sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

SERMÃO SOBRE JÓ 8:1-6

Bildade, o suíta, respondeu e disse: Até quando enunciarás tais coisas? As palavras de tua boca
são como vento impetuoso. Perverterá Deus a justiça? Perverterá o Todo-Poderoso o direito? Se
teus próprios filhos pecaram contra ele, ele também os entregou na mão da sua falta. Porém, se
retornares a Deus a tempo, e rogar ao Todo-Poderoso, se fores puro e reto, decerto logo despertará
para ti, e restaurará a tenda da tua justiça.
Para bem aproveitarmos o que está aqui contido no presente capítulo, devemos nos recordar
do que já declaramos, a saber, que os amigos de Jó se ocupam com um mau caso, tendo, contudo,
bons argumentos e boas razões. É fato que eles o aplicam mal; entretanto, a doutrina em si é santa e
útil. Desta sorte, quando tomamos o que é dito aqui genericamente, descobrimos boas proposições.
E, com efeito, esta é a principal coisa pretendida por Bildade – sustentar que Deus é justo ao punir
os homens, e que não há motivo algum para o acusar. Ora, inqüestionavelmente, toda essa doutrina
não somente é boa, mas é ainda um dos principais artigos de nossa fé: não há erro, a não ser pelo
fato de Bildade querer aplicar suas palavras à pessoa de Jó. Pois, como já vimos, a intenção do
santo personagem não era acusar a Deus, tampouco se levantar contra esse. Queixa-se Jó, porém, de
que o mal que suportava era por demais enorme e pesado para ele caso se atentasse à sua fraqueza;
no entanto, nunca deixou de glorificar a Deus. Destarte, observamos que Bildade teve um mau caso;
sem embargo, o que ele expõe aqui é bom e justo, e devemos recebê-lo, porque é apropriado para a
nossa edificação. Como quando ele diz que os que pleiteiam assim contra Deus precipitam-se tal
qual o vento no ar. É verdade que devemos deixar a pessoa de Jó, como eu já vos disse; porém,
tomemos de forma genérica o que está contido aqui. Ouvimos como os maus e incrédulos vomitam
suas blasfêmias quando depreciam a justiça divina, dando a impressão de trovejarem e lançarem
raios. Mas, e o que é isso? Todas as suas palavras nada mais são senão vento, e se escoam, não
podendo atingir altura tal como a exibida pela majestade de Deus. Dessa maneira, nessa passagem
temos que reparar, em primeiro lugar, quando ouvirmos tais blasfêmias contra ele, não devemos,
todavia, ficar abalados a ponto de não o glorificarmos. Pois ele se mantém em sua inteireza, e os
homens não podem diminuir em nada a sua majestade; ainda que o maldigam de boca cheia, é o
mesmo que vento, o mesmo que vaidade. Quanto ao primeiro ponto, é isso. No tocante ao segundo,
que cada um de nós aprenda a falar de Deus com sobriedade e com toda reverência e humildade:
que não lancemos um vento tal como o de que se faz menção aqui. Porque, embora não saibamos
prejudicar a Deus de qualquer forma que seja, ele não deixará de se vingar dos que se esforçam de
se erguer contra ele desse modo, os quais proferem palavras de orgulho e presunção. O que se deve
fazer então? Se houvermos concebido em nossos corações o que as Escrituras nos ensinam, isso nos
conservará em verdadeira firmeza. Depois, quando falarmos segundo a medida de nossa fé, 1 então
não somente emitiremos belos sopros, mas Deus será exaltado e engrandecido em todas as nossas
* Trecho retirado e traduzido do original francês Sermons sur le Livre de Iob, do mesmo autor, com consultas à versão
inglesa. (N. do T.)
