sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

INCAPACIDADE E ONIPOTÊNCIA.

Publicado por Felipe Sabino em 4 de fevereiro de 2009 – 16:12
Charles H. Spurgeon
Um dos que estavam ali era paralítico fazia 38 anos. Quando o viu deitado e soube que ele vivia naquele estado durante tanto tempo, Jesus lhe perguntou: “Você quer ser curado?” Disse o paralítico: “Senhor, não tenho ninguém que me ajude a entrar no tanque quando a água é agitada. Enquanto estou tentando entrar, outro chega antes de mim.” Então Jesus lhe disse: “Levante-se! Pegue a sua maca e ande”. Imediatamente o homem ficou curado, pegou a maca e começou a andar (Jo 5.5-9).
Esse homem tinha ficado, junto com muitos outros, ao redor do tanque, na esperança de que as águas fossem agitadas pelo anjo, e que ele mesmo fosse colocado primeiro na água, e assim curado. Ali, aguardou durante muito tempo, e aguardou em vão. Por que ficou aguardando? Porque Jesus não estava ali. Onde Jesus não está, a pessoa precisa ficar aguardando. Caso se trate meramente de um anjo e de um tanque, precisa-se esperar; e pode-se obter uma bênção, e pode-se obter nenhuma. Mas quando Jesus chegou, não havia o caso de ficar aguardando. Entrou andando no meio da multidão de doentes, notou esse homem, mandou-o pegar a sua maca e ir andando para casa, e o homem foi curado de imediato.
Ora, elogio esse homem por ter ficado esperando; admiro-o pela paciência e perseverança; mas peço-lhe que não faça do caso dele o seu. Ele, sim, esperava, porque Jesus não estava presente. Você não precisa esperar, você não deve esperar; pois Jesus está presente. Não havia mais necessidade para o homem ficar espe-rando. Como acabo de dizer a vocês, havia um anjo, e um tanque, e nada mais; mas onde Cristo está, não deve haver mais “lista de espera”. Qualquer alma que crer em Cristo, será salva. Qualquer alma que levantar os olhos, será salva, mesmo que estiver olhando dos confins da terra. Agora, você pode olhar; melhor: você é ordenado a olhar. “Agora é o tempo aceitável; hoje é o dia da salvação”. “Não endureçam os seus corações, como na provação”. Você, ali, naquele banco da igreja, ou no meio daquele corredor, se você voltar, pela fé, o olhar a Jesus, o Ser Vivente no trono do Altíssimo, obterá a cura imediata. Ficar esperando, é aceitável à beira do tanque de Betesda; mas esperar à beira do tanque das ordenanças, como ouvi algumas pessoas dizerem, não é conforme as Escrituras. Não leio ali nada a respeito de ficar esperando; mas certamente leio isto: “Creia no Senhor Jesus Cristo, e será salvo”.
No entanto, para ajudar alguns que ficaram esperando até se cansarem, que perseveraram no uso dos meios até ficarem desanimados e decepcionados, olhemos para esse caso do paralítico de Betesda.
I. Devemos notar a respeito, em primeiro lugar, que o Salvador conhecia o caso.
Só menciono esse fato com o propósito de dizer que o Salvador conhece seu caso. Jesus o viu deitado ali. Havia grande número de pessoas para o olhar do Salvador contemplar; mas fixou esse olhar nesse homem, por longo tempo confinado à cama, paralítico fazia 38 anos. Da mesma forma, Jesus sabe tudo a respeito do seu caso. Ele o vê deitado exatamente onde você está nesta noite, paralítico, sem esperança, sem luz, sem fé. Ele o vê; quero que sinta ser esta a verdade. Ele o distingue no meio dessa multidão, esteja onde estiver, e seu olhar o perscruta da cabeça aos pés; mais que isso: ele olha por dentro e por fora, e lê tudo o que está no seu coração.
