depois do dilúvio, debaixo de sua iniciativa os homens começaram a construir o primeiro grande zigurate, a torre sagrada para que o adorassem; e consultaram aos astros, o qual se conhece como a torre de Babel; palavra que na raiz hebréia significa confusão, mas no idioma acadio quer dizer porta de Deus. A torre de Babel é um símbolo discente do orgulho humano. Podemos supor que essa torre seja a sombra do primeiro símbolo de Tiatira, a grande organização religiosa que teve suas origens em Pérgamo; de acordo com os descobrimentos da arqueologia, nesta torre se apoiava o templo dedicado na Babilônia ao deus Marduk.
Podemos ver no capítulo 10 de Gênesis que um neto de Cam chamado Ninrode foi quem fundou a Babilônia e outras cidades como Nínive; foi o primeiro poderoso na terra, grande caçador oponente de Deus, que como líder político e religioso organizou as multidões fundando cidades muradas para se protegerem das feras. Essa foi a origem da religião babilônica e Ninrode foi seu primeiro sumo-pontífice, a primeira ponte, intermediário, já não entre os homens e Deus, e sim com vínculos diretos com Satanás, título que herdarão os subseqüentes governantes e reis babilônicos. O nome Ninrode significa rebeldia, e o mesmo, guiou pessoas a se rebelarem contra Deus, a auxiliar na adoração ao príncipe das trevas. É possível que houvesse uma grande liderança na construção dessa primeira torre de confusão.
Mas o império babilônico teve seu fim e chegou o dia em que a Babilônia foi destruída para sempre, conforme haviam declarado os profetas na Palavra de Deus; mas o sistema religioso babilônico não foi destruído e Satanás necessitava recolocar a sede de seu trono, e escolheu transporta-lo para Pérgamo, cidade onde estabeleceu um influente centro idolátrico. Ali, os reis de Pérgamo receberam o transmissível título babilônico de sumo pontífice. Mas o último rei de Pérgamo, Átalo III, rendeu seus domínios a Roma no ano cento e trinta e três antes de Cristo, passando virtualmente o trono de Satanás a Roma, a capital do império em que convergem as profecias que se relacionam com a Igreja, e também onde continua. Em Roma, o imperador, além de chefe político, também chegou a ser o sumo pontífice (pontifex máximus) da religião babilônica, satânica; e recebeu esse título do rei de Pérgamo, o qual em sua vez ancestralmente o havia recebido da Babilônia. Quando João escreveu esta carta em Patmos, já a histórica cidade da Babilônia não existia, mas seguia existindo outra cidade que era a sede do grande sistema babilônico que encheu e segue enchendo de confusão a toda humanidade misturada nessa corrente.

Matrimônio com o mundo

"Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve: Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes:" (v.12).
A terceira carta do Apocalipse está dirigida à histórica igreja na localidade de Pérgamo, cujas características coincidem com o terceiro período profético da Igreja, que tem seu começo com a publicação do Edito de Tolerância religiosa; Promulgado pelo imperador Constantino em Milão no ano 313, dando os primeiros passos para a aceitação do Cristianismo como a religião do império, até o final do século quinto, pela eventual queda de Roma em 476. É sumariamente importante observar em cada uma das sete localidades geográficas e históricas das sete igrejas do Apocalipse uma série de coincidências entre a cultura, religião e história da cidade com a condição de suas respectivas igrejas locais e o período profético correspondente. Por exemplo, quando João escreve a carta à igreja em Pérgamo, podemos fazer uma tríplice alusão. Por uma parte se refere à igreja nessa localidade; por outra a Pérgamo, a cidade, sede do grande altar de Zeus, o trono de Satanás, e por outra, Roma, capital do poderoso império cujo imperador ostentava o título satânico de sumo pontífice, com o qual a Igreja se unirá em matrimônio no período profético de Pérgamo.
A palavra Pérgamo significa muito casado (do prefixo grego per, como em hiper, super, nos compostos químicos como permanganato, e a raiz gamos, gameta, esposa, ou gamétes, marido, de onde surgem palavras como poligamia), matrimônio múltiple, compromisso matrimonial, e isso nos indica que o diabo, vendo que por meio das heresias e as perseguições não conseguiu acabar com a Igreja, põe fim às perseguições e agora opta por usar outra tática, a de corrompê-la, promovendo a união em matrimônio da Igreja de Jesus cristo com o mundo, com sua política, sua economia e sua religião. Durante as épocas de Éfeso e Esmirna, Satanás, convertido em um leão rugindo, atacava a Igreja por meio do mundo; agora, vestido como anjo de luz, usa o mundo para dar umas calorosas boas vindas à Igreja que antes tratou de destruir. A Igreja de Jesus cristo sofreu dura e cruel perseguição, mas o Senhor lhes havia dito: “não temas”; mas o perigo para Igreja realmente surgiu e se acrescentou quando o estado se aliou com o cristianismo. Esse elemento estranho chamado mundo começou a mesclar-se com a mesma natureza santa e pura da Igreja, e isso nos da a idéia de que à Igreja se lhe foi dada um lugar importante no estado, dotando-la a si mesmo dos grandes templos pagãos; aparentemente começa a prosperar, e começa a ser levantada em uma posição alta, mas no mundo, para receber a glória do mundo, não nos lugares celestiais com Cristo Jesus. A Igreja começa a receber fortalecimentos pagãos e se tornou mundana, é como se diz, passou das garras dos ferozes leões, a ocupar uma posição de honra no trono imperial. A Igreja deve orar pelo governo e as autoridades do estado para que não haja anarquia, mas não unir-se e mesclar-se com o estado.
A Igreja é a noiva de Cristo, casta e pura; já está desposada com o Senhor, e por isso a união da Igreja com o mundo é considerada fornicação espiritual. Devido a isso, o Senhor se apresenta como o que tem a espada aguda de dois fios. O que simboliza isso? A Palavra mesmo nos da a resposta. "Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração." (Hb. 4:12). Por um lado o Senhor diz à Igreja que com essa espada inevitavelmente vai separar essa união de Sua Igreja com o mundo, e vai discernir e julgar essa união. O Senhor tem toda a autoridade para executar esta sentença. Através da história, o Senhor foi dando os passos necessários para cumprir sua palavra. A espada também é um instrumento de castigo, e o Senhor não está em conformidade com a igreja mundana, a qual retém o nome do Senhor, mas na prática o nega, porque com o tempo começou a esquecer-se de Seu nome e a negar a autentica fé.
Há textos da história eclesiástica que intitulam este período como “a Igreja Imperial”, com o sugestivo subtítulo de “a vitória do cristianismo’. Ambas as coisas são muito questionáveis, em primeiro lugar porque na Palavra de Deus não encontramos afirmação de que haja igreja imperial; a Igreja de Jesus cristo não é imperial, pois uma igreja imperial não é bíblica, e o que não obedece os princípios bíblicos se aparta da vontade de Deus. A Igreja não pode ser imperial e celestial ao mesmo tempo, não pode ao mesmo tempo ocupar os lugares celestiais com Cristo e uma posição de destaque entre os grandes da terra. E enquanto a "vitória", a consideramos uma vitória prejudicial, porque não dizer que é uma verdadeira derrota. Considere se é vitorioso que a Igreja paulatinamente comece a herdar os costumes, observâncias, formas e cerimônias pagãs, bastando uma mudança de nomes e modificações na adoração; e agora os templos dos deuses do Olímpo são "consagrados" para adorar ao Senhor, como atualmente acontece na Itália, que templos católicos de algumas províncias, eram templos onde se rendiam culto a deusa Diana. E estas construções com o tempo foram chamadas de "igrejas", termo impróprio para os edifícios, pois a Igreja é a assembléia dos santos; com isto tomaram o continente por inteiro. Não pode ser vitorioso para a Igreja de Jesus cristo, uma vez que plena de poder secular, deixe de expressar o Corpo que testemunha ao mundo o conhecimento do Deus verdadeiro e de Seu Cristo, para introduzir no mundo uma religião aliada ao estado.
Na Igreja a prosperidade secular é inversamente proporcional a prosperidade espiritual. Por exemplo, em seu auge a Igreja se reunia para adorar em casas particulares; depois e por causa das perseguições, os irmãos se reuniam em cemitérios, como as catacumbas romanas, e com a "conversão" de Constantino começaram a construção de formosos templos, e começaram a introduzir os costumes e protocolos imperiais, como o uso do incenso, vestimentas ricas de origem dos judeus pagãos foram sendo usada pelos clérigos, procissões, e desenvolvimentos de coros, tudo isso teve como resultado que a congregação, desconhecedora de uma linguagem como o latim, tiveram menos parte ativa no culto e serviço, e sua conseqüência foi um desenvolvimento anormal da aparência do reino de Deus na terra, porque na era atual a Igreja de Jesus cristo é a expressão do reino na terra. Com o passar dos séculos, isto também se vive no protestantismo. Aí teremos a parábola da semente de mostarda. "31 Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo;
32 o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes, e, crescida, é maior do que as hortaliças, e se faz árvore, de modo que as aves do céu vêm aninhar-se nos seus ramos." (Mt. 13:31-32).
nessa parábola vemos que desde antes do tempo de Pérgamo, a partir de seu humilde nascimento, a Igreja foi se convertendo em uma grande árvore que começou a produzir alimento espiritual para todas as nações, com o agravante de que na aparência do Cristianismo, houve a trágica influência de milhões de crentes falsos, com propósitos satânicos. A partir de Pérgamo, a Igreja começou a sofrer uma metamorfose, e ao invés de ser peregrina na terra, se estabeleceu neste mundo, arraigando-se na terra, como a árvore da parábola, e entre seus ramos foram surgindo muitas curvas de organizações, projetos e operações terrenas, com uma enganosa aparência do reino dos céus. E nos tempos do imperador romano Teodósio o Grande (380), multidões de incrédulos e pagãos foram batizados e ingressaram à "igreja", já unida ao mundo por meio de seus tentáculos da política, da economia e religião babilônica, a esposa do Cordeiro havia sido infiel ao Senhor.

A igreja morando na terra

"Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita." (v.13)
É curioso e assombroso quando a Palavra de Deus nos revela a face oculta das coisas e acontecimentos históricos. Por exemplo, não é uma coincidência que na localidade de Pérgamo, existia o famoso altar de Zeus, e se levantaram assim mesmo templos a Roma e a Augusto, que são vivos e deficientes exemplos do culto imperial. Indubitavelmente que quando a Bíblia diz que ali está o trono de Satanás, se refere ao altar do deus Zeus em associação ao lugar de adoração ao imperador. Isso também declara que o trono de Satanás está no mundo, e por isso a Palavra de Deus diz que a igreja mundana mora onde mora Satanás. Isso significa que a igreja mundana se uniu ao mundo e guarda estreita relação com Satanás até o dia de hoje.
Em todas e cada uma das sete cartas há uma constante: o Senhor disse a cada igreja, "Eu conheço tuas obras". O que faz a Igreja nesta época? Exceto um pequeno remanescente, uma onda de orgulho, ambição, arrogância e mundanismo foi substituindo a santidade e a humildade dos cristãos primitivos. A verdadeira posição da Igreja é com Cristo nos lugares celestiais; não é uma assembléia terrena como o povo hebreu, e sim peregrina na terra. A Igreja não deve enredar-se nos negócios deste mundo, pois nosso verdadeiro lugar esta com o Senhor nos céus. O Senhor mesmo nos deu exemplo nisto; neste sentido ele jamais se preocupou, senão por ser um peregrino, um residente temporal neste mundo, a tal ponto que chegou a dizer a alguém que se ofereceu a segui-lo, que ele não tinha nem uma pedra onde pudesse reclinar sua cabeça. Mas chega o momento em que a Igreja despreza o ouro fino e legítimo, deixando-se deslumbrar pelo brilho do ouro falso, e ao invés de ser peregrina nesta terra, prefere morar nela, onde satanás tem seu trono.
Ele é o príncipe deste mundo, e a cidade geográfica onde está localizado este trono não é outra senão Roma, a capital do império dominante no tempo em que João escreveu a carta a Pérgamo. Em Roma também tem em seu centro de governo o sumo pontífice satânico, o imperador mesmo. Ali começou a "prosperar" a Igreja. Será esta a classe de prosperidade que o Senhor quer para Sua Igreja? Quer o Senhor que Sua Igreja santa escale posições terrenas, influência mundana e glória dos homens? Quer o Senhor que Sua Igreja sem mancha nem rugas se sente a governar com o mundo? Não será que a pretendida "vitória" nos tempos do imperador Constantino foi uma selvagem onda de derrota e corrupção para a Igreja de Jesus cristo?
O Senhor aborrece que Sua amada habite onde seu inimigo tem o trono. O Senhor aborrece que Sua Igreja, para as reuniões, ao invés das casas dos irmãos, ou simples locais de reunião, comece a imitar ao mundo construindo magníficos palácios com a forma e o nome da basílica romana ou salão da corte. O Senhor aborrece que muita gente se apressou a fazer-se membro da Igreja, em procura de ganância pessoal. Satanás não pode acabar com a Igreja por meio das perseguições, então decide dar as boas vindas, acolhe-la para torná-la mundana, para corrompê-la.
Menciona-se a um mártir chamado Antipas, testemunha fiel do Senhor, e que foi morto entre os irmãos em Pérgamo, e repete: "onde mora Satanás". Antipas em grego significa contra tudo. Nada mais se sabe deste importante mártir cristão que morreu por manter-se fiel ao Senhor, por não querer contaminar-se e negar ao Senhor, por estar contra tudo o que a igreja mundana introduziu na vida da Igreja. Há afirmações no sentido de que os historiadores Bolandistas ou Bolandos (pertencentes a uma sociedade fundada no século XVII pelo jesuíta Jan van Boland, encarregada de realizar um estudo crítico das biografias do santoral católico. ), chamaram de lendas as Atas dos Mártires, e dizem eles que Antipas foi martirizado em Pérgamo nos tempos do imperador Domiciano, e queimado dentro de um boi de bronze. Tertuliano também dá testemunho de que Antipas foi o bispo dessa igreja, e de que ao não obedecer aos decretos do imperador no sentido de tomar parte na adoração e sacrifícios a Esculápio, então foi sacrificado, no mesmo tempo quando o apóstolo João foi deportado à ilha de Patmos.
Antipas é o arquétipo dos cristãos fiéis ao Senhor até o martírio. Enquanto isso irmãos fiéis viveram, a Igreja se manteve firme, e morriam durante as perseguições por não negarem sua fé; os santos preferiam morrer antes que negar a fé e o nome do Senhor. Pérgamo, apesar de morar na cidade que mais se dedicava à idolatria em toda a Ásia, com tudo isso, permaneceu fiel ao nome do Senhor. Os pagãos gritavam: "César é o senhor", mas havia muitos crentes que, como Antipas, confessavam: "Jesus é o Senhor". Ainda que seja de se entender que a época profética de Pérgamo se foi desenvolvendo mediante um processo, é certo que uma vez mortos os irmãos da época de Esmirna, os mártires, não há um deslize, senão uma queda terrível na Igreja do Senhor. Vivemos tempos em que é necessário ter o espírito de mártir, se queremos testificar contra a igreja mundana.
Terminou o período em que ninguém se unia à Igreja buscando ganância mundana, ou em procura de celebridade; havia terminado a época em que só permaneciam os que estavam dispostos a ser fiéis até a morte, e somente essa classe de servos era dos que se faziam abertamente seguidores de Cristo. Entretanto, e apesar de começar a ser infiel ao Senhor, casando-se com o mundo, a Igreja continuou retendo o nome do Senhor por algum tempo; seguiu sem assumir nome algum de organização de origem humana; porque o nome denota a realidade da pessoa do Senhor. A pesar de que a Igreja estava experimentando um processo de afastamento maior que o nível original de onde o Senhor a havia colocado no princípio, abandonando o conselho de Deus, descuidando o depósito do Senhor e os princípios bíblicos, notamos que havia quem se preocupava por não negar sua fé no Senhor.

O Edito de tolerância

O que aconteceu para que a Igreja fosse morar no mundo? O Senhor havia bendito de tal maneira à Igreja, que alguns opinam que a metade do povo do Império Romano já era cristã, no começo do século quarto de nossa era. Isso era percebido pelos governantes imperiais, eles estavam convencidos de que a Igreja era inexpugnável e indestrutível, e o haviam comprovado com a perseguição de Diocleciano (303-304), por meio da qual o paganismo tentou, com uma frieza sem comparação no passado, aniquilar a Igreja de Cristo. Surge Constantino na cena política do Império e decide "aceitar" ao cristianismo; não parecer ser verdadeira a conversão a Cristo, e ainda que seus motivos foram mais políticos, esse evento significou uma decisão transcendental. No ano 313, Constantino e Licínio ( Lúcio), com quem até essa época compartilhava o poder sobre o Império, reunidos em Milão, publicam o chamado Edito de Milão, o qual consigna a liberdade religiosa e a igualdade de direitos para os cristãos, a devolução dos bens desapropriados aos cristão e a aparente abolição do culto estatal. Posteriormente, mediante o Edito de Tessalônica, do ano 380, o cristianismo foi estabelecido como a religião oficial do Império. (Ver no apêndice deste capítulo o texto dos editos).

A doutrina de Balaão

“Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição.” (v.14).
O que é a doutrina de Balaão? Por que disse o Senhor que alguns a estavam retendo nessa época? Balaão foi um cobiçoso profeta dos gentios, que conhecia o verdadeiro Deus, e que aparece como protagonista no livro de Números, durante os passo do povo hebreu pelas terras de Moabe, em sua peregrinação pelo deserto em busca da terra prometida. O nome Balaão significa desviador do povo, e nesse propósito firmou seu ministério. No princípio Balaão pode ter sido um profeta de Deus, mas por ganância desonesta e por congraçar-se, se converteu em mercenário e desviou o caminho da verdade. Balaque, na ocasião rei de Moabe, ofereceu dinheiro a Balaão para que amaldiçoasse o povo hebreu, pois temia que o eventual cruzamento do povo de Deus por suas terras lhe ocasionara prejuízos, como havia sucedido com o Amorreu. Diz a Palavra de Deus que quando chegaram os emissários do rei com o pagamento para que Balaão fosse realizar seu nefasto trabalho, Deus havia dito com muita clareza a Balaão: "Então, disse Deus a Balaão: Não irás com eles, nem amaldiçoarás o povo; porque é povo abençoado." (Nm. 22:12). Mas Balaão insistiu e o Senhor o permitiu ir, mas com a condição de que fizesse o que Ele lhe dissesse, constituindo este um dos exemplos bíblicos mais exponentes da vontade permissiva de Deus. Balaão sabia muito bem que não era a vontade perfeita de Deus que atendesse a esse chamado. O Senhor não ia permitir que nada amaldiçoasse a seu povo.
Instigado pelo rei Balaque e por seus oferecimentos de paga, por mais que fosse tentado, Balaão não podia maldizer o povo de Deus, pois Deus ia frustrando os esforços de Balaque . Então ocorreu o que a Palavra de Deus chama de doutrina de Balaão; o profeta usa uma astuta estratégia para fazer cair em pecado o povo hebreu diante de Deus, pois aconselhou a Balaque que, seguindo essas instruções, corrompeu ao povo de Israel procurando uni-lo com as mulheres gentias pela atração do desenfreio sexual e logo a adoração de imagens. " Habitando Israel em Sitim, começou o povo a prostituir-se com as filhas dos moabitas. 2 Estas convidaram o povo aos sacrifícios dos seus deuses; e o povo comeu e inclinou-se aos deuses delas. 3 Juntando-se Israel a Baal-Peor, a ira do SENHOR se acendeu contra Israel." (Nm. 25:1-3). Como conseqüência houve uma grande mortandade entre os varões do povo de Israel e matança dos medianitas, incluindo o próprio Balaão, e os israelitas “e mataram todo homem feito. Mataram, além dos que já haviam sido mortos, os reis dos midianitas, Evi, Requém, Zur, Hur e Reba, cinco reis dos midianitas; também Balaão, filho de Beor, mataram à espada. 15 Disse-lhes Moisés: Deixastes viver todas as mulheres?16 Eis que estas, por conselho de Balaão, fizeram prevaricar os filhos de Israel contra o SENHOR, no caso de Peor, pelo que houve a praga entre a congregação do SENHOR” (31:8,15,16).
Satanás não podia acabar com a Igreja. Assim como Balaque teve temor deste povo numeroso que havia entrado em seus domínios, Constantino propicia uma fusão, um matrimônio da Igreja com a religião babilônica, incitando ao que a Palavra de Deus chama de "comer coisas sacrificadas aos ídolos", e que finalmente gera confusão entre a sociedade política e religiosa, que, pelos conflitos do perverso coração humano, leva implícito o problema do poder, e não qualquer poder, senão aquele que os imperadores se reservam os "divinos" direitos, e que se destaca a seu devido tempo e se conhece historicamente como o cesaropapismo.
Não se chega a compreender a razão pela qual havia existido a opinião de que a incursão e executória de Constantino na vida da Igreja de Jesus, constituiu para ele uma grande vitória, alegando para ele haver decretado por fim às perseguições aos santos e haver-la enchido de rendas eclesiásticas, liberdades e exaltações, e se fala inclusive de que a Igreja tem entrado em crises nos nossos dias devido ao fato que recentemente temos chegado ao fim da era constantiniana. Constantino abriu as portas aos cristãos para ascendê-los aos mais altos cargos da administração imperial, como o de consulado, prefeitura de Roma e prefeitura do Pretório. Assim mesmo concede ao cristianismo um estatuto jurídico especial, por meio dos quais os dirigentes eclesiásticos começam a gozar de privilégios, equiparando-se aos funcionários civis. Constantino foi o principal instrumento inicial de Satanás para introduzir no cristianismo todos os mistérios da religião antiga babilônica, a que se iniciou com Ninrode depois da época do dilúvio e a edificação do zigurate chamado Torre de Babel, que logo se consolidou em Tiatira com a Igreja Católica Romana, dando solidez e continuação ao ministério de iniqüidade com o papado, que com suas sutilezas de raciocínio e sua astúcia chegou a consolidar o culto à antiga rainha do céu babilônica, com todo seu seguimento de abominações.
Têm a doutrina de Balaão suas incidências hoje? Objetivamente os luxuosos ensinos religiosos, ensinos terrenos foram apagando a santidade e minguando o testemunho fiel no seio da Igreja, não olhando com bons olhos que os filhos de Deus pratiquem a apropriada fé cristã, separando-se do mundo, não participando de suas empresas sujas nem associando-se a suas organizações; e na "igreja" mundana alguns começaram a ensinar muito desses desvios, até que o povo chegou à executória plena da idolatria. Se não se retém o nome do Senhor, o resultado final é a idolatria e a prostituição.
Essa doutrina ensina a distrair os crentes, e como conseqüência caíram na idolatria, apartando-se da pessoa de Cristo, de Sua adoração e pleno gozo. Incitar a comer do sacrificado aos ídolos e a prostituição, se relaciona com o que entre os pagãos era chamado "sagrada prostituição", já que a praticavam em seus próprios templos em honra à seus deuses. Aqui a prostituição tem a conotação de apostasia. Tanto a doutrina dos nicolaítas como a de Balaão ensinam falsidade, sedução, tentação e indução à apostasia. A mistura dos ensinamentos e ritos pagãos com as doutrinas cristãs se chama sincretismo.
Comer do sacrificado aos ídolos é também voltar às meras doutrinas, as quais conduzem à prostituição e a idolatria. Nosso alimento verdadeiro é Cristo. Não podemos esquecer que hoje abundam os pregadores por contrato, assalariados, não chamados por Deus. as multidões no cristianismo de hoje correm atrás dessa classe de pregadores, e por isso são desorientados. Isso se consegue mediante a doutrina de Balaão; se desvia os crentes da pessoa de Cristo levando-os a idolatria; qualquer classe de idolatria.

O caminho de Balaão

Além da doutrina de Balaão, a Palavra de Deus registra o caminho de Balaão. Qual é esse caminho de Balaão? Responde-nos Pedro, quando disse: " 15 abandonando o reto caminho, se extraviaram, seguindo pelo caminho de Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça. 16 (recebeu, porém, castigo da sua transgressão, a saber, um mudo animal de carga, falando com voz humana, refreou a insensatez do profeta). " (2 Pe. 2:15-16). No contexto Pedro está descrevendo o caráter e conduta dos líderes e profetas enganadores, como conseqüência direta da doutrina; ou seja, quem é como Balaão, despreza o senhorio e a vontade de Deus por andar pelo caminho do prêmio injusto e usando o dom profético e o chamado de Deus para o próprio crescimento e ganância pessoal. Foi se introduzindo na Igreja uns tipos de servos inclinados talvez a servir simultaneamente a Deus e a seus próprios interesses, dentro desse espírito de casamento com mundo de Pérgamo, cedo ou tarde enfrentando-se inevitavelmente à desaprovação e condenação do Senhor. Está na moda, nestes tempos contemporâneos, o pregar por amor ao dinheiro, o buscar a congregação de maiores ingressos, o introduzir na assembléia dos santos os métodos e modo de atuar do mundo, tais como a psicologia de massas, manejo de luzes, controle emocional mediante a música, etc..., que acondicionam emocionalmente à alma.
Leva-se em conta que na Mesopotâmia e região da Babilônia, antiga terra habitada pelos sumérios e acadios, e onde originalmente estava o trono de Satanás, cada cidade estava debaixo da proteção de um deus específico, ao qual, junto com seu numeroso séqüito de deuses menores, lhes haviam construído um magnífico templo. Os sacerdotes que serviam ali cumpriam a si mesmo uma função financeira, devido a que as riquezas do templo incluíam grande parte das terras e ganhos da cidade. Diz-se que o comércio religioso dominava a cidade econômica e socialmente. Suas salas de pequenos cultos estavam elevadas sobre uma plataforma por cima das casas do resto do povo. Será todo isto mera casualidade frente ao que aconteceu com a Igreja desde os tempos de Constantino? Muitas das capelas, templos e santuários do paganismo pré-cristão foram transferidos para o serviço cristão, junto com suas dotações monetárias. Mas o curioso e lamentavelmente é o feito de que muitos de seus sacerdotes pagãos e mesmo seus filhos, como algo hereditário, passaram diretamente ao corpo do clero cristão, e alguns foram feitos bispos.
Constantino proporcionou à Igreja exatamente o mesmo que Balaque havia feito com Israel. Com o enriquecimento material, a conduziu ao adultério espiritual e à idolatria. Depois de Constantino, as igrejas começaram a receber subsídios oficiais, pelo menos nas grandes cidades. E mais, se criou um patrimônio eclesiástico, graças às oblações e oferendas dos fiéis e o favor econômico dos Imperadores, e tal patrimônio é administrado com completa autonomia pelo bispo, quem desfruta de isenção fiscal, assunto este que se tem perpetuado através dos séculos. Aos eclesiásticos o Império lhes concedeu um estatuto privilegiado, consistente em liberdade para dispor do patrimônio, imunidade fiscal, ou seja, que jamais pagaram impostos, dispensa de cargos curiais, etc... Mas essa igreja mundana se empobreceu espiritualmente, e começaram a receber multidões sem conversão e chegaram à prática do batismo infantil.

O erro de Balaão

O caminho de Balaão está intimamente associado com o erro de Balaão descrito em Judas 11. Ali o apóstolo também descreve as características dos falsos mestres e o destino que lhes espera, trazendo à tona o assunto que quase sempre registra o falso mestre, a ambição e o desejo de ganância pessoal. Ali diz: " Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Coré. "
As passagens que narram o Antigo Testamento são também arquétipos dos eventos cumpridos no Novo e relacionado com a Igreja. Lamentavelmente vemos que a Igreja foi institucionalizada e integrada ao sistema político de Roma, de tal maneira que aquele aspecto de comunidade espiritual de fiéis (Ecclesia) desafortunadamente passou a um segundo plano. De baixo dessa ameaça decretada por meio dos editos, as "conversões" das multidões se efetuavam em massa, sem o devido arrependimento, quantas vezes sem conhecer quem era o Senhor e sua obra expiatória. Começou a se experimentar um marcado desnível entre a moral cristã do tempo das perseguições e a deste período de Pérgamo; muitos cronistas diziam que homens ambiciosos e inescrupulosos procuravam postos na Igreja para obterem ganhos econômicos e influência social e política. Esse é o caminho de Balaão. Muitos dos cristãos nominais ofereciam somente adoração externa, de lábios, pois seguiam sendo pagãos de coração. Nessas conversões em massa, odres velhos queriam receber um vinho novo e qual foi o resultado? Os odres se romperam e em muitas dessas vidas se perdeu o vinho.





Capítulo III
P É R G A M O
(2a. parte)

Constantino o Grande

Ao tentar perfilar a personalidade e as intenções do personagem histórico conhecido como Constantino o Grande, desejamos fazê-lo passando por muitos lugares comuns, cuidando-nos de afirmar o que só Deus e Constantino mesmo podem dar fé como verdadeiro ou falso. Levamos em conta que todos os feitos de um político ambicioso demonstram que seja o governante ideal, e um traço típico de Constantino foi o de ganhar o favor de seus súditos (incluídos os cristãos) mostrando clemência e sabedoria em seus editos e outros atos governamentais. Mas a história narra o lado oposto da moeda, quando se afirma que os vinhedos que geravam os recursos da cidade alagavam por falta de drenagem, enquanto isso o imperador dilapidava os fundos públicos em luxos e a construção de um palácio suntuoso em Tréveris; o ganhar a simpatia dos Gálios explorando suas mais baixas paixões brindando-lhes no circo espetáculos cruéis onde morriam tantos bárbaros cativos, que alguém comenta que até as bestas se entediavam da matança.
Realmente se converteu Constantino ao Senhor Jesus Cristo? Isto se a questionado muito, mas podemos tirar algumas conclusões apontando as seguintes razões. Era uma época em que se acreditava que o batismo apagava os pecados cometidos, pelo qual Constantino determinou que não o batizassem senão em seu leito de morte, ele considerava a si mesmo "o bispo dos bispos". Os bispos que lhe rodeavam, nem mesmo Osio de Córdoba, que era seu conselheiro em matérias eclesiásticas, jamais protestara pelo feito de que Constantino, mesmo depois de sua "conversão", continuara participando de ritos pagãos proibidos para qualquer cristão. Aí vemos em plena atuação os que retêm a doutrina de Balaão. Cabe ao respeito notar que existem organizações eclesiásticas atuais que chamam de apostólico a Constantino. Levemos em conta que Constantino nunca renunciou de seu título de Pontifex Máximus (sacerdote do alto) da religião pagã babilônica, nem sua devoção pelo Sol Invicto.
Atrevemos-nos a assegurar que se Constantino o Grande cria verdadeiramente no poder de Jesus Cristo, não deve ter entendido e seguido a fé, essa fé que haviam seguido os que haviam sido fiéis ao Senhor até ofertarem suas vidas antes que negar-la. Agiu não de boa fé, sua intenção era mais política que espiritual, o certo era que se queria ganhar a proteção do Deus dos cristãos. Protegendo-o e construindo-lhe templos, e, uma vez que serviu aos outros deuses, trasladou imagens a Constantinopla, sem descuidar o culto pagão para não acarretar em uma oposição irresistível da ala pagã do Império, e de seus deuses. Mas as coisas iam andando lentamente. No começo de seu reinado o Império era oficialmente pagão, e ele, mesmo imperador continuara com o sustento das Virgens Vestais em Roma, entretanto, Constantino doou ao clero cristão o palácio de Letrán, em Roma, que pertencia à família de sua esposa.
Em um político hábil e ambicioso como Constantino não é difícil entender que ele pode ter visto no Deus dos cristãos um novo deus, mas dotado de poderes fora do comum. Para ninguém era segredo que a Igreja havia saído vitoriosa depois de dois séculos e meio de cruel perseguição, de tal maneira que a força do cristianismo já era respeitável nos tempos de Constantino. Ao promulgar o Edito de Tolerância, não estaria Constantino buscando o favor desse Deus dos cristãos e o apoio político dos seguidores de Jesus? Seja qual foi sua intenção, o certo é que Constantino, como Balaque, contaminou e perverteu a Igreja, até chegar a convertê-la na "grande prostituta".
Ao que os cristãos desde os primórdios da Igreja se reuniam no primeiro dia da semana para partir o pão e celebrar a ressurreição do Senhor, também este dia era dedicado ao culto pagão do Sol Invicto em todo o território do Império. Constantino, no ano 324, mediante um edito imperial ordenou que todos os soldados adorassem neste dia ao Deus supremo; e aqui temos a razão pela qual os pagãos não se opuseram a tal edito. Explicitamente manifesto que a conversão de Constantino não se ajusta aos parâmetros bíblicos, como tão pouco se ajusta que seja da parte de Deus a visão da cruz nas vésperas do dia da batalha da Ponte Múlvia.
Não há concordância entre os ensinos da Palavra de Deus e o feito de que supostamente Deus haja ordenado a este governante de um império pagão, enredado em suas intrigas políticas e derramamento de sangue e simultaneamente sumo pontífice da religião satânica, que elaborou um emblema em forma de cruz para que com esse emblema vencesse. Essa classe de visão está muito longe de ter sequer alguma similaridade com a que aconteceu no caminho de Damasco a Saulo de Tarso. É difícil crer que o mesmo Deus que envia a Paulo a pregar o evangelho e edificar a Igreja em meio a muitas provas e sofrimentos, se preste a enviar a Constantino, o mesmo que jamais renunciou a seu título de sumo pontífice pagão, a edificar um sistema apóstata com seu centro em Roma.
O bom humor religioso de Constantino se pode medir nas moedas cunhadas em seu governo; no anverso aparecia uma cruz e no reverso representações dos deuses pagãos como Marte ou Apolo, mostras das quais podem ser vistas nos museus modernos. Aí temos uma das estratégias sincretistas das muitas que usou para mesclar e casar a Igreja de Jesus Cristo com o paganismo. Muitos historiadores registram em suas crônicas que antes que começasse o século quinto o paganismo havia caído de seu elevado lugar; e alguns dizem com alvoroço; mas nós cremos mais na Palavra de Deus, a qual diz que foi a Igreja que caiu das alturas celestiais para ver a morar na terra, onde Satanás tem seu trono.
Muitos imperadores antecessores de Constantino tentaram realizar uma grande restauração do velho Império Romano, reafirmando para ele a antiga religião pagã. Essas eram as mesmas intenções de Constantino, mas com a diferença de que ele se propôs a construir sobre a base do cristianismo, não sem que houvesse sérios oponentes a estas aspirações entre a classe política e aristocrática de Roma. Este foi um dos motivos pelos quais determinou construir uma "nova Roma", uma nova capital imperial, pomposa e forte, que se chamaria Constantinopla, "a cidade de Constantino"; que outrora era Bizâncio, de «Byzantium», nome prévio à época cristã de Constantinopla, situada no ponto de contato entre Europa e Ásia, a capital da parte oriental do Império, recentemente conquistada por seu cunhado Licínio (Lúcio).
A pequena cidade de Bizâncio foi ampliada e adornada com espaçosos e luxuosos palácios e estátuas dos antigos deuses pagãos trazidos de todos os lugares do vasto império. Assim como com a construção da grande basílica de Santa Irene, e foi mudado seu nome pelo de Constantinopla (hoje Istambul), capital que foi a perna oriental deste quarto império mundial e conservou seu poder e herança política e cultural por mil anos depois que sucumbiu Roma abaixo da invasão dos bárbaros. Constantino trasladou a capital do Império de Roma a Constantinopla em 11 de maio do ano 330; então o império iniciou uma etapa de orientação; o caráter romano se foi perdendo paulatinamente, helenizando-se em seu novo meio bizantino. Constantinopla foi tomada pelos turcos no ano 1453, um pouco antes do descobrimento da América; e o grande templo de Santa Sofía foi convertido em uma mesquita muçulmana até o dia de hoje.
*(1) Referência à estatua do sonho de Nabucodonosor em Daniel 2:33,40

Constantino abriu as portas do Império ao cristianismo, mas foi Teodósio (378-395) quem fez do cristianismo a religião do Estado, obrigando aos cidadãos a serem membros da igreja, oficializando assim a união da igreja e o mundo pagão, mudando a natureza da mesma e dando origem a mil terríveis anos de abominações do cesaropapismo. E estas "conversões" em massa e por decreto imperial, aconteceria simultaneamente a "regeneração" bíblica? Chegou o momento histórico em que se substituiu a pregação do evangelho pela algema do poder civil. (Ler os decretos de Teodósio no apêndice do presente capítulo).

Consolidação dos nicolaítas

"E também tens aos que retém a doutrina dos nicolaítas, a que eu aborreço" (v.15).
Durante o período de Éfeso houve somente o que a Palavra de Deus chama obras dos nicolaítas, quando iniciaram a prática da hierarquia na igreja; aliás, nada se havia ensinado a respeito, nem muito menos institucionalizado, decretado nem dogmatizado. Mas já no século quarto, em pleno auge do período de Pérgamo, essas obras progrediram e se converteram em ensinamentos, e de ensinamento à dogma é só um passo, de maneira que hoje na igreja degradada, tanto no setor do catolicismo como no protestantismo institucionalizado, o nicolaísmo é ensinado e praticado. Então primeiro surgem membros individuais ao estilo Diótrefes, que se esforçam por obter domínio sobre os demais, logo há necessidade de inventar uma teoria que justifique este domínio; a teoria se converteu em ensinamento e o ensinamento se consolidou em dogma, o qual, por último, a Igreja aceitou sem prévio exame, revisão nem crítica, sem julgar à luz da Palavra de Deus, destruindo assim a função dos crentes, mutilando ou anulando o Corpo do Senhor como expressão de Cristo, que é o Cabeça.
Por volta do ano 324, o cristianismo foi reconhecido como a religião oficial do Império Romano. De acordo com o espírito da época, por um lado a legislação oficial ia se encaminhando à obrigatoriedade da conversão dos cidadãos do Império, incluída a ameaça, e por outra parte surgiram motivos e interesses pessoais que levaram às pessoas a converterem-se em massa; razão pela qual o cristianismo se encheu de um povo ignorante das verdades cristãs, de maneira que isso também coadjuvou para a formação de um clero seleto que tivera a seu cargo os ministérios espirituais, surgindo assim definitivamente a imperiosa necessidade de dividir a Igreja entre clérigos e laicos; se consolidou uma hierarquia que sustentava o monopólio do conhecimento e o ensinamento, além do poder e o governo eclesiástico.
O cristianismo, ao se consolidar como religião estatal, se toma como pretexto a necessidade de criar estruturas mais complexas a fim de poder manter tanto a disciplina como regular a pureza doutrinal. Os presbíteros substituídos por uma hierarquia de bispos e começou a emergir uma estrutura diocesana. Os dirigentes eclesiásticos, imitando a forma de governo imperial, adotaram um governo de superior hierarquia, em preferência àquele exercido em um plano de igualdade, como os praticados na igreja em seus primeiros anos. a Igreja cristã ia modelando sua própria organização sobre a base do sistema governamental do Império Romano, abandonando assim os princípios escriturais. Constantino consolidou no Império uma organização político-administrativa hierarquizada, agrupando as províncias em dioceses, que como antes se dizia, provém tal nome do imperador Diocleciano, governadas pelos vicarii (vigários). Mais tarde, quando já desenvolvido, o sistema católico romano imitou essa mesma forma de organização política. Consolidou-se a configuração de uma hierarquia eclesiástica seguindo as diretrizes da mesma divisão administrativa imperial. Instituíram-se metropolitanos nas províncias e bispos nas cidades. O Senhor quer que a Igreja seja edificada normalmente com Seu poder, sem que goze de alguma cota de poder do estado. O Senhor ordenou obediência aos homens que na comunidade representassem a autoridade, mas se negou a inventar métodos políticos para si mesmo e para Seus propósitos, incluindo a Igreja, e, além disso, nunca advogou por qualquer método de rebelião, senão que a Palavra de Deus condena esta atitude, em qualquer de suas manifestações.
O estado e a Igreja de Jesus Cristo jamais deviam unir-se na história, pois são duas coisas com origens, índole e fins diferentes. Uma não tem nada haver com a outra; mas na história maleficamente se confundiu à Igreja de Jesus Cristo com a religião babilônica, a qual sempre foi a religião do Estado. Essa herança matrimonial continuou até nossos dias, com influências e imitações mais pra lá do sistema central, o qual se identifica com o que a Bíblia chama a grande prostituta; sistema que, dizendo representar os interesses do Senhor, tem sido infiel. Esse sistema religioso chegou a ser uma só coisa com o estado. A Igreja de Jesus Cristo está longe de necessitar da aprovação oficial para desenvolver-se e cumprir sua finalidade nesta terra. Essa condição não a encontramos na Bíblia. A Igreja de Jesus Cristo longe está de necessitar que os reis e poderosos deste mundo a defendam. Pelo contrário; por eles, seguindo uma trilha por trás dos bastidores do príncipe deste mundo, havia de ser perseguida. A Palavra de Deus dá testemunho destas asseverações.
" 16 Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas.
17 E acautelai-vos dos homens; porque vos entregarão aos tribunais e vos açoitarão nas suas sinagogas; 18 por minha causa sereis levados à presença de governadores e de reis, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios.. " (Mt. 10:16-18).
" Levantaram-se os reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido; " (At. 4:26).
Desse matrimônio da Igreja com o mundo, com o Estado e com a religião babilônica sobrevieram grandes males. Por exemplo, na esfera do poder surgiu algo curioso. A raiz da divisão do Império Romano no Oriente e Ocidente, houve a ocasião das capitais imperiais: Roma Constantinopla. Isso originou, a par que os políticos, divergências e ambições de poder entre a hierarquia clerical de ambas capitais, com o subseqüente cisma entre ambas vertentes do cristianismo oficial; o que se conhece historicamente como Cisma do Oriente. O que aconteceu depois? Que nas províncias do bloqueio oriental, as ortodoxas, com o tempo o Estado dominou de tal maneira a essa parte do cristianismo, que este foi debilitado em grande prostituta. Foi diferente no ocidente, sucedeu gradualmente o reverso da moeda, pois o clero foi usurpando o poder ao Estado, e aquilo deixou de ser cristianismo para converter-se em uma hierarquia mais bem corrupta, que chegou a dominar às nações da Europa, como uma verdadeira e astuta maquinaria política. Tanto o Senhor como o apóstolo Paulo pela inspiração do Espírito Santo, o profetizaram.
"42 Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. 43 Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; 44 e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos. 45 Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos." (Mc. 10:42-45).
"30 E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles." (At. 20:30).
Durante as épocas de Éfeso e Esmirna, Cristo era o legítimo e único Kyrie da Igreja, e por não nega-lo, sofreram os santos até o martírio; mas entrando o período de Pérgamo as coisas foram mudando; a Igreja começa a abrir as portas a um kyrios diferente do Senhor, casando-se com o mundo e começou a surgir o antigo kyrios o dominus imperial, um monarca absoluto que, como já o temos dito, exercia soberanamente um poder que no Império o atribuíam a de origem divino. A partir de Constantino, ao imperador se atribuía o direito de intervenção nos assuntos da Igreja, não só por própria iniciativa, senão também por solicitação e com o consentimento da hierarquia eclesiástica.
A doutrina de Balaão continua operando com sua nefasta seqüela, tanto que chegou a desenvolver uma "teologia oficial", e alguns da casta clerical, deslumbrados pelos favores de Constantino, chegaram a difundir que Constantino havia sido eleito por Deus para que sua obra fosse a culminação da história da Igreja, e entre os quais se dizem estar o historiador Eusébio de Cesárea. Essas intervenções imperiais nos assuntos da Igreja as vezes eram de tipo disciplinador, como expulsar clérigos, depor e desterrar bispos, e incluir papas, quando esta instituição surgiu historicamente; as vezes eram de tipo jurisdicional, e é assim como o imperador incluso castiga delitos religiosos como sacrilégio. Mas o imperador chegou mais longe, intervém nos assuntos doutrinários, e convoca concílios, os orienta, legaliza suas decisões e até publica encíclicas, de modo que a Igreja ia se fundindo até cair também em baixo das garras de um tirano mundano.
Com exceção de Juliano o Apóstata (morreu em 363), todos os imperadores que sucederam no poder a Constantino eram ativos em conter os velhos cultos pagãos e em alentar a propagação do cristianismo e favorecê-lo. Por exemplo, Teodósio I (governou entre 379 a 395) impulsou a demolição de templos pagãos, aboliu os sacrifícios e as visitas a santuários pagãos, e foi mais longe, ordenando que a os apóstatas do cristianismo se privasse do direito de herança, tanto de receber como de transmitir por testamento.
Há outro significado da palavra Pérgamo, e é fechadura alta. Note que historicamente os bispos obtiveram direitos, privilégios, autoridade; cercados de riquezas, os irmãos tinham que pedir audiências para vê-los. Por que? Porque começaram a viver entre altas fechaduras de seus luxuosos palácios, pelo ensinamento dos nicolaítas. Constantino havia igualado os direitos da igreja e o paganismo, e desde então os reis e poderosos da terra começaram a presidir os concílios da igreja, e a confirmar todas as decisões que se tomaram.

A Igreja chamada a cortar com o mundo

" 16 Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca. " (v.16).
Na armadura de um soldado romano, a espada era um arma defensiva. "17 Tomai .... espada do Espírito, que é a palavra de Deus; " (Ef. 6:17). Esta espada é a mesma que aparece no verso 12, a Palavra de Deus, e que o Senhor vai usar para desfazer a união desigual e toda relação de Sua Igreja com o mundo. Como pode a Palavra de Deus ser usada para cortar nossa relação com o mundo? Primeiro o Senhor nos chama a que nos arrependamos, que cortemos por nós mesmos esses vínculos com o mundo em todos os aspectos. Mas se não nos arrependemos, a mesma Palavra de Deus se encarregará de julgar-nos, a qual tudo discerne, diferenciando o bom do mal, e é cortante como espada de dois fios. Como com a mistura do mundo com a Igreja, a natureza desta mudou radicalmente, é necessário que Deus use a espada de Sua boca para efetuar essa profunda divisão.
O Senhor intervém na história para cortar de Sua Igreja legítima um ente novo, nascido da instituição política da confissão cristã. A partir de Constantino tem rondado na Igreja do Senhor esse obscuro fantasma de que a Igreja de Jesus Cristo necessita que o poder secular exerça sobre ela alguma relação de tutela e proteção. Tem sido difícil para os eclesiásticos entender que a Igreja do Senhor, em quanto Igreja, Corpo de Cristo, não necessita ter nexos com o Estado, nem políticos, nem econômicos, nem religiosos, nem jurídicos, nem militares, nem culturais, nem sociais, se com ele está em perigo comprometer sua fidelidade ao Senhor, mas à Igreja se lhe deu por trocar a doutrina evangélica.
Por testemunho cristão, já que as Escrituras nos ordenam (Mt. 22:21; Ro. 13:1-7; Mt. 17:27) Tem que guardar um respeito e submissão às autoridades no âmbito pessoal, mas guardando sempre uma moderada e prudente separação entre a Igreja e o Estado. A Igreja deve aportar o necessário para a ordem, a justiça e a paz social, porque é sal e luz na terra, mas sem comprometer sua fidelidade ao Senhor da Igreja. Como esses laços entre a igreja degradada e os nicolaítas com sua seqüela de mundanismo e maldade tem permanecido no sistema da Igreja Católica Romana em toda a história através de Tiatira, bebendo o mel do poder temporal, chegará o eventual momento em que o Senhor julgará esse sistema e aniquilará com sua Palavra, como está previsto na Bíblia.

O ascetismo

Alguém se perguntará: Se a Igreja se uniu aos poderes do mundo e se o luxo e a ostentação fazem furor nos "altares" da cristandade, não houve quem reagisse? O feito de que Constantino houvesse dado essa virada na política do Império com relação ao cristianismo, que vinha de padecer quase trezentos anos de cruel perseguição, foi visto por muitos eminentes personagens da Igreja, como Eusébio de Cesárea, como o cumprimento dos desígnios de Deus. Mas outros viam mais além da simples aparência. Viam como a porta estreita e o caminho apertado se encaixavam tanto, que muitos se apressaram a mesclar-se intimamente na política, as posições e o prestígio deste século. Viam que cada dia o cristianismo se mesclava mais e mais com o paganismo. Uns poucos viram como a doutrina dos nicolaítas começou a penetrar e impregnar todas as assembléias da Igreja. E não foi estanho que os ricos e poderosos que se apoderam das nações, também encontraram ocasião de dominar a vida da Igreja do Senhor a fim de que se confundisse as coisas do César e as de Deus, pois a Igreja havia vindo instalar sua morada nesta terra, onde o diabo tem seu trono. O partido clerical se esqueceu que a Igreja é peregrina nesta terra, e que Seu divino fundador não só jamais teve uma luxuosa mansão nesta terra, senão nem sequer uma pedra onde pudesse reclinar Sua cabeça, pois o Pai o estava esperando nos lugares celestiais.
Alguns consideraram que o feito de que o imperador se declarasse cristão, e que se deram essas fáceis conversões em massa, não significava uma benção, mas sim uma grande apostasia, pois começou a formar-se o catolicismo paganizado, a disciplina da Igreja decaiu e ia se abrindo mais a brecha entre o ideal cristianismo e devido a tudo isto, muitos que não queriam abandonar a comunhão da Igreja, tiveram uma espécie de rebelião individual contra a organização e novo giro que a classe clerical havia dado à Igreja, e preferiram ir a outro extremo, retirar-se ao deserto para levar uma vida ascética, vivendo em cavernas e lugares solitários, dedicados a oração e a contemplação. Mas ambos extremos são perniciosos.
A Palavra de Deus não aprova para os filhos de Deus o matrimônio com o mundo, sua profunda ingerência na política nem busca de posições elevadas, por um lado, nem o monasticismo, tanto em sua modalidade solitária, como os ermitãos, ou coletivamente enclaustrados nos monastérios, por outro lado. Na Igreja primitiva não havia monjas nem monges; na experiência pré-cristã, estas práticas eram pagãs.
Alguns também defendem a posição dos monges conduzidos pela influência do gnosticismo, o marcionismo e em particular do maniqueísmo, se havia propagado a idéia dualista de corpo e espírito, pensando que o corpo se opunha à vida plena do espírito, pela difundida crença filosófica de que a matéria em si é mal, e tinha que dobrá-la, submetê-la (por meios carnais, ). Esse é um erro fundamental que se aparta do ensinamento bíblico. Nessa classe de vida se infiltrou algo do legalismo, ou seja, o ponto de vista de que a salvação de alguma maneira pode ser conquistada e merecida mediante obras, em oposição à graça. O Senhor Jesus viveu uma vida santa, mas de nenhuma maneira ascética, e tampouco recomendou o ascetismo, ao contrário, ordenou ir pelo mundo a pregar o evangelho e fazer discípulos e não fugir do mundo. Ao principio muitos bispos olharam mal o monacato, mas depois de estendido, a finais do século quinto, chegou a ser a característica do cristianismo, chegando a seu ápice durante a idade média.
Merece também mencionar que no movimento monástico teve influências, de uma parte pelo lado de Orígenes, Pânfilo e Eusébio de Cesaréia no sentido de deixar-se levar pelo ideal platônico de vida, e mesmo por certos princípios estóicos; e por outro lado pelas palavras do apóstolo Paulo, de que quem não se casava podia ter mais liberdade para servir ao Senhor. Levemos em conta também que se pelo lado dos nicolaítas se realizava uma mescla com o paganismo e seus rituais, no outro extremo, os monges puderam imitar o exemplo das religiões pagãs, pois estas tinham virgens sagradas, eunucos, celibato entre os sacerdotes e pessoas apartadas para o serviço de seus deuses. Se os que andavam de braços dados a Constantino se enchiam de orgulho de classe, não menos surgiu entre os que levavam sua vida monástica, pois entre eles se deu outra forma de orgulho, pensando que seu nível espiritual estava por cima dos bispos, e por serem eles e não os dirigentes eclesiásticos quem deviam decidir sobre questões da doutrina cristã.
É curiosa a terminologia com que se lhes há designado. Eremitas ou ermitãos, por quanto preferiram viver em ermitas, santuários ou capelas situadas em lugares solitários. Monges, que vem da palavra grega monachós, que significa "solitário". Anacoretas, que quer dizer, "retirado" ou "fugitivo". Cenobitas, palavra derivada de dois términos gregos, que significam "vida comum", como uma modalidade coletiva, diferente ao anacoretismo. Diz-se que foram milhares os que tomaram esta decisão de retirarem-se a essa vida monástica, como espécie de contagio em massa; Paulo o ermitão (não o apóstolo) e Antônio são os mais sobressalentes, e que os põe como os iniciadores desta classe de vida, talvez pelo feito de que respectivamente, Jerônimo e Atanásio escreveram suas vidas. Ali se registra que Paulo fugiu da perseguição ao deserto em meados do século terceiro.
Em quanto a Antônio, tomou sua decisão ao redor do ano 320, pois lhe impactaram as palavras do Senhor Jesus acerca do jovem rico em Mateus 19:21, pelo qual dispôs de suas propriedades e repartiu seus bens entre os pobres, e se retirou ao deserto do Egito. Outros de grande renome são Simeão do Pilar e Palemão o estilita, chamados assim por sua curiosa maneira de viver em colunas que terminavam em uma base. Curiosamente, de Simeão se diz que viveu sobre seu pilar ao leste de Antioquía trinta e seis anos e que gotejava vermes, piolhos e sebo.
Houveram pessoas cujo ingresso a um monastério não estava associado com a conversão à fé, senão, a uma preocupação pela salvação. Quando o monastério estatutariamente implica uma vida de renuncia ao mundo, de mortificar a vontade, de austeridade na comida e vestimenta mortificante, vigílias noturnas depois de um duro trabalho diurno, jejum, castigo da carne, e outros procedimentos, isso vai dar em um legalismo e a prática de exagerados rudimentos do mundo, que não produzem a paz com Deus, nem menos vai substituir o sacrifício de Cristo.
Na época que se inicia com Constantino, os ministros cristãos começaram a chamar-se "sacerdotes", mesmo para a época de Constantino, o título de sacerdote tomou um aspecto mais pagão, pois antes de Constantino, na Tradição Apostólica, Hipólito de Roma chama sacerdote a João, e a Didaké, do século I, chama sumos sacerdotes aos profetas da Igreja, mas no sentido neotestamentário que usam Pedro, Paulo e João. O sacerdócio paganizado contribuiu para a formação do nicolaísmo, tirando o sacerdócio ao povo.
"4 Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa,5 também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo.. Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; " (1 Pe. 2:4-5,9)." 16 para que eu seja ministro de Cristo Jesus entre os gentios, no sagrado encargo de anunciar o evangelho de Deus, de modo que a oferta deles seja aceitável, uma vez santificada pelo Espírito Santo.” (Ro. 15:16).
“e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra.” (Apo. 1:6; 5:10).
Mesmo ao contrário da sua vontade e pela insistência e petição de algum bispo, alguns destes ermitãos chegaram a ser ordenados sacerdotes e bispos e ocupar cargos eclesiásticos. Se diz que Pacómio, antigo soldado do exército imperial, que nascera em uma pequena aldeia ao sul do Egito em 286, foi quem teve grande proeminência no surgimento do monaquismo comunal ou cenobítico, mais tarde Basílio de Cesaréia, um dos três Capadócios, Martín de Tours e Jerônimo. Um dos mais sobressalentes organizadores do ascetismo foi Benito de Núrcia, autor da famosa regra de São Benito, uma das mais influentes da organização do ascetismo.

Os Pais da Igreja

Pelas informações recebidas da época, houve nesse tempo muita atividade teológica, e não menos correntes de idéias controversas; é a época do desenvolvimento e aprofundamento da Cristologia, e fazem suas aparições novas escolas teológicas em Constantinopla, Roma, Antioquía e Córdoba. Pérgamo é um período de grandes figuras protagônicas no suceder de uma grande virada da Igreja, entre os quais se destacaram eminentes teólogos, filósofos, historiadores, apologistas e polemistas, alguns dos quais deixaram registros escritos desses importantes acontecimentos. Antes de registrar um ligeiro perfil de alguns dos chamados pais da Igreja, é interessante notar que o platonismo exerceu grande influência no cristianismo, principalmente por meio de pensadores cristãos como o judeu helenista Fílon, Justino Mártir, Clemente de Alexandria, Agostinho e os escritos que levam o nome de Dionísio o Areopagita.

Eusébio de Cesaréia (260-340). Sábio erudito e historiador da Igreja, nascido provavelmente na Palestina, onde chegou a ser bispo de Cesaréia e onde foi discípulo de Pânfilo, natural de Berito (hoje Beirute), na ocasião em que este estudava, organizava e completava a biblioteca que Orígenes havia deixado ali em possessão da igreja. Desde esta sede, Eusébio saía por diversas cidades buscando documentação acerca das origens do cristianismo. Inicialmente, e mesmo em meio das perseguições em tempos do imperador Maximino Daza, Eusébio escreveu junto com Pânfilo várias obras, entre elas Crônica, cinco livros de uma Apologia de Orígenes. Morto seu mestre, revisou e ampliou sua obra mais importante, a História Eclesiástica. Obra de suma importância para o estudo dos primeiros tempos da vida da Igreja, pois ele se encarregou de compilar, organizar e publicar quase todo o que a posteridade logrou saber de muitos dos cristãos dos primeiros séculos da Igreja. E foi terminada quando o imperador Constantino acabava de firmar o Edito de tolerância no ano 313, que outorgava a paz aos cristãos.
Eusébio em sua oportunidade escapou da perseguição e se livrou do martírio, e foi testemunha presencial daquelas amargas horas da Igreja, e por razões que temos analisado acima no presente capítulo, como muitos outros em seus tempos, viu em Constantino um instrumento escolhido por Deus para levar a cabo seus propósitos, e, segundo afirmam vários analistas da história, por causa da fascinação da pompa imperial, se dedicou a servir os interesses do império por cima dos de Jesus Cristo.
Eusébio se viu envolto nas controvérsias arianas, ao que se manteve no Concílio de Nicéia dentro da linha ortodoxa, aliás, deixou muito a desejar, pois não apoiou plenamente a Atanásio de Alexandria, já que seus interesses eram outros. Diz-se que era amigo pessoal de Constantino, de quem escreveu sua obra “Vida de Constantino”. No pensamento e modo de ver as coisas, Eusébio, mesmo sem aperceber-se, discordava muitas vezes da sã teologia cristã. Por exemplo, foi um dos que não percebeu do perigo que era que a Igreja perseguida passara a ser a Igreja dos poderosos. Os que segundo as palavras do Senhor no evangelho tem muita dificuldade para herdarem o reino dos céus, a Igreja que preferiu morar na terra antes que ser peregrina, e a ver a riqueza e a pompa como uma benção de Deus. Também escreveu uma obra útil para os estudos bíblicos, sua Onomástico, enumerando e identificando os principais lugares geográficos da Palestina.

Atanásio de Alexandria (300-373). Um dos quatro grandes dos chamados pais da Igreja, de orientação grega. Nasceu provavelmente em alguma pequena aldeia ribeirinha do Nilo e morreu em Alexandria; pertencente a uma família de classe humilde, talvez da raça copta. Este gigante da Igreja era de pele escura e muito curto de estatura, a tal ponto que seus inimigos às vezes zombavam dele o chamando de anão. Desde sua infância demonstrou profundo interesse pela igreja, e chegou a desfrutar da favorável atenção de Alexandro, o bispo de sua cidade natal, onde muito jovem chegou a ser diácono. O centro de sua fé o constituía a presença de Deus na história, e por isso se constituiu no mais temível opositor do arianismo, antes e depois do Concílio de Nicéia, tendo em conta que para Atanásio a controvérsia ariana ia mais longe de serem simples sutilezas filosóficas; tinha a luz suficiente para saber que essa heresia socavava o centro da fé cristã. Depois do Concílio de Nicéia, morreu Alexandro e Atanásio foi eleito bispo de Alexandria, e esse havia sido o desejo de seu antecessor. Mas Eusébio de Nicomédia e demais dirigentes arianos, persuadiram ao imperador contra Atanásio acusando-lo de irregularidades eclesiásticas e até de homicídio, pelo qual Atanásio sofreu uma vida de lutas e de repetidos exílios. Seus últimos sete anos passou sossegadamente em Alexandria, onde morou em 373. Finalmente suas idéias triunfaram por toda a Igreja, ficando consignadas no Credo de Atanásio, ao que este não houvera sido escrito por ele. Entre as obras escritas por este eminente varão de Deus relacionamos:
* A Vida de Santo Ântonio. Atanásio costumava visitar aos monges do deserto, e em especial a Paulo o ermitão e a Antônio, de quem aprendeu uma grande austeridade e rígida disciplina.
* Contra os gentios. O mesmo que a seguinte, escrita antes da controvérsia ariana.
* Acerca da encarnação do Verbo. Escrita abaixo da profunda convicção da centralidade da encarnação de Cristo na fé da Igreja e mesmo da história humana, e sem a influência das especulações filosóficas de Clemente de Alexandria ou de Orígenes.

Os Capadócios. Este título foi dado a três grandes teólogos cristãos do século IV, que pertenciam as igrejas da província de Capadócia, ao norte de Cicília, na Ásia Menor, os quais tiveram uma influência decisiva por haver se aprofundado no assunto da Trindade e haver contribuído grandemente à derrota do arianismo. São eles Basílio Magno o de Cesaréia, seu irmão Gregório de Nissa, famoso por suas obras acerca da contemplação mística, e Gregório de Nazianzo ou Nazianzeno, célebre orador, poeta e compositor de hinos. Os três tiveram forte influência do pensamento de Orígenes.

Basílio o Grande (329-379). Membro de uma família profundamente religiosa de Cesaréia. Recebeu educação universitária em Cesaréia, Constantinopla, Antioquía e Atenas, cidade esta onde se fez amigo de Gregório, conhecido mais tarde como Gregório Nazianzeno. Uma vez regresso em sua terra natal esteve a frente da catedral de retórica da Universidade de Cesaréia, mas foi repreendido por sua própria irmã Macrina, devido a que estava muito envaidecido, que não citara tanto os autores pagão, senão que buscara viver de acordo com os ensinamentos dos autores cristãos. A influência de sua piedosa irmã e a morte de Lucrécio, outro irmão que havia vivendo uma vida de contemplação, o levou a renunciar a sua catedral e demais honras e pompas do mundo, para dedicar-se a aprender com sua irmã os segredos da vida monacal. Em 357 foi batizado e ordenado leitor na igreja. Viajou pelo Egito, Palestina a fim de aprender dos monges a vida contemplativa, e em seu regresso fundou com Gregório de Nazianzo uma comunidade de monges em Ibora, não longe de seu lar, escreveu regras e princípios para a comunidade, que foram base para as de outras comunidades. Em 364, a petição de Eusébio de Cesaréia foi ordenado presbítero, e se dedicou a escrever livros. Depois da morte de Eusébio, em 370, Basílio foi nomeado bispo de Cesaréia. Nesse tempo Valente, um ariano, chegou a ocupar o trono imperial, e foi a visitar a Cesaréia, talvez com o propósito de fortalecer o bando ariano e debilitar o niceno, e Basílio enfrentou o imperador sem deixar-se submeter com promessas nem ameaças. Com Gregório Nazianzo e Gregório de Nissa, Basílio contribuiu poderosamente acerca da doutrina da Trindade e a terminar a disputa relacionada com a terminologia sobre o Espírito Santo. Morreu aos cinqüenta anos, pouco antes do Concílio de Constantinopla, no ano 381, confirmara a doutrina nicena.

Gregório de Nissa (330-395). Irmão menor de Basílio e ao contrário de seu irmão, era de um temperamento agradável e tranqüilo. Preferia a vida apartada e retirada do mundo ruído. Sua educação, ainda que boa, não foi tão esmerada como a de seu irmão. Contraiu matrimonio com a formosa jovem Teosébia, com quem foi feliz. Parece que mais tarde enviuvou e entrou em um monastério fundado por seu irmão, e no ano 371, devido a certas medidas tomadas pelo imperador Valente para limitar o poder de Basílio, ao dividir a província de Capadócia, este nomeou novos bispos para várias pequenas povoações, e uma delas foi Nissa, onde chamou a seu irmão Gregório para que ocupasse o bispado. Foi grande defensor da fé nicena sobre a Trindade. Seus escritos compreendem obras místicas, apologéticas, sobre a controvérsia trinitaria. Escreveu um tratado Acerca da virgindade. Sua principal obra apologética foi o Termo-catequeticus, o qual se trata de um manual teológico cujos temas principais são a cristologia e a escatologia. Teve certa influência origenista, pois sustentava a concepção antibíblica de Orígenes sobre o inferno no sentido de que é uma espécie de purgatório, e que ao final dos tempos todos os seres, tanto homens como demônios serão salvos, incluído Satanás mesmo. Recorde-se que esta ordem de idéias tem sido divulgado por certos escritores que seguem a linha do italiano Papini. É possível que Gregório haja aceitado esta idéia ao haver interpretado erroneamente as palavras de Paulo que Cristo será tudo em todos. Ao final de seus dias voltou a retirar-se de toda atenção do mundo, a tal ponto que se ignora o lugar de sua morte.

Gregório de Nazianzo ou Nazianzeno (330-389). Um dos três grandes Capadócios; companheiro de estudos e amigo de Basílio. Filho de Gregório, o bispo de Nazianzo, e Nona. Iniciou seus estudos em Cesaréia, e pelo ano 350 estudou na Universidade de Atenas, onde permaneceu uns catorze anos. Igual a Basílio, Gregório também se ocupou em ensinar retórica, antes de se dedicar a levar uma vida monacal em companhia de Basílio. Foi um hábil orador, e isso lhe trouxe como conseqüência haver sido ordenado presbítero à força, antes que Basílio o nomeasse bispo na pequena aldeia de Sasima, no tempo quando o imperador Valente adiantou ações contra Basílio. Nos tempos do imperador Teodósio, de origem espanhola, Gregório chegou a ser, contra a sua vontade, patriarca de Constantinopla, cargo ao qual renunciou para regressar a sua terra natal às tarefas pastorais e compor hinos. Morreu em seu retiro, aos 60 anos de idade. Estando como Patriarca chegou a presidir o Concílio de Constantinopla em 381. Entre suas obras mais destacadas como escritor se contam cinco discursos teológicos contra os arianos que se conhecem como "Cinco discursos teológicos acerca da Trindade", que são considerados a chave na exposição da doutrina trinitária. O livro Philocalia, que é una seleção das obras de Orígenes, compiladas juntamente com Basílio, e têm sido conservadas também umas 242 cartas e poemas.

Ambrósio de Milão (340-397). Natural de Tréveris, filho de um prefeito do pretório das Gálias, educado num ambiente estóico, de acordo com as normas daqueles tempos, chegou a ser um oficial civil e prefeito do Norte da Itália. Para surpresa sua, o povo insistiu que fosse bispo de Milão, na época em que era governador da cidade, quando mesmo nem sequer havia sido batizado, sendo tão somente um catecúmeno ( aspirante a cristão). Havia morrido Auxêncio, o bispo imposto pelos arianos, e a eleição de um novo amenizava para que não houvesse um tumulto, quando ele apareceu para apaziguar o ânimo do povo. Foram dramáticos seus esforços para persuadir a multidão de que ele era indigno desse cargo, e viu a necessidade de empreender um curso de leitura teológica a fim de encher o vazio que não necessariamente buscava. Depois de ser batizado, em apenas uma semana chegou a ser sucessivamente leitor, acólito( sacristão), subdiácono, diácono, presbítero e bispo; isso ocorreu em primeiro de dezembro do ano 373.chegando a ser um dos mais famosos bispos, pregador e administrador. No ano 394, a raiz da sangrenta represália do imperador Teodósio contra Tessalônica, na qual mandou matar umas sete mil pessoas reunidas no circo, celebrando precisamente o perdão imperial, valentemente Ambrósio repreendeu ao imperador por sua crueldade contra os vencidos, impondo-lhes uma penitência; mas depois foi tratado com muita estimação por Teodósio. Foi zeloso da autonomia da Igreja nos assuntos espirituais, mas estava de acordo que a Igreja tinha predomínio sobre o poder civil. Dizia-se que "o imperador está na Igreja, mas não por cima dela".
Segundo as controvérsias dessa época e contrastando com João Crisóstomo, o qual sustentava que o homem valendo-se de seu próprio arbítrio pode voltar-se a Deus, e que ao fazê-lo, Deus apóia a vontade do homem, Ambrósio em contrapartida ia um pouco mais longe, pois cria que a graça de Deus era a encarregada de iniciar a obra de salvação, e que quando o homem é objeto da graça de Deus, o homem coopera por sua própria vontade. Foi autor de muitos livros e hinos cristãos litúrgicos. É de suma importância sua influência na conversão do jovem intelectual Agostinho, quem no curso de uma peregrinação escutava os sermões de Ambrósio, com quem a si mesmo se fez batizar, o que chegara a ser o famoso bispo de Hipona e o mais brilhante dos "gigantes" de sua época. Ambrósio morreu em 4 de abril de 397.







