sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

RECEBIDO NA GLÓRIA.(1tIMÓTEO 3:16).

Nos dias em que nosso Senhor se fez homem vimo-Lo humilhado e muitíssimo oprimido, pois foi “desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer” (Isaías 53:3). Ele, cujo esplendor é como o da alva, diariamente vestia pano de saco: vergonha foi o Seu manto, e acusações as Suas vestes. Agora, no entanto, tendo triunfado sobre todos os poderes das trevas no sangrento madeiro, com os olhos da fé contemplamos o nosso Rei voltando de Edom com vestes coloridas, glorioso em Seu manto de vitória (Isaías 63:1) . Como devia estar glorioso aos olhos dos serafins quando uma nuvem O acolheu da vista dos mortais e Ele ascendeu ao céu! Agora, Ele exibe a glória que tinha com Deus antes mesmo da terra existir, e ainda outra superior a todas as demais - aquela que conquistou na luta contra o pecado, a morte e o inferno. Vitorioso, Ele exibe a coroa de glória. Ouça como a canção se eleva! É uma nova e mais doce canção: “Digno é o Cordeiro que foi morto, pois nos remiu com Seu sangue para Deus”. Ele exibe a glória de um Intercessor que jamais poderá falhar, de um Príncipe que jamais será derrotado, de um Conquistador que venceu todos os adversários, de um Senhor que tem a lealdade do coração em todas as coisas. Jesus exibe toda a glória que o esplendor do céu pode Lhe conferir, que milhares de vezes milhares de anjos podem Lhe prestar. Nem com toda a sua imaginação você pode compreender Sua grandeza inigualável; contudo, haverá ainda outra manifestação dessa glória quando Ele descer do céu em grande poder, junto com todos os santos anjos: “então, se assentará no trono da sua glória” (Mt. 25:31). Oh, o esplendor dessa glória! Ela arrebatará o coração de Seu povo. E nem isto é o fim, pois a eternidade ouvirá o Seu louvor: “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre”. (Hb. 1:8) Leitor, se você alegra na glória de Cristo do porvir, Ele precisa ser glorioso aos seus olhos agora. Ele é?
Por Charles Haddon Spurgeon.
A Deus toda a Glória e Louvor!

A MINHA GRAÇA TE BASTA.(2CORÍNTIOS 12:9)

Se nenhum dos santos de Deus fosse humilhado e sujeito às provações, não conheceríamos tão bem nem metade das consolações da graça divina. Quando encontramos um andarilho que não tem onde reclinar a cabeça, mas que pode dizer: "mesmo assim confiarei", ou quando vemos um pobre necessitado de pão e água que ainda se gloria em Jesus; quando vemos uma viúva enlutada assolada por aflições e ainda tendo fé em Cristo, oh! que honra isto reflete no evangelho. A graça de Deus é exemplificada e engrandecida na pobreza e nas provações dos crentes. Os santos resistem a todo desalento, crendo que todas as coisas cooperam para o seu bem, e que, entre todas as coisas aparentemente ruins afinal florescerá uma verdadeira bênção - que, ou seu Deus operará um rápido livramento, ou, com toda certeza, os sustentará na provação, enquanto assim Lhe aprouver. Esta paciência dos santos prova o poder da graça divina. Há um farol em alto mar: a noite está calma - não posso dizer se sua estrutura é sólida ou não; a tempestade precisa desabar sobre ele, e só assim saberei se continuará em pé. Assim é com a obra do Espírito Santo: se ela não fosse cercada por águas tempestuosas em muitas ocasiões, não saberíamos que é forte e verdadeira; se os ventos não soprassem sobre ela, não saberíamos o quanto é firme e segura. As obras-primas de Deus são aqueles homens que permanecem firmes, inabaláveis, em meio às dificuldades:

"Calmo em meio ao choro transtornado
Confiante na vitória."

Aquele quer quer glorificar seu Deus deve ter em conta o enfrentar muitas provações. Nenhum homem pode ser reconhecido diante do Senhor a menos que suas lutas sejam muitas. Se, então, o teu for um caminho atribulado, regozija-te nele, pois mostrarás o teu melhor diante da toda-suficiente graça de Deus. Quanto a Ele falhar contigo, jamais penses nisto - odeia este pensamento. O Deus que foi suficiente até agora, o será até o fim.
Por Irmão Charles Haddon Spurgeon.
A Deus toda a Glória e Louvor!

DEPENDÊNCIA TOTAL DO SENHOR

“Eles, pois, colhiam o maná cada manhã” (Êxodo 16:21)

Esforça-te em preservar o propósito da tua total dependência do agrado e da vontade do Senhor, para que as tuas mais ricas alegrias permaneçam.

Jamais tentes viver do velho maná, nem procures encontrar auxílio no Egito. Tudo precisa vir de Jesus ou estarás arruinado para sempre. Unções antigas não bastarão para transmitir graça ao teu espírito; tua cabeça necessita do azeite fresco do chifre de ouro do santuário derramado sobre ela ou não terá glória. Hoje podes estar no topo do monte de Deus, mas Ele, que te colocou lá, deve te manter lá, ou descerás muito mais rápido do que imaginas. Tua montanha só permanece firme quando Ele a assenta em seu lugar; se Ele esconder Sua face, logo ficarás abalado. Se o Salvador assim o quisesse, não haveria janela para veres a luz do paraíso, a qual Ele não pode apagar nem por um instante. Josué ordenou ao sol que parasse, mas Jesus pode encerrá-lo em total escuridão. Ele pode retirar a alegria do teu coração, a luz dos teus olhos, e a força da tua vida; as tuas consolações repousam em Suas mãos, e, pela Sua vontade, podem ser afastadas de ti. Esta dependência contínua é determinada pelo Senhor para a sentirmos e reconhecermos, pois Ele só nos concede orar pelo “pão de cada dia”, e promete apenas que “a nossa força será como os nossos dias”. Não é melhor para nós que seja assim, podendo sempre retornar ao Seu trono e ser lembrados constantemente de Seu amor? Oh! Como é rica a graça que nos sustém incessantemente e que não se retém por causa da nossa ingratidão! A chuva de ouro jamais cessará e a nuvem de bênçãos permanecerá para sempre sobre a nossa habitação. Ó, Senhor Jesus, nos curvaremos aos Teus pés, conscientes da nossa total incapacidade para fazer qualquer coisa sem Ti, e, em cada favor que tivermos o privilégio de receber, adoraremos Teu bendito nome e reconheceremos Teu inextinguível amor.
Por Irmão Charles Haddon Spurgeon.
A Deus Toda a Glória e Louvor!

SERMÃO SOBRE JÓ 1:9-12

Mas Satanás respondeu ao Senhor, dizendo: Acaso é por nada que Jó teme a
Deus?Porventura não tens posto uma sebe em volta dele, da sua casa e de tudo o que ele
tem? Tens abençoado o trabalho das suas mãos, e os seus bens multiplicam-se na terra. Mas
estende a mão agora, toca em tudo quanto ele tem, e ele te amaldiçoará no teu rosto! Disse o
Senhor a Satanás: Eis que tudo o que ele tem está ao teu dispor; somente contra ele próprio
não estendas a tua mão. E saiu Satanás de diante do Senhor.
Embora o Diabo aqui esteja fazendo seu mister, que é o de perverter todo o bem,
acusando falsamente a Jó, como se este fosse um hipócrita, sem embargo, ele descobre o mal
que existe voluntariamente nos homens, ao qual somos inclinados por natureza. Pois, como é
astuto e velhaco, sabe bem de que lado nos atacar. Reparemos então que aqui o diabo revela
um vício pelo qual estamos todos manchados até que Deus nos cure dele por sua graça: isto é,
que nos períodos de prosperidade conseguimos bendizer a Deus. Contudo, se esse nos aflige,
mudamos a conversa e então começamos a murmurar contra ele, esquecendo-nos de todo o
louvor que lhe atribuíamos enquanto nos tratava segundo nosso desejo. Desta forma, há
muitos hipócritas que só são conhecidos e descobertos quando Deus os aflige. Porque,
enquanto estão na comodidade e no descanso, não demonstram a rebelião que neles há, ela
fica oculta. Eis por que as Escrituras nos mostram com tanta freqüência que Deus prova os
seus, examinando-os por meio das aflições, colocando-os na fornalha qual ouro, não apenas
para serem purgados, mas também para serem conhecidos (1 Pd 1.7). Pois as aflições têm
duas utilidades: uma delas, mortificar Deus os vícios que existem em nós. Quando ele nos
aflige, somos domados, ele manda que nos retiremos deste mundo e que não sejamos dados às
nossas volúpias e delícias carnais. A outra é que, tal como na fornalha o ouro é provado, para
que se conheça se há escória, assim também Deus revela o que nós somos ao nos atribular.