A respeito do homem à beira do tanque, Jesus sabia que ele estava naquela situação havia longo tempo. Ele sabe quantos anos você está esperando. Você se lembra de quando era carregado para a casa de Deus por sua mãe. Você tem lembranças de como, menino ainda, voltava para casa e, no seu quartinho, clamava a Deus por misericórdia; mas, depois, esqueceu-se disso. Eram como a neblina da manhã, que desaparece diante do sol que se levanta. Você veio para Londres; cresceu e se tornou homem; passou a ser descuidado no tocante às coisas divinas; sacudiu para longe todas as suas impressões juvenis. Apesar disso, continuava escutando a pregação da Palavra, e muitas vezes você tinha a esperança de receber alguma bênção. Você ouvia a Palavra; mas a fé não a acompanhava, e assim você ficou sem a bênção. Apesar disso, você sempre sentia o desejo de que ela viesse até você. Nunca desprezou as pessoas piedosas, nem o que é de Cristo. Não as conseguia para si mesmo; ou, pelo menos, imaginava não poder; mas sempre tinha o desejo remanescente de ser contado com o povo de Deus. Ora, o Senhor Jesus sabe tudo a respeito disso, e dos muitos anos nos quais você ficou à espera como ouvinte; mas ouvinte apenas, e não praticante da Palavra; às vezes, impressionado, mas violando os ditames da consciência, e voltando para a vida irresponsável. Meu Senhor sabe tudo a seu respeito. Não consigo distingui-lo no meio desta congregação; mas lembre-se de que, enquanto prego nesta noite, milagres serão realizados; processos que transformarão a própria natureza das pessoas estão em andamento neste recinto; pois Cristo está sendo pregado, e seu evangelho é exposto, e isto não é feito em vão, mas com zelosa sinceridade em espírito de oração. Deus abençoará essa obra; ele abençoará alguém nesta noite. Não posso adivinhar quem será esse alguém, nem quantas centenas “desses” haverá; mas Deus abençoará sua Palavra, e por que ele não o iria abençoar? Ele vê exatamente que você é, e onde você está, e o como você está.
Além disso, nosso Senhor sabia tudo a respeito das decepções desse pobre homem. Muitas vezes, depois de ter feito o máximo esforço para ser o primeiro a chegar até a água, e ter pensado que conseguira dar o mergulho feliz, entrava outra pessoa antes dele, e suas esperanças se esvaíram. Essa outra pessoa subia da água, curada; ao passo que ele mesmo, com um suspiro pesado, caía de novo sobre a maca, e imaginava que talvez passasse muito tempo antes de o anjo agitar a água de novo, e que, mesmo assim, talvez se decepcionasse outra vez. Lembrava-se das muitas ocasiões nas quais perdera toda a esperança; e jazia ali quase em desespero total. Estou com a impressão de ouvir alguém aqui nesta noite dizer: “Meu irmão achou o Senhor. Meu amigo, que veio comigo para cá, achou o Senhor. Vivi até ver minha mãe morrer na segura e certa esperança da glória. Tenho amigos que vieram a Cristo, mas ainda vivo sem ele. Quando havia cultos especiais, esperava que fosse abençoado de modo especial. Freqüentei cultos de oração, li minha Bíblia em particular, e às vezes sentia a esperança — não passava de uma esperança bem pequena, mas não deixava de ser esperança — ‘Talvez, em algum dia futuro, eu seja curado’ “. Sim, caro amigo, meu Senhor sabe tudo a respeito disso, e ele sente compaixão por você em toda a mágoa que você sente nesta noite, e escuta os desejos que você nem expressou, e sabe do seu anseio para ser curado.
II. Agora, em segundo lugar, o Salvador despertou os desejos do homem. Disse-lhe: “Você quer ser curado?”. Não vou explicar como é ficar deitado à beira do tanque, mas vou aplicá-lo a você que está aqui em condição semelhante.