Capítulo III
P É R G A M O
(3a parte)

Jerônimo Sofrônio, Eusébio (340-420). Nascido em Estridon, perto de Aquiléia (noroeste da Itália), de pais cristãos, dos chamados pais latinos, considera-se que foi o mais erudito. Estudou em Roma literatura (grego e latim), retórica e oratória, mas preferiu a vida monástica, próximo ao ascetismo, vivendo, entre outros lugares, por muitos anos em um monastério que estabeleceu em Belém, no entanto, não foi um homem humilde, pois se distinguiu por ser intolerante com seus críticos. Por muito que se esforçava, o temperamento de Jerônimo não estava formado para a vida de ermitão. Quando era jovem, com Rufino de Aquiléia, aos domingos costumava traduzir as inscrições cristãs nas catacumbas. Viajou às Gálias relacionando-se com os monges de Tréveris; Quando voltou permaneceu um tempo com um grupo de ascéticos e aprendeu hebreu, se aperfeiçoou no grego, para logo ir a Antioquía, onde foi ordenado presbítero, e Constantinopla na época do concílio ecumênico do ano 381, onde parece ter estudado com Gregório Nazianzo e Gregório de Nissa.
De volta a Roma chegou a ser secretário do bispo Damaso, quem lhe sugeriu a tradução da Bíblia, tarefa que mais tarde praticou em Belém. Sua obra mais conhecida é a Vulgata Latina, versão da Bíblia dos originais hebreu e grego (sem usar a Septuaginta) no latim popular, que é a mesma Bíblia oficial do sistema católico romano. Para desenvolver este trabalho usou a hexápla de Orígenes, e se negou a incluir os livros apócrifos no cânon, e os traduziu colocando uma nota declarando que não os havia encontrado entre os livros sagrados hebreus, declarando que suas traduções foram feitas só para servir como leitura edificante e informação histórica. A versão da Vulgata não é fiel em numerosas passagens devido ao fato que Jerônimo ignorava muitos dos códices e manuscritos que foram descobertos posteriormente, e traduziu em algumas partes, mudando totalmente o original.
Tomou parte em controvérsias teológicas relacionadas com Vigilâncio, Orígenes, Pelágio, Joviniano, seu antigo amigo Rufino e até com Agostinho de Hipo. Além da Vulgata, Jerônimo escreveu muitas cartas, escritos históricos, obras polêmicas e comentários bíblicos, assim como escritos biográficos, como a Vida de São Paulo o Ermitão. Também escreveu Viris Ilustris (Varões ilustres). Deve se ter em conta que a hagiografia é o estilo de biografia que tenta representar à pessoa como um herói da fé. Morreu em Belém, ali onde havia passado os últimos trinta e quatro anos de sua vida.

João Crisóstomo (345-407), chamado por sua grande eloqüência a boca de ouro. Nasceu em Antioquia de pais fervorosamente cristãos. Sua hábil oratória talvez se deva a que em um princípio se preparava para a carreira de advogado, pois adiantou estudos de filosofia e retórica com o célebre professor pagão Libanius e também com Diodoro de Tarso. Foi batizado ao redor dos vinte e cinco anos, chegando a ser frade, pois antes que bispo foi um monge. Mais tarde, ao ser ordenado, se destacou como um grande pregador ardente e eloqüente, a tal ponto que a pedido do mesmo imperador foi feito bispo de Constantinopla em 398. Na oratória era um gigante por cima dos gigantes. Desde ali enviou missionários às terras dos bárbaros, mas foi desterrado por haver combatido, desde o púlpito da basílica de Santa Sofía, o vício entre o clero e o laicato rico, por seu zelo transformador, fidelidade e independência, que causaram choques com a imperatriz Eudóxia, esposa do imperador Arcádio.
Se destacou também por sustentar o meio mais eficaz de influir na conversão dos demais era dando exemplo de uma autêntica vida cristã. Na oratória expressava oralmente sua própria vida, sendo o púlpito o melhor lugar onde batalhava contra os poderes do mal. "Não havia mais pagãos, se nós fossemos verdadeiros cristãos", costumava dizer.
Dele se conta que empreendeu a destruição dos templos pagãos em Alexandria aos finais do século quarto, pois se conta que suas célebres homilias das "estátuas" foram causa de grandes ações iconoclastas ( aquele que destrói imagens). Nessa cidade também converteu ao Serapeo (grande santuário de Serapis) em templo cristão. Influenciado pelas idéias pelagianas, João Crisóstomo insistia em que os homens podem escolher o bem, e ao fazê-lo, a graça de Deus vem em sua ajuda a fim de fortalecê-lo para fazer a vontade de Deus. Morreu no exílio em 407 o homem que falava palavras de ouro, porque falava o que era de Deus.

Agostinho de Hipo. Nasceu em Tagaste, pequena cidade romana de Numídia (hoje Argélia), África do Norte (354-430), de mãe cristã (Mônica) e pai pagão. Entre os dados biográficos queremos ressaltar que sendo jovem, Agostinho recebeu instrução cristã abaixo da influência de sua devota mãe, sem que chegasse a se batizar, foi dito a ele que pela mencionada crença entre seus contemporâneos de que o batismo lavava os pecados cometidos antes de ser administrado. Pela leitura de Hortensius, de Cícero, o famoso orador da era clássica romana, Agostinho foi atraído pela filosofia e o pensamento helenístico em general, especialmente pelo neoplatonismo e a influência do epicúreo, céptico e eclético, mas na filosofia não encontrou a resposta aos grandes problemas da existência e aos interrogantes da vida.
Fiel a suas idéias lógicas e racionalistas se decidiu então pelo maniqueísmo, movimento que lhe apresentava uma explicação da dicotomia do mal e do bem, do que também se separou, pois tampouco lhe satisfizeram suas inquietudes intelectuais. Exerceu como mestre de retórica em Cartago, Roma e eventualmente em Milão, onde conheceu e foi influenciado por Ambrósio, bispo da cidade.
A princípio se interessou em escutar a Ambrósio só por motivos didáticos, mas pouco a pouco além do estilo e a retórica, Agostinho foi se interessando pelo contido dos sermões. Foi encontrando as respostas que não havia visto na filosofia helenística nem no maniqueísmo, e determinou estudar de novo a Bíblia. Mas Agostinho continuava com a mesma impotência para controlar seus impulsos da carne, que o haviam caracterizado desde sua adolescência, época em que, antes de que completasse os dezoito anos, em Cartago uma concubina lhe deu um filho, a quem chamou Adeodato, que significa, "dado por Deus". Um dia Agostinho se afastou do grupo de seus jovens amigos a um recanto de um agradável jardim, outros dizem que o certo era que estava esperando uma mulher casada, e achando-se em uma luta de consciência, lhe pareceu escutar uma doce voz que lhe dizia: "Toma, lê", vendo frente a si um exemplar da epístola de Paulo aos Romanos, “Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes;
14 mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências.” (Ro. 13:13-14).
Tudo isto foi precipitando sua conversão, e o dia 25 de abril de 387, ele e Adeodato foram batizados por Ambrósio. Uma vez superados os conflitos da carne, Agostinho manifestava que lhe persistia o problema do orgulho, mas regressando a África se aplicou no estudo da Bíblia e chegou a ser um escritor prodígio, deixando uma obra literária de quase cem livros. Foi bispo em Hipo desde o ano 395 até sua morte em 430. Há consenso em que depois de Paulo, foi o cristão de maior, mais profunda e prolongada influência sobre o cristianismo de Europa ocidental, em especial por haver sido um ubérrimo escritor que enriqueceu a Igreja, particularmente no ocidente, com esse grande depósito que havia recebido dos aportes das escolas de Alexandria, Antioquía, e outras, mesmo que padeceu de alguns erros, fruto de sua formação helenística.
Agostinho sustentava que no princípio os anjos e homens foram criados racionais e livres e que antes da queda não existia mal em nenhuma parte da criação, rebelando-se contra o princípio mal dos maniqueístas. Agostinho sustentava que a capacidade para a livre eleição racional é simultaneamente um dom de Deus destinado para o bem do homem, como também seu maior perigo, e o tinha como a qualidade mais elevada do homem. Por seu fundo neoplatônico, sustentava a crença que as criaturas dotadas de livre arbítrio racional (anjos e homens) podem existir sem serem malvados, mesmo só eles podem ser malvados; e que Adão, empregando essa capacidade de livre eleição racional, caiu em pecado e passou o mal a toda a raça humana.
Ensinava a si mesmo que a raiz do pecado humano é o orgulho, o amor próprio, o desejo da criatura de colocar-se no centro, desprezando ao Criador, o querer fazer sua própria vontade em vez da de Deus. E cria, além disso, que depois da queda o homem é totalmente incapaz de levantar-se de sua degradação por seu próprio esforço. O homem se concentra tanto em si mesmo, que é incapaz de escolher a Deus, e que só podemos ser resgatados mediante um segundo nascimento, mediante um novo pacto de Deus. Agora, embaixo do cativeiro do pecado e da morte, a liberdade só pode vir pela graça de Deus, a qual estava em Cristo, plenamente Deus e plenamente homem; o segundo Adão, com o qual Deus começou de novo, mas equiparava os sacramentos com a Palavra, como meios para alcançar a graça, ainda que afirma que a mera participação nos sacramentos não nos faz membros da verdadeira igreja. Mas se inclinou pelo batismo das crianças, dizendo que se em Adão todos temos pecado, as crianças nascem merecedores do inferno e perecem se não são batizados. Tomava Agostinho o ato sexual como transmissor do pecado original, por quanto acarreta concupiscência, que para ele era a essência do pecado original.
Foi tão profunda a influência exercida por Agostinho na Igreja, que se pode dizer que durou cerca de mil anos, tempo em que era obrigada a consulta por todos os estudiosos de teologia. Escreveu sobre teologia cristã englobando diversos temas como a hermenêutica, a exegese, história, filosofia, etc.., e seus escritos foram citados constantemente pelos reformadores para defender a doutrina da graça e a segurança da salvação. Agostinho, citando a São Paulo, afirmava a predestinação, convencido de que todos os homens ao participar do pecado de Adão merecem o juízo, mas Deus pelo puro afeto de sua vontade, e para louvor da glória de sua graça, resolveu predestinar a alguns para salvação, sem ter haver com méritos humanos; que o número dos predestinados é fixo, e todo o que é predestinado se salva. De acordo com Agostinho, a graça é efeito da predestinação, mas não será que a predestinação é produto da graça? Calvino, Lutero e outros reformadores costumavam cita-lo constantemente. Entre os livros mais famosos e lidos deste gênio do cristianismo, relacionamos:
* Confissões, obra autobiográfica, um comovedor e profundo registro das lutas e as peregrinações da alma humana. Nesta obra interpreta seu passado desde a morte de sua mãe Mônica, e onde sem consideração se acusa a si mesmo, e onde usa uma filosofia cheia de controvérsias, sobre tudo contra os maniqueístas.
* De Civitate Dei (A Cidade de Deus), obra escrita no ano 412 e que consta de 22 livros, a maneira de uma interpretação filosófica da história e de todo o drama humano. Provocado Agostinho pelo saqueio de Roma por parte de Alarico e seus godos em 410.
Todavia existia um forte número de pagãos no território imperial, esta obra era uma contestação em seu momento aos que acusavam ao cristianismo como responsável da queda de Roma nas mãos dos bárbaros, e de ser culpáveis de debilitar a antiga força do Império Romano. Que Roma havia caído por haver abraçado ao cristianismo e haver abandonado os antigos deuses que a haviam engrandecido e a enchido de poder.
Na trama do livro, Agostinho contrasta a história paralela de duas cidades, cuja construção se baseia nos princípios opostos. A cidade de Deus, fundada sobre o amor de Deus, e uma oposta, a cidade terrena fundada sobre o amor a si mesmo, e que entre ambas há uma guerra sem quartel. Na história da humanidade aparecem reinos e nações fundados sobre o amor a si mesmo, e que não são senão expressões da cidade do mundo, até que chegue o tempo em que sucumbam, só subsista ao final a cidade de Deus. Isso ocorreu a Roma em sua oportunidade. Na história paralela se aprecia o contraste em Abel e Caim, Jacó e Esaú, Jerusalém e Babilônia, a Igreja e o Império Romano.
Resulta supremamente interessante fazer alguns comentários sobre esta obra. Temos estado analisando neste capítulo esse período matrimonial da Igreja com o Estado, chamado Pérgamo. Os gregos consideravam a história como uma série interminável de ciclos repetitivos, e em contraste, Agostinho, com base escrituraria, sustentava que a história teve seu princípio e terá seu fim. Seus contemporâneos contemplavam a queda de Roma com profunda angústia, pois viam no Império Romano e seu "divino" governante como o sustentador da unidade social. Por contraste, Agostinho visava essa carnificina com esperança, no convencimento de que o domínio secular havia de ser recomeçado por uma melhor ordem das coisas, estabelecido por Deus. Nesta linha de pensamento meditava Agostinho arrancando desde o Gênesis, e via a cidade terrena tipificada por Caim e a celestial por Abel, como o que a Palavra de Deus designa como a luta entre as duas sementes, a da mulher, Cristo, e a da serpente, Satanás. De acordo com Agostinho, a cidade terrena foi construída com base no egoísmo e o orgulho, e a celestial é dominada pelo amor de Deus, o qual desterra todo egoísmo.
Agostinho Considera que a cidade terrena não é mal de todo, por quanto Babilônia e Roma, suas representantes por excelência, mesmo que com governos que cuidando de seus próprios interesses, haviam trazido paz e ordem. Em Quanto à celestial, que neste aspecto se confundem com o reino de Deus, os homens entram nele aqui e agora, pois está representada eventualmente pela Igreja, o Corpo de Cristo, mesmo que Agostinho visava melhor o ponto de vista da organização visível da Igreja em seu tempo, por quanto ele apresentava que a cidade terrena tendia a decair a medida que cresceria a celestial. Seguramente que alguns destes pontos de vista foram em sua oportunidade mal interpretados com conseqüências desastrosas.
* Da Trindade
* Contra acadêmicos.
* De Beata Vita (Da vida feliz).
* Soliloquia ( monólogo).
* Inmortalitate animæ (Da Imortalidade da alma).
* De Genesi (De Gênesis).
* Contra Manichæos (Contra os maniqueístas).
* De libero arbitrio (Do livre arbítrio). Obra na que contradiz aos maniqueístas e sai em defesa do livre arbítrio.
* De vera religione (Da verdadeira religião).
* Obras anti-pelagianas e as anti-donatistas. Durante a época de seu pastorado, Agostinho enfrentou com habilidade aos donatistas como aos pelagianos.
Conforme a época histórica que lhe tocou em graça viver, Agostinho conservou um moderado lugar intermediário entre o bando que se misturou totalmente com o Estado e sua influência pagã, e o outro extremo dos que optaram por retirar-se ao deserto e à vida ascética.
Com Agostinho se inicia una nova orientação doutrinal, tendente à subordinação da Igreja ao poder temporal. De acordo com os propósitos de Deus, o homem necessita reconciliar-se com Ele através da justificação pela obra de Jesus Cristo. Agostinho orienta sua teologia de tal maneira que passa sem transição da idéia paulina de justificação à jurídica da justiça, e isto encerra a idéia de realizar justiça orientada à justificação. Esta orientação filosófica das doutrinas paulinas admitiu que legitimamente a sociedade organizada tinha direito de exigir a obediência do cristão, alegando sua origem divino e por estar regida pela providência. Com base nestas explicações, seus discípulos terminaram por absorver o Estado na Igreja. Mais tarde se veriam os abusos, e sairia a palestra da teoria das duas espadas, a espada do poder temporal e a do poder espiritual, do papa Gelásio (492-96), afirmando a superioridade pontifícia, seguido pelo trânsito as teses do agostinismo político defendido por Gregório Magno (590-604). A nova igreja ia pouco a pouco construindo uma torre mais alta, mas na confusão terrena. A igreja apóstata reclamaria definitivamente o direito de governar tanto na esfera religiosa como na política.

Heresias em Pérgamo

Desde seus primeiros dias, a Igreja havia sido cenário de controvérsias teológicas, como as dos judaizantes, os gnósticos e outras doutrinas semelhantes. Mais tarde, nos tempos de Cipriano, o bispo de Cártago, a questão da restauração dos apóstatas. Depois de promulgado o Edito de Tolerância, se propagaram novas idéias que perturbavam as igrejas cristãs, e se desenvolviam as iniciadas nos períodos anteriores. Ao largo da presente obra fazemos ênfases na influência do neoplatonismo sobre a cristalização das doutrinas cristãs, a qual enfatizava ao espírito as custas do sofrimento carne. Ai temos, por exemplo, o monofisismo, doutrina que menosprezava o elemento humano em Cristo, mas que teve mais aceitação no oriente que no ocidente. Os monofisitas diziam que Cristo só tinha uma só natureza, a divina. Uma das principais heresias desenvolvidas na época foi o arianismo; e disse Eusébio de Cesaréia, em sua obra História Eclesiástica, que ao imperador Constantino lhe interessava um cristianismo unido, pois qualquer cisma ameaçaria a unidade do Império. E impulsionou a convocação a um Concílio em Nicéia (325) para solucionar o problema do arianismo, e esmagar as inerentes diferenças de opinião, e em conseqüência foi aprovado o chamado Credo de Nicéia, que constitui uma confissão de fé cristológica. De acordo com o espírito da época, quem não aceitava as decisões do Concilio, foram desterrados, porque a diferença dos períodos anteriores, nos quais se descobria a verdade mediante o debate teológico e a autoridade da Palavra de Deus, já em tempos da Igreja comprometida com o Estado, era a autoridade imperial e a intriga política a que definia, em última instância, esta classe de controvérsias.

Donato e o donatismo. Como se havia dado no século III com Novaciano com motivo de certas práticas morais vistas como rejeitadas na Igreja e pelo tratamento benigno dado aos que haviam negado a fé em tempos de perseguições. Nos começos do IV surge uma reação cismática depois da perseguição iniciada com Diocleciano, e que toma seu nome de Donato de Casa Negra, nativo em Numídia (norte de África) e pastor em Cártago em 305, mas que esteve encarcerado por seis anos durante essa perseguição. Registram-se outras causas de origem político, social e econômico na região da África proconsular e Numídia para que acontecesse o cisma donatista, mas para nosso propósito no presente trabalho só citaremos o seguinte. Em Cártago simultaneamente foram consagrados dois bispos, mas os seguidores de Donato não reconheciam a Ceciliano por haver sido consagrado por três bispos indignos, pois haviam chegado a entregar as Escrituras às autoridades imperiais para sua destruição nos tempos de perseguição. O bispado de Donato foi considerado ilegítimo por usurpador por Constantino e pelos bispos das cidades importantes, entre eles o de Roma.
Por outro lado, entre os que não estiveram de acordo com o giro dado pela Igreja a raiz da política e do Império que a manipulava, uns optaram por ir como ermitãos ao deserto, mas outros como os donatistas, insistiam na pureza da Igreja, proclamando sua separação do Estado. Ao não dar-se a essa separação, se protocolizou o cisma, e chegou o momento em que chegaram os donatistas a ter uns 276 bispos. Levemos em conta que os primeiros donatistas não se opunham necessariamente ao Império em quanto império, senão em quanto "mundo", e não vieram a desaparecer completamente, pelo menos até o século VII, pelo avanço do islamismo no norte da África.
Agostinho de Hipona teve sérios enfrentamentos com os donatistas, pois estes enfatizavam muito a santidade e a necessidade de que o sacerdote fosse uma pessoa santa, insistindo que um sacerdote indigno não pode celebrar o sacramento, pois não pode dar o que não tem. Frente a isso, Agostinho sustentava que a eficácia do sacramento não depende da condição moral de quem o administra, senão do dom de Deus. O ministro não dá de si mesmo, senão o de Deus. Claro que o ministro de Cristo deve refletir a Cristo.

Ário e o arianismo. Ário, um presbítero da igreja de Alexandria, e que anteriormente havia vindo das desenvolvidas igrejas do Norte da África. Ao redor do ano 318, foi o iniciador da heresia que leva seu nome ao pregar que Cristo, ainda que superior à natureza humana, havia sido criado, negando, pois, sua eternidade, sua igualdade e unidade com o Pai e o Espírito Santo, tal como o haviam ensinado os apóstolos, e em particular João. Esta controvérsia se estendeu por todas as igrejas. No começo Ário gozou do respaldo da parte de influentes teólogos e dirigentes da Igreja, mas alguns, depois de profundos estudos, e de que o Concílio de Nicéia, em Bitínia, em 325, aprovara a doutrina reta de conformidade com o Novo Testamento, se decidiram pela ortodoxia; entre eles se conta a Eusébio de Cesaréia, historiador eclesiástico, em cujos escritos deixou consignada parte destas datas. Outros foram Ósio, o bispo de Córdoba e Eusébio de Nicomédia, antigo companheiro de Ário.
As raízes do arianismo se remontam à época em que mestres da estatura de Justino Mártir, Clemente de Alexandria, Orígenes e Tertuliano apelavam a pequenos postulados da filosofia grega para explicar a existência de Deus, e mostrar a compatibilidade da fé e a filosofia, e de passo despersonificando a Deus, pois um Deus imutável, impassível e estático -segundo a filosofia grega- não podia ser pessoal; originando a si conflitos em quanto ao enfoque da doutrina do Logos o Verbo de Deus, que já aparecia personificado, pois se podia falar. Daqui que o ponto crucial da controvérsia com o arianismo era, o Verbo é coeterno com o Pai ou não? Então estava em jogo a divindade do Verbo. Ário sustentava que o Verbo, ainda antes da criação, havia sido criado por Deus, contrário às Escrituras que afirmam que o Verbo é coeterno e da mesma sustância divina do Pai, sendo um com o Pai e o Espírito Santo, pois o Verbo é Jesus Cristo, e Jesus Cristo é Deus. O arianismo se encaminhava a opor-se ao conceito de um Deus Trino. Ário havia sido desautorizado inicialmente por um sínodo de cem bispos convocados por Alexandre, bispo de Alexandria, seu primeiro oponente; e devido a sua persistência e ante um problema de profundas raízes e sérias controvérsias, intervindo o imperador Constantino e o concilio de uns 318 bispos reunidos em Nicéia, sendo assim condenado o arianismo e Ário foi desterrado pelo imperador. Mas tarde foi perdoado graças a Eusébio de Nicomédia, e morreu quando se dispôs a entrar em Constantinopla. De seus escritos não restou senão duas cartas dirigidas a Eusébio de Nicomédia e a Alexandre de Alexandria, como também fragmentos de sua popular obra Talia.
O principal opositor do arianismo foi Atanásio de Alexandria, quem com sua eloqüência e conhecimento teológico afirmava e defendia a unidade do Pai com o Filho, a deidade de Cristo e sua existência eterna, Gerado e não criado, e da mesma natureza, sustância, do Pai. Nos tempos do Concilio de Nicéia Atanásio era só um diácono, e tinha voz, mas não voto; e apesar desse inconveniente logrou que o Concílio, mediante a promulgação do credo niceno condenasse os ensinamentos de Ário. Mas Ário gozava de muito poder e influência política entre as classes mais elevadas, quem o respaldava incluso Constâncio, o filho e sucessor de Constantino. Os arianos convocavam sínodos, se fortaleciam e voltavam os ortodoxos a condenar o arianismo, de tal modo que cinco vezes foi Atanásio enviado ao desterro. Alguma vez um amigo lhe disse: Atanásio, tens a todo o mundo contra você; ele lhe contestou: "Athanasius contra mundum" (Pois, Atanásio contra o mundo). O imperador Teodosio publicou um edito no ano 380 em favor da fé ortodoxa e perseguiu aos arianos, decaindo assim esta heresia no Império. Nos tempos modernos o arianismo tem feito aparição nos chamados "Testemunhas de Jeová".

Apolinário e o apolinarismo. Apolinário (310-390) bispo de Laodicéia, estimulou a controvérsia sobre a natureza de Cristo, afirmando que Cristo não podia ter duas naturezas, a divina e a humana, completas e contrárias, pois a divina era eterna, invariável, perfeita, e pelo contrário, a humana era temporal, finita, imperfeita e corruptível. Afirmava que o homem está formado de alma, corpo e razão; sustentava que se Cristo houvesse tido as duas naturezas, se houvesse tido em si dois seres, com a parte humana poderia ter praticado algum pecado. Curiosamente, Jesus tinha corpo e alma humanas, mas se diferenciava do resto dos seres humanos em que o Logos divino substituiu ao intelecto humano, resolvendo dessa maneira a relação entre o divino e o humano em Jesus.
Apolinário estava convencido de haver resolvido um dos mistérios ou enigmas mais irresolúveis, e de haver permanecido fiel à ortodoxia nicena. Apolinário pertencia à escola de Alexandria, a qual havia recebido mais a influência neoplatônica, a diferença da escola de Antioquía, que se inclinava mais ao estudo da história da vida de Cristo, e era afetada pelo pensamento aristotélico. O apolinarismo foi condenado no Concílio de Constantinopla (381), e um dos principais argumentos contra Apolinário foi que Cristo não havia podido redimir àquilo que ele mesmo não possuía, como a mente humana, cabe dizer, se não houvesse sido, além de Deus, verdadeiro homem. Os capadócios se apresentaram em oposição a Apolinário. Gregório Nazianzeno sustentava que para que Cristo pudesse salvar todos os homens, era necessário que tivesse todos os elementos da natureza humana.

Pelágio e o pelagianismo. Pelágio, monge oriundo da Britânia chegou a Roma no ano 410, sustentava que o homem não herda suas tendências pecaminosas de Adão, negando que a depravação fosse inata no homem, senão que cada um escolhe já seja o pecado ou a justiça, acrescentando que cada vontade humana é livre para escolher entre a virtude e o vicio e que Deus deu ao homem a capacidade de obedecer a seus mandamentos; afirmando a si mesmo que o coração humano não se inclina nem ao bem nem ao mal, e cada qual é responsável de suas decisões, e chegou até ao extremo de afirmar que alguns antes de Cristo haviam sido isentos de pecado, por usar seu livre arbítrio.
Pelágio era um laico de certa erudição, vida austera e não isenta de ascetismo, e aparentemente escandalizado pela moral dissoluta do meio social romano, os tratava de persuadir, dizendo-lhes que se eles realmente quiserem, podiam guardar os mandamentos de Deus. Entre os que ganhou estava o jovem advogado Celestio, que foi mais longe que seu mestre na expressão de seus desatinos.
De acordo com a doutrina pelagiana, a queda de Adão não afetou ao gênero humano. Então o efeito venenoso de Pelágio vai dirigido a desprestigiar a obra de Jesus Cristo, ao afirmar que a finalidade da encarnação do Senhor Jesus Cristo não foi senão ajudar aos homens com seu exemplo e ensinamentos a ser bons e a salvar-se, descartando a redenção por meio de Seu sacrifício na cruz. A si mesmo Pelágio aplicou a idéia de que é necessário batizar-se para a salvação, acrescentando outra heresia anti-bíblica como as demais, de que as crianças que morrem sem se batizar não gozam do mesmo grado de glória que aqueles que têm sido batizados, desconhecendo o propósito e o significado do batismo, e a verdade bíblica de que o reino dos céus é das crianças, mas por contraste os pelagianos negavam "o pecado original". Estas séries de heresias do pelagianismo foram tomando força na cristandade, tanto no sistema católico romano como fora dele, como nas escolas de teologia modernista.
Há de se levar em conta que no ano 416, vários sínodos reunidos em Cártago, Mileve (Numídia) e Roma tomaram ação contra esta heresia, mas Zósimo, bispo de Roma (se encontra na lista dos chamados papas) tomou partido a favor de Pelágio e Celestio, e tomou a determinação de condena-los só quando o imperador Honório os desterrou (418). Grande oponente desta corrente doutrinal de Pelágio e seu associado Celestio, foi Agostinho de Hipona, o homem que influiu mais no cristianismo depois do apóstolo Paulo, quem apoiou o ponto de vista bíblico de que Adão representava a toda a raça humana, em cujo pecado se viu involucrada toda a humanidade, e em conseqüência todo gênero humano é considerado culpável. Agostinho compartilhava a si mesmo a asseveração bíblica de que o homem por sua própria eleição não pode eleger a salvação, senão que estava dependente da vontade de Deus, que nos há escolhido desde antes da fundação do mundo para sermos salvos. Em 418, o Concílio de Cártago condenou as idéias pelagianas. A ortodoxia teológica de Agostinho veio a ser normativa na Igreja, e não foi senão até ao redor do ano 1600, em que com Armínio na Holanda, e mais tarde com John Wesley, surgiu outra escola de pensamento em relação com a salvação, afastada da doutrina agostiniana.
Tenha-se em conta que depois da morte de Agostinho, a teologia tomou rumo por uma linha considerada como semi-pelagianismo, que teve como resultado que na idade média se seguira mantendo a ênfase na graça de Deus, mas mesclada com o livre arbítrio e a necessidade do homem de cooperar com a graça. E isso se deve em parte ao ponto de vista agostino acerca da liberdade da vontade humana e sua implícita responsabilidade ante a salvação, o qual levou a certos mal entendidos a respeito da predestinação.

Nestório e o nestorianismo (morreu em 451). Filho de pais Persas. Presbítero e frade de Antioquía, que em 428 foi chamado desde seu monastério pelo imperador do Oriente Teodosio II a ser bispo de Constantinopla. Atacou os resíduos dos arianos e nas disputas ao redor da cristologia e em particular da encarnação, criado no meio teológico de Antioquía, se opôs a que a virgem Maria fosse chamada mãe de Deus (Theotokos), preferindo a de mãe de Cristo (Christotokos), dizendo que Maria havia sido só mãe do corpo de Jesus. Se lhe opôs Cirilo, bispo de Alexandria, acusando-o de rebaixar o conceito da divindade do Senhor. A controvérsia circulou no princípio por meio de cartas, logo levado o caso ante o bispo de Roma, foi condenado em assembléia em Roma e Alexandria em 430, e por último no Concílio de Éfeso em 431. E exilou por ordem do imperador a seu convento de Antioquía e mais tarde o grande Oásis do deserto do Egito, onde morreu, derrotado, enfraquecido, depois de sofrer a mingua grande angústia física e mental. Esta controvérsia cristológica foi definida no concílio de Calcedônia.
Nestório se opôs à idéia de que o Logos divino pudesse ser envolto em sofrimento e debilidade humana, pois o erro cristológico do nestorianismo consistia em que eles sustentavam que Jesus não havia sido só um homem, que o divino e o humano em Cristo realmente formavam Nele dois seres ou pessoas distintas; ensinando que quem foi concebido e nasceu de Maria foi só um homem, ao qual se uniu voluntariamente outro ser, o Logos de Deus, de tal maneira que Nestório ensinava que Cristo, o Logos era uma pessoa, a divina, e Jesus outra pessoa, a humana, contrariamente à opinião da maioria, que sustentavam que havia em Cristo duas naturezas coexistentes, a divina em quanto Verbo de Deus e a humana por quanto se fez carne, assumindo a natureza humana desde o ventre de Maria, em uma só pessoa (prosopon) e uma substância (hypostasis).
A Palavra de Deus declara com clareza que Jesus é o Cristo, uma mesma pessoa.
" quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho. " (1 Jo. 2:22). Nestório ensinava que sobre o homem Jesus descendeu o Logos; mas a Palavra de Deus afirma que "o Logos se fez carne", e que foi "feito semelhante aos homens", como diz Filipenses 2:7. A Bíblia não diz que Cristo descendeu sobre uma carne, senão que se fez carne Ele mesmo.

O maná escondido

" Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe. " (v.17).
O que está dizendo o Espírito às igrejas que quer que se ouça? Ele quer que sua Igreja se arrependa e se levante de sua queda. Nesta terra tem seu trono Satanás, o príncipe deste mundo; e o Senhor quer que Sua Igreja, em vez de morar nesta terra, se aparte do mundo, se desligue dos poderes políticos. Mas como a Igreja foi infiel, se casando com o mundo, e não quis dar o passo de voltar às fontes primordiais, então o Senhor se dirige aos crentes individuais a que sejam vencedores; que vençam e se oponham aos enredos satânicos, com seu ensinamento de idolatria e fornicação; que sejam vencedores sobre os que praticam a doutrina de Balaão, guiando aos filhos de Deus à contemporização com o mundo e usando os meios eclesiásticos para “crescer” em proveito próprio; que vençam sobre os que têm rompido a igualdade na Igreja e têm dividido os filhos de Deus em clérigos e laicos com seus ensinamentos da hierarquia; que vençam voltando a Jesus Cristo, o filho de Deus, e o conheçam e lhe obedeçam e tenham plena comunhão no Corpo com o Pai, com o filho e com o Espírito Santo.
Na carta à igreja em Pérgamo estão registradas duas promessas para os vencedores. Uma dessas promessas é a do maná escondido que lhes dará o mesmo Senhor. O que é o maná escondido? O maná que os israelitas comeram no deserto era um pão visível e gratuito que o Senhor lhes dava do alto, o qual era um protótipo de Cristo, o verdadeiro pão que desceu do céu. Diz João 6:49-51: " 49 Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram.50 Este é o pão que desce do céu, para que todo o que dele comer não pereça.51 Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne. ".
E na tipologia do maná veterotestamentario, além disso do maná visível que o povo comia no deserto, houve um maná escondido e que permaneceu em uma vasilha de ouro dentro da arca, no Lugar Santíssimo do templo de Jerusalém, a onde só tinham acesso os da família sacerdotal (Êxodo 16:32-34; Hebreus 9:4). Se no deserto os israelitas recolhiam mais de um gômer por pessoa diário com o fim de guardar, o que guardavam apodrecia, caía vermes e fedia; em contrapartida a porção que haviam guardado em uma vasilha dentro da Arca do Testemunho, essa não apodrecia, era incorruptível, de maneira que esse maná escondido é símbolo de Cristo. Na Igreja todos os crentes têm recebido a salvação e se alimentam de Cristo, mas somente os vencedores da degradação da igreja mundana tenham o privilégio de participar na comida desta parte escondida do Senhor Jesus, não conhecida por todos. Uns buscam o mundo, mas os vencedores não se contaminam com as ofertas mundanas e buscam se alimentar de Cristo, a presença do Senhor no Lugar Santíssimo, uma profunda intimidade com Ele.
A outra promessa para os vencedores da igreja em Pérgamo e para todos os que queiram ouvir e vencer, é uma pedrinha branca com um nome escrito, que ninguém conhece, senão a pessoa que o recebe. Agora somos vasos de barro usados por Deus, pois de barro foi feito o homem no Édem, mas na regeneração temos recebido a natureza divina; de barro temos sido convertidos em pedras, é como dizer, em material para a edificação da casa de Deus; e de pedras podemos ser transformados em diamantes (pedras brancas), com um nome novo porque isso designa que já somos pessoas transformadas, novas. Se comemos do maná escondido, somos transformados em pedras brancas. Também se deve ter em conta que nos tempos em que foi escrita esta carta, nas votações, como se usa papel, eles usavam uma pedrinha branca na qual se escrevia o nome do candidato a eleger. Significará isto que o Senhor escolhe o vencedor para algo em especial, significando que ele que está satisfeito com o vencedor?
Além disto, Apocalipse 19:12b-13 diz: " tem um nome escrito que ninguém conhece, senão ele mesmo.13 Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome se chama o Verbo de Deus; ". Não é fácil sair vitorioso de um meio tão contaminado, onde a maioria dos crentes tem por verdadeiro e bíblico o participar e comer das coisas sacrificadas aos ídolos, ou comercializar as coisas sagradas e pregar por lucro humano, mesmo a custo de induzir ao povo de Deus a pecar. Se te opões a tudo isso, te expões a que te recusem e te excomunguem por herege. Mas a edificação é de Deus, e Ele te converte em uma pedra branca desse edifício quando tu desfrutas de Cristo como tua provisão de vida.

Transição entre Pérgamo e Tiatira.

Há quem defende a opinião de que aqui também Deus converteu este mal em bem, desde o ponto de vista de que a autoridade e o poder imperial serviram para que por meio de autoritários concílios ecumênicos se protegera à Igreja contra a desintegração pelas divisões, pela desobediência de muitos bispos, pela ameaça de muitas heresias e a aparição de ensinamentos errados; mas muitas foram as conseqüências desde que a Igreja aceitou morar na terra e se unir com o mundo. Se foi mesclando o paganismo com o cristianismo. Tudo se foi preparando para a formação do cesaropapismo. Eusébio de Cesaréia descreve com alegria e ar triunfalista a construção de luxuosos templos. Mas, Quais foram os resultados? Evoluiu a liturgia nessas grandes construções, se consolidou uma aristocracia clerical, à altura da imperial e com muitos de seus costumes e sua estruturação social.
Como em seu tempo vieram à Constantino o cumprimento da história e do plano de Deus, se deixou de pregar o advento do Reino de Deus e começou a se divulgar uma crença que têm sobrevivido até nossos dias sobre tudo no sistema católico romano e semelhantes, de que o que espera o crente é o de ser transferido em espírito ao reino celestial, e na Igreja se começou a dar ouvidos a esperança do retorno do Senhor para estabelecer nesta terra um Reino de paz e justiça. Esse foi o ponto de vista oficial, e quem regressara ao verdadeiro ponto de vista neotestamentario era condenado por herege.
A estrutura social e política que a Igreja imitou do Império ia sendo encaminhada à exigência de um chefe visível. O império era governado por uma autocracia com poderes absolutos. Temos explicado que é a vontade do Senhor que cada igreja local seja supervisada por um grupo de bispos; mais tarde, já a começos do século segundo, emergiu a supremacia de certos bispos regionais com autoridade por cima dos outros a quem seguiam chamando presbíteros. A si mesmo se foram introduzindo bispos de certa categoria em determinadas cidades a quem chamaram metropolitanos e mais tarde patriarcas, como os de Roma, Jerusalém, Antioquía, Alexandria e Constantinopla, entre os quais se suscitavam às duras disputas pelos assuntos da supremacia; até que ao final se a disputavam os patriarcas das duas capitais imperiais, Roma e Constantinopla, pelas razões expostas. O bispo de Roma tomou o título de pai, papá, e por último papa, do grego papas, e reclamava para si autoridade apostólica. Sirício foi o primeiro bispo de Roma que tomou para si o título de papa no século quarto. Mas não foi senão até o século VII no que definitivamente este título se converteu em propriedade dos bispos de Roma. Indubitavelmente que a igreja de Roma havia exercido grande influência como uma coluna nos ensinamentos doutrinários ortodoxo, havia sido pouco contaminada com escolas e idéias heréticas, e tinha em seu haver o estar na sede do principal centro do governo imperial. É assim como o bispo romano, o papa, paulatinamente foi sendo considerado como a autoridade suprema da igreja em geral.
Devido ao vasto território imperial, à ambição política de muitos militares, às guerras intestinas ( entre partidos do mesmo povo), aos numerosos crimes políticos, à descomposição dos costumes, ao lazer e progresso material e muitas outras causas. O Império foi se debilitando, as tribos bárbaras foram fazendo incursões e tomando possessão de muita parte de seu território, de tal modo que nas últimas o Império Romano Ocidental ficou reduzido a um pequeno território ao redor da capital. Foi então quando o rei germânico Odoacro e sua pequena tribo dos hérulos, tomou posse da cidade no ano 476, destronando a Rômulo Augusto, o menino imperador, apelidado Augusto o Pequeno. Em 477 Odoacro obteve de Zenon, imperador do Oriente, o título de patrício, que equivalia ao de rei da Itália, desaparecendo assim o Império Romano ocidental, pois o oriental, cuja capital era Constantinopla, permaneceu até o ano 1453, fecha próximo ao descobrimento de América. Inversamente proporcional ao debilitamento e queda do Império Romano, ia aumentando a influência e poder da igreja de Roma e seus papas em todo o território europeu, o que na prática se traduz como a continuação das mesmas estruturas e poderes imperiais, debaixo de outra roupagem.




APÊNDICE DO CAPÍTULO III - PÉRGAMO

EDITOS IMPERIAIS
RESPEITO DA SORTE DA IGREJA
EDITO DE MILÃO (EDITO DE TOLERÂNCIA)
(A maneira de carta ao governador da Nicomédia, ano 313)

"Eu, Constantino Augusto, e eu também, Lúcio Augusto, reunidos felizmente em Milão para tratar de todos os problemas que afetam a segurança e o bem estar público, temos crido que nosso dever é tratar junto com os restantes assuntos que, vejamos mereciam nossa primeira atenção para o bem da maioria, tratar, repetimos, daqueles que nos enraíza o respeito da divindade, a fim de conceder tanto aos cristãos como a todos os demais, a escolha de seguir livremente a religião que cada qual queira, de tal modo que toda classe de divindade que habite a morada celeste nos seja propícia a nós e a todos os que estão abaixo de nossa autoridade. Assim pois, temos tomado esta saudável e retíssima determinação de que nada lhe seja negada à facultatividade de seguir livremente a religião que têm escolhido para seu espírito, seja a cristã ou qualquer outra que creia mais conveniente, a fim de que a suprema divindade, a cuja religião rendemos esta livre homenagem, nos preste seus acostumados favores e benevolência. Pelo qual é conveniente que tua excelência saiba que temos decidido anular completamente as disposições que te têm sido enviadas anteriormente a respeito ao nome dos cristãos, já que nos pareciam hostis e pouco próprias de nossa clemência, e permitir de agora em diante a todos os que queiram observar a religião cristã, fazê-lo livremente sem que isto lhes imponha nenhuma classe de inquietude e moléstia.
Assim pois, temos crido que é nosso dever dar a conhecer claramente estas decisões a tua solicitude para que saibas que temos outorgado aos cristãos plena e livre facultatividade de praticar sua religião. E ao mesmo tempo que lhes temos concedido isto, tua excelência entenderá que também aos outros cidadãos lhes há sido concedida a facultatividade de observar livre e abertamente a religião que hajam escolhido, como é próprio da paz de nossa época. Nos têm impulsionado a manifestar assim o desejo de não aparecer como responsáveis de minguar, em nada, nenhuma classe de culto nem de religião. E, além disso, pelo que se refere aos cristãos, temos decidido que lhes sejam devolvidos os locais onde antes costumavam se reunir e acerca do qual te foram, anteriormente enviadas instruções concretas, já sejam propriedade de nosso fisco ou hajam sido comprados por particulares, e que os cristãos não tenham que pagar por eles nenhum dinheiro de nenhuma classe de indenização. Os que receberam estes locais como doação devem devolvê-los também imediatamente aos cristãos e, se os que têm comprado ou os que receberam como doação reclamam alguma indenização de nossa benevolência, que se dirijam ao vigário para que em nome de nossa clemência decida acerca dele.
Todos estes locais devem ser entregados por intermédio teus e imediatamente sem nenhuma classe de demora à comunidade cristã. E como consta que os cristãos possuam não somente os locais onde se reuniam habitualmente, senão também outros pertencentes a sua comunidade, e não possessão de simples particulares, ordenamos que como fica dito acima, sem nenhuma classe de equívoco nem de oposição, lhes sejam devolvidos a sua comunidade e a suas igrejas, mantendo-se vigente também para estes casos o exposto mais acima, de que os que fizerem esta restituição gratuitamente possam esperar uma indenização de nossa benevolência.
Em todo o dito anteriormente deverás prestar o apoio mais eficaz à comunidade dos cristãos, para que nossas ordens sejam cumpridas o mais rápido possível e para que também nisto nossa clemência vele pela tranqüilidade pública. Deste modo, como já temos dito antes, o favor divino que em tantas e tão importantes ocasiões nos têm estado presente, continuará a nosso lado constantemente, para êxito de nossas empresas e para prosperidade do bem público.
E para que o contido de nossa generosa lei possa chegar ao conhecimento de todos, convenha que tu a promulgues e a exponha por todas as partes para que todos a conheçam e nada possa ignorar as decisões de nossa benevolência." A esta carta, que foi exposta para conhecimento de todos, acrescentou de palavras vivas recomendações para restabelecer em seu estado primitivo os lugares de reunião. E deste modo desde a ruína da Igreja a seu restabelecimento transcorreram dez anos e ao redor de quatro meses.
LACTANCIO: De mortibus persecutorum (c. 318-321)

EDITO DE TESSALÔNICA
(Teodósio, ano 380)

Queremos que todas as gentes que estão subordinadas a nossa clemência sigam a religião que o divino apóstolo Pedro pregou aos romanos e que, perpetuada até nossos dias, é o mais fiel testemunho das pregações do apóstolo, religião que seguem também o papa Damáso e Pedro, bispo de Alexandria, varão de notável santidade, de tal modo que segundo os ensinamentos dos apóstolos e as contidas no Evangelho, cremos na Trindade do Pai, Filho e Espírito Santo, um só Deus e três pessoas com um mesmo poder e majestade.
Ordenamos que de acordo com esta lei todas as gentes abracem o nome de cristãos e católicos, declarando que os dementes e insensatos que sustentam a heresia e cujas reuniões não recebem o nome de igrejas, têm de ser castigados primeiro pela justiça divina e depois pela pena que leva inerente o não cumprimento de nosso mandato, mandato que provém da vontade de Deus.
CODEX THEODOSIANUS, XVI, 1-2. Edição Th. Momsen. Berlín, 1905

DECRETOS DE TEODÓSIO
(Imperador entre 379-395)

Que nada dedique a menor atenção aos maniqueístas nem aos donatistas, que segundo nossas notícias não cedem em sua loucura. Que haja um só culto católico e um só caminho de salvação e que se adore somente a sagrada Trindade uma e indivisível. E se alguém se atreve a se mesclar com estes grupos proibidos e ilícitos e não respeitar as ordens das inumeráveis e anteriores disposições, e da lei que faz pouco promulgou nossa benevolência, e se reunir com estes grupos rebeldes, não há duvida que têm de ser rapidamente extraídos os dolorosos aguilhões que promovem esta rebelião.
CODEX THEODOSIANUS, XVI, 5 (ano 405)

Ordenamos que o edito que nossa clemência dirigiu às províncias africanas acerca da unidade, seja proclamado por todas as restantes para que todos saibam que se há de manter a única e verdadeira fé católica do Deus onipotente no que a reta fé popular crê.
CODEX THEODOSIANUS, XVI, 11 (ano 405)

Ordenamos que os donatistas e hereges, aos que nossa paciência têm tolerado até agora, sejam castigados severamente pelas autoridades competentes até o ponto de que as leis os reconheçam pessoas sem facultatividade de declarar ante aos tribunais nem negociar transações nem contratos de nenhuma classe, senão que, como a pessoas marcadas com uma eterna desonra, se lhes afastará da sociedade das pessoas decentes e da comunidade de cidadãos. Ordenamos que os lugares em que esta terrível superstição se há mantido até agora, voltem ao seio da venerável Igreja católica e que seus bispos, presbíteros e toda classe de clérigos e ministros sejam privados de todas suas prerrogativas e sejam conduzidos exilados cada um a uma ilha ou província distinta. E se algum destes fugir para escapar deste castigo e alguém o ocultar, saiba a pessoa que o oculta que seu patrimônio passará ao fisco e que ele sofrerá o castigo imposto àqueles. Vamos impor também multas e perda de patrimônios a homens, mulheres, pessoas particulares e dignidades, a cada qual a multa que lhe pertencer segundo sua categoria.
Todo que pertença a ordem procônsular, ou seja, substituto do prefeito do pretório ou pertença à dignidade de centurião da primeira corte, se não se converter à religião católica se verá obrigado a pagar 200 libras de prata que passarão a engrossar os fundos de nosso fisco. E para que não se pense que só com isto uma pessoa pode ver-se livre de toda acusação, ordenamos que pague esta mesma multa todas as vezes que se demonstre e confesse haver voltado a ter tratos e simpatizar com tal comunidade religiosa. E se uma mesma pessoa chegar a ser acusada cinco vezes e as multas não forem suficientes para afastá-la do erro, então se apresentará ante o nosso tribunal para ser julgada com maior rigor; se lhe confiscará a totalidade de seus bens e se verá privada de seu estado jurídico. Nestas mesmas condições fazemos incorrer em responsabilidade aos restantes magistrados, a saber: se um senador, que não esteja protegido externamente por alguma prerrogativa especial de dignidade, é achado na seita dos donatistas, pagará como multa 100 libras de prata, os sacerdotes de províncias se verão obrigados a pagar esta mesma soma, os dez primeiros decuriões*(1) de um município abonarão cinqüenta libras de prata e os restantes dos decuriões dez libras de prata. Estas serão as multas para todos aqueles que preferiram continuar no erro.
Os arrendatários de imóveis do Estado, se tolerarem nelas o uso e manejo de coisas ou cerimônias sagradas, se verão obrigados a pagar de multa a quantidade que vêm pagando pelo aluguel do imóvel. Também os enfiteutas*(2) estarão submetidos ao cumprimento desta lei religiosa. Se os arrendatários de pessoas particulares permitirem reuniões nos imóveis ou tolerarem a profanação de cerimônias religiosas, se informará a seus donos destes feitos através dos juizes e os donos poderão, no máximo interesse, se querem ver-se livres do castigo desta ordem em que se emendem, e em caso contrário, se perseveraram no erro, os despedirão e porão na frente de seus Imóveis, administradores que velem pelos sagrados preceitos. E se não se preocupam disto serão multados também na quantidade que vêm recebendo como arrendamento dos Imóveis, de tal modo que o que podia engrossar suas ganâncias passará a aumentar os fundos do sagrado erário público.
Os servidores de juizes vacilantes na fé, se forem achados neste erro pagarão de multa trinta libras de prata e se, multados por cinco vezes, não quiseram apartar-se deste erro, depois de serem açoitados serão feitos escravos e mandados ao exílio. Aos escravos e colonos um severo castigo os afastará de tais atos de audácia. Mas se depois de castigados com açoites persistirem em seu propósito, terão que pagar como multa a terceira parte de seu pecúlio. E todo o que se possa reunir das multas desta classe de homens e destes lugares, passará em seguida a engrossar os fundos para a distribuição de donativos com destino religioso.
CODEX THEODOSIANUS, XV, 5,5 (ano 425)
*(1) Os decuriões aqui eram os que governavam nas colônias ou municípios romanos, a modo dos senadores de Roma.
*(2) Enfiteutas eram as pessoas a quem se lhes cediam mediante contrato o domínio útil de um terreno, rústico ou urbano, mediante o pagamento de um cânon.













Capítulo IV
T I A T I R A
(1a. parte)

SINOPSE DE TIATIRA


Fundamentos da grande prostituta

a torre alta babilônica e o catolicismo romano - Jezabel, um tipo da grande prostituta neotestamentaria - Exponentes dos vencedores de Tiatira: Madame Guyón, Fénelon, João Tauler, Luis de Molina - O fermento da mulher dominante - A idolátrica Babilônia a grande.

Consolidação do catolicismo romano

O cesaropapismo - As fraudes píos e a feudalização do papado e do alto clero romano - Hildebrando e o zênite do papado - Paradoxos do papado romano - A inquisição - O Índice - Os Jesuítas.

Grandes figuras do escolasticismo medieval

Anselmo - Pedro Abelardo - Hugo de San Víctor - Pedro Lombardo - Boaventura - Alberto Magno - Tomás de Aquino - João Duns Escoto - Guillerme de Occam.

Comercio de almas de homens da grande prostituta

As indulgências e os castigos temporais no "purgatório" - A tesouraria da igreja - O juízo da grande prostituta - As profundezas de Satanás.

Os pré-reformadores

Francisco de Assis - Pedro de Bruys - Henrique de Lausana - Arnaldo de Brescia - Os Valdenses - João Wicliffe - João Huss - Jerônimo Savonarola.

Os vencedores de Tiatira

Quarta recompensa: O Senhor lhes dará autoridade sobre as nações durante o reino milenar e governarão com Cristo. Tem alguma relação com os vencedores que estão tipificados no filho varão de Apocalipse 12.

A CARTA À TIATIRA.

"18 Ao anjo da igreja em Tiatira escreve: Estas coisas diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido:19 Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras. 20 Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos. 21 Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição. 22 Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita. 23 Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as vossas obras. 24 Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; 25 tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha. 26 Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações, 27 e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro;
28 assim como também eu recebi de meu Pai, dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã.
29 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.” (Ap. 2:18-29).

Torre alta

A quarta das cartas de Apocalipse é enviada à igreja na localidade de Tiatira, a qual relacionamos com o período profético que se inicia no alvorecer da Idade Média, cujo ponto de partida se associa com a queda de Roma no ano 476; mas de acordo com o contexto da carta, este período continuará existindo simultaneamente com os últimos três, até o tempo do retorno do Senhor, e prefigura à Igreja Católica Romana. Nos períodos anteriores, aos de Esmirna e Pérgamo, não existia o sistema católico romano. A Igreja de Jesus Cristo era católica no sentido de universal, mas esse catolicismo da Igreja não tinha nenhuma relação com o romano. A cidade de Tiatira foi fundada por Seleuco I Nicátor (355-280), um dos quatro generais e sucessores de Alexandre Magno, os que posteriormente e à morte do macedônio dividiram o grande império grego. Nesse mesmo lugar atualmente está localizada a cidade turca de Akhisar.
Tiatira era uma cidade localizada também na Ásia Menor, conhecida e famosa por ser um centro de numerosos grêmios de artesãos, com a particularidade de que cada grêmio tinha seus deuses protetores, aos quais lhes celebravam festas em determinadas datas, mediante libações ou comidas de rituais, e de acordo com os costumes pagãs, os ofertantes consumiam a carne oferecida em sacrifício a esses deuses. A palavra Tiatira em grego significa torre alta, torre fortificada, o que nos diz que depois que a Igreja se casou com o mundo e o poder político do Estado, foi exaltada a uma elevada posição, e o mundo começou a vê-la como uma torre alta, e como tal começou a ser reverenciada e acatada pelo inconstante mundo. O Império Romano se "cristianizou" e todo esse acervo religioso pagão mundial que havia herdado o Império desde suas origens na Babilônia, passando pelo Egito, Assíria e Grécia, se mesclou em Roma com a terminologia cristã, e a simbiose do paganismo com o cristianismo e com o judaísmo começou definitivamente a conceber o sistema católico-romano-papista, o que gerou sérios problemas. Também a palavra Tiatira em grego significa sacrifício aromático ou sacrifício continuo. Também significa atividade no oferecimento de vítimas, pois como é de comum conhecimento, o apóstata sistema católico se caracteriza por seus contínuos sacrifícios representados nas missas, com altar e casta sacerdotal, pois chegaram a ignorar que o sacrifício de Cristo na cruz foi suficiente para nos salvar (Hb. 10:12).
" Ao anjo da igreja em Tiatira escreve: Estas coisas diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido: " (v.18).
Aqui o Senhor se apresenta como o filho de Deus como um protesto pela heresia apóstata, pois o sistema católico romano enfatiza o fato de que Cristo é filho de Maria; e por outro lado esse sistema eleva a Maria tão exageradamente, que dá a imprensão que dão maior importância a adoração à uma criatura como ela, que ao Senhor, Salvador dela (cfr. Lucas 1:47) e nosso; como em uma velada intenção de eclipsar um pouco a glória devida ao Senhor. No Magníficat, Maria o expressa profeticamente de seus próprios lábios ao dizer: "Minha alma engrandece ao Senhor;e meu espírito se alegra em Deus meu Salvador". Também o sistema católico romano diz que a Igreja está edificada sobre Pedro, um simples humano, descartando assim à verdadeira Cabeça, a Cristo, o Filho do Deus vivente, revelado pelo Pai a toda pessoa destinada para salvação. Assim mesmo o Senhor se apresenta como o que tem olhos como chama de fogo, e pés semelhantes ao bronze polido, pois o Senhor tem o poder da visibilidade de penetrar até as coisas mais ocultas, e de fato conhece e distingue todas as coisas, por muito remotas que pareçam estar no tempo, no espaço, ou no profundo dos pensamentos e segredos e intenções do coração. Em Pérgamo se apresenta como o que tem a espada afiada de dois gumes, isto é para dividir uma virtual e desafortunada união de Sua Igreja com o mundo, mas em Tiatira usa os olhos como chama de fogo para julgar e queimar as conseqüências dessa união. Seus pés de bronze polido falam de que o Senhor é o juiz, e tudo o que vai olhando e condenando com seus olhos, com seus pés se presta para executar juízo e pisotear. Recorde-se que temos de comparecer ante o tribunal de Cristo, a quem " foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos. " (cfr. Romanos 14:10; Atos 10:42b). O Senhor tem todo o poder, autoridade e soberania sobre todas as criaturas para executar o que Ele quer, Quando Ele quiser, e esta igreja apóstata necessita ser julgada por Seus olhos esquadrinhadores e Seus pés que esmagam.

Obras na apostasia

" Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras. " (v.19).

O apóstata sistema católico romano se distingue também porque leva à prática muitas obras e serviços de caráter social, principalmente nos últimos tempos. E de fato há gente abnegada que têm dado por amor a suprir as necessidades dos demais. Para muitos pode parecer incrível, mas neste corrupto sistema religioso têm havido sempre, mesmo hoje, um pequeno remanescente que também foi escolhido desde antes da fundação do mundo para ser salvo, e que se tem encarregado de executar muitas obras boas porque realmente tem conhecido a Deus, e além da Palavra de Deus, a mesma história têm dado fé disto. Em Tiatira podemos discernir um nível espiritual.
Ainda que seja um sistema eclesiástico condenado e aborrecido pelo Senhor, entretanto, dentro de tal sistema há filhos de Deus ali mesclados e os haverá até o tempo da vinda do Senhor, e por isso há uma incitação do Senhor para os irmãos que estão dentro do sistema católico romano, e mesmo dentro dos sistemas religiosos evangélicos denominacionais dele derivados, até o ponto que Deus os compara com Babilônia. O Senhor lhes disse: "Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos;" (Ap. 18:4). A esses santos Deus os ama e deseja salva-los das conseqüências que sobrevenham pelo fermento da maldade do sistema babilônico.
A multidão dos adeptos ao sistema católico romano são ignorantes acerca da Palabra de Deus e mesmo do sistema religioso no qual militam; ignoram por completo o caminho de salvação; não sabem quem é Jesus Cristo, e estão imersos em um mar de confusões, e os líderes desse sistema o sabem perfeitamente. O dia em que qualquer de seus seguidores começarem a opinar conforme as Escrituras, o apelidam de desviado mental, o perseguem, e o maldizem muitas vezes até a morte. Na Idade Média, por exemplo, era tanto o desconhecimento da Palavra de Deus e a fé em Jesus Cristo, que a vida religiosa dos paroquianos se caracterizava em sujeitar-se aos cânones do romanismo, os quais enfatizavam como pecaminoso os impulsos sensuais naturais. Dai que vieram no monasticismo, humanamente e sem levar em conta a Deus, o estado de perfeição e de santificação ideal. Mas ali existe um remanescente de boa fé, fiel ao Senhor. Nesse pequeno remanescente deu fruto o amor, a fé, o serviço, a paciência, em pessoas como Joana de la Mothe Guyón, mais conhecida como Madame Guyon (1648-1717), mística francesa que iniciou na França o movimento pietista, e a causa de sua fé foi objeto de perseguição e prisão em sua mesma pátria (foi encarcerada na Bastilha pelo rei Luis XIV), e se caracterizou por sua copiosa calma e resignação. Apesar de que a apelidaram de herege, e que o papa censurou a Fénelom por sua causa, esta filha de Deus não chegou a se separar do catolicismo romano. Em quanto Francisco de Salignac Fénelon (1675-1715), foi um eclesiástico jesuíta francês educado na Universidade de Cahors; havendo sido tutor do neto de Luis XIV, perdeu o favor do rei como conseqüência de sua relação com os pietistas seguidores de Madame Guyon. A vida santa e o testemunho de Madame Guyon tiveram profunda influência sobre Fénelon. Apesar do anterior não abandonou o sistema católico romano, e, pelo contrário, na controvérsia jansenista, esteve em favor do papa defendendo sua bula Unigenitus através de cartas e sermões.
Outro digno de menção é João Tauler ou Taulero (1290-1361), domenico alemão profundamente influenciado por seu mestre João Eckhart. Mesmo que não se destacou como grande erudito, gozou de popularidade por sua linguagem simples e sincera, o que despertava muito entusiasmo entre os ouvintes. Afirmava que os cristãos devem exercer seu próprio sacerdócio uma vez que Jesus Cristo mora no coração do crente. Há uma anedota que diz que Tauler exerceu tal influência sobre Lutero, que este lhe escreveu a seu amigo Spalatino, dizendo: "Se queres aprender na língua alemã a sólida teologia dos tempos primitivos, lê os sermões de João Tauler. Não havia lido em latim nem em nenhum outro idioma, a teologia mais judiciosa nem mais de acordo com o Evangelho". Irmãos como estes três exemplos tem havido muitos de boa fé no sistema católico romano, e há.
Nomes como Luis de Molina (1535-1600), cuja teologia, conhecida como molinismo, lutava com o problema de como conciliar a graça e o inalterável decreto da predestinação com o livre arbítrio; teologia à qual aderiam muitos dos jesuítas, entre eles Roberto Belarmino (1542-1621), mais tarde cardeal, sobrinho de um papa.
Miguel de Molinos (1628-1696), teólogo espanhol, de família da nobreza. Residenciado em Roma se fez amigo do papa Inocêncio XI quem chegou a condenar sua obra "Guia Espiritual" por seus princípios quietistas, doutrina chamada também molinosismo, por meio da qual aconselhava a suspensão de toda atividade humana e o abandono em Deus; promovendo assim a aniquilação da própria vontade.

Mulher dominante

"Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos. " (v.20).
A palavra Tiatira também significa mulher dominante. Se começa a delimitar um contraste entre a Esposa do Cordeiro que aparece em Apocalipse 19 e a prostituta, a que lhe foi infiel, de Apocalipse 17 e 18. O Senhor menciona aqui a uma mulher chamada Jezabel, que se diz profetisa, mas seu labor se reduz a ensinar e seduzir aos santos a fornicar e a comer coisas sacrificadas aos ídolos, e o pior é que é tolerada pelos cristãos. De que se trata? Na igreja da localidade de Tiatira pode ter havido uma mulher que ela mesma se fazia aparecer como profetiza, de grande influência chamada Jezabel, que tanto por seu nome como por suas atividades coincidira com a Jezabel protótipo do Antigo Testamento e prefigurara a si mesmo com a igreja apóstata. O nome de Jezabel significa desonesta, perjura. Com ela se cristaliza a maridagem idolatria-Estado. Mas concretizando-nos em nossa analise, em primeiro lugar vemos que os ensinamentos de Jezabel são muito parecidos (e como uma continuação) aos de Balaão, mas sua influência têm sido mais grave, devido a que Balaão somente podia aconselhar, enquanto que Jezabel também tinha poder para ordenar, por sua autoridade de rainha. É curioso que em Tiatira estava o famoso "Peribolé" (recinto), residência da sibila oriental Sambata, o qual pode ter sua simbologia com a Jezabel e os cultos e banquetes idolátricos, que comprometiam e contaminavam a muitos crentes.
O Antigo Testamento registra em suas páginas a vida e obra de uma mulher chamada Jezabel, filha de Et-baal, rei de Sidom, com a qual se uniu em matrimônio Acabe, rei de Israel, ao invés de haver tomado por mulher a uma hebréia; por esta ação, Acabe, deixou de adorar a Jeová por servir a Baal e adora-lo 3. Mas Acabe foi mais longe " 32 Levantou um altar a Baal, na casa de Baal que edificara em Samaria.33 Também Acabe fez um poste-ídolo, de maneira que cometeu mais abominações para irritar ao SENHOR, Deus de Israel, do que todos os reis de Israel que foram antes dele. " (1 Re. 16:32,33). O pecado de Acabe foi mais grave que o de Jeroboão, ao estimular ao povo a adorar a um deus estranho.
Jezabel, como rainha que era, incitava a Acabe (cfr. 1 Reis 21:25), e tinha oportunidades e estava revestida de direitos para influenciar no governo do povo de Deus, de acordo com sua soberana e perversa vontade. Jezabel, mulher de natureza autoritária, instruía ao povo na prática de obras abomináveis e a comer do sacrificado aos ídolos, sem que nada a ousasse resistir. Julgue o leitor a situação da igreja de Tiatira, ante uma mulher culta, influente, rica, de ilustre linhagem, sagaz, a igreja se encheu de temor de repreender a um membro tão ilustre, e quando ela se rodeou de incondicionais, a coisa se fez mais difícil ainda, e houve o pecado da permissão. Isto o relaciona com a profecia do Senhor acerca desta mulher na parábola do fermento.
" Disse-lhes outra parábola: O reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado." (Mt. 13:33).
Com maior ênfase no sistema católico romano, esta parábola reflete a corrupção interior da atual e desfigurada aparência do reino dos céus na terra, durante a ausência do Rei, porque Cristo é a oferta de farinha pura, mas ao contrário o fermento representa as doutrinas falsas, a hipocrisia, os que dizem professar a autêntica fé e procedem impiamente, os que ensinam falsamente o cristianismo; também representa a malícia e o pecado (cfr. Mateus 16:6,11.12; 1 Coríntios 5:6-8; Gálatas 5:8,9). A Igreja, como a manifestação prática do reino dos céus hoje, tem a flor de farinha sem fermento, que é Cristo, mas essa mulher, que é o sistema católico romano e os sistemas religiosos nacionalistas que dele se derivam e mesmo os posteriores movimentos denominacionais, escondeu o fermento, em modo oculto, na farinha, introduzindo na Igreja práticas pagãs, heresias e perversidades, mesclando abominações com coisas procedentes de Deus, de tal modo que os puros ensinamentos bíblicos acerca de Cristo foram levedados, resultando uma aparência do reino dos céus. Jezabel combinava astutamente o uso carismático (profético) com a idolatria e a fornicação, uma perigosa e explosiva mescla de dons e impiedades. A Igreja Católica Romana, como Jezabel, se autodenomina profetiza, com pretensões de haver recebido de Deus a autoridade de falar pelo Senhor, com o resultado de que se adotou o direito de falar por si mesma, de ter o monopólio do ensinamento e interpretação da Palavra de Deus, o qual tem feito que as pessoas não se interessem por ler a Bíblia e se contentem com escutar seus filosóficos - heréticos ensinamentos humanos e, de passo, deixar de alimentar-se com o apropriado conhecimento de Cristo.
Vemos então que a união matrimonial de Acabe com uma idólatra gentia deu como resultado que se fomentara oficialmente o imoral culto a Baal, deus do raio, da tempestade, da chuva e da fertilidade no Panteon cananeu e fenício. Por quê? Porque sua mulher era uma adoradora fanática desse ídolo satânico e ele queria agradá-la. Isto levou a Israel a uma aguda crise nacional, confusão, perseguição e sincretismo religioso; o povo de Deus comendo o sacrificado aos demônios; que em seu momento muitos israelitas puderam haver visto normal e até lógico, mas que na perspectiva profética bíblica não era senão um repúdio a Yahveh. Ali a fornicação significa confusão. Chegou o momento crucial em que quem mandava em Israel era uma mulher estrangeira, que, além disso, era idólatra, prostituta e feiticeira (cfr. 2 Reis 9:22), que pretendeu apagar do povo escolhido a adoração a Deus, seduzindo aos que deixaram os mandamentos de Yahveh e se esqueceram até do mesmo nome do Altíssimo, até o ponto que, quando o profeta Elias enfrentou os quatrocentos profetas de Baal, valentemente disse a todo o povo: "Então, Elias se chegou a todo o povo e disse: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o. Porém o povo nada lhe respondeu." (1 Re. 18:21). Mas havia tanto temor e confusão no povo, que a Bíblia diz que não responderam nenhuma palabra. Jezabel matava aos profetas de Deus. Mas Deus respondeu poderosamente e através de Elias demonstrou que precisamente na esfera onde criam que Baal era mais poderoso (o raio, a chuva), ali fracassaram estrondosamente seus seguidores.
Jezabel teve o poder de dominar a seu esposo, assim como a igreja apóstata tem tratado de dominar aos reis e ao mundo inteiro mediante a política e os concordatos favoráveis; É como dizer, que todo o que Cristo rejeitou quando foi tentado no deserto, foi aceito pela igreja prostituta. Nas cartas de Apocalipse, o diabo é mencionado em um avanço sutil para destruir a Igreja. Em Esmirna, Satanás operava desde a sinagoga; em Pérgamo desde seu trono no templo de Zeus, e em Tiatira, já havia estabelecido sua sede de operações dentro da mesma Igreja. Tenha-se em conta que a mulher de Mateus l3:33, Apocalipse 2:20 e Apocalipse 17 é a mesma. Esse é o ponto principal da carta à igreja em Tiatira.

Babilônia a grande.

" Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição." (v.21).
A Jezabel neotestamentária era muito orgulhosa para arrepender-se, não obstante que o Senhor lhe deu tempo para que se arrependa, rejeitando assim o único caminho possível para salvar a ela e a todos os seus seguidores. A Igreja de Jesus Cristo é tipificada por uma mulher, a Esposa do Cordeiro, a Nova Jerusalém (Ef. 5:22-32; Ap. 19:7-9; 21:9,19), mas há outra mulher dominante que têm sido infiel ao Senhor, que a Palavra de Deus chama "um mistério: BABILÔNIA, A GRANDE, A MÃE DAS MERETRIZES E DAS ABOMINAÇÕES DA TERRA." (Ap. 17:5). Essa mulher quando se casou com o mundo deixou de ser Jerusalém para converter-se em Babilônia, o sistema católico romano; mas houve tanta habilidade e engenho satânicos para mesclar o paganismo babilônico com o cristianismo, que a Bíblia chama a esse novo sistema um mistério, e é a mesma Jezabel do tempo da graça, porque se têm encarregado de introduzir no povo de Deus muita confusão, indiferença, ignorância, sincretismo, culto idolátrico e práticas imorais. Essa mulher se chama profetisa e tem adotado o direito de ser a única que tem a autoridade de ensinar e interpretar as Escrituras, com o resultado de que impõe suas próprias espúrias e destorcidas doutrinas, invalidando e contradizendo as Escrituras Sagradas. Ela se encarrega de ensinar e não deixar que Deus fale (cfr. João 5:39; 16:13). Somente ela pretende ter a razão e a verdade. Não vai se arrepender, e se sabe que será destruída sem que haja se arrependido, como sucedeu a Jezabel. Na Idade Média houve um largo tempo em que a Bíblia foi um livro proibido pelo cesaropapado, e só podia ser adquirido e interpretado por uma augusta elite do Vaticano, afim de acomodar as coisas aos interesses do sistema da prostituta. Em sua obra a Cidade de Deus, Agostinho expressa dramaticamente a clara distinção traçada entre a cidade do mundo e a cidade de Deus, pontos de vista em sua oportunidade apreciados pelos cristãos fiéis ao Senhor e Seus propósitos.
Para fins do século quinto, o sistema católico romano e o Império estavam tão intimamente associados, compenetrados entre si, que o selo que o Império havia impresso nesse sistema religioso já era indelével, e quando o Império Romano do Ocidente se desagregou, o catolicismo romano reteve muitos de seus traços, estrutura e organização externa e em muitos sentidos perpetuando as características da Roma pré-cristã até hoje. Mais que com um governo estatal e simples sistema político e suas vinculações econômicas, o cristianismo desertor e infiel se mesclou em suas raízes com o sistema religioso babilônico, formando-se à larga o cesaropapismo com o sumo pontífice à cabeça, como continuação de uma das pernas de ferro do último dos quatro grandes impérios mundiais revelados por Deus ao rei Nabucodonosor na Babilônia (cfr. Daniel 2:33,40).
Essa férrea união gerou sérios compromissos com o príncipe deste mundo. Como quais? Um deles foi a continuação do paganismo babilônico, a contemporização e o fomento da idolatria e a adoração à rainha do céu, a deusa-mãe, e sua corte. Existia a rainha do céu desde os tempos babilônicos? Sim, se chamava Istar, e todas as culturas desde muitos séculos antes de Cristo adoravam à divina mãe, a mãe e a seu filho, representada com um menino nos braços. Por exemplo, No Egito a chamavam Isis, entre os cananeus Astarote e Astarte, na Alemanha Hertha, na Ásia Cibele, em Éfeso Diana, em Roma Vênus ou Fortuna, na Grécia Afrodite ou Ceres, etc... O que fez o sistema católico romano? Introduziu a adoração à rainha do céu e outros deuses estranhos com uma pequena modificação, mudando-lhe o nome. À rainha do céu chamou inicialmente Maria, e aos demais deuses, ídolos ou estátuas, lhes chamaram "santos". Por exemplo, a estátua do deus Júpiter em Roma, cuja figura é de cor obscura, foi retocada e colocada na catedral de São Pedro em Roma (com uma mitra dourada sobre sua cabeça, cuja figura (uma cabeça de peixe) é diferente à usada por Arão e os sacerdotes hebreus), em qualidade de ídolo do apóstolo Pedro. Não há evidência bíblica que acredite que Jesus Cristo e os apóstolos usaram este ornamento, que pelo desenho que atualmente usam os papas, cardeais e bispos, corresponde a uma prenda pagã do deus peixe babilônico, conhecido por Ormuz ou Dagom. Assim como a cidade de Tiatira era conhecida e famosa porque nela cada grêmio tinha seus deuses protetores, aos quais lhes celebravam festas em determinadas datas, mediante libações ou comidas de rituais, assim também no período profético de Tiatira, do cristianismo apóstata, se perpetuaram esses rituais pagãos a "santos" patronos dos grêmios; por exemplo, São José, patrono dos obreiros, São Cristóvão, patrono dos motoristas, São Rafael, patrono dos médicos, etc... Temos o exemplo de Éfeso, cidade na qual parte da adoração tributada a Diana foi transferida à virgem Maria, cidade onde ao que parece viveu e morreu Maria, por haver sido encomendada ao apóstolo João.
O sincretismo universal que têm caracterizado ao paganismo com seu politeísmo, aparentemente se foi apagando e dando passo ao monoteísmo judeu e cristão; mas esse é apenas uma mera aparência. Assim as massas chamadas "cristãs" no Ocidente, jamais deixaram o politeísmo. Apesar da substituição de uma religião por outra, o sincretismo é o mesmo; as nações adoram os mesmos deuses antigos, disfarçados de divindades com nomes "cristãos".
Tolerar que prevaleçam estes ensinamentos têm trazido fracassos e graves conseqüências aos cristãos de Tiatira, e o pior é que haverá crentes na condição de Tiatira que serão achados assim na grande tribulação. A idolatria gera confusão e tragédia, cegueira espiritual e muitos males. Desde os tempos antigos, Deus proibiu por abominável a adoração à rainha do céu e a todo o exército do céu, e admoesta a seu povo por meio de seus profetas.
Por exemplo, Jeremias lhes disse: "18 Os filhos apanham a lenha, os pais acendem o fogo, e as mulheres amassam a farinha, para se fazerem bolos à Rainha dos Céus; e oferecem libações a outros deuses, para me provocarem à ira.
19 Acaso, é a mim que eles provocam à ira, diz o SENHOR, e não, antes, a si mesmos, para a sua própria vergonha? " (Jr. 7:18-19). O povo hebreu por sua idolatria provocou a ira de Deus, e Jerusalém, símbolo do templo de Deus, foi destruída; os judeus foram levados durante setenta anos cativos à Babilônia, por contraste ao covil de demônios. Foi assim como a verdade revelada por Deus aos judeus paulatinamente se mesclou na Babilônia com a religião pagã que se havia originado em Babel; houve assim uma associação entre algumas crenças dos hebreus, certas tradições herméticas *(1) egípcias (recorde-se que os hebreus viveram 400 anos no Egito) e as teurgias caldéias, dando origem à chamada Cabala, escola de pensamento judeu que se prestou ao misticismo e à especulação teológica e filosófica, e mais tarde, com a mescla das correntes filosóficas gregas, surge o gnosticismo e vários ramos de ocultismo e esoterismo sincretista, alimentados por religiões de tipo oriental. Assim mesmo se diz que a Igreja em parte têm estado em cativeiro na Babilônia, na cidade terrena.
*(1) De hermetismo. Hermes Trimegisto era o deus greco-egipcio condutor das almas dos mortos; no Egito o tinham pelo inventor de todas as ciências, cujos segredos guardava encerrados em livros misteriosos.

O princípio desse cativeiro teve ocasião no período de Pérgamo, e o sistema babilônico se disfarçou de cristianismo em Roma. Do povo hebreu em cativeiro, Deus chamou a um pequeno remanescente para que voltassem à Terra Santa para reconstruir a cidade de Jerusalém e ao templo nos tempos de Zorobabel, Neemias, Esdras, Zacarias. Depois de mil anos de cativeiro na Roma cesaropapista, o Senhor também começou a chamar a outro pequeno remanescente a fim de recuperar todas as coisas que se haviam perdido e continuar a construção do templo de Deus, como o veremos nos próximos capítulos.

Raízes do Cesaropapismo

Não existe registro documental e normativo algum em que conste que o Senhor dera instruções a fim de que, para que se perpetuasse Seus ensinamentos, quando Ele ascendesse ao Pai e viesse o outro Consolador, o Espírito Santo, se instituísse uma organização visível que viesse a continuar através dos séculos, ao estilo e com as características das que séculos mais tarde surgiram, em especial nas capitais do Império Romano, tanto do Ocidente, Roma, como do Oriente, Constantinopla; e suas posteriores filhas e herdeiras; organizações, muitas delas, iniciadas por homens que amavam a obra do Senhor, mas que eventual e paulatinamente foram hierarquizadas por homens ébrios de poder e riquezas terrenas, mais carentes das riquezas dos céus; em contraste com nosso amado Senhor, quem evitava a todo custo toda ostentação de Seus poderes, a fim de não chamar a atenção sobre Si mesmo, e que quando decidiu eleger a Seus mais íntimos amigos, evitou escolher entre os grandes do Sinédrio, senão que o fez entre os homens das humildes sendas da vida no advir da peregrinação por esta terra, ou dos mais modestos estratos sociais, como se lhe chamaria hoje.
Quem formulou pela primeira vez de maneira rigorosa a doutrina do primado romano foi o bispo romano Damaso (366-384), baseado em uma interpretação errônea das palavras do Senhor, Tu és Pedro, de Mateus 16:18. É preciso fazer ênfase às palavras do Senhor em resposta a Pedro no capítulo 16 do evangelho segundo Mateus. De acordo com o contexto, o Senhor se interessou por saber o que seus discípulos diziam acerca de quem era Ele. No verso 16, a uma pergunta do Senhor a respeito, Pedro lhe responde: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo", frase esta que pode ver-se escrita em gigantescos caracteres em latim ao redor da cúpula da basílica de São Pedro no Vaticano, com o argumento de que Pedro foi a primeira cabeça da Igreja, e em conseqüência, seus pretendidos sucessores, os papas romanos, deveriam continuar sua autoridade. É peremptório esclarecer que a frase afirmativa de Pedro é uma revelação que lhe faz o mesmo Pai celestial acerca da personalidade e identidade do Senhor Jesus Cristo, pois o mesmo Senhor Jesus o confirma quando lhe diz: "Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus." (v.17).
Mas na continuação aparece uma declaração do Senhor que têm dado pé a certas especulações por parte do papado romano. O Senhor segue dizendo a Pedro nos versos 18 e 19: " 18 Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.19 Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.". É néscio e sem fundamento bíblico dizer que Jesus fundou sua Igreja sobre Pedro, ou sobre algum outro homem. Para que uma pessoa, qualquer, douta ou ignorante, conheça quem é o Senhor Jesus Cristo, o único meio possível é por revelação de Deus o Pai. Da declaração da pessoa a respeito de Cristo, depende que seja ou não um filho de Deus, integrante da Igreja do Senhor. Essa confissão é a rocha. Eu sou para ti o Cristo, o Salvador, então tu és uma pedra da casa de Deus, a Igreja. Deus edifica Sua Igreja com todas essas pedras vivas, os que têm crido e confessado que Jesus é o Cristo, o Salvador, sendo a principal pedra de ângulo Jesus Cristo mesmo, não um homem. Graças ao Senhor, que prevendo tudo o que viria, o Espírito Santo inspirou ao apóstolo Pedro para que assinalasse que Cristo é a pedra angular de Seu templo, a Igreja, quando diz em 1 Pedro 2:4-8:
" 4 Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, 5 também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. 6 Pois isso está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado. 7 Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade; mas, para os descrentes, A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular 8 e: Pedra de tropeço e rocha de ofensa. São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos.".
Em Mateus, o Senhor usa as palavras Pedro e pedra (em grego Petros e petra). Pedro (petra, πετρα), como o resto de crentes, por sua declaração é constituído uma pedra viva na edificação espiritual; mas o que têm declarado, que o Senhor Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivente, é a pedra angular, a rocha (petros, πετροζ), sobre a qual está fundamentada a Igreja. A Igreja se constrói sobre a pessoa do Senhor Jesus Cristo, com os que, a igual a Pedro, confessam ao Senhor. Paulo também o ratifica em Efésios 2:20-22, assim: "20 edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; 21 no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, 22 no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.".
Não chegamos a analisar o verso 19 de Mateus 16, mas o significado exegético do mesmo não dá fundamento, nem sequer o insinua, para afirmar que havia na história uma série de sucessores aos quais o apóstolo Pedro tivesse autoridade para transmitir o poder das chaves. Esse encargo foi de tipo pessoal e intransmissível e Pedro o exerceu para abrir o caminho da salvação e do Reino, primeiro aos judeus em Jerusalém no dia de Pentecostes (Atos 2), e logo aos gentios em Cesaréia na casa do centurião Cornélio (Atos 10), e essas portas ainda não se têm fechado, como o confirma Paulo anos mais tarde (ao redor de 61 D. C.) aos efésios: "...18 porque, por ele( Cristo ), ambos( judeus e Gentios ) temos acesso ao Pai em um Espírito." (Ef. 2:18).
Na mesma noite em que foi preso, o Senhor Jesus orou ao Pai, dizendo: "20 Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; 21 a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste." (João 17:20-21). Estas discentes palavras nos dão a entender que o Senhor quer em sua Igreja um companheirismo estreito, e contínuo através do tempo e a distância, sem especificar que estrutura visível teria a Igreja. As características estruturais pelas que o Espírito Santo orientou à Igreja do Senhor, são as que se encontram nas páginas do livro dos Atos dos Apóstolos, as epístolas dos apóstolos Paulo, Pedro e João, Hebreus e o livro do Apocalipse, tudo no marco da igualdade, do amor e a comunhão do Espírito Santo. A raiz da morte do Senhor, Sua gloriosa ressurreição, ascensão e a vinda do Espírito Santo, se cristalizou um companheirismo e igualdade entre Seus discípulos, e isso se chamou Igreja, a Igreja de Jesus Cristo, a qual é Seu corpo e Ele é o Cabeça. A Palavra descarta que um homem seja a cabeça da Igreja.
"20 o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais,, 22 E pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja,23 a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas. 27 para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito." (Ef. 1:20,22,23; 5:27).
Sobre a passagem bíblica que registram as palavras do Senhor: "E Eu também te digo, que tu és Pedro, e sobre esta rocha edificarei minha igreja", há outra interpretação que diz: "Se Cristo quisesse dizer que Sua Igreja ia estar fundada sobre Pedro, por que não disse: ‘sobre ti edificarei minha igreja’? tal como diretamente o fez quando chamou a cada um dos apóstolos, ‘vem, segue-me’. Caso se houvesse referido a Pedro, certamente haveria dito: Pedro, edificarei minha igreja sobre ti, da mesma maneira que lhe disse: ‘A ti darei as chaves’. Não, não era sobre a cabeça de Pedro, senão sobre a confissão que acabava de fazer sobre onde ia fundar a Igreja. Não sobre o instável Pedro (que o negou três vezes antes de que cantara o galo; também era judaizante, que recebeu repreensão do Senhor quando lhe disse: Aparta-te de mim, Satanás; e irascível, por haver cortado a orelha do servo do sumo sacerdote), senão sobre aquela poderosa verdade que o Pai lhe havia revelado". (Jaime Beltrán Zuccardi. Carta ao Sacerdote Alfonso Llano Escobar. 1997).
Na mesma carta aos Efésios, Paulo nos diz que a Igreja é formada tanto por judeus como por gentios, todos membros da família de Deus, servos de Jesus Cristo, sem distinção de raças, nacionalidade, fundo cultural, sexo, liberdade, servidão, sem barreiras ocasionadas por línguas ou distinção política. Desde o princípio do século IV, o melhor, através de um lento desenvolvimento histórico cujas raízes encontramos antes dessa data, mas que tomou maior força com a aparição de Constantino no concerto histórico do Império, se veio operando um desenvolvimento doutrinal paralelo com um processo institucional gerando um sistema eclesiástico centralizado em torno ao bispo de Roma, com grande influência no Ocidente e cada dia mais livre da tutela imperial. A primazia de honra do bispo de Roma e seu título e poder temporal pontifício, não veio necessariamente do evangelho senão da organização eclesiástica que havia sido copiada das instituições político religiosas do Império Romano.
A legislação pontifícia se inicia com os decretos do bispo de Roma Sirício (384-399), reclamando jurisdição universal, pois no século IV o bispo tomou o caráter de papa, mas não foi reconhecido; mas com Damaso o papado dá uma virada importante, pois ele assumiu o antigo título romano de Pontifex Maximus, alto sacerdote oficial dos mistérios babilônicos, reconhecido tanto por pagãos e cristãos como o cabeça, herdado até o dia de hoje por todos os papas, título do qual se havia despojado o imperador Graciano no ano 375, quando com motivo de sua conversão ao Senhor Jesus Cristo, teve discernimento de que esse título era de origem satânica. Quando o papa romano recebeu o título babilônico de Sumo Pontífice, recebeu a liderança sobre todo o paganismo.
O papa Inocêncio I (401-417) propôs uma política de centralização jurisdicional do primado, mas não foi senão até o ano 445, em tempos de Leão I o Grande (440-46l), em que o imperador Valentiniano III estabeleceu a supremacia de Roma, por razão de que este bispo ocupava "o primado de São Pedro", sobre a parte ocidental da Igreja mediante o edito Certum est, sem que lhe fora reconhecida mesmo sua autoridade pelas igrejas. Algo similar ocorreu com Bonifácio III, que foi declarado bispo universal pelo imperador Focas, de Constantinopla, abaixo a aplicação de editos de governantes terrenos sem levar em conta a vontade de Deus. Notemos que é reconhecida essa supremacia mediante um documento legislativo secular, do imperador, mas não bíblico.
A instituição romano-papista para sustentar seus pretendidos direitos de supremacia e da sucessão apostólica desse sistema, cita que no último quarto do século segundo Irineu de Lyon supostamente afirmava em um tratado que os apóstolos haviam nomeado seus sucessores nas diferentes igrejas; mas o curioso deste documento considerado espúrio mesmo por comentaristas católicos romanos, é que Irineu, poderia haver dado a lista de todos esses bispos sucessores em todas as igrejas, ou pelo menos nas principais cidades, só se limita a dar a linha de sucessão da igreja de Roma, a qual, aduzem eles mas não as Escrituras, havia sido fundada por Pedro e Paulo, os quais a sua vez nomearam a Lino; este a sua vez foi seguido por outros em linha intacta até o duodécimo na sucessão, época em que o suposto livro de Irineu estava sendo escrito.
Este suposto livro de Irineu é um documento falso como tantos outros que essa instituição (a Igreja Católica Romana) se inventou ao largo dos séculos. Cipriano, o famoso bispo de Cártago, quem viveu entre os anos 200 ao 258, referindo-se a certo tipo organizativo, dizia que "a igreja esta no bispo e o bispo na igreja", dando muita importância ao bispado, mas sustentava que todos os bispos eram iguais. Considerava que todo bispo possuía todos os poderes comuns a todos os bispos; que nenhum bispo tinha autoridade administrativa sobre os demais, que nenhum bispo devia exaltar-se como bispo dos bispos, e estimava ao bispo de Roma só como um entre seus iguais. Isto a todas luzes representava um conflito com as pretensões do bispo de Roma, e devido a isso se tem conhecimento que suas obras foram deturpadas, de maneira especial no relacionado com o do primado de Pedro.
Agora bem, não há registro bíblico, nem patrístico confiável que sustente que Pedro haja sido o fundador e o bispo da Igreja de Roma. Há que diferenciar entre o ministério de apóstolo e o de ancião ou bispo. Biblicamente o campo de trabalho do apóstolo é a obra regional, e o do bispo é a igreja local. Os apóstolos jamais ficavam como bispos de alguma igreja; em troca, os anciãos eram designados entre os irmãos de sua mesma igreja local. Enquanto a Paulo, no contexto da carta aos Romanos, e particularmente nos versos 10-13 do capítulo 1 e 20-23 do capítulo 15, vemos que quando o apóstolo escreveu esta carta ao redor do ano 57 D. C. nunca havia estado em Roma, como, pois, pode ser um dos co-fundadores da igreja nessa localidade?
As contínuas divisões eclesiásticas do Oriente, sobre tudo nos tempos dos concílios de Éfeso (431) e Calcedônia (451), a corrupção imperial e as ameaças das invasões dos bárbaros, entre outras coisas, lhes eram favoráveis ao bispo de Roma em suas pretensões para conseguir a supremacia dentro do cristianismo. Invadida a cidade pelos vândalos, e sem a presença e autoridade imperial no Ocidente, Leão I o Grande, teve a idéia de converter o trono do império em sede do reino universal da Igreja, dando início à teocracia católica romana, como verdadeira continuação do Império. Uma solução “genial”; o Império não se extinguiria, senão que mudava de forma e continuava o papa como o sucessor dos Césares; e não foi menos importante que, no curso deste processo, por trás do respaldo de Valentiniano III, paulatinamente os imperadores orientais foram reconhecendo essa primazia papal ao bispo de Roma, a fim de ir ganhando um aliado; então, das ruínas do império romano ocidental, surge assim a Roma papal. E o curioso é que quatrocentos anos antes, o Senhor Jesus, verdadeira Cabeça da Igreja, havia dito a Pôncio Pilatos, o representante desse mesmo império romano: "Meu reino não é deste mundo" (cfr. João 18:36).
A construção da Babilônia a grande, a grande prostituta, continua inexoravelmente e no ano 494 o papa Gelásio declarou que o mundo era governado pelo imperador, mas que este devia submeter-se aos prelados em assuntos divinos, e que Roma havia sido posta em superioridade sobre as demais igrejas, pela presença e martírio de Paulo e o suposto martírio de Pedro ali, toda vez que não há registro bíblico de que este apóstolo houvesse estado em Roma. O imperador Justiniano I (527-565), entre outras coisas, é muito famoso porque durante seu governo copiou muitas leis e promulgou seu famoso Código de leis imperiais chamado «Corpus Juris Civilis» (Corpo de lei civil), por meio do qual também confirmou e aumentou os privilégios do clero, e designa ao bispo de Roma como chefe supremo das igrejas. Este documento, por exemplo, no prefácio do artigo nono diz: "Não só se designa a Roma a origem das leis, senão que além disso não há nada que duvide que nela reside a cima do mais alto pontificado".
Assim mesmo no artigo 131 do Código de Justiniano diz: "Daí que, de acordo com as resoluções destes concílios, ordenamos que o Muito Santo Papa da antiga Roma ocupe a primeira classe entre todos os Pontífices, e que o Muito Bendito Arcebispo de Constantinopla ou Nova Roma, ocupe o segundo Lugar depois da Santa Sede Apostólica da antiga Roma, a qual tomará a precedência sobre todas as demais".
Vemos então a grandes traços como esse processo institucional do cesaropapismo foi fincando poderosas raízes, foi ramificando, posicionando e tomando vantagem sobre outras instituições, e é assim como aparecem os bispos feudais, com as insígnias e as atribuições dos senhores feudais da Idade Média, chegando a ser mais príncipes que pastores, começando pelo mesmo pontífice, pretendido sucessor de um trono que o apóstolo Pedro nunca teve, e que conforme ao consignado em Atos, detestava o boato, a bajulação, cortesia, etc..., como se narra na seguinte passagem bíblica: " 25 Aconteceu que, indo Pedro a entrar, lhe saiu Cornélio ao encontro e, prostrando-se-lhe aos pés, o adorou.26 Mas Pedro o levantou, dizendo: Ergue-te, que eu também sou homem. " (At. 10:25,26).
Conforme a Jezabel do Antigo Testamento, na Igreja Ortodoxa Oriental, chegaram a governar na igreja apóstata imperatrizes, as que por certo foram as mais influentes implantadoras da adoração à imagens, e em Roma, os eclesiásticos eram os ricos, os corrompidos cortesãos, os sábios, os mecenas. O pontífice não se conformou com ser "bispo universal" e cabeça do que eles afirmavam ser a igreja de Jesus Cristo, senão que entra em uma etapa em que afirma ser governador sobre as nações, por cima dos reis e imperadores. Há de se levar muito em conta que esses personagens não necessariamente se convertiam a Cristo de maneira individual, por convicções pessoais e por revelação do Pai, senão por princípios e razões culturais, e como conseqüência seu nome era escrito somente no registro civil. É uma época em que Satanás se oculta atrás de um disfarce, mesclando sutilmente o paganismo babilônico com o cristianismo, usando homens que " se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. " (Mt. 7:15).
Com Gregório I, o Grande (590-604), um dos administradores mais capazes do papado romano, se inicia o período de crescimento do poder papal, quem se preocupou pela conversão dos pagãos das nações na Europa, e trazer à fé ortodoxa aos arianos das tribos bárbaras dos godos e visigodos. Era filho de Gordiano, rico senador romano, e Silvia, também da família patrícia e descendente direta do papa Félix IV, a qual foi mais tarde canonizada. Gregório colocou as bases para o poder temporal ou político que o papado romano exerceria na Europa ocidental nas seguintes nove centúrias, e fez os preparativos para fazer do pontificado o virtual governante na província que rodeava Roma, em uma época em que começava o expansionismo da ingerência do papado em política; além disso, Gregório Magno desenvolveu e impulsionou certas doutrinas, como a adoração às imagens e a transubstanciação. A respeito das imagens, é bom conhecer a sutileza empregada por Gregório Magno para introduzir e avalizar este costume reprovado pelas Escrituras. Diz uma parte de uma carta enviada por Gregório a Ciríaco, abad do monastério de São André, nas Gálias: «Em nome de Jesus Cristo, querido irmão nosso, louvamos o zelo que haveis mostrado rompendo as imagens, e aplaudimos que hajais arrojado do templo os ídolos fabricados pelas mãos dos homens, toda vez que usurpam a adoração devida unicamente à Divindade. Isto não obstante, vosso ardor os têm lançado longe; vós, com algumas mutações, devíeis transformar os ídolos em imagens de nossos mártires, e conserva-las em nossos templos. Porque é de se saber que é permitido colocar quadros nas igrejas a fim de que as pessoas simples conheçam os divinos mistérios de uma religião, que não pode estudar nos livros» (Maurício de Chatre. História dos Papas e os Reis. Tomo I, pág. 397. CLIE, 1993). De maneira, pois, que encheu os templos de quadros e ornamentos preciosos, e trouxe o brilho e a pompa nas cerimônias religiosas, chegando inclusive a transigir com as crenças das nações idólatras, introduzindo seus ritos e seus dogmas nos costumes do cristianismo.
A respeito dos antigos templos pagãos, vemos uma pequena parte de uma carta dirigida por Gregório a Agostinho, apóstolo da Inglaterra: «Guarda-os muito de destruir estes edifícios; basta romper os ídolos que contém, e purificar seu interior com água benta. Podereis em seguida levantar altares cristãos, e colocar as relíquias debaixo das santas abóbadas. Recorda, também, que é preciso desterrar ao demônio dos monumentos de seu culto, mas sem que se destrua estes últimos; ao conservar-lhes sereis úteis à causa de Deus, pois os pagãos, cujos pés mancham com freqüência os ladrilhos destes templos, chegarão a converter-se, ainda que não seja mais que para orar nos lugares onde estavam costumados a dirigir súplicas aos deuses; e os que tem o costume de imolar vítimas ao inferno, abandonarão seus ímpios sacrifícios pelo esplendor de vossas cerimônias» (Ibid. pág.401). Se interessou pela música litúrgica, compilando-a, fazendo decisivas modificações e ditando o que havia sido escrito em tempos passados, música conhecida até a atualidade como canto gregoriano.
Gregório o Grande divulgou a doutrina do purgatório, que havia tomado de Agostinho, ensinando que o purgatório é um estado, um fogo, no qual os cristãos são purgados de seus pecados levianos antes do juízo final.*(2) De acordo com o enfoque doutrinal sobre o batismo em sua época, ensinava que os homens têm que arrependerem-se de pecados cometidos depois do batismo. Assim mesmo ensinava que a contrição dos homens por seus pecados condicionava o perdão de Deus, e que as obras de penitência aliviam e limpam o peso da culpa, livrando da disciplina do purgatório. Introduzido o valor das missas como ajuda pelas almas que estiverem no purgatório. Também ensinou que as missas e a ajuda dos mártires e santos em qualidade de advogados servem para aliviar a disciplina prescrita para os cristãos vivos que se arrependem de seus pecados pós-batismais, invalidando a Palavra de Deus que textualmente diz: " Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, " (1 Tm. 2:5). Estes ensinamentos torcidos do catolicismo romano constituíram as bases para o posterior comércio de indulgências.
*(2) Diz Chàtre a seguinte pérola, na obra citada, pág. 400: «Descobrimento do novo mundo Purgatório. Alimentado pela leitura dos autores latinos, (Gregório) havia aprendido de Virgílio "que as almas humanas se achavam encerradas na prisão obscura do corpo, onde adquiriam uma mancha carnal, conservando um resto de sua corrupção, mesmo depois de emancipar-se de sua existência mundana". O poeta havia dito: "Para purificar-se as faz sofrer vários suplícios: a umas estão suspendidas no éter, e são brinquedos das tempestades; as outras expiam seus crimes no abismo das águas; a chama devora as mais culpáveis, e nenhuma se acha isento de castigo. Existem algumas almas situadas nos Campos Elíseos, onde aguardam que os anos as purifiquem das manchas de sua existência terrestre, e lhes devolvam sua primitiva pureza, essência suprema, emanação divina. Depois de haver cruzado muitos séculos em tão ignorada estância, as almas a deixam, e Deus as chama às margens do Lethe ( um dos cinco rios do Hades na mitilogia grega)". O Purgatório foi conquistado pelo Papa: tem sido a grande América. Em seus diálogos e em seus salmos da penitência, Gregório se expressa nestes termos: "Quando se têm emancipado de sua prisão terrestre, as almas culpáveis são condenadas a suplícios cuja duração é infinita; as que no mundo só tem cometido algumas faltas ligeiras, alcançam a vida eterna depois de haver-se regenerado em chamas purificadoras..." Outro descobrimento fez o sábio Papa: a transubstanciação do paganismo no cristianismo».


Capítulo IV
T I A T I R A
(2a. parte)


As fraudes píos e a feudalização do papado

Depois que Carlos Martel conteve a invasão muçulmana à Europa em 732 na batalha de Poitiers, ao sul da França, em 750 o papa Zacarias legitimou o golpe de estado que levou a Pepino o Breve, filho de Carlos Martel, ao trono da França. Este monarca, a pedido do papa Estevão II, arrebatou aos lombardos da Itália um conjunto de terras compreendidas no Exarcado e a Pentápolis, que entregou ao papado (756), recebendo a sua vez do papa o título de Patrício dos romanos, título que refletia uma missão protetora sobre Roma. Esta foi a origem dos chamados Estados Pontifícios, recebendo assim o romano pontífice plenamente o poder temporal de mãos de outro mandatário do mundo. Mas o curioso é que tudo isso ocorre ao tempo em que foi posto em circulação um falso documento relacionado com uma suposta Donação de Constantino o Grande (se pode ler este falso documento no apêndice do presente capítulo) de uma parte de seu Império; que pretende a donação? Que "a cidade de Roma e todas as províncias, distritos e cidades da Itália" foram donados por Constantino ao papa Silvestre I (314-335), e a seus sucessores. Trata-se de uma dessas famosas "fraudes píos", escrito no século VIII, aparentando, claro, que havia sido escrito no século IV, na vida do imperador Constantino, por meio do qual se pretende demonstrar que Constantino, nos começos do século IV, por meio desse documento, havia dado ao bispo de Roma, nesse momento Silvestre I, autoridade suprema sobre todas as províncias imperiais da Europa, ainda por cima dos imperadores. Que motivo aparente houve para essa donação? Uma suposta cura milagrosa da lepra, que imaginariamente sofrera Constantino, "milagre" ocorrido quando Silvestre lhe administrava o batismo. Nesse documento espúrio parece que Constantino confere ao papado o palácio de Letrán em Roma, a tiara e todas as vestimentas e insígnias imperiais.
A razão apresentada é que Constantino transladou a capital imperial de Roma à Constantinopla. Isso justificava os chamados Estados Pontifícios. É imperativo ter em conta que durante o reinado de Constantino o Grande não existia o papado romano. Durante séculos este documento serviu aos interesses do papado romano para justificar também suas pretensões e o direito de ingerência nos assuntos das igrejas cristãs e soberanos europeus, e para fortalecer a autoridade do papado em uma época quando esse sistema estava em perigo de desabar pela proliferação de "igrejas" tribais, reais e feudais. Eis ai um espúrio documento circunstancialmente saindo do punho de um imperador que jamais se despojou de sua dignidade de sumo pontífice babilônico, e no qual vemos um vivo retrato da prostituta vestida de púrpura montada encima da besta, que nos descreve o capítulo 17 de Apocalipse.
Quando se escreveu este anacrônico documento encaminhado a Constantino, era uma época obscura na qual abundava a ignorância e as pessoas eram facilmente enganadas, e, além disso, carecia de meios para provar as falsificações, de tal maneira que só no Renascimento e na aurora da Reforma, quando Eugênio IV ocupava o cargo de papa, houve clareza de que estes documentos careciam de fundamento, e se provou que eram uma falsificação. O espúrio destes documentos foi demonstrado, entre outros estudiosos, pelo engenho dos eruditos da época, Nicolau de Cusa em 1433 e Laurêncio Valla em 1440. Valla, secretário papal e cônego da Basílica de São João de Letrán em Roma, foi um humanista dotado de suficiente astúcia crítica para revelar o caráter espúrio destes documentos, como também se deleitava em manifestar que o chamado credo dos apóstolos não havia sido relatado pelos doze apóstolos, como se havia difundido. Também alentou o estudo do hebraico e do grego a fim de que se conhecera a Escritura em seus idiomas originais e com ele se propôs debilitar a confiança na Vulgata como versão autorizada por Roma, devido a seus erros implícitos.
Outro "fraude pío" de maior influência ainda foi uma série de documentos que se conhecem como os Falsos Decretais de Isidoro, publicadas ao redor do ano 830, professando haver sido compiladas por um tal Isidoro Mercador (Isidoro, bispo de Sevilla, Espanha (560 - 636), é considerado o personagem mais influente durante os reinados dos reis visigodos Liuva II, Witerico, Gundemaro, Sisebuto, Recaredo II, Suintila e Sisenando. As falsas Decretais de Isidoro foram atribuídas deliberadamente a Isidoro, como colecionadas por ele, a sabendas que eram documentos espúrios, a fim de dar-lhes credibilidade devido ao prestígio e genuína autoridade de que gozou Isidoro na Espanha e fora dela. Sobre as Pseudo-Isidorianas se fundamentou a edificação da monarquia papal, edificação que seguiu em pé aumentada, mesmo depois que os homens descobriram que tudo havia sido uma espantosa fraude) e ser decisões adotadas pelos concílios e primitivos bispos de Roma desde os apóstolos (por exemplo, a Anacleto, bispo de Roma em 103-112, se lhe atribui três das falsas decretais), reclamando a suprema autoridade do papa sobre a igreja universal, consolidar a disciplina eclesiástica e a independência da igreja do Estado, entre outras coisas. Os escritos falsos foram habilmente combinados com outros autênticos, como cartas conciliares, cartas papais e outros, mas nada sabia distinguir entre o verdadeiro e o falso. Em uma época cheia de atraso, ignorância e superstição, quando não se fazia exame crítico de documento algum, estes escritos foram, aceitos como genuínos, e foram usados para afirmar as pretensões papais por centos de anos. Julgue o leitor o espúrio destas pseudo-isidorianas, se põe aos primeiros bispos de Roma a citar a Jerônimo, o autor da versão bíblica a Vulgata Latina, muito antes de que este nascera. Essas Decretais fizeram da supremacia romana uma monarquia sacerdotal absoluta, a tal ponto que o papa Nicolau I (858-867) chegou a afirmar que esses escritos espúrios eram iguais às Escrituras em autoridade, e em nome de uma grande mentira, os papas romanos se constituíram em donos e senhores de todos os homens. No século XVI, as Decretais passaram pela peneira da crítica erudita, tanto pelo lado protestante como pelo dos católicos, até que por fim o papa Pío VI reconheceu a fraude em 1789; mas já o mal havia sido semeado e suas funestas conseqüências ainda persistem e persistirão até que a grande prostituta receba seu justo juízo e seja destruída pela besta nos dias finais desta era, conforme o tem disposto o Senhor em Sua Palavra.
Registra-se assim mesmo que o papa Leão III é expulso ou foge de Roma a causa de um levantamento, mas se sabe por uma carta do ano 799 de Albino Alcuíno, eclesiástico inglês e conselheiro de Carlos magno (742-814), que este restabelece ao pontífice, quem a sua vez, o 23 de dezembro do ano 800, coroa como imperador dos romanos e com o nome de Carlos Augusto a este filho de Pepino o Breve, "reconstituindo" assim o Santo Império Romano do Ocidente, através de uma ficção de aclamação por parte do povo de Roma. Carlos magno, em sua condição de "protetor da igreja, designado por Deus", e influenciado pelo agostinismo político, tem ingerência nos assuntos eclesiásticos, como presidir sínodos, intervenção em questões teológicas e doutrinais, em assuntos econômicos e administrativos, nomeação de bispos e abades aos que transforma em funcionários imperiais, e lhe da inclusive conselhos espirituais ao papa.
Em 962, Otão I, foi coroado pelo papa João XII como imperador do Santo Império Romano Germânico, instituição que havia de persistir até 1806. Levemos em conta que este imperador era descendente de Carlos magno por parte de sua mãe. Os dois, o imperador e o papa, firmaram um acordo, o Privilegium Ottonis, por meio do qual Otão concedeu ao papa a jurisdição temporal sobre umas três quartas partes da Itália, e por sua parte os romanos se comprometeram a não consagrar como papa a nenhum que não jurasse fidelidade ao imperador. Uma das razões desta instituição imperial era que na teoria o cristianismo havia de ter duas cabeças terrenas, ambas "divinamente comissionadas", a uma civil, o imperador, e a outra espiritual, o papa romano.
Mas na prática o ideal de reunir o cristianismo em uma só unidade debaixo o duplo domínio do santo império romano germânico e o papado, jamais pode realizar-se; ao contrário, cada monarca europeu aspirava controlar aquela porção eclesiástica que estava dentro de seus domínios, e se ressentia de qualquer interferência do papado, e isto se analisa como uma preparação previa à posterior e conjuntural formação das "igrejas nacionais" a raiz da Reforma. Sobre este assunto voltaremos no capítulo relacionado com Sardes.
Todo o anterior deu como resultado a feudalização do pontificado, e se estabeleceu uma espécie de concordata entre o papado e o imperador romano-germânico, no que ao final de contas era difícil determinar quem mandava em quem em um mar de confusões a respeito às relações entre o poder secular e o poder religioso. Bispos recebendo terras dos senhores feudais, caindo na tríplice condição de eclesiásticos-vassalos-pseudo senhores feudais. Conseqüências: Simonia, ou obtenção das dignidades eclesiásticas a troca de dinheiro, e nicolaísmo, ou desfrute de ditos cargos por pessoas sem vocação, como produto das investiduras laicas. Ao ir declinando o poder dos monarcas carlovíngios depois de acontecida a morte de Carlos magno, foi aumentando o do papado romano, e os bispos abades chegaram a ser senhores feudais, e em muito pouco se distinguiam de seus vizinhos laicos de não ser em seus títulos e funções eclesiásticas. espírito desta situação se há perpetuado como uma herança até os tempos contemporâneos.

O cesaropapismo no zênite


Não podemos deixar de registrar a errada interpretação que a teologia medieval deu à obra magistral de Agostinho, a Cidade de Deus. Agostinho enfatiza o enfoque apologético da teologia da história, mas os teólogos da igreja apóstata a interpretam como uma prova da superioridade da autoridade espiritual sobre a autoridade secular, o qual dava um grande respaldo às pretensões papais. Paulatinamente e sem fundamento e respaldo escriturário foi se esboçando e divulgando nessa pacata e ignorante sociedade medieval a idéia de que o papado romano e toda sua montagem temporal dava cumprimento ao profético reino de Deus na terra, mutilando a profecia, claro está, de muitos elementos fundamentais, como o que o verdadeiro Rei é o Senhor Jesus Cristo e não o papa, que o tempo desse reinado se da no marco de Sua segunda vinda, que a capital desse reino não é Roma senão Jerusalém, que nesse tempo não haverá cárceres, nem exército terrenos, nem inquisição, nem violência, nem fome, época em que os homens construirão suas casas e poderão viver nelas, tempo no qual eventualmente os leões e as feras pastarão com o gado, e as crianças brincarão com as serpentes. Ao respeito diz A. Gibert:
"Vemos pelas epístolas do Novo Testamento que os primeiros cristãos esperavam constantemente ao Senhor Jesus. Na era das perseguições esta esperança dava força e ânimos às almas. Mas derrepente a Igreja se estabeleceu no mundo e a visão do regresso pessoal de Cristo foi perdida de vista. Se falava do juízo vindouro, isso sim, do gozo dos eleitos, do "fim do mundo", mas todo ele de forma muito vaga, mesclada com muitas superstições e fábulas. Alguns "Pais da Igreja" se ocuparam dos escritos proféticos e sua interpretação, como Clemente e Irineu, no segundo século; mais tarde, Eusébio, Jerônimo e, sobre tudo, Agostinho; mas eles interpretavam como já cumpridos os juízos de Apocalipse, os quais relacionavam com os tempos do Império Romano. (Para eles o Anticristo era dito Império, perseguidor dos fiéis.) Mas uma vez chegado o triunfo da Roma papal consideraram a esta como a Nova Jerusalém e a relacionaram com todas as promessas das profecias. Somente alguns espíritos seletos no curso da Idade Média chegaram a ser conduzidos à idéia de um reino futuro de Cristo sobre a terra. Outros, ante os escândalos de Roma, interpretaram que o Papa era o Anticristo. Os reformadores retiveram a mesma idéia e não investigaram apenas nos detalhes da Revelação. Entretanto, em alguns teólogos, tanto católicos como protestantes, se despertou a convicção de que os acontecimentos relatados simbolicamente no Apocalipse, são dirigidos ao fim da era cristã e o que a segue, e que conduziam a um reino milenar que há de ser estabelecido depois dos juízos divinos, mediante a conversão do mundo". (A. Gibert, em o Prefácio do Estudo sobre o Livro de Apocalipse, de J. N. Darby, op. cit., pág. 11).
Mas apesar de todas estas clarezas bíblicas, essas outras enganosas idéias foram infundidas em uma sociedade que não conhecia a Bíblia nem as verdades de Deus, e o cesaropapismo seguiu adiante e teve seu período culminante durante uns cento e cinqüenta anos entre 1073 e 1216, época que se destaca porque o papado romano gozou de um poder quase absoluto, não somente sobre o sistema católico romano, senão sobre as nações da Europa, cujo topo foi alcançado durante o governo de Gregório VII (1023-1085), mais conhecido por Hildebrando, seu nome de família. Parece haver pertencido a uma família aristocrática, pois a mãe fazia parte de uma família de banqueiros; nascido em um povo da Toscana, na Itália; filho de um carpinteiro. Estudou no monastério de Clugni, praticando ali um ascetismo rigoroso. Dali foi chamado por Leão IX (1049-1054) para que lhe servisse de conselheiro, e o fez superior do monastério de São Paulo Extramuros, em Roma, o qual se encontrava moralmente muito degradado. Hildebrando era um homem muito enérgico, de caráter soberbo e veemente. Leão IX não tomava nenhuma determinação de importância sem consultar com Hildebrando, quem se constituiu no poder atrás o trono durante uns vinte anos, e era quem elegia aos papas sucessivos à morte do reinante, pelo qual chegaram a chamar-lhe "fazedor de papas", antes de empregar a tríplice coroa como sucessor de Alexandre II em 1073, até sua morte em 1085.
Liberou o sistema católico romano da dominação do Estado, e lhe pôs fim à nomeação dos papas e os bispos e pelos reis e imperadores. Nessa época muitos soberanos, em troca de fidelidade feudal, ofereciam aos clérigos um cajado e anel episcopal. Muitos prelados e clérigos o odiavam porque se propôs reformar o corrompido clero e acabar com a simonia, ou seja, a compra e arrendamento de postos nesse sistema religioso. Também pôs em vigor o celibato clerical, anteriormente aprovado, contrariando a Palavra de Deus que diz expressamente que o bispo tenha sua esposa e seus filhos (cfr. 1 Timóteo 3:1-4; Tito 1:6).
Existe um documento de Hildebrando titulado Dictatus Papæ ("No século XI, com Gregório VII, deu lugar a uma volta decisiva dentro da própria estrutura do poder. Em seu Dictatus Papæ (ano 1075), o papa se levantou contra a prepotência do poder secular que havia degenerado em simonia, nicolaísmo e toda classe de sacrilégios, e inaugurou a ideologia do poder absoluto do papado... O papa concebe a si mesmo, misticamente, como o único reflexo do poder divino na ordem da criação. Ele é seu vigário e suplente. Neste sentido há de se entender as proposições formuladas no Dictatus Papæ... O Summus Pontifex assumia, pois, a herança do Império Romano e se instituía como poder absoluto, unindo em sua pessoa o sacerdotium e o regnum. Era a ditadura do papa". José Grau. Catolicismo Romano: Orígenes e Desenvolvimento. EEE, 1990, pág. 1051) no qual define a posição papal mediante vinte e sete afirmações, como:
- A igreja romana foi fundada por Deus.
- Só o pontífice romano merece o título de "universal".
- Somente ele pode depor ou reinstalar aos bispos.
- Só ele pode usar a insígnia imperial.
- Ele é o único homem a cujos pés devem beijar os príncipes.
- Ele pode depor aos imperadores.
- Ele pode transladar aos bispos de uma sede a outra.
- Pode dividir bispados ricos e unificar os pobres.
- Tem a autoridade de ordenar clérigos de qualquer igreja, e quem seja por ele ordenado não pode receber um grau maior da parte de outro bispo.
- Nenhum sínodo pode ser chamado geral sem sua autorização.
- Uma sentença por ele expedida não pode ser anulada por nada senão por ele mesmo.
- O papa romano não pode ser julgado por nada.
- A ele devem ser apresentados para sua resolução os casos importantes de todas as igrejas.
- A igreja católica nunca errou, nem errará jamais por toda a eternidade.
- Aquele que não esta em paz com a igreja romana não será tido por católico.
- O pontífice romano pode liberar os súditos da fidelidade à um monarca iniquo, ou ao qual estejam sujeitos a lealdade a homens malvados. (GREGÓRIO VII: Registrum, PATROLOGÍA LATINA, CXLVIII).
Como podemos observar, um dos propósitos de Hildebrando foi submeter todos os governos ao papado romano. Alguns governantes europeus como o imperador alemão Henrique IV, ambicionavam dominar a toda Europa, o qual também traficava com os cargos eclesiásticos. Este imperador se desgostou com o pontífice Hildebrando e tratou de depor ao papa mediante um sínodo de bispos alemães que convocou. A reação de Hildebrando foi a de excomungar a Henrique IV, advertindo a seus súditos que não estavam obrigados a guardar lealdade a seu excomungado soberano.
A história registra que Hildebrando pôs ao imperador em uma situação de impotência, e em janeiro de 1077, o imperador teve que humilhar-se ao papa ante a porta do castelo em Canosa, onde havia esperado afora durante três dias, descalço, com frio e, segundo ele relato histórico, lhe serviu de estribo para que Hildebrando montasse a seu cavalo. Ele supersticioso e ignorante povo dessa época cria cegamente no "poder das chaves", e a generalizada opinião era que o papa podia mandar às almas ao inferno se ele assim o desejasse; e estas coisas ajudaram a Hildebrando a que, sem necessidade de exércitos pudesse impor seu poder sobre todas as nações da Europa, incluindo os imperadores.
O reinado de Hildebrando sentou as bases para que exercessem poder autocrático sucessores deles do cunho de Inocêncio III (1198-1216), quem em opinião de alguns é o verdadeiro representante da maior altura do poder terreno do pontificado romano e sua influência política na Europa Ocidental. O verdadeiro nome deste aristocrático personagem é Lotário de Conti di Segni. Ao ser coroado papa disse: "O sucessor de são Pedro ocupa uma posição intermediária entre Deus e o homem. É inferior a Deus mas superior ao homem. É o juiz de todos, mas não é julgado de nada". Também uma carta oficial sua diz que ao papa "lhe havia sido encomendada não somente toda a igreja, senão todo o mundo, com o direito de dispor finalmente da coroa imperial e de todas as demais coroas", e assim o sustentou durante seu reinado.
Inocêncio III era consciente de que aos governantes seculares Deus lhes confiava certas missões, mas que Deus havia ordenado tanto o poder pontifical como o real (secular), e dizia que assim como Deus havia criado o sol e a lua, e da maneira como esta recebe sua luz daquele, assim o poder do príncipe deriva sua dignidade e esplendor do poder papal, e assim a mesma Roma obrigou aos oficiais civis a que reconhecessem a ele como soberano antes que ao imperador, e chegou a substituir aos juizes imperiais pelos que ele nomeou. Para essa época, a quase totalidade dos povos da Europa ocidental havia sido ganhada à fé cristã mas só como uma aceitação objetiva e nominal, pois a grande maioria não tinha senão um vago conceito da "religião" que haviam abraçado, e longe estavam de conhecer "a soberana vocação de Deus em Cristo Jesus", incluindo ainda, com contadas exceções, ao clero, bispos e aos papas.

Alguns paradoxos do papado romano

Ao decair o Império Romano, o papado foi assumindo muitas das funções antes exercidas e executadas pelo Estado. Da Igreja se foi formando uma organização institucionalizada infestada de contradições com relação ao evangelho, sua fonte escrita natural. Chegou um momento em que a Igreja começou a institucionalizar como herdeira das instituições próprias do Império Romano. Entre outras instituições, a Igreja herdou do Império o direito, a centralização burocrática, a organização política em dioceses e paróquias, o titulativo, os cargos (toda a andaimaria da hierarquia, entre os cargos, o primeiro é o de papa, sucessor do César); tudo isso estranho ao modelo neotestamentário deixado pelo Senhor para Sua Igreja. A Palavra de Deus não admite que as duas cidades, a terrena e a celestial, se mesclem e se confundam, e isso foi o que sucedeu em Tiatira, ainda que esta condição se deu em menor escala em outros períodos proféticos, pois se entende que em muitas igrejas houveram também alguma doses de elementos da cidade terrena mesclados com a cidade de Deus. Devido a essa mescla se têm dado muitas contradições nessa instituição, das quais relacionamos algumas.
O papa romano pretende deslocar ao Espírito Santo dizendo que é o vigário de Cristo na terra, e ostenta o título de Vicarius Filii Dei (vigário do Filho de Deus), mas a Bíblia diz que o verdadeiro Vigário de Cristo agora na Igreja é o Espírito Santo:
" 16 E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco,. 26 mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito. 7 Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei. 13 quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir.14 Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar.15 Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso é que vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar." (João 14:16,26; 16:7,13-15).
A figura do papa como suposto vigário de Cristo é herança babilônica, pois, a diferença do faraó egípcio, o rei mesopotâmico não foi divinizado senão excepcionalmente; na Babilônia o verdadeiro soberano era o deus da cidade, do qual o rei era considerado seu vigário ou regente.
Os romanos pontífices foram considerados na época de seu maior esplendor como os sucessores dos césares, e o papado como o exponente e protetor da Românitas (civilização greco-romana), edificadores de um império cujo centro era Roma, mas à vez apregoando a pretendida sucessão apostólica do primado e de um fictício trono que Pedro jamais teve nem ostentou. Verdadeira conseqüência? O cristianismo foi substituindo a unidade no amor pela visível unidade de sua estrutura, e entrou a mesclar o poder político do império terreno com o poder da cruz e da ressurreição do Senhor Jesus, pelo qual a expressão deste último poder se foi debilitando nesse matrimônio.
Desde Gregório I o Grande, os romanos pontífices começaram a chamarem-se servus servorum Dei (servo dos servos de Deus), como uma interpretação trazida dos cabelos das palavras do Senhor no evangelho quando se referiu aos que desejavam ser os maiores entre os discípulos, dizendo que para alcançá-lo deviam ser servos de todos. Se nos ocorre uma expressão saturada de hipocrisia na boca dos que ocupam o trono papal, pois o romano pontífice vive em um super luxuoso palácio, rodeado de imensas riquezas e serventes, em contraste com o Senhor Jesus, que veio não para ser servido mas para servir, e não teve sequer uma pedra para recostar Sua cabeça.
O papado romano é paradoxo, por quanto é um sistema que navega no controvertido e proceloso mar do mundo, a imoralidade, a intriga, fornicação, derramamento de sangue, simonia, enquanto isso proclama ser o representante de Jesus Cristo na terra. O papado romano em seu afã ecumenista, pretende ser o epítome da unidade, constituindo-se, os que pregam e praticam, em uma verdadeira antinomia com os ensinamentos de quem diz representar, mas através da história suas pomposas vaidades, presunções e atuações, o tem constituído em proeminente obstáculo para a unidade dos diferentes sistemas religiosos cristãos, que algumas correntes proclamam.
Os papas de Roma dizem ser os mentores da paz, mas por suas ambições de poder a história registra que têm tido poderosos exércitos para subjugar, enfrentar e fazer a guerra às potências européias, para imitar aos reis da terra em uma época em que o mais importante e benéfico era fazer a guerra. As Palavras do Senhor Jesus são: " Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. " (Mt. 22:21). Além disso, disse: " Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize. " (João 14:27). As cruzadas representaram um esforço por construir o reino de Deus na terra mediante os mesmos métodos daquele mundo que a Palavra de Deus declara estar em inimizade com o evangelho, e que constitui por si mesmo a antítese do ideal cristão respeito à guerra.
Curiosamente, desde a primeira cruzada, empreendida pelo papa Urbano II em 1096 para ir em auxílio do imperador bizantino contra os muçulmanos e resgatar os lugares santos na Palestina, foi prometida a "indulgência plenária" a todos os que tomaram parte nela, e vida eterna a todos os que perdessem a vida na empresa. Diz-se que foram indiscutíveis protagonistas para a ação da civilização dos bárbaros, mas criaram, promoveram e alentaram a triste célebre Inquisição, página negra que começa e empobrece a história da humanidade. Condenaram a tortura, mas mediante a "santa" Inquisição, aprovaram a tortura e a morte contra seus inimigos, chama-se hereges, protestantes, judeus ou feiticeiros e todos os que recusaram as falsas doutrinas do catolicismo romano.

A coroa pontifícia

A coroa papal é um símbolo do poder e de força terrena, usado para recuperar triunfalmente os saqueios das hordas bárbaras e os embates cobiçosos de imperadores europeus do “nível” de Napoleão Bonaparte, e para impor a vontade cesaropapista sobre as nações sobre mil obscuros anos. O papa romano diz ser o vigário de Cristo, mas ostenta uma coroa de três pisos, a tiara, de ouro fino adornada com cerca de umas 200 pedras preciosas, que tem um valor de milhões de dólares, em contraste com o Senhor Jesus, que durante sua vida terrena não teve outra coroa que a de espinhos. O verdadeiro ouro da Igreja é a vida que Deus nos da pela obra de Seu Filho, é Sua presença em nós, e as pedras preciosas são as formas como Deus por Seu Espírito se forja em nós, Sua obra de purificação e aperfeiçoamento no homem, até que cheguemos " à medida da estatura da plenitude de Cristo " (cfr. Efésios 4:13b).
A tiara papal tem uma história curiosa. Nicolau I (858-867), o primeiro pontífice que soube tirar proveito às espúrias Decretais Isidorianas, foi o papa que instaurou o costume da coroação dos sumos pontífices romanos, ainda que ao princípio se limitara a uma simples coroa chamada "tiara". Hildebrando adotou uma coroa com a inscrição "Corona Regni de Manu Dei". Bonifácio acrescentou uma segunda coroa com as palavras "Diadema imperii de manu Dei"; e João XXII com sua corte em Avinhão, acrescentou uma terceira coroa, aperfeiçoando assim o símbolo. Três coroas: o poder espiritual, o poder temporal e o poder eclesiástico. Esses três poderes papais com que relacionam a tríplice coroa da tiara papal, para alguns correspondem a sua tríplice pretensão teocrática, isto é, que se diz ser senhor e amo da igreja, senhor do mundo e senhor do além túmulo; recordem que se adotam o direito de vender indulgências para que a gente se salve das chamas do purgatório; além de que proclamam que fora da Igreja Católica Romana não há salvação.
Em tempos de Bonifácio VIII (Bento Gaetani), papa romano desde 1294 até 1303, sucessor do octogenário Celestino V, se fez notória a decadência do papado, e, entretanto, este personagem irascível, arrogante, sem tato e amador da magnificência, fez grandes e jamais promulgadas reclamações em favor da autoridade papal, mas com freqüência saia derrotado nesses esforços por impor sua vontade. Bonifácio VIII se pôs a coroa no dia em que fez sua atrevida e falaz declaração: "A igreja tem um corpo e uma cabeça, Cristo e o vigário de Cristo, Pedro e o sucessor de Pedro: em seu poder há duas espadas, uma espiritual e uma temporal; ambas as classes de poder estão nas mãos do romano pontífice". A história assim mesmo registra que este personagem praticou a bruxaria. Mas o mais infame é que professando ser ateu, em um gesto blasfemo apelidou ao Senhor Jesus de mentiroso e hipócrita, quando também disse ter parte com ele (Bonifácio) que era um homicida e um perverso sexual.

O clero

É bíblico que todos os crentes no Senhor Jesus, os filhos de Deus, são sacerdotes para Deus, mas progressivamente e desde antes de mesclar-se a Igreja com o Estado, esta vinha agrupando em torno do clero guiado e orientado pelos bispos, e constituído preferencialmente por eles. Depois que a começos do século II começara a diferenciar o clero dos laicos, com o tempo se desenvolveu um tipo de sacerdócio copiado conscientemente, o mesmo que atos litúrgicos, vestimentas e outras coisas, do sacerdócio judaico dos tempos pré-cristãos e a influência do sacerdócio pagão, com a diferença de que ofereciam sacrifícios incruentos no altar que também haviam copiado, e se foi perdendo a expressão do sacerdócio de todos os crentes. Mudaram a ordem estabelecida por Deus, dividindo os crentes em duas classes: uma de laicos e outra dotada de vestiduras sacerdotais, mitra e até coroa e vestiduras reais. Ainda antes de que fora decretada a tolerância para o cristianismo por parte do Estado, e submergida ainda a Igreja na negra época das perseguições, não poucos bispos começaram a se interessar por seu prestígio pessoal, as vezes imersos em intrigas e pompas do tipo dos dignitários imperiais, o mesmo poder antagônico que crucificou a Jesus.
Se foi introduzindo em muitas partes do Império que nesses imponentes edifícios ou templos erigidos depois de Constantino, houvera um santuário que contivera o altar, o trono do bispo e os assentos do clero, tudo separado por uma divisória para que os laicos não pudessem entrar até lá. Os homens, deixando de lado o estabelecido por Deus de que em cada igreja local se estabelecessem bispos (palavra sinônima de pastor, ancião e presbítero), preferiram que o cargo de bispo fosse o de um ministro de uma grande cidade, que tinha um trono (cátedra) para sentar-se, e um magnífico templo (catedral), desde o qual exercia autoridade sobre as igrejas de uma região. O desenvolvimento hierárquico do clero sem dúvida recebeu a influência da organização militar que distinguiu ao Império Romano. Vindo contra os princípios bíblicos, com o tempo, os bispos das cidades maiores, ou metrópoles, começaram a exercer autoridade sobre os bispos de seus distritos ou províncias e se chamaram arcebispos, metropolitanos. Isto oficialmente foi aprovado no concílio de Antioquía no ano 341. Também se erigiram os patriarcas como os de Jerusalém, Antioquía, Constantinopla, Alexandria e Roma.
Por outro lado, o colégio de cardeais também é copiado das instituições do Império Romano. Em Roma aos magistrados sacerdotais chamavam pontífices, ou seja, o que tinha uma ponte entre os homens e os deuses mediante ritos. A palavra pontífice vem das palavras latinas pons, ponte, e facio, facere, fazer; logo seu significado literal é "construtor de pontes". Igual aos pontífices do paganismo, os pontífices (cardeais) da Roma pagã formavam um Colégio presidido pelo Pontifex Maximus, cargo que na ocasião ostentava o imperador de turno.
A palavra cardeal procede do latim cardinalis, fundamental; também dizem que do latim cardo, que significa bisagra, quicio ou gozne, e que presumidamente indica a importância axial dos cardeais no apóstata sistema católico romano. Então os cardeais são uma continuação dos sacerdotes pagãos da bisagra da Babilônia através de Roma, sacerdotes que serviam em Roma ao deus Jano, o deus pagão das portas e as bisagras, e que por alguma razão se relaciona com o nome de janeiro (em inglês, january), mês que abre o ano. Ainda que o título de cardeal se remontava a mais de mil anos, só em 1150 se constituiu o Sacro Colégio Cardinalício. Nada disto tem que ver com a Bíblia. Levemos em conta que em Babilônia havia um Concílio de Pontífices.
Como seu nome o indica, a cor dos cardeais é o roxo, e o papa Inocêncio IV (1243-1254) aprovou por decreto que o roxo fosse a cor cardinalícia porque mediante esse símbolo, como chefes desse sistema religioso, os cardeais devem mostrar-se dispostos a derramar seu sangue por sua fé. Mas no fundo isso obedece a que são considerados príncipes desse sistema religioso, e o roxo é a cor das vestimentas dos príncipes das nações do mundo. Além disso, longe de ser pelo assunto do sangue, me inclino a crer que é pelo pecado. " 18 Vinde, pois, e arrazoemos, diz o SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã. " (Is. 1:18). Em Apocalipse 17, a Bíblia associa e simboliza o sistema cristão apóstata com uma mulher prostituta vestida de púrpura e escarlata, embriagada do sangue dos mártires de Jesus. Se degenerou tanto a moral no catolicismo romano, que na Idade Media, os cargos eclesiásticos, com freqüência eram vendidos ou adjudicados como prebendas ou dotes, e que muitas vezes as pessoas beneficiárias não exerciam pessoalmente, senão que a sua vez os arrendavam a substitutos por uma renda fixa. Com freqüência se dava o caso de que crianças de doze anos já eram bispos, cardeais e até papas. (Aniceto, bispo de Roma ( 175), ordenou aos presbíteros abaixo do seu mandato que se tosquiassem a cabeça em forma de coroa, tomando o costume do sacrifício de Isis, a deusa egípcia. Maurício da Châtre. A História dos Papas e dos Reis. CLIE 1993, tomo I, pág. 113).
Abaixo da autoridade episcopal estavam os sacerdotes e foram multiplicadas as paróquias, frente às quais havia pelo menos um sacerdote residente que administrava os sacramentos e tinha o cargo de cura animarum, ou seja, o cuidado das almas em sua paróquia, de onde vem a palavra cura. No começo as oferendas dos fiéis eram voluntárias, mas nas paróquias se terminou por estabelecer tarifas para os diferentes serviços prestados pela cura (missas, batismos, casamentos, funerais e outros). Ainda em nossos tempos persiste o velho conflito entre o Estado e a organização eclesiástica e é que o clero segue constituindo uma classe especial, tem suas próprias cortes de justiça e em muitos países argúi que os governantes seculares não o demande ante tribunais civis, nem lhes cobre impostos.

Capítulo IV
TIATIRA
(3a. parte)


A Inquisição
Para erradicar as "heresias", o catolicismo se valeu não somente de cruzadas senão também da inquisição. No princípio, a inquisição não era nova. Levemos em conta que as palavras inquisitio e inquisitor provieram da lei romana e, como muita parte da lei canônica, era tradição do Império Romano. Elias se queixa diante do Senhor que o povo de Israel havia deixado o pacto com Deus. O que aconteceu na Igreja? Repetiu-se a história; se trabalhou por outros interesses e outros princípios impulsionavam o cristianismo, o qual se deslizou por um obscuro túnel, até tal ponto de criar uma verdadeira organização destinada à perseguição e aniquilação dos que ansiavam voltar à verdade de Deus. Jezabel, uma prefiguração bíblica veterotestamentária da igreja apóstata, destruía os profetas do Senhor, os matava, e, ao contrário, introduziu na nação uma enorme quantidade de profetas pagãos (cfr. 1 Reis 18:13,19). Jezabel sabe perfeitamente que eliminando aos autênticos profetas do Senhor, o povo de Deus não recebe a verdadeira orientação divina, ficando assim vulnerável aos falsos profetas, que são experientes em guiar aos crentes à idolatria e ao adultério espiritual.
A Sagrada Congregação da Inquisição, criada por Paulo III em 1542 para combater a heresia, vale dizê-los que não estão de acordo com a política e os postulados cesaropapistas, é conhecida ainda como Santo Oficio, apesar de que seu nome foi mudado por ordem papal em 1965 pelo de Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. e já havia antecedentes da Inquisição desde o século XII. Por exemplo, a história registra de Inocêncio III (1194-1216) que em seus largos vinte e dois anos de papado fez assassinar mais de um milhão de supostos "hereges". Por mais de 500 anos foi usada esta infame arma da Inquisição para lograr manter-se no poder. O catolicismo romano se adota do direito de decidir o que é correto, e quem não esta de acordo, deve ser eliminado. É este o método de evangelizar que o Senhor manda em Sua Palavra?
Durante os períodos de Éfeso e Esmirna, os cristãos foram perseguidos, encarcerados, torturados e mortos por ordem do Império Romano; mas no período de Tiatira, na obscura Idade Média, sua sorte é pior, ao ser cruelmente perseguidos, encarcerados, seus bens confiscados, torturados com os métodos mais sofisticados e levados à forca ou à fogueira, muitas vezes pelo simples ato de encontrar em seu poder um exemplar da Bíblia, tudo isto por ordem de uma instituição criada por quem ostenta o título de vigário de Cristo, o doce Rabino da Galiléia, o mesmo que disse: " 27Digo-vos, porém, a vós outros que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam;28 bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam.29 Ao que te bate numa face, oferece-lhe também a outra; e, ao que tirar a tua capa, deixa-o levar também a túnica; " (Lc. 6:27-29). Por alguma razão nem eles mesmos se atrevem a canonizar a rainha Isabel a Católica, a Jimenez de Cisneros e a Thomas de Torquemada, principais protagonistas da Inquisição espanhola, país onde milhares foram levados à fogueira por sua negativa a "converter-se" e batizar-se à força.
Os primeiros inquisidores foram eleitos principalmente entre os dominicos e os franciscanos. Na prática a inquisição tinham o acusado por culpável enquanto não se provara inocente, e não gozava do direito de conhecer a seus acusadores. Há quem calcula que durante os séculos de barbárie, a Inquisição foi responsável pela covarde morte de uns cinqüenta milhões de pessoas, e a quem se lhe imputa esses crimes? Pode acaso uma instituição abstrata, a diferença de um indivíduo, ser julgada moralmente? Esses crimes públicos foram cometidos por indivíduos que desempenhavam papéis e funções abrigados em uma poderosa e tirana instituição político-religiosa, constituída por cima de quais ostentavam o poder político, militar e econômico. Até o momento alguém conseguiu levar a esta avassaladora instituição ante algum tribunal internacional? A instituição culpável de tantos males na terra se lhe há aplicado o termo convenientemente vago de "a Igreja", com conotações obvias, e sem que se confunda com a Igreja de Jesus Cristo.
Diz-se que a uma instituição não se lhe pode julgar moralmente, Mas se lhe pode julgar desde o ponto de vista da ideologia que a criou e a sustentou. A respeito disto, o mundo deve ter consciência que o cesaropapismo longe está de ter origem cristã, e que chegou um momento histórico de sua formação em que deixou de ser representativo do autêntico cristianismo bíblico. Tanto se afastou essa instituição dos caminhos de Deus, tão infiel tem sido ao Senhor Jesus, que não há feito senão encher as mãos de sangue, precisamente do sangue dos seguidores de Jesus, obedecendo, não os princípios bíblicos, e sim os que tem ditado o príncipe deste mundo desde suas mentiras edênicas, e "regulamentados" no confuso paganismo babilônico. Acaso o cesaropapismo representou alguma vez ao cristianismo bíblico, ortodoxo e verdadeiro? Ao cristianismo de Pedro e de Paulo? De pronto parece ilustrativa, uma vez que um pouco equívoca com respeito à salvação do homem, a seguinte declaração do escritor inglês Aldous Huxley: "A Inquisição queima e tortura com o objetivo de perpetuar um credo, um ritual e uma organização eclesiástico-político-financiera considerada necessária para a salvação do homem". (ALDOUS HUXLEY, "The perennial philosophy", Londres 1946, pág.221).