Porque os homens não conhecem a si próprios antes de serem assim provados. Antes de
havermos passado pela peneira, temos a impressão de que tememos a Deus, de que não há o
que censurar em nós; não obstante, há as imperfeições que nos são desconhecidas. Ele no-las
revela, ele faz com que a sintamos quando envia alguma angústia, algum desgosto, e então
percebemos qual é a nossa fraqueza. Ora, se Deus faz com que as aflições de seus fiéis sirvam
como um espelho no qual esses se contemplam, com mais forte razão mostrará aos outros os
seus, se há nos corações destes fé e obediência, se são hipócritas ou se o servem em verdade.
Isso é o que temos para observar nessa passagem; e, de fato, a experiência no-lo demonstra.
Pois vemos muitos assim, os quais, quando Deus lhes envia tudo que lhes apetece, sua fala é
doce como açúcar, segundo se diz, esse bom Deus será tão louvado por suas maravilhas, sim,
quando encontram seus pratos cheios, nada lhes faltando, Ó, lhes é bastante fácil confessar
* Trecho retirado e traduzido do original francês Sermons sur le Livre de Iob, do mesmo autor, com
consultas à versão inglesa. (N. do T.)
† Um dos principais nomes da Reforma Protestante, João Calvino (1509-1564) nasceu em Noyon
(França). Tendo em comum com o alemão Martinho Lutero o fato de também ter sido seminarista na juventude,
deu prosseguimento à obra desse, ensinando a doutrina e a aplicação da justificação pela fé somente em Cristo,
como revelada nas Escrituras Sagradas, empenhando-se em aplicar o ensino bíblico a todas as áreas da vida; não
obstante, o sistema teológico chamado calvinismo é mais estruturado que o luteranismo. Calvino estabeleceu-se
em Genebra (Suíça), já que na França do rei Francisco I não eram tolerados não-católicos. A igreja que ele
pastoreava ali veio a se tornar um centro da Reforma, a ponto de John Knox dizer que ela foi “a mais perfeita
escola de Cristo desde os dias dos apóstolos”. Os Sermões sobre Jó, os Comentários da Bíblia e as Institutas
constituem o grande monumento do seu pensamento teológico. (N. do T.)
Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)
www.monergismo.com
2
que Deus é bom. Contudo, se ele começa a lhes tratar rudemente e as coisas não vêm do seu
agrado, eles se aborrecem. Se Deus continua a proceder com severidade ainda maior, então
irrompem em murmuração, sim, arrotando blasfêmias contra ele; mesmo que não as
pronunciem pela boca, seu coração está repleto de veneno, de maneira tal que seguram sua
cólera, indignando-se contra Deus por ele não os tratar da forma como querem. Vedes então
como, na época de prosperidade, há muitos que bendizem a Deus, mas isso não é senão
hipocrisia dos que não querem fazer isso, pois são piores que aqueles que se iludem de tal
modo que ignoram seus vícios. Sendo assim, pois, reparemos que Satanás considerou aqui os
males pelos quais os homens estão maculados. Percebemos também com que inimigo temos
que lidar: ele nos espreita e espia de todos os lados para ver onde consegue uma entrada para
nos ferir. Em vista disso, então, atentemos bem que, quando tivermos louvado a Deus e o
tivermos servido no tempo de prosperidade, isso não é tudo: porém, devemos nos preparar
para, quando aprouver a Deus nos atormentar e nos submeter a muitos males e misérias,
apesar disso, açaimarmo-nos, para termos essa humildade de a ele nos subjugarmos, para
sermos pacientes e calmos para receber todas essas correções. Se não chegarmos a tal prova,
quer dizer, se não formos pacientes quando Deus nos afligir, todo o serviço que lhe fizermos
não será grande coisa. É verdade que Deus aceita bem os seus nos tempos de prosperidade;
mas, em qualquer caso, devemos considerar a razão por que nos faz passar por essa peneira de
aflições. Por conseguinte, então, temos que guardar bem essa doutrina aqui. E, de resto,
quando é dito aqui que os homens, estando atribulados por aflições, maldirão a Deus na face,
é verdade que tal não se dá ao primeiro golpe, pois ainda há alguma reverência a Deus
gravada em nós, tal que suportamos algum descontentamento. Bem, nós gemeremos em
segredo, nós ficaremos contrariados e agastados, mas abrir a boca para blasfemar de Deus
ainda nos horroriza. Quando estivermos assim entristecidos e o mal aumentar ou perdurar por
tempo demasiado, então se acende como fogo a nossa impaciência e começamos a vomitar o
que antes estava abrigado em nossos corações. Vedes como, com o tempo, os que são
afligidos maldirão a Deus na face, ou seja, extravasando além da medida, não mais
apreendendo a majestade divina para se humilhar debaixo dela, não sabendo que, se forem
rebeldes, não mais terão essa apreensão de seu juízo que os impediria de ultrapassarem os
limites. Desta sorte, temos bom motivo para orar a Deus, a fim de que faça refrear tanto
nossas línguas quanto os nossos corações e que nunca permita que incorramos nesse excesso
de o maldizer abertamente: mas, em vez disso, que o resultado dos castigos que ele nos envia
seja tão ditoso que se nos torne em proveito e salvação, visto ser esta a sua intenção quando
nos aflige. Eis o que temos que depreender dessa passagem.
Observemos, porém, que Satanás, embora seja o pai da mentira, fala aqui a verdade
quando diz que Deus era como uma muralha para Jó, e que guarnecia sua casa de todos os
lados, e que ele o fazia prosperar. Vedes como ele se transfigura em anjo de luz (2 Co 1.14).
Porque, estando diante de Deus, ele tem que expor as coisas como são, pois não há lugar para
se valer de tais embustes, como usados com os homens para os ludibriar. Desse modo, Satanás
pega princípios que são verdadeiros, só que para os aplicar mal, porque ele nada quer senão a
perdição de Jó. Ora, ele diz que Deus era para esse uma defesa. Saibamos então que, para
sermos sustentados neste mundo, Deus deve colocar nisso a mão: pois o que é a nossa vida, e
a quantas necessidades ela está sujeita? Não podemos então subsistir um minuto se não
formos conservados pela graça divina. De igual maneira, tudo o que possuímos precisamos ter
de Deus, que nos abastece. Com efeito, quem é que fala aqui? Satanás, o mesmo que virá nos
arruinar inteiramente se não estivermos, por assim dizer, bem murados, se Deus não nos servir
de baluarte, como ainda veremos no decorrer do texto. Porque, tão logo Satanás obtém sua
permissão, vemos como ele pilha todos os bens de Jó, e com que impetuosidade ele o faz.
Antes, então, era preciso que Jó estivesse munido da graça de Deus e que ela lhe servisse de
muralha em todo o derredor. Ora, essa doutrina é-nos bem útil, pois somos admoestados
Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)
www.monergismo.com
3
através dessa para orar a Deus para que se compraza em nos guardar, visto que, estando neste
mundo, estamos como que em uma floresta cheia de bandidos. Eis também porque nas
Escrituras estes títulos aqui lhes são atribuídos: nosso escudo, broquel, muralha, trincheira,
baluarte, bastião, torre e fortaleza. Porque é que as Escrituras usam tantos termos para denotar
que a proteção de Deus é forte? É para que sejamos ensinados que sem ele pereceremos cem
mil vezes por dia e que ele deve velar incessantemente pela nossa segurança. Vedes, pois,
como eu disse, que é necessário que os homens saibam que sua vida nada é, que ela é mais
frágil que qualquer outra coisa, que ela está sujeita a uma infinidade de mortes, de modo que
através disso apela-se a eles para que orem a Deus a fim de que ele os guarde. E, quando tiver
chegado aquele dia de suas vidas, necessariamente conhecerão que Deus os sustentou, e
atribuir-lhe-ão o louvor de tudo. Isso é o que temos a observar nessa passagem. Ora, se
Satanás, que é o inimigo de toda verdade, confessa que é Deus a muralha dos homens (e é
constrangido a falar assim, como se estivesse sob tortura), considerando que Deus nos faz
provar a sua virtude, fazendo com que a sintamos, que ingratidão será se fizermos confissão
inferior à de Satanás, o qual, por suas mentiras, nada mais quer senão empanar, sim, anular
totalmente a graça divina, com o fito de que esta fique desconhecida? Desse modo, pois,
vemos que os que não refletem sobre essa proteção de Deus são piores que o diabo, e
forçosamente se tornam embrutecidos, sim, de todo enfeitiçados. Quanto a essa frase, é isso.
