quarta-feira, 13 de outubro de 2010

PECADO VERSUS GRAÇA.




“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.” Romanos 5:12 e 3:23.



O que é o pecado? Alguns dizem que é orgulho. Outros afirmam que é rebeldia. Há também os que sustentam ser autonomia. Na verdade o pecado foi uma atitude teomaníaca de Adão que originou a sua separação de Deus, bem como de toda a sua descendência. No pecado a criatura fica apartada da comunhão com o seu Criador. O ser humano se torna morto, isto é, separado espiritualmente de Deus.

O pecado é uma oposição da criatura ao governo do Criador. O homem criado à imagem e semelhança de Deus não aceita a idéia de não ser como Deus. Essa é a base de toda a rebeldia egoísta do pecado. Somos uma raça contaminada pelo egoísmo e tentamos viver às nossas próprias custas.

A trama do pecado propõe a auto-coroação do ser humano como se ele fosse o próprio Deus. O que está latente em todo o comportamento pecaminoso é a arrogância autônoma de quem quer se dirigir por conta própria. Sendo assim, podemos dizer que o pecado é uma sugestão de independência, em que a criatura tenta viver com os seus recursos naturais. No fundo dessa obstinação reside um sentimento de soberania.

O pecado é hereditário e universal. Todos nós nascemos em pecado e ninguém pode dar uma de João-sem-braço achando-se imaculado. Davi percebeu claramente este fato quando disse: Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe. Salmos 51:5. Isso não significa que o seu nascimento tenha sido adulterino, mas que ele foi gerado no âmbito de uma raça perversa e presunçosa. Todos os seres humanos, exceto Jesus, foram concebidos em pecado.

Outrossim, o pecado é sempre uma oposição a Deus. Todo crime é contra a humanidade, mas o pecado é radicalmente contra a Divindade. Apesar de Davi ter cometido dois ou três crimes
no contexto desse salmo, ele diz que o seu pecado era somente contra Deus. Pequei contra ti,
contra ti somente, e fiz o que é mal perante os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar. Salmos 51:4.

A prova de nossa pecaminosidade é a morte. O apóstolo Paulo diz que o único lucro do pecado são os restos mortais. Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. Romanos 6:23.

Todos nós somos pecadores por natureza, não tendo qualquer inclinação natural por Deus. Nenhum pecador busca automaticamente a Deus. Não existe essa disposição espontânea do ser humano procurar o Deus verdadeiro, voluntariamente. Veja como o salmista expõe a tendência humana. Do céu, olha Deus para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus. Salmos 53:2. E Paulo reitera de modo definitivo: não há quem entenda, não há quem busque a Deus; Romanos 3:11.

A proposta do pecado ao ser humano é a sua emancipação de Deus e nunca a sua aproximação dele. Não há interesse instintivo do pecador com relação à intimidade com Deus. Tudo o que o pecador almeja é a sua isenção no que diz respeito à busca pessoal de Deus, pois no íntimo, o pecado propõe que o ser humano seja ele mesmo, o seu deus.

Ora, se ninguém busca a Deus naturalmente, quando resolve buscá-lo, quem o fez buscar? Aqui entra a graça. Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente, Tito 2:11-12.

O pecado nos tornou arrogantes e teimosamente rebelados contra Deus. O Deus
trino não faz parte da nossa agenda repleta de compromissos. Mas a graça vem em Cristo
de um modo polido, e, irresistivelmente nos atrai para o coração do Pai. Somos convidados por
um amor incondicional a participar de um relacionamento sem cobranças.

Todas as religiões do mundo começam com a iniciativa humana de criar um deus à imagem e semelhança da criatura e de fazê-lo digno de veneração. Nessas religiões vemos a criação construindo seus ídolos e altares como um invento de sua imaginação. Porém, no Cristianismo é o Criador quem empreende a busca da criatura. A boa notícia do Evangelho mostra o eterno Caçador farejando e perseguindo a caça que ele ama com amor integral, até alcançá-la. No Evangelho é a graça que procura o desgraçado.

Pecado é tudo o que pretende exaltar a criatura em lugar do Criador. O sentimento que nos enaltece é ameaçador. A carência de elogio ou a cata de um tamanco que nos eleve é muito arriscada, pois podemos torcer o pé. O pecado gosta do culto à personalidade. A graça é a contratura do Criador para obter a cria na dimensão da criatura. Na graça, o Deus absoluto não temeu se reduzir até ao diâmetro de servo com bacia nas mãos e cruz nas costas, pois, antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, Filipenses 2:7.