O Índice

. Estritamente relacionado com a Inquisição ou como uma de suas atividades, o catolicismo romano elaborou um catálogo de livros cuja leitura proibiu e ordenou corrigir, quando eram contrários aos interesses desse sistema religioso. A Congregação do Santo Oficio (Inquisição) redatou em 1557 um documento titulado de Índex Librorum Prohibitorum (Índice dos livros proibidos), com a lista de livros a expurgar-se. Em janeiro de 1599, o papa Paulo IV decretou o Index romano ou "lista de autores e livros em contra dos quais a Inquisição romana e universal ordenava a todos os cristãos se ponham em guarda, debaixo da pena de castigos e degradação". Mas antes dessa data em outros países haviam publicado outros Índices; por exemplo, em 1571 foi publicado outro em Amberes; outro em Madri em 1584; em 1588 outro em Veneza, e em 1607, em Roma se publicou a edição especial do catálogo ou índice oficial de livros de leitura proibida.
Por exemplo, o livro Monarquia, escrito por Dante Alighieri nos começos do século XIV, foi colocado no Índice dos livros proibidos pelo fato de declarar que era necessário para a paz e o bem estar da humanidade o estabelecimento de uma monarquia universal, a qual havia sido designada ao povo de Roma, mas que o imperador recebia sua autoridade diretamente de Deus e não por meio do pontífice romano. Também pela mesma época foi condenado e colocado no índice o Defensor Pacis, livro escrito pelo médico italiano Marsiglio Mainardino e o francês João de Jandum, ambos professores da Universidade de Paris. Este livro, adiantando-se à Reforma, rebateu as pretensões papais da supremacia no Estado e na igreja, pois o papado não deve ter jurisdição sobre as nações; repudiou a idéia de um império cristão universal; declarou que Cristo e os apóstolos não reclamaram para si poder temporal senão que se submeteram a si mesmos e seus bens ao Estado; que o clero devia seguir a norma de absoluta pobreza e que a igreja não devia ostentar autoridade temporal; que na Igreja primitiva não havia distinção entre sacerdotes e bispos, e que todos os bispos eram iguais; atacou a idéia da supremacia papal e suas ênfase nos privilégios do clero e sua adoção do domínio sobre o santo império romano. Os livros do humanista Erasmo de Rotterdam foram postos no Índice porque discrepava com aqueles que se opunham que às Sagradas Escrituras fossem lidas pelo povo.

Jesuítas.

Também se considera historicamente relacionada com a Inquisição a ordem religiosa dos Jesuítas, ponta de lança da reforma católica. Esta controvertida ordem religiosa masculina ocupa o lugar mais importante, proeminente e prestigioso do sistema católico romano. Foi fundada em 1540 pelo aristocrata vasco Ignácio de Loyola, com o nome de Sociedade ( Companhia) de Jesus, com o objetivo de deter o avanço e combater o protestantismo durante o processo da Contra reforma. Pra ninguém é segredo que os jesuítas foram os principais agentes para repelir os avanços do protestantismo, e suas atividades fizeram que a sociedade fora temida tanto por católicos romanos como por protestantes. Têm sido olhados com suspeita, receio e crescente antagonismo inclusive pelos círculos romanos como os membros de outras ordens religiosas e muitos do clero secular, e tem sido considerados por muitos estadistas como baluartes do obscurantismo. Desde suas origens, a Sociedade de Jesus tem se preocupado por atrair aos jovens melhor dotados de todas as épocas.
Através dos séculos, os jesuítas tem se caracterizado por sua lealde ao papa romano, exceto em nossos dias, em que os vinte e sete mil membros da ordem tem vindo a ser importantes atores de enfrentamento e se tem visto envoltos em soterradas controvérsias relacionadas com o dogma ortodoxo do sistema católico romano, e depois de quatrocentos e cinqüenta anos de história, os jesuítas enfrentam muitos inimigos mesmo dentro do Vaticano. Por muito tempo tem se dedicado aparentemente e de faixada as obras missionárias e educativas, meios desde os quais podem influir poderosamente e manejar o timão dos impulsos neurálgicos da sociedade. Não tem sido nenhuma casualidade que os jesuítas se hajam dado á tarefa de educar personagens do tipo de Moliere, Voltaire, Descartes e James Joice, por mencionar alguns. Muitos de seus membros usaram de intrigas políticas para lograr seus fins. Os jesuítas são expertos em entremeter-se na política dos estados, e apoiar movimentos esquerdistas ou francamente comunistas, no marco da chamada "teologia da liberação", como no caso de Nicarágua, onde apoiaram aos revolucionários socialistas a fazerem-se com o poder, estando estreitamente vinculados a movimentos semelhantes na Guatemala e El Salvador.
Pra ninguém é segredo os vínculos que alguns têm tido com a guerrilha colombiana. Em muitos países, incluído Colômbia, os jesuítas os tem expulsado por seu aberto intervencionismo nos assuntos do Estado. Em 1759 foram expulsos dos domínios portugueses; em 1764, da França e suas colônias; em 1767, da Espanha e Nápoles. Em 1773 por quase durante uma geração estiveram suprimidos pelo papa; somente restaurados plenamente em 1814. Nos Estados Unidos de América se opuseram à guerra do Vietnam e jogaram fogo no processamento de Nixon no sonhado caso de Watergate. Eles costumam semear o caos para buscar a desestabilização dos Estados e logo demanda-los ante as organizações internacionais do tipo de Amnistia Internacional, e para levar a cabo seus propósitos costumam participar ativamente em atos de desobediência civil e levar a voz cantante atiçando a caldeira nas pugnas entre os bandos contrários dos partidos políticos. É bem conhecido o feito de que em certos círculos do catolicismo como os jesuítas se têm destacado figuras “abandeiradas” com a "teologia da liberação", um desvio teológico que surge falando de uma chamada "nova igreja", nascida do povo, dotada de novos argumentos, e que centraliza sua atenção na suposta liberação das classes menos favorecidas dos países do terceiro mundo, de seus opressores imperialistas. A teologia da liberação tem seu próprio deus, diferente ao Deus bíblico e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. É um deus panteísta que se inclina a preferir aos pobres, de acordo com os postulados e a concepção teogônico-teológica hegelianos, entre outros, do franciscano peruano Gustavo Gutiérrez. Muitas coisas se podem esperar deste poderoso corpo religioso que, como afirmam alguns, por sua casuística costuma confundir a verdade com a mentira.

Escolasticismo

De 950 a 1350 surgiu na Europa ocidental o escolasticismo, ou teologia escolástica, que se associa com o conhecimento de homens eruditos da época. O escolasticismo foi um movimento de ressurgimento da filosofia grega devido às traduções ao árabe e logo ao latim feitas por judeus e maometanos. Alguns definem a escolástica como um conjunto de sistemas filosóficos cujo espírito está tido de religiosidade, pois tem como tema fundamental a relação da teologia com a filosofia (inclusive proposições metafísicas, teológicas, lógicas, etc.), e na qual se lhe dá a primazia à teologia, mas tendo como fundamento e razão à filosofia, particularmente a aristotélica e a platônica, herdada do mundo greco-romano pré-cristão.
Os escolásticos tinham, a finalidade de encontrar a relação entre a fé e a razão. Esse renovado interesse fazia o estudo da filosofia teve alguma relação também com o avivamento do misticismo pietista que surgiu nos princípios do século XII. Mas, terá alguma relação a razão e suas conotações lógica e metafísica com a fé nos propósitos de Deus e o que tem dado no largo processo da revelação que culminou em Cristo? Devemos ter em conta que Aristóteles não mencionava a Deus, e para ele a "primeira causa" era o principio da existência, não um ser pessoal, e descrevia o universo como eterno.
Alberto Magno e Tomás de Aquino trataram de reconciliar o conhecimento material aristotélico com a revelação suprema do cristianismo, dando lugar ao chamado movimento escolástico. Que os escolásticos hajam feito alguma contribuição original ao estudo da exegese e da teologia bíblica é muito duvidoso, mas esse afã dos escolásticos de reconciliar o dogma com a razão os levou a estabelecer um sistema ordenado de doutrina, o que em alguns de seus exponentes mais conspícuos se conhece como somas teológicas, como a de Tomás de Aquino. Sua contribuição pode traduzir grandemente a preparar o caminho para os reformadores.
Para a maioria dos escolásticos, a fé era primordialmente o sentimento intelectual, mais que a plena confiança em Deus. O escolasticismo e mesmo o neoescolasticismo entrou praticamente na obsolescência nos meios filosóficos e teológicos contemporâneos, mesmo dentro do catolicismo romano. Relacionamos a continuação um superficial perfil das principais figuras do escolasticismo na Idade Media.

Anselmo(1033-1109).
Nasceu em Aosta (Itália). Protagonista do avivamento monástico na Normandia. À idade de 60 anos foi feito arcebispo de Canterbury por Guilherme Rufus em uma época de forte domínio dos laicos sobre os assuntos eclesiásticos, e por estas razões e por apoiar as reformas do papa Hildebrando, como o assunto das investiduras e o celibato clerical, se viu em conflito com Guilherme II da Inglaterra (Rufus) e seu sucessor Henrique I, pelo que ambos chegaram a desterrá-lo.
Anselmo foi chamado "um segundo Agostinho", e grande parte de suas obras foram escritas no monastério de Bec, Normandia, e se compõe de: obras sistemáticas, orações e meditações e cartas. Sustentava que os dogmas maiores do cristianismo (crença em Deus, a natureza de Deus, a Trindade, a imortalidade, a encarnação, morte e ressurreição de Cristo) podiam ser alcançados pela razão. De fato foi um precursor do renascimento teológico no ocidente, pondo as bases para o estudo da teologia escolástica. Suas obras teológicas mais proeminentes foram:
* Monologium (Um Monólogo), é uma meditação acerca de Deus. Sem apelar à Bíblia, trata de provar e descrever a Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo que procede do Pai e do Filho.
* Proslogium (Um discurso), é uma exposição do que com freqüência se chama um argumento ontológico da existência de Deus. Anselmo foi o primeiro em fazê-lo.
* Cur Deus Homo (Por que Deus se fez homem), sobre a encarnação e a propiciação. Pela encarnação em Maria, Jesus Cristo, plenamente Deus e plenamente homem e só Ele, pode fazer a necessária satisfação mediante Seus padecimentos e Sua morte, fazer possível que Deus perdoasse ao homem sem fazer violência ao equilíbrio moral do universo. Opôs-se ao antigo ponto de vista sustentado desde os tempos de Orígenes de que Cristo teve que pagar um resgate ao diabo. Ensinou que Cristo morreu para nos salvar mediante um sacrifício expiatório.
* A procissão do Espírito Santo (sobre a concepção virginal e o pecado original).
* De concordia.
Até o final de sua existência lutou Anselmo com a complicada interrogação de como conciliar o livre arbítrio do homem com a onisciente presciência e a predeterminação de Deus.

Pedro Abelardo (1079-1142).
Teólogo e filósofo escolástico, nascido em Pallet, ao norte da França. Este intrépido personagem foi o pensador mais valoroso da Idade Média, em um período de agitação intelectual. Pode considerar-se como o fundador da universidade de Paris. Era um cristão sincero, mas estava convencido que era a função da razão, com o uso da lógica aristotélica, refutar o erro e ensinar a verdade recebida por meio da revelação e aceitada pela fé. Entendia que o Verbo é a sabedoria (sofía), e os filósofos eram os amigos da sabedoria; dizia que os homens lógicos são os homens do Verbo (lógico de logos).
São famosos seus amores com Eloísa, a sobrinha de Fulbert, canônico da catedral de Notre Dame em Paris, com quem teve um filho ilegítimo, pelo qual se casaram secretamente, mas o Fulbert, enfurecido pelos acontecimentos, o fez castrar por mãos de uns malfeitores, e devido a toda essa oposição, ambos decidiram fazerem-se monges.
Um de seus livros mais famosos foi Sic et Non (Sim e Não), escrito em 1122, no qual pôs de acordo textos aparentemente contraditórios das Sagradas Escrituras. Para Abelardo havia perfeito acordo entre a fé e a razão. Era defensor do livre arbítrio; insistia nas boas obras mais que na obra expiatória de Cristo na cruz; além do mais, se aproximava o monarquismo modalista ou patripasionismo, pois afirmava que «Deus, como poder, é Pai; como sabedoria, é o Filho; como amor, o Espírito», expondo-se em conseqüência à acusação de sabelianismo. Em seus ensinamentos se viam manchas do arianismo e nestorianismo, pois afirmava que «Cristo é o homem assumido pelo Logos», acercando-se demasiado ao conceito das duas personalidades sustentado pelo nestorianismo. Ensinou que o Senhor havia morrido como mártir só para nos dar exemplo. Suas doutrinas teológicas e éticas foram condenadas no concílio de Soissons (1121) e não de Sens (1141).

Hugo de São Victor (1096-1141).
Filho de um conde saxão, passou quase toda sua vida como membro de uma comunidade dos canônicos agostinos de São Victor em Paris, onde se desempenhou como professor. Havendo recebido a influência filosófico teológica de Boécio, escreveu várias obras incluindo comentários exegéticos bíblicos, sobre o sistema de Agostinho, sobre a vida moral, o caminho dos místicos e vários temas de fundo teológico.
Seu maior tratado De Sacramentis Fidei Christianæ (Dos sacramentos da fé cristã), é um exame teológico que compendia a criação, Deus e a Trindade, a queda do homem, o pecado original, a encarnação e os sacramentos. Como figura notável do escolasticismo, Hugo dividiu o conhecimento em dois ramos, a teologia e a filosofia e faz suas indagações acerca da razão. Curiosamente disse que o homem dispõe de três canais ou órgãos mediante os quais recebe o conhecimento: O olho físico, o olho da mente, e o olho do espírito, e ao que se percebe pelo olho do espírito ele o chama a contemplação; mas a sua maneira está afirmando as três partes do homem: corpo, alma e espírito.

Pedro Lombarde (1100-1160).
Este contemporâneo de Abelardo, Bernardo de Claraval e Hugo de São Victor, nasceu em Novara (Lombardia), estudou em Bolonha e Reims e ensinou na escola da catedral de Paris, e em seus últimos anos foi nomeado arcebispo de Paris. Foi influenciado por Abelardo e Hugo de São Victor, e profundamente devedor das contribuições de Agostinho, João Damasceno e Graciano o canonista. Foi conhecido como «o pai da teologia sistemática» e como o "mestre das sentenças" devido a suas famosas Sentenças, o livro de texto mais usado nas faculdades de teologia do medieval, cujo título era Quatuor Libro Sententiarum, ou Quatro Livros de Sentenças, saturados de citações dos chamados pais da Igreja, cujo conteúdo é:
1º - Deus, Sua natureza, a Trindade, os atributos de Deus, a predestinação.
2º - A criação de Deus, os anjos, o homem, o livre arbítrio, a necessidade da redenção.
3º - A obra da redenção efetuada por Cristo, a questão de se Cristo era plenamente humano, os frutos do Espírito e as sete virtudes cardeais. Um erro que Lombarde teve consistiu em que em matéria cristológica praticamente nega a humanidade de Cristo, pois afirmava que «o Logos tomou a natureza humana só como uma vestidura para fazer-se visível ante os olhos dos homens».
4º - Os sacramentos e a escatologia. Foi um dos primeiros em afirmar que os sacramentos eram sete, sistematizando desta maneira algo que não tem respaldo bíblico, pois de acordo com a Palavra de Deus o Senhor só deixou duas ordenanças: o batismo e a santa ceia. Contribuiu à dogmatização da crença na eficácia dos sacramentos como geradores ou causantes da graça, assunto este sustentado ainda nos círculos católico-romanos.

Boa ventura (João de Fidanza) (1221-1274),
Chamado o doutor seráphicus. Superior e reformador dos franciscanos à morte de Francisco de Assis, converteu essa ordem religiosa em um instrumento ao serviço do papado. Chegou a ser bispo de Albano cardeal, e foi responsável pela eleição de Gregório X em 1271. Há quem o cataloga como um místico influenciado do neoplatonismo através de Agostinho e os escritos atribuídos a Dionísio o Areopagita. Conhecia e fazia uso da dialética escolástica. Outras correntes o tem como um político e homem do mundo, mas suas obras teológicas tem sido consideradas importantes em seu contexto histórico.

Alberto Magno (1200-1280)
Chamado também doutor universal. Nasceu na Alemanha, mas estudou em vários centros culturais, incluindo algumas cidades italianas, chegando a ser um dos engenhos mais universais de seu século, mesmo maior que seu discípulo Tomás de Aquino, pois seus conhecimentos abarcaram a arquitetura, a alquimia, a filosofia, a botânica e a teologia. Com Aquino, se lhes considera os dois mais proeminentes pensadores dominicos. Conhecia o pensamento neoplatônico e aristotélico, e em sua obra Teodicea, ou Tratado de Deus, se mostra influído, alem do mais, pela escola de Agostinho de Hipona e os filósofos judeus e árabes. Diz-se que seu pensamento tem tendências panteístas.

Tomás de Aquino (1224-1274).
Chamado o doutor angélico e doutor communis, e considerado o teólogo mais importante do escolasticismo. Nasceu em Roccasecca, cerca de Monte cassino, filho do conde de Aquino e emparentado com a casa imperial de Hohenstaufem. Este domenico estudou em Paris e Colônia com Alberto Magno. Era tão calado e corpulento quando estudante que lhe chamavam "o boi mudo", mas Alberto dizia: "um dia este boi encherá o mundo com seus mugidos". Ensinou e escreveu em vários países: França, Espanha, Itália, onde foi membro da corte papal. Abaixo da influência da teoria aristotélica e convencido de que a fé e a razão não se contradiziam, senão que se apoiavam mutuamente, intentou sintetizar a teologia e a filosofia, fé e razão, natureza e graça, abaixo da suposição que provinha da mesma fonte, Deus. Mas bem diferia de Agostinho e sua estrutura neoplatônica.
Foi um escritor ubérrimo, mas suas duas obras fundamentais e representativas de seu pensamento são sua Summa Contra Gentiles e sua Summa Theologiæ, que deixou incompleta devido a sua prematura morte à idade de 49 anos. A Summa Theologiæ, ou Suma Teológica foi a obra magna da escolástica, considerada por muito tempo por sacerdotes e teólogos católicos, quase de igual valor que as Sagradas Escrituras.
Não obstante seu aristotelismo, para Tomás de Aquino nem toda a verdade há de ser alcançada pela razão, também pela revelação de Deus, assimilada pela fé em relação com o sentir e a vontade. Para ele a existência de Deus pode demonstrar-se pelo conhecimento que obtemos por nossos sentidos e nossa razão. Não foi um inovador de doutrina alguma, senão um exponente sistemático da teologia católica oficial de seu tempo. Os discípulos de Aquino se enredaram em vãs indagações dando as vezes mais importância ao mero raciocínio que à revelação divina. Em matéria de cristologia, pode afirmar-se que Tomás de Aquino seguia a linha tradicional mantida através dos concílios, mas concordava com Pedro Lombardo em afirmar que o Logos-pessoa havia tomado para si natureza humana impessoal.

João Duns Escoto (1264-1308)
Chamado o Doctor Súptilis. Este franciscano nasceu ao sul da Escócia e estudou em Paris onde recebeu o doutorado em teologia, e foi catedrático em Oxford. Morreu em Colônia tendo um pouco mais de 40 anos. Crítico e oponente de Aquino entre a fé e a razão, pois para ele é impossível comprovar doutrinas chaves por meio da razão. Afirmava que as maiores crenças cristãs devem ser cridas somente sobre a base da autoridade da igreja ou das Escrituras. Devemos ter em conta que para Aquino a vontade de Deus trabalha de acordo com a razão, mesmo da humana, em contrapartida Duns Escoto se inclina pela liberdade e soberania da vontade de Deus, e não atado à razão, ainda que não pensava em Deus como caprichoso, nem como criador de caos, mas foi Sua vontade perfeita a que criou o universo e não Sua razão nem Sua mente. Sua teologia da justificação descansava na ação arbitrária de Deus, quem decide imputar a justiça aos homens; mas este conceito corre o perigo de considerar à paixão de Cristo como não realmente necessária.
Em matéria de Cristologia, Duns Escoto tinha clareza sobre a encarnação do Verbo e a existência das duas naturezas, a divina e a humana, na única Pessoa do Senhor, mas que a natureza humana está subordinada à divina, mas esta não é limitada por sua relação com a natureza humana.

Guilherme de Occam (1300-1349).
Nasceu em Surrey (Inglaterra). Este radical, rebelde e controverso seguidor de Duns Escoto, contribuiu à demolição do escolasticismo, sobrevindo a consumação entre a fé e a razão, argumentando que os dogmas do cristianismo, mesmo os fundamentais como a existência de Deus e a imortalidade da alma, não podem ser provados pela razão e a lógica, senão aceitados pela fé e cridos devido a que estão contidos na Bíblia, pois não se pode conciliar a sabedoria humana com a sabedoria de Deus, entre as quais há um abismo insondável.
Já o disse Paulo que para os sábios deste mundo, incluindo os filósofos gregos, a cruz era uma loucura. A fé se baseia na revelação de Deus aparte de toda prova da razão e do intelecto humanos. Occan se distinguiu também por haver liderado um forte ataque contra o poder político papal, trabalhando pela separação e independência entre o Estado e a igreja, declarando a si mesmo que o papa é um homem falível como todos os mortais, e que não tem poder para adicionar novos artigos de fé. Os escolásticos se esforçaram por conciliar à filosofia grega com a cruz e o que ela representa, e ante sua impotência, este movimento não sobreviveu ao medieval, salvo um eventual ressurgimento no princípio do presente século, conhecido como neoescolasticismo, de efêmera existência.

As Indulgências

Surge na época da escolástica o desenvolvimento do relacionado com as indulgências, algo que tinha suas raízes nas anteriores centúrias do cristianismo, particularmente com o papa Gregório I o Grande, associadas com crenças herdadas da religião babilônica e as filosofias gregas. A raiz da dogmatização do "sacramento" da penitência, o sacerdote se encarregava de impor a disciplina pelos pecados perdoados, e essas disciplinas se catalogavam conforme a gravidade da ofensa, e que oscilavam entre o jejum, as peregrinações (ao Vaticano, a Terra Santa ou outros lugares catalogados como santuários), auto-flagelação, mas também incluía as dádivas ao clero, o qual ocasionou o desenvolvimento da teoria e da prática das indulgências, que foram nos tempos de Lutero o floreiro para que se acendesse a chama da Reforma.
As indulgências no princípio se limitavam a donativos a monastérios e paróquias. O sistema católico começou a ensinar que se as penas "temporais" não se cumpriam nesta vida, seriam cumpridas ou sofridas depois da morte, em um imaginário lugar chamado "purgatório", acerca do qual havia falado tentativamente Agostinho de Hipona, doutrina que afirmou o papa Gregório Magno e que chegou a ser parte da teologia medieval. Inclusive Agostinho mencionou certo benefício que as almas mortas podiam receber da missa, e isso deu base para que as orações, as missas e as indulgências pelos mortos chegaram a ser práticas comuns na igreja apóstata.
Foi assim como no século onze, em pleno apogeu escolástico, começaram a conceder indulgências plenárias, e isso equivalia à remissão de todas as penas temporais pelos pecados, e a pessoa que a recebia já não tinha que sofrer no purgatório, senão que ao morrer ia diretamente ao céu, ou seja, que o pontífice romano pretendia ter e mesmo delegar nos bispos a facultatividade de omitir o castigo temporal pelos pecados. Historicamente o primeiro em conceder as indulgências plenárias foi o papa Urbano II aos que se alistaram na primeira cruzada, e aos que a apoiaram com seus donativos. Mas causa curiosidade que gente pensante da talha de teólogos escolásticos como Alberto Magno, Tomás de Aquino e Alexandre de Hales chegaram a desenvolver o princípio de "a tesouraria da igreja" que, tendo em pouco a obra completa de Cristo na cruz, consistia na peregrina idéia baseada em que os apóstolos, a virgem Maria e os santos mártires haviam feito mais do necessário para assegurar-se a vida do céu, acumulando assim um superávit de merecimento já enriquecido pelo que Cristo havia feito. Era tratado como um tesouro especial da igreja, e que ela repartia por meio dos sacramentos. Estava o Senhor de acordo com tudo isso? Não. Sua Santa Palavra disse que:
" 12 Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome;13 os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus."(João. 1:12-13)." 16 Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.17 Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.18 Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. " (João 3:16-18)." 47 Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna. " (Jo. 6:47)." 1 Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; " (Ro. 5:1)." 8 Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus: 9 não de obras, para que ninguém se glorie. " (Ef. 2:8-9).
" de graça recebestes, de graça dai. " (Mt. 10:8b)." mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. " (Ro. 6:23b)." 1 Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. " (Ro. 8:1).
Das anteriores citações bíblicas se pode deduzir que uma pessoa não pode salvar-se pelas formas ou observâncias externas, nem pelos méritos pessoais nem próprios nem alheio, senão pela obra redentora do Senhor Jesus, e só por ela, e para que pela fé venha Deus a morar dentro do homem por Seu Espírito. Em sua tese número 62, Lutero diz que "o verdadeiro tesouro da Igreja é o sacro santo evangelho da glória e da graça de Deus". Então, que fazer com semelhante superávit de merecimento que se desperdiçava no céu? Fácil; ao papa romano supostamente lhe havia sido concedido aproveitar e transferir parte de dita riqueza a fim de reduzir e mesmo cancelar a quantidade de boas obras exigidas aos pecadores penitentes, como satisfação por suas ofensas. Só faltava a aprovação oficial do Vaticano, a qual foi dada por Clemente VI em 1343.
É necessário levar em conta que foi tão impressionante a estrutura teológica de Agostinho, que desafortunadamente a igreja apóstata só aceitou uma parte de seus conceitos e doutrinas; me atrevo a dizer que aceitou só essa parte que necessariamente não estava sustentada pela Palavra de Deus, ou se estava foi lamentavelmente deturpada. Damos alguns exemplos. Temos mencionado que Agostinho afirmava que tanto os sacramentos como a Palavra de Deus serviam como meios de graça; disso a igreja apóstata pôs a maior ênfase nos sacramentos até o dia de hoje. Agostinho havia feito alguma diferenciação entre a igreja como instituição visível e a igreja como a comunhão dos predestinados, dos que tem o Espírito; a igreja apóstata não chegou a negar a segunda, mas pôs maior ênfase na primeira, e há muitos outros exemplos, até que tudo se foi institucionalizando pelo lado enfatizado.
Toda esta montagem e enredo das indulgências foi ignorado pelos cristãos primitivos; e não é difícil imaginar o paralelo tráfico de influências que se geraria por parte de alguns penitentes buscando influentes alavanca entre os eclesiásticos a fim de que intercederam ante as altas esferas da clerezia para que por meio das indulgências se lhes reduzira o período de prova. De tudo isto podemos concluir facilmente que ao instituir as indulgências pagas como válidas também para o mundo invisível, em seu momento era necessário complementa-lo com o do "purgatório", as missas pelos defuntos, e o culto dos santos.
Mas Deus suscitou pessoas valentes como Antonio, arcebispo de Florência, que se atreveu a escrever: "Não possuímos nenhum testemunho nas Escrituras ou nos Pais para provar as indulgências, senão somente a autoridade de alguns autores modernos" (SUMMA DE TEOLOGÍA, parte 1ª, título 10, cap. 3, pág. 202, Venecia 1582). João de Wesel, eminente professor e reitor da Universidade de Erfurt, onde anos mais tarde estudou Lutero, no ano 1481 morreu condenado por herege por haver ensinado que as indulgências eram um engano piedoso, que o laicado deveria participar da copa na eucaristia e que a autoridade da Bíblia estava por cima dos papas e concílios.
João XXII, quem ocupou o cargo de papa em sua corte em Avinhão, estabeleceu uma constituição relacionada com as taxæ sacræ pænitentiaræ (O nome da Rosa. Umberto Eco. RBA Editores, S.A., Barcelona, 1994. Pág.280), a fim de obter ganâncias com os pecados dos religiosos. Exemplos: Eclesiástico que pecava carnalmente com uma monja, com uma parente ou com uma mulher donzela; pela absolvição devia pagar 67 libras de ouro e 12 soldos. Por atos bestiais devia pagar 200 libras. Por atos com meninos ou animais e não com fêmeas, 100 libras. Uma monja que se houver entregado a vários homens, ao mesmo tempo ou em diferentes ocasiões, dentro ou fora do convento, e que depois aspirara a ser abadesa, devia pagar para obter o perdão papal, 131 libras de ouro e 15 soldos. Quantos papas se enriqueciam neste comércio de indulgências e perdão de pecados?
Também existe um livro que escandalizou a Martinho Lutero, titulado Taxa Cameræ (se pode ler todo este documento no apêndice I do capítulo V, Sardes) seu Cancelleriæ Apostolicæ (A autenticidade desta obra é confirmada por Poliodoro Virvil (De Nat. Rer. Libro VIII)e Claude d’Esoence, reitor da Universidade de Paris (Comentário sobre Tito 1:7). Também Audofredo enumera as edições do livro publicadas em Roma, mais de 25, em uma obra dedicada a Pío VI. Gregório XIII auspiciou uma das tantas edições posteriores), onde Leon X, à ocasião pontífice em tempos de Lutero, estipula a tarifa a pagar para obter do papa o perdão por qualquer classe de pecado. Eis aqui alguns pecados com seus correspondentes preços:
Impureza..................................................... 27 libras
Adultério...................................................... 87 libras
Homicídio de um sacerdote com penitência pública...... 27 libras
Homicídio de um sacerdote com penitência privada..... 63 libras
Por matar um bispo..................................... 131 libras
Concubinato de um sacerdote....................... 21 libras
Uma mulher que bebe uma beberagem para provocar um aborto... 1 ducado e 6 carlines
Violação de um juramento em relação com assuntos civis... 7 libras
Matrimônio em primeiro grau de parentesco....... 1.000 libras
Por um soldado da causa católica que não aceitou a matar a um herege.. 36 libras.
A Reforma lhe pôs fim ao comércio das indulgências? Não; a instituição romano papista a pôs em vigência até os tempos contemporâneos. Na última sessão do concílio de Trento foi aprovado o decreto sobre as indulgências. Então já não só teve aprovação papal senão também aprovação conciliar. Todavia no século XX, o sistema católico romano costuma apresentar certos meios para alcançar a graça de Deus, como os sacramentos, incluindo a confissão e a penitência; as indulgências, ainda que pareça um anacronismo; a mortificação da carne pode ser que a hajam "desdogmatizado", mas a seguem tolerando, e ainda a praticam nos conventos e seminários; todavia fica no ambiente esse fedor de que uma pessoa pelo ato de ingressar em uma ordem religiosa de fato é matriculada em uma privilegiada elite espiritual, de gente especial diante do Senhor.





TIATIRA
(4a. parte)


A condição de Tiatira não melhorará

"Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita." (v.22).
Quando a Igreja decidiu mesclar-se com o paganismo, foi infiel ao Senhor, houve adultério, fornicação, isto é, confusão, então a igreja de Tiatira caiu em uma grave condição espiritual. É prostrada em cama por causa de uma enfermidade incurável, e sobrevêm grande tribulação para os que adulteram com ela, tribulação por certo diferente à que a Igreja têm sofrido ao longo de sua existência desde o dia de Pentecostes, e diferente também à que sobrevirá sobre todos os moradores da terra (cfr. Mateus 24:21). Note que ela não se arrepende; esse sistema seguirá apartado de Deus até os últimos dias, mas o Senhor chama a que se arrependam os que adulteram com ela, a que se arrependam das obras dela. Os que adulteram com esse sistema devem arrepender-se das obras desse sistema. O sistema católico romano não se contaminou só no passado romano; tem seguido contaminando-se ao longo de toda a história, absorvendo e assimilando todos os costumes do paganismo e as coisas relacionadas com a idolatria onde quer que vá. Por exemplo, assimilou o natal e todas as festas pagãs babilônicas e européias e sacramenta todos os rituais indígenas nas terras nas que tem influência.
Vemos então que nos tempos de Tiatira se tem perdido a expressão de muitas coisas que o Senhor deixou em Sua Igreja, como o sacerdócio de todos os crentes, a vida no Espírito, a expressão da vida do Corpo e a Igreja como templo vivo de Deus, mudado pela construção de grandes templos materiais; também se havia perdido o de um candeeiro em cada localidade, foi proibido a leitura da Bíblia e se ocultou a doutrina da salvação por graça por meio da fé. Desde a idade do obscurantismo com suas conversões superficiais e batismos em massa, sua carga de superstição e crenças em astrologia, mesmo em nosso tempo se segue empregando certo tipo de cerimônias religiosas, "sacramentos" e símbolos externos associados com o fetichismo como meios mágicos para evitar o desastre e lograr objetivos desejados.
Assim mesmo vemos como surgiram homens pagãos que se assenhorearam do culto do Senhor abaixo uma falsa roupagem. Pra ninguém é segredo, e menos para eles, que o papado é uma instituição profana, e os papas, longe de ser vigários de Cristo e sucessores de Pedro, não são senão sucessores diretos de um sacerdócio pagão, muitos deles carregados e convictos de fornicação, sodomia, adultério, assassinato, violação, borracheiras, intrigas, e até satanismo, que com freqüência tem sido de tudo menos os homens santos que têm proclamado ser.
Não é o propósito deste livro entrar em detalhes, mas se tem escrito milhares de livros referindo-se a essa instituição e suas imoralidades, com minuciosos detalhes e nomes próprios dos protagonistas, e querer negar esses atos históricos mesmo dos tempos contemporâneos, é como pretender tapar o sol com os dedos, como se diz. Há uma larga e negra lista dessa classe de romanos pontífices da obscura Idade Média. Neste versículo a Bíblia nos diz que na grande tribulação serão achadas pessoas cristãs no estado de Tiatira, ou seja, associadas ou vinculadas com o estado do sistema religioso católico romano e com os sistemas religiosos de tipo denominacional dele derivados, que querem emular o catolicismo romano em seus ritos ou algum aspecto de liturgia, diferença entre clero e crentes laicos, presentes do poder temporal, reverencia excessiva aos pastores, templos feitos com mãos humanas, efeitos de sons e luzes para manejar animicamente as massas, etc....
Há neste momento um chamado do Senhor para que as pessoas que estão ali enredadas se arrependam, se desvinculem desse sistema, e se firmem no Senhor, e dentro das quatro que permanecerão até a vinda do Senhor, busquem a igreja que o Senhor não condena, Filadélfia, para que busquem o estado do cristianismo que representa à igreja bíblica.



O juízo da Grande Prostituta

"23 Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as vossas obras." (v.23).
Na Palavra de Deus está previsto um juízo e uma sentença contra o cristianismo apóstata e infiel, "grande meretriz que se acha sentada sobre muitas águas,
com quem se prostituíram os reis da terra; e, com o vinho de sua devassidão". O sistema católico romano tem continuado exatamente a mesma tática empregada pelo paganismo babilônico de todos os tempos, de dominar aos mesmos sistemas políticos e aos governantes das nações, prática que vem operando desde a Assíria, Egito, Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e o Império Romano. O romanopapismo em toda sua história o tem praticado, e o fará inclusive com o mesmo Anticristo por um pouco de tempo.
"3 Transportou-me o anjo, em espírito, a um deserto e vi uma mulher montada numa besta escarlate, besta repleta de nomes de blasfêmia, com sete cabeças e dez chifres.4 Achava-se a mulher vestida de púrpura e de escarlata, adornada de ouro, de pedras preciosas e de pérolas, tendo na mão um cálice de ouro transbordante de abominações e com as imundícias da sua prostituição.5 Na sua fronte, achava-se escrito um nome, um mistério: BABILÔNIA, A GRANDE, A MÃE DAS MERETRIZES E DAS ABOMINAÇÕES DA TERRA.6 Então, vi a mulher embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus; e, quando a vi, admirei-me com grande espanto." (Ap. 17:3-6).
A besta representa o sistema de governo das nações sobre o qual se senta, tem dominado, o sistema religioso babilônico, e em particular se refere ao que tem surgido da mescla do paganismo com o cristianismo romano, e à que a Palavra chama a grande prostituta. Se adorna de ouro, pedras preciosas e pérolas; mas isso é uma aparência, não é sua edificação sólida e interior; é só uma fachada superficial e atraente, mas que abaixo dessa roupagem oculta as profundezas de Satanás. Se fez rainha e se tem vestido de vestiduras reais, se fez rica e poderosa, mas tem derramado muito sangue dos santos mártires de Jesus e a Bíblia anuncia seu fim, sua morte. Quando será esse fim da prostituta? Quem destruirá a prostituta? A Palavra de Deus diz que as mesmas nações que dão o poder à besta, sobre as quais tem dominado o papado, estas se encarregarão de destruir a grande sistema católico romano, e parece que isto ocorrerá sem fórmula de juízo.
"Os dez chifres que viste e a besta, esses odiarão a meretriz, e a farão devastada e despojada, e lhe comerão as carnes, e a consumirão no fogo." (Ap 17:16). Claro que até a última hora, inclusive nos tempos do anticristo, esse sistema religioso estará confiado em seu poder, suas influências e suas riquezas, e jamais espera algo semelhante. Mas Deus tem determinado que esse seja seu fim "5 porque os seus pecados se acumularam até ao céu, e Deus se lembrou dos atos iníquos que ela praticou.6 Dai-lhe em retribuição como também ela retribuiu, pagai-lhe em dobro segundo as suas obras e, no cálice em que ela misturou bebidas, misturai dobrado para ela.7 O quanto a si mesma se glorificou e viveu em luxúria, dai-lhe em igual medida tormento e pranto, porque diz consigo mesma: Estou sentada como rainha. Viúva, não sou. Pranto, nunca hei de ver!8 Por isso, em um só dia, sobrevirão os seus flagelos: morte, pranto e fome; e será consumida no fogo, porque poderoso é o Senhor Deus, que a julgou." (Ap. 18:5-8). É a prostituta porque no lugar de ter relações espirituais com o Rei dos céus, tem se jogado nos braços dos reis ou governantes da terra.
"3 pois todas as nações têm bebido do vinho do furor da sua prostituição. Com ela se prostituíram os reis da terra. Também os mercadores da terra se enriqueceram à custa da sua luxúria." (Ap. 18:3). Tenha-se em conta que a Igreja de Jesus Cristo não é deste mundo. "14 Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou 15 Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal.16 Eles não são do mundo, como também eu não sou." (Jo. 17:14,16). De maneira que Sua Igreja não deve estabelecer compromissos com o mundo, nem comprometer-se nos interesses políticos e econômicos. Ao falar do falso sistema eclesiástico professo, notemos que o Egito simboliza o mundo de onde saímos e o deserto que passamos, e Deus ainda é clemente com o Egito (Is. 19:22-25), mas a Babilônia representa a religiosidade natural e um sistema espiritual de origem satânica. Tenha-se em conta que um crente pode ser passado do Egito diretamente à Babilônia (At. 7:42-43), sistema que será destruído para sempre (Is. 14:23; Ap. 18:21).
Disse Olabarrieta: "Os filhos que teve Jezabel são hierarquias eclesiásticas com o papa na cabeça, e a estes sim lhes dará a morte".*(1) Historicamente se sabe que o sistema católico romano sofreu um duro revés quando muitos de seus seguidores encontraram a morte durante as famosas cruzadas à Terra Santa, e mais tarde durante as guerras que sobrevieram depois de iniciada a Reforma. A raiz desses duros golpes começou uma decadência da qual não pode sobrepor-se, ou pelo menos não tem voltado a ser o que foi antes da Reforma.
*(1) Cristo e Sua Igreja. Santos Olabarrieta. P.O. Box 24472, Fort Lauderdale, Fl. 33307, USA.

O remanescente de Tiatira
" 24 Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós;25 tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha. " (vv.24-25).
Nos tempos da Jezabel veterotestamentária, depois de haver matado a espada a todos os profetas de Baal, o profeta Elias recebe uma mensagem de Jezabel no sentido de que seria eliminado por ela assim como ele havia feito com os profetas pagãos. Ante semelhante perigo, o profeta de Deus fugiu para salvar a vida, mas por outro lado se sentia abatido e desejava morrer, pelo que pedia a Deus que lhe tirasse a vida, mas havendo-se metido em uma caverna para passar a noite, " 9 Ali, entrou numa caverna, onde passou a noite; e eis que lhe veio a palavra do SENHOR e lhe disse: Que fazes aqui, Elias?10 Ele respondeu: Tenho sido zeloso pelo SENHOR, Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derribaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida. " (1 Re. 19:9-10). Elias se sentia entristecido, assustado, crendo que havia ficado só, e, além do mais, perseguido pela rainha da nação para matá-lo. Mas o Senhor, depois de haver alentado o profeta e de haver 1he dado algumas ordens, lhe disse: " Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que o não beijou " (v.18).
Semelhante à queixa do profeta Elias referente ao ocorrido em Israel, ocorreu com a Igreja do Senhor Jesus Cristo. Os filhos de Deus em Cristo começaram a deixar sua fé e seus princípios bíblicos. Não contentes em deixar o primeiro amor, também deixaram a comunhão e unidade no Espírito, a vida corporativa da Igreja, a obediência absoluta à vontade de Deus, o gozo na comunhão dos santos, a expressão da unidade da Igreja e um candeeiro em cada localidade, o senhorio de Cristo, a autoridade espiritual, a Bíblia como fonte e princípio reitor e normativo, a justificação pela fé, as reuniões da igreja local nas casas, a mutualidade das reuniões dos santos; como essas palavras de Elias quando disse, têm deixado teu pacto, tem derribado teus altares, pois já havia deixado de considerar que a verdadeira Igreja do Senhor somos nós, e não uma organização terrena e hierárquica com que haviam pretendido substituí-la; nem são os templos e as grandes basílicas e catedrais, herança dos sacrários de origem babilônica.
Por meio dessa descarada mescla foram ainda mais longe, também mataram a espada, fogueira, potro, forca e outros meios, aos profetas do Senhor; declararam a Bíblia um livro de leitura proibida pela simples razão de que no Sagrado Livro Deus desmascara todas as suas mentiras e abominações. Trocaram a adoração a Deus pela idolatria, e acendem velas às imagens de Maria, de alguma imaginativa forma de Deus, de santos e mártires mortos e de tudo o que vão canonizando no Vaticano. Contrariando a vontade de Deus, lhes chamaram padres, papas, mestre, doutores e reverendos aos homens, e os que não podem fazer-se chamar sacerdotes, curas, padres ou párocos, se fazem chamar pastores, como se este título designasse a quem exerce o ministério ou função de pastor. Aliás, se colocam como a autoridade máxima de sua respectiva denominação ou organização religiosa, sendo que para a administração e funcionamento da igreja local, os apóstolos nunca designaram pastores assalariados, senão anciãos (bispos) e diáconos, dentro dos irmãos mais maduros espiritualmente da mesma igreja, a fim de que exercessem o governo plural ou colegiado. Na mesma igreja estavam os irmãos que tinham os distintos dons e exerciam os diferentes ministérios. O apóstolo Paulo nunca dirigiu uma carta a um pastor determinado como tal, senão sempre aos santos. Por exemplo, em Filipenses, além dos santos, se dirige aos anciãos (bispos) e diáconos. Jamais uma igreja local foi pastoreada por um pastor enviado da sede da obra.
Sendo que a Palavra de Deus diz que a salvação é um presente de Deus, se atreveram a comercializar com a salvação dos homens, e muitas outras coisas. A toda essa mescla de judaísmo e paganismo babilônico, a esse cativeiro levaram os tesouros da casa do Senhor. Os tesouros da casa de Deus não devem ser usados para a fornicação em sistemas religiosos rebeldes. Na Babilônia foram usados mal os tesouros de Jerusalém, e O que aconteceu na historia com Babilônia? Assim como Elias cria ser o único crente em Jeová que havia ficado em Israel, essa mesma situação se apresenta em Tiatira. O Senhor lhe disse que ainda restam sete mil que não tem dobrado seus joelhos a Baal; ainda que Elias não os veja, aí estão em Israel fiéis ao Senhor; assim mesmo muitas vezes tem pensado se realmente há filhos de Deus em um sistema infiel a Deus, mas Deus disse: "Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás". Isso significa que em Tiatira há filhos de Deus que não tem se contaminado com essas profundidades, essas filosofias dos mistérios satânicos e doutrinas profundas, que são usadas pelo mesmo diabo para corromper à Igreja.
Estão ali de boa fé, crendo que estão fazendo o correto, e se não sabem muita coisa do Senhor, se têm recebido pouco, se de pronto desconhecem muito da Palavra de Deus ou tem sido mal orientados pelos sacerdotes católicos e dirigentes religiosos de denominações ou supostos feudos que dividem o Corpo de Cristo e impedem a comunhão entre os santos de uma localidade ou cidade com seus mandamentos de homens, o Senhor, que os conhece intimamente e os ama como são, lhes diz: "Outra carga não jogarei sobre vós;
25 tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha.". São suficientes os ensinamentos do evangelho para a salvação. Não é necessário outra carga. Se alguém leva a carga imposta pelos homens, deixa a carga de Deus. A carga imposta pelas organizações eclesiásticas podem entrar facilmente dentro das profundezas de Satanás, com seus profundos mistérios, práticas cerimoniais e rituais, mesmo quando os clérigos as cataloguem de profundezas de santidade. É necessário reter o verdadeiro depósito de Deus, o apostólico, até a vinda de Cristo, sem acrescentar-lhe as invenções que os homens tem criado com o passar do tempo. Desde o momento em que Satanás introduziu na igreja apóstata seu próprio trono e sentou nele o seu sumo pontífice, foi fácil introduzir os ensinamentos babilônicos das profundezas de Satanás.
A partir de Tiatira se opera uma troca. Nas três primeiras idades da Igreja: Éfeso, Esmirna e Pérgamo, que compreende a igreja primitiva, a patrística, a das perseguições, a chamada imperial ou constantiniana (católica antiga), o Senhor menciona primeiro o que tem que ouvir o que diz o Espírito, e logo menciona sobre o galardão. Mas a partir de Tiatira há uma troca dessa ordem, e aparece primeiro o galardão. Por quê? Porque a partir de Tiatira se menciona a vinda do Senhor, e isso significa que no cristianismo haverão pessoas que seguirão no estado de Tiatira até que venha o Senhor. Quando vier o Senhor não haverá pessoas no estado de Pérgamo, pois Tiatira saiu de Pérgamo, mas Éfeso passou, Esmirna passou e Pérgamo passou, finalizou, como quando um animal pare um filho e morre. De acordo com o versículo 25, o estado profético de Tiatira, o catolicismo tridentino, o papado romano, toda essa situação não passa, pois seguirá até a vinda do Senhor; e já ao final, o Senhor lhe disse à parte de seu povo que se encontra nesse sistema babilônico: " Ouvi outra voz do céu, dizendo: Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos; " (Ap. 18:4). O catolicismo romano durará até o tempo em que venha Cristo, a grande pedra não cortada por mãos humanas, e rompa e esmiúce toda a construção do poder humano, dos reinos deste mundo, trazendo consigo uma repentina culminação da historia.

O tijolo e a pedra

" 26 Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações,27 e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro " (vv.26-27).
Já temos visto a grosso modo que assim como no Antigo Testamento uma mulher pagã se uniu em matrimônio ilegal e proibido por Deus, com um hebreu, o mesmo sucedeu entre a igreja e o mundo, gerando assim uma grande prostituta, mas em meio de uma condição institucional mundana, abaixo a férula de uma organização religiosa dominante, ambiciosa e contemporizada, inclinada ao domínio temporal e que chegou a dominar o mundo e receber a glória dos homens. Individualmente a cada cristão do tempo de Tiatira, prostituta que chegou a sentar-se sobre o lombo da besta, o Senhor lhe mostra outra alternativa: deixar esse caminho de Jezabel, vencer sobre a tentação de fazer-se governante temporal, guardar Suas obras até o fim e ser fiel, não contaminar-se com a idolatria em qualquer de suas expressões, deixar de morar na terra, onde o príncipe é Satanás, e retomar como corpo a condição de Igreja peregrina nesta terra. Em outras palavras, vencer tudo o que se resume nesse sistema católico romano.
Que promessas há para o vencedor de Tiatira? Governar, reinar com Cristo no Reino vindouro. Os vencedores de Tiatira, os que vencem ao catolicismo e a todo o sistema religioso denominacional dele derivado, também se relacionam com o "filho varão, que regerá com vara de ferro a todas as nações" de Apocalipse 12:5, e com " Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro. " do Salmo 2:9. Quando estarão os vencedores recebendo essa autoridade de quebrantar as nações como vaso de oleiro? Durante o eventual reino milenar. Por que relaciona o Senhor as nações e o sistema religioso dominante com vasilhas de barro? A resposta a temos desde o Gênesis. O diabo e os homens que seguem sua corrente querem imitar a obra de Deus. Satanás e seus seguidores iniciam a construção da cidade terrena, Babilônia, e seu sistema político religioso, não com pedras, senão com tijolos (barro cozido). " 3 E disseram uns aos outros: Vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram-lhes de pedra, e o betume, de argamassa.4 Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos " (Gn. 11:3-4).
O que o homem produz, seus sistemas políticos, religiosos, seus aparatos militares, todo o que se aparta de Deus, é barro, é destrutível; em troca as obras do Senhor Deus se referem à edificação da cidade celestial, a Nova Jerusalém, o edifício de Deus que é a Igreja, com pedras vivas e preciosas. As obras dos homens, por muito que tratem de imitar a obra de Deus, não deixam de ser tijolo. O Senhor convida a vencer guardando as obras de Deus por cima das obras dos homens, e o vencedor receberá a mesma autoridade para governar que recebeu o Senhor Jesus do Pai. As obras da igreja apóstata se realizam debaixo da influência de Satanás.
Disse o jesuíta Alfonso Lano Escobar em sua coluna dominical do periódico O Tempo, falando sobre a existência do inferno: "Nunca tem faltado na história da Igreja alguns fundamentalistas, que em vez de interpretar, se apegam à letra dos textos, fazendo dizer não o que quis o escritor sagrado, inspirado pelo Espírito Santo, senão a mera letra. Esquecem que os textos sagrados são mensagens de Deus, expressados em uma cultura distinta da nossa, e com uma linguagem carregada de mitos, símbolos e hipérboles, todos a serviço de uma mensagem que necessita ser lida criticamente e "traduzido" a nossa época. Hoje na Igreja se trabalha em fazer a "tradução" da fé no inferno, a nossa cultura moderna" ( O TEMPO, Santafé de Bogotá, D.C., Agosto 18 de 1996, página 4A).
Uma vez mais, e não só é assunto do supersticioso medieval, o catolicismo romano segue manifestando que pretendidamente se tem dotado do direito de interpretar, "traduzir" e fazer sua acomodada exegese das Escrituras. Sempre é sabido que os textos bíblicos simplesmente querem dizer o que ali está escrito, e isto para todos os tempos; e se alguma simbologia encerra alguns textos, a mesma Palavra de Deus se encarrega de interpreta-la e dar-nos sua correta exegese e explicação, pois os textos claros podem esclarecer as passagens obscuras. A perspicuidade das Escrituras faz que sejam entendidas por qualquer pessoa espiritual que queira conhecê-las. Para entender o significado das Escrituras não se necessita que a Igreja as interprete por meio de seu magistério, porque isso seria por à Igreja por cima das Escrituras e negar a ação ou obra do Espírito Santo, que nos ensina todas as coisas. A ordem é à inversa, de conformidade com Efésios 2:20, que diz: " edificados( Igreja) sobre o fundamento dos apóstolos e profetas( Escrituras), sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular".
Não é verdade que Deus haja inspirado Sua Palavra para que fora compreendida somente pelas culturas pré-cristãs e apostólica, pois em sua qualidade de eterna, a Palavra de Deus foi revelada igualmente para todos os tempos, com a diferença de que o homem "moderno" não aceita em sua interpretação verdadeira o significado bíblico que não lhe convém, que choca com seus interesses, e é por isso que doutores do cunho de Alfonso Llano Escobar chamem de mitos às verdades eternas que são tão válidas para as tribos hebréias do tempo do César Augusto como para os gênios cibernéticos contemporâneos. Não é de se estranhar que em nossa presente geração haja aparecido em manchete de primeira página dos mais prestigiosos periódicos do mundo, dando a capciosa "notícia" de que o papa romano crê na existência do diabo, como se a existência do diabo dependesse de eventual veredicto papal. Com tudo o que tem sucedido na história, tampouco é de se estranhar que se nos diga que a mater et magistra esta trabalhando para fazê-la contemporizada "tradução" da fé no inferno para a cultura moderna, como se o que Deus tem revelado sobre o inferno em sua Santa Palavra houvesse que se acomodar aos desejos e caprichos do sofisticado e freqüente agnóstico homem contemporâneo. Apesar do aggiornamento*(2) intrínseco do concílio Vaticano II, Tiatira não pode sacudir-se de todo o obstáculos de suas estruturas anacrônicas, produto da caduca civilização medieval com a qual se entreteceu inextricavelmente. Por último, recordemos o que a Escritura diz: " Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas ". É falso atribuir a uma superestrutura universal como a Igreja Romana, os epítetos de "mãe e mestra", partindo da base bíblica que o Espírito Santo é o único Vigário de Cristo na terra (João 14:16), de modo que Sua voz é a que se há de ouvir.
*(2) Aggiornamiento é uma palavra italiana com a conotação de posta ao dia, atualização.

Os vencedores de Tiatira

" dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã 29 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. " (vv.28-29).
Neste sistema eclesiástico condenado por Deus também há vencedores, como os que temos mencionado acima e a esses vencedores de Tiatira o Senhor promete dar-lhes a estrela da manhã. Qual é essa estrela da manhã? É o Senhor Jesus mesmo. " Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas às igrejas. Eu sou a Raiz e a Geração de Davi, a brilhante Estrela da manhã. " (Ap. 22:16). O Senhor está falando a todas as igrejas, não somente à de Tiatira, não só o sistema católico romano. Em todo período profético há vencedores. Em Tiatira, ainda que esteja ali Jezabel, e haja fornicação e idólatras e os que tem conhecido as profundezas de Satanás, apesar de tudo isso, ali está o candeeiro de ouro, e há santos de Deus cheios de Sua graça.
O estado moral do cristão do medieval havia chegado tão baixo, que alguns opinam que se estava dissipando qualquer progresso aparentemente adquirido, tanto a nível clerical, como monacal e laical, tanto que obras literárias como o Decameron de Boccaccio (1313-1375) e O Príncipe de Maquiavel, foram reflexo da vida desse tempo; e há quem chega a expor a duvida de que se na prática a Europa ocidental realmente havia chegado a ser cristã. Mas apesar das aparências, em muitos vasos de barro se manifestou e esteve trabalhando "a excelsa grandeza de Seu poder". Pessoas piedosas como as místicas Catarina de Sena (1347-1380) e Joana D’Arc (1412-1431), eminentes catedráticos e místicos como Pedro de Ailly (1350-1420), João Gerson (1363-1429), participantes ativos no concílio de Constança, e Nicolau de Cusa (1401-1465), quem obteve sua primeira preparação abaixo a direção dos irmãos da Vida Comum, relacionados a sua vez com a Imitação de Cristo, obra atribuída a Tomás de Kempis.
Ainda que já temos tratado algo disto, entretanto, explicamos que há algo curioso e digno de levar-se em conta, e é que nas cartas às igrejas de Éfeso, Esmirna e Pérgamo, as palavras " Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. ", vão presidindo a promessa aos vencedores, mas a partir de Tiatira essa ordem se altera, aparecendo primeiro a promessa aos vencedores, significando com isso que a partir de Tiatira as últimas quatro correspondem a outro tipo de igrejas. As últimas quatro igrejas têm a promessa de que existirão pessoas nessa condição até a vinda do Senhor, não é assim nas primeiras três, que precisam desta indicação, e isso se explica porque a historia de Esmirna se produz depois que termina a época de Éfeso, e o mesmo ocorre com Pérgamo com relação a Esmirna. Tiatira também começa quando se termina o tempo histórico de Pérgamo, mas Sardes começa a existir sem que haja passado o tempo de Tiatira, pois Sardes sai de Tiatira e continuam existindo paralelamente; à sua vez Filadélfia sai de Sardes e Laodicéia de Filadélfia, de tal maneira que as quatro continuam até a eventual segunda vinda do Senhor Jesus Cristo. A mesma historia nos está demonstrando a veracidade e o testemunho profético deste cumprimento.

Os pré-reformadores

Na Idade Média, o cristianismo se identificava mais com uma grande instituição secular ou temporal que com Jesus Cristo, e era mais representativo da cidade terrena que da celestial. Era tão vasta a distância que separava a vida do cristão ordinário das altas demandas impostas por Jesus para o discipulado, que não cabe duvida que urgia um regresso desse cativeiro babilônico em que se encontrava a Igreja, para reiniciar a construção e recuperação de todas as coisas perdidas. Por isso o Senhor levantou a uns quantos santos para que começassem a fazer um labor subterrâneo, preparando a Reforma que se acercava.
Na época de Tiatira há vencedores. Em todas as épocas em que a Igreja se desviou dos propósitos de Deus, houve reações, e no período de Tiatira se levantaram muitos santos que reagiram contra o poder pontifício, do enriquecimento da igreja, da corrupção do clero, e em meio de toda aquela confusão, muitos optaram pela vida monástica e proliferou a criação de novas ordens religiosas como uma forma de fugir daquela contemporização eclesiástica; mas quase todos os que intentaram buscar de novo as fontes do evangelho eram persuadidos, reprimidos, perseguidos, encarcerados e até mortos por sua ousadia. A maioria destes irmãos realmente foram precursores de quem mais tarde Deus levantou para que se dera o que na história se conhece como a Reforma.
Nos tempos de Inocêncio III, por exemplo, surge na Itália o carismático Francisco de Assis (1182-1226), fundador dos irmãos Menores, uma ordem monástica mendicante, quem se apartou do cristianismo católico reagiu de alguma maneira ante esse sistema, e de tal forma influenciou seus seguidores à ala extrema dos franciscanos, composta pelos mais fiéis aos ideais de Francisco, tendia a criticar amargamente ao sistema católico romano, com o qual alguns chegaram a romper, porque tratavam de manterem-se fiéis à Palavra de Deus. Entre outros dignos de menção e que a princípios do século XII foram tidos por hereges pelo romanismo, temos a:

Pedro de Bruys

Cura de uma pequena paróquia dos Alpes franceses, que quando conheceu mais profundamente as verdades do Novo Testamento, pode entender a simplicidade e segurança da salvação pela fé em Cristo, e por vinte anos de ministério itinerante esteve pregando e trazendo à gente a uma fé simples, pois ele mesmo praticava um sistema de vida ascética; e seus seguidores se batizavam depois de fazer sua profissão de fé. Pedro de Bruys recusava o batismo das crianças, a transubstanciação na eucaristia, os templos, as cerimônias eclesiásticas, as orações pelos mortos e a veneração da cruz. Foi apressado enquanto pregava no povoado de San Gilles, em um motim promovido pelas turbas católicas, e este varão, que foi um dos mais esclarecidos precursores da Reforma, foi queimado vivo.

Henrique de Lausana

Contemporâneo do anterior. Também pregou na França. Condenou ao clero de seu tempo como amantes da riqueza e do poder.

Arnaldo de Brescia.

Este italiano estudou teologia em Paris, chegando a ser sacerdote. Desde jovem praticou a pureza da vida e a pobreza, e ansiava que vivesse o ideal cristianismo. Atacou os bispos por contemporizar com o mundo, por sua voracidade, por suas ganâncias ilegais, e lhes exortava a que renunciassem às propriedades e ao poder político. Atacou ao papado e a instância de Adriano IV foi preso por ordem do Santo Imperador Romano Frederico I (Barba ruiva), e enforcado em 1155 pelas autoridades civis de Roma, sendo seu corpo queimado e suas cinzas jogadas ao rio Tiber.

Os Valdenses

Chamados assim por Pedro Valdo ou Valdes, seu primeiro líder, rico comerciante de Lyon (França), quem em 1176 procedeu conforme o jovem rico do evangelho ao qual o Senhor lhe recomenda vender o que tinha e dar aos pobres, para logo subsistir pedindo sua comida diária. Viveu uma vida piedosa, vestindo-se humildemente, tratando de imitar a Cristo e dedicando-se a pregar, pelo que atraiu muitos discípulos, "Os pobres de Lyon". Tratando de conformar-se ao Novo Testamento, não tiveram do papado senão a excomunhão. Os Valdenses se adiantaram ao movimento reformador e ensinavam que o corrupto papado não era a cabeça da Igreja; que as mulheres e os laicos podiam pregar; que as missas e as orações pelos mortos precisavam de respaldo bíblico; que o purgatório consiste nas tribulações que nos sobrevêm nesta vida. Foram considerados hereges e as autoridades civis procuraram elimina-los. Os que sobreviveram à perseguição se refugiaram nos vales de Piamonte. Mais tarde, já nos tempos da Reforma, entre os anos 1530 e 1540, conheceram as idéias da reforma, as acolheram com entusiasmo e experimentaram um avivamento. A confissão valdense de 1655 era de orientação calvinista.

Os Cátaros.

Também surgiram no século XII no norte da Espanha, sul da França e norte da Itália, os Cathari ("os puros"), grupo anti-romano no princípio não cristão associado com os Albigenses, que se consideravam os próprios, os puros, provenientes da linha novaciana. Os cátaros estavam relacionados com as idéias gnósticas, pois eram dualistas com certa mescla maniquéia. Aparte dos princípios gnósticos e maniqueos que temos esboçado em capítulos anteriores, os cátaros ensinavam que havia duas igrejas, uma boa, (a deles) a de Cristo, e a outra mal, a de Roma. Os Albigenses, chamados assim por Albi, um de seus principais centros, se opunham às doutrinas romanas do purgatório, à adoração das imagens e às pretensões sacerdotais. Em 1179, o terceiro concílio Lateranense proclamou uma cruzada contra eles e outros grupos considerados pelo papado como hereges; cruzada esta que se diz haver sido a primeira vez em que se empregava este método contra quem se chamavam cristão. Tudo isso foi por ordem de Inocêncio III. Estes grupos foram extirpados usando o método de arrasar com toda a povoação da região, assassinando assim tanto a católicos como a cátaros e albigenses. Um concílio eclesiástico reunido em Tolosa em 1229 proibiu aos laicos a possessão de exemplares da Bíblia, com exceção dos salmos e as passagens que falavam no breviário, condenando as traduções vernáculas. Esse mesmo concílio sistematizou e elaborou o processo inquisitorial.

John Wycliffe (1320-1384).
Nasceu em Yorkshire (Inglaterra) o chamado "estrela matutina da Reforma", filho de uma família da aristocracia rural. Desde a idade de 15 anos seus pais o dedicaram à vida eclesial e foi levado a estudar teologia na Universidade de Oxford, desde então a segunda na Europa depois da de Paris, chegando a ser um brilhante mestre da filosofia escolástica e teologia. Em sua formação teológica filosófica foi profundamente influenciado por Agostinho e o platonismo; também recebeu influencia de Tomás de Aquino e Duns Escoto. Em 1372 obteve o grau de doutor em teologia e em 1374 recebeu do rei a paróquia de Lutterworth, cargo que ocupou até sua morte. Nesse mesmo ano fez parte de uma comissão real enviada a Bruxelas (Bélgica) a fim de discutir com delegados papais o relacionado com os abusos pelo envio a Inglaterra de tantos eclesiásticos estrangeiros, assunto que tinha relação com o das provisões ou impostos, grandes somas de dinheiro, que Roma exigia ao povo inglês. Essas conversações fracassaram, mas serviram a Wycliffe para amadurecer seus pensamentos e converter-se em um severo crítico e inimigo acérrimo do sistema eclesiástico estabelecido e em especial da hierarquia romana.
Em 1376, em seu tratado De Civili Dominio (O domínio civil) assim como no Determinio quædam de Dominio (sobre o domínio divino), explica que toda propriedade é de Deus e que Deus concede o uso dos bens temporais ao reto e fiel, do contrário se perde. Considerava indigno o sistema eclesiástico de seu tempo, de modo que se um membro do clero tinha por hábito abusar, perdia seus direitos. Assim mesmo sustentava que os romanos pontífices eram falíveis e não os considerava indispensáveis para administrar a igreja, e que um papa mundano era um herege que devia ser tirado do posto. É de se supor a chuva de queixas e acusações contra ele, a tal ponto que em várias ocasiões foi chamado a comparecer ante as autoridades eclesiásticas para responder por seus atos. Em 1377 o arcebispo Sudbury ordenou a Wycliffe comparecer ante o bispo de Londres, mas foi acompanhado por vários protetores com influência na corte, entre os quais se armou uma disputa tal que impediu que se continuasse com o juízo.
O ato de que o parlamento inglês se inspirara em seus tratados para corrigir os abusos eclesiásticos e cercearam a arrecadação de rendas papais do avarento pontificado avinhões, que dessangrava as arcas inglesas, foi favorável a Wycliffe ante as pretensões papais . Em 1378 se deu a "grande cisma do ocidente", quando o catolicismo romano se dividiu por mais de quarenta anos. Nesse ano uns cardeais advogavam a favor de Urbano VI como papa e por Roma como sede, e outros por Clemente VII, com residência em Avinhão. Isto acabou de destruir a confiança e credibilidade de Wycliffe no papado romano, chegando a afirmar que o papado era identificável com o anticristo.
Em um de seus tratados sobre eclesiologia, abordou a doutrina agostiniana da predestinação, concluindo que a verdadeira igreja é integrada só pelos eleitos de Deus, e em conseqüência nenhuma igreja visível pode negar a entrada nem excluir aos membros. Criticou ao sistema monacal. Ensinou o sacerdócio de todos os eleitos, afirmando que o Novo Testamento não reconhece distinção alguma entre sacerdotes e bispos. Condenou o culto aos santos, as relíquias e as peregrinações. Sua Summa Theologiæ é uma recopilação de seus tratados em latim; e uma série de opúsculos reunidos no Trialogus, onde denuncia a transubstanciação como precedente da doutrina da consubstanciação, de Lutero. Para Wycliffe, o Senhor está no pão somente em um sentido sacramental, espiritual e virtuoso. Repudiou as indulgências e as missas pelos mortos, não obstante creu na existência do purgatório. Vários destes argumentos não encontraram apoio entre a equipe de teólogos de Oxford, e muitos deles se opuseram a Wycliffe, sobre tudo quando a universidade passou as mãos de seus inimigos, e foi quando se viu forçado a retirar-se a sua paróquia de Lutterworth até sua morte.
Wycliffe traduziu a Bíblia (Vulgata) ao inglês e insistia em que as Escrituras são a autoridade suprema, devendo ser estudada tanto pelos eclesiásticos como pelos laicos. Despachou "pregadores itinerantes", os quais não levavam denominação uniforme, e pregavam as simples verdades da Bíblia pelos caminhos, nas praças, nos pátios dos templos, coisa inusitada nesse tempo pelos párocos; comiam e se abrigavam com o que se lhes oferecesse. Os escritos de Wycliffe e o fruto de suas pregações produziu um grande número de seguidores, os lolardos. Alguns deles foram queimados vivos na fogueira, mas exerceram grande influência em Bohemia e foi um dos fatores que contribuíram à Reforma.
Em 1415, o concílio de Constança condenou a Wycliffe por 260 diferentes cargos, ordenando a queima de seus escritos e que seus ossos fossem exumados e jogados do cemitério. Em 1428, cumprindo uma ordem do papa Martín V, o bispo Fleming se encarregou de desenterrá-los, queimá-los e jogar as cinzas em um rio próximo. Dessa maneira, a prostituta, a suposta representante de Cristo na terra, ébria do sangue dos santos de Jesus, não respeitava nem os despojos mortais de um homem que cria na veracidade da Palavra de Deus.

Jonh Huss (1373-1415).
Havendo sido na Inglaterra fortemente reprimido o movimento dos lolardos, as idéias de Wycliffe foram difundidas e amplamente aceitadas em Bohemia (República Tcheca), em especial pela pregação do sacerdote John Huss, à ocasião reitor da universidade de Praga, quem aceitou moderadamente as idéias reformadoras de Wycliffe, e pregava contra os abusos do clero e o primado romano, em uma época quando o clero católico romano era o maior proprietário de terras da Europa. Huss insistia na Bíblia como regra da vida.
De humilde família, ficou órfão de pai ainda muito jovem e sua mãe se esforçou para que estudasse filosofia e teologia na recém fundada Universidade de Praga, chegando a ser professor ali mesmo, ensinando as Sentenças de Pedro Lombardo. Rodeado de um clero mundano e corrompido, Huss, como sacerdote, nem mesmo seus mais desapiedados inimigos puderam falar nada mal em sua vida privada e começou a ser mal visto porque desde seu púlpito na capela de Belém denunciava os males existentes na hierarquia, desde o cura pároco até o papa. Em sua obra Tractatus de Ecclesia afirmava que o cabeça da Igreja não é Pedro, mas só Cristo, que os papas são falíveis e muitos haviam sido hereges.
Sua pregação motivou que no ano 1410 condenassem 75 proposições de Wycliffe, e Huss protestou ante uma ordem do papa Alexandre V de queimar esses escritos, e esses atos provocaram o arcebispo Sbinko a o excomungar. Huss apelou ante o antipapa João XXIII*(3) (eleito no concílio de Pisa), mas este também o excomungou pondo à cidade de Praga em interdito, devido a que Huss também se lhe opôs pela bula que expediu outorgando indulgências a todos os que contribuíram e/ou se alistaram na cruzada contra Ladislao rei de Nápoles e protetor de Gregório XII, o papa rival em Roma. Huss deixou a cidade de Praga em 1412, mas seguiu pregando suas idéias. Por petição do imperador Segismundo aceitou apresentar seu caso ante o concilio de Constança, sempre que se lhe proviesse salvo conduto imperial, o qual não foi respeitado, pois ali foi preso e encarcerado. Ali Jonh Huss apelou a Cristo como juiz supremo, mas não quis retratar-se e o concílio condenou 45 proposições de seus escritos e depois de vários anos, o 7 de junho de 1415, foi condenado como herege, queimado vivo na fogueira, sendo suas últimas palavras audíveis: "Kyrie Eleison, Senhor, em tuas mãos encomendo meu espírito".
*(3) Baltasar Cossa, quem como papa romano tomou o nome de João XXIII, figurou na historia do catolicismo romano como um antipapa, e por tal razão, quando em 1958 Angel José Roncalli foi eleito papa, tomou o nome de João XXIII, para continuar com a "legitimidade".