Subseqüentemente, é dito que Deus deu permissão a Satanás para fazer o que bem lhe
parecesse sobre todos os bens de Jó, menos tocar na pessoa desse. Aqui, à primeira vista,
pode-se admirar de Deus permitir que Jó, seu servo, ficasse ao arbítrio de Satanás. Convém
que o diabo tenha tal crédito para com Deus, que, quando pede licença a esse para nos fazer
mal, seja-lhe outorgada? E dá a impressão que Deus lhe favorece, dá a impressão que Deus,
no entretempo, brinca conosco como que com uma bola. Reparemos, porém, que, quando
Deus permitiu isso a Satanás, não foi para o agradar, ele não foi movido pelo pedido de
Satanás, tampouco induzido a consentir que Jó fosse afligido daquele jeito. Ele já havia
decretado isso em seu conselho antes de Satanás haver emitido qualquer palavra, antes de esse
haver feito tal pedido: Deus queria afligir seu servo, e o queria por causa justa, a qual nos foi
desvendada. Contudo, quando ela nos for desconhecida, devemos abaixar a cabeça, dizendo
que Deus é justo e imparcial em tudo o que faz. Este, então, é o primeiro ponto que temos que
notar, a saber, que Deus aqui não atendeu Satanás como se fosse movido por suas solicitações:
porém, pela sua boa vontade, querendo afligir Jó, concedeu a Satanás o que pediu. Sim, para
envergonhar a esse e para obter um triunfo maior contra ele, deixando-o confundido. Pois esse
calculava que Jó amaldiçoaria a Deus na face, isto é, blasfemaria de boca cheia quando fosse
maltratado daquela forma severa. E por que agiu assim? Porque Satanás leva em conta quem
nós somos, a saber, que logo nos derramamos como água, que nossa virtude nada é.
Entretanto, ele não apreende a graça de Deus, o quanto ela é forte e invencível em nós. É
verdade, apesar disso, ele a sente e experimenta, no entanto, não a conhece. E vedes como ele
se engana, vedes sobre o que ele faz o seu cálculo: que, quando consegue ter sua licença para
nos atormentar, seremos logo vencidos, seremos de imediato tragados pela tristeza e que,
nesse desespero, blasfemaremos de Deus. Eis o que Satanás espera e o que ele tenciona. Sim:
mas Deus lhe resiste, e zomba dessa sua esperança, visto que interpõe antes a graça de seu
Espírito Santo e Satanás fica confuso ao ver que não pode atingir aquilo que queria tentar
contra os servos de Deus, que tudo resultou no contrário, no oposto de sua intenção. Assim
sendo, Deus, conhecendo qual seria o resultado das aflições de Jó, havia determinado em seu
conselho afligi-lo, sim, sem ser incitado a isso por Satanás. Mas por que, então, as Sagradas
Escrituras nos dizem aqui que isso foi feito por requisição de Satanás? Ora, isso se dá por dois
motivos. Primeiro, para que, quando formos vergastados por Deus, saibamos que é Satanás
quem o solicita, sim, para com isso nos colocar em desespero. E São Paulo nos revela tal
coisa no trecho que citamos dias passados (Ef 6.12), que guerreamos contra as potências
Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)
www.monergismo.com
4
espirituais, não contra a carne e o sangue. Então, assim que nos sobrevier algum mal,
saibamos que Satanás o maquinou, a fim de que resistamos a ele pela fé e estejamos munidos
e armados do poder de Deus, conhecendo que aquele têm um tão grande poder contra nós,
para que recorramos àquele que pode nos fortalecer. Eis, pois, a que as Escrituras se referem.
Depois, em segundo lugar, ele também nos quer mostrar a paternal bondade de Deus
para conosco ao nos sustentar como seus filhos, não dando a licença que nosso inimigo bem
desejaria ter sobre nós e também não deixando que ele tenha prazer em nos afligir, pois não
sabe esse que isso é apropriado para a nossa salvação. Verdade é que devemos ter isto como
algo inabalável: se não soubermos o porquê de Deus nos afligir, todavia, confessemos sempre
que ele é justo. No entanto, devemos ainda ter esta doutrina gravada em nossos corações, a
saber, que Deus nos ama tão ternamente que não quer senão nos abater, nos poupar, nos ter
como que em seu regaço – eis como as Escrituras falam disso. Agora, pois, quando vemos
Satanás querendo acender o fogo, pedindo a Deus que Jó seja perseguido, notemos que as
Escrituras nos revelam que Deus não nos trata tão severamente à toa, que não é para sermos
perseguidos por nosso inimigo, visto que ele não quereria outra coisa que não nos ter em
repouso e comodidade se nos fosse conveniente: mas porque é bom que sejamos assim
exercitados pelas aflições, sim, pelas mãos de Satanás. Então Deus a permite, posto que ele
sabe ser bom e proveitoso para nós. Isso, digo eu, é o que temos a observar. Ora, sendo assim,
tomemos um exemplo diverso. No primeiro livro dos Reis, no último capítulo, também se fala
de como ele realiza suas conferências decisórias (a tenu ses assises), há uma descrição tal
como está aqui, que o Profeta viu a ele, o qual estava assentado sobre seu trono e que lá
perguntava: “Quem enganará Acabe por mim?” Satanás não se antecipou a Deus nesse caso,
não veio dizer: “Se me deres permissão para iludir Acabe, eu farei tudo o que quiseres”.
Porém, é Deus quem inicia, dizendo: “Ó, encontrarei eu um espírito de mentira que vá
ludibriar Acabe? Porque quero que ele submerja até às profundezas do inferno”. Ora, por que
ele fala desse jeito? Porque se trata de executar uma justa vingança contra um hipócrita, um
desprezador cheio de crueldade, um inimigo mortal de todo bem. Este é Acabe, que perverteu
totalmente o serviço de Deus, que o profanou totalmente com seus ídolos, estando cheio de
rebelião e de maldade contra os Profetas e não querendo dar ouvidos a admoestação alguma.
Ao ficar esse endurecido dessa forma em suas depravações, de modo tal que nada se ganhava
ao querer trazê-lo de volta ao reto caminho, havendo Deus tentado tudo e visto que é um
homem perdido, então ele convoca uma reunião para deliberar (tient ses assises),
perguntando: “Quem enredará Acabe?” Porque Deus quer ali cumprir seu ofício de juiz.
Percebemos então que, quando Deus quer punir os maus e executar contra ele sua ira segundo
o que merecem, não espera para ser solicitado por Satanás, mas se antecipa a este. Nessa
passagem, quando se trata de afligir Jó, ou seja, de Deus tratar severamente um de seus filhos,
isso deve se suceder pela perseguição do inimigo. Eis a diferença que nos revela a razão pela
qual o pedido de Satanás nessa passagem é-lhe concedido. Sendo assim, atentemos bem para
o fato de que as Escrituras, de todos os modos, quer sempre nos instruir a glorificar a Deus e
que, conhecendo a bondade dele para conosco, tenhamos motivo para o exaltar. Todavia, que
aprendamos que a vingança divina contra todos os maus é justa, e que, se ele castiga, está
exercendo seu ofício, com o objetivo de ser temido, receado e honrado em todo o mundo. Isso
é o que temos que guardar.
Apesar disso, pode-se ainda achar estranho a maneira com que Deus se serve de
Satanás. Porém, já dissemos que, se não ficarmos bem resolvidos sobre este ponto – que os
demônios estão sob a direção de Deus, de tal modo que nada podem fazer sem sua licença –,
derramar-nos-emos como água. Há mais, a saber, que os demônios são como verdugos para
executar os juízos de Deus e as punições que ele quer realizar sobre os perversos. Eles são
também como açoites pelos quais Deus castiga seus filhos. Em resumo, o diabo tem que ser o
Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)
www.monergismo.com
5
instrumento da cólera de Deus, executando a vontade desse. Não que a faça de bom grado,
como dissemos, mas é por Deus deter o poder soberano sobre todas as criaturas, as quais
devem se sujeitar a ele e se voltarem para onde bem lhe parecer. Contudo, há aqui uma grande
divergência, a qual temos que notar, pois, quando Deus permitiu que Satanás afligisse Jó,
disse ao segundo: “Vê que podes destruir todos os seus haveres, mas não toques em sua
pessoa”. E, mesmo depois que esse arruinou todos os bens, diz: “Tu podes tocar na pessoa
dele, mas não te aproximes de sua alma”. Nisso ainda vemos que Deus sempre guarda a alma
de Jó, de modo tal que Satanás só o pode atormentar em seus bens, em sua vida mortal e em
sua honra, posto que não possui poder para entrar até na alma, para fazer Jó cair em erro e
extravasar em impaciência. Isso será melhor entendido pela analogia contrária. Quando Deus
consente que Satanás execute sua ira sobre os incrédulos, não somente permite que ele aflijaos
em seus bens, aflija-os com doenças ou de outra maneira qualquer; mas vai mais além,
dando-lhe o poder do erro e de poder enganar, como no já mencionado exemplo de Acabe.