Cuidado para não se esquecer por que você está aqui! Cuidado para não chegar à casa de Deus sem saber por que veio. Já mencionei, em anos passados, sua freqüência a lugares de culto na esperança de achar salvação. Pois bem, você continuou vindo, mas não a achou; e agora a está procurando? Você não caiu no hábito de ouvir sermões, orações, e assim por diante, sem sentir que procura algo especial para si mesmo? Você vem e vai, a fim de poder freqüentar um lugar de culto; e é só isso. O Salvador não queria deixar o paralítico ficar deitado ali satisfeito, por estar à beira do tanque. Não, não. Jesus lhe disse: “Por que está aqui? Não tem algum desejo? Não quer ser curado?”. Meu caro ouvinte, eu gostaria que você dissesse “Sim” a essa pergunta. Você veio aqui nesta noite a fim de que seu pecado fosse perdoado, sua alma fosse renovada pela graça divina, e você se encontrasse com Cristo? Se for assim, quero mantê-lo nessa intenção, e não deixar que você venha continuamente e seja como a porta nos seus gonzos, ali fora, que gira para dentro e para fora, e não melhora em nada com isso. Oh, não adote meros hábitos religiosos! Serão para você hábitos ritualistas, por mais singelo que o ritual seja. Você vem e você fica satisfeito. Assim não serve mesmo. Cristo lhe desperte o desejo ao dizer: “Você quer ser curado?”.
Além disso, evite a indiferença desesperadora. Lembro-me de dois irmãos e uma irmã, que escutaram minhas pregações durante o período considerável, e estavam com grande aflição de alma; mas, ao mesmo tempo, mantinham a idéia de não lhes ser possível crer em Cristo, e que devessem esperar — não posso saber o quê; e ficaram esperando até se tornarem bastante velhos. Pessoalmente, não conhecia pessoas melhores, do ponto de vista moral, nem melhores ouvintes, no que dizia respeito ao interesse com o que ouviam; mas nunca pareciam progredir além disso. Acabaram se firmando no seguinte estado: aconteça o que tiver de acontecer: tudo o que podiam fazer era simplesmente manter-se sentados imóveis, quietos e pacientes. Pacientes diante da perspectiva de se perderem para sempre? Ora! Não espero que o homem na cela do corredor da morte fique feliz e contente quando escuta o som da construção do cadafalso! Ele tem de ficar preocupado e desconfortável. Fiz o máximo para deixar meus amigos desassossegados, mas confesso: receio que meus esforços foram acompanhados por resultados bem reduzidos. O Salvador disse ao paralítico: “Você quer ser curado? Você parece estar em tal estado de indiferença que não se preocupa com sua cura ou não”. Não se pode achar condição pior que essa; é tão difícil lidar com ela. Que Deus os salve da indiferença soturna, na qual se dei-xam levar à destruição segundo a determinação de algum destino fatal desco-nhecido!
Peço que se lembrem que depende do seu querer, pois Cristo disse a esse homem: “Você quer ser curado? É impossível curar a si mesmo, mas pode desejar e querer se curado”. O Espírito Santo de Deus tem concedido a muitos de vocês o querer e o realizar segundo a boa vontade de Deus. Vocês nunca serão salvos contra a sua vontade; Deus não pega ninguém pelas orelhas para arrastá-lo para o céu. Deve existir em vocês a mente bem disposta, que consinta com a obra da soberana graça de Deus; e se estiver presente essa disposição, quero que vocês a exercitem nessa noite, como Cristo queria que esse homem a exercitasse: “Você quer ser curado?”. Você tem qualquer vontade nesse sentido, qualquer desejo ou anseio pela cura? Quero atiçar esse fogo, e fazê-lo arder; e se houver uma centelha de vontade, gostaria de soprar nela, e orar para o Espírito Santo soprar sobre ela para a transformar em grande chama. Paulo disse: “Tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo” (Rm 7.18). Acredito que haja alguns aqui que têm vontade de serem salvos; graças a Deus por isso!
