sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

SERMÃO SOBRE JÓ 1:9-12

Mas Satanás respondeu ao Senhor, dizendo: Acaso é por nada que Jó teme a
Deus?Porventura não tens posto uma sebe em volta dele, da sua casa e de tudo o que ele
tem? Tens abençoado o trabalho das suas mãos, e os seus bens multiplicam-se na terra. Mas
estende a mão agora, toca em tudo quanto ele tem, e ele te amaldiçoará no teu rosto! Disse o
Senhor a Satanás: Eis que tudo o que ele tem está ao teu dispor; somente contra ele próprio
não estendas a tua mão. E saiu Satanás de diante do Senhor.
Embora o Diabo aqui esteja fazendo seu mister, que é o de perverter todo o bem,
acusando falsamente a Jó, como se este fosse um hipócrita, sem embargo, ele descobre o mal
que existe voluntariamente nos homens, ao qual somos inclinados por natureza. Pois, como é
astuto e velhaco, sabe bem de que lado nos atacar. Reparemos então que aqui o diabo revela
um vício pelo qual estamos todos manchados até que Deus nos cure dele por sua graça: isto é,
que nos períodos de prosperidade conseguimos bendizer a Deus. Contudo, se esse nos aflige,
mudamos a conversa e então começamos a murmurar contra ele, esquecendo-nos de todo o
louvor que lhe atribuíamos enquanto nos tratava segundo nosso desejo. Desta forma, há
muitos hipócritas que só são conhecidos e descobertos quando Deus os aflige. Porque,
enquanto estão na comodidade e no descanso, não demonstram a rebelião que neles há, ela
fica oculta. Eis por que as Escrituras nos mostram com tanta freqüência que Deus prova os
seus, examinando-os por meio das aflições, colocando-os na fornalha qual ouro, não apenas
para serem purgados, mas também para serem conhecidos (1 Pd 1.7). Pois as aflições têm
duas utilidades: uma delas, mortificar Deus os vícios que existem em nós. Quando ele nos
aflige, somos domados, ele manda que nos retiremos deste mundo e que não sejamos dados às
nossas volúpias e delícias carnais. A outra é que, tal como na fornalha o ouro é provado, para
que se conheça se há escória, assim também Deus revela o que nós somos ao nos atribular.
Porque os homens não conhecem a si próprios antes de serem assim provados. Antes de
havermos passado pela peneira, temos a impressão de que tememos a Deus, de que não há o
que censurar em nós; não obstante, há as imperfeições que nos são desconhecidas. Ele no-las
revela, ele faz com que a sintamos quando envia alguma angústia, algum desgosto, e então
percebemos qual é a nossa fraqueza. Ora, se Deus faz com que as aflições de seus fiéis sirvam
como um espelho no qual esses se contemplam, com mais forte razão mostrará aos outros os
seus, se há nos corações destes fé e obediência, se são hipócritas ou se o servem em verdade.
Isso é o que temos para observar nessa passagem; e, de fato, a experiência no-lo demonstra.
Pois vemos muitos assim, os quais, quando Deus lhes envia tudo que lhes apetece, sua fala é
doce como açúcar, segundo se diz, esse bom Deus será tão louvado por suas maravilhas, sim,
quando encontram seus pratos cheios, nada lhes faltando, Ó, lhes é bastante fácil confessar
* Trecho retirado e traduzido do original francês Sermons sur le Livre de Iob, do mesmo autor, com
consultas à versão inglesa. (N. do T.)
† Um dos principais nomes da Reforma Protestante, João Calvino (1509-1564) nasceu em Noyon
(França). Tendo em comum com o alemão Martinho Lutero o fato de também ter sido seminarista na juventude,
deu prosseguimento à obra desse, ensinando a doutrina e a aplicação da justificação pela fé somente em Cristo,
como revelada nas Escrituras Sagradas, empenhando-se em aplicar o ensino bíblico a todas as áreas da vida; não
obstante, o sistema teológico chamado calvinismo é mais estruturado que o luteranismo. Calvino estabeleceu-se
em Genebra (Suíça), já que na França do rei Francisco I não eram tolerados não-católicos. A igreja que ele
pastoreava ali veio a se tornar um centro da Reforma, a ponto de John Knox dizer que ela foi “a mais perfeita
escola de Cristo desde os dias dos apóstolos”. Os Sermões sobre Jó, os Comentários da Bíblia e as Institutas
constituem o grande monumento do seu pensamento teológico. (N. do T.)