Vede Deus dizendo: “Quem seduzirá Acabe por mim?” E Satanás diz: “Eu serei espírito de
mentira na boca dos Profetas dele”. Vemos aí uma licença que é muito maior do que esta aqui
citada: pois não é apenas questão de que Acabe seja ludibriado por algum meio exterior, mas
vedes os Profetas que o iludem sob aparência de verdade. E isto é o que São Paulo declara (2
Ts 2.10): que, quando os homens não querem obedecer a Deus e à sua verdade, nem se
resignar a isso, sobretudo quando Deus lhes dá a graça de se manifestar a eles e lhes mostrar o
caminho de salvação, se forem tão desgraçados a ponto de rejeitar e repelir semelhante graça
divina, eis, então, que Deus lhes envia os falsos Profetas e os enganadores, os quais não só
perverterão toda boa doutrina, mas também serão cridos, porque lhes dará a eficácia do erro.
É preciso ponderar bem sobre esse termo, já que possui grande significação. Pois o que se
quer dizer com eficácia do erro? Essa acontece quando Deus retira de nós sua iluminação e
ficamos com os espíritos fascinados, tornamo-nos de tal forma estúpidos que não temos
discernimento maior do que o dos animais irracionais. Conquanto a cilada seja de todo
patente, tropeçamos sem ver uma partezinha dela. E por quê? Porque não há mais conselho
nem prudência em nós, visto que Deus deu a Satanás o poder de nos ludibriar e enredar, sim,
de nos cegar totalmente e nos fascinar, de modo tal que não sabemos nos voltar para cá nem
para lá para não cairmos em algum logro novo. Vede, digo eu, como Deus trabalha com todos
os infiéis e réprobos, dando a Satanás a eficácia do erro, de tal maneira que os pode enganar
sem se eles se apercebam disso. Ora, não é assim que ele age para com os seus quando os
aflige: pois, malgrado Satanás os assaltar, são preservados e têm como repelir suas tentações,
porque Deus os armou da sua virtude, de tal forma que Satanás não pode fazer senão o que ele
permite. E ele coloca diante desse uma barreira, de sorte que toda a fúria procedente do
segundo é tão abreviada que nada pode contra quem porta o bom prazer de Deus. Isso é o que
temos a notar e, igualmente, observar que os juízos divinos são exercidos tanto sobre os bons
quanto sobre os maus. É verdade que, se quisermos seguir nossa opinião, poderemos nos
maravilhar de como isto é feito, de Deus dar tal autoridade e favor a Satanás para esse poder
nos engodar. Isso, pois, parecer-nos-á bem estranho à nossa imaginação. Mas, e daí? Devemos
nos humilhar ao ver as Escrituras falarem assim e esperar o dia em que entenderemos melhor
os segredos de Deus, os quais nos são hoje incompreensíveis. Logo, temos que aprender a
exaltá-los, temos que adorar os juízos divinos, os quais nos são tão admiráveis, até que nos
sejam melhor conhecidos. Porque temos uma medida pequena demais para conhecê-los agora
em sua totalidade. Então, devemos caminhar em humildade, conhecendo em parte, até que
tenhamos plenitude de revelação no último dia. Mas, seja como for, não devemos ignorar o
que as Escrituras nos revelam, a saber, que Deus se serve de tal modo de Satanás que este
sempre está pronto para fascinar os homens quando estes merecem, sobretudo quando
recusam a obedecer à verdade: devem então ser levados pela mentira.
Quando se trata dos fiéis, Deus também permite que eles por vezes sejam iludidos por
Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)
www.monergismo.com
6
Satanás, visto como Jó, no fim, não fica isento desse mal. E também percebemos isso na
História Sagrada a respeito de Davi (1 Cr 21.1): porque, quando este fez a contagem do povo,
de onde é que adveio tal coisa? Traz o texto que foi o diabo quem suscitou todo esse mal,
quando Davi contou o povo de Deus daquele jeito. Davi então, não obstante ser do número
dos filhos de Deus, não deixa de algumas vezes ficar preso pelo poder de Satanás para ser
ludibriado. Mas, ao vermos isso, temos boa razão para orar a Deus e ir para debaixo da
sombra de suas asas, para que ele nos esconda lá: por que, se semelhante coisa sucedeu a
Davi, o que será de nós? Todavia, reparemos também que, quando Deus concede tal favor a
Satanás sobre os fiéis, isso não se dá senão por pouco tempo. Eis porque é dito que sua
virtude está sobre os incrédulos e sobre todos os rebeldes: não é sem motivo que São Paulo
(Ef 2.2) coloca ali tal distinção. Diz que ele opera agora em todos os incrédulos, ele coloca o
reino de Satanás nos que estão separados de Deus e cortados de sua Igreja. Por quê? Porque
vedes seus limites, mas, quando ele consegue consternar os filhos de Deus, nosso Senhor o
permite para os humilhar, a fim de que, quando estiverem atormentados dessa forma dura e,
sem embargo, resistindo aos ataques que lhes são perpetrados, saibam que isso não é deles,
mas que estão sustentados de outra parte, a saber, da graça de Deus e da virtude de seu Santo
Espírito. Sendo assim, normalmente, quando Deus permite a Satanás tentar os fiéis, é para que
tudo lhes sirva como remédio. E nisso vemos uma maravilhosa bondade de Deus, que
converte o mal em bem: pois o que é que Satanás pode dar que não peçonha e veneno? Porque
sabemos que nele só há morte, pois dela é chamado o príncipe (Hb 2.14). Assim, pois, tudo o
que Satanás pode produzir tende à ruína dos homens e para os fazer perecer. Entretanto, Deus
inventará o meio pelo qual o mal que vem de Satanás se nos seja convertido para salvação.
Eis São Paulo fora de si, segundo confessa, depois de haver falado das revelações tão altas
que lhe foram dadas. Deus, diz ele, mostrou que eu não me elevasse demais (2 Co 12.8). Essa
foi uma provisão boa e bem útil para São Paulo, porque sabemos que o orgulho nos precipita
nos abismos, posto que nada há que irrite mais a Deus. Pois este se declara sempre inimigo
dos orgulhosos e dos que presumem ser algo pela própria virtude. Ora, São Paulo estaria em
tal perigo se Deus não tivesse dado o remédio. E de que forma isso se deu? Diz que ele enviou
o mensageiro de Satanás para o estapear. Vedes Satanás trabalhando em São Paulo, sim, pela
permissão de Deus. E qual o desfecho disso? Satanás realmente cuidava prejudicar São Paulo,
sua intenção era desviá-lo para que deixasse o serviço de Deus e que, estando agastado dos
problemas e misérias que suportava incessantemente, retirasse-se um pouco do cristianismo.
Isso era o que Satanás pensava. Mas, e aí? Deus contemplava um outro fim: queria conservar
na rédea seu servo, para que esse não olvidasse de não se elevar demais. E por esse motivo é
esbofeteado. Ele usa essa símile particular, que Deus não o exercita como um militar a cavalo
no campo de batalha, para lhe dar uma vitória gloriosa, porém, estapeia-o com ignomínia e
opróbrio. Convém que o santo Apóstolo, estando dotado de tão excelentes dons do Espírito de
Deus, esteja assim sujeito a Satanás, que lhe cospe na vista, que lhe perpetra muitas
ignomínias. Vemos então como Deus converte o mal em bem quando faz com que todos os
aguilhões de Satanás se nos sirvam de remédio, e que por esse meio ele nos purga dos vícios
que estão ocultos em nós. Destarte, temos que louvar a Deus em tudo e por tudo, sim, apesar
de inicialmente seus juízos nos serem por demais severos à nossa imaginação e não o
possamos conceber senão segundo nosso sentido carnal. Quando, pois, houvermos ponderado
bem sobre tudo, teremos sempre do que exaltar a Deus. Quanto a essa passagem, onde se diz
que ele deu licença a Satanás para afligir Jó, é isso. Sim, mas Deus o impediu de tocar na
pessoa desse. Resumindo, temos que notar que, quando Deus permite que sejamos assaltados
assim por Satanás, que nos faz muitos ataques bem rudes, todavia, é por medida, ele sabe até
onde podemos agüentar e o que nos é conveniente.