Se o pecado pode ser definido como a arrogância da teomania humana, a graça pode ser descrita como Deus na estatura de um homem se revelando totalmente favorável àquele que é o mais detestável dos rebeldes. O caráter da graça é a indignidade do indigente. Quanto mais descrédito perante a lei, mais crédito diante da graça. O Evangelho é a boa nova para os canalhas e o habeas-corpus a todos os sentenciados ao inferno.

Alguém disse que graça é mais do que favor a quem não merece, é favor cabal àquele que tem completo demérito. A questão não é se a pessoa não tem algum merecimento, mas se ela tem total desmerecimento. A graça só requer integral desonra a fim de poder honrar aquele que é o mais cafajeste dos pecadores. Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça, Romanos 5:20.

Jesus mostrou o estilo magnânimo do reino da graça, quando contou uma parábola de um homem rico que preparou uma grande ceia e convidou muita gente. Todavia os convidados não deram bola para o convite nem fizeram caso da festa. Eles eram muito importantes e tinham negócios vantajosos em vista.

Talvez aqueles convidados tenham rejeitado o ingresso ao banquete da graça, porque eles
eram nobres demais a fim de participar de um festival que não lhes custasse coisa alguma, nem lhes agregasse algum valor especial. A reação daquele senhor perante o promoter é um sintoma do caráter da graça: Voltando o servo, tudo contou ao seu senhor. Então, irado, o dono da casa disse ao seu servo: Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. Lucas 14:21.

A graça não exclui ninguém, todavia tem-se percebido que os ilustres não se sentem à vontade no salão de festas do reino da graça. Aquele chamamento foi ecumênico, mas apenas
os deficientes puderam comemorar o evento. O único bloqueio para a celebração do evento é a justiça própria com seus direitos e privilégios.

Jesus contou uma outra parábola em que um rei comemorava as bodas do seu filho, quando um penetra tentou fazer uma boquinha livre. Naquela época era costume do dono da festa, que fosse rico, dar as vestes festivais para os convidados, a fim de ninguém se sobressair sobre os outros. Contudo, havia alguém naquele banquete destoando. Entrando, porém, o rei para ver os que estavam à mesa, notou ali um homem que não trazia veste nupcial e perguntou-lhe: Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial? E ele emudeceu. Mateus 22:11-12.

O mérito é o nosso maior problema. Nós não gostamos da graça nem aceitamos com facilidade a dependência divina. Viver tão somente pelo consentimento da opinião do céu é uma
dificuldade terrível para os atrevidos da terra. Mas aquele rei não concordou com a permanência daquele abusado que quis ditar as regas da festa com a sua indumentária. Então, ordenou o rei aos serventes: Amarrai-o de pés e mãos e lançai-o para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes. Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos. Mateus 22:13-14.

O traje na Bíblia tipifica a questão da justiça. Aquele intrometido queria ser aceito com a sua justiça e não com a justiça do rei. A graça nunca acolhe quem se traja com a sua justiça, uma vez que os celebrantes da festa do Rei sempre se vestem com as roupas que lhe foram dadas no hall do Palácio. Só a justiça de Cristo pode atender a dignidade do pecador. Assim, ninguém entra no reino de Deus portando sua reputação pessoal.

Um tempo desses, estive numa capital do Nordeste celebrando um casamento. O pai do noivo acabou esquecendo o seu terno na cidade onde mora, bem distante do local da festa, o que causou uma situação embaraçosa. Um dos tios do noivo tinha mais de um terno, que podia emprestá-lo, mas o pai não quis, pois havia alguma diferença na compleição física, e todos nós queremos ficar bem na foto. Ele teve que comprar uma roupa nova, ainda que tivesse um terno de grife, só para ficar confortável na festa.

No reino de Deus nós seremos aceitos somente com a vestimenta de Cristo. Ela é a
única justiça feita sob medida. Nenhuma indumentária pessoal será admitida nesse aprazível ágape da graça absoluta. Nós só participaremos da festa, se Cristo for a nossa identidade. Pois todos vós sois f ilhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes. Gálatas 3:26-27. Quero apenas lembrar aqui, que este batismo não é em águas, mas na identificação com Cristo.

O Pai só nos aceita plenamente na pessoa do seu Filho amado. Sendo assim, não há necessidade de vestuários complementares. O filho pródigo, mendigo maltrapilho, quando foi recebido como fidalgo na casa do seu pai, foi acolhido sob as expensas e os cuidados do tesouro paterno. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; Lucas 15:22.

Graça é a coleção de inverno, o guarda-roupa preparado pelo Pai para os filhos malroupidos. É o Pai condecorando os falidos com a excelência da aristocracia. É o pecador sendo recebido no reino de Deus apenas pela justiça de Cristo.

Autor: Pr Glenio Fonseca Paranaguá

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