Jerônimo Savonarola (1452-1498).
Nasceu em Ferrara (Itália), filho de pai humilde e de mãe de nobre caráter e neto de um piedoso médico, que vivia a ajudar aos pobres. Pela desilusão de um prematuro amor, esteve apaixonado jovem, passados os vinte anos se uniu aos dominicos em Bolonha, interessando-se pelos escritos de Tomás de Aquino e distinguindo-se por suas qualidades oratórias; mas os seis anos que permaneceu ali exerceram nele a influência necessária para desenvolver sua indignação pela dissipação e frivolidade reinante nos círculos eclesiásticos. Eventualmente foi enviado a Ferrara a pregar, mas entre seus conterrâneos ao aparecer impressionou muito pouco.
Uma guerra o obrigou a ir-se à Florência em 1481, mas seu traslado também guarda relação com o fato de que o grande humanista Pico della Mirandola, impressionado por sua pregação, o recomendou ante Lourenço de Médicis, da aristocrata família governante em Florência, e onde se estabeleceu no convento de são Marcos, casa dos dominicos reformados, e onde teve o encargo de instruir aos noviços, a quem de passo contagiou com seu ardente zelo pela justiça de Deus. Sua verdadeira fama como pregador a adquiriu depois de uns dez anos de haver-se feito membro da comunidade de São Marcos, e em 1492, ano em, que morreram Lourenço de Médicis e o papa Inocêncio VIII, foi nomeado prior em São Marcos.
Savonarola havia se sublevado contra a corrupção dos papas Sixto IV (Francesco della Rovere) e Inocêncio VIII, os quais eventualmente promoveram a guerra aos Estados italianos em seu afã de conquistar reinos para seus filhos, e o dominico em seus sermões também denunciava que estes pontífices romanos haviam feito da corte papal um lugar de encontro de prostitutas e libertinos. Costumava chamar seus ouvintes ao arrependimento antes de um iminente juízo de Deus sobre a terra como castigo divino pelos pecados e frivolidades dos homens. Tomou parte ativa na formação do novo governo de Florência, uma república democrática, impulsionando um programa de reformas que deu seu fruto sem derramar uma só gota de sangue, pois os Médicis haviam sido expulsos da cidade, chegando a ser Savonarola em seu momento o personagem mais influente de Florencia.
Os costumes mundanos da cidade foram mudados por uma simples vida cidadã. As mulheres deixaram suas jóias e luxuosos vestidos; as pessoas deixavam os vícios, e a música mundana deu lugar aos hinos e a leitura da Bíblia; os comerciantes e banqueiros devolveram suas ilícitas ganâncias; os templos se viam repletos naquele avivamento, e na celebração do carnaval de 1497, as pessoas queimaram em praça pública os livros obscenos e quadros indecorosos, as máscaras e disfarces, as perucas e postiços, etc..., e todos afluíam à praça ao canto de hinos piedosos, o que deu em chamar-se a "queima de vaidades". Com freqüência Savonarola dizia que a Igreja seria renovada depois de um período de algozes.
Rogava aos florentinos aceitar a Cristo como seu Rei; e a toda Itália, aos príncipes e prelados, que se arrependessem e voltassem a Cristo. Mas tudo isto lhe atraiu inimigos, e muitos se foram a Roma, e o papa Alexandre VI (o espanhol Rodrigo Borgia) quis lhe atrair astutamente oferecendo-lhe a capela cardealícia, e logo com várias convocatórias apresentar-se a Roma, e a resposta sempre foi negativa; em conseqüência o papa o excomungou e ameaçou a Florencia com o interdito se não conseguissem fazer calar a este dominico. Este, os inimigos políticos e o desejo de muitos de voltar a seus antigos costumes, fez que a opinião pública aumentasse contra. Savonarola apelou aos reis da Espanha, França, Inglaterra, Hungria e Alemanha solicitando-lhes que convocassem um concílio geral que declarasse que Alexandre VI não era papa nem verdadeiro cristão, mas muitas dessas cartas caíram em mãos do papa.
Um franciscano, Francisco di Puglia, desafiou publicamente a Savonarola a que provasse que não era um herege, nem um falso profeta, nem um cismático; que o provara mediante as antigas ordalias do fogo. Savonarola caiu na armadilha e consentiu. Houve um temporal de disputas em quanto o desafio de desenvolvia, este espetáculo foi suspenso e as inconstantes multidões tiveram o dominico por culpável, quem teve que refugiar-se em seu convento, mas foi encarcerado e submetido a juízo por uns comissionados papais, que traziam a ordem de que o frade de todas as maneiras morresse. Depois de quarenta dias de cárcere e tortura, decidiu-se sua morte junto com dois de seus mais fiéis seguidores, Frei Domenico e Frei Silvestre. Em 23 de maio de 1498 foram enforcados e seus corpos queimados na grande praça de Florencia. No momento da execução, o bispo de Vasona, lhe disse: "Eu te separo da igreja militante e da igreja triunfante", ao qual Savonarola lhe respondeu: "Isso está por cima de vossos poderes".
Havendo vivido na época conhecida como o Renascimento e seu implícito humanismo, Savonarola escreveu livros, tratados, poemas e sermões; trata sobre filosofia e teologia, sentando a doutrina da salvação pela fé, não pelas boas obras; da vida cristã segundo o ensinamento da Palavra de Deus melhor que em tradições e costumes. Doutrinalmente não contribuiu nada de novo, mas seu valoroso enfrentamento com a mundanalidade implícita na organização católica romana e seu sistema corrupto, a contribuição literária e denuncia pública dos males morais de seu tempo, o destacam como indiscutível figura dos que prepararam o caminho da Reforma do século XVI.

APÊNDICE DO CAPÍTULO IV

DOAÇÃO DE CONSTANTINO

(Como se explicou no capítulo IV, Tiatira, este documento não é autêntico; é uma falsificação escrita em meados do século oitavo visando a fortalecer o poder papal em uma época quando o cristianismo ocidental estava à margem de desabar ante o surgimento de pequenas igrejas reais, feudais e tribais, debaixo do domínio de príncipes seculares. De modo que esta criação literária surgiu para dar a entender que havia sido escrita pelo imperador Constantino o Grande nos princípios do século quatro. Levemos em conta que este espúrio documento foi escrito em uma época quando não se fazia exame crítico de documentos, e era fácil que a avassalada comunidade dos fiéis o receberam como autêntico, dado o grau de ignorância que predominava nessa idade obscura. Por fim, durante o reinado do papa Eugênio IV (1431-1447), pelo engenho de dois eruditos da época, Nicolau de Cusa em 1433, e Lorenzo Valla em 1440, foi descoberto que este documento, por tanto tempo considerado como a base em que se fundamentavam as pretensões da soberania civil do papa, foi uma anacrônica falsificação. Mas o espírito de sua falácia tem causado efeitos contraproducentes na historia).
Concedemos a nosso santo padre Silvestre, sumo pontífice e papa universal de Roma, e a todos os pontífices sucessores seus que até o fim do mundo reinarão na sede de são Pedro, nosso palácio imperial de Letrán (o primeiro de todos os palácios do mundo). Depois a diadema, isto é, nossa coroa, e ao mesmo tempo o gorro frígio, ou seja, a tiara e o manto que costumam usar os imperadores e, o manto púrpura e a túnica escarlata e todo o vestido imperial, e também a dignidade de cavalheiros imperiais, outorgando-lhes também os cetros imperiais e todas as insígnias e estandartes e diversos ornamentos e todas as prerrogativas da excelência imperial e a glória de nosso poder. Queremos que todos os reverendíssimos sacerdotes que servem à santíssima igreja romana nos distintos graus, tenham a distinção, potestade e preeminência de que gloriosamente se adorna nosso ilustre senado, ou seja, que se convertam em patrícios e cônsules e sejam revestidos de todas as demais dignidades imperiais. Decretamos que o clero da santa igreja romana tenha os mesmos atributos de honra que o exército imperial. E como o poder imperial se rodeia de oficiais, fidalgos, servidores e guardas de todas as classes, queremos que também a santa igreja romana se adorne do mesmo modo. E para que a honra do pontífice brilhe em toda magnificência, decretamos também que o clero da santa igreja romana adorne seus cavalos com arreios e gualdrapas de branquíssimo linho. E do mesmo modo que nossos senadores levam o calçado adornado com linho muito branco (de pêlo de cabra branco), ordenamos que deste mesmo modo os levem também os sacerdotes, a fim de que as coisas terrenas se adornem como as celestiais para glória de Deus. (...)
Temos decidido igualmente que nosso venerável padre o sumo pontífice Silvestre e seus sucessores levem o diadema, ou seja, a coroa de ouro puríssimo e preciosas perolas, que a semelhança com a que levamos em nossa cabeça lhe havíamos concedido, diadema que devem levar na cabeça para honra de Deus e da sede de são Pedro. Mas já que ele próprio beatíssimo papa não quer levar uma coroa de ouro sobre a coroa do sacerdócio, que leva para glória de são Pedro, com nossas mãos temos colocado sobre sua santa cabeça uma tiara brilhante de branco fulgor, símbolo da ressurreição do Senhor e por reverencia a são Pedro apoiamos a bridão do cavalo cumprindo assim para ele o ofício de moço de espora: estabelecendo que todos seus sucessores levem em procissão a tiara, como os imperadores, para imitar a dignidade de nosso Império. E para que a dignidade pontifícia não seja inferior, senão que seja tomada com uma dignidade e glória maiores que as do Império terreno, concedemos ao citado pontífice Silvestre, pontífice e papa universal, e deixamos e estabelecemos em seu poder, por decreto imperial, como possessões de direito da santa igreja romana, não só nosso palácio como se têm dito, senão também a cidade de Roma e todas as províncias, distritos e cidades da Itália e do Ocidente.
Por ele, temos considerado oportuno transferir nosso Império e o poder do reino ao Oriente e fundar na província de Bizâncio, lugar ótimo, uma cidade com nosso nome e estabelecer ali nosso governo, porque não é justo que o imperador terreno reine onde o imperador celestial têm estabelecido o principado do sacerdócio e a cabeça da religião cristã.
Ordenamos que todas estas decisões que temos sancionado mediante decreto imperial e outros decretos divinos permaneçam invioladas e íntegras até o fim do mundo. Por tanto, ante a presença do Deus vivo que nos ordenou governar e ante seu tremendo tribunal, decretamos solenemente, mediante esta constituição imperial, que nenhum de nossos sucessores, patrícios, magistrados, senadores e súditos que agora e no futuro estejam sujeitos ao Império, se atreva a infringir ou alterar isto em qualquer maneira. Se alguma, coisa que não cremos, desprezar e violara isto, seja réu de condenação eterna e Pedro e Paulo, príncipes dos apóstolos, lhe sejam adversos agora e na vida futura, e com o diabo e todos os ímpios seja precipitado para que se queime no profundo do inferno.
Ponhamos este decreto, com nossa firma, sobre o venerável corpo de são Pedro, príncipe dos apóstolos, prometendo ao apóstolo de Deus respeitar estas decisões e deixar ordenado a nossos sucessores que as respeitem. Com o consentimento de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo entregamos este decreto a nosso padre o sumo pontífice Silvestre e a seus sucessores para que o possuam para sempre e felizmente.


Capítulo V
SARDES
(1a. parte)


SINOPSE DE SARDES

Os refugiados do cativeiro da grande prostituta

Começa a restauração da casa de Deus - O renascimento e a invenção da imprensa por João Gutemberg.

Martinho Lutero e a Reforma protestante

O comércio de indulgências - As 95 teses de Lutero - O enfrentamento com o papado romano - Leão X e Carlos V - A Dieta de Worms - Felipe Melanchton.

O Nascimento das "igrejas nacionais"

Na Alemanha com Martinho Lutero - Na Suíça com Ulrico Zwinglio e João Calvino - Na França com Jacob Lefèvre d’Etaples - Ns Escócia com João Knox - Na Inglaterra com Henrique VIII - A paz de Westfália.

O florescimento do protestantismo

Das "igrejas nacionais" desprende-se as grandes denominacões: Anabatistas - Menonitas - Puritanos - Batistas - Quaquers - Presbiterianos - Metodistas – Fazia os Primeiros passos o ecumenismo final.

Os vencedores de Sardes

Quinta recompensa: Serão vestidos com vestiduras brancas. Seu nome não será apagado do livro da vida ante o tribunal de Cristo em Sua vinda; ao contrário, o Senhor confessará seus nomes diante do Pai celestial e de Seus anjos.



A CARTA A SARDES

"1 Ao anjo da igreja em Sardes escreve: Estas coisas diz aquele que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto.2 Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer, porque não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus. 3 Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti. 4 Tens, contudo, em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão de branco junto comigo, pois são dignas. 5 O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos.6 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." (Ap. 3:1-6).

Os refugiados de Tiatira

A localidade de Sardes havia sido a capital da Lídia, na Ásia Menor. Lídia foi uma nação rica em ouro, mas por essa mesma riqueza lhe sobreveio a perdição, pois foi presa da cobiça dos governantes poderosos. Creso, seu último rei, foi levado cativo por Ciro, o rei persa, em 546 a. C. Nos tempos do apóstolo João, Lídia, incluída sua capital Sardes, fazia parte da província romana da Ásia. Hoje dessa cidade só restaram ruínas. A igreja nessa localidade tipifica o quinto período profético da história da Igreja de Jesus Cristo durante sua peregrinação terrena, o qual historicamente começa desde o inicio da Reforma, 31 de outubro de 1517 quando Martinho Lutero cravou suas 95 teses na porta do templo de Wittenberg, até a eventual vinda do Senhor.
O nome de Sardes significa os escapados, aqueles que saíram, o remanescente, o restante e também, restauração. Tem isto alguma relação com este período? Muito. Desde o primeiro período, Éfeso, a Igreja vinha caindo, desmoronando. Na era apostólica começa a perder o primeiro amor e surge a obra dos nicolaítas, logo se une em matrimônio com o Estado e a religião babilônica e o resultado é um sistema medieval absolutista, despótico, cruel e corrupto ao que a Bíblia chama de a profetisa Jezabel, que se confunde com o catolicismo romano, e que temos analisado em Tiatira; mas em todos os períodos tem havido vencedores, santos valentes que o Senhor tem fortalecido e guardado, e em Tiatira temos visto alguns dos santos que se opuseram à prostituta e prepararam o caminho para que outra geração de vencedores pudera escapar desse abominável sistema, e por meio deles, o Senhor começou a restaurar as coisas que se haviam perdido e é o começo do que historicamente se conhece como a Reforma, em parte política e em parte religiosa, pois a igreja apóstata se havia convertido em uma mescla de ambas as coisas, efeito do seio do catolicismo surgiu um remanescente, os protestantes. Saíram desse sistema religioso tirânico e corrupto, como um começo da obediência ao chamado de Deus de Apocalipse 18:4. Os refugiados estavam convencidos de que o sistema católico romano do qual saíam havia se convertido em herético, por quanto haviam posto como autoridade da igreja ao papa e aos concílios por cima da autoridade normativa da Palavra de Deus, e haviam se apartado de seus princípios, invalidando as Escrituras com doutrinas de invenção humana. Mas o fenômeno foi que na prática sucedeu o contrário, pois o papado mandou à fogueira a milhões de protestantes, acusando-los de hereges.
Como explicamos no capítulo anterior, a partir de Tiatira ocorre um fenômeno importante que merece reconhecimento, e é que Tiatira não deixa de existir até a vinda do Senhor, e Sardes sai de Tiatira, sucedendo sem que necessariamente a substitua. Tenha-se em conta que na carta a Tiatira se menciona a grande tribulação e silenciosamente a vinda do Senhor. Quando se cumpriram os 70 anos de cativeiro babilônico dos hebreus, o Senhor não conduziu de novo á Terra Santa a todo o povo, senão somente a um remanescente fiel para que realizasse os trabalhos de recuperação e reconstrução do templo, de Jerusalém e da nação, pois tudo havia ficado em ruínas.
Nos tempos do profeta Zacarias e Ageu, por um edito do rei Ciro da Pérsia, regressou à terra de Judá um remanescente, alguns dizem que de umas quarenta mil pessoas, dos que haviam sido levados em cativeiro a Babilônia. Para que dirigisse o regresso, Deus havia escolhido a Zorobabel filho de Salatiel, o governador de Judá, e a Josué filho de Jozadaque, o sumo sacerdote, para que começassem a reedificar a casa de Deus e a cidade. O Que significa que haja escolhido esses dois varões simbólicos? O Zorobabel representava a autoridade de Deus, pois era quem levava a semente de Davi e era o herdeiro do trono, e Josué vinha da linha do sacerdócio Aarônico; de maneira que eram as duas oliveiras que pôs Deus a cada lado do candeeiro, para a restauração de tudo na casa de Deus.
Mas para que isso ocorresse foi necessário que o Senhor despertasse o espírito tanto dos líderes como do resto do remanescente, para que se dispusessem nos trabalhos da restauração da casa do Senhor. Sem a obra do Espírito Santo em nosso espírito não pode realizar nada. Eles começaram os trabalhos de reedificação e foram postos os fundamentos do Templo, mas a obra se viu demorada devido ao fustigamento e maquinações dos vizinhos e samaritanos hostis, inimigos de que se restaurasse a casa do Senhor e houvesse um avivamento no povo de Deus. Quando em Jerusalém começaram esses trabalhos de restauração e reconstrução nos tempos de Esdras e Neemias, houve muita oposição por parte dos inimigos do povo de Deus, mas Deus reagiu, os fortaleceu, os animou e com Seu poder, apoiou a valentia que lhes infundiu, aquela restituição das coisas perdidas seguiu adiante nessa geração. Isso tipifica o que ocorre com a Igreja aos finais da Idade Média. Depois que o papado romano havia retido cativa à Igreja, chega o momento que um remanescente, uma minoria de crentes, escapa da nova Babilônia.
Alem dos pré-reformadores mencionados, o Senhor permitiu que nos fins da Idade Média sucedessem na história certos feitos, circunstâncias e mudanças notáveis na sociedade, que em seu momento também constituíram forças para o surgimento e desenvolvimento da Reforma protestante, como o Renascimento. O Renascimento com suas tendências paganizadoras e seu humanismo descristianizante, em contraste com o escolasticismo do medieval, surge como um movimento mais secular ou temporal que religioso, no qual consagrados eruditos se inclinaram pelo culto à Antigüidade greco-latina, ao estudo e imitação dos autores clássicos, e ao cultivo da arte, o estudo do grego, o latim e outras disciplinas de tipo investigativo e que incentivaram as origens da ciência moderna. O Renascimento se desenrola aproximadamente no lapso compreendido entre os anos 1450 a 1570, tempo no qual é inventada a imprensa, pelo ourives alemão João Gutenberg, em 1455, e cujo primeiro livro impresso, para a glória de Deus, foi a Bíblia, deixando assim de ser as Sagradas Escrituras monopólio de uns poucos privilegiados, para vir a ser, traduzida às línguas vernáculas européias, de uso comum, pelo que tudo ele ia incentivando o fogo da Reforma, pois a gente, ao ler o Novo Testamento e os escritos dos reformadores, pode entender o distante que estava o papado romano dos ensinamentos da Palavra de Deus. Vemos aqui que uma das primeiras coisas restauradas por Deus em Sardes foi o voltar à leitura, ao conhecimento e prática da Palavra de Deus. Recorde-se que o Senhor se apresenta à igreja em Pérgamo como " o que tem a espada afiada de dois gumes ", a qual usa para cortar essa espúria união de sua Igreja com o mundo.
No período de Tiatira a Igreja havia institucionalizado tanto, que havia esquecido o evangelho, e ao deixar o evangelho de Jesus Cristo, se havia esquecido do método de Deus para Sua Igreja, havia descuidado sua única organização corporativa, sua única forma de vida, a vida do Corpo, sua única Cabeça, sua única forma de governo para a igreja em cada localidade; se havia esquecido dos meios evangélicos para pregar, educar e cultivar nas almas o conhecimento do depósito deixado pelo Senhor. A institucionalizada igreja apóstata de Tiatira se identifica com a noite dos tempos, na qual até a Bíblia deixou de ser de circulação autorizada, por ordem do autodenominado "servo dos servos do Senhor".

Começa a restauração da casa de Deus

" Ao anjo da igreja em Sardes escreve: Estas coisas diz aquele que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto. ".
A igreja de Sardes guarda alguma semelhança com a de Éfeso. Observe-se que em ambas o Senhor se apresenta como o que tem as sete estrelas. Em Éfeso para cuidar a igreja e encher-la de Sua graça; em Sardes para trazer à igreja Sua luz e ela volte a brilhar intensamente, a iluminar na escuridão e não se perca o que está a ponto de morrer. É o mesmo imutável Senhor que, havendo falado a uma igreja que por haver perdido o primeiro amor não fazia as primeiras obras, agora a encontra com o nome de que vive, mas que está morta, como uma conseqüência de uma deterioração. Os sete Espíritos de Deus servem a Sardes para que tenha vida intensa. Se em Éfeso começa a degradação na Igreja, em Sardes começa as bases da recuperação do que praticamente já estava em ruínas. Em termos gerais tudo estava praticamente coberto por um negro manto de obscuridade, e vem o Senhor e se anuncia como o que tem as sete estrelas para iluminar a Igreja e mostrar o caminho de um avivamento. Mas também se apresenta como o que tem os sete Espíritos de Deus, significando a totalidade da poderosa, oportuna e importante intervenção do Espírito Santo, para dar vida ao morto, para iluminar à gente no entendimento da Palavra de Deus e sua devida e valorosa fidelidade à vontade do Senhor nesses tempos decisivos, frente a uma poderosa e institucionalizada oposição satânica. O Espírito de Deus sete vezes intensificado, dando vida à Igreja, "porque a letra mata, mas o espírito vivifica." (2 Co. 3:6b).
O que significa que Sardes tenha nome de que vive, mas que está morta? A resposta a daremos no desenvolvimento e comentário dos acontecimentos históricos em torno ao protestantismo reformado. O período profético de Sardes representa a igreja protestante, cuja característica principal é que tem nome de que vive, mas que está morta, e ao estar morta, necessita de vida espiritual, a vida dos sete Espíritos viventes de Deus e as resplandecentes estrelas, no número da plenitude. Sardes tem nome de que vive e está morta devido a que a Reforma foi mais de forma que de fundo, de nome que de vida, pois a verdadeira reforma só vem da união com o Salvador e a busca de Sua glória. Na Reforma se mesclaram interesses que não necessariamente eram os do Senhor. A Reforma foi mais objetiva que subjetiva.
No protestantismo não há unidade porque suas distintas divisões não tem devidamente definida uma clara doutrina eclesiológica, e constitui uma grande verdade que para muitos líderes e pregadores protestantes se faz confuso entender com a necessária nitidez o conceito bíblico de igreja e como se identifica a Igreja objetivamente. O catolicismo romano se ufana de sua impressionante estrutura, mas o protestantismo faz outro tanto ainda em meio da proliferação de milhares de denominações, às vezes estrutural, governativamente e até doutrinalmente tão diferentes, que um se pergunta que parte da Bíblia particularmente têm preferido destacar em detrimento do resto das Escrituras, fomentando cada dia mais o caos e o desacordo.
Poderíamos pensar que o catolicismo romano degenerou até chegar a ser um remendo caricaturesco da Igreja do Senhor, e tanto o sistema católico romano, como os sistemas ortodoxos orientais, a igreja cristã copta do Egito e outros, representam algo menos que a Igreja do Senhor. Mas, como o veremos mais adiante, o protestantismo fabricou seus pequenos reinos "papais" adotando nomes próprios diferentes do nome do Senhor, são todos sistemas, menos Igreja do Senhor! O catolicismo romano, não obstante sua pretendida unidade, destruiu a comunidade cristã, mas o protestantismo não têm feito nada para recobrar; porque se pode pregar que te salvas pela graça de Deus e não por teus méritos pessoais, mas se pode te proibir ter comunhão e ainda que partas o pão com teus irmãos pelo fato de não pertencer a tua mesma bandeira doutrinal e nominal. Quando não há unidade no corpo não pode haver manifestação de vida, daí que o Senhor se apresente como o que tem os sete Espíritos de Deus, para que se possa fazer as obras da vida. Mesmo com o surgimento de movimentos pentecostais e carismáticos a situação em Sardes é a mesma.
Das coisas que se foram restaurando em Sardes, ou pelo menos se iniciou sua restauração, temos as normas e autoridade da Bíblia, a justificação pela fé, o sacerdócio de todos os santos e o se submeter à autoridade do Senhor acima de toda outra autoridade, do contrário não podia dar-se restauração alguma. Sardes representa a igreja protestante; em Sardes se inicia a Reforma mas não se completa. Inclusive coisas que se restauraram, como o sacerdócio de todos os santos, voltaram atrás no desenvolvimento do protestantismo; a Bíblia havia sido o livro selado durante mil anos, e os reformadores a voltaram ao povo, mas sem infundir-lhes o amor por sua leitura; daí que o cristão protestante a tem mas não a lê. Uma coisa é ter a Palavra de Deus na mão e ler para discutir, e outra diferente é tê-la no coração, vivê-la ou aplicá-la à vida. O protestantismo insistiu na justificação pela fé, mas na prática negando sua eficácia, de tal maneira que muitos carecendo da fé, estão impossibilitados de fazer boas obras. Tenhamos em conta que de acordo com o espírito da época, o movimento protestante ao iniciar tendia mais a sacudir-se do jugo político que à obra regeneradora de Deus. Aos olhos de Deus, a Reforma foi pois considerada morta.
Nada põe em tela de juízo que Lutero era um homem de Deus, guiado abaixo a magnífica revelação de Deus para fazer a vontade de Deus para a restauração de Sua Igreja, em Sua reação ante Tiatira. A intenção de Lutero foi a reforma da única Igreja de Cristo e se afirma que nunca houvesse permitido a criação de igrejas luteranas, mas desde os albores da Reforma se vislumbrou as diferenças de critérios dos reformadores, diferenças que geraram distintas perspectivas protestantes: luteranos, calvinistas, zwinglianos, anglicanos, por não mencionar senão aos exponentes mais proeminentes; e os esforços por reconciliar essas facções, ao mais produziram conjunturais "igrejas" nacionais, por muito que não hajam querido fomentar cismas e divisões.
Essas igrejas nacionais com freqüência assumiam diferentes características e conformações: Luterana na Alemanha, presbiteriana na Escócia, episcopal na Inglaterra, mistas em outros países. Ao anterior contribuiu muito o fato de que os governantes europeus aproveitaram conjunturalmente a Reforma religiosa para sacudirem-se da opressão e jugo do poder romano papista, de tal forma que, além da força de Deus, operou a do homem; de maneira que foi uma reforma política à vez que religiosa, pois o sistema católico se havia convertido em um poder político religioso. Martinho Lutero foi o servo usado por Deus, infundido de tal fé que, animado pelo Espírito Santo, ainda se vendo só, se manteve fiel a Deus e firme contra todo esse poderio da cúria romana de seu tempo.
No capítulo anterior vimos como a fé, a atividade e o testemunho dos pré-reformadores como os valdenses, os hussitas, os lolardos, foram decisivos para a Reforma e a formação do que chamamos o protestantismo. Também contribuíram para a tradução, impressão e divulgação da Bíblia, a teologia mesma de Agostinho já enfocada abaixo de uma lente mais escrituraria o humanismo renascentista, o nacionalismo que via não muito bem que poderes estrangeiros estivessem manipulando os assuntos eclesiásticos e o desvio de dinheiro para Roma, e sem lugar às dúvidas o surgimento na sociedade de um novo elemento, a burguesia, ou classe média. O protestantismo surge quase simultaneamente em vários países europeus; de seus principais líderes faremos um pequeno perfil, sendo Lutero indiscutivelmente a figura proeminente.

Lutero e a Reforma

Martinho Lutero (Luther) (1483-1546). Nasceu este alemão em Eisleben (Turíngia) em 10 de novembro de 1483, no lugar de trabalho do setor rural envolto nessa atmosfera religiosa comum à época; seu pai chegou a ser um folgado mineiro que se interessou na educação de Martinho, com o desejo de que chegasse a ser um brilhante jurisconsulto. De acordo com o espírito da época, o jovem Martinho foi educado no temor de Deus, na crença da existência do céu, do inferno, dos santos, dos anjos e demônios. Cresceu com aquele infundado terror a Cristo como juiz, o qual cria atenuar crendo na eficaz intercessão da virgem Maria e os santos. Adiantou sua educação primaria em Mansfield e Watterburgo, e logo passou à escola superior de São Jorge, em Eisenach. Em abril de 1501 iniciou estudos de letras na Universidade de Erfurt: retórica, dialética e lógica, vendo também física e astronomia, clássicos latinos (Cícero, Tito Lívio, Virgílio). Brilhante estudante, em 1502 recebe o grau de formado em Artes Livres, e em 1505 o de mestre em Artes Livres, havendo cursado outras matérias, mas fazendo ênfases nos ensinamentos filosóficos de Aristóteles (metafísica, ética, política, economia).
Seu pai estava esperançado em que continuasse estudando jurisprudência, mas ocorreu em sua vida um giro inesperado. Certo dia regressava de sua casa à Universidade de Erfurt, e havendo anoitecido, lhe surpreendeu uma pavorosa tormenta e um raio matou a um companheiro, pelo que cheio de temor caiu em terra e gritou a Santa Ana, a padroeira dos mineiros: "Ajuda-me e te prometo fazer-me monge", e sem consultar a seus pais ingressou à ordem dos agostinos eremitas em Erfurt. Em 1507 é ordenado sacerdote; estuda teologia, e 1508 passou à Universidade de Wittenberg, no eleitorado de Saxônia, para ensinar ética aristotélica, por convite de João Staupitz, general dos agostinos, quem também e anima a preparar-se para o doutorado. Indiscutivelmente Lutero foi influenciado pela linha escolástica de Ocam.
Em Lutero se da um escalonamento de sucessos concatenados entre si. Levemos em conta que não era sua intenção fazer-se monge, mas a experiência da tormenta que o enche de temor de morrer e ir pro inferno, lhe faz fazer um voto à "padroeira" de seu pai, e ingressa no monastério, mas esse passo transcendental com suas implícitas e posteriores rígidas normas de vida não satisfez seus temores, e vemos a mão do Senhor o guiando, permitindo essas lutas vivenciais; vivia uma permanente luta interior, pois a vida monástica não lhe proporcionou a segurança da salvação que tanto almejava, e procurava por todos os meios infundidos na época fazer-se adepto a Deus e merecer a salvação, pelo que continuaram com maior rigor suas interrogantes relativas a sua própria salvação.
Conforme os ensinamentos doutrinais de sua época, Lutero se questionava, Como posso eu, miserável pecador, ser justificado ante um Deus santo? Como posso eu obter mérito suficiente para alcançar o céu? De acordo com essas doutrinas de tipo teológico da época, também se perguntava, será certo que me possa servir as penitencias, a mortificação da carne, as indulgências e a prática dos sacramentos? Ao não obter resposta satisfatória, que segue depois? Estando nesse meio monacal e universitário relacionado com a teologia, tem a oportunidade de estudar as Sagradas Escrituras e de chegar ao entendimento do evangelho, e por esse entendimento da Palavra de Deus chegou ao convencimento de que o justo vive pela fé e não pelas obras, assim se chamem indulgências, mortificação da carne, peregrinações, o recorrer aos sacramentos como meios de graça, conhecimento e entendimento ao que chegou particularmente por meio do estudo da epístola de Paulo aos Romanos.
Em 1510 viaja a Roma por assuntos de sua ordem religiosa, mas depois de haver presenciado o ambiente de corrupção moral e a indiferença espiritual em que estava imersa a corte papal aumentou sua angustia e aflição. Em 1511, de novo em Wittenberg retomou seus estudos para o doutorado: Obras de Ocam, d’Ailly, Gabriel Biel, Agostinho, Bernardo de Claraval, Tomás de Aquino, Gerson. Em 1512 é nomeado supervisor dos agostinos em Wittenberg e recebe seu doutorado em Teologia, iniciando-se como professor das Sagradas Escrituras. Aceitou impressionado e mesmo com suas reservas a doutrina da predestinação, pois até certo tempo de sua vida tinha seus conflitos com o Senhor. Havia aprendido que se o homem voluntariamente cooperava com a graça, podia chegar a merecer o céu; cooperação que enfatizava o freqüentar os sacramentos e demais artifícios mediadores de graça. As lutas deste monge agostiniano eram intermináveis, e nem as melhores obras ajudadas por meio de graça, nem o estudo desses grandes teólogos, nem sua vida monacal e todos esses recursos, não faziam senão afunda-lo mais no desespero, pois continuamente sentia que seus pecados o afastavam cada vez mais de um Deus três vezes santo. Mais tarde escreveria: "Tratar de manter-se em pé com as próprias forças é o erro no qual também eu estive". Mas em sua condição de professor das Sagradas Escrituras, a partir de 1513 tem a oportunidade de desenvolver uma série de cursos bíblicos sobre os Salmos, a epístola aos Romanos, aos Gálatas e Hebreus, e "descobre" a justificação pela fé (cfr. Romanos 1:17), e que o homem se salva pela livre graça de Deus, sem que haja nenhum mérito pela parte humana. Assim começa a afastar-se da teologia escolástica. Em Lutero, pois, tem vindo dando-se três aspectos nesse crucial processo: a vivência e busca religiosa, a formação científica e a experiência de fé. Desde criança lhe haviam ensinado a ver em Cristo como juiz, mas chegou o tempo de ver na cruz, Deus reconciliando o mundo consigo mesmo pela obra de Seu Filho. Uma vez que Lutero teve a suficiente luz escrituraria em relação com a salvação, começou a compartilhar em seus ensinamentos e a manifestar-se nos círculos universitários contra a obscura doutrina em torno às indulgências, e foi recebendo a solidariedade de seus colegas.
Mas o que levou Lutero ao conflito com Roma foi de índole de autoridade mais que de doutrina. Era tanta a arrogância pontifical, que de momento o Vaticano não o olhava senão como a um herege que punha em dúvida sua autoridade, pois, como já antes o haviam declarado vários teólogos do porte de Guilherme de Ocam e Gabriel Biel (1420-1495), Lutero afirmou a autoridade das Escrituras por cima da autoridade da igreja, do papa e dos concílios eclesiásticos. Lutero compreendeu que as Escrituras tem uma perspectiva cristocentrica, e como tal são as que normalizam o caminho verdadeiro da salvação, e tudo o que sai de suas vias e não esteja de acordo com a Bíblia, não tem validade. A canonicidade das Escrituras não depende da aprovação da Igreja, porque a Igreja está fundamentada sobre as Escrituras e não as Escrituras sobre a Igreja. A autoridade das Escrituras se fundamentam em que Deus é Seu autor, e só por isso. Não se pode negar a autenticidade das Escrituras; ou seja , que podem ser entendidas por qualquer santo que se interesse em conhece-la, e para ele o Senhor proporciona a ajuda pedagógica da unção do Espírito Santo. É interessante saber que as passagens claras da Bíblia podem esclarecer os obscuros e aparentemente difíceis. A Escritura não necessita da interpretação e magistério oficial da Igreja, pois isso implica colocar a Igreja por cima das Escrituras (cfr. Ef 2:20; Ro 1:17; Jo 2:20,27).

As indulgências para São Pedro

Não obstante os ventos de reforma e de independência que se vinha respirando na Europa nos tempos em que Lutero ensinava na Universidade de Wittenberg, ainda se desejava sentir a intolerância e o absolutismo, e é quando surge em Roma a necessidade de ingentes somas de dinheiro para terminar a construção da catedral de São Pedro. O que seria melhor que coletar vendendo indulgências por toda a Europa? Já temos comentado que a Bíblia foi por muito tempo um livro de circulação e leitura proibida, e as pessoas, ao desconhecer as Sagradas Escrituras, cria nas mentiras difundidas pelo papado, até o ponto de que governantes como Frederico o Sábio, eleitor da Saxônia, também se beneficiavam com o tráfico de indulgências. Por exemplo, no templo do castelo de Wittenberg, o eleitor da Saxônia expunha suas próprias relíquias e obtinha benefícios por quanto havia arraigado entre as pessoas a falsidade de que quem olhasse e venerasse devotadamente essas relíquias no dia de todos os Santos aos fins de outubro, recebia uma remissão plena de toda pena temporal, de tal maneira que ficava livre de sofrer as penas do purgatório. Entre essas relíquias supostamente se encontravam, entre outras coisas, típicas palhas do presépio de Belém, como também uma garrafinha que continha três gotas do leite do seio da Virgem Maria. Mas para tal data do ano 1517, não compareceu a Wittenberg o número esperado de peregrinos e camponeses, pois surgiu a competência originada desde Roma.
Por essas mesmas calendas o florentino João de Médici (1475-1521), filho do banqueiro Lorenzo o Magnífico, ocupava o cargo de papa com o nome de Leão X, e quis girar sobre a famosa tesouraria dos santos com o fim de remeter as penas temporais pelo pecado de muitos europeus, tanto dos vivos como das almas de amigos e parentes que estivessem no purgatório, e de passo obter ganâncias com o comércio dessas indulgências, indispensáveis fontes de renda. Leve-se em conta que este sagaz e maquiavélico político renascentista foi feito sacerdote aos oito anos, diácono cardeal aos treze, e durante seu pontificado foi aumentado a corrupção do papado. Não era homem capaz de compreender o alcance e o significado espiritual do movimento que Lutero liderou em seu tempo. Leão X solicitou a Alberto de Brandenburgo, banqueiro da aristocrática família de Hohenzollern, que se encarregara da venda das indulgências na Alemanha com um benefício de 50%, o qual ia a aplicar à dívida que na ocasião Alberto havia adquirido com o papado pela compra do cargo de arcebispo de Maguncia, o cargo eclesiástico mais elevado na Alemanha.
Por delegação do arcebispo, na prática no território alemão o vendedor principal era o dominico João Tetzel, quem astutamente as oferecia dizendo que "tão logo cai a moeda que se deposita no cofre, a alma de seus defuntos parentes sai voando do purgatório ao céu", ou com a virtude de conceder perdão de todo pecado das pessoas em cujo favor fossem comprados esses certificados assinados pelo papa.



O Conflito de Roma

Quando Lutero se informou que muitos haviam comparecido a lugares vizinhos pra comprar indulgências papais, decidiu fazer pública a ineficácia desses meios tão alheios à graça de Deus e os méritos do Senhor Jesus Cristo, e o dia 31 de outubro de 1517, data que se tem assinalado como o começo da reforma protestante, Lutero cravou na porta da capela do Castelo de Wittenberg, que servia também como mural de notícias da Universidade, as 95 teses ou declarações debatendo as indulgências, advertindo o perigo que encerravam para as almas dos fiéis. Inicialmente os protestantes reformadores não tiveram a intenção de romper com o catolicismo romano, nem se consideravam uns inovadores, senão reformadores; parece que os animava o desejo de purificar à Igreja das mesmas corrupções das que acusavam à hierarquia romana. Ao parecer, era um movimento visando a voltar ás fontes da mais pura fé cristã.
Nas 95 teses Lutero não ataca pessoalmente ao papa, senão que vê no comércio das indulgências um menosprezo da reputação papal, mas essas declarações tem a contundência suficiente como para enfurecer ao arcebispo de Maguncia e a Tetzel. Há de se levar em conta que mais que uma reação pastoral, a intenção de Lutero foi suscitar um debate de tipo acadêmico a nível universitário, sem que deixasse de ser o primeiro, mas no fundo se converteu em um desafio à questão das indulgências e à autoridade papal (se pode ler o texto das 95 teses no apêndice do presente capítulo).
Sem que Lutero se propusesse, em poucos meses as 95 teses foram impressas e difundidas por toda Alemanha não só em seu latim original, mas também traduzidas ao idioma vernáculo, e ele ocasionou como conseqüência que Lutero se via envolto em uma controvérsia, e o problema fora levado até Roma. No princípio Leão X não deu muita atenção no assunto, entendendo ser ele como uma disputa entre dominicos e agostinos, ocupado como estava na política italiana, conformando-se por momento com ordenar ao diretor dos agostinos que fizesse calar a este frade; mas um conselheiro papal, o dominico Silvestre Prierias, ao invés de enfrentar um debate de tipo ideológico, teológico e doutrinário, escreveu um Diálogo sobre a Autoridade do Papa, logrando que o papa citara a Lutero em Roma no verão de 1518, para que respondesse aos cargos de heresia e contumácia, pois aquele foi considerado somente desde o ponto de vista da autoridade papal. Então Lutero fez saber ao eleitor Frederico e ao imperador Maximiliano que aquilo significava um ataque aos direitos das universidades alemãs, e o mesmo imperador se encarregou de recomendar prudência ao papa, quem conveio que a audiência se trasladasse a Augsburgo (Alemanha) onde estava reunida a Dieta imperial (Reichtag), enviando como seu representante a Tomás de Vío, conhecido como o Cardeal Cayetano, diante do qual Lutero se negou a retratar-se.
Apesar destes acontecimentos, o papa procurava assumir uma atitude conciliatória a fim de conservar a boa vontade do eleitor Frederico, e ante Miltitz, o novo legado papal, Lutero deu mostras de abster-se do debate se seus contrários também tomassem a mesma atitude, mas os dominicos que criticavam a Lutero tornavam mais forte o ataque, e por outro lado, professores destacados da universidade de Wittenberg saíram em defesa do reformador, como o jovem professor humanista Felipe Melanchthon (1497-1560).
Lutero queria evitar a ruptura com Roma, e ele mesmo disse: "Nunca tive a intenção de combater a igreja romana, e não ponho nada por cima dela, nem no céu nem na terra". Inclusive no começo pensou que o papa lhe daria razão. Isto é importante ponderar devido a que Lutero tem sido acusado desde os círculos do catolicismo romano, de que, vendo as misérias e pecados da Igreja Romana, ao invés de contribuir com a reforma da Igreja Católica Romana, decidiu romper com a mesma, e promover uma reforma de fora. Isso não é verdade! A auto-suficiência e a soberba de uma instituição cega, o tem proclamado assim. Foi ao contrário; não podiam suportar a alguém que desafiasse a autoridade dos magnatas que ostentavam tal poder religioso no mundo. Se Lutero não houvesse tido algum respaldo dos poderosos da Alemanha em seu tempo, o sistema católico romano já o havia mandado à fogueira exatamente como a Huss em Constança. Os acontecimentos foram se dando de tal maneira, que o legado papal se apercebeu de
que tudo aquilo havia sido aproveitado para convertê-lo em um movimento nacional contra Roma. Muitos príncipes se puseram do lado da causa protestante e se aproveitaram conjunturalmente da mesma para seus próprios fins políticos.
Em 1519 teve lugar em Leipzig um debate diante de um numeroso auditório entre Lutero e alguns de seus colegas como Melanchthon, frente ao teólogo João Eck, no qual ficou claro que Lutero admitiu como cristãs e evangélicas alguns dos ensinamentos de João Huss, que os concílios eram falíveis, que os artigos de fé se devem derivar das Escrituras e não podiam ser estabelecidos pelo papa nem pela Igreja, ficando convencido além disso de que entre Bíblia e a teologia escolástica as separava um abismo. Cada dia mais o povo e muitos nobres apoiavam a Lutero. Este pôs o ponto final para que o 15 de junho de 1520, Leão X excomungasse a Lutero e quatro de seus companheiros, e condenando seus escritos, mediante a bula Exurge Domine, a qual começa dizendo: "Levanta-te, Senhor, e julga tua causa. Um Javali têm invadido tua vinha". Mas Lutero queimou publicamente o que chamou "a bula execrável do anticristo", protocolizando o rompimento definitivo de Lutero com o catolicismo romano.
Nesse mesmo ano Lutero escreveu os seguintes importantes tratados:
- O Sermão sobre Boas Obras, em oposição às obras obrigadas para salvação de seu tempo, declarando que "a mais nobre das boas obras é crer em Cristo".
- O Papado em Roma. Obra publicada em 1520, por meio da qual Lutero vai publicando mais seu conceito de Igreja, considerando-la como a assembléia espiritual de todos os crentes unidos em Cristo em toda a terra, onde recusa uma cabeça humana (o papa).
- O Discurso à Nobreza Germânica. É um forte ataque contra o papado romano. Entre outras coisas diz que o papado tem edificado três muralhas protetoras em menosprezo do verdadeiro cristianismo: A primeira, a superioridade dos papas e o clero em geral sobre os laicos, em detrimento do bíblico sacerdócio de todos os crentes. A segunda, que o papa se adotou do direito exclusivo de interpretar as Escrituras, mesmo os incrédulos e incapazes de entendê-las que têm ocupado esse cargo. A terceira, a pretensão de que só o papa podia convocar um concílio, quando na história muitos imperadores, começando por Constantino em Nicéia, o haviam feito. Lutero vê a mesma hierarquia eclesiástica como o pior inimigo da fé.
- O Cativeiro Babilônico da Igreja. Este tratado afirma que o papado era o reino da Babilônia que havia levado cativa à Igreja, e algumas formas desse cativeiro haviam sido negar o cálice aos laicos, a transubstanciação (preferindo consubstanciação), a missa como boa obra, sacrifício e oferenda a Deus; reduz o número de sacramentos a dois: o batismo e a santa ceia, mas retém o de batismo às crianças. Neste documento Lutero recusa que se chame sacramentos a cinco dos tradicionais do catolicismo: crisma, penitência, matrimônio, ordenação e extrema unção.
- A Liberdade do Cristão. Dirigida a modo de carta cordial a Leão X, pois tem sustentado que suas acusações não têm sido necessariamente contra a pessoa de Leão X senão contra o ofício de papado. Nesse tratado diz que um cristão é um homem livre, senhor de tudo e não sujeito a nada, e ao mesmo tempo é o mais obediente servo de todos, e está sujeito a todos, querendo significar com isso que o meio de alcançar essa liberdade é a Palavra de Deus e que a justificação só se obtém pela fé e não por merecimentos através de boas obras, que são métodos rudimentares nascidos no legalismo e nas disciplinas monásticas. Quando o homem se convence de que não pode salvar-se por obedecer as exigências dos mandamentos veterotestamentários, se volta às promessas de Deus em Cristo Jesus para o alcançar, exercendo a fé. Lutero diz que é uma insensata presunção procurar a justificação mediante obras. A fé honra a Deus e nos une a Cristo. Lutero afirma neste tratado que "as boas obras não fazem um homem bom, mas um homem bom faz boas obras; as obras más não fazem um homem mal, mas um homem mal faz obras más".
Nestes tratados Lutero expunha o que Deus estava recuperando em Sua Igreja nesse momento conjuntural por meio dos reformadores: a justificação só pela fé, o sacerdócio de todos os crentes, a autoridade da Palavra de Deus como está registrada nas Escrituras, o direito e o dever de cada cristão de interpretar as Escrituras. Eles estavam convencidos de que tudo isso não era novo, senão a recuperação e confirmação do depósito histórico deixado por Deus à Sua Igreja antes que o cristianismo fosse corrompido pelo sistema babilônico. E isso só era o começo da recuperação do perdido. Aqui não parou tudo. O Senhor continuou o trabalho de restauração até nossos dias, como veremos mais tarde.

A Dieta de Worms

Em três de janeiro de 1521, a bula papal Decet Romanun Pontificem condena definitivamente a Lutero. Tendo em conta que o Santo Império Romano era considerado o braço político da comunidade cristã, o Estado não podia dar refúgio a um herege condenado pelo cabeça do sistema religioso, e em cujo caso quem lhe correspondia atuar era a Carlos V, recém eleito imperador, neto de Fernando e Isabel, os reis católicos Espanhóis. Mas condenar a morte a Lutero não era coisa muito simples por quanto alguns dos príncipes alemães estavam a seu favor, e o maior de todos, Frederico o Sábio, eleitor da Saxônia, na ocasião protetor de Lutero não propriamente por convicções evangélicas e sim por assuntos de ordem política e nacionalista, pois ele estava empenhado no bem-estar social e espiritual de seu povo, e não permitia que um alemão fosse condenado fora de sua pátria e sem que se escutassem sua causa. Contudo, e sem a total aprovação de Carlos V, Frederico consentiu que Lutero comparecesse ante a Dieta do Império, reunida na cidade de Worms em 17 de abril de 1521. Igual há um século antes havia sucedido com João Huss quando compareceu ante o concílio de Constança em 1415, também concederam a Lutero um salvo conduto imperial, e em abril se apresentou ante essa assembléia e ante o imperador, não sem que antes sofresse de desânimo e temor e até a tentação de renunciar a apresentar-se, de dar-se por vencido. E não era para menos. Um humilde monge e professor, correndo o risco de sua vida, enfrentando-se ante poderosas hostes satânicas representadas nesse momento pela autoridade constituída, tanto do poder eclesiástico como do Estado.
Ali diante do imperador, os príncipes alemães, alguns teólogos e os legados papais, Marino Caraccioli e Jerônimo Aleandro, Lutero não negou que os livros amontoados no recinto haviam sido escritos por ele. . Enquanto que se retratava de quanto havia escrito, a melhor resposta a damos com as próprias últimas palavras do discurso pronunciado por Lutero: "Não posso nem quero retratar-me a menos que se me prove, pelo testemunho da Escritura ou por meio da razão, que estou equivocado; não posso confiar nem nas decisões dos Concílios nem nas dos Papas, porque está bem claro que eles não só se têm equivocado senão que se têm contradito entre si. Minha consciência está sujeita à Palavra de Deus, e não é honrado nem seguro obrar contra a própria consciência. Que Deus me ajude!. Amém".
Apesar de que os legados papais pretenderam conseguir que fosse entregue à justiça, o imperador lhe permitiu sair de Worms. Devolta a Wittenberg, Lutero é seqüestrado por ordem de seu eleitor, Frederico de Saxônia, e trasladado ao castelo de Wartburgo na Turingia, a fins de protegê-lo contra as ameaças, enquanto se acalmam um pouco os ânimos. Ali permaneceu cerca de um ano, lapso no qual traduziu ao alemão o Novo Testamento, mas a Bíblia inteira em alemão se publica doze anos mais tarde. O imperador Carlos V promulgou um edito em Worms, decretando a Lutero como "um ramo cortado da igreja de Deus, um cismático obstinado e herege manifesto", fazendo-lo um proscrito, ordenando que se lhe nega-se toda hospitalidade e toda ajuda, que se lhe prendesse, assim como a seus seguidores, confiscando-lhes seus bens, e proibindo a compra de seus livros, algo que nunca se levou a cabo devido que Lutero contava com muitos simpatizantes, inclusive dentro do alto governo.




Capítulo V
SARDES
(2a. parte)


As obras imperfeitas de Sardes

" Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer, porque não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus." (v.2).
Os versos 1 e 2 falam de que o Senhor conhece as obras de Sardes e que não as têm achado perfeitas. Inegavelmente em Sardes foram feitas muitas boas obras, mas o Senhor lhes reprova o não haver continuado elas, as deixaram pela metade, não as aperfeiçoaram. As obras de Lutero e dos demais reformadores foram boas, mas o Senhor lhes diz que não foram perfeitas. Os reformadores restauraram a doutrina da justificação pela fé, e de fato os que se salvaram em Sardes tinham a convicção de que não o faziam por suas próprias obras, nem por mediação dos sacerdotes, senão pela obra salvadora de Deus em Cristo, e como um presente; não obstante, há de se declarar que a justificação pela fé foi restaurada por Lutero mais como uma doutrina superficial que aperfeiçoada como vida no povo de Deus. Mas sobre tudo em matéria eclesiástica, ao invés de desprender-se totalmente de toda a degradação de Tiatira e voltar às fontes primigênias da Palavra de Deus, foram herdeiros de muitas das aberrações que quiseram reformar. É bom que eles tenham desviado sua visada do mundo religioso pagão para colocá-la no ideal da vida cristã, mas lhes faltou vida, não passaram de especulação teórica, sua regeneração era autêntica mas não produziu os frutos desejados, se produziu o novo nascimento mas não se desenvolveu o novo homem que o Senhor queria que se alcançasse, e a autêntica renovação para a restauração de todas as coisas que se haviam perdido. Não se pode chegar ao estado da igreja primitiva. Exteriormente a igreja protestante aparentava piedade, porém bem pronto se foi apagando o fogo inicial do avivamento reformista, a vida espiritual se foi deixando de lado. Há coisas que se haviam perdido, e ainda que algumas foram restauradas na Reforma, por essa falta de vida, estavam a ponto de morrer, e é por isso que ainda se necessita que essas coisas sejam revividas e reafirmadas no protestantismo, porque, como o viemos desmembrando, muitas coisas restauradas e começadas em Sardes, não têm sido terminadas nunca. Foi necessário que o Senhor reagisse novamente para completá-las, e isso o fez posteriormente com Filadélfia. No protestantismo com freqüência buscam os freqüentes reavivamentos.
Não é verdade que a história se repit, como a concebiam os gregos, mas se ensina ao que queira aprender em suas fontes. Por exemplo, em sua oportunidade Deus fez não necessários tanto o templo como os elaborados sacrifícios do judaísmo, centro neurálgico de seu culto e do qual se ufanavam como definitivamente indestrutíveis e indefectivelmente únicos dono do favor de Deus. E esse disparatado orgulho foi sua ruína quando tudo isso foi destruído como trágico desenlace, como Jesus o havia previsto. Os primeiros cristãos se encarregaram de advertir os dirigentes judeus desse tempo, mas eles desprezaram essa advertência: " 48 Entretanto, não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas; como diz o profeta:
49 O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do meu repouso? " (At. 7:48-49).
Hoje sucede algo similar com a estrutura eclesiástica de nosso tempo. É perigoso querer ganhar o favor de Deus pelos meios legalistas, a força, o orgulho organizacional, as contas bancárias, os grandes e luxuosos templos, o amor ao elogio humano, os interesses egoístas, o desejo de dominação na comunidade cristã e a confiança em si mesmo; tentações crônicas em si mesmas. Isto não é novo. Se deu no mesmo no seio do círculo íntimo de Jesus. Também ali houve brotos de aspirações pessoais por ocupar classes superiores e ser objetos de reconhecimentos, ocasião que aproveitou o Senhor para fazer uma vez mais a diferença ou mostrar o contraste entre as duas classes de grandeza: a babilônica e a dos cidadãos do reino de Deus. " 26 Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;27 e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; " (Mateus 20:26-27). Na Igreja do Senhor se faz grande o que humildemente serve aos santos inclusive em ocupações que muitas vezes são desprezadas pela sociedade secular e algumas facções do cristianismo.
Estes caminhos se afastam dos fundamentos da cidade de Deus. Ainda que o fundamento do edifício seja Jesus Cristo, é possível que se chegue a sobre-edificar com materiais diferentes ao ouro, a prata e as pedras preciosas. Quem segue pelo caminho e o poder legalista, descarta o autêntico poder empregado por Deus na cruz, que é, Quanto aos demais, o único válido ante o Senhor. " 23 mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios;24 mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. " (1 Co. 1:23-24).

Origem das "igrejas nacionais"

O protestantismo não foi uma reação puramente religiosa. A realidade é que outros interesses convergiram, como o nacionalismo, as aspirações de monarcas absolutos, dispostos a manejar tanto a vida política como a religiosa em seus domínios. O remanescente hebreu que voltou a Jerusalém a restaurar a cidade e reconstruir o templo, o fez com a proteção dos reis persas, e a subseqüente dependência de Alexandre o Grande e seus sucessores, e posteriormente dos romanos. Assim aconteceu com o protestantismo ao desprender-se do catolicismo; o fiz abaixo a proteção e dependência dos Estados europeus. Com o tempo na Europa a Reforma religiosa política foi degenerando em um cristianismo nominal; uma combinação de poder da igreja e das forças políticas que se opuseram a Roma. A cristandade nominal, tradicional, entendida como conjunto de sistemas religiosos, ainda que sempre hospedou em seu seio autênticos cristãos, entretanto se encheu de cristãos por herança, só de nome, havendo recebido o legado de fazer as coisas seguindo por inércia a prática de costumes ancestrais e ritos vazios, imersos nessa abúlica ignorância religiosa dos verdadeiros propósitos de Deus, tão distantes das rota humanas, ou simples e plenamente não conhecendo a Deus nem a Seu Cristo, adquirindo facilmente a tendência de ir com a corrente, ou de onde jamais tem saído. O termo cristandade generaliza demasiadamente, arrasta por si um cansaço semântico; que me impulsiona a afirmar que implica uma conotação pejorativa do significado da verdadeira Igreja de Cristo.
Na Europa as duas forças, a religiosa e a política, deram origem às "igrejas nacionais": na Inglaterra, a Anglicana; na Alemanha, a Luterana; na Escócia, a presbiteriana; na Holanda, a Reformada holandesa, e outras, de tal maneira que quem nascera em um destes países, somente pelo fato de nascer, por exemplo, na Inglaterra, imediatamente era batizado como anglicano, sem mais considerações bíblicas, exatamente como ocorre nos países chamados católicos, como na Espanha e Itália, onde a Reforma foi abatida cruelmente. Isso indica que a igreja se confundia com a sociedade secular e eram, na prática, iguais quanto a sua membresia. Isso ainda ocorre hoje em dia; pagãos batizados dentro de um sistema cristão.
Por que ocorreu tudo isto? Porque para a construção da casa de Deus, os cristãos aceitaram a ajuda de pessoas do mundo, e dos poderes políticos, e isso os levou a imitar ao mesmo sistema religioso do qual haviam saído, e as igrejas protestantes acabaram constituindo-se em uma mescla de política e religião. Permitirá Deus que alguém fora Dele, o Estado, por exemplo, reine sobre as almas de seus escolhidos? Se Tiatira se casou com o mundo, Sardes se uniu a diferentes nações. Nessa forma se criaram as extra-bíblicas igrejas nacionais. Por exemplo, já independentes de Roma, todos os ingleses ficaram incluídos na Igreja Anglicana, e todos os alemães na Igreja Luterana Alemã. Isso significa que se confundiram os termos Alemanha com Igreja Alemã, e todos os nativos do país podem batizar-se na respectiva "igreja nacional", e o Senhor lhes diz que têm o nome de que vivem, mas estão mortos. Há ali autêntico povo de Deus? Sim há, mas mesclado com infiéis, como ocorre com o sistema católico romano. Desde a Alemanha, o luteranismo se estendeu até outros países europeus como Escandinávia, Islândia e Finlândia, Dinamarca, Suécia e Noruega, onde os católicos romanos desapareceram quase por completo. Na atualidade, inclusive nos círculos hierárquicos do catolicismo, se sabe que as igrejas protestantes, sobre tudo as catalogadas como nacionais como a anglicana ou a presbiteriana, são estruturalmente o mesmo que o catolicismo romano, e não são temidas por Roma por quanto às consideram sérias, estruturadas e que não fazem um proselitismo agressivo, em contraste com os grupos mais recentes de tipo evangélico como os Pentecostais ou Assembléias de Deus.

Na Alemanha. Ao regressar a Wittenberg, em março de 1522, Lutero, com o apoio do eleitor, se ocupa da organização de uma igreja reformada na Saxônia, com base fundamental na justificação pela fé, mas deixando algumas práticas tradicionais na igreja que a seu juízo não se opõe abertamente às Escrituras. Prepara guias escritas para a ordem do culto, a celebração da Santa Ceia e o batismo. Por regra geral os protestantes conservaram, por causa da herança natural, a hierarquia sem o papa, o mesmo que os credos apostólicos e o Credo Niceno. As leis da genética ensinam que as filhas herdam as características das mães, e a Palavra de Deus diz que o sistema da grande prostituta é mãe de outras prostitutas, outros sistemas infiéis, que por muito que se hajam cercado ao Senhor, seguem envolvendo em seus ensinamentos e práticas de princípios não bíblicos, mesclando-los com os verdadeiros, mas o resultado carece da pureza que Deus demanda.
Por exemplo, à medida que a Reforma tomava força e se estendia, necessitaram de maior organização administrativa para a engrenagem eclesial, contando Lutero, a sua vez com o respaldo da autoridade secular. Não importa que Lutero esteve convencido da conveniência da independência da igreja frente ao Estado, o fato é que aceita esse apoio do mundo, e até o presente essa relação estreita perdura nas nações luteranas. Ao ir se estendendo a Reforma, a estrutura eclesiástica ia se diversificando e desfazendo-se o padrão idealizado por Lutero, de tal maneira que este, a fim de resolver as divergências e tratando de recuperar a ordem, acudiu aos príncipes laicos, como o eleitor da Saxônia e de outros Estados protestantes alemães, que se encarregaram de nomear supervisores regionais e visitadores que informaram sobre o estado das paróquias.
Surgiram sérios problemas, como o de certos nobres que quiseram aproveitar o momento conjuntural para sublevar-se e apoderar-se de terras episcopais, e o de certos antigos colaboradores de Lutero, empenhados em organizar uma comunidade eclesial mais rígida composta de autênticos protestantes. Por outro lado o movimento nacionalista em princípio viu em Lutero um grande protagonista para essas aspirações do povo alemão. Mas apesar dele, o número de seguidores se multiplicava grandemente; inclusive monges e monjas por centenas saiam dos conventos a fim de viver uma forma de vida cristã mais de acordo com as Escrituras. Para 1530, o norte de Alemanha havia sido ganhado para a Reforma; ou seja, ia se consolidando a formação de uma "igreja nacional" alemã, a luterana. Foi na Dieta de Espira em 1529, em que os príncipes luteranos, os do norte, protestaram ante os príncipes católicos, os do sul, por quanto o representante do imperador anunciou que Carlos V abolia a cláusula que na Dieta anterior ordenava que cada estado era livre de eleger sua forma de religião, ficaram conhecidos desde esse tempo como protestantes.
Antes e depois da morte de Lutero, ocorrida em 1546, houveram guerras entre os príncipes luteranos e os católicos, incluído o imperador, e não foi senão até 1555 em que o luteranismo conseguiu o reconhecimento legal no Império, com ocasião da Dieta de Augsburgo, reunida por Fernando, irmão de Carlos V, mas só para os que se guiassem pela Confissão de Augsburgo, como um primeiro passo fazia a liberdade religiosa, e onde foi incorporado o princípio do “cujus regio, ejus religio” (tal governo num Estado, tal religião neste Estado), de onde se conclui que o credo religioso das pessoas dependia do pais onde nascesse e não por sua fé subjetiva, como temos comentado; assunto que determinavam os governantes, mais por seus interesses políticos que por seus princípios religiosos. Além da Alemanha, também nos países escandinavos (Suécia, Dinamarca e Noruega) se organizaram "igrejas nacionais" luteranas.

Na Suiça. Na Suíça a Reforma se desenvolveu simultaneamente com a alemã, entretanto mais independente que esta; de maneira que, como em outras partes da Europa, a Reforma na Suíça não se identifica como luterana, e na verdade os líderes que seguem depois de Lutero, ainda que indiscutível primeira ordem, já não se lhes tem como pioneiros, senão seguidores. Ali Ulrico Zwinglio em 1517, mais radical ainda que Lutero, enfrentou aos abusos eclesiásticos e à "remissão de pecados" que ofereciam por meio de peregrinações a um santuário da virgem de Einsieldn. Igual a Lutero, Zwinglio havia cultivado sua educação humanística nos meios universitários, se aprofundou em seu estudo do Novo Testamento e também foi ordenado sacerdote ao serviço do papado (1506), e nessas condições recebeu as 95 teses de Lutero, em um momento em que também se pregavam as indulgências em Zurich. Zwinglio rompeu definitivamente com Roma em 1522, data na qual se uniu em matrimônio com Ana Reinhard.
Há de se ter em conta que a situação da igreja na Suíça era diferente à da Alemanha. Ali a igreja dependia mais do Estado, em tal forma que os conselhos municipais tinham autoridade para intervir nos assuntos eclesiásticos, fruto do espírito da época e das grandes lacunas da teologia escolástica imperante. Zwinglio se opôs a esta teologia e a todas as mentiras romano papistas como as indulgências, purgatório, relíquias, imagens, intercessão dos santos, a transubstanciação escolástica, os alunos quaresmais, o celibato, as tradições humanas, a riqueza da igreja, a distinção entre clérigos e laicos, o poder secular da igreja, o sacramento da penitência, como práticas estranhas à Bíblia. Desde o começo Zwinglio contou com a simpatia do conselho de Zürich, o qual acelerou e legalizou a reforma no beco e se foi estendendo por outros becos com a ajuda de outros pregadores do evangelho. Morre Zwinglio pelejando em disputa com as províncias católicas, na batalha de Cappel em 1531.

João Calvino. A reforma suíça seguiu seu desenvolvimento com figuras de primeira ordem como Guilherme Farel e João Calvino, considerado o maior e controverso teólogo da Igreja depois de Agostinho de Hipona, por ser sua teologia a mais bíblica de toda a Reforma. Nasceu Calvino em 10 de julho de 1509, em Noyon de Picardia, França, de uma família de antepassados humildes, mas de pais meio acomodados. Adiantou estudos de teologia na Universidade de Paris, os que mais tarde abandonou pelos de jurisprudência e humanidade. Escrevia com perfeição em latim, e adquiriu conhecimentos do grego e do hebraico, e foi atraído profundamente pelas idéias luteranas. Em 1535 fugiu de Paris a Basiléia e Genebra acusado de heresia, onde publicou sua famosa obra conhecida como a Instituição da Religião Cristã, a mais sistemática, coerente, ordenada e clara apresentação da teologia dogmática protestante. Está composta esta obra de quatro livros e dividida em oitenta capítulos, e é considerada a soma do sistema teológico calvinista. Há de se ter em conta que o propósito fundamental da teologia é o de guiar os crentes na busca de Cristo nas Escrituras.
Grande estudioso da teologia de Agostinho, e tratando de expor o que era o cristianismo verdadeiro, a teologia calvinista separa temas como o do Pai como o Deus soberano sobre Sua criação, que governa, sustenta e preserva o universo com amor e justiça ao mesmo tempo; a natureza do homem, a imortalidade, o pecado, a redenção operada por Deus em Cristo; sobre o Espírito Santo; a Igreja e sua relação com as autoridades civis; as conseqüências da queda. Calvino nega a liberdade do ser humano no sentido pelagiano: primeiro, de acordo com a doutrina paulina, é escravo do pecado, escravidão da qual somos redimidos pelo Senhor por meio da fé; mas como a fé é um dom de Deus, é evidente que Deus elege, e viemos logo a ser servos do Senhor. Há biblicamente uma eleição e predestinação para salvação. Calvino estabelece a necessidade das Escrituras para o conhecimento de Deus, dado que Cristo é o único mediador entre Deus e os homens e Cristo é o centro da Bíblia. (Se pode ler no Apêndice II de este capítulo os cinco pontos da doutrina calvinista da graça).
Enquanto à Igreja, na Instituição ou Institutos, Calvino ensina que a Igreja universal não é idêntica a nenhuma instituição visível; que não pode ser dividida, porque isso significaria que Cristo está dividido; a Cabeça da Igreja é Cristo, e os crentes juntos formam um Corpo; que a Igreja visível está composta de igrejas de diferentes cidades e aldeias.
Calvino reconhecia dois sacramentos, o batismo e a ceia do Senhor. Ensinava também que os termos bispos, anciãos, pastores e ministros, têm o mesmo significado, mas seu ponto de vista era que, além da vocação interior de Deus, os ministros têm de ser eleitos com o consentimento e a aprovação do povo mediante eleições. Inclinava-se a fazer uma aristocracia eleita. A teologia calvinista teve tanta importância, que irradiou sua influência por outros países europeus como Holanda, Escócia, Hungria, França, Inglaterra, e mais tarde na América do Norte. As teologias, tanto de Lutero como de Calvino, foram as de maior influência nos movimentos protestantes que surgiram da Reforma.
Em Genebra houve discrepâncias de tipo religiosa com os governantes civis, e devido a isso Calvino e Farel se retiraram a Estrasburgo, mas sendo chamados de novo, Calvino conseguiu que adotassem suas Ordenanças Eclesiásticas, uma constituição da igreja, para restabelecer por meio delas a ordem, mesmo que, ao não haver uma política clara de independência da igreja e o Estado, o poder civil continuou com suas pretensões de ser também o representante supremo do poder eclesiástico.
Por exemplo, a confissão de fé se faz obrigatória para todos os habitantes da cidade. Os magistrados civis intervêm na nomeação de candidatos ao ministério, e os consistórios eclesiásticos eram integrados por ministros da igreja e membros dos conselhos municipais. Devido a essa sinistra herança, a esse critério dualista, a essa persistente união da igreja com o Estado, desafortunadamente Calvino foi um dos juízes inquisitoriais que condenou a morte na fogueira ao célebre reformador radical, médico, humanista e científico espanhol Miguel Servet, por seus erros antitrinitários e contra da predestinação e o batismo infantil, pois a heresia era um delito civil abaixo o Código Justiniano, ainda que Calvino tratou com empenho que se retratara. Servet havia sido médico do arcebispo de Viena na França, e havia sido julgado por herege no sistema católico romano, e fugindo a Suíça, foi reconhecido e arrastado a instâncias de Calvino. Servet foi queimado na fogueira em 27 de outubro de 1557, e entre as chamas clamava, dizendo: "Oh Jesus, Filho do eterno Deus, tem piedade de mim". Ainda que Calvino não era sempre o agente principal das atividades do consistório, é lamentável registrar o exagerado zelo por guardar a moral pública e as práticas cultuais, que as disciplinas e as censuras chegaram a um grau sufocante e exagerado de ridículo, de tipo inquisitorial.