Agora, para finalizar, é dito que Satanás saiu da presença do Senhor. Não que Satanás
fez o que bem lhe pareceu, como se Deus não mais tivesse visto, mas é para indicar qual a
Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)
www.monergismo.com
7
fúria dele, qual é o seu modo habitual, a saber, que fez o pior que pôde, sem atentar que estava
sujeito a Deus, que usou de sua rebelião e que brutal e subitamente destruiu os bens de Jó;
conquanto haja ainda uma outra coisa denotada nesse termo, qual seja, que Satanás
efetivamente demonstrou a licença que obteve. Porque dissemos que aqui esse conselho
estrito de Deus, desconhecido dos homens, foi-nos declarado. Pois as Escrituras falam assim
das coisas que nos são patentes, como logo depois Jó foi despojado de todos os seus bens,
como seus filhos são mortos, como foi afligido em sua pessoa, isso foi notório a todos, mas
esses desconheciam o que foi supramencionado, a saber, que Deus se faz ouvir em suas
conferências (tenu ses assises), e que tudo estava disposto por seu conselho, nada
acontecendo sem a sua providência. Os que possuíram os olhos da fé para compreender isso o
entenderam, mas os outros perceberam somente as coisas que se faziam. Vedes por que é dito
agora que Satanás saiu da presença do Senhor. Pois as Sagradas Escrituras distinguem entre as
coisas exteriores que se vão e o conselho de Deus, que não é conhecido senão por seus fiéis,
que se elevam acima de toda razão e de todos os sentidos naturais. Porque jamais chegaremos
ao conhecimento da majestade de Deus se não elevarmos todas as nossas faculdades. Agora as
Escrituras retornam à história, ao dizer que Satanás saiu da presença do Senhor, isto é, foi
visivelmente percebido e ficou patente como ele afligiu Jó. Eis o que é dito ali. O restante do
trecho é sempre para expressar a natureza de Satanás, o qual, transbordando de raiva, mete
fogo e chama, como se quisesse arruinar tudo: em suma, é seu múnus tentar, como dele se diz
quando se fala que Jesus foi tentado (Mt 4.3). Eis o tentador. Tal palavra e título são
atribuídos particularmente a Satanás. Por quê? Para que saibamos que ele nada mais quer que
não a ruína total, que não colocar a humanidade em confusão. Vede o motivo de ele não estar
desocupado: ele ronda, ele nos importuna para nos levar à perdição com ele e nada quer senão
ficar desobrigado da obediência a Deus e perverter tudo. Quando conhecermos isso, devemos
ser ainda mais incitados a orar a nosso Deus, para que nos receba em suas mãos e em sua
guarda, pois, quando tivermos sido assim recebidos, ficaremos a salvo contra as tribulações
que Satanás tramar contra nós. Mas, uma vez que Deus se afasta de nós, apenas tirando a
mão, seremos de imediato vencidos por Satanás. Eis então como somos instruídos, por um
lado, a nos humilhar, a caminhar em temor e cuidado e, por outro, invocar a Deus, sabendo
que, quando formos por ele socorridos, nada nos faltará. Sim, ainda que com grandes
dificuldades, devemos batalhar e, não obstante essas, asseguremo-nos da vitória que ele
prometeu a todos os seus.
Prostrar-nos-emos agora ante a majestade de nosso Deus...
Irmão João Calvino.
A Deus toda a Glória e Honra!

SERMÃO SOBRE JÓ 8:1-6

Bildade, o suíta, respondeu e disse: Até quando enunciarás tais coisas? As palavras de tua boca
são como vento impetuoso. Perverterá Deus a justiça? Perverterá o Todo-Poderoso o direito? Se
teus próprios filhos pecaram contra ele, ele também os entregou na mão da sua falta. Porém, se
retornares a Deus a tempo, e rogar ao Todo-Poderoso, se fores puro e reto, decerto logo despertará
para ti, e restaurará a tenda da tua justiça.
Para bem aproveitarmos o que está aqui contido no presente capítulo, devemos nos recordar
do que já declaramos, a saber, que os amigos de Jó se ocupam com um mau caso, tendo, contudo,
bons argumentos e boas razões. É fato que eles o aplicam mal; entretanto, a doutrina em si é santa e
útil. Desta sorte, quando tomamos o que é dito aqui genericamente, descobrimos boas proposições.
E, com efeito, esta é a principal coisa pretendida por Bildade – sustentar que Deus é justo ao punir
os homens, e que não há motivo algum para o acusar. Ora, inqüestionavelmente, toda essa doutrina
não somente é boa, mas é ainda um dos principais artigos de nossa fé: não há erro, a não ser pelo
fato de Bildade querer aplicar suas palavras à pessoa de Jó. Pois, como já vimos, a intenção do
santo personagem não era acusar a Deus, tampouco se levantar contra esse. Queixa-se Jó, porém, de
que o mal que suportava era por demais enorme e pesado para ele caso se atentasse à sua fraqueza;
no entanto, nunca deixou de glorificar a Deus. Destarte, observamos que Bildade teve um mau caso;
sem embargo, o que ele expõe aqui é bom e justo, e devemos recebê-lo, porque é apropriado para a
nossa edificação. Como quando ele diz que os que pleiteiam assim contra Deus precipitam-se tal
qual o vento no ar. É verdade que devemos deixar a pessoa de Jó, como eu já vos disse; porém,
tomemos de forma genérica o que está contido aqui. Ouvimos como os maus e incrédulos vomitam
suas blasfêmias quando depreciam a justiça divina, dando a impressão de trovejarem e lançarem
raios. Mas, e o que é isso? Todas as suas palavras nada mais são senão vento, e se escoam, não
podendo atingir altura tal como a exibida pela majestade de Deus. Dessa maneira, nessa passagem
temos que reparar, em primeiro lugar, quando ouvirmos tais blasfêmias contra ele, não devemos,
todavia, ficar abalados a ponto de não o glorificarmos. Pois ele se mantém em sua inteireza, e os
homens não podem diminuir em nada a sua majestade; ainda que o maldigam de boca cheia, é o
mesmo que vento, o mesmo que vaidade. Quanto ao primeiro ponto, é isso. No tocante ao segundo,
que cada um de nós aprenda a falar de Deus com sobriedade e com toda reverência e humildade:
que não lancemos um vento tal como o de que se faz menção aqui. Porque, embora não saibamos
prejudicar a Deus de qualquer forma que seja, ele não deixará de se vingar dos que se esforçam de
se erguer contra ele desse modo, os quais proferem palavras de orgulho e presunção. O que se deve
fazer então? Se houvermos concebido em nossos corações o que as Escrituras nos ensinam, isso nos
conservará em verdadeira firmeza. Depois, quando falarmos segundo a medida de nossa fé, 1 então
não somente emitiremos belos sopros, mas Deus será exaltado e engrandecido em todas as nossas
* Trecho retirado e traduzido do original francês Sermons sur le Livre de Iob, do mesmo autor, com consultas à versão
inglesa. (N. do T.)
† Um dos principais nomes da Reforma Protestante, João Calvino (1509-1564) nasceu em Noyon (França). Tendo em
comum com o alemão Martinho Lutero o fato de também ter sido seminarista na juventude, deu prosseguimento à obra
desse, ensinando a doutrina e a aplicação da justificação pela fé somente em Cristo, como revelada nas Escrituras
Sagradas, empenhando-se em aplicar o ensino bíblico a todas as áreas da vida; não obstante, o sistema teológico
chamado calvinismo é mais estruturado que o luteranismo. Calvino estabeleceu-se em Genebra (Suíça), já que na
França do rei Francisco I não eram tolerados não-católicos. A igreja que ele pastoreava ali veio a se tornar um centro da
Reforma, a ponto de John Knox dizer que ela foi “a mais perfeita escola de Cristo desde os dias dos apóstolos”. Os
Sermões sobre Jó, os Comentários da Bíblia e as Institutas constituem o grande monumento do seu pensamento
teológico. (N. do T.)
1 Rm 12.3,6. (N. do T.)
2
palavras.
Vamos agora ao ponto principal do que está dito aqui: Perverterá Deus o juízo e o direito?
O Todo-Poderoso subverterá a justiça? Somos aqui admoestados a dar a Deus esta honra: a de ser a
fonte de toda eqüidade e de todo o direito, que lhe é impossível fazer algo que não seja bom e justo.