† Um dos principais nomes da Reforma Protestante, João Calvino (1509-1564) nasceu em Noyon (França). Tendo em
comum com o alemão Martinho Lutero o fato de também ter sido seminarista na juventude, deu prosseguimento à obra
desse, ensinando a doutrina e a aplicação da justificação pela fé somente em Cristo, como revelada nas Escrituras
Sagradas, empenhando-se em aplicar o ensino bíblico a todas as áreas da vida; não obstante, o sistema teológico
chamado calvinismo é mais estruturado que o luteranismo. Calvino estabeleceu-se em Genebra (Suíça), já que na
França do rei Francisco I não eram tolerados não-católicos. A igreja que ele pastoreava ali veio a se tornar um centro da
Reforma, a ponto de John Knox dizer que ela foi “a mais perfeita escola de Cristo desde os dias dos apóstolos”. Os
Sermões sobre Jó, os Comentários da Bíblia e as Institutas constituem o grande monumento do seu pensamento
teológico. (N. do T.)
1 Rm 12.3,6. (N. do T.)
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palavras.
Vamos agora ao ponto principal do que está dito aqui: Perverterá Deus o juízo e o direito?
O Todo-Poderoso subverterá a justiça? Somos aqui admoestados a dar a Deus esta honra: a de ser a
fonte de toda eqüidade e de todo o direito, que lhe é impossível fazer algo que não seja bom e justo.
Alguns bem podem atribuir a Deus todo o poder; entretanto, indevidamente, não o reconhecem
como sendo justo. Pois não devemos separar uma coisa da outra: não devemos imaginar que em
Deus haja coisas que possam ser divididas uma da outra. É verdade que nos é necessário distinguir
bem entre a sabedoria, a bondade, a justiça e o poder de Deus: não obstante, como ele é Deus, todas
essas coisas têm que estar nele, e elas são como que a essência dele. Guardemo-nos então de
imaginar um poder em Deus sem lei, como se ele governasse o mundo tal qual um tirano, como se
ele usasse de excesso ou crueldade. Conhecemos, porém, que, tendo tudo em sua mão, tendo um
poder infinito para criar as coisas, nem por isso deixa ele de ser justo. Ora, é verdade que tal justiça
de Deus está parcialmente oculta para nós e que não a compreendemos; contudo, é ela igualmente
oriunda do seu poder. Mas, se é assim, podemos mensurá-la em nossos sentidos ou em nossa
mente? Com certeza não. Desta sorte, pois, quando se nos é falado da justiça divina, notemos que,
malgrado ela não nos ser completamente conhecida e manifesta, devemos respeitá-la. É dito que
seus conselhos são um abismo; é dito que ele habita em uma claridade inacessível, que não
podemos nos alçar a uma altura tal que conheçamos o que nele está (Sl 36.8,9; Rm 11.33; 1 Tm
6.16). Mas, seja como for, devemos estar plenamente persuadidos de que é próprio de Deus, que é
da natureza dele fazer tudo em total integridade, que nada há a censurar. Vemos agora então como é
que devemos imaginar Deus. Quando os mundanos falam dessas coisas, é verdade que dizem ser
Deus o soberano Criador do mundo; entrementes, não admitem o que é próprio dele, nem a maneira
com que ele quer se manifestar a nós, a saber, em sua justiça, em sua bondade, em sua sabedoria e
em tudo que dele podemos apreciar, amando-o, honrando-o e servindo-o. E isso é o principal a que
devemos atentar. Pois o que ganharemos se conhecermos com sutileza ser isso da essência de Deus
e da sua gloriosa majestade e, no entanto, não entendermos o que dele devemos sentir por
experiência, bem como o que ele nos afirma? Como quando se diz que ele habita em nós, e que nele
vivemos, existimos e nos movemos (At 17.28), que sua misericórdia enche todas as coisas, que
somos sustentados por sua bondade (Sl 36.10), que temos tanta luz quanto ele nos dá e nada mais,
que é dele o remediar todas as nossas corrupções, que não podemos ter um só grão ou gota de
justiça caso não a possuamos dele, que é sua fonte. Então, se não conhecermos essas coisas, que nos
aproveitará saber que há um Deus que contém todas as coisas, bem como ter qualquer apreensão de
sua majestade? Por essa razão, então, devemos mais ainda reparar no que é dito aqui: a saber, que