Na França. Em contraste com Alemanha e Suíça, na França os protestantes formavam uma minoria, sobre tudo si se tem em conta que os reis franceses, nominalmente católicos, segundo interesses costumavam porem-se alternativamente da parte dos protestantes ou dos católicos. Destaca-se a figura do professor humanista, teólogo e tradutor da Bíblia, Jacobo Lefèvre d’Etaples, quem desde 1512 escreveu e pregou sobre a justificação pela fé, a ausência de méritos nas obras humanas e o caráter extra-bíblico da doutrina escolástica da transubstanciação. Na França o protestantismo teve uma história tempestuosa e se viu envolto o país em prolongadas e intermitentes guerras religioso políticas entre 1562 e 1594.
A Universidade a Sorbona, fundada no século XIII por Roberto de Sorbom, se encarregou de publicar uma declaração das doutrinas da igreja católica, refutando os Institutos de Calvino e proibindo os livros dos reformadores, incluindo as obras de Lutero, Calvino, Felipe Melachthon e Clemente Marot. A maioria das aldeias valdenses nos vales de Provença foram destruídas e alguns irmãos queimados na fogueira. Um ato digno de se destacar é que a história registra a matança da noite de São Bartolomeu, em agosto 24 de 1572, em que por ordem de Catarina de Médicis, da família real, foram vilmente assassinados uns 70.000 huguenotes, nome dado aos protestantes na França, incluindo a quase todos seus dirigentes, entre eles o almirante Gaspar de Coligny, o qual foi atravessado por uma lança em seu leito e jogado ao balcão, por obra de um dos Guisa, da nobreza francesa. É lamentável registrar que quando a noticia chegou até Roma, celebraram festas especiais, o papado deu a ordem jubilosa de que se tocassem todos os sinos da cidade e se mandou cunhar uma medalha para comemorar a data.
Em 1598, mediante o Edito de Nantes foi garantido aos huguenotes à liberdade de culto público em muitas cidades especificadas da França, entre as quais não se incluía Paris. As muitas perseguições na França contribuíram para a união entre os protestantes, o que os levou a organizarem-se em igrejas com seus pastores, diáconos, etc... Chegando inclusive a redigir uma Confissão de Fé e um Livro de Disciplina. No entanto, no vaivém dos interesses políticos, aos protestantes se lhes asseguraram os plenos direitos cívicos; e ao clero protestante se lhe concedeu as mesmas exceções do serviço militar e de outros cargos de que o clero católico gozava.
Quando Napoleão Bonaparte ascendeu ao poder em 1799, uma de suas preocupações foi a de controlar a vida religiosa da França. As duas principais confissões protestantes, Reformados e Luteranos, foram reconhecidas oficialmente, e ao igual que o clero católico romano, seus pastores foram considerados funcionários do Estado, com direito a receber salário do fisco (1802).

Na Escócia. Antes que se difundissem as idéias luteranas, na Escócia já existiam pequenos grupos wycleffitas e hussitas, mas foi no século XVI quando foi introduzida a Reforma, a qual chegaria a ser acolhida pela grande maioria da povoação, de maneira que o protestantismo chegou a ser a religião oficial do Estado. É importante saber que a forma do protestantismo que prevaleceu na Escócia foi a presbiteriana, onde os termos pastor, bispo e ministro se empregavam para determinar o mesmo posto. Os presbiterianos, fiéis seguidores das idéias calvinistas, a diferença dos anglicanos, não estiveram de acordo com o rei, além de chefe político fosse o chefe da igreja. O protestantismo teve um grande desenvolvimento na Escócia devido à anarquia predominante entre a nobreza, a qual, como se sabe, monopolizava muitos postos eclesiásticos, que eram ocupados pelos filhos dos nobres que gozavam das rendas; mas o pior do caso é que eram ausentes, ou seja, que usufruíam das rendas sem cumprir as funções correspondentes. Surgem alguns precursores da vindoura revolução religiosa; os escritos de Lutero se difundiram e se conhecem insignes varões de Deus como Patrício Hamilton, que, acusado de heresia, foi queimado vivo em 1528 em Santo André, a capital eclesiástica do país; mas este martírio, longe de apagar o fogo da reforma, o avivou.
O mais destacado Adail da reforma escocesa foi indiscutivelmente João Knox, que nasceu em Haddington em 1515, e depois de haver cursado estudos universitários, foi ordenado ao sacerdócio em 1540. Knox escutou as pregações de Jorge Wishart, mártir e companheiro de Patrício, convertendo-se em um dos mais estritos e severos teólogos de todo o século XVI, e com alguns companheiros se dispôs a pregar as doutrinas protestantes no castelo de Santo André. Havendo sido capturado e levado a França, permaneceu de galeote durante dezenove meses, até que por intervenção do governo inglês, foi liberado em 1549. Uma vez liberado foi a Inglaterra, onde a reforma estava em seu ponto culminante, e foi um dos capelães do rei Eduardo VI. Mais tarde em Genebra foi discípulo de Calvino. Escócia aderiu oficialmente à reforma em 1561, depois de uma guerra civil, quando o parlamento escocês adotou uma confissão de fé mais calvinista que luterana, que Knox e outros reformadores haviam redigido, a Confissão de Fé Professada e Crida pelos Protestantes do Reino da Escócia. Proibiram a missa e declararam nula a jurisdição papal na Escócia. Também redigiram o documento conhecido como o primeiro livro de Disciplina, no qual se estabelecia o regime presbiteriano, e o Livro de Ordem Comum, uma espécie de liturgia de Knox.. Como se vê, tal como o fizeram Lutero, Calvino, Zwinglio e outros reformadores, também Knox se valeu das autoridades civis para efetuar as reformas, ainda que houve setores minoritários do protestantismo, que eram menos insistentes na perpetuação desse statu quo, o mesmo que do ritual e organização herdados da grande mãe.

Na Inglaterra. Henrique VIII não foi necessariamente o iniciador da reforma na Inglaterra. Já desde os tempos do pré-reformador Wycliffe, existia na Inglaterra o movimento dos lolardos, que buscavam voltar á pratica do cristianismo primitivo. Além dos lolardos, os protagonistas da verdadeira reforma inglesa são o humanista John Colet e seu discípulo Guilherme Tyndale, destacado humanista cristão, sacerdote, mártir, tradutor da Bíblia ao inglês partindo dos originais hebreu e grego, e se ajudou com a Septuaginta e a Bíblia de Lutero, mas usando pouco a tradução de Wycliffe, quem havia usado a Vulgata. Além disto, muitos dos escritos de Lutero se haviam difundido por todo o país, achando um terreno abonado, e de grande influência inclusive nas universidades de Oxford e Cambridge. No princípio, Henrique VIII se mostrou contrário à reforma luterana, por considerar herege. O curioso é que Henrique VIII, depois que em 1521 recebeu do papa Leão X o título de Defensor da Fé, tempos em que na Inglaterra os estudantes de teologia deviam renunciar abaixo juramento às doutrinas de Wycliffe, João Huss e Lutero, esse mesmo monarca em 1534, por conveniências particulares, rompe oficialmente com o papado, e estabelece a Igreja Católica da Inglaterra, declarando-se ele mesmo como cabeça da mesma, respaldado por um vigoroso nacionalismo que incitava à oposição à intervenção de um papa estrangeiro nos assuntos eclesiásticos e à maneira em que os representantes papais derrotavam as rendas do país nos luxuosos palácios de Roma e Avinhão. De tudo isto se aproveitou o quase absolutista Henrique VIII.
Henrique VIII (1491-1547), se casou por conveniências políticas com Catarina de Aragon, filha dos reis católicos da Espanha, Fernando e Isabel, e na ocasião viúva de seu irmão Arturo. Este matrimônio não era permitido pelas leis canônicas da época, mas obteve a autorização do papa Julio II. Eles tiveram vários filhos, mas somente sobreviveu Maria. Henrique anelava apaixonadamente um herdeiro masculino, e começou a questionar-se se não fosse castigo de parte de Deus por haver se casado com a viúva de seu irmão, dúvidas que aumentaram quando foi objeto de atrações mútuas com Ana Bolena, com a qual se casou secretamente, solicitando a anulação de seu matrimônio anterior. Tenhamos em conta que os nobres ingleses em sua maioria eram opostos à cúria romana, e Tomás Cranmer, arcebispo de Canterbury e quem pôs o fundamento para a teologia da igreja Anglicana, simpatizava com as doutrinas luteranas. Os grandes canonistas das principais universidades européias, consultados para o caso por conselho de Cranmer, consideraram nulo o matrimônio de Henrique e Catarina, mas o papa se negou a anulá-lo pelo fato de que Catarina era tia do Imperador Carlos V, quem era mais poderoso que o monarca inglês.
A ruptura com Roma não se fez esperar. O parlamento inglês em 1534 aprovou certas leis que protocolizavam a ruptura e nomearam a Henrique VIII cabeça suprema da igreja na Inglaterra. Foi a época quando foram decapitados o humanista, pensador e bom cristão Sir Tomás More e outros, por não estar de acordo com os sucessos. Logicamente que o papa excomungou ao rei. No ano 1535, Henrique se pronunciou a si mesmo como "in terra supremum caput Anglacanæ ecclesiæ" ("a suprema cabeça da Igreja Anglicana"), e ato seguido o nome do papa foi apagado de todos os livros cultuais, ficando assim dono tanto do Estado como da igreja.
Não é nossa intenção ao largo do livro aprofundar-nos em detalhes, mas é necessário deixar registrado que durante o resto do reinado de Henrique VIII, a história registra suas muitas vacilações em assuntos doutrinários, sua não aceitação às fundamentais doutrinas da Reforma, as múltiples execuções de quem não estiveram de acordo com seu proceder, proibição da leitura da Bíblia, seus posteriores divórcios e re-casamentos, decepcionando a todas as correntes doutrinárias da época.
A Reforma na Inglaterra se estabeleceu definitivamente durante o reinado de sua filha Isabel I, cujo reinado as prisões foram abertas, revogados os exílios, honrada a leitura da Bíblia, a época mais gloriosa da história inglesa. A partir dessa época a Igreja Anglicana tomou a forma que tem permanecido até hoje, com uma paróquia real de tão somente 6% do povo; da nominal não temos conhecimentos. É importante registrar que o tormento e até sangrento desenvolvimento da Reforma na Inglaterra, deu origem a muitos grupos minoritários de radicais, que posteriormente foram as raízes de movimentos separatistas e a formação de grandes denominações, como o veremos logo.
As missões anglicanas estabelecidas em território norte-americano, depois da guerra da independência sofreram uma transformação, pois em 1789 os anglicanos dos Estados Unidos se organizaram em uma denominação independente, a Igreja Protestante Episcopal.


A Paz de Westfalia

Depois dos movimentos reformistas dentro dos toldos católicos, a Igreja Católica Romana se pôs em marcha para reclamar os territórios europeus que havia perdido em favor do protestantismo. Um século depois de institucionalizada a Reforma protestante, em 1618, e por defender interesses, ambições e rivalidades mais políticos que religiosos dos reis, generais y aventureiros, o mesmo que os impulsos do nascente nacionalismo se desatam na Alemanha e logo em outros países europeus uma guerra conhecida historicamente como a Guerra dos Trinta Anos
O catolicismo romano recupera alguns territórios que havia perdido, assim como paróquias, monastérios e bispados, mas não pode acabar com o protestantismo. Finalmente, mediante o tratado de Westfalia de 1648 se firma a paz, e se fixam os lindeiros tanto dos estados católico romanos como protestantes, e se concedeu às nações européias o direito a eleger religião. Registram-se muitas mudanças e se frustram muitas aspirações habituais na Europa medieval.
Recorde-se que, como o temos mencionado no capítulo de Tiatira, os idealistas do sistema romano haviam dado por sensato que o papado estava chamado a dar cumprimento ao reino milenar e fundamentaram suas esperanças na formação de um Estado universal com duas cabeças, o papa romano e o Santo Império Romano, confundindo assim praticamente a igreja com o mundo; secularizando a igreja, ou "cristianizando" o mundo. Será cumprimento disto o frustrado milênio que inaugurarão as duas bestas de Apocalipses 13? Mas ao surgir a reforma protestante, e começar a passar a velha ordem que havia estado associado com o cristianismo apóstata, muitos despertam do ilusório sonho à objetiva realidade de que o mundo não se pode "cristianizar", e de que a igreja secularizada não pode substituir nem à legítima Igreja de Jesus Cristo, em sua manifestação verdadeira, nem ao escatológico reino milenar do Senhor. Poderá o mundo ser "cristão" em certas épocas mais que em outras?
É perigoso confundir o mundo e o Estado com a Igreja. Sabemos que Deus saca a Sua Igreja do mundo; faz um exagorazo*(1), para que não se siga nem, confundindo com o mundo, nem siga de escrava dessa corrente mundana. É verdade que a Igreja tem influenciado no mundo, porque é a luz do mundo, o sal da terra; mas é difícil determinar até que medida o mundo se conforma às normas cristãs.
*(1) Cristo ao redimir-nos, nos tem sacado da praça de mercado (em grego, agora) de escravos. O mundo é a praça de mercado de onde nos tem sacado o Senhor.
*exagorazo: "comprar e retirar do mercado”

Como ladrão na noite

" Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti. " (v.3).
A igreja protestante reformada se caracteriza por receber ensinamentos em insignes centros educativos, grandes seminários e incontáveis institutos teológicos, porém mais em teoria e na letra que no espírito; letra sem vida, conhecimentos na mente, onde esses velhos odres não puderam conter o novo vinho. Mas, esses ensinamentos seriam os autênticos de Cristo? Tenhamos em conta que Tiatira inventou seu próprio ensinamento, e muito desses ensinamentos passou a Sardes. O que fazia a igreja primitiva? " E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. " (At. 2:42). Mas chegou o momento histórico em que a Igreja se esqueceu da doutrina dos apóstolos, e se perdeu a comunhão de Cristo, mas Sardes não a restaurou completamente; seguiu inventando coisas.
Com a Reforma se iniciou um avivamento, mas suas características foram mais exteriores que uma vida espiritual autêntica. A este remanescente de refugiados de Tiatira se lhes elogia haver aceitado esses revolucionários ensinamentos, mas por quanto esses conhecimentos não foram fonte de vida espiritual, aquela boa obra ficou pela metade, não completaram o propósito que o Senhor tinha de recuperar e restaurar por completo Sua Igreja. A reação de Deus a esse statu quo não foi respaldada inteiramente pelos homens. Receberam muitos ensinamentos em seus intelectos, mas não chegaram a seus corações; então se considerava viva, mas estava morta. "Tem recebido todo o depósito, com todas suas exigências e privilégios, mas o tem prestes a acabar". Disse o irmão Rick Joyner: «Não procures ensinar a outros a fazer o que tu, por ti mesmo, não estás conseguindo. A reforma não é tão somente uma doutrina. A verdadeira reforma vem da união com o Salvador. Quando estás em jugo com Cristo, levando a carga que Ele te tem dado, Ele estará contigo e a levará por ti. Tão somente poderás fazer seu trabalho quando o estejas realizando com Ele, não só para Ele. Somente o Espírito pode gerar aquele que é Espírito. Se estás em jugo com Ele não farás nada a favor da política nem da história. Tudo o que faças por motivos de pressão política ou oportunidades te conduzirá ao fim de teu próprio ministério. As coisas que se fazem em um esforço por fazer a história, serão a melhor restrição de tuas colaborações à história e fracassarás em teu intento de impactar a eternidade. Se não vives o que pregas a outros, te desqualificas a ti mesmo do sumo chamado de Deus». (Rick Joyner. La Búsqueda Final. Whitaker House. U.S.A. 1997)
Em Sardes foram restauradas algumas coisas, mais nada em matéria eclesiológica, e a vida do Corpo. Não há autêntica vida espiritual quando não se vive corporativamente, pois Lutero pode haver definido à Igreja como a comunhão dos santos, mas no fundo houve confusão, e se seguiu pensando em um edifício, em uma instituição. Recorde-se que para Lutero, o governo e a organização externa da igreja eram relativos, adaptáveis ao tempo e às circunstancias; em troca Calvino e Bucero (ou Bucer) pensavam que a organização da igreja devia sujeitar-se aos ditados da Bíblia, o qual tem uma validez permanente.
A Reforma foi fundamentada mais por "teologias" e "doutrinas", que pela Palavra de Deus. O teólogo com relativa facilidade pode inclinar-se a certas correntes doutrinais, devido a que com segurança tem sido formado de acordo com os critérios dominantes de algumas escolas de pensamento, com freqüências fechadas a distintas outras tendências e considerações teológicas, dificultando assim o correto e verdadeiro enfoque da sã exegese da palavra profética. Hoje se tem milhares de escolas para pastores e até para profetas, mas isso não garante que hajam sido escolhidos por Deus para pô-los como pastores e profetas, nenhum grau ou diploma autoriza a ninguém a ordenar a outro de pastor ou profeta.
O Senhor veio edificar uma Igreja para sua glória, para que seja Sua morada, Seu templo. Com freqüência, as eventuais representações têm sido formais, tanto que tem desvirtuado a verdadeira orientação histórica que o Senhor se propôs dar-lhe a Sua única e amada Igreja. É apenas compreensível que quem não contenha ao Senhor, em primeira instância a nível individual e logo corporativamente, não pode representar correta e profeticamente.
Se o Espírito Santo não vive no espírito do homem e Cristo não habita em seu coração, é muito difícil a edificação da Igreja debaixo dos parâmetros e requerimentos da Palavra de Deus. Quando em Efésios 3:17 diz, " e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé ", o verbo habitar, em grego katoikeo, acarreta a idéia de "sentir-se em casa" ou "possuir-se de". A Igreja é a santa casa de Cristo, é Seu lugar onde Ele, como Cabeça, é quem manda. Mas através da história as coisas tomaram um rumo diferente, e os homens começaram a desconhecer o Cabeça, o chefe da casa.
O nível da Igreja começou a deslizar-se à morte dos apóstolos; o método divino se foi perdendo, até que ocorreu o matrimônio com o sistema político religioso do mundo; e por Séculos a cristandade esta tratando de servir a Deus usando métodos artificiais, meramente religiosos e de humana invenção, introduzindo e adotando fogo estranho, tomando prestadas liturgias e costumes do antigo judaísmo mescladas com os rituais de origem pagã de heresias babilônicas, egípcias, gregas e romanas, cristalizadas primeiro no sistema católico romano e transpassadas a sua vez, com alguns atenuantes, às igrejas cristãs nacionais européias, e posteriormente, com certas roupagens de ortodoxia bíblica, às grandes denominações protestantes; mais tarde se vislumbram alguns vestígios dessa nefasta herança nos sistemas congregacionais, tais como seu clericalismo, seus templos, altares, economia.
O que acontecerá com as igrejas reformadas protestantes? Continuarão existindo até a eventual vinda do Senhor, mas a nível organizacional estão mortas, e se não vigiarem, virá o Senhor no momento em que menos o esperam; individualmente os irmãos de Sardes não têm a suficiente clareza sobre o tempo da vinda do Senhor, que os surpreenderá como ladrão, quando Ele eventualmente estiver se manifestando aos que o buscam, aos vencedores. Em comparação com Filadélfia, para Sardes a vinda do Senhor será tão repentina e em uma hora em que ninguém em Sardes saberá, e será tão dramático, que o Senhor lhes diz que os surpreenderá como ladrão na noite. Para Sardes a vinda do Senhor os tomará por surpresa, assim como foi tomada por surpresa a cidade em duas ocasiões: primeiro por Ciro o Grande, o persa, no ano 549 a. de C., e depois por Antíoco III o Grande em 218 a. DC., apesar de que estavam confiantes, não estavam em vigilância, porque Sardes estava construída sobre uma colina cujos lados caiam perpendicularmente sobre a planície; e por último foi destruída por um terremoto no ano 17 DC., ainda foi reconstruída em 273. Mas o curioso é que o mesmo anuncio o tem o Senhor para o mundo que não lhe conhece. Sardes, se não se arrepende, é reduzida à condição de mundo. Meditemos no seguinte texto de 1ª Tessalonicenses 5:1-6:
" 1 Irmãos, relativamente aos tempos e às épocas, não há necessidade de que eu vos escreva;2 pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o Dia do Senhor vem como ladrão de noite.3 Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão.4 Mas vós, irmãos, não estais em trevas, para que esse Dia como ladrão vos apanhe de surpresa;5 porquanto vós todos sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite, nem das trevas.6 Assim, pois, não durmamos como os demais; pelo contrário, vigiemos e sejamos sóbrios. ".
O que significa os versículos anteriores? Que necessitas estar totalmente preparado antes que chegue esse acontecimento. É necessário que sejas um vencedor, que conheça em quais dias vives, o tempo profético do Senhor, para que aquele dia não te surpreenda como ladrão. Podes ler a carta à Filadélfia com atenção e verás que na adequada restauração do Senhor as coisas são diferentes.




Capítulo V.
SARDES
(3a. parte)

Os grandes movimentos e denominações

As origens dos diferentes movimentos e organizações eclesiásticas do protestantismo não foram puramente religiosas. Entraram no jogo outros fatores como os políticos, nacionais, sociais e pessoais. As igrejas nacionais se interessaram mais por perpetuar sua instituição que em serem fiéis ao Senhor e servirem-lhe conforme os ensinamentos de Cristo, e por isso é que no século XVIII surge uma nova reação ainda dentro de Sardes. Trata-se dos que se negaram a seguir participando das igrejas nacionais, hora porque tiveram novas luzes sobre certas verdades bíblicas, hora porque se negavam a seguir participando do pecado alheio e outras razões, mas optaram por abrirem passo com outro avivamento, pois do primeiro somente havia ficado o recipiente de onde havia bebido a primeira geração; só ficava a conformação externa, e se abriram abaixo a bandeira e pretexto de doutrinas ressaltadas, abrindo primeiro igrejas dissidentes, as que mais tarde deram lugar à formação das grandes denominações históricas, mas estas grandes organizações denominacionais correram a mesma sorte, de tal maneira que se seguem disputando a possessão da melhor organização, do vaso mais reluzente, de onde a duras penas ficará alguma gotinha da primeira benção de Deus. Para que o vaso seja perfeitamente cheio da graça e benção genuína de Deus, é necessário ir ao principio bíblico, à norma de Deus. Por isso é que as obras de Sardes resultam ser boas, mas não perfeitas. É necessário saber como se receberam as coisas de Deus no principio. Aí estão na Bíblia. Aí está o depósito completo. Claro que os reformadores restauraram a leitura da Bíblia aos idiomas vernáculos, mas com o agravante de que não foi entendida e obedecida em sua justa medida. Os homens preferiram abrir os estatutos, as normas feitas pelos outros homens, seguir as heranças e tradições religiosas, os compromissos políticos, que abrir o livro dos Atos, as epístolas apostólicas, o Apocalipse e seguir o caminho fixado pelo Senhor.
Dentro do panorama reformista inglês houve uma época em que se vislumbravam três diferentes tendências: o elemento romanista, que propugnava por uma nova união com Roma; o anglicano, que estava de acordo com a moderada reforma de Henrique VIII e Isabel I, e um terceiro grupo de protestantes radicais, de donde surgiram os puritanos, congregacionais, batistas, Quaquers, metodistas, e outros. No começo as pessoas que organizaram as igrejas independentes foram submetidas à severa perseguição e oposição por parte dos dirigentes das igrejas nacionais européias, os acusando de causar divisões e apelidando-os de sectários. Mas tenha-se em conta que as igrejas nacionais, havendo acabado mortas, além dos verdadeiros filhos de Deus, os que o pertenciam pela fé, incluíram pelo batismo aos não crentes; então aqueles que se apartaram foram dos que em verdade haviam crido, e havendo sido tocados pelo Espírito Santo, saiam do meio das filhas da grande prostituta. Mas as novas congregações também acabaram mortas. Está o protestantismo morto de todo? Não, porque há em seu seio umas poucas pessoas sem si contaminar, as quais são usadas por Deus poderosamente.
Queremos deixar por certo que círculos religiosos romanistas, para defender sua postura e outros obscuros motivos, têm insistido na desinformação de que os movimentos protestantes que têm penetrado nos países do terceiro mundo e em especial aos da América Latina, se apegam à Bíblia como critério único e inefável de fé e moral e a seguem literalmente porque se baseiam em um fundamentalismo norte americano. Não é raro que se trate de uma seqüela de algum suspiro do fantasma da famosa teologia da liberação, e sorrateiramente se identifique com suspicácia ao protestantismo com o capitalismo associado ao imperialismo norte americano. No presente estudo não fazemos uma analise exaustiva do assunto, mas tratamos de apresentar a verdade de tal maneira que se esclarece que a maioria dos grandes movimentos protestantes se originaram na Europa, inclusive antes do desenvolvimento dos países no território norte americano, e que os movimentos protestantes norte americanos, por princípios constitucionais, não foram oficializados nem relacionados com o Estado. Sabe-se que os colonizadores pioneiros da América do Norte foram muitos dos irmãos protestantes que fugiam das perseguições de que eram objeto por parte dos intolerantes magnatas religioso políticos europeus.

Anabatistas. Já temos comentado que por razões de herança profeticamente analisadas, o luteranismo e a Reforma em geral em muitos aspectos constituíram uma continuação do sistema católico romano, pois em princípio o luteranismo recusou só aquelas características do catolicismo que ao parecer dos reformadores iam a sentido contrário das Escrituras. Em muitos territórios europeus as igrejas reformadas pretenderam ser "a igreja" em seu respectivo país, tratando de fazer entrar na igreja visível a todos os que nascessem na comunidade, não obstante que um dos princípios fundamentais da Reforma era a salvação pela fé. Inclusive na Dieta de Augsburgo, houve alguma disparidade entre as confissões de fé apresentadas em separado por Lutero e por Zwinglio. Em meio a toda essa confusão, se levantaram grupos de reformadores radicais (uns mais radicais que outros), que tinham às Escrituras como sua autoridade e desejavam voltar ao cristianismo primitivo, recusando tudo o que havia vindo por meio do catolicismo romano, trabalhando na formação de igrejas não identificadas com o mundo, compostas por pessoas que houvessem experimentado o novo nascimento.
Nos começos da Reforma, entre os que lideravam aos mais radicais, estavam André Carlstadt e Tomás Müntzer, colaboradores próximos de Lutero no começo, quem estava ansiosos por acabar com todos os remanescentes da "igreja papista" e dos opressores de toda índole; lhe deram aos laicos tanto o pão como o vinho, recusaram as imagens, alguns sacerdotes e monges se casaram (isto o deixaram à consciência individual), caíram em desuso a confissão e os alunos, se permitiu o idioma germânico no sermão e a eliminação gradual dos altares, se aboliram as associações religiosas, suprimiram o batismo de crianças por ser contrário às Escrituras, e voltando a batizar os adultos, razão pela qual foram chamados anabatistas (rebatizadores). Recorde-se que o batismo de crianças é baseado nas doutrinas de Agostinho de Hipona. Não se pode determinar com precisão quando se originaram os anabatistas; mas se tem conhecimento de que o centro dos primeiros anabatistas foi Zürich, pois se associaram com Conrado Grebel (1498-1526), Félix Manz e Jorge Blaurock, integrantes de proeminentes famílias e antigos colaboradores de Zwinglio em Sürich, Suíça, mas que iniciaram um movimento ainda mais radical que o de Zwinglio, movimento que se conhece como os Irmãos Suíços, que estabeleceram contato com Carlstadt. Grebel foi executado, afogado, por ordem do conselho municipal.
Os anabatistas foram perseguidos tanto pelo papado como por protestantes, porque viam neles uns revolucionários perigosos, que transtornavam a ordem estabelecida; além disso, devido a que batizar-se de novo era um delito que se pagava com a morte, de acordo com o código de Justiniano, incorporado em o Corpus Iuris Civilis (Código Civil vigente na Europa nessa época). Os anabatistas também recusaram o modelo da simbiose igreja-sociedade estatal, identificando o batismo com a profissão de fé de um crente em Jesus Cristo. Reuniam aos crentes em congregações separadas do mundo, desejando voltar ao cristianismo do primeiro século e libertá-lo das corruptas inovações de Roma. Lutero os chamou fanáticos, em parte porque alguns, os mais radicais, quiseram chegar a extremos perigosos como o de incitar a matar a certos ímpios. Os anabatistas constituem a si mesmos as raízes do posterior surgimento de importantes movimentos como os batistas e os Quaquers.

Menonitas. Este movimento teve suas raízes no anabatismo. Toma seu nome de Menno Simonis (1496-1561), nascido na Frisa Ocidental, quem originalmente foi ordenado ministro anabatista depois de haver sido consagrado sacerdote ao serviço do catolicismo romano, mas um ano depois de haver sido ordenado sacerdote teve dúvidas quanto à eficácia da missa. Todavia ao serviço do romanismo, e estudando a Bíblia, foi comovido profundamente pela execução de anabatistas em sua região. Por outro lado, por seu estudo escriturário, teve o convencimento que tanto o catolicismo romano como as correntes protestantes estavam no erro enquanto à prática do batismo infantil. O 30 de janeiro de 1536, Menno Simonis renunciou publicamente a seus vínculos com o catolicismo romano. Refugiou-se muitos anos nos países baixos, vítima de perseguições, mas apesar disso, estendeu seus trabalhos missionários até a Alemanha, Dinamarca, Holanda, escrevendo, organizando congregações, e foram escrito várias confissões de fé. Os menonitas chegaram a ser numerosos na Holanda e em várias regiões da Alemanha. Obrigados pela perseguição, e negando-se à resistência armada, os menonitas se dispersaram extensamente, chegando inclusive a estabelecerem-se no território do continente americano.

Os puritanos e o Novo Mundo. Na Inglaterra grande parte dos protestantes se identificaram com o calvinismo, dando origem aos chamados puritanos, que mais tarde colonizaram muitas das terras da América do Norte. Recorde-se que o barco Maryflower zarpou da Inglaterra em 1620 com um grupo de Separatistas que fundaram a Plymouth; eram os chamados pais peregrinos. Suas raízes se remontam desde o reinado de Henrique VIII. Muitos deles se refugiaram durante o reinado de Maria Tudor, filha de Catarina de Aragom, e reinando Isabel I tiveram contatos com os irmãos de Basiléia, Estrasburgo e outras cidades de onde se havia desenvolvido a Reforma. Ensinavam os puritanos a teologia dos convênios ou pactos, na qual as promessas que Deus lhes havia feito aos homens, estavam condicionadas à obediência do homem. Compreendia o pacto de graça entre Deus e Seus eleitos, e o pacto de obras entre Deus e Adão como representante de toda a humanidade. Reprovavam o episcopalismo em favor do presbiterianismo e não desejavam deixar de pertencer à Igreja Anglicana, ainda que um grupo importante deles anelava uma igreja mais autônoma, igual àquelas estabelecidas em Genebra e Escócia. Durante o reinado de Isabel, Tomás Cartwright, nomeado professor em divindade em Cambridge em 1569, foi um dos grandes exponentes do puritanismo presbiteriano.
Durante o reinado de James I (reinou entre 1603 a 1625), sucessor de Isabel, influíram para que se realizasse a mais famosa das traduções bíblicas ao idioma inglês, a versão do Rei James, feita por cinqüenta e quatro eruditos da época, por encargo deste monarca e publicada em 1611. Destaca-se a figura do puritano João Milton, intimamente relacionado com o governo de Cromwell (1653-1658), quem se escapou da forca, e é muito conhecido por sua obra O Paraíso Perdido, na que descreve o drama humano abaixo a perspectiva cristã. Nessa época se impôs o elemento independente ou congregacional nos toldos puritanos. Depois da guerra de 1688, protocolizou sua independência da Igreja de Inglaterra, obtendo direitos como organizações separadas. Dos puritanos surgiram três grandes denominações, a Presbiteriana, a Congregacional e a Batista, as quais, como todas as demais agremiações protestantes inglesas, já para a primeira metade do século XVIII em um frio formalismo, levados mais por una crença intelectual que por uma vida de fé subjetiva. O racionalismo e o materialismo iam invadindo tudo, e as organizações protestantes oficialmente estabelecidas em muitos países europeus entram em uma espécie de letargia e aburguesamento.

Batistas. Os batistas tiveram sua origem na Inglaterra nos tempos de James I, e seu nome lhes veio porque recusavam o batismo infantil, e faziam ênfase em que fosse administrado somente aos crentes cristãos, daí seu apelido. Esse foi o principal aporte batista no trabalho da restauração da Igreja, e sua teologia foi originalmente de caráter calvinista. Os primeiros batistas se contavam dentro dos separatistas (congregacionais) anglicanos, os quais advogar pela formação de igrejas "reunidas", não compostas pelos habitantes de uma área dada, senão só pelos que conscientemente eram cristãos. A primeira igreja batista inglesa começou em Amsterdam sob a liderança de John Smith (morreu em 1612), um graduado de Cambridge, de corrente teológica arminiana. Foram os ascendentes espirituais dos Batistas Gerais da Bretanha. Tomás Helwys, antigo discípulo de Smith, depois de haver-se desassociado dos menonitas, fundou em 1612 fora dos muros de Londres a que parece haver sido a primeira igreja batista em solo inglês.
Depois da morte de James I, como uma secessão dos separatistas, surgem os chamados Batistas Particulares, pois criam em uma expiação restringida, particular, limitada só para os eleitos, de teologia da linha calvinista. Estas duas correntes batistas, a de caráter geral da expiação de Cristo (arminiana) e a particular (calvinista), continuaram separadas até fins do século dezenove. A característica atual do movimento batista é bem mais simples. Cada congregação é autônoma de tipo democrático, regidas por um pastor e um conselho de diáconos, encarregados do cuidado espiritual e material da comunidade, e em geral são inimigos da centralização. Existe uma Aliança Batista Mundial que se reúne periodicamente com delegados de todo o mundo. Foi famoso o pregador batista de Bedford, John Bunyan (1628-1688), autor de sua autobiografia A Abundante Graça para o Primeiro dos Pecadores, onde narra a ardente fé que experimentou depois de uma prolongada luta ante uma onda de depressão; mas é mais conhecido por sua difundida obra escrita no cárcere, O Progresso do Peregrino, uma formosa alegoria da conversão e a vida cristã, hoje conhecida até por versões cinematográficas.
Os batistas se têm caracterizado por serem grandes missionários, e em 1638, Roger William e John Clarke, foram os primeiros batistas de relevância chegados ao território americano. Atualmente nos Estados Unidos estão divididos na Convenção do Norte e a Convenção do Sul, a raiz do conflito racial chamado a Guerra de Secessão.
Em 1792 foi organizada a Sociedade Missionária Batista, impulsionada principalmente pelo britânico Guilherme Carey (1761-1834), de uma humilde família, mestre autodidata, sapateiro, missionário na Índia e pastor espiritual. Começou seu trabalho com a ajuda somente de uns poucos amigos, partindo para a Índia em 1793. Em 1801 traduziu o Novo Testamento ao bengali, chegando a fundar mais de 150 escolas, duas sociedades agrícolas e uma caderneta de poupança.
No século XIX correm na Europa fortes ventos de liberalismo teológico, concebidos como seqüela de pensadores da linha do Francês John James Rousseau (1712-1778), dos alemães Emmanuel Kant (1724-1804) e Jorge Guilherme Frederico Hegel (1770-1831), do escocês David Hume (1711-1776), entre outros, como um reverdecimento do racionalismo da centúria precedente; e essa teologia liberal relacionada com a alta crítica, provocou uma profunda crise espiritual inclusive nos círculos batistas ingleses, com suas repercussões por muitos países do mundo. Para fazer frente a essa situação, o Senhor levanta um grande pregador batista da linha teológica calvinista, o pastor Carlos H. Spurgeon (1834-1892), apelidado o "príncipe dos pregadores". Inusitadamente na época, logrou atrair ao evangelho ortodoxo as massas obreiras, endurecidas e decepcionadas do elitista anglicanismo.

Quaquers. Nos tempos do governo de Olivério Cromwell na Inglaterra (1649-1660), surgem os Quaquers, como um dos grupos radicais associados com o puritanismo inglês. O nome oficial do movimento era a Sociedade dos Amigos, fundado por Jorge Fox (1624-1691), homem de origem humilde, com a muita cultura e um amplo conhecimento das Escrituras. De formação puritana, Fox, a idade precoce horrorizava-se do contraste entre a profissão de cristão nominal e sua vida prática, sofrendo durante quatro anos uma severa depressão espiritual, anelando ter um acesso livre e direto a Deus. Não encontrando ajuda eficaz entre os sacerdotes e pregadores, chegou a ter um desdém por eles, chegando ao convencimento de que a verdade salvífica não se encontrava necessariamente nas elaboradas confissões de fé. No ano 1647 sua vida deu um virada quando pode sentir a realidade de Cristo em sua vida, e essa Luz Interior lhe impulsionou a ser um homem novo, renunciando à prática da hipocrisia e o formalismo religioso; insistindo na simplicidade no se vestir, no comer, no falar; demandou um trato justo para os desprotegidos, como os índios americanos, os presos nos cárceres; pronunciou-se em favor da tolerância religiosa universal; na sociedade Quaquer ensinavam que o corpo de crentes não devia ter sacerdote nem ministro com salário, e outras muitas facetas que lhe valeram ao cárcere muitas vezes. Viajou pregando pela Inglaterra, Gales, outros países europeus e América, onde se multiplicaram seus seguidores. O nome do movimento, Quaquer (quaker), se deriva do fato de que Fox cominava a seus juízes a tremerem (quake) ante Deus. Muitos deles foram perseguidos e até executados ainda em terras americanas.
Um famoso dirigente e distinguido teorizante do movimento Quaquer na segunda metade do século XVII foi Guilherme Penn, filho de um almirante inglês nos tempos de Carlos II, quem definitivamente se estabeleceu nas colônias inglesas da América do Norte, onde fundou uma proeminente comunidade Quaquer.

Presbiterianos. A origem do movimento presbiteriano se relaciona com John Knox na Escócia e Irlanda. Nos Estados Unidos está relacionado com a pregação de Jonatan Edwards (1703-1748) e o grande despertar. Jonatan graduou-se na universidade de Yale e sucedeu a seu avô materno Salomão Stoddard como ministro na igreja congregacional de Northampton; costumava combinar o calvinismo com o neoplatonismo. O presbiterianismo tem também raízes puritanas inglesas, mas lhe introduziram ares de teologia liberal no século XIX. Seu nome deriva-se devido a que suas congregações se governam pelo sistema de um conselho de anciãos (presbíteros), com um pastor com determinadas funções, mas de igual autoridade. Suas características são muito parecidas aos Congregacionalistas, também de convicções calvinistas ao menos em suas origens, mas o Conselho Nacional de Igrejas Congregacionalistas não podiam evitar a introdução em suas filas da teologia liberal, a alta crítica alemã e o pragmatismo.
Nos Estados Unidos em 1789, depois da guerra de independência, os presbiterianos, como outras confissões protestantes, formaram uma Assembléia Geral autônoma de tipo nacional e independente da matriz européia, ainda que não de caráter "oficial", pois desde seus começos nos Estados Unidos têm havido total liberdade religiosa. Os presbiterianos tem se dividido em vários ramos denominacionais, das quais só nos Estados Unidos há mais de dez.

Metodistas. Na primeira metade do século XVIII, devido sobre tudo à tolerância e liberdade religiosa, os círculos eclesiásticos ingleses sofreram um declínio espiritual, por meio daquele aburguesado clero anglicano surge um grande despertamento, preferencialmente porque o Senhor levantou homens de fé do tipo de João e Carlos Wesley e Jorge Whitefield, ardentes propagadores da fé, dos quais Whitefield era o mais destacado e eloqüente pregador. Carlos compôs centenas de hinos. Jorge Whitefield (1714-1770) nasceu em Gloucester (Inglaterra) em uma família pobre. Estudando na universidade de Oxford em 1733, sua vida se associou estreitamente com os irmãos Wesley, com quem o Senhor restaurou outros aspectos na Sua Igreja, como aquele de tirar o templo. Whitefield, anglicano como os irmãos Wesley, viajou pregando pelo território das Treze Colônias americanas, chegando inclusive a comover ao ultra prático e tão pouco ortodoxo em matéria religiosa, Benjamín Franklin; teve muitos seguidores principalmente entre os presbiterianos e congregacionales. Quando Whitefield se separou dos Wesley, levantou uma agrupação chamada os Metodistas Calvinistas Galeses. Note-se que cada avivamento surgido provocada novas divisões nos diferentes movimentos protestantes. É uma constante; os que se apóiam no statu quo de atitude fria e racional terminam por não se entendereme com os verdadeiramente envolvido em um avivamento espiritual, ou simplesmente porque não estavam de acordo com certas manifestações e excessos emocionais.
O dos Metodistas na Inglaterra e América do Norte foi dos grandes movimentos surgidos da Reforma, no qual representaram um papel muito importante Jorge Whitefield e John Wesley (1703-1791), nascido em Epwort em uma família ancestralmente pastoral. John e Carlos eram filhos do clérigo anglicano Samuel Wesley (1662-1735), filho, à sua vez, de um clérigo dissidente. John estudou teologia e literatura em Oxford, e se destacou por ser o dirigente e estadista do movimento metodista. Seu talento peculiar era a organização e a administração. Foi ordenado sacerdote da igreja anglicana em 1728, e como clérigo anglicano vinha sentindo um grande vazio espiritual, não obstante que em Oxford havia fundado com seu irmão Carlos w Jorge Whitefield, um Clube Santo, ou reuniões para fomentar a santidade, sem que faltassem as intenções de dar um bom testemunho ao resto dos estudantes; o vazio seguia manifestando-se. Em 1735 foi decisivo para ele ter seu primeiro contato com os irmãos morávios relacionados com o conde Zinzendorf; e de quem obteve o conhecimento experimental da vida no Espírito, tal sucesso ocorrido no navio durante a viagem missionária que fez com seu irmão Carlos a Georgia, chegando a conhecer e relacionar-se com Spangenberg, um de seus dirigentes. Uma vez de regresso em Londres, experimentou sua repentina conversão, graças à intervenção do pastor morávio Böhler, iniciando um período de avivamento espiritual e se interessaram por evangelizar aos pobres, analfabetos e marginalizados.
John e muitos membros do movimento receberam também impressão profunda de William Law (1686-1761), místico notoriamente influenciado por Jacob Boheme, e autor de Um Tratado Sobre a Perfeição Cristã e Um chamado Sério a uma Vida Santa e Consagrada. O movimento não deixou de ter seus inconvenientes para manter a unidade. Surgiram discrepâncias com os morávios, e entre Whitefield e Wesley. Deve-se ter em conta que Whitefield era calvinista convencido, com a doutrina da predestinação a bordo, enquanto que John Wesley havia sido cultivado na teologia da linha arminiana. Não obstante, que Wesley quis sempre manter aos metodistas dentro do sistema anglicano, não a considerando como uma denominaçao separada, o rompimento se deu, pois as autoridades anglicanas olhavam com receio esse mover pietista dentro de seus próprios toldos. Por seus costumes disciplinares, a seu movimento foi dado o apelido de Metodista, mais tarde título oficial de um movimento mundial. De acordo com o costume morávio, Wesley introduziu em seu movimento os ágapes (festas de amor). Ele organizou e multiplicou as sociedades dentro do movimento, mas as entreteceu em uma organização inclusiva. Percorria as sociedades a lombo de cavalo, pregando até quinze sermões por semana, sem que necessariamente o fizesse dentro dos recintos dos templos, e isso escandalizou os círculos clericais de seu tempo. Pelo estudo da Palavra, Wesley se convenceu que no Novo Testamento os presbíteros e os bispos eram da mesma ordem. Ao morrer, Wesley havia convocado um corpo de uns 540 pregadores para uma povoação de mais de 120.000 adeptos metodistas. Nos Estados Unidos foram organizados os metodistas por Wesley depois da guerra da independência em 1784. À morte de Wesley em 1791, foi formalmente constituída a Igreja Metodista Wesleyana, totalmente desvinculada da anglicana, que se estendeu por muitos países de todos os continentes, e de onde posteriormente, como de todas as grandes denominações, se desprenderam ramos dissidentes que adotaram novos nomes. O governo eclesiástico do movimento metodista em alguns casos é episcopal e em outros presbiteriano, mas em todos os casos de autoridade hierarquizada.

David Livingstone (1813-1873). Este pioneiro das missões protestantes na África, nasceu em Blantyre, Escócia, procedente de uma família humilde e muito religiosa. No começo se preparou suficientemente em teologia e medicina para embarcar como médico missionário na China, o qual não foi possível devido a uma guerra entre Grã Bretanha e China, indo, por isso, à África do Sul. Por seu caráter não denominacional solicitou integrar à Sociedade Missionária de Londres. Viajante incansável, na África negra se interessou pelo gravíssimo problema da caça e venda de negros como escravos, denunciando estes atos ante as autoridades britânicas. São dignos de mencionar a si mesmo os irmãos Carlos Grandinson Finney (1792-1875), evangelista e pregador americano nas Ilhas Britânicas; escritor. É famosa sua obra Conferências sobre Avivamentos de Religião. Dwight Lyman Moody (1837-1899), famoso pregador e compositor de hinos.

Ecumenismo

Por ecumenismo se entende a união das diferentes correntes, organizações, denominações, movimentos, missões do cristianismo nominal, mais a nível institucional que no marco da comunhão espiritual corporativa. No século XIX, surge dentro do protestantismo o Movimento Ecumênico, que se estendeu a alguns dos corpos eclesiásticos orientais e a certos indivíduos que ainda militavam dentro do catolicismo romano. Este surgimento se associa mais tarde com destacados líderes protestantes, como o norte americano Juan R. Mott (1865-1955), do movimento de Estudantes Voluntários para as Missões Estrangeiras. Iniciou-se este movimento por uma relativa unidade dos diferentes ramos do cristianismo protestante, sobre tudo em torno à cooperação em fazer os planos e ações através das linhas denominacionais, mas sem a participação dos corpos eclesiásticos. Os trabalhos se iniciam mais a nível individual ou grupal. No começo foram organizadas muitas associações parciais como as Associações Cristãs de Jovens, em 1844; a Aliança Mundial de Associações Cristãs de Jovens, em 1855; a Associação Cristã Mundial de Senhoritas, em 1894; a União Mundial de Esforço Cristão e a Federação Mundial de Estudantes Cristãos, em 1895; a Associação Mundial de Escolas Dominicais, em 1907. Os movimentos, grupos e pessoas comprometidas nestas diferentes associações, nunca deixavam de serem leais as suas respectivas congregações e denominações.
Através dos anos houveram muitos intentos de unidade e cooperação entre as distintas correntes, movimentos, missões e denominações cristãs, e uma das mais importantes foi a Aliança Evangélica, iniciada em Londres em 1846, com mais de oitocentas delegações de muitos países. Mas por muitos esforços encaminhados pela unidade, as divisões crônicas a impediam de tal maneira que surgiam novas divisões. Das tantas conferências interdenominacionais mundiais ou regionais que se seguiram, é importante mencionar a Conferência Missionária Mundial, celebrada em Edimburgo em 1910, que veio a ser um marco na história do Movimento Ecumênico, e onde teve parte ativa Juan R. Mott, que a presidiu. Esta assembléia foi a autora de duas organizações, a Conferencia Mundial sobre Fé e Ordem e o Conselho Cristão Universal pela Vida e Obra. Estes dois corpos eclesiásticos, depois de 1914, se uniram para formar o Concílio Mundial de Igrejas, conhecido como CMI, constituído oficialmente em Amsterdam em 1948, ano em que foi constituído o moderno estado de Israel, dando início às profecias dos últimos tempos. Iniciou-se com um agrupamento de mais de cem diferentes denominações, incluindo várias das igrejas católicas ortodoxas, associações de jovens cristãos católicos da Polônia e a Igreja Ortodoxa Grega. As denominações batistas e metodistas são talvez os mais avançados em matéria de ecumenismo. O CMI adotou o Credo de Nicéia a fim de deixar aberta a porta a todas as confissões religiosas que estejam de acordo com seus postulados. Ainda dentro do protestantismo, o CMI tem sido criticado por suas implicações políticas, por seu intenso contato com o Vaticano, e pelos que proclamam um cristianismo baseado na conversão a Cristo mediante um novo nascimento e não através da educação e tradição.
A respeito do ecumenismo diz Olabarreita: "Os protestantes aspiram a formar uma grande instituição universal centralizada parecida à católica, o que lhes desqualifica automaticamente para poder ser o pequeno rebanho do Senhor. E além disso, salta à vista sem dúvida alguma que o protestantismo futuro, potenciado pelos símbolos e sacramentos aos que aponta Tillich tão claramente, se acerca sobremaneira ao tronco católico do qual saiu. Movidos por estas aspirações e ambições de super-igreja, têm conseguido fundar o Conselho Ecumênico de Genebra, que hospeda a quase todos os protestantes do mundo, desde os presbiterianos dos Estados Unidos até os batistas de Birmania. Também têm logrado formar a ‘Federação Luterana Mundial’, a ‘Aliança Reformada Mundial’ e o ‘Conselho Metodista Mundial’, cujas diretivas se tem localizado no mesmo edifício que o Conselho Ecumênico de Genebra". (Santos Olabarrieta. "Cristo e Sua Igreja". Fort Lauderdale, Fl. USA. Pág. 28-29)
O ecumenismo esta intimamente relacionado com a apostasia, relacionada a sua vez em primeira instância com a dissolução da legítima expressão da união do Corpo de Cristo e a dogmatização de erros que se contrapõe a verdades fundamentais das Escrituras que têm que ver com a vida da Igreja do Senhor. A união do Corpo de Cristo não se consegue com o fato de que as diferentes vertentes do cristianismo nominal se reúnam e se ponham de acordo em muitos aspectos. Como disse o teólogo K. Barth: "Toda divisão, como tal, é um profundo enigma, um escândalo". Na localidade de Corinto, por suas contendas carnais, já em seus corações egoístas os irmãos começaram a dizer: Eu sou de Paulo; e eu de Apolo; e eu de Cefas; e eu de Cristo. Quando Paulo lhes escreve pelo Espírito Santo condenando essa atitude, já estavam às portas de protocolizar a divisão. Se isso houvesse acontecido, as rivalidades de caráter pessoal e confessional houvessem seguido; então haveriam se levantado algumas vozes sensatas e lhes proporiam organizar um conselho que se reunisse anualmente com delegados das quatro facções, para ter certa classe de aproximação ecumênica. Isto haveria resolvido o problema? O haveria aprovado o Senhor por meio de Paulo? A Bíblia diz que não.

Vestiduras sem manchas

" 4 Tens, contudo, em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão de branco junto comigo, pois são dignas. ".
Não obstante ser considerado Sardes em sua condição global como morta, há pessoas fiéis ao Senhor, líderes que não têm manchado suas vestiduras com a morte, espiritualmente vivos e usados por Deus. As vestiduras refletem as obras na fé dos santos, e mais que isso, a vida e a ação do Espírito Santo no espírito e no coração da pessoa, é o andar do crente e o que realmente é em seu viver. Esse revestimento é Cristo mesmo refletido em cada pessoa. Se a pessoa têm manchado seu vestido é porque há contaminação de morte; não necessariamente pelo pecado, porque a natureza da morte é mais contaminante que o pecado.2 Por outro lado as vestiduras brancas refletem a pureza, a vida de Deus, a aptidão para andar com o Senhor. O Senhor tem muito em conta também nestes nomes como pessoas individuais, não necessariamente no sentido corporativo, e no curso da história têm levantado servos a quem têm santificado e lhes tem revelado sua vontade para essa conjuntura histórica na vida da Igreja. Estes gigantes, pode ser que hajam recebido certa orientação profética ou hajam feito ênfase em alguma verdade ou doutrina em particular, e são os instrumentos para eventuais e grandes avivamentos, que as seguintes gerações não sabem conservar, e o Senhor se vê precisando buscar outra pessoa para dar-lhe uma nova graça, revelação e benção, com o resultado de um novo avivamento e de uma nova separação, porque os guiados pelo Senhor são objeto da oposição dos que não vêem o propósito de Deus nas coisas. Na prática, em todo avivamento há separações, não causadas necessariamente pela pessoa escolhida por Deus. Lutero não queria separar, mas o sistema religioso imperante o separou.

Os vencedores de Sardes

" 5 O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos.6 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. " (Ap 3:5, 6).
De que têm de sair vitoriosos os vencedores em Sardes? Da morte que prevalece dentro do sistema do protestantismo. Em outras partes da presente obra temos explicado que as promessas que aparecem nas sete cartas para os vencedores, são prêmios que têm de ter cumprimento no reino milenar do Senhor Jesus Cristo. De acordo com o andar nesta era da graça, assim será a retribuição na era do reino, sem que isto tenha que ver com a salvação, que é um presente de Deus. Aqui aparecem três recompensas para os vencedores de Sardes: Vestiduras brancas, não serão apagados seus nomes do livro da vida e serão confessados seus nomes diante do Pai celestial e Seus anjos.
De acordo com os versos 4 e 5, vemos que o crente cristão necessita das vestiduras. A vestidura do verso 4 representa a Cristo que recebemos e que vem a nós dando-nos a vida de Deus, sendo fato para nós a justificação, redenção e salvação em forma objetiva. " O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; " (Lc. 15:22). " Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, " (1 Co. 1:30). A do versículo 5 representa a Cristo que mora em nós, que vivemos em nosso andar, nossa justiça subjetiva, pela qual possamos dizer como Paulo: " Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; " (Fp. 1:21; 3:9).
O nome do vencedor não será apagado do livro da vida. Para entender isto é necessário saber que existe um livro nos céus onde têm sido escritos os nomes de todos os santos escolhidos por Deus e predestinados para participar das bênçãos que Deus tem preparado para eles, as quais são dadas na era da Igreja, durante o milênio depois que o Senhor regresse e por último na eternidade. " alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso nome está arrolado nos céus. " (Lc. 10:20b). Estás tu seguro de tua salvação? " 27 As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem.28 Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. " (João 10:27,28). Se teu nome está escrito no livro da vida agora mesmo estás recebendo algumas bençãos tais como a redenção, o perdão dos pecados, a vida eterna, a regeneração, a natureza de Deus, a santificação, a renovação, a justificação e outras. Se durante este tempo tu amadurecer em tua vida espiritual e chegas a ser um vencedor, o Senhor não apagará teu nome durante o milênio, senão que como prêmio o Senhor te permitirá participar com Ele no reino milenar, incluindo as bençãos de Seu gozo e repouso. " Disse-lhe o senhor: Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. " (Mt. 25:21).
Nesta era da Igreja, um como humano necessita de certos incentivos para poder cooperar com a graça de Deus e fazer a correta e verdadeira obra do Senhor na construção da Igreja, mas se tu não avanças com Ele, se te contentas de pronto com ser um crente mais do montão, um menino espiritualmente, não te interessa vencer sobre o statu quo reinante, então teu nome é apagado do livro da vida durante a dispensação do reino e não terás participação com o Senhor nele, nem receberás as bençãos para esse tempo. Significa isso que perdem a salvação? De nenhuma maneira; senão que durante esse tempo os não vencedores são disciplinados como o servo mal que foi lançado às trevas exteriores até alcançar o amadurecimento necessário para participar das bençãos que Deus têm prometido para a eternidade na Nova Jerusalém quando seus nomes serão escritos novamente no livro da vida. Quais são essas bençãos eternas? O reinado eterno com Deus na Nova Jerusalém, o sacerdócio eterno, a árvore da vida, a água da vida. " 3 Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão,4 contemplarão a sua face, e na sua fronte está o nome dele.5 Então, já não haverá noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e reinarão pelos séculos dos séculos. 14 Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas.17 O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida. " (Ap. 22:3-5,14,17).
Os nomes dos vencedores também serão confessados pelo Senhor diante do Pai e de Seus anjos na era do reino milenar na terra. Inclusive aqui neste tempo de vida humana, às pessoas lhes agrada que seus nomes sejam confessados diante de altas personalidades e figuras de certo prestígio. Isso tem algo que ver com o período de Sardes? Desde suas raízes a história do protestantismo se tem visto relacionada com a vinculação de altos perssonagens, imperadores, reis, príncipes, eleitores, dignatários políticos e religiosos, abrindo-se passo por meio da política e a espada. Mas a casa construída pelos homens será deixada deserta (cfr. Marco 23:38).


Pietismo
Ao largo do comentário de Sardes se têm destacado alguns irmãos dignos de terem-se por vencedores, e que junto com milhões de irmãos a maioria desconhecidos tem derramado seu sangue em seu afã de ser fiel ao Senhor, buscando acercar-se ao ideal bíblico da Igreja. Associados com certas correntes anabatistas, surgem os huteritas, ou Irmãos Huterianos, por seu líder James Hutter, torturado e queimado em 1536, que praticaram por muitas gerações a comunidade de bens, dos quais se destacaram os de Morávia, e que sofreram severamente na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Outro grupo de princípios anabatistas foi a Igreja dos Irmãos, ou Taufers, cujo fundador, Alexandre Mack, com oito irmãos mais, em 1708, movidos pelo movimento pietista, tomaram a decisão de ter à Bíblia como sua única regra e guia, e se batizaram por imersão no rio Eder. Inicialmente seus centros foram Schwarzenau, o Palatinado e Marienbborn.
O pietismo foi um despertar à vida espiritual mais profunda, que surgiu depois da Guerra dos Trinta Anos, cujas raízes e contribuições as encontramos no misticismo alemão pré-reformista, no puritanismo inglês e nos anabatistas. No século XVII aparece O Verdadeiro Cristão, obra do luterano João Arndt, que originou o despertar de Felipe James Spener (1635-1705), considerado como a origem imediata do pietismo. Quando o movimento se estendeu, os grupos chegaram a se chamar “collegia pietatis”, de onde deriva seu nome. Eles se ocuparam em prol de uma reforma moral e espiritual, pois eram testemunhas da imoralidade de muitos clérigos, e o culto tendia à formalidade e a esterilidade. Era necessário que o Estado interviesse menos nos assuntos da Igreja, recalcando, além disso, a conversão genuína e o cultivo da vida cristã. Spéner foi acusado de sair dos esquemas doutrinais luteranos, mas ele cria firmemente que se a pessoa não estava autenticamente convertida, vivendo em uma retidão de coração, as diferenças doutrinais tinham, relativamente pouca importância. Os ortodoxos luteranos chegaram a acusar a Spener de 283 heresias. Registramos que eminentes músicos da altura de John Sebastián Bach e Jorge Frederico Hændel, extraordinários compositores da melhor música religiosa de todos os tempos, relacionem sua educação no seio de famílias luteranas e pietistas, respectivamente.
Também o pietismo exerceu forte influência na Igreja Reformada Holandesa através do escocês André Murray, que exerceu também como missionário na África do Sul. Seus filhos John e André estiveram no íntimo contacto com um movimento de avivamento na Escócia, onde se graduaram. Em Utrecht lideravam um pequeno círculo que reagia contra o racionalismo do século dezoito. Na África do Sul se fizeram ministros da Igreja Reformada Holandesa. André Murray (filho) (1828-1917), se destacou como pastor e escritor de livros de ampla circulação dentro da linha protestante mundial inclinada aos avivamentos e ao chamado cristianismo de tipo evangélico.

PRIMEIRO APÊNDICE DO CAPÍTULO V

TAXA CAMERÆ

(A Taxa Camaræ promulgada por Leão X, o papa romano a quem Lutero enfrentou ).

A Taxa Camaræ é uma tarifa promulgada no ano 1517 pelo papa Leão X (1513-1521) com o fim de vender indulgências, isto é perdoar as culpas, a todos quantos pudessem pagar umas boas libras ao pontífice. Como veremos na transcrição que seguirá, não havia delito, por horrível que fosse, que não pudesse ser perdoado em troca de dinheiro. Leão X declarou aberto o céu para quem, clérigos ou laicos, houvessem violado a crianças e adultos, assassinado a um ou a vários, caloteado a seus credores, abortado... mas tivessem o bem de serem generosos com os tesouros papais. Este documento mostra um dos pontos culminantes da corrupção humana*(1)
*(1) Pepe Rodriguez. Mentiras fundamentais da Igreja Católica. Edições Grupo Z. 1997. Pág. 397.

1. O eclesiástico que incorrer em pecado carnal, seja com freiras, primas,
sobrinhas, afilhadas ou, enfim, com outra mulher qualquer, será absolvido
mediante o pagamento de 67 libras e 12 soldos.

2. Se o eclesiástico, além do pecado de fornicação, pedir para ser absolvido
do pecado contra a natureza ou de bestialidade, deverá pagar 219 libras e
15 soldos. Mas se tiver cometido pecado contra a natureza com crianças
ou animais, e não com uma mulher, pagará apenas 131 libras e 15 soldos.

3. O sacerdote que deflorar uma virgem pagará 2 libras e 8 soldos.

4. A religiosa que quiser ser abadessa após ter se entregado a um ou mais
homens simultânea ou sucessivamente, dentro ou fora do convento, pagará
131 libras e 15 soldos.

5. Os sacerdotes que quiserem viver em concubinato com seus parentes pagaram
76 libras e 1 soldo.

6. Para cada pecado de luxúria cometido por um leigo, a absolvição custará
27 libras e 1 soldo.

7. A mulher adúltera que pedir a absolvição para se ver livre de qualquer
processo e ser dispensada para continuar com a relação ilícita pagará ao
papa 87 libras e 3 soldos. Em um caso análogo, o marido pagará o mesmo
montante; se tiverem cometido incesto com o próprio filho, acrescentar-se-
ão 6 libras pela consciência.

8. A absolvição e a certeza de não ser perseguido por crime de roubo, furto
ou incêndio custarão ao culpado 131 libras e 7 soldos.

9. A absolvição de homicídios simples cometido contra a pessoa de um leigo
custará 15 libras, 4 soldos e 3 denários.

10. Se o assassino tiver matado dois ou mais homens em um único dia, pagará
como se tivesse assassinado um só.

11. O marido que infligir maus-tratos à mulher pagará às caixas da chancelaria
3 libras e 4 soldos; se a mulher for morta, pagará 17 libras e 15 soldos;
e se a tiver matado para se casar com outra, pagará mais 32 libras e 9
soldos. Quem tiver ajudado o marido a perpetrar o crime será absolvido
mediante o pagamento de 2 libras por cabeça.
12. O que afogar a um seu filho pagará 17 libras e 15 xelins (ou seja, duas libras a mais do que por matar a um desconhecido) e se o matarem o pai e a mãe com consentimento mútuo pagarão 27 libras e um xelim, pela absolvição.
13. A mulher que destruir seu próprio filho levando-o em suas entranhas e o pai que tiver colaborado na perpetração do crime, pagarão 17 libras e 15 xelins cada um. O que facilitar o aborto de uma criatura que não for seu filho pagará uma libra a menos.
14. O assassinato de um irmão, uma irmã, uma mãe ou um pai, serão pagos por 17 libras e 15 xelins.
15. Quem matar um bispo ou prelado de hierarquia superior, pagará 131 libras, 14 xelins e seis centavos.
16. Se o matador tiver dado morte a muitos sacerdotes em várias ocasiões, pagará 137 libras e seis xelins, pelo primeiro assassinato, e a metade pelos seguintes".
17. O bispo ou abade que cometesse homicídio por emboscada, por acidente ou por estado de necessidade, pagará, para conseguir a absolvição, 179 libras, 14 soldos.

18. Aquele que quiser comprar antecipadamente a absolvição por qualquer homicídio acidental que vier a cometer no futuro, pagará 168 libras, 15 soldos.

19. O herege que se converter, pagará por sua absolvição 269 libras. O filho de herege que tiver sido queimado, enforcado ou executado de outra forma qualquer, poderá ser readmitido apenas mediante pagamento 218 libras, 16 soldos, 9 denários.

20. O eclesiástico que, não podendo pagar seus próprios débitos, quiser se livrar de ser processado por seus credores, entregará ao Pontífice 17 libras, 8 soldos, 6 denários, e sua dívida será perdoada.

21. Será concedida a licença instalação de posto de venda de vários gêneros sob os pórticos das igrejas mediante o pagamento de 45 libras, 19 soldos, 3 denários.

22. O delito de contrabando e fraude dos direitos do príncipe custará 87 libras, 3 denários.

23. A cidade que quiser que seus habitantes ou sacerdotes, freis ou monjas, obtenham licença para comer carne e lacticínios nas épocas em que está proibido, pagará 781 libras, 10 soldos.

24. O mosteiro que quiser variar a regra e viver com menor abstinência do que a prescrita, pagará 146 libras, 5 soldos.

25. O frade que por conveniência ou gosto quiser passar a vida em um eremitério com uma mulher, entregará ao tesouro pontifício 45 libras, 19 soldos.

26. O apóstata vagabundo que quiser viver sem obstáculo, pagará igual quantia pela absolvição.

27. Igual montante pagarão os religiosos, sejam eles seculares ou regulares, que queiram viajar em trajes de leigo.

28. O filho bastardo de um sacerdote que queira preferência para preceder o pai na cúria pagará 27 libras, 1 soldo.

29. O bastardo que queira receber ordens sagradas e gozar de seus benefícios, pagará 15 libras, 18 soldos, 6 denários.

30. O filho de pais desconhecidos que queira entrar nas ordens, pagará ao tesouro pontifício 27 libras, 1 soldo.

31. Os leigos feios ou deformados que queiram receber ordenamentos sagrados e ter benefícios, pagarão à chancelaria apostólica 58 libras, 2 soldos.

32. Igual quantia pagará o vesgo de olho direito; enquanto o vesgo de olho esquerdo pagará ao Papa 10 libras, 7 soldos. Os estrábicos bilaterais pagarão 45 libras, 3 soldos.

33. Os eunucos que queiram entrar para as ordens, pagarão a quantia de 310 libras, 15 soldos.

34. Aquele que, por simonia, queira comprar um ou muitos benefícios, se dirigirá aos tesoureiros do Papa, que lhe venderão os direitos a preços módicos.

35.Aquele que,tendo descumprido um juramento, queira evitar qualquer persegui
ção e se livrar de qualquer tipo de infâmia pagará ao papa 131 libras e
15 soldos. Além disso, dará 3 libras para cada um que ouviu o juramento.

SEGUNDO APÊNDICE DO CAPÍTULO V

DISCUSSÃO SOBRE O VALOR DAS INDULGÊNCIAS

As 95 teses do Doutor Martinho Lutero - 1517

Com um desejo ardente de trazer a verdade à luz, as seguintes teses serão defendidas em Wittenberg sob a presidência do Rev. Frei Martinho Lutero, Mestre de Artes, Mestre de Sagrada Teologia e Professor oficial da mesma. Ele, portanto, pede que todos os que não puderem estar presentes e disputar com ele verbalmente, façam-no por escrito.
Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Amém.
1. Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.
2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).
3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.
4. Por conseqüência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.
5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.
6. O papa não tem o poder de perdoar culpa a não ser declarando ou confirmando que ela foi perdoada por Deus; ou, certamente, perdoados os casos que lhe são reservados. Se ele deixasse de observar essas limitações, a culpa permaneceria.
7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.
8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.
9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.
10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.
11. Essa cizânia de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.
12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.
13. Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.
14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais quanto menor for o amor.
15. Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.
16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.
17. Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor.
18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontrem fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.
19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza disso.
20. Portanto, por remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.
21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.
22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.
23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.
25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.
26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.
27. Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].
28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa [1], pode aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.
29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas, como na história contada a respeito de São Severino e São Pascoal?
30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.
31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.
32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.
33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Ele.
34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.
35. Os que ensinam que a contrição não é necessária para obter redenção ou indulgência, estão pregando doutrinas incompatíveis com o cristão.
36. Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem remissão plena tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma carta de indulgência.
37. Qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, participa de todos os benefícios de Cristo e da Igreja, que são dons de Deus, mesmo sem carta de indulgência.
38. Contudo, o perdão distribuído pelo papa não deve ser desprezado, pois – como disse – é uma declaração da remissão divina [2].
39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar simultaneamente perante o povo a liberalidade de indulgências e a verdadeira contrição. [3]
40. A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, ou pelo menos dá ocasião para tanto. [4]
41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor. [5]
42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.
43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências. [6]
44. Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.
45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.
46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.
47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.
48. Deve ensinar-se aos cristãos que, ao conceder perdões, o papa tem mais desejo (assim como tem mais necessidade) de oração devota em seu favor do que do dinheiro que se está pronto a pagar.
49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.
50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto – como é seu dever – a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extorquem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.
52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.
53. São inimigos de Cristo e do Papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.
54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.
55. A atitude do Papa necessariamente é: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.
56. Os tesouros da Igreja, a partir dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.
57. É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.
58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.
59. S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.
60. É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem estes tesouros.
61. Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos especiais, o poder do papa por si só é suficiente. [7]
62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.
63. Mas este tesouro é certamente o mais odiado, pois faz com que os primeiros sejam os últimos.
64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências é certamente o mais benquisto, pois faz dos últimos os primeiros.
65. Portanto, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.
66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.
67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tais, na medida em que dão boa renda.
68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade da cruz.
69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.
70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbidos pelo papa.
71. Seja excomungado e amaldiçoado quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.
72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.
73. Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,
74. muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram fraudar a santa caridade e verdade.
75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes a ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.
76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados venais no que se refere à sua culpa.
77. A afirmação de que nem mesmo São Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o Papa.
78. Dizemos contra isto que qualquer papa, mesmo São Pedro, tem maiores graças que essas, a saber, o Evangelho, as virtudes, as graças da administração (ou da cura), etc., como está escrito em I.Coríntios XII.
79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insigneamente erguida, eqüivale à cruz de Cristo.
80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes sermões sejam difundidos entre o povo.
81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil nem para os homens doutos defender a dignidade do papa contra calúnias ou questões, sem dúvida argutas, dos leigos.
82. Por exemplo: Por que o papa não esvazia o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas –, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?
83. Do mesmo modo: Por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?
84. Do mesmo modo: Que nova piedade de Deus e do papa é essa que, por causa do dinheiro, permite ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, mas não a redime por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta por amor gratuito?
85. Do mesmo modo: Por que os cânones penitenciais – de fato e por desuso já há muito revogados e mortos – ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?
86. Do mesmo modo: Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos ricos mais crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?
87. Do mesmo modo: O que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à plena remissão e participação?
88. Do mesmo modo: Que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações cem vezes ao dia a qualquer dos fiéis?
89. Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências, outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?
90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e fazer os cristãos infelizes.
91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.
92. Portanto, fora com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo "Paz, paz!" sem que haja paz!
93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo "Cruz! Cruz!" sem que haja cruz! [8]
94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno.
95. E que confiem entrar no céu antes passando por muitas tribulações do que por meio da confiança da paz.
[1517 A.D.]