Alguns bem podem atribuir a Deus todo o poder; entretanto, indevidamente, não o reconhecem
como sendo justo. Pois não devemos separar uma coisa da outra: não devemos imaginar que em
Deus haja coisas que possam ser divididas uma da outra. É verdade que nos é necessário distinguir
bem entre a sabedoria, a bondade, a justiça e o poder de Deus: não obstante, como ele é Deus, todas
essas coisas têm que estar nele, e elas são como que a essência dele. Guardemo-nos então de
imaginar um poder em Deus sem lei, como se ele governasse o mundo tal qual um tirano, como se
ele usasse de excesso ou crueldade. Conhecemos, porém, que, tendo tudo em sua mão, tendo um
poder infinito para criar as coisas, nem por isso deixa ele de ser justo. Ora, é verdade que tal justiça
de Deus está parcialmente oculta para nós e que não a compreendemos; contudo, é ela igualmente
oriunda do seu poder. Mas, se é assim, podemos mensurá-la em nossos sentidos ou em nossa
mente? Com certeza não. Desta sorte, pois, quando se nos é falado da justiça divina, notemos que,
malgrado ela não nos ser completamente conhecida e manifesta, devemos respeitá-la. É dito que
seus conselhos são um abismo; é dito que ele habita em uma claridade inacessível, que não
podemos nos alçar a uma altura tal que conheçamos o que nele está (Sl 36.8,9; Rm 11.33; 1 Tm
6.16). Mas, seja como for, devemos estar plenamente persuadidos de que é próprio de Deus, que é
da natureza dele fazer tudo em total integridade, que nada há a censurar. Vemos agora então como é
que devemos imaginar Deus. Quando os mundanos falam dessas coisas, é verdade que dizem ser
Deus o soberano Criador do mundo; entrementes, não admitem o que é próprio dele, nem a maneira
com que ele quer se manifestar a nós, a saber, em sua justiça, em sua bondade, em sua sabedoria e
em tudo que dele podemos apreciar, amando-o, honrando-o e servindo-o. E isso é o principal a que
devemos atentar. Pois o que ganharemos se conhecermos com sutileza ser isso da essência de Deus
e da sua gloriosa majestade e, no entanto, não entendermos o que dele devemos sentir por
experiência, bem como o que ele nos afirma? Como quando se diz que ele habita em nós, e que nele
vivemos, existimos e nos movemos (At 17.28), que sua misericórdia enche todas as coisas, que
somos sustentados por sua bondade (Sl 36.10), que temos tanta luz quanto ele nos dá e nada mais,
que é dele o remediar todas as nossas corrupções, que não podemos ter um só grão ou gota de
justiça caso não a possuamos dele, que é sua fonte. Então, se não conhecermos essas coisas, que nos
aproveitará saber que há um Deus que contém todas as coisas, bem como ter qualquer apreensão de
sua majestade? Por essa razão, então, devemos mais ainda reparar no que é dito aqui: a saber, que
tenhamos por princípio estabelecido que a natureza divina é justa, e que lhe é tão possível se desviar
do direito e da eqüidade quanto dizer que ele renuncia à sua essência, e que não é mais Deus. Pois é
tão absurdo dizer que este faz alguma coisa sem propósito quanto dizer que ele não existe ou que
sua essência está diminuída. E vedes também como São Paulo argumenta em Romanos 3, quando
apresenta esta blasfêmia que se pode lançar contra a doutrina que ele trazia. Como os homens estão
sempre cheios de veneno para murmurar contra a pura verdade de Deus, levantando-se contra ela
com contumácia e réplicas, São Paulo então pergunta (Rm 3.5,6): Deus é injusto? Ó! como seria
possível àquele a quem pertence julgar o mundo não guardar toda a justiça? Ali ele mostra, por essa
palavra “julgar”, que devemos todos ficar persuadidos de que Deus possui em apreço tal o direito
que tudo o que faz e tudo que dele procede é minuciosamente submetido àquela regra. Vemos então
que essa frase de São Paulo responde a isso. Porque sob este termo “Deus” Bildade compreende a
justiça e o direito, e mais ainda sob a palavra “Todo-Poderoso”. É como se ele dissesse: Podemos
despojar a Deus do que está tão unido à sua essência que não se pode separar de maneira alguma?
Isso seria abatê-lo e arrancá-lo de seu tribunal, reduzindo-o a nada, caso se queira pleitear contra ele
como se esse não fosse justo. São Paulo, em vez de simplesmente utilizar o nome de Deus, ou de
juntar a ele o título de Todo-Poderoso, introduz também o ofício, a saber, que “Deus é o Juiz do
mundo”. Ora, ele não é um Juiz à maneira dos que são corrompidos, como se vê os homens mortais
que atingem status bastante elevado e, não obstante a autoridade, abusam da mesma
Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)
www.monergismo.com
3
freqüentemente; porém, não se dá assim com Deus. E por quê? Porque aquele que é Juiz do mundo
não o é por aquisição, nem foi ele elevado por acaso, tampouco por conspiração ou suborno obteve
seu ofício; mas isso lhe compete por natureza, ele não é Deus sem ser ao mesmo tempo juiz. Sendo
assim, pois, que nada concebamos dele que não toda retidão, conhecendo bem que seu querer é a
regra soberana. Outrossim, como eu disse, tal justiça não nos pode ser manifesta a ponto de
podermos decifrar o que nela há, de sorte que, quando Deus operar, percebamos a razão disso. E ela
deveras não nos deve estar sujeita para que a queiramos submetê-la ao nosso critério. Então, quando
não acharmos bom o que ele faz, para onde iremos? Não é arrogância a das criaturas mortais, dos
pobres da terra, querendo obrigar Deus a lhes fazer saber o que são as suas obras e sobre elas
pronunciar sentença? Por que é para ser totalmente o contrário: posto que Deus nos oculta o motivo
do que ele faz, e que achemos estranhas suas obras, parecendo que temos de que litigar contra ele
segundo nosso discernimento, contudo, devemos respeitar profundamente seus juízos
incompreensíveis e secretos, recolhendo-nos totalmente em nossos espíritos em humildade tal que
digamos: Eis que é verdade que agora isso nos aparente ser inteiramente contrário a toda a razão,
mas e aí? Não ganharemos a nossa causa contra Deus. Depois, sem réplica adicional, devemos
chegar a esta conclusão: que ele é justo. Então, visto que ora vemos isso em parte, como em um
espelho, de forma obscura (1 Co 13.9-12), aguardemos o dia em que poderemos contemplar face a
face a glória de Deus; e então entenderemos o que ora se nos está escondido.
Eis então como Deus quer exercitar a nossa fé: isto é, levar a confessarmos que sua justiça é
tal que se desconhece em que a censurar ou criticar. Digo que ele nos levará a confessar isso,
conquanto não o percebamos, e conquanto não o conheçamos plenamente e cada um tenha seu
argumento para disputar com Deus o porquê de ele ter feito assim. Então, embora não enxerguemos
tais coisas, temos que ter a humildade de atribuir a Deus o que a ele pertence. E, se agirmos de
outro jeito, é como se quiséssemos reduzir, tanto quanto está em nós, sua essência imortal a nada.
Ora, quando o tivermos bem impresso em nossos corações, isso já será um bom começo para nos
submetermos à mão de Deus, de tal forma que, embora ele nos aflija e nos trate com mais rudeza do
que gostaríamos, contudo, sejamos pacientes em nossas adversidades. Por quê? Porque aquele que,
sofrendo o mal, subleva-se, precisa saber o que é se levantar contra Deus, e que não pode se agastar
contra Deus, que não resista a todo direito e eqüidade. E qual será o resultado de uma semelhante
causa senão confusão e ruína? Vedes então um freio para nos conservar na paciência, que é este
conhecimento que devemos ter da justiça de Deus. Pois batalhamos para a nossa própria perdição ao
resistir desse modo a todo o direito. E, quando nos zangamos em nossos dissabores, fazemos guerra
contra Deus, querendo perverter sua justiça e reduzi-la a nada. Não obstante, é preciso que
passemos para mais além para sermos bem pacientes. E por quê? Porque não deixaremos de ser
tentados ao desespero, mesmo conhecendo a justiça de Deus. Eis um pobre pecador que se sente
oprimido ao máximo: bem, ele confessará (sim, sem fingimento) que Deus é justo em o punir;
porém, ele tem a impressão de que deve perecer, e que não há mais remissão em seu caso. Vedes
então como aquele que é visitado pela mão de Deus pode cair em desespero, ainda que reconheça
que esse é justo. E vemos, de fato, o que adveio a Jó. É verdade que ele não ficou totalmente
desprovido de paciência, mas não deixou de estar atormentado por horríveis paixões, como nós já
vimos, e veremos doravante. Ora, é certo que ele não ficou em dúvida se Deus não era justo, mas
ele atenta à sua enfermidade: Senhor, eu sou tão frágil e, no entanto, tu empregas contra mim a tua
força; porém, que sou eu? Parece que tu queres aqui fulminar uma pequena criatura que é inferior a
um verme. Eis, pois, com o que Jó se acha irritado e angustiado: é que ele não pode experimentar,
logo de início, que Deus o assiste no meio da sua severidade e que, posteriormente, dar-lhe-ia um
final bom e feliz, como ele o desejava. Verdadeiramente, Jó tinha algum senso disso; entretanto,
estava tão atribulado pela tristeza que não podia logo de cara mudar e se livrar dela. Vedes, pois,
como Jó é em parte impaciente, apesar de ser ele apresentado a nós como um exemplo de paciência.