“Você quer ser curado?”. Acho que o Salvador postulou essa pergunta por outra razão, a qual transformarei em exortação. Abra mão de toda e qualquer receita imposta quanto à maneira de ser salvo. A pergunta não é: “Você quer ser colocado no tanque?”, mas: “Quer ser curado?”. A pergunta não é: “Quer tomar esse remédio? Quer que eu faça isso ou aquilo com você?”, mas, “Quer ser curado?”. Você chegou ao ponto em que está disposto a ser salvo da maneira determinada por Deus, por Cristo? Alguém diz: “Quero ter um sonho”. Alma querida, não deseje sonho algum; não passam de sonhos. Outro diz: “Quero ver uma visão”. Caro amigo, o plano da salvação não diz nada a respeito de visões. “Quero ouvir uma voz”, diz alguém. Pois bem, escute a minha voz, e que Deus, o Espírito Santo, leve você a ouvir a voz da sua Palavra por meio de mim! “Mas quero” — oh! sim, você quer –, você nem sabe o que quer, como muitas crianças tolas com suas venetas e fantasias, caprichos e vontades. Quem dera que todos se dispusessem a ser salvos mediante o plano singelo de crer e viver! Sendo este o caminho estabelecido por Deus, quem é você para ter um caminho dife-rente? Quando apresentei o caminho da salvação diante de uma amiga, faz algum tempo, ela se voltou para mim e disse: “Oh, senhor, ore mesmo por mim!”. “Não”, respondi, “não orarei por você”. “Mas”, disse ela, “como pode dizer isso?”. Respondi: “Coloquei diante de você Cristo crucificado, e peço que creia nele. Se não quiser crer nele, estará perdida; e não orarei a Deus para preparar algum caminho diferente de salvação para você. Merecerá perder-se se não quiser crer em Cristo”. Coloquei a questão exatamente assim diante dela, e quando disse, em seguida: “Oh, entendo agora! Estou olhando para Cristo, e confiando nele”, falei: “Agora vou orar por você; agora podemos orar juntos, e cantar juntos, se necessário for”. Mas, caros amigos, não estabeleçam seu conceito de como devem ser convertidos: é possível achar duas pessoas que se converteram da mesma forma? Deus não faz convertidos da mesma maneira que os homens fazem penas de aço — uma grosa delas por caixa, todas idênticas. Não, nada disso; em cada caso há a criação de um novo homem vivente, e cada homem, cada animal, é um pouco diferente dos demais da sua espécie; não procurem uniformidade na obra da regeneração. “Você quer ser curado?”. Venha. Você deseja o perdão dos pecados? Anseia por um novo coração e um espírito renovado? Se for assim, largue mão de disputar a maneira de obtê-los, e faça o que Cristo manda fazer.
“Você quer ser curado?”. Era como se o Salvador dissesse: “Agora, seja mais sincero que nunca. Sei que é sua vontade ser curado; pois bem: deseje isso nesta noite mais do que você já o desejou antes”. Ponha em prática a vontade que tem; coloque-a em evidência. Você está sendo sincero no desejo de ser salvo; seja mais sincero nesta noite. Você deseja achar a Cristo; pois bem, deseje achá-lo mais nesta noite do que já desejou em outro momento da sua vida. Você chegou a uma crise importante da sua vida; pode estar à beira da morte: quem sabe? Quantas pessoas foram repentinamente abatidas! Se quiser ser curado, eu desejaria que você fosse curado nesta noite. Oro para que você sinta alguma coisa pressionando-o, algo que o leve a terminar seu longo adiamento, algo que o faça sentir: “Não tenho mais tempo para desperdiçar; não posso correr o risco de me demorar; preciso ser salvo nesta noite; preciso escutar o tique-taque distinto do grande relógio de Deus, que fica no salão da graça, e sempre diz: ‘Agora; agora; agora; agora’; e nunca emite nenhum outro som”. Que Deus faça assim, por sua livre graça!
Foi dessa maneira que o Salvador despertou os desejos do homem à beira do tanque. Primeiro, conhecia-lhe o caso; e, em seguida, despertou seus desejos.
III. Agora, em terceiro lugar, o Salvador ouviu o queixume do homem. Foi assim que o homem falou: “Senhor, não tenho ninguém que me ajude a entrar no tanque quando a água é agitada. Enquanto estou tentando entrar, outro entra antes de mim”.