tenhamos por princípio estabelecido que a natureza divina é justa, e que lhe é tão possível se desviar
do direito e da eqüidade quanto dizer que ele renuncia à sua essência, e que não é mais Deus. Pois é
tão absurdo dizer que este faz alguma coisa sem propósito quanto dizer que ele não existe ou que
sua essência está diminuída. E vedes também como São Paulo argumenta em Romanos 3, quando
apresenta esta blasfêmia que se pode lançar contra a doutrina que ele trazia. Como os homens estão
sempre cheios de veneno para murmurar contra a pura verdade de Deus, levantando-se contra ela
com contumácia e réplicas, São Paulo então pergunta (Rm 3.5,6): Deus é injusto? Ó! como seria
possível àquele a quem pertence julgar o mundo não guardar toda a justiça? Ali ele mostra, por essa
palavra “julgar”, que devemos todos ficar persuadidos de que Deus possui em apreço tal o direito
que tudo o que faz e tudo que dele procede é minuciosamente submetido àquela regra. Vemos então
que essa frase de São Paulo responde a isso. Porque sob este termo “Deus” Bildade compreende a
justiça e o direito, e mais ainda sob a palavra “Todo-Poderoso”. É como se ele dissesse: Podemos
despojar a Deus do que está tão unido à sua essência que não se pode separar de maneira alguma?
Isso seria abatê-lo e arrancá-lo de seu tribunal, reduzindo-o a nada, caso se queira pleitear contra ele
como se esse não fosse justo. São Paulo, em vez de simplesmente utilizar o nome de Deus, ou de
juntar a ele o título de Todo-Poderoso, introduz também o ofício, a saber, que “Deus é o Juiz do
mundo”. Ora, ele não é um Juiz à maneira dos que são corrompidos, como se vê os homens mortais
que atingem status bastante elevado e, não obstante a autoridade, abusam da mesma
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freqüentemente; porém, não se dá assim com Deus. E por quê? Porque aquele que é Juiz do mundo
não o é por aquisição, nem foi ele elevado por acaso, tampouco por conspiração ou suborno obteve
seu ofício; mas isso lhe compete por natureza, ele não é Deus sem ser ao mesmo tempo juiz. Sendo
assim, pois, que nada concebamos dele que não toda retidão, conhecendo bem que seu querer é a
regra soberana. Outrossim, como eu disse, tal justiça não nos pode ser manifesta a ponto de
podermos decifrar o que nela há, de sorte que, quando Deus operar, percebamos a razão disso. E ela
deveras não nos deve estar sujeita para que a queiramos submetê-la ao nosso critério. Então, quando
não acharmos bom o que ele faz, para onde iremos? Não é arrogância a das criaturas mortais, dos
pobres da terra, querendo obrigar Deus a lhes fazer saber o que são as suas obras e sobre elas
pronunciar sentença? Por que é para ser totalmente o contrário: posto que Deus nos oculta o motivo
do que ele faz, e que achemos estranhas suas obras, parecendo que temos de que litigar contra ele
segundo nosso discernimento, contudo, devemos respeitar profundamente seus juízos
incompreensíveis e secretos, recolhendo-nos totalmente em nossos espíritos em humildade tal que
digamos: Eis que é verdade que agora isso nos aparente ser inteiramente contrário a toda a razão,
mas e aí? Não ganharemos a nossa causa contra Deus. Depois, sem réplica adicional, devemos
chegar a esta conclusão: que ele é justo. Então, visto que ora vemos isso em parte, como em um
espelho, de forma obscura (1 Co 13.9-12), aguardemos o dia em que poderemos contemplar face a
face a glória de Deus; e então entenderemos o que ora se nos está escondido.
Eis então como Deus quer exercitar a nossa fé: isto é, levar a confessarmos que sua justiça é
tal que se desconhece em que a censurar ou criticar. Digo que ele nos levará a confessar isso,
conquanto não o percebamos, e conquanto não o conheçamos plenamente e cada um tenha seu
argumento para disputar com Deus o porquê de ele ter feito assim. Então, embora não enxerguemos
tais coisas, temos que ter a humildade de atribuir a Deus o que a ele pertence. E, se agirmos de
outro jeito, é como se quiséssemos reduzir, tanto quanto está em nós, sua essência imortal a nada.