TERCEIRO APÊNDICE DO CAPÍTULO V
TESES DO ARMINIANISMO versus O CALVINISMO*(1)

*(1) Para ter pelo menos uma clara idéia do que é o Calvinismo e o Arminianismo e seu histórico enfrentamento doutrinal nas vertentes protestantes, digamos primeiro algo relacionado com Calvino e Armínio. O francês João Calvino (1509-1564) foi um dos maiores teólogos da Reforma protestante. Instalado em Genebra, Suíça, estruturou a vida da cidade abaixo a forma de um sistema ou regime teocrático, de fusão da organização da vida temporal e histórica, com as exigências espirituais mais intransigentes. Seu pensamento teológico está modelado em um livro de sua autoria titulado Institutos da Religião Cristã, provavelmente o único e mais influente livro da Reforma protestante, obra na qual expõe os princípios cristãos ensinados na Igreja, conforme as doutrinas apostólicas, antes que sofressem as corruptas inovações da Igreja Católica Romana. Para expor suas idéias, Calvino seguiu a ordem do Credo Apostólico, fazendo especial teimosia nas Escrituras e nos escritos de Agostinho de Hipo.
Calvino, entre outras coisas, expõe o ensinamento bíblico de que com a queda do homem, sua vontade foi tão debilitada, e foi sumindo tanto na escuridão e na cegueira, que foi incapaz de fazer alguma obra boa, a menos que fosse ajudado pela graça especial que Deus tem dado a seus eleitos e predestinados (Efésios 1:4-5; Romanos 8:29-30) e recebido por meio da regeneração e justificação, pela obra de Cristo. O que há, pois, para os demais? Que se não for a graça, todo homem está debaixo da merecida ira de Deus. Então, se salva alguém por sua própria iniciativa e vontade? A salvação do homem depende inteiramente da iniciativa de Deus. É por fé, não por obras (Efésios 2:8-9; João 16:8-10). Esse é um pequeno resumo da doutrina calvinista a respeito da salvação. Enfrenta o Arminianismo, que é uma heresia propagada por Jacob Armínio (1560-1609), a qual, fundamentalmente, se opõe à doutrina da dupla predestinação.
A morte de Calvino e seu ministério foi continuado por seu condiscípulo Teodoro Beza (1519-1605), professor de teologia na Academia de Genebra. No mesmo século XVI começaram a surgir as controvérsias em torno à salvação, que ainda seguem debatendo. Sobre isso citamos a Scott Latourette:
"Depois que terminou a peja política, explodiu uma luta importante sobre doutrina dentro da Igreja Reformada Holandesa. Os supra-lapsários e os infra-lapsários, ou seja, entre os que criam que Deus antes que criasse o mundo, havia decretado quais deveriam ser salvos e quais deveriam ser condenados, e os que defendiam a opinião de que foi em vista do pecado de Adão e só depois de dita catástrofe, quando Deus decretou que certos homens seriam salvos e outros perdidos. Contra ambas teorias protestaram alguns que foram chamados logo remonstrantes. Entre estes o personagem principal foi Jacob Armínio, discípulo de Beza e professor de Teologia da Universidade de Leidem (Holanda), o qual proposto refutá-los, ficou convencido por eles. De conseqüente a posição remonstrante têm sido conhecida como o arminianismo. Ele, recusando o supra-lapsarianismo e o infra-lapsarianismo, a expiação limitada (a saber, o ensinamento de que Cristo morreu só pelos eleitos), a graça irresistível e a perseverança dos eleitos, ensino que Cristo morreu por todos os homens, que a salvação é pela fé somente, que os que crêem são salvos, que os que reusam a graça se perdem, e que Deus não escolhe a indivíduos particulares nem para uma nem para outra coisa. As paixões se inflamaram nas discussões". Kenneth Scott Latourette. Historia del Cristianismo. Tomo 2. Casa Bautista de Publicaciones. 1979. Pág. 115.



Os cinco pontos do Arminianismo:

1. O livre arbítrio. Mesmo que a natureza humana foi afetada seriamente na queda, o homem não tem ficado em um estado de impotência espiritual total. Pela graça, Deus dá o poder espiritual a cada pecador para arrepender-se e crer, mas Ele o faz de tal maneira, que não interfere com a liberdade do homem. Cada pecador é possuidor de um livre arbítrio, e seu destino depende do uso que ele lhe dê. A liberdade do homem consiste em sua habilidade de escolher o bem em lugar do mal nos assuntos espirituais; sua vontade não está escravizada por sua vontade pecaminosa. O pecador tem poder para cooperar com o Espírito Santo e desta forma ser regenerado; e tem poder para resistir à graça de Deus, e, portanto perecer. O pecador perdido necessita da ajuda do Espírito, mas não tem que ser regenerado pelo Espírito antes de poder crer; porque a fé é uma obra humana e precede ao novo nascimento. A fé é o dom do pecador a Deus; é a contribuição do homem a sua salvação.
2. A eleição condicional. O fato de que Deus escolheu certos indivíduos para ser salvos antes da fundação do mundo, foi baseado no fato de que Deus previu que eles responderiam a seu chamamento. Ele escolheu somente àqueles que Ele sabia que por si mesmos creriam no Evangelho. Portanto, a eleição foi determinada ou condicionada pelo que o homem faria. A (fé que Deus prevê e na qual se baseia para escolher aos salvos, não é algo criado pelo poder regenerador do Espírito Santo), dado ao pecador por Deus (não é algo criado pelo poder regenerador do Espírito Santo), senão algo que resulta inteiramente da vontade do homem. Foi deixado completamente à vontade do homem crer ou não, e assim determinar se seria eleito ou não à salvação. Deus escolheu aos que Ele sabia que por seu livre arbítrio escolheriam a Cristo. Assim pois, a causa final da salvação é que o pecador escolhe a Cristo e não que Deus escolha ao pecador.
3. A redenção universal ou a expiação geral. A obra redentora de Cristo fez possível a salvação de todos, mas não assegurou realmente a salvação de ninguém, ainda que Cristo morreu por todos e por cada homem, somente os que crêem Nele são salvos. Sua morte fez possível que Deus perdoasse aos pecadores, a condição de que eles criam; mas de fato não acabou com os pecados de ninguém. A redenção de Cristo tem eficácia só se o homem queira aceitá-la.
4. Se pode resistir eficazmente ao Espírito Santo. O Espírito chama internamente a todos aqueles que são chamados externamente pelo convite do Evangelho. O Espírito faz todo o possível para levar a cada pecador à salvação, mas como o homem é livre, pode resistir o chamamento do Espírito. O Espírito não pode regenerar ao pecador até que este creia; a fé (que é a contribuição do homem) precede e faz possível o novo nascimento. Portanto, o livre arbítrio do homem, limita ao Espírito Santo na aplicação da obra redentora de Cristo. O Espírito Santo pode atrair a Cristo só àqueles que o permitem. Até que o pecador responde, o Espírito não pode dar vida. A graça de Deus, portanto, não é invencível; pode ser, e com freqüência é, resistida e frustrada pelo homem.
5. Caindo da graça. Aqueles que crêem e são verdadeiramente salvos, podem perder sua salvação se deixam de perseverar em sua fé.

Os cinco pontos do Calvinismo:

1. Inabilidade total ou depravação total. Por causa da queda, o homem é incapaz por si mesmo de crer no Evangelho de uma maneira salvadora. O pecador está morto, cego e mudo às coisas de Deus; seu coração é enganoso e desesperadamente corrupto. Sua vontade não tem liberdade, está cativa a sua natureza caída. Portanto, não escolherá o bom invés do mal enquanto ao espiritual, porque em verdade não pode escolhê-lo. Como conseqüência, necessita-se mais que a ajuda do Espírito para levar o pecador a Cristo. Necessita-se da regeneração pela qual o Espírito ressuscita ao pecador morto e lhe da uma natureza nova para que possa crer. A fé não é a parte com que o homem contribui a sua salvação, senão que a fé é em si uma parte do dom de Deus na salvação; é o dom de Deus ao pecador, e não o dom de pecador a Deus.

2. Eleição incondicional. A eleição de certos indivíduos para ser salvos ainda antes da fundação do mundo, descansa inteiramente na vontade soberana de Deus. Sua eleição de certos pecadores não está baseada em nenhuma resposta prevista ou obediência por parte deles, tal como fé, arrependimento, etc. Ao contrário, é Deus que dá a fé e arrependimento a cada individuo que Ele escolhe. Estes atos (a fé e o arrependimento) são o resultado, não a causa da eleição de Deus. Portanto, a eleição não é determinada ou condicionada por alguma virtuosa disposição prevista no homem. Aqueles que Deus soberanamente escolhe, os trás através do Espírito a uma aceitação voluntária de Cristo. Então, a causa final da salvação está em que Deus escolhe para salvação ao pecador, não que o pecador escolha a Cristo.

3. A redenção particular ou expiação limitada. A obra redentora de Cristo teve o propósito de salvar só aos escolhidos e assegurar a salvação deles. Sua morte foi em substituição da pena do pecado e em lugar de certos pecadores específicos. Além de quitar os pecados de Seu povo, a redenção de Cristo assegurou todo o necessário para sua salvação, incluindo a fé que lhes une a Ele. O dom da fé é concedido infalivelmente pelo Espírito Santo a todos aqueles pelos quais Cristo morreu, garantindo assim sua salvação.

4. O chamamento eficaz do Espírito Santo ou a graça irresistível. Além do chamamento externo geral à salvação que se faz a todos os que ouvem o evangelho, o Espírito Santo estende a todos os eleitos um chamamento interno especial que inevitavelmente lhes traz à salvação. O chamamento externo (que se faz a todos sem distinção) pode ser e muitas vezes é recusado; enquanto que o chamamento interno (feito só aos eleitos) sempre resulta na conversão. Por meio deste chamamento especial, o Espírito Santo atrai irresistivelmente aos pecadores a Cristo. Em Sua obra de aplicar a salvação, não está limitado pela vontade do homem, nem depende da cooperação do homem para ter êxito. Pelo poder da graça, o Espírito Santo impulsiona ao pecador eleito a cooperar, a crer, a arrepender-se, a vir livremente e de sua própria vontade (livrada pelo poder de Deus) a Cristo. Então, a graça de Deus é invencível; sempre resulta na salvação daqueles a quem é estendida.

5. A perseverança dos santos (crentes). Todos os que foram escolhidos por Deus, redimidos por Cristo e receberam a fé por meio do Espírito Santo, são eternamente salvos. Permanecem na fé pelo poder de Deus onipotente, e, portanto, perseverarão até o fim. (Perseverarão porque são preservados por Deus).



Capítulo VI
FILADELFIA
(1a. parte)


SINOPSE DE FILADÉLFIA

A etapa final da restauração da Igreja

Conclusão do iniciado na Reforma - Precursores da restauração: Os irmãos Boêmios, o conde Nicolau Zinzendorf y, os Morávios - Primeiras reuniões em Plymouth, Dublin, Itália, Georgetown no amor fraternal.

Restaurando a unidade da Igreja

Deixando de ser episcopais, presbiterianos, wesleyanos, batistas e outros, começaram a restaurar a unidade do Corpo de Cristo, a unidade do Espírito - Restaurando a igreja normal bíblica com seus santos, bispos e diáconos - Os que começaram a guardar a Palavra de Deus e a não negaram o nome do Senhor por substituí-lo por outro.

Uma promessa especial para Filadélfia

Os irmãos de Filadélfia, que houveram guardado a palavra da paciência do Senhor, serão guardados da hora da prova que há de vir sobre o mundo inteiro, isto é, a grande tribulação.

Nomes destacados entre os irmãos

Irmãos pioneiros: Eduardo Cronin, Wilson, Timms, Hutchinson, Anthony Groves, John G. Bellet, John Nelson Darby, S. P. Tregelles, Andres Jukes, W. Kelly, Charles Henry Mackintosh, C. Stanley y J. B. Stoney - Também é relevante o irmão Benjamin Wills Newton.

Nomes destacados no século XX

Na China: Watchman Nee, Witness Lee, Stephen Kaung - Na América: Geofredo Rawling, Jack Schisler, Keith Benson, Orwille Swindoll, Iván Baker, John Carlos Ortiz, Jorge Himitian, Angel Negro, Augusto Ericson, Gerson C. Lima, Gino Iafrancesco, Eliseo Apablaza.

Os vencedores de Filadélfia

Sexta recompensa: Serão feitos colunas no templo de Deus - Sobre eles serão escritos os seguintes nomes: o de Deus, o nome da cidade de Deus, a Nova Jerusalém, e o nome novo do Senhor Jesus Cristo. Tudo isso são recompensas que se receberão no reino milenar.


A CARTA À FILADÉLFIA

"7 Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve: Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá:8 Conheço as tuas obras eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome.9 Eis farei que alguns dos que são da sinagoga de Satanás, desses que a si mesmos se declaram judeus e não são, mas mentem, eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei.10 Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra.11 Venho sem demora. Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa.12 Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome.13 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." (Ap. 3:7-13).

Amor fraternal

" Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve: Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá ".

Como as outras localidades, Filadélfia também estava localizada na Ásia Menor. A cidade foi fundada pelo rei persa Átalo Filadelfo II, rei de Pérgamo (reinou de 159 a 138 A. C.), ao redor do ano 150 a. C.; daí seu nome. Diz Matthew Henry: "Filadélfia foi fundada por Átalo II, rei de Pérgamo, cuja lealdade a seu irmão Eumenes ganhou o epíteto de ‘Filadelfo’, que em grego significa ‘amigo do irmão’" (Matthew Henry, op. cit, pág. 362). A palavra Filadélfia vem do grego phileo, amar, e adelfos, irmão, e significa amor fraternal; e esta carta prefigura a etapa histórica da Igreja, que se caracteriza precisamente pela comunhão no amor e no Espírito entre os irmãos, e a restauração prática de outros aspectos importantes na vida da Igreja, como o sacerdócio de todos os crentes, onde não há divisões entre clero e laicato, conforme os autênticos e verdadeiros parâmetros bíblicos. Com Esmirna, Filadélfia é uma das duas igrejas que o Senhor não repreende, senão que para ambas o Senhor tem palavras de aprovação e louvor. O período de Filadélfia alguns exegetas o chamam a era da piedade.
Fazendo uma síntese do processo de prostração e restauração na vida histórica da Igreja, transcrevemos as certas palavras do irmão Raul Marrero: "A história nos diz que o Corpo de Cristo passou por uma séria cirurgia, porém saiu mais fortalecido e mais decidido que nunca. Como a estratégia sangrenta não deu resultado, os planos de fazer cair à Igreja mudaram, e começou um período de grandeza e reconhecimento, tanto político como econômico. A suposta conversão do grande imperador romano Constantino pôs a Igreja em um estado de comodidade e apoltronamento. Chegou um momento em que a Igreja deixou de ser mensageira do caminho estreito da redenção para converter-se na religião popular daqueles tempos. A Igreja deixou de ser itinerante, para converter-se em uma força político-religiosa. Foi durante estes séculos seguintes quando a igreja deixou de ser católica universal para converter-se na Igreja católica romana. O plano era fazê-la engordar; fazê-la famosa. As glórias das que desfruta a Igreja romana depois de tantos séculos, se deve àqueles anos nos quais a Igreja se converteu em um sistema religioso mundial. Deixou de ser a Igreja que se reunia em becos empoeirados, para reinar nos palácios e caminhar sobre tapetes custosos. Este aparente progresso se foi convertendo lentamente em um perigoso câncer. Era como um câncer interno; difícil de detectar. Ninguem sabia que a Igreja estava abaixo do ataque de um câncer de popularidade e grandeza humana. Por muitos séculos, a Igreja esteve sentada sobre tronos e desfrutou de popularidade mundial. Mas tudo era uma praga escondida que afetou ao Corpo de Cristo por mais de mil e duzentos anos, até que chegou novamente o momento em que a Igreja entrou em outra etapa de saúde interna. Os agentes que combatem a favor do corpo entraram em operação novamente. Chegou o momento de recuperação do Corpo de Cristo que se conhece debaixo do nome de Reforma".*(1) Tudo se vai preparando para que chegue Filadélfia, que é um despertar no cristianismo para a definitiva restauração do Corpo de Cristo.
*(1) Raúl Marrero. Como escapar do labirinto religioso sem deixar de ser fiel a Deus. Editorial Vida - 1998. Pág. 31.

A igreja primitiva recebeu o depósito, a fé uma vez dada aos santos; essa fé foi a semente que se semeou (Mt. 13:3), e essa semente começou a germinar na história da Igreja. Primeiro brotaram as folinhas (a Trindade, a divindade de Cristo, Sua humanidade, suas naturezas, Sua relação com o Pai), depois foram saindo o talo e os ramos (a obra de Cristo, a salvação, a expiação), depois brotaram as espigas e o grão (a Igreja, o Reino, os vencedores, o Corpo de Cristo). Vemos que o Senhor vai avançando para que a Igreja volte à Palavra, à fé uma vez dada aos santos, ao amadurecimento. Com a Reforma apenas se começou a conhecer a obra de Cristo. Se a Igreja houvesse conhecido a obra de Cristo antes da Reforma, não houvessem chegado a fazer comércio com a salvação, vendendo indulgências, por exemplo. Uma vez que houve clareza sobre a obra de Cristo, sobre a salvação como um presente de Deus pela fé e a justificação pela fé, na Reforma, foi quando o Espírito Santo começou a dar clareza sobre a Igreja em Filadélfia. Uma vez entendida a Igreja, o que é realmente a Igreja, é como se pode entender o Reino, os vencedores, o Corpo de Cristo. O denominacionalismo de Sardes são os ramos da planta, mas ainda não é a espiga com os grãos.
Se, em Sardes temos visto começos de restauração, mas tudo fica sem terminar; pelo qual a igreja do amor fraternal é uma reação do Senhor pelo estado de morte da igreja reformada o protestantismo degradado e o catolicismo apóstata, para que na Igreja do Senhor se continue a obra perfeita de Deus, algo que sobrepujasse o realizado na Reforma. A raiz da Reforma, a restauração se inicia com a justificação pela fé; a ele e com o tempo se seguiu proclamando o evangelho da graça. Esta reação haverá de continuar até a vinda do Senhor. Filadélfia é a Igreja restaurada conforme os propósitos e a economia do Senhor. Como Sardes (o protestantismo) sai de Tiatira (o sistema católico) sem que esta deixe de existir, assim também Filadélfia sai de Sardes e esta segue existindo até a vinda do Senhor. Ainda que, como o expomos mais adiante, houveram anteriores movimentos precursores semelhantes ainda antes da Reforma, contudo, se consolida o período de Filadélfia na Inglaterra e outros países do mundo nos começos do século XIX, com um movimento chamado de os Irmãos, no qual se restaura a posição dos filhos de Deus, já não com relação a uma das tantas organizações de fatura humana, senão com relação à verdadeira comunhão do verdadeiro Corpo de Cristo. Sem desconhecer os prelúdios morávios, afirmamos que os princípios de Filadélfia tiveram também lugar na Inglaterra por considerar o país mais influente, mas quase que simultaneamente o Espírito começou a inquietar a diferentes irmãos de distintas denominações, inclusive ministros ordenados, e se deram reuniões dos irmãos em diferentes lugares como Plymouth, e Londres na Inglaterra, Dublin (Irlanda), Itália, Georgetown (Guiana Inglesa) e outros, no lapso compreendido entre 1812 a 1818. Isso ocorria sem que tivessem conhecimento e contato entre os vários grupos durante a etapa inicial.
Assim como da Babilônia regressa tão só um remanescente do povo hebreu a restaurar o templo e a nação de Israel, assim mesmo faz Filadélfia sai um pequeno remanescente, que não alcança a fama e o renome da Reforma, pois há diferença nos meios usados na reação de ambos movimentos. Isto irmãos se preocuparam pela degradação espiritual e as práticas anti-bíblicas das organizações cristãs. Filadélfia surge como um movimento contra o mero cerimonialismo e o formalismo do luteranismo e outras vertentes protestantes, abaixo a vivência espiritual da piedade interna, a prática do amor ágape e uma realidade moral subjetiva e um testemunho verdadeiro por cima e por contraste das vazias práticas cerimoniais. Em seu despertar, Filadélfia é marcadamente neotestamentária em forma integral, fazendo por um lado as alienantes e desviadoras tradições religiosas. Na restauração que Filadélfia desperta, os irmãos vivem "solícitos em guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz" (Ef. 4:3), porque com Lutero havia-se restaurado o evangelho mas não a unidade do povo de Deus como encontramos no livro de Atos. Filadélfia pretende destruir as separações denominacionais entre os filhos de Deus, porque a Escritura nos ensina que o denominacionalismo é um erro e uma obra da carne. As denominações são organizações desconhecidas no Novo Testamento. Se a unidade da Igreja não se dá por meio do Espírito Santo, e é expressada em uma igreja por cada cidade em nome do Senhor Jesus, não há unidade.
A Igreja de Jesus Cristo havia vivido muitos séculos de mentirosa orientação e hipocrisia, e Ele se apresenta agora como o Santo e o Verdadeiro, como uma convocação à igreja em Filadélfia a caminhar pelo caminho correto da santidade e a verdade, e a doutrina ortodoxa bíblica e apostólica; abrindo passo à restauração da Igreja com a pregação da Palavra de Deus e não por meio da espada, como havia ocorrido no período da Reforma. Só com Cristo a Igreja pode ser santa; só com a unção e comunhão do Senhor, a Igreja pode caminhar por este mundo na perfeita separação do mundo, e andar na verdade, ou seja, ser verdadeira, na fidelidade ao Senhor. Não é possível alcançar o Senhor por caminhos diferentes ao plantado pela Palavra de Deus; os outros caminhos são sujos, falsos, torcidos, inventados, hipócritas, envoltos em uma religiosa aparência de santidade e retidão.
Em Filadélfia a regeneração chegou a ser vida nos santos e não só doutrina dogmática, porque a ortodoxia exige a ortopraxia. O que aqui se expõe não é novo, senão simplesmente o que foi instaurado e ensinado na Igreja desde o princípio, antes de que caísse sobre ela as corruptas correntes inovadoras e perturbadoras, que estorvam a legítima economia do Senhor. A Palavra de Deus não tem caducado, nem têm perdido vigência nenhum de seus princípios normativos. A graça de Deus que salva o homem por Cristo segue sendo um mistério insondável, e segue sendo esse dom não merecido que deve ser recebido em humilde gratidão. A Igreja segue sendo o Corpo de Cristo, e para sua edificação sobram as novas estratégias, os novos métodos, os novos planos e as novas organizações, tudo o qual se aparta do genuíno método de Deus e do único e original plano do Senhor. Isto o diz o Santo, o Verdadeiro, o único que tem o poder para orientar-te corretamente em teu ministério. Na Igreja, o chamamento ao ministério recai primeiramente como uma responsabilidade pessoal sobre os chamados, que os obriga a tomar decisões de tipo pessoal, para o qual pouco serviria o conselho nem a orientação de quem não conhece o chamamento; aqui só serve a orientação do Senhor, sem negar por ele a colegialidade do ministério.
Também o Senhor se apresenta à Filadélfia como o que tem a chave de Davi, o qual representa a autoridade do Senhor para abrir e fechar, e com essa chave cuida a igreja recobrada. A chave de Davi representa o domínio de Deus sobre todo Seu universo, esse senhorio que Deus outorgou a Adão, mas que este perdeu com a queda; mas tudo foi restaurado com Cristo, o verdadeiro Davi, que como Seu ancestral, livrou à batalha pelo estabelecimento do reino de Deus e pela construção do templo, a Igreja. Havia uma porta fechada, uma grande dificuldade para que se levasse à prática essa vida no Espírito e o trabalho na reconstrução da casa de Deus, mas se apresenta o Senhor com a chave, e diz que ao abrir Ele, ninguém poderia fechar. Tanto a igreja apóstata como a reformada haviam chegado a certo grau de ruína espiritual, que não só se preocupavam com o material, as vantagens e ganâncias terrenas, que se compara com certa situação do povo hebreu nos tempos de Isaías, época próxima ao eventual cativeiro a Assíria do reino do norte. Sebna, cujo significado é vigor juvenil, na ocasião mordomo e tesoureiro da casa de Deus, não atendendo as advertências de Deus sobre o iminente exílio, seguro de sua estabilidade no seu alto cargo religioso, manda escavar um sepulcro para si mesmo, pelo qual a Palavra de Deus diz:
" 12 O Senhor, o SENHOR dos Exércitos, vos convida naquele dia para chorar, prantear, rapar a cabeça e cingir o cilício.13 Porém é só gozo e alegria que se vêem; matam-se bois, degolam-se ovelhas, come-se carne, bebe-se vinho e se diz: Comamos e bebamos, que amanhã morreremos.14 Mas o SENHOR dos Exércitos se declara aos meus ouvidos, dizendo: Certamente, esta maldade não será perdoada, até que morrais, diz o Senhor, o SENHOR dos Exércitos.15 Assim diz o Senhor, o SENHOR dos Exércitos: Anda, vai ter com esse administrador, com Sebna, o mordomo, e pergunta-lhe:16 Que é que tens aqui? Ou a quem tens tu aqui, para que abrisses aqui uma sepultura, lavrando em lugar alto a tua sepultura, cinzelando na rocha a tua própria morada?17 Eis que como homem forte o SENHOR te arrojará violentamente; agarrar-te-á com firmeza,18 enrolar-te-á num invólucro e te fará rolar como uma bola para terra espaçosa; ali morrerás, e ali acabarão os carros da tua glória, ó tu, vergonha da casa do teu senhor.19 Eu te lançarei fora do teu posto, e serás derribado da tua posição.20 Naquele dia, chamarei a meu servo Eliaquim, filho de Hilquias,21 vesti-lo-ei da tua túnica, cingi-lo-ei com a tua faixa e lhe entregarei nas mãos o teu poder, e ele será como pai para os moradores de Jerusalém e para a casa de Judá.22 Porei sobre o seu ombro a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém fechará, fechará, e ninguém abrirá.23 Fincá-lo-ei como estaca em lugar firme, e ele será como um trono de honra para a casa de seu pai.24 Nele, pendurarão toda a responsabilidade da casa de seu pai, a prole e os descendentes, todos os utensílios menores, desde as taças até as garrafas. " (Is. 22:12-24).
Eliaquim significa: Deus restaurará, ou Deus estabelecerá; é um protótipo de Cristo, e líder do remanescente que seguia crendo e obedecendo a Deus, contrastando assim com os que como o mundano Sebna, faziam alianças com o mundo idólatra. Por isso recebeu a chave de Davi; ou seja, a chave da casa de Deus, das riquezas do Senhor, a fim de que as proveja a todos os necessitados. O Senhor lhe fez responsável dos tesouros de Sua casa. O Senhor, em Cristo e por Seu Espírito, entrega a Filadélfia as chaves de Sua Casa, para que administre todos os tesouros que estão sendo restaurados em Sua Igreja.
Devemos ter presente também que na Ásia Menor se praticava muito o culto a Janos, o deus que abre e fecha. Janos era o deus pagão das portas e as dobradiças, o das chaves babilônicas que diz ter o papa romano, e era também chamado o deus dos princípios, daí que janeiro (em inglês january) seja o princípio de ano, primeiro mês; por isso Janos era conhecido como o deus que abre e fecha, ou seja, o porteiro, e pensamos que de alguma maneira se relaciona este culto com as palavras do Senhor Jesus à igreja da localidade de Filadélfia, quando lhes diz: " 7 Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve: Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá:8 Conheço as tuas obras eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome. " (Ap. 3:7-8). O deus pagão Jano era um deus falso; Jesus é o Deus verdadeiro que abre e fecha. Cristo é o centro neurálgico da economia e dos propósitos de Deus.

Uma porta aberta

" 8 Conheço as tuas obras,eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fecha,que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome. ".

As obras de Filadélfia eram encomendadas pelo Senhor, pois esse pequeno grupo, um remanescente reduzido em número como aquele que se iniciou em 1828, não teria outra ambição que servir ao Senhor, conhecer-lhe, ter comunhão com Ele, estudar e por em prática a Palavra do Senhor. O Senhor levantou alguns irmãos na Inglaterra para que começassem a viver a prática da Igreja restaurada, a adequada vida do Corpo, fora de toda denominação e sistema divisivo, restaurando assim o amor entre os irmãos, a comunhão no Espírito em sua posição original. Alem disso se foram restaurando muitas verdades bíblicas, como: a verdadeira natureza da Igreja do Senhor, o ministério do Espírito Santo em relação com o indivíduo e o Corpo de Cristo, a posição do crente em Cristo, a suficiência do nome de Cristo, o sacerdócio de todos os crentes, o arrebatamento da Igreja, a segunda vinda do Senhor Jesus Cristo e seu reino milenar na terra, a unidade do Corpo de Cristo. Recorde-se que a medida que a Igreja se estabelecia no mundo para por sua morada nele, se foi perdendo nos cristãos a visão do regresso do Senhor Jesus; ensinamento que havia dado força e ânimo aos primeiros cristãos. Tudo foi mudando, até que chegou o momento em que muitos dos chamados "pais da Igreja", interpretaram as profecias apocalípticas como já cumpridas na vigência do Império Romano.
Muitas destas verdades restauradas se começaram a pregar em Filadélfia desde os púlpitos evangélicos, ainda que não todas, porque Filadélfia têm voltado à Palavra de Deus e têm sido fiel a ela, e com Filadélfia têm aprendido nossos irmãos de Sardes, mas infortunadamente esses ensinamentos têm sido em parte mal usados. Por exemplo, o sacerdócio de todos os santos têm sido negligenciado pelo protestantismo. O funcionamento de um clero ordenado dentro da congregação tem o nefasto efeito de apagar o controle que o Espírito Santo exerce sobre as atividades sacerdotais dos membros do Corpo. Os irmãos pioneiros na restauração dos princípios bíblicos, que têm adotado uma posição definida na vertente bíblica por convicção e não por conveniência, os que tem sofrido uma forte e até violenta oposição, apreciam muito essas verdades e não abandonam essa posição, porque o preço têm sido muito alto.
O Senhor tem a chave de Sua casa, e por isso têm aberto uma porta à igreja restaurada, a qual ninguém pode fechar. O organizacionalismo sectário que se têm apoderado da grande parte da cristandade, têm tratado de fechá-la, de opor-se à restauração da Igreja de Jesus Cristo, mas é uma porta que se vai abrindo mais para que mais irmãos entrem por ela, pois somente o Senhor, que é Cabeça da Igreja, tem a chave; não há mais chaves. As igrejas orientais atuais são uma mescla do cristianismo primitivo e do paganismo grego e oriental; o catolicismo romano é uma mistura do cristianismo primitivo greco-romano e germano-saxão, do paganismo e do judaísmo; o protestantismo tratou de restaurar o cristianismo primitivo, mas ficou pela metade, ante qual o Senhor reagiu restaurando Sua Igreja por cima dos limites do protestantismo.

"que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome." (v.8b).

O Senhor elogia a igreja restaurada e lhe diz que têm guardado Sua Palavra ainda que tenha pouca força. Aqui se refere à força física e humana, não à força espiritual, da qual é rica. Filadélfia tem pouca força, mas é melhor essa pouca força quando se tem o pleno respaldo do Senhor, que gozar de uma boa reputação não merecida, como no caso de Sardes. A igreja começou a ser restaurada por um pequeno remanescente; ainda que carente dos grandes meios econômicos e relações políticas do cristianismo organizado; não faz parte dos fortes deste mundo; pelo contrário, sofre a oposição de organizações reformadas, de onde tem saído. Pode-se pensar que ao Senhor agrada quando fazemos muitas coisas por Ele; mas isso é discutível. Às vezes se trabalha para satisfazer a vaidade egoísta. Não é necessário intentar ser forte; nem o Senhor quer que sejamos fortes. O débil (Davi) venceu ao forte, o gigante (Golias). O Senhor está interessado em que sejamos féis no pouco, que trabalhemos com o que temos recebido Dele, não de outro. "9 Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.
10 Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte." (2 Co.12:9-10).
As organizações poderosas podem menosprezar os começos modestos da restauração da Igreja, quando tem chegado o momento de reconstruir o templo do Senhor, o verdadeiro testemunho da igreja nesta terra. Mas acontece exatamente igual ao ocorrido ao povo judeu depois de setenta anos de cativeiro na Babilônia. Deles iam regressando à Terra Santa pequenos grupos nos tempos de Zorobabel e Josué, Esdras e Neemias. Não regressaram com muitas riquezas materiais, mas sim plenos da necessária confiança em Deus para empreender a reconstrução da nação, a cidade e o templo. Houve muita oposição por parte dos que estavam ali organizados, como Sambalá, Tobias e Gesém, porque não tinham a devida relação com Deus e não haviam legitimidade em suas raízes. O Senhor estava vendo tudo isso, e dispôs ali do ministério dos profetas Ageu e Zacarias para alentar ao povo para que continuasse a obra de restauração, e Deus falou por meio de Zacarias a Zorobabel, dizendo-lhe: "6 Prosseguiu ele e me disse: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel: Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos. 9 As mãos de Zorobabel lançaram os fundamentos desta casa, elas mesmas a acabarão, para que saibais que o SENHOR dos Exércitos é quem me enviou a vós outros.10 Pois quem despreza o dia dos humildes começos, esse alegrar-se-á vendo o prumo na mão de Zorobabel. Aqueles sete olhos são os olhos do SENHOR, que percorrem toda a terra" (Zac. 4:6,9-10). Com Filadélfia está ocorrendo isso. Os pequenos grupos, mas não reduzidos a meras pessoas jurídicas, que integram as incipientes igrejas nas localidades, mas que se ajustam à Palavra de Deus, são menosprezados. Mas aí está essa porta aberta, e ninguém a poderá fechar.
A igreja restaurada serve ao Senhor guardando Sua Palavra. As regras de conduta da Igreja, como tudo o que tem a ver com ela, são as que estão estabelecidas na Palavra de Deus, porque por meio dela, Ele se expressa. A principal causa de que séculos antes de que muitas organizações houvessem apostatado, foi porque se desviaram da Palavra do Senhor. Sardes na Reforma, até certo ponto restaurou a Palavra de Deus, mas negou Seu nome. Filadélfia tem se sustentado na linha da restauração, regressando inteiramente Palavra, e por isso não tem negado o nome do Senhor; a igreja restaurada abandonou esses nomes diferentes ao do Senhor Jesus Cristo. Se tem posto como moda no protestantismo que um cristão não se contente com ser somente cristão; é necessário que seja wesleyano, batista, pentecostal, carismático, luterano, presbiteriano, anglicano, copto, metodista, assembleísta e mil “istas” mais, e não podem conceber que um cristão não esteja debaixo da cobertura de uma organização dotada de um nome e de uma pessoa jurídica. E ao que pergunta, se respondemos às secas que somos cristãos, isso não lhe basta. Parece que não aceitaram nem conceberam que possam existir cristãos sem que pertençam a uma denominação determinada. Todos estes nomes estão dividindo aos filhos de Deus. Como diz Watchman Nee: "Os dois milênios da história da Igreja são um triste registro das invenções humanas para destruir a unidade da Igreja" ( A Igreja Normal, Watchman Nee, Tipográfica Indígena, Cuernavaca, Morelia, México, 1964, pág. 93).
A única separação que necessitamos é do mundo, quando só nos interessa levar o nome do Senhor Jesus. Quando a Igreja, a desposada com Cristo, toma outro nome, fornica espiritualmente, " 2 Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo. " (2 Co. 11:2). A igreja restaurada guarda a Palavra do Senhor, e guardando-a e entendendo-a, no meio deles não há credo, nem doutrina, nem tradição, nem opiniões dos homens, nem ensinamentos diferentes da Palavra de Deus. Às vezes pode dar-se o caso de entenderem-se muitas doutrinas ou aceitar um credo particular, sem que necessariamente se conheça a Bíblia. Costuma-se tratar de enquadrar, simplificar e limitar a Bíblia reduzindo-a a um credo. Por que se dão estas coisas? Porque a Bíblia, entendem-na os que têm a vida de Deus, e um credo, o entende qualquer sem muita complicação.
Em virtude de que a nada do começado na Reforma se tem dado feliz cumprimento, por essa razão a igreja de Filadélfia é a encarregada de acabar a obra de restauração total da Casa de Deus. Filadélfia não tem negado o nome do Senhor. Não negar o nome do Senhor, implica também não negar Sua pessoa, confessando-o com valor e afrontando qualquer risco. Os sistemas denominacionais de Sardes tem substituído o nome do Senhor por outros nomes de fabricação humana. A Igreja de Filadélfia não exclui aos irmãos denominacionais; tem comunhão com eles, com os santos, porque é inclusiva, mas não participa do sistema que nega o nome do Senhor. Pode-se fazer parte do sistema denominacional e mediante o Espírito e a Palavra do Senhor receber clareza sobre o que não é legítimo, sobre o que não está de acordo com a Palavra, sobre o que não deve permanecer, nem aprovar-se nem respaldar-se, e se começa a sentir o desejo de não seguir participando em muitas dessas coisas. Tem-se por benção, que ingresse muita gente a nosso círculo cristão, mas isso não é apropriado quando o caminho não é estreito. A porta aberta que o Senhor tem posto diante da Igreja, ninguém a pode fechar, e de fato se tem intentado fechá-la, mas não podem, porque quem tem as chaves é o Senhor Jesus.
A Igreja teve seu nascimento e iniciou seu crescimento e desenvolvimento com um mínimo de forma institucional e credo se é que se pode assegurar que algo disso havia em sua estrutura, salvo alguma dose de procedimentos herdados em seus primórdios, em maior porcentagem de judaísmo, pois mais que formas fixas de organização e culto externo, o fundamental na Igreja do Senhor desde aquele primeiro dia de Pentecostes, o que na realidade a faz atrativa, sua verdadeira riqueza, era e segue sendo o Senhor Jesus Cristo encarnado, crucificado, ressuscitado, glorificado e manifesto em Sua Igreja por Seu Santo Espírito. Os demais aspectos têm sido colocados em um lugar secundário no curso da verdadeira construção do templo de Deus. Na prática a Igreja universal de Jesus Cristo é espiritual, é um organismo vivo e não meramente uma multiplicidade de sistemas organizacionais.
A Igreja é expressada pelas igrejas locais, as quais, por terem os anciãos e diáconos, estão organizadas. Se se associa a palavra "igreja" (ekklesia) com o edifício ou lugar de reunião, ou com uma instituição, nos desviamos da verdade escritural. É necessário começar a associar o termo igreja com a comunhão dos santos, com a realidade do povo de Deus em Cristo pelo Espírito, do Corpo do Senhor Jesus. O termo grego ekklesia vem da preposição “ek”, que significa fora e “klesis” que significa uma chamada, de maneira que os santos são “os chamados fora de”, o qual não se relaciona para nada com os edifícios ou as organizações eclesiásticas. "Ora, vós sois corpo de Cristo; e, individualmente, membros desse corpo." (1 Co. 12:27). "22 E pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja,23 a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas." (Ef. 1:22,23). As instituições são invenções humanas e não estão implícitas na economia divina, por muito que se lhes pretenda defender. Pode-se fazer parte da assembléia institucional sem que necessariamente se faça parte da Igreja de Jesus Cristo, e isto deve saber qualquer que medianamente estuda a Escritura. O erro da denominação consiste em que não são todos os que estão, nem estão todos os que são. Biblicamente devemos associar o termo igreja primeiramente com a assembléia inclusiva dos crentes regenerados na localidade, e logo com a de todos em todo o universo, o qual leva implícito, ou está conectado com a unidade em Cristo e a comunhão no Espírito.
A Igreja tem sua Cabeça que é Cristo, tem sua jurisdição que é a localidade ou cidade, inclui todos os filhos de Deus de uma cidade sem excluir a nenhum por razões sectárias, de posição social o econômica, de raças, de ênfases doutrinárias; assim também tem a Igreja seu conteúdo bíblico, seu serviço próprio, a disciplina legítima e bíblica, o governo, a comunhão, a unidade, as finanças, as reuniões, as relações; tudo isto o tem a Igreja em um marco bíblico e normal, como está no plano de Deus, como está na Bíblia, sem os farisaicos aditamentos estatutários. A Igreja de Jesus Cristo não funciona porque a autoridade civil lhe outorgue poder de pessoa jurídica. Pessoalmente me informei sobre certa congregação cristã que, para se tornar uma pessoa jurídica e ter seus estatutos ou regulamentos internos, encarregou sua redação a um advogado sem conversão, nos quais não aparecia o nome de Deus nem de Seu Cristo. E me consta que se regiam por esse documento para dirimir muitos de seus assuntos.

Precursores da restauração

Ante a tragédia da Guerra dos Trinta Anos surgiram algumas correntes de avivamentos emanados de pequenas fontes como a dos Irmãos Boêmios ou Unitas Frátum, que haviam sofrido muito durante a guerra. As correntes protestantes estabelecidas oficialmente em muitas partes de Europa, no século XVIII haviam caído em um letargo espiritual, devido em parte a uma onda de racionalismo associado com o deísmo, e também ao esfriamento do avivamento inicial. Nessas circunstancias, em 1722 um grupo de irmãos que haviam seguido os princípios de vida espiritual praticados e ensinados por John Huss, emigraram da Morávia (ao sul da República Tcheca, norte da Áustria e oriente da Eslováquia) e Boêmia, a Saxônia, conduzidos por Cristiano David. O conde Nicolau Luis Zinzendorf (1700-1760) os acolheu amorosamente em seu feudo, pois havendo recebido sua educação na escola teológica da Universidade de Halle, esteve debaixo da influência do piedoso Augusto Hermann Franke (1663-1727), proeminente no movimento pietista. De princípios luteranos, Zinzendorf cursou estudos de direito em Wittenberg, chegando a ser um viajante infatigável; se distinguia por sua sensibilidade, capacidade e uma imaginação compreensiva universal; mas o que mais chama a atenção é que desde sua juventude se despertou nele uma inconformidade frente à situação espiritual em que havia caído à moribunda igreja oficial. O pietismo neste jovem nobre tomou a forma de uma ardente devoção ao Senhor Jesus. Para acolher os irmãos, Zinzendorf destinou sua propriedade em Berthelsdorf, em Lusace, a uns trinta quilômetros de Dresden, para criar o chamado "feudo de Deus".
Em meio a tudo isso, ali os irmãos Morávios começaram algo diferente, algo assim como uma célula viva já não de uma organização mas, senão da expressão corporal da Igreja de Jesus Cristo; e se ocuparam de derrubar as árvores dos bosques circundantes, drenaram alguns terrenos pantanosos, e edificaram uma cidade comunitária cristã, Hernhut ("Sombreiro ou sombra do Senhor"), que se converteu com o tempo não só em um grande centro industrial, senão também de vida espiritual e corporativa, cujas ganâncias comunitárias eram reservadas inteiramente para a obra missionária. Seiscentos cristãos comunitários produziam não só para si mesmos, senão para manter até mil missionários em tudo o mundo.
O conde Zinzendorf se estabeleceu em Hernhut e lá teve por centro e sede de suas atividades missionárias e para promover a vida espiritual com os irmãos, pois teve o anelo de espalhar a fé cristã através de muitas partes do mundo, e naquele grupo de irmãos refugiados e perseguidos, ele viu uma oportunidade que o Senhor lhe dava de realizar seus desejos, identificando-se com eles. Ali construíram casas para os santos pobres e fundaram um seminário teológico para educar aos missionários que haveriam de levar as boas novas a longínquas terras, e quando chegavam à ancianidade, regressavam a esse seu lugar a passar o resto de seus dias. Aos fins do século XIX continuava ali a vida tranqüila e feliz, como a “Meca” dos irmãos Morávios, que, além da herança de Huss, se relacionavam com o pietismo e com a Unitas Frátum, e se distinguiam por sua integridade moral e sua vida espiritual inclinada para o pietismo. Em certa forma se assemelhavam muito aos puritanos ingleses do século XVII, cuidando-se sempre de conformar-se o mais possível aos princípios bíblicos de vida corporativa como igreja. Como é de se supor, isto gerou fortes protestos por parte dos círculos eclesiásticos oficiais alemães, conseguindo que o conde fosse desterrado.
Em 1732 os missionários morávios chegaram ao território da Greolândia sob a liderança de Hans Egede; na América do Norte em 1733, e um pouco depois de 1750 estenderam suas operações até o Labrador. Inauguraram uma colônia que tinha seu centro em Bethlehem (Pensilvânia). Ali seu principal dirigente era Spangenburg, mas foram visitados por Zinzendorf. É curioso registrar que o dirigente Quaquer, Guilherme Penn, fundou a Pensilvânia como um "santo experimento" com Filadélfia, a Cidade do Amor Fraternal, como sua capital, operando abaixo uma forma de governo que buscava colocar os cimentos de uma sociedade construída sobre princípios cristãos e governada por ideais cristãos. Também se registra que em 1732, pela iniciativa de Zinzendorf, os morávios começaram umas missões entre os negros das Índias Ocidentais Danesas, e em 1735 nas colônias holandesas da costa norte de América do Sul.
Ao morrer o conde em 1760, o labor apostólico de uma equipe de 220 missionários repartidos em 24 países, se refletia em uns 30.000 crentes que constituíram a avançada do futuro trabalho de restauração da Igreja do Senhor em nossos tempos. John Wesley estabeleceu contato com os irmãos Morávios, o qual lhe produziu uma experiência significativa, fazendo Dele o promotor de um grande despertamento evangélico e o iniciador do Metodismo.

A moderna história de José

" 9 Eis farei que alguns dos que são da sinagoga de Satanás, desses que a si mesmos se declaram judeus e não são, mas mentem, eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei. ".
A palavra judeu se deriva de Judá, a que a sua vez em hebraico é yadáh, que significa louvar a Javé, então etimologicamente os judeus são aqueles que louvam a Deus, e essa é a conotação profética no presente versículo. A igreja histórica de Filadélfia estava composta em sua maioria por judeus, e, aliás, principalmente por essa causa, foi perseguida também pela sinagoga dos judeus que não haviam se convertido, e qualificavam aos irmãos de apóstatas, de traidores de seu povo, de hereges, de sectários, de que haviam se afastado de Deus e do cumprimento da lei, e por isso eles, os da sinagoga, proclamavam que eram autênticos judeus, mas o Senhor mesmo revela sua falsidade, dizendo que definitivamente não eram verdadeiros judeus, senão mentirosos que não reverenciavam a Deus. Que significado pode ter tudo isto para o momento atual? Já o explicamos no capítulo segundo quando estudamos a carta a Esmirna e as conotações da palavra judeu. Agora se trata das instituições eclesiásticas que pretendem possuir a legítima sucessão estabelecida por Deus. Em certa maneira o cristianismo se desprende do judaísmo, pois ali há raízes, assim como a igreja restaurada se desprende da igreja reformada.

Cap. VI
FILADELFIA
(2a. parte)


Características judaizantes

Assim como o judaísmo se opôs ao cristianismo, assim também o oficialismo organizado e pretensioso se opõe ao remanescente restaurador; então aqui na carta se da a entender que muitos se aferrariam a características judaizantes, das que Filadélfia se desprendeu de tudo, a saber: Um sacerdócio intermediário, as ordenanças legalistas ou códigos escritos à maneira de Talmud, o templo físico e a ênfase nas promessas meramente temporais ou terrenas, com sua teologia da prosperidade implícita. Na continuação analisamos estes quatro pontos.


O sacerdócio intermediário.

No princípio, Lutero defendia o sacerdócio de todos os crentes, mas não foi restaurado na prática; Lutero insistia na necessidade de um ministério especializado. A prática do sacerdócio intermediário têm resultado no que por meio do sistema clerical os religiosos têm subjugado, e subjugado não só pessoas senão também povos e nações, e esse nicolaísmo segue em vigência. A liderança humana afasta à Igreja da liderança divina e da proteção do Senhor. O Senhor ordenou que a Igreja fosse uma irmandade igualitária. " Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. " (Mt. 23:8). A classe mediadora se desenvolveu no catolicismo romano mediante os sacerdotes chamados padres, nas igrejas estatais como a Anglicana, com o sistema clerical, e nas igrejas protestantes independentes, com o sistema pastoral; contrariando assim o estabelecido nas Escrituras, onde as igrejas que organizavam os apóstolos ficavam debaixo da administração de um corpo ou grupo de anciãos ou bispos, e diáconos. Entre os anciãos ou bispos se exerciam os distintos ministérios.
Se a imoralidade do nicolaísmo chegou a profundidades imprevistas no catolicismo romano, pelo lado protestante, por exemplo, na Alemanha, foi acusada a tendência à criação de dinastias pastorais, que se associava com a transmissão dos cargos e ideologias eclesiásticas de pais a filhos, contribuindo a fossilizar o desenvolvimento espiritual do protestantismo.


O código escrito

Quando se renuncia o viver no Espírito e na perfeita comunhão do Corpo, se invalida a Escritura com estatutos e códigos escritos, porque chocam com os princípios da Palavra de Deus, pois ensinam como doutrinas, mandamentos de homens, o qual distancia a Igreja de seu verdadeiro Cabeça e da autêntica estrutura que sua legítima Fonte têm delineado para Seu Corpo. Os códigos escritos invertem a ordem de Deus para Sua Igreja," porque, então, não o buscamos, segundo nos fora ordenado. " (1 Crônicas 15:13b). Em um sistema apóstata, as opiniões dos homens têm mais valor que a Palavra de Deus. Por meio de estatutos de fatura humana se estruturam organizações e se regulamentam os membros, mas constituem práticas diferentes ao verdadeiro batismo no Corpo de Cristo e ingresso à Igreja do Senhor. É o Espírito de Cristo o que verdadeiramente incorpora a Seu Corpo a todos os regenerados. O alento de vida das igrejas locais não é por certo as pessoas jurídicas, senão o Senhor . A vida da Igreja une a água viva do Espírito Santo na comunhão do amor do Pai, a água da Palavra e o batismo, pelo sangue redentor de Cristo. As disposições néscias separam e dividem à família de Deus; e as seitas e os partidos religiosos lastimam e desfiguram o Corpo de Cristo.

O templo físico

Em seu afã de suplantação do plano divino verdadeiro, o sistema babilônico e seus herdeiros naturais, continuam fascinados pela construção de templos físicos. Já fazia séculos que o templo judeu jerosolimitano havia sido destruído pelo império, mas a igreja em Pérgamo herdou da religião pagã a construção de grandes templos materiais, prática que se desenvolveu principalmente com Tiatira; conseqüentemente a igreja reformada (Sardes) o herdou de Tiatira até hoje; Mas biblicamente esses templos não são a casa de Deus, como necessariamente tampouco o são as organizações eclesiásticas que costumam construí-los. Recorde-se que o protestantismo se conta entre os altamente estruturados sistemas religiosos atuais. A casa de Deus é Sua Igreja, a redimida pelo sangue vertido por Jesus na cruz. No protestantismo, igual ao catolicismo romano, costuma se dar mais importância aos templos materiais que ao verdadeiro templo que Deus está construindo para Sua morada. A respeito diz o irmão Nee: "Por favor recordem, o catolicismo é a igreja em cativeiro na Babilônia. Muitos leitores da Bíblia admitem isto. Como os filhos de Israel foram levados cativos a Babilônia, a Igreja também foi levada cativa à Babilônia. O protestantismo regressou da Babilônia, mas não edificou o templo. Apesar de que muitos regressaram da Babilônia, o templo não estava em pé. Hoje em dia vocês e eu devemos ser aqueles que na história da Igreja se levantam a edificar o templo".*(1) De maneira que o Senhor têm uma apropriada economia de Sua Casa, muito diferente à estruturada pelos homens e o mercado religioso. " 10 Tu, pois, ó filho do homem, mostra à casa de Israel este templo, (segundo o modelo de Deus) para que ela se envergonhe das suas iniqüidades; e meça o modelo.11 Envergonhando-se eles de tudo quanto praticaram, faze-lhes saber a planta desta casa e o seu arranjo, as suas saídas, as suas entradas e todas as suas formas; todos os seus estatutos, todos os seus dispositivos e todas as suas leis; escreve isto na sua presença para que observem todas as suas instituições e todos os seus estatutos e os cumpram. " (Ez. 43:10-11). No povo hebreu Deus estabeleceu um só lugar de adoração, o templo de Jerusalém, e não milhares de sinagogas judias; hoje em Sua Igreja, o Senhor não quer que haja milhares de sinagogas e centros de adoração, senão a unidade de Seu povo em cada localidade, conforme o exemplo e a economia bíblica.
*(1) Os Assuntos da Igreja, Watchman Nee. Living Stream Ministry, 1991, pág. 95.


As promessas terrenas

A Igreja de Jesus Cristo é um Corpo de caráter celestial objeto de benções espirituais nos lugares celestiais em Cristo (cfr. Efésios 1:3b), estrangeira e peregrina nesta terra. " Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma, " (1 Pe. 2:11). " Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia " (Jo 15:19). A igreja reformada descuidou seu caráter de peregrina, mas havendo restaurado a leitura da Bíblia, tomou para si as promessas terrenas feitas na Palavra de Deus a Israel, um povo terreno, e doutrinalmente se ensinam como bênçãos de Deus para seus filhos, de maneira que se pode pensar que os irmãos pobres, não são objeto desta classe de bênçãos devido a seu pecado ou porque por alguma estranha razão são discriminados, ou não têm a suficiente fé para cristianizá-las, ou porque não têm aperfeiçoado o método da visualização. Não contente haver saído da mundana Tiatira, o protestantismo têm dado as boas vindas a uma onda da chamada psicologia ou teologia da prosperidade, a qual vêm envolta de um aspecto de metafísica, auto-estima, visualização ou magia branca "cristianizada". A mensagem da cruz se opõe ao da prosperidade terrena; são incompatíveis. " Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. " (Mt. 16:24).
A igreja restaurada têm se livrado destas quatro coisas, pois nela se vive o sacerdócio de todos os santos, o guardar a Palavra do Senhor como único código normativo, a vida do Corpo como verdadeiro templo de Deus e as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo. A cobertura que necessitamos para nosso ministério é a verdadeira comunhão espiritual e no amor do Corpo. A Palavra de Deus à vez que proclama o sacerdócio de todos os crentes, afirma que o Senhor prove uns ofícios ou ministérios, que se relacionam com o ensinamento, a pregação, a supervisão, a administração, o manter a ordem, o serviço, a economia e a extensão da Igreja, sem que isto se confunda com a criação de hierarquias na mesma. Ministério é serviço.
Deus quis fazer da Igreja o Corpo de Seu Filho, e Nele participamos de Sua condição de sacerdote, profeta e rei. Filadélfia, ao expressar a Igreja do Novo Testamento, em matéria teológica não tem uma doutrina particular aparte da Bíblia, pois busca a legítima estrutura teológica onde se deve buscar, na Bíblia.
Além do anterior, o Senhor diz que Ele fará que os modernos pretensiosos, que menosprezam aos santos na posição de Filadélfia, e têm aborrecido e perseguido ao remanescente de restauração, venham e se prostrem aos pés dos irmãos de Filadélfia, quando verem que esta é amada pelo Senhor e se manifestar nela a glória do Senhor, para que se repita a história de José, o filho de Jacó e de Raquel, aquele jovem a quem seus irmãos aborreceram e venderam como escravo ao Egito, e ele, débil e sem forças, foi encarcerado e maltratado, mas Deus o amava e se recordou dele e o levantou de tal maneira, que seus irmãos vieram a prostrarem-se ante seus pés. À medida que uma pessoa conhece o verdadeiro Deus e a Sua Palavra, vai anulando toda influência do judaísmo em sua vida. " Portanto, assim diz o SENHOR: Se tu te arrependeres, eu te farei voltar e estarás diante de mim; se apartares o precioso do vil, serás a minha boca; e eles se tornarão a ti, mas tu não passarás para o lado deles. " (Jer. 15:19).
No curso da história da Igreja têm havido muita gente que tem recebido revelação de Deus acerca da situação da mesma. Temos o caso de Barton W. Stone (1772-1844), nascido em Maryland, e havendo exercido como pastor presbiteriano em Kentucky, foi expulso com seus amigos, por suas idéias arminianas, e resolveram constituir um presbitério independente, o qual produziu uma não pequena controvérsia a tal ponto que eles o dissolveram, desejando, segundo suas próprias palavras, que "se fundira em união com o Corpo de Cristo em geral". Mas o curioso é que também eles sentiram chamarem-se simplesmente "cristãos", tomaram a Bíblia "como único guia seguro ao céu", renunciaram com juramento à ordenação, e renunciaram ao batismo de crianças. Em sua relação mútua pediam que "pregadores e povo cultivassem um espírito de paciência mútua, orassem mais e disputassem menos".
Outro exemplo o temos em Tomas Campell, um escocês que chegou a ser pastor presbiteriano na Irlanda. Em 1807 veio a Pensilvânia, mas não estava de acordo com as contendas sectárias na Igreja, de maneira que se retirou do presbiterianismo devido a que foi repreendido por admitir à Ceia do Senhor a presbiterianos de diversas crenças. Seu erro subseqüente foi haver formado com seus seguidores "A Associação Cristã de Washington", mas não obstante proclamaram que "onde falam as Escrituras, falamos nós; onde as Escrituras guardam silêncio, o guardamos nós". Também declararam que "a divisão entre os cristãos é um mal horrível... é anti-cristã".

A hora da prova

" Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra. ".
O mundo têm menosprezado o Senhor; o têm tido como muito pouca coisa, e até hoje Ele têm perseverado em sua paciência, suportando esse menosprezo e essa continua rejeição, e a igreja restaurada o têm acompanhado em seu vitupério, têm sido solidária com o Senhor guardando a palavra de Sua paciência, suportando a rejeição e a perseguição, a oposição e a humilhação, a mesma animadversão que o mundo e os falsos judeus têm ao Senhor.
Historicamente o Senhor têm protegido tanto à igreja como a localidade de Filadélfia. À igreja a protegeu no tempo da perseguição geral contra os cristãos, sobre tudo abaixo do imperador Trajano, e mais tarde durante a Idade Média a protegeu dos embates dos islamitas. No século XIV o Senhor também protegeu a esta igreja, quando o conquistador tártaro Tamerlão ou Timur praticamente exterminou todas as igrejas da Ásia Menor. Tudo isso foi assombroso para os maometanos, e por tal motivo chamaram a Filadélfia "Alashir", que em árabe significa Cidade de Deus.
A prova que tem de vir sobre o mundo inteiro é a Grande Tribulação, mas antes de que chegue essa hora amarga para a humanidade (a grande tribulação de Mateus 24:21), já saberá guardar Cristo aos santos da hora da prova, posto que guardaram a palavra da paciência do Senhor, que é o sofrimento do Senhor. Recordemos que esta promessa é só para os vencedores. Nós também temos de sofrer rejeição e perseguição. Essa é a promessa do Senhor para Filadélfia. " Vigiai, pois, a todo tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que têm de suceder e estar em pé na presença do Filho do Homem. " (Lc. 21:36). Recordemos que a Sardes o Senhor também adverte sobre sua vinda. É chegado o momento de que saibamos em que caminho andamos, em qual situação da Igreja vivemos. Estás ainda em Tiatira andando nos ensinamentos de Jezabel, a doutrina de Balaão e as profundezas de Satanás? Segues em Sardes com o nominalismo, com nome de que vives, mas estando morto? Fazemos teimosia em que esta promessa do Senhor indica que os que não guardem a palavra da paciência do Senhor serão deixados na prova, pois as outras três igrejas que continuarão até a vinda do Senhor não se lhes faz esta promessa. No protestantismo se está ensinando uma doutrina muita generalizada e não muito clara a respeito do arrebatamento, e os crentes estão desorientados a respeito.

Os irmãos

Temos visto como dentro do protestantismo e ainda no catolicismo houveram reações por parte dos grupos e pessoas que se inclinaram pela linha da vida interior, e os mais numerosos, os que saindo de Sardes começaram a dar um sério perfil ao período histórico profético de Filadélfia, foram os popularmente conhecidos em seu tempo como Darbytes ou Irmãos de Plymouth (Plymouth Brethren), e também como Assembléias de Irmãos, mas não porque eles tenham adotado esses nomes; eles simplesmente se chamavam a si mesmos "irmãos", "cristãos", ou "irmãos cristãos", devido a que não chegaram a formar uma denominação religiosa.
Nos parece apropriado transcrever as palavras do doutor Miguel Ángel Zandrino: "Muitos crentes se sentiam então irmãos por compartilhar a mesma fé, e ter experiências similares na vida cristã. Durante a semana eram amigos íntimos e desfrutavam juntos estudando as Sagradas Escrituras. Mas chegando o domingo, deviam separar-se, pois pertencendo a Igrejas diferentes, não podiam desfrutar unidos da participação da Ceia do Senhor. Isto fez surgir neles uma grande inquietude. Será possível que seja do Senhor que existam tais diferenças? E o problema denominacional cobrou ante eles, imediatamente, a dimensão de um tremendo fracasso do testemunho da Igreja de Jesus Cristo ante o mundo. E se propuseram, a não terem outra denominação, nem reformar as existentes, mas se, reunir ao redor da mesa do Senhor, tratando, em quanto fora possível, não acrescentar nada do homem neste vir ao encontro de Deus para o serviço de adoração". (Prólogo de "Irmãos Livres, Por que?" de Raúl Caballero Yoccou. Talleres Gráficos Argen-Press, S.R.L. Buenos Aires, 1964)
As primeiras reuniões em Dublím aconteceram na casa de Lady Powerscourt, as quais contavam as vezes com a assistência de até quatrocentos irmãos; ali assistiam pioneiros como G. V. Wigram, Eduardo Cronin, W. Trotter, Wilson, Timms, Hutchinson. Em 1827 se uniram Anthony Groves ( O inglês Anthony Norris Groves (1795-1853) nascido em Newton, Hampshire, foi missionário em Bagdad, Rússia e a Índia), John G. Bellet e John Nelson Darby, que chegou a ser um dos mais proeminentes líderes dos irmãos. John Nelson Darby (1800-1882), advogado, na Irlanda foi clérigo anglicano, mas em 1827 publicou seu famoso livro Da natureza e unidade da Igreja de Cristo, obra que foi impactante para muitos grupos que já se começaram a formar em várias partes do mundo. Renunciou a seu cargo nesse mesmo ano, integrando-se à assembléia cristã em Dublin, fazendo desde 1830 freqüentes viagens ao continente, abrindo um segundo centro em Plymouth, Inglaterra. Darby se distinguiu como ubérrimo escritor, organizador, teólogo e grande estudioso das profecias bíblicas, mas por herança do anglicanismo, no princípio ensinava o batismo infantil. Com Darby os Brethren também se relacionam os irmãos S. P. Tregelles e Andres Jukes. Depois de 1845, também se registra a relação de Darby com irmãos como W. Kelly, C.H Mackintosh, C. Stanley y J. B. Stoney, a respeito de estudos doutrinais em torno do dispensacionalismo.
Muitos, inclusive ministros anglicanos, por todo o território britânico, abandonavam seus caducos e frios ritos denominacionais para unirem-se aos irmãos e começaram a experimentar a refrescante comunhão cristã, a unidade fraternal e a vida no Espírito, sem que deixassem de serem criticados e difamados pelas congregações das denominações que os cercavam. No começo os irmãos iam se apartando da igreja oficial e das denominações e iam se integrando como um movimento da classe alta, e eventualmente se integravam da classe média e gente humilde, pessoas que estavam descontentes com a mundanismo e a frieza espiritual nas denominações, especialmente na Igreja Anglicana.
Um de seus distintivos era que tratavam de tomar as Escrituras literalmente, e devido a isso sua vida de igreja começou a se assemelhar à igreja primitiva, restaurando a mutualidade nas reuniões dos santos, mas não tinham organização central, e não tinham a ordenação, senão evangelistas laicos; pois Filadélfia não deu oportunidade ao nicolaísmo, e Filadélfia não recebe reprovações do Senhor. Apartaram-se das denominações constituídas na época devido a que essas igrejas "oficiais" foram consideradas biblicamente apóstatas, e as olhavam com desconfiança porque criam que elas se haviam comprometido com o mundo.
Nesse tempo ainda não tinham clara a visão da igreja em cada localidade, por isso eles consideraram que os cristãos deviam limitar-se a viverem em simples grupos, separados do mundo e sua contaminação, no ensinamento de uma doutrina pura e o exercício de uma vida piedosa. Já entrado o ano de 1839, Darby começou a ensinar que na Escritura vemos a união de todos os filhos de Deus em cada localidade. Ao voltar às fontes bíblicas, os irmãos foram fundamentados em que o Espírito Santo guia aos verdadeiros cristãos, unindo-os na fé e na adoração, restaurando assim a verdadeira comunhão dos santos no Espírito. Os irmãos estavam convencidos de que uma pessoa, a menos que experimentasse intimamente a conversão, estava impossibilitada para reformar-se socialmente. A mudança de mentalidade (do grego metanoia) que implica arrependimento e a conversão do homem a Deus por Jesus Cristo vai mais além que uma simples doutrina batismal e integração organizacional. A missão da Igreja é a de colaborar com Deus na edificação de Sua casa e na salvação dos homens dentre o mundo. Dentro da reação do Senhor frente à Sardes, vemos que a pregação da Palavra de Deus saiu dos púlpitos nos templos, para ser exposta pelas ruas, plataformas, debaixo das árvores frondosas, em reuniões pelas casas, sem que isto fora necessariamente por parte dos teólogos e membros da clerezia religiosa, senão por irmãos chamados, regenerados e consagrados pelo Senhor para o trabalho de restauração da Igreja.
Se conta entre seus fiéis ao piedoso prussiano George Müller (1805-1898), que aos vinte anos se converteu entre os pietistas em Halle, e onde o estudo da Bíblia lhe pareceu novo e fresco, não obstante, de que já havia adiantado estudos para o ministério; ali teve um encontro definitivo com Cristo. Em 1829 foi à Inglaterra como missionário aos judeus. Distinguiu-se por seu labor a favor dos órfãos em Bristol, para cujo sustento confiou inteiramente na fé e na oração. Em 1832, em companhia de Henrique Craik, iniciou em Bristol as reuniões com umas sete pessoas.
Benjamim Wills Newton (1807-1899). Um dos primeiros e mais piedosos líderes do movimento dos irmãos de Plymouth. Ascendente dos Quaquers, havia se distinguido por seus êxitos acadêmicos, quando foi visitado e influenciado por John Nelson Darby. Começou seu ministério em Plymouth com homens de Deus como Jorge V. Wigram, Jaratt, Jaime L. Harris, e viajou por toda a região, continuando seu ministério literário até uma idade nonagenária. Em Plymouth os vínculos entre os irmãos se fortaleceram ao redor de 1830. Depois de um testemunho de forte vigor espiritual durante uns quinze anos, os Plymouth Brethren chegaram a somar mais de mil membros. Em 1845 houve uma divisão entre os irmãos, devido a discrepâncias no governo da igreja e na vinda do Senhor, mais que tudo no relacionado com a permissibilidade de reunirem-se com outros cristãos, argumentos que jamais avalizam uma divisão.
Darby rompeu vínculos com Benjamín Wills Newton e se protocolizou a divisão entre Irmãos Fechados ou Exclusivistas e Irmãos Livres, devido a algumas práticas de comunhão cristã.*(2) Os geralmente conhecidos como Irmãos Livres ou Abertos se baseiam mais nos princípios de comunhão fraternal mais inclusivistas; mas de todas maneiras para distingui-los usamos o terno geral de Irmãos. Adiantaram-se muitas tentativas para solucionar o da ruptura, especialmente da parte de Robert Chapman, mas sem resultado. Deixamos por sensato que a legítima igreja, normal e bíblica em cada localidade é de fato inclusivista, pois não pode descartar a nenhum irmão que o Senhor tenha recebido e o Espírito Santo tenha batizado no Corpo, sem que necessariamente isto signifique comunhão com o pecado. Ao largo destes dois séculos, Plymouth se tem destacado como a igreja mais influente e representativa.
*(2) Os irmãos fechados ou exclusivistas alegavam que deviam rejeitar toda comunhão com qualquer igreja ou assembléia que admitisse o mal doutrinal ou moral.