Algumas dessas pessoas tinham amigos bondosos, que se revezavam na vigi-lância de dia e de noite e, no momento em que a água era agitada, pegavam no paciente e o mergulhavam na água. O homem aqui mencionado já perdera todos os amigos; 38 anos da enfermidade já esgotaram todos eles; e ele disse: “Não tenho ninguém para me colocar no tanque; como poderei entrar na água?”. Assim também existem muitos nessa situação; querem ajuda. Enquanto estava em Menton, tive a alegria de conduzir vários amigos a Cristo. Quando me era necessário deixá-los para voltar a Londres, alguns deles me disseram: “Que podemos fazer sem o senhor? Não teremos mais ninguém para nos conduzir no caminho certo; ninguém para nos instruir, responder nossas objeções, para solucionar nossas dúvidas, ninguém a quem possamos contar as ansiedades do nosso coração”.
Decerto, alguns de vocês falariam da mesma forma, e preciso reconhecer que é grave a falta de alguém para ajudar. Ficar sem ninguém nessas coisas é uma grande perda. Às vezes, se um amigo chegar até você depois do sermão, e simplesmente lhe falar uma palavra gentil, isso lhe fará mais bem do que o próprio sermão. Muitos coitados aflitos, que passaram longo tempo como que presos, poderiam ter sido libertados antes, se tão-somente algum bondoso amigo tivesse feito o irmão lembrar-se de uma promessa divina — a qual, da mesma maneira que uma chave, teria aberto a porta da prisão. Concordo com vocês que é de grande ajuda ter um amigo cristão sincero para levantá-lo acima de uma dificuldade; carregá-lo até a beira da água quando você não pode ir por conta própria, e colocá-lo no tanque. Certamente, é uma grande perda ficar sem semelhante amigo; e sinto muita dó de você. Você mora em uma aldeia onde não há ninguém para lhe falar a respeito das questões espirituais, ou freqüenta um ministério que não o alimenta. Não há ninguém para consolá-lo. Não existem muitas pessoas, afinal, que realmente conseguem ajudar outros homens a vir a Cristo. Alguns que tentam fazê-lo se sentem cultos demais, e outros são demasiadamente duros de coração. Seria necessário treinamento especial na escola da graça se alguém quisesse ter compaixão pelo próximo de tal maneira que possa realmente ajudá-lo. Suponho que alguém aqui diga: “Não tenho mãe com quem conversar; não tenho amigo cristão na família; ninguém a quem possa recorrer pedindo ajuda; por isso encontro-me encalhado onde estou”.
Pois bem, um ajudador é muito valioso; mas quero dizer que um ajudador talvez não seja tão valioso quanto você imagina. Conheci alguns que tinham bastante ajudadores cristãos enquanto buscavam o Senhor; mas nenhum deles era realmente capaz de ajudá-los. Se confiar em ajudadores terrestres, e os considerar essenciais, Deus não abençoará os esforços deles, e não lhe serão de utilidade. Lastimavelmente, muitas pessoas que buscavam a Cristo têm se sentido obrigadas a dizer, até mesmo a cristãos bons e sinceros, o que Jó disse a seus amigos: “Pobres consoladores são vocês todos!” (Jó 16.2). Afinal, como um homem pode ajudá-los muito nos assuntos da alma? Nenhum homem pode lhes dar fé, nem lhes dar perdão; nenhum homem pode lhes dar vida espiritual, sequer iluminação espiritual. Embora não tenha nenhum homem para ajudá-lo, lembre-se que você pode atribuir valor demasiado aos homens, e pode confiar demais nos ajudadores cristãos. Peço-lhe que se lembre disso.