Ora, quando o tivermos bem impresso em nossos corações, isso já será um bom começo para nos
submetermos à mão de Deus, de tal forma que, embora ele nos aflija e nos trate com mais rudeza do
que gostaríamos, contudo, sejamos pacientes em nossas adversidades. Por quê? Porque aquele que,
sofrendo o mal, subleva-se, precisa saber o que é se levantar contra Deus, e que não pode se agastar
contra Deus, que não resista a todo direito e eqüidade. E qual será o resultado de uma semelhante
causa senão confusão e ruína? Vedes então um freio para nos conservar na paciência, que é este
conhecimento que devemos ter da justiça de Deus. Pois batalhamos para a nossa própria perdição ao
resistir desse modo a todo o direito. E, quando nos zangamos em nossos dissabores, fazemos guerra
contra Deus, querendo perverter sua justiça e reduzi-la a nada. Não obstante, é preciso que
passemos para mais além para sermos bem pacientes. E por quê? Porque não deixaremos de ser
tentados ao desespero, mesmo conhecendo a justiça de Deus. Eis um pobre pecador que se sente
oprimido ao máximo: bem, ele confessará (sim, sem fingimento) que Deus é justo em o punir;
porém, ele tem a impressão de que deve perecer, e que não há mais remissão em seu caso. Vedes
então como aquele que é visitado pela mão de Deus pode cair em desespero, ainda que reconheça
que esse é justo. E vemos, de fato, o que adveio a Jó. É verdade que ele não ficou totalmente
desprovido de paciência, mas não deixou de estar atormentado por horríveis paixões, como nós já
vimos, e veremos doravante. Ora, é certo que ele não ficou em dúvida se Deus não era justo, mas
ele atenta à sua enfermidade: Senhor, eu sou tão frágil e, no entanto, tu empregas contra mim a tua
força; porém, que sou eu? Parece que tu queres aqui fulminar uma pequena criatura que é inferior a
um verme. Eis, pois, com o que Jó se acha irritado e angustiado: é que ele não pode experimentar,
logo de início, que Deus o assiste no meio da sua severidade e que, posteriormente, dar-lhe-ia um
final bom e feliz, como ele o desejava. Verdadeiramente, Jó tinha algum senso disso; entretanto,
estava tão atribulado pela tristeza que não podia logo de cara mudar e se livrar dela. Vedes, pois,
como Jó é em parte impaciente, apesar de ser ele apresentado a nós como um exemplo de paciência.
Todavia, qual a razão de suas aflições serem tão veementes que ele se descoroçoa? É por ele não
possuir uma apreciação tal do desvelo paternal que Deus tem por ele como a que seria necessária.
Por isso, digo que conhecer a justiça de Deus e dela estar plenamente persuadido deve nos induzir à
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paciência; porém, temos que ir para um segundo ponto, qual seja, que julguemos sempre que Deus,
ao nos afligir, não deixa de nos amar. Sim, e que proverá a nossa salvação seja qual for o rigor que
use para conosco; que todas as nossas aflições serão atenuadas por sua graça, e que ele dará um
desfecho desejável.