Ao começar a se desenvolver esse mover dos Irmãos, deu-se início a uma atividade missionária muito grande. Desenvolveram as que se chamaram Missões Cristãs em Muitas Terras, chegando a muitas regiões em todos os continentes. O conhecido advogado Roberto C. Chapman, de Barnstaple, tomou especial interesse pela obra na Espanha, país ao qual visitou em companhia de vários irmãos em 1838; em 1863 voltou com os irmãos Gould e Lawrence, que ficaram na Espanha. Os precursores do movimento na Itália foram o Conde Guicciardini (1808-1886) e Teodoro Pietrocolo Rossetti. Em 1871, chegaram a um desenvolvimento tão importante, que chegaram a reunirem-se no ágape em Piamonte uns 600 irmãos; e esse movimento perdura até os atuais dias. Na Guiana Britânica, o movimento se originou com o inglês Leonardo Strong (1797-1874), que inicialmente havia chegado como missionário anglicano.
Também é digna de registrar a Missão da China Interior, iniciada em 1865 pelo britânico J. Hudson Taylor, não comprometida com nenhuma denominação em particular, a qual não prometia a seus missionários soldos fixos, repartindo entre eles o dinheiro que se recebessem, e se opunham a contrair dívidas; nunca solicitavam donativos, dependendo das orações para receber os fundos. Com Taylor se da início a uma forma diferente da obra missionária, pois soube combinar o serviço médico com a pregação do evangelho. Esta missão chegou a contar com mais de 190 médicos e 1400 missionários, só desarticulada pela revolução comunista do século XX, mas o fruto ficou em incontáveis grupos cristãos em todo o território chinês. Com essa missão teve contato o irmãoo Nee To-sheng (Watchman Nee) na segunda metade da década dos anos vinte do século XX, sobre tudo por sua amizade com o irmão Carlos H. Judd, na ocasião contador da Missão.
Na Espanha contemporânea os irmãos constituem os mais numerosos cristãos não católicos, onde também são conhecidos como Assembléias de irmãos, seguidos em número pelos batistas.


A coroa de Filadélfia

" Venho sem demora. Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. " (v.11).

A condição da igreja restaurada existirá até a vinda do Senhor. É uma igreja que ama ao Senhor e tem uma perfeita comunhão com Ele, por tanto, o Senhor lhe fala de Sua pronta e eventual vinda. A igreja de Filadélfia deve reter zelosamente o que tem; ou seja, a Palavra de Deus e o nome do Senhor, o qual acarreta a obediência, a fidelidade e a paciência, a fim de que nenhum possa tomar sua coroa. Se os irmãos de Filadélfia não retém o que tem, o Senhor levanta a outros que tomem sua coroa.
Além da igreja de Filadélfia, em todo o Novo Testamento se encontra uma pessoa que mesmo vivendo nesta terra já sabia que tinha sua coroa. Trata-se do apóstolo Paulo. "Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda. " (2 Tm. 4:8). Apesar do grande sofrimento de Esmirna, a esta igreja o Senhor declara que se fosse fiel até a morte, Ele lhes daria a coroa da vida, que é um símbolo da glória do Senhor; mas a Filadélfia diz que ela já tem sua coroa, que retivesse até o final o que tinha que constitui sua riqueza e sua característica, para que ninguém pudesse retirar. Isso é uma advertência para que esteja em alerta, vigilante, nessa expectativa. Quem estaria interessado em arrebatar-nos os valores espirituais e expor-nos ao escárnio do mundo? O inimigo de Deus; só ele tem o interesse de ver a igreja roubada e despojada da paz do Senhor, da justiça divina, da proteção do Senhor, e mesmo do gozo da salvação.

Colunas no templo

" Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome.13 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas " (vv.12, 13).

Os vencedores de Filadélfia são os que logram reter firmemente o que têm, aos quais o Senhor os fará colunas no templo de Deus. Temos que diferenciar a condição de ser coluna do templo de Deus e o ser uma simples pedra do edifício; a coluna é fundamental, não pode ser tirada sem que ponha em risco a estrutura da edificação; ou seja, que Filadélfia vai a ser um fundamento do templo de Deus, e nunca mais será tirada. Ao vencedor de Pérgamo, O Senhor promete dar uma pedra com um nome escrito, mas ao vencedor de Filadélfia se lhe fará uma coluna sobre a qual serão escritos três nomes: o de Deus, o da Nova Jerusalém e o novo de Cristo, como sinal de propriedade de Deus, de herança eterna e de testemunho de Cristo e de que se tem feito um com Deus, com a Nova Jerusalém e com o Senhor, tudo o qual se cumprirá no reino milenar. Levar o nome de Deus significa que Deus foi formado em ti; levar o nome da Nova Jerusalém significa que fazes parte da cidade santa, porque têm sido também formada em ti, e levar o nome novo do Senhor significa que o Senhor têm se formado a Si mesmo em ti, em tua experiência, e em teu andar diário. Em resumo, Filadélfia é a única igreja que é completamente aprovada por Deus.
O vencedor de Filadélfia retém o nome do Senhor e a unidade do Corpo de Cristo. É um erro pensar que para que haja unidade na Igreja necessariamente deve haver uniformidade. Há ênfases doutrinais que não revestem caráter fundamental, e que por fim não afetam a salvação nem rompem a unidade do Corpo; alem disso, o grau de amadurecimento e santidade dos irmãos biblicamente não é uniforme, nem tampouco se deve esperar uniformidade no procedimento e a ordem. É interessante o conceito do irmão Watchman Nee sobre os vencedores. Ele dizia que os que vencem são os cristãos normais; os outros são anormais! " porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.5 Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus? " (1 Jo 5:4,5)

A restauração na China

As missões cristãs protestantes entraram na China como conseqüência da guerra do ópio e o tratado de Nanking em 1842, por meio da qual cederam Hong Kong a Grã Bretanha. Temos mencionado a Hudson Taylor (1832-1905) como um dos mais proeminentes e influentes missionários cristãos chegados à China imperial. Este filho de um boticário metodista inglês desembarcou em Shangai em 1854, centro de operações desde onde desenvolveu uma grande labor evangelístico, em uma época em que a China era ainda hostil à influência estrangeira. Havendo rompido relações com sua sociedade missionária, fundou na Inglaterra a Missão da China Interior em 1865, e considerado um excêntrico pelos outros missionários por sua abnegação e profunda vida de fé; chegou a vestir-se ao costume chinês, casando-se com a missionária Maria Tyer em Migpo. O trabalho de Taylor e sua equipe de colaboradores deixou profundas raízes e adubou o terreno para continuar a obra de restauração da Igreja no começo do século vinte, usando homens excepcionais do tipo de Watchman Nee, um dos maiores apóstolos usados pelo Senhor para este trabalho. Levemos em conta que em Fuchou, a Taylor o havia precedido os Congregacionais e os Metodistas Episcopais norte-americanos em 1847, assim como os missionários anglicanos em 1850. Com estes missionários, o avô paterno de Nee conheceu a Cristo, e chegou a ser evangelista e primeiro pastor chinês em sua província.

Watchman Nee. Nee To-sheng, mais conhecido no ocidente como Watchman Nee, nasceu em 4 de novembro de 1903 em Fuchou, capital da província de Fukien, na costa do Mar da China, sendo seus pais os piedosos cristãos Nee Weng-hsiu e Lin Huo-ping. Iniciou seus estudos de ensinamentos por volta de 1916 na Escola da Missão Anglicana. Em seus primeiros anos era indiferente a todo o relacionado com o aspecto religioso e o espiritual, mas a influência de sua mãe foi fundamental para que aos dezoito anos sua consagração e entrega ao Senhor Jesus Cristo fosse definitiva e total.
Uma das pessoas que mais usou o Senhor para ajudar ao crescimento e amadurecimento espiritual de To-sheng foi sem dúvida Margareth Barber, uma missionária independente que no princípio havia ido à China enviada por uma missão ocidental. Com ela recebeu as primeiras instruções bíblicas e se fez batizar na água. Via na senhorita Barber à instrutora bíblica, a mulher do testemunho, a ajuda oportuna em seus momentos críticos; ela lhe emprestava os livros que necessitava e despertou nele o hábito pela leitura que o acompanhou até sua morte, fazendo dele um grande erudito. Em uma ocasião ele necessitava ler algo sobre o tema da cruz; ela lhe disse que tinham dois, mas que no momento era preferível que não os lesse, que esperasse ter o suficiente amadurecimento. Então Nee escreveu diretamente à autora, a irmã Jessie Penn-Lewis, que lhe respondeu enviando de presente os dois livros, A Palabra da Cruz e A Cruz do Calvário e sua Mensagem.
Na formação espiritual de Nee To-sheng influiu muito a leitura sobre a vida de Jeanne da Motte Guyon, mística francesa mais conhecida como Madame Guyon, da linha da vida interior, vendo como a vida desta mulher de Deus se relacionou com a incapacidade física, a invalidez, a dor, o sofrimento, a humilhação. Mas viu que ela teve vitória sobre a tribulação e isso contribuiu pra que acrescentasse sua santidade e sua vida fragrante diante de Deus e para benção da Igreja. O Senhor lhe deu capacidade para que ela desprezasse sua aflição, e recebeu do Pai o poder e o fortalecimento de seu homem interior para chegar a ser profundamente submissa e para seu triunfo frente ao sofrimento, o qual foi transformando seu caráter. O conhecimento sobre esta vida, e a de outros místicos como o Irmão Lawrence, deixaria uma impressão indelével em Nee, comovendo-o profundamente em ver que Madame Guyon viveu em una época em que a varíola se converteu em uma enfermidade terrivelmente agônica e dolorosa. Mas o amor e a fé no Senhor, sua incondicional submissão, a capacitaram para triunfar sobre um indescritível sofrimento. Ela mesma conta em sua autobiografia que a varíola era tão terrível e dolorosa, que lhe havia afetado tanto um de seus olhos, que temia perdê-lo, porque a glândula do olho estava malograda; além disso, entre o nariz e esse olho costumava sair uma pústula que tinha que extrair, e devido a isto sua cabeça se inflamava tanto que não podia nem sequer suportar a almofada. Mas tudo isto o suportava com alegria e amor porque sua alma tinha um grande apetite pela cruz, para estar unida a Cristo também mediante o sofrimento.
Nee começou a pregar e compartilhar a mensagem do evangelho com um grupo de amigos em sua cidade, Fuchou, e povos vizinhos, e em 1922, um domingo pela tarde, reunidos em um salão grande na casa de um amigo do grupo, e junto com sua mãe, pela primeira vez, como igreja em sua localidade, recordaram ao Senhor no partir do pão, sem que necessariamente participasse algum ministro denominacional, nem estivessem vinculados a denominação alguma. Em seu propósito de dedicar-se só ao serviço do Senhor dependendo unicamente Dele para viver, chegou a ler os relatos e testemunhos da fé de Hudson Taylor, assim como os de George Müller e seu orfanato, como o temos mencionado, relacionado com os irmãos. Nee recebeu todo esse acervo de restaurações a partir da Reforma protestante: O restaurado através de Lutero, de Calvino, de Wesley, dos Morávios, dos irmãos da vida interior, de John Nelson Darby, de C. H MacKintosh e sua obra tipológica Notas sobre o Pentateuco, por um lado, e Andrew Murray, Jessie Penn-Lewis y T. Austin-Sparks, por outro; mas Deus usou a Nee para enfatizar a centralidade de Cristo, a vida no Espírito, a comunhão do Corpo de Cristo, a vida no Espírito, como o havia feito antes dele T. Austin-Sparsk, e restaurar o reconhecimento da vigência do apostolado, e a visão da Igreja em seu aspecto local. Também foi Nee herdeiro do grande depósito deixado por homens espirituais do tipo de William Law, Andrés Murray, F. B. Meyer, Carlos G. Finney, Evan Roberts, Otto Stockmayer. A Nee se considera como um dos principais servos de Deus à vanguarda da restauração da Igreja no século XX.
O testemunho do Espírito Santo, a própria experiência de vida espiritual, o sofrimento, a fonte da Palavra de Deus (leia o Novo Testamento pelo menos uma vez ao mês), o testemunho das divisões denominacionais e a leitura de autores como Govett, Panton, Pember e Lang, foram criando em Nee verdadeira uma consciência da necessidade de um retorno aos princípios neotestamentários relacionados com a unidade orgânica dos crentes. creu fielmente o Senhor, como quando disse: " Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra;21 a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste " (Jo 17:20-21). Também a senhorita Barber, que apoiava Panton, lhe recomendou várias publicações, entre elas as do pregador inglês Teodoro Austin-Sparks, e a quem conheceu e com quem estabeleceu profunda amizade em sua segunda viagem a Europa, na ocasião em que visitou a Convenção de Keewick, na Inglaterra, e a outros irmãos na Dinamarca e outros países europeus.
Seu contato com outros irmãos em Londres o estabeleceu a raiz de que escreveu à casa editorial de vários livros, conhecidos através da irmã Barber, e como conseqüência pode intercambiar correspondência com Jorge Ware, do grupo conhecido como os "darbinianos", ou irmãos exclusivistas. Em dezembro de 1930, conheceu a Carlos R. Barlow, associado com o movimento dos Irmãos em Londres, que chegou a Shanghai por motivos de seu trabalho. Em 1932 receberam a visita de oito dos irmãos que chegaram representando as igrejas da Grã Bretanha, Estados Unidos e Austrália, estreitando os laços e a comunhão espiritual do Corpo, e identificando suas respectivas igrejas locais com as da China, e regressaram com tão boa impressão, que em 1933 Nee foi convidado a visitar a Grã Bretanha e Estados Unidos. Em sua viagem a Inglaterra, Nee não somente contatou aos irmãos da linha de Darby, senão também a Teodoro Austin-Sparks, o qual não foi muito bem visto pelos primeiros; por tanto lhe deu ocasião a futuros intercâmbios epistolares, onde se pode perceber a visão inclusivista do Corpo de Cristo, que foi restaurada em Watchman Nee. No movimento liderado por Watchman Nee se sintetizou o positivo de muitos movimentos espirituais da Igreja cristã.
Ao receber a clara e bíblica revelação da expressão da unidade do Corpo de Cristo em cada localidade, Nee começou a horrorizar-se de ver essa variedade de nomes denominacionais relacionados com os metodistas, menonitas, luteranos, batistas, anglicanos e muito mais, com suas conotações ritualistas, nacionais, pessoais, doutrinais, limitando-se ele mesmo a mover-se em tudo o relacionado com a Igreja e os cristãos, conforme aos parâmetros bíblicos. Ao regressar do Ocidente se deu à tarefa de examinar novamente o Novo Testamento, confirmando que uma cidade ou povo, ou localidade, devia ter uma só igreja, e somente uma, encaminhando seu trabalho nesse sentido. À medida que cada igreja ou unidade autônoma por localidade crescia, nomeavam anciãos conforme o modelo do Novo Testamento, que se encarregavam de guiar e apascentar aos irmãos em seu terreno, dependendo somente de Deus. Durante a perseguição contra a Igreja, por parte do governo comunista chinês, este último, ante a ausência da denominação por parte das igrejas locais chinesas, denominou aos irmãos A Manada Pequena, baseando-se em um versículo impresso em seus hinários, apelativo que de nenhuma maneira adotaram os irmãos à maneira de uma denominação. Além do anterior lhes foi revelado o relativo à obra apostólica e sua relação às igrejas locais, e se foi formando uma equipe de obreiros ou apóstolos, encarregados de evangelizar, estabelecer igrejas e edificar aos santos. A obra apostólica é regional, pois os apóstolos vão estabelecendo uma só igreja bíblica em cada cidade de sua região; não filiais de denominação alguma. Em 1938 havia mais de 30 igrejas locais na China sem contar com as do estrangeiro, e a equipe da obra se compunha de uns 128 apóstolos, muitos dos quais haviam começado a sair como obreiros ao estrangeiro. Em 1931 já haviam saído a países como Filipinas, Singapura, Malásia, Indonésia, e Hong Kong, lugares que eventualmente chegou a visitar Nee To-sheng.
O 1º de outubro de 1949, em Pequim foi proclamada a República Popular Chinesa, do regime comunista ateu, com Mao Tse-tung como presidente e Chou En-lai como primeiro ministro. Watchman Nee e Witness Lee foram pela última vez em Hong Kong em junho de 1950. Nee não escutou o conselho de Lee de que não voltasse a visitar a Shanghai, ato que poderia significar seu fim. Nee considerava um dever dele o estar a frente da obra, vendo a situação em Shanghai como a de Jerusalém nos tempos da perseguição da igreja primitiva, quando os apóstolos permaneceram ali. Em 30 de novembro de 1951, no periódico Vento Celestial, agora infiltrado e oficializado pelo governo, apareceu um artigo onde um membro da igreja de Nanking, já reculturizado pelo sistema, acusa a Nee To-sheng em torno a suas atividades nas 470 igrejas locais em todo o país, e isto foi o aumento das dores. Foi preso em Manchúria em 10 de abril de 1952, acusado dos cinco crimes especificados na campanha contra a corrupção no comércio, apelidado de "tigre capitalista", sabotador, subversivo e uma lista interminável de outros cargos fictícios, fazendo crer aos irmãos que na China havia liberdade religiosa e que a Nee não se lhe acusava por atividades religiosas senão políticas; lhe foram confiscados seus bens, inclusive sua Bíblia, e incomunicado. Mais tarde as prisões e torturas aos irmãos se efetuaram em massa, e muitos foram re-educados. Em 21 de junho de 1956, Nee To-sheng foi sentenciado pela Suprema Corte de Shanghai a quinze anos de prisão, onde realmente esteve vinte anos preso, e finalmente morreu em um campo de concentração, mantendo a fé. Mas na China comunista persiste a igreja subterrânea; ali o Senhor segue sustentando seus pequenos rebanhos. Hoje se calcula uns setenta milhões de cristãos na China que se reúnem na clandestinidade conforme o modelo bíblico.
Se conhecem no Ocidente muitos livros de Watchman Nee. O Editorial Living Stream Ministry têm publicado suas obras completas em sessenta volumes. Antes deles, Christian Followship Publisher publicou muitas de suas obras em inglês, desde onde se têm traduzido a muitos idiomas. Entre elas são famosas no espanhol as seguintes: "Vem, Senhor Jesus" (escrito em sua juventude), O Homem Espiritual (a pesar de haver sido escrito antes de cumprir os trinta anos, esta obra foi produzida como fruto do sofrimento e obediência de um homem totalmente entregue ao serviço do Senhor e de sua experiência em uma profunda vida espiritual. Ali fala detalhadamente da salvação do crente, espírito, alma e corpo, com uma magistral e minuciosa descrição do funcionamento e composição de cada uma destas partes do homem. Foi terminado em julho de 1928, quando só contava 25 anos de idade), A Vida Cristã Normal, "Sentai, Andai, Estai Firmes", Transformados em Sua Semelhança, A Liberação do Espírito, Conselhos Sobre a Vida Cristã para uma Vida Santa, Não ameis ao mundo, A Igreja Gloriosa, A Igreja Normal, A Fé Cristã Normal, Autoridade Espiritual, Que Farei, Senhor?, Práticas Adicionais sobre a vida da Igreja, Esquadrinhando as Escrituras, Uma Mesa no Deserto, A Ortodoxia da Igreja, O Plano de Deus e os Vencedores, A Cruz na Vida Cristã Normal, O Obreiro Cristão Normal, O Evangelho de Deus, O Poder Latente da Alma, Os Doze Cestos, Os Cantares dos Cantares, A Obra de Deus, e muitíssimos mais. Os demais livros que se conhecem de Nee, traduzidos e publicados nos principais idiomas do mundo, foram as transcrições de sua pregação, ensinamentos e conferências, e os artigos publicados nas revistas Avivamento e O Cristão, que ele eventualmente dirigia.
Em novembro de 1956 apareceu o primeiro livro em inglês de To-sheng que conheceu o mundo ocidental, A Vida Cristã Normal, impresso em Bombay, Índia. É provável que Nee, que jamais saiu do cárcere, morrendo nele aos vinte anos de prisão em 1º junho de 1972, não se inteirou da difusão amplíssima que têm tido seus livros, e da enorme benção que o Senhor está proporcionando à Igreja através deles.

Na América

Sabemos que as nações ibero americanas foram conquistadas e colonizadas por metrópoles européias que não conheceram e menos viveram a reforma protestante, mas trouxeram consigo as idéias da contra-reforma e da inquisição de um catolicismo romano que encheu estas terras de superstição e obscuridade; de maneira que o movimento protestante foi chegando paulatinamente e com dificuldades as nações latino-americanas.
Também temos visto como mais tarde a América emigraram pequenos grupos de todas as vertentes de restauração da Igreja, incluídos dos Morávios, dos pietistas, dos Irmãos de Plymouth e outros. Em todos os países da América existem igrejas fundadas pelos Brethren. Também da China começaram a vir irmãos que haviam servido ao Senhor com o irmão Nee, como Stephen Kaung, que promoveu a tradução do chinês ao inglês das obras de Watchman Nee que se puderam salvar da destruição comunista. O irmão Kaung se radicou primeiro na Pensilvânia, e logo em Richmond, Virgínia, Estados Unidos. Em 1962 veio aos Estados Unidos o irmão Li Shang-chou, melhor conhecido como Witness Lee, que nasceu em Chefú, de pais budistas. Converteu-se ao Senhor em 1925, na idade de vinte anos, sendo batizado por Nee To-sheng no Mar Amarilho, chegando a ser ancião na igreja de sua localidade e integrante da equipe de obreiros que liderava Nee. Enérgico e autoritário foi muito usado pelo Senhor em Nanking e Shanghai, reorganizando as igrejas depois da guerra com o Japão, as quais haviam sofrido dispersões, mas que sobreviveram por sua característica de reunir-se pelas casas. A raiz do triunfo e do avanço comunista na China, Nee lhe indica que se traslade com sua família a Taiwan (China Nacionalista), a ilha governada pelo general Chiang Kai-shek, que não foi tomada pelo comunismo, onde se dedicou a organizar e dirigir uma próspera obra do Senhor. Nos Estados Unidos, Lee começou seu trabalho ao lado de Stephen Kaung; mais tarde se trasladou a Los Angeles, Califórnia, e por último se radicou em Anaheim, Califórnia, onde com sua equipe de colaboradores estabeleceu uma imprensa, a Living Stream Ministry, onde se têm publicado as obras de Nee, de Lee, as que têm sido traduzidas a vários idiomas.
Por outra parte, assim o Senhor levantou nos Estados Unidos homens de Deus como Charles Simpson, Dom Basham, Derek Prince, Bob Mumford e outros, que foram regando a semente do avivamento carismático na restauração da casa de Deus.
Para Argentina emigrou o apóstolo inglês Geofredo Rawling, contribuindo à difusão das obras de Nee, o qual influenciou no movimento de Renovação na Argentina e a vida no espírito, no qual também participaram como protagonistas os irmãos Miller, Jack Schisler, Keith Benson, Orwille Swindoll, Iván Baker, John Carlos Ortiz (o autor de Discípulo), Jorge Himitian, Ángel Negro, Augusto Ericson; a influência de todos estes chegou ao Paraguai através de Pedro Wareishuck, com quem se iniciou Gino Iafrancesco, que logo trabalharia no Paraguai, Brasil e Colômbia, principalmente. Esse avivamento argentino e outras correntes foram fluindo através de todo o território da América Latina.
No Brasil chegaram irmãos com visão de igreja desde os Estados Unidos e China: os apóstolos John Walker, por um lado, e Dong Yu Lang, por outro, respectivamente. Igualmente surgiram apóstolos autóctones, como Aniceto Mario Franco, Jair Faria dos Santos, Adonias de Rondônia, Gerson C. Lima, Délcio Meireles, Silvio Maria e outros. Todos estes apóstolos fundaram diversos grupos de igrejas locais ou de cada cidade.
No Paraguai o movimento das igrejas locais começou com Gino Iafrancesco, Eleno Frutos e Mario Bogado. Depois deles chegam ao Paraguai alguns apóstolos de Taiwan, como Hou Yen Ping (que começou a obra entre os imigrantes chineses), e Lee Tau Thuin (quem a consolidou).
Em nossa querida pátria Colômbia também se têm trabalhado na restauração da visão de Igreja do Senhor. A Respeito dos evangélicos na Colômbia, a historiadora Juana Bucana escreveu um importante livro; mas em relação com a visão da igreja têm trabalhado até a data Gino Iafrancesco (que têm tido relação com os obreiros de Argentina, Paraguai, Brasil, Colômbia e Holanda; também recebeu a destra de companheirismo de Witness Lee e é autor de numerosos livros e conferências), Edward Stanford (associado a Dong Yu Lang), Alexandre Pacheco (da equipe apostólica de Gino Iafrancesco) e outros.
Recentemente temos tido contato e comunhão com um grupo de obreiros do Chile: Eliseo Apablaza F., Rodrigo Abarca, Roberto Sáez, Gonzalo Sepúlveda H.. Pedro Alarcón P., Roberto Chacón, Marcelo Díaz, entre outros, que lideram um importante avivamento de restauração nesse país.
Com a morte de Witness Lee, em 3 de Junho de 1997, alguns que lhe seguiam, ao parecer não entenderem-lhe suficientemente, deram a impressão de deslizarem-se se inclinando aos sabelianistas e exclusivistas. Por outra parte, 24 obreiros de USA, Brasil e Taiwan que lhe seguiam, começaram a ensinar que em Witness Lee ficava definitivamente fechada a interpretação do Novo Testamento. O qual não compartilham que sustentemos um ponto de vista trinitário, por um lado; e por outro, a abertura vigente ao Espírito Santo para maior iluminação até a vinda do Senhor, sem substituir a autoridade do Novo Testamento, por de alguma interpretação, evitando ao mesmo tempo que o testemunho do Corpo de Cristo se converta em alguma seita de tipo ministerialista. Com isto se reconhece e continua o precedente cristocêntrico, bíblico e inclusivista que Wachtman Nee e outros deram acerca do Corpo de Cristo.






APÊNDICE DE FILADÉLFIA

ALGUNS TESTEMUNHOS DOS IRMÃOS
(Citados por Watchman Nee em A Ortodoxia da Igreja)


"Um irmão me disse que é obvio nas Escrituras que os crentes reunidos juntos como discípulos de Cristo, eram livres para partir o pão juntos como o Senhor nos encomendou; e que, até onde a prática dos apóstolos pode ser um guia, cada domingo deve ser separado para recordar a morte do Senhor e obedecer ao que Ele exigiu ao partir".
"Caminhando em certa ocasião com um irmão, a medida que descíamos pela rua Lower Pembroke, me disse: ‘Não tenho dúvida de que este é o propósito de Deus com relação a nós, devemos estar juntos com toda simplicidade como discípulos, não servindo em qualquer púlpito ou ministério, senão confiando que o Senhor nos edificará juntos ministrando, uma vez que Ele se agradou de nós e nos viu com bons olhos’. No momento em que ele falou estas palavras, fiquei convencido de que minha alma recebeu o entendimento correto, e que recordo aquele momento como se fosse ontem, e posso descrever o lugar. Foi o dia da grande revelação de minha vida, permitam-me falar assim, como um irmão". (J. G. Bellet)

"Em primeiro lugar, não é uma união formal dos grupos publicamente conhecidos, que é desejável; realmente é surpreendente que ponderados protestantes possam desejá-la: longe de estar fazendo o bem, creio que seria impossível que tal corpo fosse pelo menos reconhecido como a Igreja de Deus. Seria uma cópia de unidade da Católica Romana; perderíamos a vida da Igreja e o poder da palavra, e a unidade da vida espiritual seria totalmente eliminada... A verdadeira unidade é a do Espírito, e deve ser trabalhada pelo obrar do Espírito... Nenhuma reunião que não conceba incluir a todos os filhos de Deus na base completa do reino do Filho alcança encontrar a plenitude da benção, porque não a contempla, porque sua fé não a inclui... onde dois ou três estão reunidos em Seu nome, Seu nome é recordado ali para benção...
"Além disso, a unidade é a glória da Igreja; mas a unidade para assegurar e promover nossos próprios interesses não é a unidade da Igreja, senão uma confederação e negação da natureza e esperança da Igreja. A unidade própria da Igreja, é a unidade do Espírito, e só pode estar nas coisas próprias do Espírito, e por tanto só pode ser aperfeiçoada nas pessoas espirituais...
" Mas o que deve fazer o povo do Senhor? Deve esperar no Senhor, e esperar de acordo com o ensinamento de Seu Espírito, e em conformidade à imagem, pela vida do Espírito, de Seu Filho. Deve seguir seu caminho pelas pisadas do rebanho, se quiserem saber onde o bom Pastor alimenta Seu rebanho ao meio dia".
"Porque nossa mesa é a mesa do Senhor, não a nossa, recebemos a todos os que Deus recebe, a todos os pobres pecadores escapando para o Senhor como refugio, não descansando em si mesmos, senão somente em Cristo". (John Nelson Darby em A Natureza e a Unidade da Igreja de Cristo.)

" Em 1825, Em Dublin, capital da Irlanda, houve muitos crentes cujo coração foi movido por Deus para amar todos os filhos do Senhor, não importando em qual denominação estivessem. Este tipo de amor não foi frustrado pelo muro da denominação. Eles começaram a ver que a Palavra de Deus diz que há apenas um Corpo de Cristo, não obstante em quantas seitas os homens possam dividi-lo. Eles continuaram lendo as Escrituras e viram que o sistema de um homem administrando a igreja e de um homem pregando não é bíblico. Então eles começaram a reunir-se cada domingo para partir o pão e orar. O ano de 1825 foi – após mais de mil anos de igreja católica romana e varias centenas de anos de igrejas protestantes – a primeira vez em que houve um retorno à adoração simples, livre e espiritual conforme as Escrituras. No início eram duas pessoas mais tarde, quatro ou cinco.
Esses crentes, aos olhos do mundo, eram inferiores e desconhecidos. Mas eles tinham o Senhor no meio deles e a consolação do Espírito Santo. Eles permaneceram sobre a base de duas claras verdades: primeiramente, que a igreja é o Corpo de Cristo e que este Corpo é apenas um; em segundo lugar, no Novo Testamento não havia sistema clerical. Portanto, todos os ministros da Palavra estabelecidos pelos homens não são bíblicos. Eles acreditavam que todos os verdadeiros crentes são membros deste único Corpo. Recebiam calorosamente todos os que vinham para o seu meio, não importando a que denominação pertencessem. Não tinham preconceito contra qualquer seita. Eles criam que todos verdadeiros crentes têm a função de sacerdote; portanto todos podem entrar livremente no santo dos santos. Eles também acreditavam que o Senhor Ascenso concedera diversos dons à igreja para aperfeiçoamento dos santos, para a edificação do Corpo de Cristo. Portanto, eles foram capazes de renunciar aos dois pecados do sistema clerical – oferecer sacrifícios e pregar a Palavra. Estes princípios capacitaram-nos a dar boas-vindas a todos os que estão em Cristo como seus irmãos e a estarem abertos a todos os ministros da Palavra ordenados pelo Espírito Santo para servir.".(Watchman Nee, em A Ortodoxia da Igreja, capítulo 7, A Igreja em Filadélfia).

CAPÍTULO VII
LAODICÉIA


SINOPSE DE LAODICÉIA

O juízo do povo e a Filadélfia degradada

Da hierocracia de Tiatira e Sardes surge a teocracia de Filadélfia, mas degenera em democracia em Laodicéia - Laodicéia é uma Filadélfia degradada - Do fervor espiritual à mornidão.

A conotação da teologia da prosperidade

A igreja proclama que é rica, mas essa riqueza não é de Deus - Diz Deus que essa igreja é uma desventurada, miserável, pobre, cega e nua - O movimento chamado Verdade Necessitada – O Senhor castiga aos que ama - Tem que pagar um preço.

O Senhor fora da igreja

O Senhor tem falado à Igreja - A igreja não deixa entrar o Senhor - Ele chama aos vencedores, ao que queira abrir-lhe a porta- Ele vomitará de Sua boca a igreja morna – Jesus Cristo agora trabalha com os vencedores - Poucos querem comprar o ouro refinado de Deus.

Os vencedores de Laodicéia

Sétima recompensa: Se sentarão com Cristo em seu trono glorioso - É o maior galardão oferecido aos vencedores de todas as épocas, prometido pelo Senhor Jesus, o primeiro vencedor.


A CARTA À LAODICÉIA


"14 Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus:15 Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente!16 Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca;17 pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.18 Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.19 Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te.20 Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.21 Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono.22 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. " (Ap. 3:14-22).

O juízo do povo

Laodicéia estava localizada ao sul da Frigia (Ásia Menor), edificada ao redor do ano 250 a. C. por Antíoco II (261-246 a. de C.), rei sírio da descendência de Seleuco, chamada assim em honra de sua mulher, Laodios, que mais tarde ficou tão agradecida que o envenenou. Essa localidade era um centro comercial, profissional e financeiro, e não é coincidência que a cidade fosse conhecida pela manufatura de telas de lã negra. Também em seu entorno cultural era sede de uma famosa escola de medicina, e se especula que elaboravam um pó que servia para curar os olhos. Alguns exegetas supõe que a igreja nessa localidade foi fundada por Epáfras, dado o contexto de Colossenses 4:12-13. Ao ser ocupada pelos romanos, chegou a ser sede do procônsul romano. Laodicéia foi destruída totalmente no ano 1042, por Temur, o famoso guerreiro asiático, restando dela só um montão de ruínas dos templos, os teatros e outros edifícios.
Para muitas pessoas tem sido muito difícil, para não dizer impossível, explicar a profecia do Senhor nesta carta à Laodicéia. Para a grande maioria dos exegetas, Laodicéia representa a caótica situação da Igreja em geral, tal como o observamos tempos contemporâneos; mas ainda vemos algo disso, é mais que isso. A par com essas considerações, e para não confundir Sardes com Laodicéia, se deve ter em conta que o Senhor fala de encontrar em Sua vinda a condição das igrejas de Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia; por tanto estas quatro condições estarão presentes ao regresso de Cristo. Assim que, mesmo que Laodicéia reflita a condição degradada dos cristãos contemporâneos, entretanto, posto que Sardes e Laodicéia são diferentes, Deus quer nos revelar algo mais. Laodicéia não é o mesmo que Sardes. Laodicéia é a degradação de Filadélfia. Assim como Sardes (o protestantismo) sai de Tiatira (catolicismo romano), e Filadélfia (os irmãos) de Sardes, assim também Laodicéia (os leigos) se desprende de Filadélfia, nasce dela, pelas razões que iremos esboçando na continuação. Laodicéia não deve confundir-se. Como o resto das localidades, Laodicéia também tem um nome simbólico. Etimologicamente a palavra Laodicéia sai da combinação de duas palavras gregas: "Laos", que significa povo, gente, laico, leigo, e "dikecis", que significa opinião, costume, juízo; de onde se tem que Laodicéia quer dizer, a opinião ou costume do povo ou laicado. Outros tem dito que significa o juízo das nações, direito das gentes. Em Tiatira e Sardes se pode falar de hierocracia, em Filadélfia de teocracia e em Laodicéia de democracia. (Hierocracia, governo de sacerdotes; teocracia, governo de Deus; democracia, governo das gentes).

Esta carta simboliza a etapa histórica da igreja desde a última parte do século dezenove até o regresso do Senhor e é caracterizada pela degradação que começaram a experimentar os irmãos na condição de Filadélfia em sua vida e expressão de igreja. As assembléias dos Irmãos começaram a ruir menos de um século depois de iniciar o Senhor a restauração da Igreja nos albores do século XIX. Então a condição de Laodicéia é a parte da igreja restaurada que se degradou depois, mas que difere da igreja reformada, pelo que não se deve confundir a Laodicéia com Sardes. A igreja degradada seguirá existindo até o eventual regresso do Senhor. Que não se mantenha firme e fiel na condição de Filadélfia, guardando a palavra de Deus e o nome do Senhor, muda, se degrada e passa a ser parte de Laodicéia.


Filadélfia degradada

" 14 Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: ".

O Senhor não recrimina Filadélfia em absolutamente nada, pelo contrário, tem frases de elogio para ela, mas toda a carta a Laodicéia se pode tomar como uma advertência aos irmãos filadélfos. Nesta carta tudo são reprovações. É uma forma caída de Filadélfia, porque em Filadélfia se manifesta a vida de Deus unindo aos irmãos no amor ágape, mas se Filadélfia falha e não se mantém firme em sua posição, então ocorre uma dramática mudança, mas não para regressar a Sardes, e sim que ao decair, se converte em Laodicéia; ou seja, que os que caem de Filadélfia formam a Laodicéia. Caso se tenha perdido o amor entre os irmãos, o que segue é que cada qual quer que se imponha sua opinião; então se começa a usar outra linguagem, não a do amor fraternal vivo senão o dos direitos mortos das pessoas. Quando é o amor de Deus o que prevalece na igreja, fica excluído e sobrando tudo o que se relaciona com as opiniões e reclamações das pessoas.
Roma gera ao protestantismo, este forma à igreja restaurada, os irmãos, e dos irmãos (adelfos) se constituem os leigos (laos), sem que nenhuma destas posições da Igreja desapareça até a vinda do Senhor. Filadélfia teve sua consolidação no começo do século XIX com as assembléias dos Irmãos em Inglaterra, e seu testemunho do Senhor era muito brilhante, plenos de amor pelo Senhor; mas cinqüenta anos depois em muitas das assim chamadas assembléias dos irmãos, esse amor começou a se degradar; todo esse testemunho, essa vida e essa luz continuou perdendo seu brilho no orgulho e a egolatria. O orgulho e a egolatria são desbastadores na Igreja. Hoje existem as assembléias dos irmãos em muitos países, mas na maioria delas não está Filadélfia. Essa é a conseqüência da degradação da Igreja.
Seria um erro reduzir Laodicéia ao protestantismo, não; recorde-se que o protestantismo é Sardes. Dentro dos planos do Senhor para restaurar a Sua Igreja, promove a Sardes como um avanço de Tiatira; logo se executa outro avanço com Filadélfia, mas com Laodicéia ocorre um retrocesso. Em quanto à autoridade, é inegável que em Tiatira se caracterizam pelo absolutismo cesaropapista, em Sardes se substitui a legitimidade espiritual pelas meras formas sacramentalistas e tradicionais, pois o Senhor lhe diz que tem nome de que vive e está morto; Filadélfia, por sua parte, se aferra ao Senhor, a Sua Palavra e á comunhão legítima do Corpo de Cristo. Mas Laodicéia, em troca, se desliza aos interesses pessoais e às decisões meramente democráticas, mas sem teocracia.
A cada uma das igrejas o Senhor se apresenta com umas credenciais diferentes de acordo com as características de cada uma, fazendo referencia ao que Ele é e ao que Ele faz. Fazendo uma recapitulação das mesmas, temos que a Éfeso, que havia deixado apagar o calor do primeiro amor, o Senhor se apresenta como o que tem as sete estrelas em Sua destra. A Esmirna, a fim de animá-la a ser fiel em meio da perseguição, o Senhor se apresenta como o vencedor da morte. A Pérgamo, que se casa com o mundo, que tolerava a idolatria, a heresia e a imoralidade, o Senhor se apresenta como o que tem a espada aguda de dois gumes, para cortar essa união e toda essa maldade. A Tiatira, que permitia os ensinamentos de Jezabel e das profundezas de Satanás, se apresenta como o Filho de Deus que tem Seus olhos como chama de fogo, para levá-la a juízo. A Sardes, que tem nome de que vive, mas que está morta, apresenta-se como o que tem os sete espíritos de Deus, para dar vida aos mortos. A Filadélfia, diante da qual têm posto uma porta aberta, se lhe apresenta como o que tem a chave de Davi; e a Laodicéia, a igreja morna, a que se ufana de que é rica e que não necessita de nada mais, se apresenta como o Amém, a testemunha fiel e verdadeiro, o princípio da criação de Deus, em quem a igreja encontra todos os tesouros da fé, da graça e da vida espiritual.
Aqui o Senhor é o Amém, o firme, o fiel, o veraz. Por quê? Porque, mesmo sem que se mencionem heresias nem imoralidades, havia um culto à personalidade, um orgulho farisaico e envaidecimento espiritual enlaçado com marcado materialismo, indiferença, confiança em sua justiça pessoal, e coisas assim, que provoca as náuseas no Senhor, em uma época quando as mesmas igrejas não parecem contar para nada com o Senhor. Vivemos em uma época em que para muitos crentes, a prosperidade econômica e o desfrute de muitas comodidades materiais, são sinônimos de bênçãos de Deus. Da a impressão de que a igreja de Laodicéia duvida das promessas divinas e vai se esfriando. Mas, o que diz a Palavra de Deus?
" 19 Porque o Filho de Deus, Cristo Jesus, que foi, por nosso intermédio, anunciado entre vós, isto é, por mim, e Silvano, e Timóteo, não foi sim e não; mas sempre nele houve o sim.20 Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus, por nosso intermédio. " (2 Co. 1:19,20).
Amém significa firme, inamovível ou confiável. Tudo isso é o Senhor, e assim se apresenta a uma igreja que não se manteve firme Nele, senão que se degradou. É grave que depois de haver tido luz, a recusa. Quando o Senhor lhe diz que Ele é a testemunha fiel e verdadeira, indica que a igreja na condição de Laodicéia não é confiável, senão titubeante, instável, não se mantém firme; o Senhor não pode esperar dela que mantenha o testemunho do Senhor fiel e verdadeiro. Com as palavras o princípio da criação de Deus, o Senhor dá a entender que Ele é a origem de toda a criação, fonte e princípio imutável das revelações divinas, da salvação, da obra de Deus, da edificação da Igreja, por tanto sem Cristo essa obra deixa de ser de Deus. Isso nos indica que Laodicéia tem abandonado a correta e verdadeira linha de Deus, a que vem tendo desde o princípio. Pode nos parecer difícil diferenciar externamente a Filadélfia de Laodicéia; porque na realidade Laodicéia é uma Filadélfia orgulhosa, altiva, sem amor, jactanciosa de riquezas, em uma palavra, degradada espiritualmente. Não podemos jactar-nos de nada porque qualquer coisa que tenhamos, seja na ordem material ou espiritual, tudo o temos recebido. E se ainda temos algo na carne, não nos devemos gabar, porque tudo o que forma a carne é esterco diante de Deus e de Seus propósitos.

A igreja Morna

"15 Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente!16 Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; ".

Ao que tenha a frieza da morte, Deus quer dar-lhe vida, mas ao morno, o Senhor prefere vomitá-lo de sua boca, o qual implica ser recusado por Ele. Os alimentos mornos não são agradáveis, e se pode ser ou um pecador sincero ou um cristão hipócrita. O que é mais agradável? A mornidão significa que não há uma decisão entre o Senhor e o mundo. O morno é um abandeirado da justiça própria. Recorde-se que quem nos justifica é Deus. A justiça própria e o legalismo vem das mãos humanas. Se há descuido no fervor da vida espiritual abundante, as obras têm o selo da aparência exterior e do orgulho, em uma aparência de não estar no mundo, mas olhando sempre o mundo, e isso não agrada ao Senhor. Caso se caia no terreno da religiosidade, tenha-se em conta que isto é um engano de Satanás. A religiosidade se alimenta da mornidão e do legalismo. Ninguém pode contar com um amigo morno em seus afetos. Disse Olabarrieta:
"Efetivamente a característica dominante da fé hoje no mundo é sua mornidão. Não estão contra a Bíblia, nem contra Cristo nem seus apóstolos, nem contra o mundo, nem contra os criminais, nem contra a madre superiora, Tem que ir de braço com todos: Inclusive a crença é de que existe um Deus bom misericordioso que salvará a todo o mundo, posto que todas as religiões são boas e todos os caminhos marcados por elas servem. O que é vergonhosamente um insulto à justiça de Deus e ao único caminho da Salvação pela graça, fundamentada exclusivamente na morte de Jesus, o Filho de Deus, único substituto válido para resgatar-nos na justiça perfeita de Deus!" (Santos Olabarrieta.op. cit., pág. 38).


A desventura da jactância

" 17 pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. "

A auto-suficiência havia cegado a Laodicéia, enredada pelo orgulho espiritual. Porque Filadélfia é rica, mas não se gaba, e ao gabar-se se converte em Laodicéia. De que se gaba Laodicéia? De ser rica no vão conhecimento doutrinal, preferencialmente; não necessariamente de riquezas materiais, ainda que também nestes tempos finais muitos se gabem da prosperidade meramente material. Os que não necessitam nada espiritualmente, seguro que estão mornos e próximos a morrer. Mas o Senhor lhe diz que não se gabe de saber doutrina, que é ignorante de sua verdadeira situação espiritual, não mirando nas coisas com a autêntica visão senão desde um ponto de vista equivocado. O desventurado é um desgraçado, porque pode sentir-se muito ditoso com a atual situação, mas Deus o vê desventurado desde o ponto de vista da eternidade. À Laodicéia lhe falta sinceridade com o Senhor. O rico se sentia muito feliz com seus cotidianos banquetes, mas por dentro a realidade era outra; interiormente Deus via no rico piores chagas que as que sofria Lázaro fisicamente em seu corpo. O Senhor visa o miserável que somos, ou dignos de misericórdia, ainda que pretendamos aparentar outra coisa, porque o desamparo e a malícia do coração não se podem esconder de Deus. As assembléias professantes se consideram a si mesmas ricas de muitas coisas, mas a realidade, como a vê Deus, é que estão pobres de Cristo.
Nessas condições, o Senhor qualifica a igreja em Laodicéia como pobre, submersa na escuridão. É verdade que há organizações religiosas que se gabam de possuírem esplêndidos templos e instalações, apoteóticos rituais, alta cultura e tradições cristãs, inúmeros recursos materiais, grande prestígio ante os olhos do mundo, uma extraordinária organização e hierarquia, e sentir-se muito ricos, coisas que para o Senhor não interessam quando não se tem posto em um nível muito por debaixo dos verdadeiros e bíblicos propósitos de Deus e se hajam ajustado à Sua economia; mas aqui não só se refere à Palavra a essa classe de riquezas. Porque devemos ter em conta que, por exemplo, às vezes parece que no protestantismo há maior jactância pelas riquezas materiais, mas muito pouco pelas riquezas espirituais. As riquezas deste mundo sobram na obra de Deus. O verdadeiramente importante é fazer a obra de Deus em amor, com os recursos que Deus nos dá em Cristo, para a construção de um templo que não é deste mundo, porque Deus não habita em templos feitos por mãos humanas.
Laodicéia diz que é rica, e em sua degradação se jacta dessa riqueza, e se plena de orgulho; mas o Senhor não valoriza como riqueza o que Laodicéia considera como tal; ela é pobre; o Senhor disse que é pobre. Por que o Senhor diz a Laodicéia que ela é pobre? Porque experimentalmente desconhece as riquezas de Cristo. Agora necessita comprar ouro refinado para enriquecer-se, porque está longe da realidade espiritual da eterna economia do Senhor. Pode-se ter muito ouro e prata, mas carecer dos tesouros derivados do Cabeça da Igreja, Jesus Cristo. Estando na condição de Filadélfia não aprenderam a serem humildes diante do Senhor, e caíram no orgulho de Laodicéia. Da condição de Filadélfia à Laodicéia há tão somente um passo. Se verdadeiramente és rico nas riquezas celestiais, nem sequer te dê por informado; todavia que siga havendo sede em teu coração pelas coisas de Deus. "Se alguém tem sede, venha a mim e beba" (Jo. 7:37b). É perigoso sentir-nos já satisfeitos, já sem a necessária sede pelas coisas de Deus, para que o Senhor não nos veja como uns miseráveis e orgulhosos. Houve observadores que estimaram que muitos dos irmãos na China eram culpáveis de orgulho espiritual. Inclusive se deram casos de grupos que se separaram das igrejas para formar corpos "purificados" e exclusivos.
Como o temos comentado no capítulo anterior, em um amplo setor de Filadélfia, mesmo nos albores, muitos irmãos se inclinaram pela exclusividade e começaram a estreitar-se, a fechar-se, assunto que se havia iniciado com Darby, Kelly, Raven, Grant e outros pioneiros. Em 1876 surgiu um movimento similar chamado Verdade Necessitada, o qual, com o hipotético respaldo de várias passagens das Escrituras, fazia uma curiosa classificação do povo de Deus e sua recepção, pois faziam uma diferenciação na igreja, por um lado, definindo-a como o corpo de Cristo, composta de todos os crentes, e por outro lado a Igreja de Deus, à qual relacionavam com a comunhão (Atos 2:42), com a casa de Deus, com a assembléia de Deus vivente, a qual, segundo eles, estava constituída somente pelos crentes localizados na confederação da Verdade Necessitada. Estes círculos fechados constituem por si barreiras para a unidade e a liberdade de Espírito.
Aliás, o Senhor diz a Laodicéia que está cega, mas esta cegueira é pior que outras porque é uma igreja que não quer ver sua própria condição, e havendo perdido a percepção espiritual, é incapaz de ver o que é realmente de Deus. A tragédia de Laodicéia não só é que não tenha a visão, senão que pensa ter quando realmente não a têm, e o pior é que se gaba de que ainda a têm. Se tu lhe dizes que está cega, te apelidam de estúpido. Laodicéia continua aferrada em seu ambiente religioso, e tem descido dos lugares celestiais, porque o orgulho não eleva senão que abate, faz cair; é por isso que o Senhor, aos vencedores de Laodicéia promete que se sentarão com Ele em Seu trono. Que triste é haver chegado a ter a visão e perdê-la e ficar cego; o importante é poder dizer: Antes era cego e agora vejo. Não importa que me expulsem de meu círculo religioso. Agora tenho a visão de Deus em Cristo. Mas a visão requer de um sacrifício; mas isso é para os vencedores. Quem não vê, está impossibilitado para trabalhar na edificação da casa de Deus. A visão não se estanca, é viva e contínua, progressiva e renovada; é o trabalho do Senhor em ti e contigo.
Aqui o Senhor não está se referindo aos "ministros" cegos pela perspectiva de ganância e proveito material no campo religioso, nem aos pregadores assalariados seguidores do caminho de Balaão, que não havendo escutado a voz de Deus, tampouco entendeu a visão, não obstante que o Senhor lhe abriu os olhos quando um pouco antes havia aberto o de seu asno. Pregadores deste tipo não visam à glória de Deus senão suas próprias considerações e de que maneira são afetados seus próprios interesses, comodidade e prestígio. Tampouco está se referindo o Senhor aqui à cegueira produzida pelo zelo religioso, de ser fiel ao estabelecido pelo homem e não segundo Deus; esse zelo é desorientador e cria um véu que nos impede ver a autêntica visão de Deus em Seu Espírito e em Sua Palavra. Tu tens a Palavra de Deus frente a teus olhos, a estas lendo e não vês o que Deus está te dizendo. Se teus olhos espirituais estão cegos, não poderás ser usado para abrir os olhos a outros, para que se convertam das trevas à luz de Deus. Só em Cristo há luz, porque Ele é a luz; em tuas próprias considerações há cegueira.
Por último, o Senhor diz a Laodicéia que está nua. Esta igreja degradada se orgulha de estar muito bem vestida, mas é uma falsa e hipócrita vestidura farisaica. Ao não viver por Cristo, sua cegueira lhe impede ver que está nua. Aos nossos primeiros pais não lhes serviram as vestiduras que eles mesmos se haviam proporcionado; o Senhor os via nus, e Ele mesmo se encarregou de cobri-los. Já temos dito que a segunda vestidura em nosso diário andar é que levemos nossa própria vida à cruz, à morte, e vivamos a Cristo como nossa justiça subjetiva. "As ações justas dos santos" (Ap. 19:8b) são as que se realizam em nosso andar em Cristo, porque Ele é nossa justiça. O vestido para cobrir a nudez é a verdadeira justiça. Nem todos os irmãos participarão das bodas do Cordeiro, senão só aqueles vencedores com essa vestidura que reflete a classe de vida que viveram neste corpo, suas obras justas.

Ouro refinado no fogo

" 18 Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas. ".

A compra deste ouro refinado não é uma coisa fácil, pois para comprar se requer pagar um preço, e, aliás, não se trata do ouro corrente; este ouro refinado se refere em primeiro lugar à natureza de Deus, tipificada na arca do tabernáculo, a qual foi coberta de ouro puro por dentro e por fora, somente se pode ter entrando ao Lugar Santíssimo por meio de Cristo, na comunhão íntima com Cristo, com Sua cruz, com Seus sofrimentos, com Sua humildade e simplicidade, pagar o preço nas provas de fogo, integrados na construção de Sua obra, da Nova Jerusalém, e assim experimentar as riquezas de Cristo. Quando as virgens insensatas foram ressuscitadas, já não tiveram a oportunidade de pagar o preço; o tempo havia passado. Nesse tempo só se poderá pagar o preço nas trevas exteriores. Também o ouro refinado se compara com a fé, por meio da qual participamos da natureza de Deus. À igreja degradada não basta o conhecimento e a doutrina de Cristo, nem da Bíblia, nem das diferentes correntes teológicas; é necessário que pague um preço pelo ouro, pelas vestiduras brancas e pelo colírio. É fácil saber como aprender, mas é difícil saber como comprar. Muitas vezes se recebem graus por terminar estudos de conhecimentos, mas sem experimentar a cruz.
Só pela fé participamos da natureza divina, ambas tipificadas pelo ouro. Em sua primeira carta, Pedro diz: " para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo; " (1 Pe. 1:7). Logo em sua segunda epístola segue dizendo:
" Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo,. pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo,5 por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento;6 com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade;7 com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor " (2 Pe. 1:1,4-7).
Aqui vemos que não é suficiente a riqueza na doutrina. A igreja deixou o amor fraternal, se degradou pelo orgulho do conhecimento doutrinal, mas sem fé isto é inútil para participar da natureza divina de Cristo. Não se trata de que estejas rico em conhecimentos, nem de que atues somente com base nessas riquezas, " Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor. " (Gl. 5:6). O preço que tem que pagar pode incluir o desprender-se das coisas mais amadas por nós, inclusive nossas próprias vidas. Medita nas palavras de Paulo em Filipenses 3:8. De acordo com o contexto, tudo o que Paulo havia considerado muito valioso para ele, ao final, para ganhar a excelência do Senhor em sua vida, tudo isso o chegou a considerar comida de cachorro. Pagando com tudo o que temos, ainda assim o preço é muito baixo comparado com o precioso tesouro do Senhor.
O Senhor recomenda a Laodicéia a comprar Dele vestiduras brancas para cobrir-se, e isto tem que ver com a conduta ou as obras aprovadas pelo Senhor, quando o Senhor mesmo vive na Igreja. Quando tu és filho de Deus pela fé em Cristo Jesus, és revestido de Cristo, mas é necessário que essa fé e esse revestimento se traduzam em tua conduta, a vida de Cristo em ti, que se realizem as boas obras preparadas de antemão por Deus (cfr. Gálatas 3:26,27; Efésios 2:10), que realizes as obras com um motivo puro. A mesma experiência te ensinará que quando creste fostes revestido de Cristo, Sua justiça te cobriu objetivamente; mas em teu andar com Ele de pronto sentes que estás nu, que Cristo não é ainda uma vivencia subjetiva em ti; então necessitas cobrir-te de outro tipo de vestiduras, por meio dos quais tu possas experimentar a Cristo, expressa-lo por meio de teu ser, e para isso deves pagar um preço.
Também, recomenda à igreja degradada que ponha em seus olhos colírio para que veja, mas somente o Espírito Santo pode ungir; então este colírio é a revelação do Espírito Santo, para que a igreja não se baseie só no conhecimentos doutrinal. Muitos destes conhecimentos impedem de se perceber a adequada e necessária revelação do Espírito de Deus, e a igreja entra em uma etapa de cegueira. "20 E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento 27 Quanto a vós outros, a unção que dele recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permanecei nele, como também ela vos ensinou. " (1 Jo 2:20,27). O colírio é o Espírito da unção. O elemento sobrenatural da vida cristã é ter visão espiritual; perdê-la significa cegueira, incerteza, derrota. A vida do crente não depende das prescrições e os legalismos de seu sistema religioso. A vida espiritual normal é sempre, deve ser sempre, sobrenatural; mas é quando o crente tem recebido visão espiritual. Se não há visão espiritual, ou caso tenha se perdido essa visão, não há sobrenaturalidade, só há religiosidade. Se o crente chega a receber visão sobrenatural e depois a perde, chega à condição de Laodicéia. Por exemplo, uma pessoa pode ser muito zelosa de suas tradições religiosas, mas esse "zelo" pelas coisas de Deus o mantém preso na cegueira. Só quando Deus o ilumina espiritualmente, é como poder inteirar-se de sua própria cegueira. É o caso de Saulo de Tarso. Era tanta sua cegueira e seu zelo por sua religião judia e suas instituições ancestrais, que havia crido ser seu dever fazer muitas coisas contra o nome de Jesus de Nazaré. O crente com visão espiritual vive em lugares celestiais, que é a esfera sobrenatural da Igreja com Cristo, e o que perde essa visão sobrenatural, desce à terra, ao puramente religioso, e em sua cegueira enterra seu talento.
Não agrada ao Senhor que o louvem ou o sirvam levados pelas exigências legalistas dos religiosos. As "missas" perdem todo significado quando há visão espiritual. Tudo começa quando o Pai revela a Seu Filho em ti, e isso sucede quando o Pai abre teus olhos espirituais para que vejas a glória do Senhor, e em teu legítimo andar com Cristo sejam inúteis todas as fabricadas "leis" cristãs, encaminhadas a um aparente e artificial andar piedoso, externo, vazio e até hipócrita, porque as aparências costumam ser enganosas. Devemos pedir ao Senhor que Ele nos revele. A respeito há três citações bíblicas, entre outras, que me chamam muito a atenção. Lemos em Efésios 1:17-18:
" 17 para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele,18 iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos ".
A que nos tem chamado o Senhor? A sermos conformados à imagem de Seu Filho. Romanos 8:29 diz: " Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. ". Não podemos ser conformados à imagem do Filho de Deus sem antes conhecê-lo, sem ter uma visão completa Dele. Necessitamos que o Pai nos dê espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento Dele; que haja visão em nossos olhos espirituais.
Também lemos 2 Coríntios 3:18: " E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito ". É necessário que se realize em nós uma metamorfoses, até que o Senhor Jesus se reproduza em nosso interior por Seu Espírito, em Seu caráter, Sua personalidade, Sua perfeita humanidade, até que Ele possa manifestar-se através de nós.

O Senhor castiga aos que ama

" Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te ".
O senhor diz aqui que também ama a Laodicéia, porque ainda que mornos, ali há filhos de Deus; e é por isso que a repreende e a corrige, requerendo-a para que ao invés de morna seja zelosa, fervorosa, que não siga ufanando-se de seu morto e vão conhecimento, que pague o preço do arrependimento de seu estado de mornidão, comprando o ouro da fé provada no fogo, a que obtém a plena aplicação da graça de Cristo, para que volte a desfrutar da realidade do Senhor com sua vestidura branca e o colírio da unção espiritual. É isto um preço barato? As provas de fogo são um preço alto sobre tudo quando nosso coração está cheio de soberba. A disciplina do Senhor enquanto vivemos nesta terra pode ser em que nos sobrevenha enfermidade, debilidades, tribulações e até mesmo morte prematura. " 30 Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem.31 Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados.32 Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo. " (1 Co.11: 30-32). O Senhor sempre exerce a disciplina por amor, mas quase sempre o arrogante e orgulhoso não está disposto a receber a repreensão do Senhor. O arrependimento não é uma comédia superficial com o que muitos se enganam e tratam de enganar aos demais. É uma realidade na que, em um confissionário católico romano, com freqüência, ambos protagonistas, tanto o sacerdote como o penitente, sabem que ali pode haver de tudo menos arrependimento. Os que na realidade se arrependem nesse sistema, são apelidados de loucos e maníacos. Quando uma pessoa se arrepende, muda de vida, e deve tomar sua cruz cada dia para poder seguir ao Senhor. A pessoa não somente deve se arrepender a nível individual, a igreja corporativamente também deve arrepender-se. O Senhor da certo tempo para que nos arrependamos, como no caso de Jezabel de Tiatira " Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição.
22 Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita. " (Ap. 2: 21-22). A igreja degradada não deve seguir orgulhosa de seu conhecimento morto e vazio. Ver também Hebreus 12:3-11.

O Senhor esta às portas

" Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo. ".

Neste período da Igreja, a vinda do Senhor já está próxima, esta às portas; mas Laodicéia tem se degradado tanto que, sua Cabeça, o Senhor Jesus, ao que aparentemente serve, está á porta, por fora da igreja, chamando ao que queira abrir-lhe e escutar-lhe, obedecer-lhe. Ele está chamando objetivamente a toda a igreja, mas já Ele sabe que a igreja em Laodicéia inchada em seus conhecimentos e em seu orgulho, mas sem a presença do Senhor, não lhe vai a abrir; então o chamamento será aceito subjetivamente por alguns crentes, membros individuais que querem abrir-lhe as portas de seu coração e intimamente cear com o Senhor, e nos quais o Senhor transforma as verdades objetivas em experiências subjetivas. Uma coisa é alimentar-se de doutrinas mortas e muito conhecimento, e outra é comer e alimentar-se do Senhor como a árvore da vida no jardim (Éfeso), como o maná escondido e da boa terra. O crente passa por três etapas: Egito, o deserto e Canaã, e em cada etapa tem de comer cada vez algo mais de Cristo: o Cordeiro, o maná e o fruto da terra. O comer contigo significa que o Senhor quer entabuar uma relação de especial amizade contigo, uma relação de íntimo trato. A esta igreja lhe promete cear com ele quem lhe abrisse a porta, o qual não se refere simplesmente a comer algo, senão que vai mais adiante, a participação ampla das abundâncias de um grande banquete. O Senhor quer comer com o que lhe obedeça. Ainda que em Laodicéia haja reprovações, entretanto, o Senhor é tenro: " Eu repreendo e disciplino a quantos amo ",e " Eis que estou à porta e bato ".
Note que chega a época em que Cristo fica excluído como Senhor e Salvador de um setor da Igreja; por fora da porta de Sua própria Igreja. O grosso da igreja degradada permanece em um estado de religiosidade sem Cristo, portando lâmpadas sem azeite, seus membros são mornos, auto-suficientes, vaidosos nas suas posições, tratando de cobrir sua nudez e sua vergonha com o vestido dos que vendem o azeite, fazendo suas próprias obras, e não necessariamente as do Senhor. Na igreja não é o mundo o que está à porta, senão Cristo. Por dentro da estrutura eclesiástica, quando Cristo está excluído, por muita aparência de normalidade que possa haver, não há convicção de pecado, só há uma roupa de religiosidade e de mornidão. Quando a estrutura religiosa de Jerusalém lhe recusa, o Senhor não fica em Jerusalém, sai do sistema religioso imperante e se vai para Betânia, a casa de aflição, mas também a casa do banquete. Este versículo, sacando-lo de seu contexto, tem sido usado para evangelizar aos pecadores, mas aqui o Senhor o está dizendo é para a Igreja. Um incrédulo, morto em seus delitos e pecados, não tem a capacidade nem a luz suficiente para abrir a porta de seu coração a Cristo. É Deus por meio de Seu Santo Espírito quem abre o coração, os olhos e os ouvidos das pessoas; é o Pai quem traz a gente à Cristo. Lemos em Atos 16:14:
" Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia ".


Os vencedores de Laodicéia

" Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono.22 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. ".

Analisando as promessas aos vencedores das sete igrejas, esta é a máxima, a mais nobre e gloriosa de todas, sentar-se com o Senhor em Seu trono. Por que precisamente a esta igreja? Em primeiro lugar tenhamos em conta que a idade da igreja e da graça já vai terminar, e todo vencedor está na expectativa da pronta vinda do Senhor, que vem a sentar-se em Seu trono. O sentar-se com o Senhor em Seu trono é o melhor dos prêmios prometidos, porque os que o receberem tem de participar da autoridade do Senhor, em sua qualidade de reis, governando com Ele sobre toda a terra durante o reino milenar de Cristo. Aqui o que vence o faz sobre a mornidão da igreja degradada, gerada pelo orgulho do conhecimento de muita doutrina, mas sem o Senhor. Aqui o vencedor é o que paga o preço para comprar o ouro refinado nas provas de fogo, as vestiduras brancas de seu andar em Cristo e o colírio da unção e a luz do Espírito Santo. O vencedor de Laodicéia é aquele crente que ante a estrepitosa caída da igreja desde a esfera celestial, não perde sua posição sobrenatural, porque não perde a visão espiritual que o resto da igreja, em sua cegueira, tem perdido. Como em Laodicéia impera uma espécie de anarquia; cada um quer guiar-se por sua própria opinião; ninguém quer se sujeitar a nada e menos ao Senhor, por isso o Senhor oferece ao vencedor de toda essa situação, sentar-se com Ele no Seu trono.
O vencedor é aquele crente que vive uma vida de ressurreição. Se quisermos viver uma vida de ressurreição, é necessário que passemos primeiro por um processo de morte de nossa velha natureza. Há um véu que não nos deixa ver esta vida de ressurreição; há um véu que impede que vejamos a glória que o Senhor quer que vejamos; esse véu é a incredulidade, é a vida de nosso próprio eu. O terreno da igreja é o terreno da ressurreição, os lugares celestiais com Cristo, mas só um remanescente da Igreja o tem alcançado. A grande massa não quer abrir a porta ao Senhor.

No curso destes sete capítulos temos desmembrado em seus aspectos histórico e profético as sete cartas enviadas às igrejas em localidades da Ásia Proconsular do primeiro século de nossa era, que representam profeticamente os sete períodos da Igreja do Senhor em seu desenvolvimento histórico, com sua simbologia implícita de sete diferentes classes de igrejas, de acordo com o respectivo período histórico, assim temos: a igreja primitiva, a sofredora, a mundana, a apóstata, a reformada, a restaurada, e a degradada. Já temos visto como Éfeso continuou em Esmirna, e esta se converteu em Pérgamo, a qual a sua vez veio a ser Tiatira; ou seja, que finalmente essas quatro igrejas vieram a converter-se na igreja apóstata, o sistema católico romano. A partir dessa condição surge uma reação de restauração com a igreja reformada, o qual resultou imperfeito, pois a restauração completa da vida apropriada da igreja se realiza com Filadélfia. Finalmente Filadélfia sofreu uma degradação com Laodicéia.
Atualmente na terra convivem até a vinda do Senhor estas quatro condições da igreja: A igreja católico romana (Tiatira ou igreja apóstata), a igreja protestante (Sardes ou igreja reformada), Filadélfia ou igreja restaurada, e Laodicéia ou igreja degradada, mas só a igreja restaurada satisfaz o propósito eterno e a economia de Deus para Sua Casa. Então surge uma importante inquietude para ti: deves eleger a igreja na que deves apropriadamente andar com o Senhor.

Primeiro. Preferes seguir sendo católico romano, tendo como cabeça visível ao sumo pontífice da religião babilônica, debaixo das rédeas de uma elite clerical autoritária e mundana? Escolhes a uma religião sincretista, que pratica a idolatria e é continuadora dos mistérios pagãos babilônicos, que aparenta ser fiel ao Senhor, mas que na prática é considerada a grande prostituta pela Palavra de Deus? E deste sistema se conhece muito de suas intimidades e infidelidades, para que continuemos crendo em suas mentiras.

Segundo. Queres continuar no protestantismo com suas incontáveis denominações, com suas organizações com nomes de que vivem, mas que na realidade estão mortas? É verdade que o Senhor tem abençoado muito em seu aspecto global este movimento, mas não são poucas as coisas que o Senhor condena e repreende, tem chegado a hora de que se efetue um giro face a restauração das coisas nos propósitos do Senhor.

Terceiro. Ou te decides a servir ao Senhor na apropriada vida da Igreja, do amor fraternal, Filadélfia, a que guarda a Palavra de Deus, a que não nega o nome do Senhor, na legítima comunhão, autoridade e vida do Corpo de Cristo em cada localidade?É necessário que permaneçamos fiéis ao Senhor na única igreja que é perfeitamente fiel. Filadélfia é o caminho direito e apropriado da Igreja de Jesus Cristo.

Quarto. Por último, começas a sentir-te orgulhoso diante de Deus, te gabas de teus muitos conhecimentos doutrinais, apartando-te da prática da vida do Espírito e cais na condição de Laodicéia, das democráticas opiniões e direitos das pessoas? Sentes-te orgulhoso de tua posição e te gabas diante dos católicos, protestantes, denominações e seitas? O Senhor vomitará de sua boca aos orgulhosos, jactanciosos e arrogantes de Laodicéia.


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