Lastimo dizer que há alguns crentes professos que receberam ajuda demasiada. Ouviram um sermão, e ficaram realmente impressionados por ele, e alguém foi suficientemente tolo para lhes dizer: “Isso é a conversão”. Mas não se tratava de serem convertidos, de modo algum. O amigo disse, ainda: “Agora, venha para a frente, e faça profissão de fé”. E assim, foram adiante, e professaram a fé que nunca tiveram. Em seguida, o amigo disse: “Agora, venha a tal reunião; venha se afiliar à igreja. Venha”; e assim foram conduzidos, e conduzidos, e conduzidos, sem nunca possuir vida interior genuína, nenhuma energia espiritual dada de cima. São exatamente iguais a crianças em andadores, incapazes de andar sozinhas. Deus o preserve da religião que depende de outras pessoas! Existem alguns com uma religião de tipo alpendre, que se apóia em outra pessoa; removido o apoio, o que sobra? Morre a bondosa senhora idosa que o ajudou durante tantos anos; então, onde fica sua religião? Antes, o ministro o conservava em movimento; você era como um pião movido a chicotadas, e ele, o chicote, o mantinha girando; depois de ele ir embora, onde está você? Não tenha uma religião desse tipo, imploro-lhe. Embora o ajudador seja muito útil, lembre-se de que, em certas condições, até mesmo o ajudador cristão pode ser um empecilho.
Agora, meus caros ouvintes, aqui está o assunto ao qual chegamos: vocês precisam lidar com Jesus nesta noite, e para lidar com ele, não precisam de “ninguém”. Não precisam lidar com tanques e anjos; precisam lidar com o próprio Senhor Jesus. Suponhamos que não haja ninguém para ajudá-los, vocês precisam de alguém quando Jesus está aqui? Alguém era necessário para colocá-los no tanque; não é necessário para apresentar vocês a Cristo; vocês podem falar com ele pessoalmente; podem solicitar misericórdia; confessar seu pecado. Vocês não precisam de nenhum sacerdote, de um Mediador entre sua alma e Jesus. Vocês podem chegar a ele onde estão, e como estão. Venham a ele agora; contem-lhe sua situação; pleiteiem com ele, pedindo misericórdia. Ele não precisa da minha ajuda; não precisa da ajuda do arcebispo da Cantuária; não precisa da ajuda de pessoa alguma. Somente ele pode lidar com o caso de vocês. É só colocar seu caso nas mãos dele; e então, se não tiverem ninguém para ser seu ajudador, não precisam deitar-se irritados por isso; pois ele é poderoso para salvar totalmente os que se chegam a Deus por meio dele.
Ora, tudo isso é conversa muito clara; mas, hoje em dia, é de conversa clara que precisamos. Nos domingos, acho que não preguei, se não tiver procurado levar pessoas a Cristo. Existem muitas doutrinas elevadas e sublimes das quais gostaria de falar, e muitas experiências profundas e arrebatadoras que gostaria de descrever, mas minha convicção é que, não raro, preciso deixar essas coisas, e manter-me no que é muito mais corriqueiro, porém, muito mais útil — persuadir aos homens, em nome de Cristo, para que desviem o olhar dos homens, das ordenanças, e deles mesmos, e lidem com o próprio Jesus de modo distinto e direto; pois, então, não haverá necessidade dos homens, e certamente não haverá necessidade de demora.
IV. Este é meu argumento final. O Salvador atendeu inteiramente ao caso do homem.
Esse paralítico não tem ninguém para ajudá-lo; Cristo pode ajudá-lo sem ninguém. Esse homem não pode fazer movimentos senão com grande dor. Teria de engatinhar até a beira da água; mas não tem necessidade de fazê-lo, sequer precisa se movimentar um centímetro. O poder para curar o homem estava em Cristo, presente ali, comissionado por Deus para salvar pecadores, e para ajudar os desamparados. Por favor, lembrem-se: o poder que salva, e todo ele, não está no homem salvo, mas no Cristo salvador. Peço licença para contradizer quem diz que a salvação é uma evolução. Tudo o que evolve o coração pecaminoso do homem é o pecado, e nada mais. A salvação é o dom gratuito de Deus, por meio de Jesus Cristo, e sua obra é sobrenatural, realizada pelo próprio Senhor; e ele tem poder para fazer isso, por mais fraco — pior: por mais morto no pecado, que o pecador esteja. Como filho vivente de Deus, posso dizer nesta noite:
Empenho minha eternidade inteiraNa vida que eu mesmo não vivi,Na morte que eu mesmo não morri.