E, depois de Bildade haver falado assim, ele adiciona: Teus filhos pecaram, e Deus os envia
ao lugar da iniqüidade deles; porém, se tu de manhã regressares a ele, ele se despertará para
contigo, ou, ele fará voltar o bem. Por meio disso ele quer dizer que Deus colocou diante dos olhos
de Jó um belo espelho, com o fito de que esse não mais se elevasse, nem se fizesse de cavalo
desembestado, visto que os que são assim rebeldes contra Deus ficam confusos, e devem perecer
totalmente. Na segunda parte há uma promessa de que Deus ainda o espera, e que o queria trazer ao
arrependimento e que, durante esse tempo oportuno, ele devia se apressar. Eis então os dois pontos
principais que são aqui mencionados por Bildade. Mas já vos dissemos que isso se aplica mal à
pessoa de Jó. Por quê? Porque se trata de um caso ruim, embora bem manejado. Portanto,
peguemos isso como doutrina geral, a fim de que cada um de nós, na sua medida e segundo a sua
necessidade, aplique-a para si. É dito aqui que Deus pune os que contra ele se rebelam; e com isso
nos quer humilhar, para que não demos rédeas à fraqueza de nossa carne, visto como estamos
cheios de licenciosidade. Quando se trata de despeitar a Deus, fazemo-lo com menos dificuldade do
que quando nos voltamos contra alguém que seja nosso inferior ou nosso igual. Vedes, digo eu, a
audácia diabólica que reina em todo o mundo: qual seja, que quem teme uma criatura mortal e não a
quer ofender, contudo, provocará a Deus insolentemente, sem escrúpulo. Em conseqüência,
guardemos bem esta instrução que nos é aqui mostrada, a saber, que, sempre que Deus pune os
maus, sempre que realiza algum ato de vingança horrível, é para que abaixemos nossas cabeças, é
para que grandes e pequenos fiquem de boca fechada, é para que não mais tenhamos a presunção de
vir pleitear em processo contra Deus; mas para que saibamos que, como sucedeu aos que vemos
perecer dessa maneira, assim nos sucederá se os seguirmos. E eis porque é dito nas Escrituras que
Deus, ao executar seu juízo, ensina justiça aos homens. O Profeta Isaías (26.9) revela através disso
que, enquanto os pecados ficam impunes, os homens se endurecem e se divertem diante disso, e a
eles parece que escaparam da mão do juiz. Em suma, não há mais nenhum medo nem pudor neles;
porém, assim que Deus se assenta em seu tribunal, dando demonstrações de seu juízo, ficamos
assombrados, exprimindo tal terror que ficamos abatidos debaixo dele, e isso serve para nos
restringir. Vedes, pois, como os julgamentos que Deus exerce sobre os maus nos devem servir de
lição, para que cada um se renda sob a mão divina. E isso é o que é dito também nessa passagem.
Realmente não devemos determinar se os filhos de Jó são ou não condenados, e mesmo que
haja mais verosimilhança que Deus os enviou somente uma punição temporal para salvar suas
almas para sempre. Porque vimos acima a concórdia que existia entre eles: as Escrituras não nos
falam deles como falam dos filhos de Eli (1 Sm 2.12). Por outro lado, vimos que Jó fazia sacrifícios
solenes quando terminava os banquetes deles, e não há nenhuma dúvida, como foi afirmado, de que
eram exortados a pedir perdão a Deus e que se juntavam a seu pai nesse ato. Sendo assim, não
podemos sentenciar que os filhos de Jó foram reprovados; e sabemos que por vezes Deus, por um
meio violento, tira deste mundo aqui até os principais que elegeu e ordenou à salvação, tratando-os
de tal maneira que o castigo que lhes envia é convertido em salvação. Desse modo, faz com que os
corpos pereçam por um tempo, para que suas almas sejam salvas eternamente. Então, isso pode ter
advindo aos filhos de Jó. Contudo, como eu já disse, não devemos levar em conta aqui as pessoas,
devemos receber apenas a doutrina, a saber, que todas as vezes em que Deus estende seu braço para
punir os pecados do mundo, não há alguém dentre nós que não deva tremer; e, quando tivermos nos
desviado de nosso dever, e o diabo nos tiver como que nos enfraquecido, a ponto de sermos levados
para cá e para acolá, temos ainda que recorrer a Deus, sabendo que nos castiga encarregando outros
disso, e que a tal devemos contemplar como que sentindo o quanto é horrível a sua ira sobre todos
os que assim se levantam e a ele resistem. Eis o porquê de São Paulo, dirigindo-se aos fiéis, dizerlhes