Todavia, qual a razão de suas aflições serem tão veementes que ele se descoroçoa? É por ele não
possuir uma apreciação tal do desvelo paternal que Deus tem por ele como a que seria necessária.
Por isso, digo que conhecer a justiça de Deus e dela estar plenamente persuadido deve nos induzir à
Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)
www.monergismo.com
4
paciência; porém, temos que ir para um segundo ponto, qual seja, que julguemos sempre que Deus,
ao nos afligir, não deixa de nos amar. Sim, e que proverá a nossa salvação seja qual for o rigor que
use para conosco; que todas as nossas aflições serão atenuadas por sua graça, e que ele dará um
desfecho desejável.
E, depois de Bildade haver falado assim, ele adiciona: Teus filhos pecaram, e Deus os envia
ao lugar da iniqüidade deles; porém, se tu de manhã regressares a ele, ele se despertará para
contigo, ou, ele fará voltar o bem. Por meio disso ele quer dizer que Deus colocou diante dos olhos
de Jó um belo espelho, com o fito de que esse não mais se elevasse, nem se fizesse de cavalo
desembestado, visto que os que são assim rebeldes contra Deus ficam confusos, e devem perecer
totalmente. Na segunda parte há uma promessa de que Deus ainda o espera, e que o queria trazer ao
arrependimento e que, durante esse tempo oportuno, ele devia se apressar. Eis então os dois pontos
principais que são aqui mencionados por Bildade. Mas já vos dissemos que isso se aplica mal à
pessoa de Jó. Por quê? Porque se trata de um caso ruim, embora bem manejado. Portanto,
peguemos isso como doutrina geral, a fim de que cada um de nós, na sua medida e segundo a sua
necessidade, aplique-a para si. É dito aqui que Deus pune os que contra ele se rebelam; e com isso
nos quer humilhar, para que não demos rédeas à fraqueza de nossa carne, visto como estamos
cheios de licenciosidade. Quando se trata de despeitar a Deus, fazemo-lo com menos dificuldade do
que quando nos voltamos contra alguém que seja nosso inferior ou nosso igual. Vedes, digo eu, a
audácia diabólica que reina em todo o mundo: qual seja, que quem teme uma criatura mortal e não a
quer ofender, contudo, provocará a Deus insolentemente, sem escrúpulo. Em conseqüência,
guardemos bem esta instrução que nos é aqui mostrada, a saber, que, sempre que Deus pune os
maus, sempre que realiza algum ato de vingança horrível, é para que abaixemos nossas cabeças, é
para que grandes e pequenos fiquem de boca fechada, é para que não mais tenhamos a presunção de
vir pleitear em processo contra Deus; mas para que saibamos que, como sucedeu aos que vemos
perecer dessa maneira, assim nos sucederá se os seguirmos. E eis porque é dito nas Escrituras que
Deus, ao executar seu juízo, ensina justiça aos homens. O Profeta Isaías (26.9) revela através disso
que, enquanto os pecados ficam impunes, os homens se endurecem e se divertem diante disso, e a
eles parece que escaparam da mão do juiz. Em suma, não há mais nenhum medo nem pudor neles;
porém, assim que Deus se assenta em seu tribunal, dando demonstrações de seu juízo, ficamos
assombrados, exprimindo tal terror que ficamos abatidos debaixo dele, e isso serve para nos
restringir. Vedes, pois, como os julgamentos que Deus exerce sobre os maus nos devem servir de
lição, para que cada um se renda sob a mão divina. E isso é o que é dito também nessa passagem.
Realmente não devemos determinar se os filhos de Jó são ou não condenados, e mesmo que
haja mais verosimilhança que Deus os enviou somente uma punição temporal para salvar suas
almas para sempre. Porque vimos acima a concórdia que existia entre eles: as Escrituras não nos
falam deles como falam dos filhos de Eli (1 Sm 2.12). Por outro lado, vimos que Jó fazia sacrifícios
solenes quando terminava os banquetes deles, e não há nenhuma dúvida, como foi afirmado, de que
eram exortados a pedir perdão a Deus e que se juntavam a seu pai nesse ato. Sendo assim, não
podemos sentenciar que os filhos de Jó foram reprovados; e sabemos que por vezes Deus, por um
meio violento, tira deste mundo aqui até os principais que elegeu e ordenou à salvação, tratando-os
de tal maneira que o castigo que lhes envia é convertido em salvação. Desse modo, faz com que os
corpos pereçam por um tempo, para que suas almas sejam salvas eternamente. Então, isso pode ter
advindo aos filhos de Jó. Contudo, como eu já disse, não devemos levar em conta aqui as pessoas,
devemos receber apenas a doutrina, a saber, que todas as vezes em que Deus estende seu braço para
punir os pecados do mundo, não há alguém dentre nós que não deva tremer; e, quando tivermos nos
desviado de nosso dever, e o diabo nos tiver como que nos enfraquecido, a ponto de sermos levados
para cá e para acolá, temos ainda que recorrer a Deus, sabendo que nos castiga encarregando outros
disso, e que a tal devemos contemplar como que sentindo o quanto é horrível a sua ira sobre todos
os que assim se levantam e a ele resistem. Eis o porquê de São Paulo, dirigindo-se aos fiéis, dizerlhes
(Ef 5.6): “Que ninguém vos ludibrie por palavras vãs, posto que por essas coisas a ira de Deus
sói sobrevir aos incrédulos”. É fato que os homens se iludem ao dissimular seus pecados, como
Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)
www.monergismo.com
5
vemos essas bestas diabólicas dos tempos que correm, de modo que, se alguém fala de lascívia, terá
isso como pecado natural: Ó, é da natureza. E, caso se fale da embriaguez, dirão: Deus deu o vinho
e não quer que se alegrem com esse? Vedes então como os homens se embrutecem e vomitam suas
blasfêmias contra Deus, tão-somente procurando certos subterfúgios para se auto-enganarem em
suas faltas e iniqüidades. E por essa causa São Paulo diz: “Meus amigos, não vos enganeis por essas
palavras profanas”. Ele não diz: “Porque a ira de Deus virá sobre vós, vós perecereis”. Porém, ele
diz: “Conheceis o que Deus vos mostra, vós tendes belos exemplos”. Sempre que Deus castiga os
dissolutos, os incrédulos, os desobedientes, os rebeldes e toda gente dessa laia, ele vos quer mostrar
que mal algum fica sem punição. Dessarte, pois, preveni-vos da vingança dele, não esperando que
ela se lance sobre vós, mas tirai proveito das instruções que ele vos dá de longe. Então, quanto a
essa frase em que nos é exposta a correção mandada por Deus, a fim de que saibamos que ele envia
todos os rebeldes ao local da iniqüidade deles, é isso.
Ora, é verdade que se encontra pessoas tão tolas e mentalmente perturbadas que querem
sustentar a causa dos maus contra Deus. Mas, assim que Deus tiver posto a mão sobre suas
criaturas, aprendamos a confessar que ele é justo, não obstante não conhecermos o porquê do que
ele faz. E isto está em conformidade com o que declaramos mais completamente: que, se há
pecados notórios punidos diante de nossos olhos, saibamos que Deus nos adverte, colocando-o
diante de nós como figuras vivas, segundo fala São Paulo em 1.ª aos Coríntios 10.6. De sorte que,
se virmos um homem cheio de blasfêmias, um desprezador de Deus, que de jeito nenhum aceita
levar jugo e disciplina – em suma, que seja de todo incorrigível; se virmos algum homem profano,
alguém lascivo e rebelde, um homem de vida má e dissoluta, se virmos um beberrão, se virmos um
mau que nada quer senão ludibriar alguém, despojando-o de seu sustento e Deus cumprindo e
executando suas vinganças declaradas em sua Lei, saibamos que são também provas de que não
devemos brincar com ele, nem acreditar que se tratam de ameaças de criancinhas as palavras que
saem de sua boca, pois o resultado delas lhes está conectado. Caso não vejamos a causa aparente e
visível, saibamos, entretanto, que, quando usar de rigor muito maior para conosco, não devemos,
todavia, inquirir, dizendo: Por que ele age assim? Nós não sabemos, e não devemos presumir que o
sabemos enquanto estivermos neste mundo. Isso, pois, é o que temos que observar e ter na
memória: a saber, que, quando virmos as calamidades e aflições que Deus envia a este mundo,
reflitamos se há pecados que nos são patentes, para que aprendamos a nos entregar a Deus em
submissão, sujeitando-nos a ele, sim, e que cada um se examine para não fique envolvido em
semelhante condenação. Vamos agora ao segundo ponto: qual seja, que, se Deus nos visita neste
mundo, fazendo-nos definhar, conquanto sejamos oprimidos com tanta força que nossa vida nos
esteja mais lastimosa e amarga que qualquer morte, sem embargo, ele nos dá ocasião para
penitência, e se regressarmos a ele sem tardança, descobriremos que ele está totalmente preparado
para nos receber, e que tornará a morada de nossa justiça pacífica, sim, caso venhamos a ele com
orações, portando ainda um coração puro e reto. Essa é uma doutrina boa e útil: porque os homens
são admoestados a bem reconhecer a graça que Deus lhes faz, bem como a mercê que lhes oferece
quando não os elimina totalmente logo de início, mas os deixa vivos. É fato que um langor tal como
aquele em que Jó se encontrava será de longe mais duro e penoso que a morte. E vemos igualmente
que, quando esse não olha mais senão ao seu próprio estado, queria ser enforcado (porque eis como
ele fala disso), no entanto, se lançarmos nosso olhar para o resultado que Deus contemplava, para o
fim que ele também nos propõe, descobriremos então que todas as nossas tristezas serão mitigadas.