Você que desejaria ser salvo deve fazer o mesmo: deve olhar totalmente para fora de si, para o que Deus exaltou como Príncipe e Salvador dos filhos dos homens. Cristo atendeu ao caso desse homem, pois era poderoso para fazer a favor dele qualquer coisa que ele precisasse. Ele atende ao seu caso, caro ouvinte, pois pode fazer a favor de você todo o necessário. Entre aqui e a porta do céu, nunca será requerido algo que ele não possa dar, nem será necessária qualquer ajuda que ele não esteja disposto a prestar, pois ele tem todo o poder no céu e na terra.
Além disso, o Senhor pode fazer mais a seu favor do que você pode pedir-lhe. Esse pobre homem nunca pediu nada da parte de Cristo, a não ser por meio do seu olhar, e por jazer ali à beira do tanque. Se nesta noite você se sente sem jeito de orar, se passa por necessidades que não consegue descrever, se há alguma coisa que falta, e você não sabe o que é, Cristo pode suprir. Você reconhecerá o que faltava, logo que você o receber; talvez agora ele, na sua misericórdia, não o deixe saber todas as suas necessidades. Mas a questão aqui é: “é poderoso para fazer muito abundantemente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos”. Que ele faça isso em você nesta noite! Consiga consolo da cura do paralítico, acalente esperança, e diga: “Por que ele não curaria também a mim?”.
Ora, o modo de Cristo operar era muito singular. Operava por meio de ordenar. Não é o método que você e eu teríamos selecionado; nem o meio aprovado de alguns cristãos nominais. Ele disse a esse homem: “Levante-se!”. Ele não podia levantar-se. “Pegue a sua maca”. Não conseguia pegá-la; já passaram 38 anos sem sequer conseguir se levantar da maca. “Pegue a sua maca e ande”. Andar? Não conseguia andar. Já ouvi alguns, que levantam objeções, dizerem: “Aquele pregador diz aos ouvintes: ‘Creiam’. Mas eles não conseguem crer. Manda-lhes: ‘Arrependam-se’. E não conseguem arrepender-se”. Ah! pois bem, nosso Senhor é nosso exemplo; e ele disse ao homem que não podia levantar-se, pegar a maca, e andar: “Levante-se! Pegue a sua maca e ande”. Era assim que exercia seu poder divino; e é assim que Cristo salva as pessoas hoje. Ele nos outorga fé suficiente para dizermos: “Ossos secos, ouçam a palavra do Senhor!” (Ez 37.4). Eles não podem ouvir. “Assim diz o Senhor: Ossos secos, vivam!”. Não podem viver; mas acabam ouvindo, e acabam vivendo; e enquanto agimos pela fé, dando uma ordem que, aparentemente, parece absurda e desarrazoada, a obra de Cristo é realizada por ela. Ele não falou às trevas, na antigüidade: “Haja luz!?”. O Senhor falou essa palavra de poder a quem? Às trevas e ao nada. “E houve luz”. Agora, ele fala ao pecador, e diz: “Creia, e viva”. Este crê, e vive. Deus quer que seus mensageiros com fé para repetir suas ordens, deixem o pecador saber que ele não tem forças para obedecer, que está moralmente perdido e arruinado, mas também para dizer, em nome do Deus eterno: “Assim diz o Senhor: Levante-se! Pegue a sua maca, e ande. Creiam, arrependam-se, e sejam convertidos, e batizados, cada um de vocês, em nome do Senhor Jesus Cristo”. É dessa forma que o poder de Cristo procede até os filhos dos homens. Ele disse ao homem cuja mão estava encolhida: “Estenda a mão”, e ele a estendeu; e diz aos mortos: “Venham para fora”, e eles se apresentam. Suas ordens são reforçadas por capacitações; e onde as ordens são fielmente pregadas, seu poder as acompanha, e pessoas são salvas.