(Ef 5.6): “Que ninguém vos ludibrie por palavras vãs, posto que por essas coisas a ira de Deus
sói sobrevir aos incrédulos”. É fato que os homens se iludem ao dissimular seus pecados, como
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vemos essas bestas diabólicas dos tempos que correm, de modo que, se alguém fala de lascívia, terá
isso como pecado natural: Ó, é da natureza. E, caso se fale da embriaguez, dirão: Deus deu o vinho
e não quer que se alegrem com esse? Vedes então como os homens se embrutecem e vomitam suas
blasfêmias contra Deus, tão-somente procurando certos subterfúgios para se auto-enganarem em
suas faltas e iniqüidades. E por essa causa São Paulo diz: “Meus amigos, não vos enganeis por essas
palavras profanas”. Ele não diz: “Porque a ira de Deus virá sobre vós, vós perecereis”. Porém, ele
diz: “Conheceis o que Deus vos mostra, vós tendes belos exemplos”. Sempre que Deus castiga os
dissolutos, os incrédulos, os desobedientes, os rebeldes e toda gente dessa laia, ele vos quer mostrar
que mal algum fica sem punição. Dessarte, pois, preveni-vos da vingança dele, não esperando que
ela se lance sobre vós, mas tirai proveito das instruções que ele vos dá de longe. Então, quanto a
essa frase em que nos é exposta a correção mandada por Deus, a fim de que saibamos que ele envia
todos os rebeldes ao local da iniqüidade deles, é isso.
Ora, é verdade que se encontra pessoas tão tolas e mentalmente perturbadas que querem
sustentar a causa dos maus contra Deus. Mas, assim que Deus tiver posto a mão sobre suas
criaturas, aprendamos a confessar que ele é justo, não obstante não conhecermos o porquê do que
ele faz. E isto está em conformidade com o que declaramos mais completamente: que, se há
pecados notórios punidos diante de nossos olhos, saibamos que Deus nos adverte, colocando-o
diante de nós como figuras vivas, segundo fala São Paulo em 1.ª aos Coríntios 10.6. De sorte que,
se virmos um homem cheio de blasfêmias, um desprezador de Deus, que de jeito nenhum aceita
levar jugo e disciplina – em suma, que seja de todo incorrigível; se virmos algum homem profano,
alguém lascivo e rebelde, um homem de vida má e dissoluta, se virmos um beberrão, se virmos um
mau que nada quer senão ludibriar alguém, despojando-o de seu sustento e Deus cumprindo e
executando suas vinganças declaradas em sua Lei, saibamos que são também provas de que não
devemos brincar com ele, nem acreditar que se tratam de ameaças de criancinhas as palavras que
saem de sua boca, pois o resultado delas lhes está conectado. Caso não vejamos a causa aparente e
visível, saibamos, entretanto, que, quando usar de rigor muito maior para conosco, não devemos,
todavia, inquirir, dizendo: Por que ele age assim? Nós não sabemos, e não devemos presumir que o
sabemos enquanto estivermos neste mundo. Isso, pois, é o que temos que observar e ter na
memória: a saber, que, quando virmos as calamidades e aflições que Deus envia a este mundo,
reflitamos se há pecados que nos são patentes, para que aprendamos a nos entregar a Deus em
submissão, sujeitando-nos a ele, sim, e que cada um se examine para não fique envolvido em
semelhante condenação. Vamos agora ao segundo ponto: qual seja, que, se Deus nos visita neste
mundo, fazendo-nos definhar, conquanto sejamos oprimidos com tanta força que nossa vida nos
esteja mais lastimosa e amarga que qualquer morte, sem embargo, ele nos dá ocasião para
penitência, e se regressarmos a ele sem tardança, descobriremos que ele está totalmente preparado
para nos receber, e que tornará a morada de nossa justiça pacífica, sim, caso venhamos a ele com
orações, portando ainda um coração puro e reto. Essa é uma doutrina boa e útil: porque os homens
são admoestados a bem reconhecer a graça que Deus lhes faz, bem como a mercê que lhes oferece
quando não os elimina totalmente logo de início, mas os deixa vivos. É fato que um langor tal como
aquele em que Jó se encontrava será de longe mais duro e penoso que a morte. E vemos igualmente
que, quando esse não olha mais senão ao seu próprio estado, queria ser enforcado (porque eis como
ele fala disso), no entanto, se lançarmos nosso olhar para o resultado que Deus contemplava, para o
fim que ele também nos propõe, descobriremos então que todas as nossas tristezas serão mitigadas.