E por quê? Porque experimentaremos que ele ainda tem piedade de nós. Peguemos o caso de um
homem que se sinta aqui como que no seu inferno e que, em vez de ser consolado, tenha o horrível
pavor de experimentar que Deus lhe seja contrário, seu inimigo mortal: que tenha como que sobre si
um fogo alumiando em sua alma; bem, quando um pobre homem estiver em tal pesar e, além disso,
por um lado, sofrer na pele a ignomínia e, por outro, grandes dores e assaltos insuportáveis, é
verdade que esse pobre homem, à primeira vista, pode suspirar a morte e a almejar, sim, que, se for
preciso passar pelo fogo, pela água e pelo alfange, não poderia pedir coisa melhor. Como vemos
nosso Senhor Jesus Cristo dizendo que os que estão assim tomados deste medo de Deus quereriam
Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)
www.monergismo.com
6
que as montanhas caíssem sobre si, que o mundo desmoronasse para os destruírem (Lc 23.30). Mas,
e aí? Se tivermos este pensamento: “Se meu Deus me apresenta aqui sua misericórdia, ele quer que
eu me aproxime dele, pois todas as vezes em que somos afligidos por sua mão, ele nos chama a si
com uma voz doce e afável, exortando-nos para vir a ele com a promessa segura de que se
demonstrará benigno e compassivo para conosco”, isso servirá para moderar as nossas tristezas
todas. Em vista disso, então – que em nosso desfalecimento ainda temos alguma esperança – não
devemos assim aceitar o bem que Deus nos faz, sentir algum alívio do peso de nossos males,
malgrado ser isso excessivo e parecer que não temos os ombros para os suportarem? Percebemos
agora o quão útil nos é tal doutrina quando temos o discernimento de nos apropriarmos dela: isto é,
que no fim saberemos que Deus nos deixa ainda um remédio que nos é de serventia, que nossas
moléstias não são insanáveis, sim, contanto que recorramos a ele. Daí temos que depreender uma
máxima geral: a saber, que Deus ainda tem compaixão dos homens quando os castiga por seus
pecados, jamais utilizando rigor tão grande que não haja sempre misericórdia misturada com ele. E
por quê? Porque são como que as citações que ele nos faz para que compareçamos diante dele, para
que, ao senti-lo como nosso juiz, refugiemo-nos em sua graça e misericórdia infinitas, não
duvidando de que ele se revelará como pai a todos os que houverem a ele recorrido. E podemos ver
aí a ingratidão do mundo. Pois que as aflições são universais, e não há quem não tenha sua parte
nelas; não passamos pela vida presente sem que Deus nos castigue de várias maneiras: digo, cada
um de nós, e todos em geral, vêem como Deus nos visita. Não obstante, quem pensa em retornar a
ele? O número desses é bem pequeno e difuso. Conhecemos então a ingratidão que há em nós, que,
apesar de Deus nos chamar, não querendo que pereçamos, somos rudes, repelindo todas as
advertências que ele nos dá. E também essa doutrina nos deve ser de proveito para que esperemos
em Deus, pois, mesmo que sejamos perseguidos neste mundo, ele não nos deixa cá embaixo sem
continuamente nos chamar de volta para si, não querendo que fiquemos frustrados quando
chegarmos a tal ponto, sim, contanto que venhamos para dele obter todo recurso. Assim, pois,
confiemos ousadamente que nosso Deus ser-nos-á propício, e agradeçamos a ele por não nos ter
tirado da presente vida no primeiro golpe, mas nos haver dado tempo suficiente para pensarmos em
nossos pecados, desgostando-nos desses e voltando para ele.
Vamos agora à consolação aqui inserida: Se vieres de manhã a ele, e tu o buscares com
orações, sendo reto e puro, ele despertará para contigo. Isto foi particularmente adicionado porque
os homens se mantêm pertinazes e, embora Deus os incite a regressarem ao caminho da salvação,
eles não pensam nisso. Eis por que é especialmente dito que não devemos recalcitrar contra o
aguilhão, agindo qual cavalos renitentes ou agindo como estúpidos. Em suma, que possuamos esta
presteza que Deus nos ordena (Sl 32.9), tal como se diz, e devemos vir a ele de manhã, isto é, não
devemos tardar nem desperdiçar o tempo, como o vemos fazer esses zombadores de Deus. Ó, dizem
eles, só é preciso um bom suspiro, sim, como se tivessem suas vidas à disposição (en leur manches)
e tivessem promessa garantida do tempo que devem permanecer no mundo, como se o
arrependimento estivesse na capacidade do homem e esse pudesse se converter à vontade, sempre
que desejasse, e como se isso não fosse um dom especial de Deus. Porém, tal é algo tão sagrado e
precioso que não devemos desperdiçá-lo. Ponderemos então, vendo o mundo sempre
procrastinando, querendo fazer como os maus pagadores, os quais, quando ganham algum
alongamento de prazo, dormem sossegadamente até à chegada do último dia. Assim, digo, dá-se
com os mundanos: quando Deus lhes prolonga a vida, esperando que se arrependam, aqueles não
querem refletir sobre isso até a hora em que perecem vergonhosamente. Então, para que não ajamos
dessa forma, é dito que retornemos a Deus de manhã. Ora, para resumir, há aqui três coisas em que
devemos bem reparar: uma é que, tão logo Deus nos visite, recorramos a ele apressadamente, não
aguardando até amanhã cedo. Isso é um ponto. O segundo é: venhamos a ele com oração,
condenando a nós próprios por nossas faltas, com o fito de lograr dele perdão e clemência. O
terceiro, que nossas orações não sejam feitas hipocritamente, mas tragamos um coração direito e
puro. Vedes as três coisas que nos estão aqui expostas. É verdade que não as podemos entregar
todas agora, mas, para que tenhamos um apanhado de toda essa doutrina que expusemos, que esses
Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)
www.monergismo.com
7
três pontos fiquem bem gravados em nossa memória. Resumindo, aprendamos a nos humilhar sob a
potente mão divina, como nos exorta o Apóstolo (1 Pd 5.6). E aprendamos com isso que ele é justo,
sim, tão justo que, quando executar ele juízos que nos sejam desagradáveis, não deixemos de
confessar que ele tudo faz em direito e eqüidade, que fechemos a boca para não apresentar nada
contra ele. E que não somente conheçamos que essa justiça está em Deus, mas que façamos
proveito dela, ou seja, quando ele punir os rebeldes, os desprezadores de sua majestade, os que são
totalmente incorrigíveis, saibamos que isso nos convida para ele. Não devemos, pois, esperar que
ele bata em nós. Porém, tomemos isso por instrução, e que sejamos ensinados para a justiça, sempre
que houvermos citado o Profeta Isaías. E mesmo quando aprouver a Deus estender sua mão sobre
nós e nos afligir, que não fiquemos agastados pela sua correção, como diz o Apóstolo na Epístola
aos Hebreus (12.5). Mas, acima de tudo, saibamos que Deus nos convida para que venhamos a ele,
sim, venhamos de manhã, trazendo também um coração puro e reto para lhe suplicar que nos perdoe
as faltas. E, a exemplo de Davi (Sl 51.4), ele nos requer que nos limpemos de todas as nossas
máculas, conforme nos convém ser por ele lavados, para que possamos nos apresentar perante sua
face na pureza tal como ele no-la manda.
Agora nós nos prostraremos diante da majestade de nosso bom Deus...
Tradução de Vanderson Moura da Silva.
Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)
www.monergismo.com
Irmão João Calvino.
A Deus toda a Honra e Glória!