Encerro com a seguinte observação. Na obediência, o poder foi concedido. O homem não parou para discutir com Jesus, e dizer: “Levantar-me? O que quer dizer? Você dava a impressão de ser amigo; mas veio para cá a fim de fazer-me de palhaço? Levantar-me? Estou deitado aqui 38 anos, e você me diz: ‘Levante-se’. Acha que já houve um minuto, nesses 38 anos, em que eu alegremente teria me levantado se pudesse, e, apesar disso, você diz: ‘Levante-se’, e diz: ‘Pegue sua maca. Ombreie a esteira na qual está deitado’. Como eu poderia fazer assim? Há 38 anos que não mais consigo levantar meio quilo, e você me manda colocar nos ombros essa esteira na qual estou deitado. Está querendo passar trote em mim? E andar? Você diz: ‘Ande’. Ande? Escutem-me, vocês, os enfermos a meu redor: Ele me manda andar! Sequer levanto um dedo, mas ele me manda andar!”. Assim poderia ter debatido a questão até o fim, e teria sido um argumento muito lógico, e o Salvador seria culpado de ter falado palavras vãs.
Em vez de o paralítico falar assim, tão logo Cristo lhe disse: “Levante-se!”, ele quis se levantar; e enquanto desejava se levantar, fez o movimento para se levantar, e levantou-se mesmo — e ficou atônito com isso. Colocou-se em pé e, curvando-se para frente, enrolou sua esteira, maravilhando-se o tempo todo, e todas as partes do seu corpo cantando enquanto a enrolava, e a ombreou com alacridade. Para sua maior surpresa, descobriu que as juntas dos pés e pernas podiam se movimentar, saiu andando diretamente, com a esteira nos ombros; e o milagre ficou completo. Pare, homem, pare! Venha para cá! Ora, você tinha forças para fazer isso por conta própria? “Não, eu não. Fiquei deitado ali durante 38 anos; não tinha forças a não ser quando chegou até mim aquela ordem: ‘Levante-se!’ “. “Mas você se levantou mesmo?”. “Oh! sim, você está vendo que o fiz. Coloquei-me em pé; enrolei a esteira; e saí andando”. “Mas você estava sob algum tipo de compulsão que o fazia movimentar pernas e mãos, não é verdade?”. “Oh! não; eu o fiz livremente, com bom ânimo e muita alegria. Compelir-me a fazê-lo? Meu caro, bato minhas mãos de alegria ao pensar que pudesse fazê-lo. Não quero voltar à velha esteira e deitar-me nela de novo; eu não”. “Então, o que você fez?”. “Ora, não entendo o que fiz. Cri nele; e um poder misterioso e estranho veio sobre mim; a história inteira é essa”. “Agora, explique; conte a essas pessoas tudo a respeito”. “Oh! não”, diz o homem, “sei que é assim, mas não posso explicar. Uma coisa sei: antes eu era aleijado, agora consigo andar; era eu paralítico, agora consigo carregar minha maca; antes ficava deitado ali, agora posso ficar totalmente em pé”.
Não posso explicar a salvação para vocês nesta noite, nem como acontece; mas lembro-me de quando estava sentado no banco da igreja, um pecador mais desesperado que já houve. Ouvi o pregador dizer: “Olhe para Cristo, e viva”. Ele parecia me dizer: “Olhe! Olhe! Olhe! Olhe!” e olhei mesmo, e vivi. Naquele momento, o fardo do meu pecado se foi; deixei de estar aleijado pelo pecado; fui para casa como pecador salvo pela graça, para viver louvando o Senhor –
Desde quando vi pela fé o rioAlimentado pelo sangue das suas feridas,O amor redentor tem sido meu tema,E o será até eu morrer.
Sinto a impressão que nesta noite receberei muitíssimas pessoas que simplesmente obedecerão à ordem evangélica “Creia, e viva. Creia no Senhor Jesus Cristo, e você será salvo”. Oh, faça isso! Faça-o agora; e a Deus seja a glória, e a você mesmo a paz e felicidade para sempre! Amém e Amém.
Fonte: Capítulo 17 do excelente livro OS MILAGRES DE JESUS: Mensagens de fé, esperança e salvação, de Charles H. Spurgeon, publicado pela Shedd Publicações

A Deus toda a Honra e Glória.