E por quê? Porque experimentaremos que ele ainda tem piedade de nós. Peguemos o caso de um
homem que se sinta aqui como que no seu inferno e que, em vez de ser consolado, tenha o horrível
pavor de experimentar que Deus lhe seja contrário, seu inimigo mortal: que tenha como que sobre si
um fogo alumiando em sua alma; bem, quando um pobre homem estiver em tal pesar e, além disso,
por um lado, sofrer na pele a ignomínia e, por outro, grandes dores e assaltos insuportáveis, é
verdade que esse pobre homem, à primeira vista, pode suspirar a morte e a almejar, sim, que, se for
preciso passar pelo fogo, pela água e pelo alfange, não poderia pedir coisa melhor. Como vemos
nosso Senhor Jesus Cristo dizendo que os que estão assim tomados deste medo de Deus quereriam
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que as montanhas caíssem sobre si, que o mundo desmoronasse para os destruírem (Lc 23.30). Mas,
e aí? Se tivermos este pensamento: “Se meu Deus me apresenta aqui sua misericórdia, ele quer que
eu me aproxime dele, pois todas as vezes em que somos afligidos por sua mão, ele nos chama a si
com uma voz doce e afável, exortando-nos para vir a ele com a promessa segura de que se
demonstrará benigno e compassivo para conosco”, isso servirá para moderar as nossas tristezas
todas. Em vista disso, então – que em nosso desfalecimento ainda temos alguma esperança – não
devemos assim aceitar o bem que Deus nos faz, sentir algum alívio do peso de nossos males,
malgrado ser isso excessivo e parecer que não temos os ombros para os suportarem? Percebemos
agora o quão útil nos é tal doutrina quando temos o discernimento de nos apropriarmos dela: isto é,
que no fim saberemos que Deus nos deixa ainda um remédio que nos é de serventia, que nossas
moléstias não são insanáveis, sim, contanto que recorramos a ele. Daí temos que depreender uma
máxima geral: a saber, que Deus ainda tem compaixão dos homens quando os castiga por seus
pecados, jamais utilizando rigor tão grande que não haja sempre misericórdia misturada com ele. E
por quê? Porque são como que as citações que ele nos faz para que compareçamos diante dele, para
que, ao senti-lo como nosso juiz, refugiemo-nos em sua graça e misericórdia infinitas, não
duvidando de que ele se revelará como pai a todos os que houverem a ele recorrido. E podemos ver
aí a ingratidão do mundo. Pois que as aflições são universais, e não há quem não tenha sua parte
nelas; não passamos pela vida presente sem que Deus nos castigue de várias maneiras: digo, cada
um de nós, e todos em geral, vêem como Deus nos visita. Não obstante, quem pensa em retornar a
ele? O número desses é bem pequeno e difuso. Conhecemos então a ingratidão que há em nós, que,
apesar de Deus nos chamar, não querendo que pereçamos, somos rudes, repelindo todas as
advertências que ele nos dá. E também essa doutrina nos deve ser de proveito para que esperemos
em Deus, pois, mesmo que sejamos perseguidos neste mundo, ele não nos deixa cá embaixo sem
continuamente nos chamar de volta para si, não querendo que fiquemos frustrados quando
chegarmos a tal ponto, sim, contanto que venhamos para dele obter todo recurso. Assim, pois,
confiemos ousadamente que nosso Deus ser-nos-á propício, e agradeçamos a ele por não nos ter
tirado da presente vida no primeiro golpe, mas nos haver dado tempo suficiente para pensarmos em
nossos pecados, desgostando-nos desses e voltando para ele.
Vamos agora à consolação aqui inserida: Se vieres de manhã a ele, e tu o buscares com
orações, sendo reto e puro, ele despertará para contigo. Isto foi particularmente adicionado porque
os homens se mantêm pertinazes e, embora Deus os incite a regressarem ao caminho da salvação,
eles não pensam nisso. Eis por que é especialmente dito que não devemos recalcitrar contra o
aguilhão, agindo qual cavalos renitentes ou agindo como estúpidos. Em suma, que possuamos esta
presteza que Deus nos ordena (Sl 32.9), tal como se diz, e devemos vir a ele de manhã, isto é, não
devemos tardar nem desperdiçar o tempo, como o vemos fazer esses zombadores de Deus. Ó, dizem
eles, só é preciso um bom suspiro, sim, como se tivessem suas vidas à disposição (en leur manches)
e tivessem promessa garantida do tempo que devem permanecer no mundo, como se o
arrependimento estivesse na capacidade do homem e esse pudesse se converter à vontade, sempre
que desejasse, e como se isso não fosse um dom especial de Deus. Porém, tal é algo tão sagrado e
precioso que não devemos desperdiçá-lo. Ponderemos então, vendo o mundo sempre
procrastinando, querendo fazer como os maus pagadores, os quais, quando ganham algum
alongamento de prazo, dormem sossegadamente até à chegada do último dia. Assim, digo, dá-se
com os mundanos: quando Deus lhes prolonga a vida, esperando que se arrependam, aqueles não
querem refletir sobre isso até a hora em que perecem vergonhosamente. Então, para que não ajamos
dessa forma, é dito que retornemos a Deus de manhã. Ora, para resumir, há aqui três coisas em que
devemos bem reparar: uma é que, tão logo Deus nos visite, recorramos a ele apressadamente, não
aguardando até amanhã cedo. Isso é um ponto. O segundo é: venhamos a ele com oração,
condenando a nós próprios por nossas faltas, com o fito de lograr dele perdão e clemência. O
terceiro, que nossas orações não sejam feitas hipocritamente, mas tragamos um coração direito e
puro. Vedes as três coisas que nos estão aqui expostas. É verdade que não as podemos entregar
todas agora, mas, para que tenhamos um apanhado de toda essa doutrina que expusemos, que esses
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três pontos fiquem bem gravados em nossa memória. Resumindo, aprendamos a nos humilhar sob a
potente mão divina, como nos exorta o Apóstolo (1 Pd 5.6). E aprendamos com isso que ele é justo,
sim, tão justo que, quando executar ele juízos que nos sejam desagradáveis, não deixemos de
confessar que ele tudo faz em direito e eqüidade, que fechemos a boca para não apresentar nada
contra ele. E que não somente conheçamos que essa justiça está em Deus, mas que façamos
proveito dela, ou seja, quando ele punir os rebeldes, os desprezadores de sua majestade, os que são
totalmente incorrigíveis, saibamos que isso nos convida para ele. Não devemos, pois, esperar que
ele bata em nós. Porém, tomemos isso por instrução, e que sejamos ensinados para a justiça, sempre
que houvermos citado o Profeta Isaías. E mesmo quando aprouver a Deus estender sua mão sobre
nós e nos afligir, que não fiquemos agastados pela sua correção, como diz o Apóstolo na Epístola
aos Hebreus (12.5). Mas, acima de tudo, saibamos que Deus nos convida para que venhamos a ele,
sim, venhamos de manhã, trazendo também um coração puro e reto para lhe suplicar que nos perdoe
as faltas. E, a exemplo de Davi (Sl 51.4), ele nos requer que nos limpemos de todas as nossas
máculas, conforme nos convém ser por ele lavados, para que possamos nos apresentar perante sua
face na pureza tal como ele no-la manda.
Agora nós nos prostraremos diante da majestade de nosso bom Deus...
Tradução de Vanderson Moura da Silva.
Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)
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Irmão João Calvino.
A Deus toda a Honra e Glória!

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