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que Deus é bom. Contudo, se ele começa a lhes tratar rudemente e as coisas não vêm do seu
agrado, eles se aborrecem. Se Deus continua a proceder com severidade ainda maior, então
irrompem em murmuração, sim, arrotando blasfêmias contra ele; mesmo que não as
pronunciem pela boca, seu coração está repleto de veneno, de maneira tal que seguram sua
cólera, indignando-se contra Deus por ele não os tratar da forma como querem. Vedes então
como, na época de prosperidade, há muitos que bendizem a Deus, mas isso não é senão
hipocrisia dos que não querem fazer isso, pois são piores que aqueles que se iludem de tal
modo que ignoram seus vícios. Sendo assim, pois, reparemos que Satanás considerou aqui os
males pelos quais os homens estão maculados. Percebemos também com que inimigo temos
que lidar: ele nos espreita e espia de todos os lados para ver onde consegue uma entrada para
nos ferir. Em vista disso, então, atentemos bem que, quando tivermos louvado a Deus e o
tivermos servido no tempo de prosperidade, isso não é tudo: porém, devemos nos preparar
para, quando aprouver a Deus nos atormentar e nos submeter a muitos males e misérias,
apesar disso, açaimarmo-nos, para termos essa humildade de a ele nos subjugarmos, para
sermos pacientes e calmos para receber todas essas correções. Se não chegarmos a tal prova,
quer dizer, se não formos pacientes quando Deus nos afligir, todo o serviço que lhe fizermos
não será grande coisa. É verdade que Deus aceita bem os seus nos tempos de prosperidade;
mas, em qualquer caso, devemos considerar a razão por que nos faz passar por essa peneira de
aflições. Por conseguinte, então, temos que guardar bem essa doutrina aqui. E, de resto,
quando é dito aqui que os homens, estando atribulados por aflições, maldirão a Deus na face,
é verdade que tal não se dá ao primeiro golpe, pois ainda há alguma reverência a Deus
gravada em nós, tal que suportamos algum descontentamento. Bem, nós gemeremos em
segredo, nós ficaremos contrariados e agastados, mas abrir a boca para blasfemar de Deus
ainda nos horroriza. Quando estivermos assim entristecidos e o mal aumentar ou perdurar por
tempo demasiado, então se acende como fogo a nossa impaciência e começamos a vomitar o
que antes estava abrigado em nossos corações. Vedes como, com o tempo, os que são
afligidos maldirão a Deus na face, ou seja, extravasando além da medida, não mais
apreendendo a majestade divina para se humilhar debaixo dela, não sabendo que, se forem
rebeldes, não mais terão essa apreensão de seu juízo que os impediria de ultrapassarem os
limites. Desta sorte, temos bom motivo para orar a Deus, a fim de que faça refrear tanto
nossas línguas quanto os nossos corações e que nunca permita que incorramos nesse excesso
de o maldizer abertamente: mas, em vez disso, que o resultado dos castigos que ele nos envia
seja tão ditoso que se nos torne em proveito e salvação, visto ser esta a sua intenção quando
nos aflige. Eis o que temos que depreender dessa passagem.
Observemos, porém, que Satanás, embora seja o pai da mentira, fala aqui a verdade
quando diz que Deus era como uma muralha para Jó, e que guarnecia sua casa de todos os
lados, e que ele o fazia prosperar. Vedes como ele se transfigura em anjo de luz (2 Co 1.14).
Porque, estando diante de Deus, ele tem que expor as coisas como são, pois não há lugar para
se valer de tais embustes, como usados com os homens para os ludibriar. Desse modo, Satanás
pega princípios que são verdadeiros, só que para os aplicar mal, porque ele nada quer senão a
perdição de Jó. Ora, ele diz que Deus era para esse uma defesa. Saibamos então que, para
sermos sustentados neste mundo, Deus deve colocar nisso a mão: pois o que é a nossa vida, e
a quantas necessidades ela está sujeita? Não podemos então subsistir um minuto se não
formos conservados pela graça divina. De igual maneira, tudo o que possuímos precisamos ter
de Deus, que nos abastece. Com efeito, quem é que fala aqui? Satanás, o mesmo que virá nos
arruinar inteiramente se não estivermos, por assim dizer, bem murados, se Deus não nos servir
de baluarte, como ainda veremos no decorrer do texto. Porque, tão logo Satanás obtém sua
permissão, vemos como ele pilha todos os bens de Jó, e com que impetuosidade ele o faz.
Antes, então, era preciso que Jó estivesse munido da graça de Deus e que ela lhe servisse de
muralha em todo o derredor. Ora, essa doutrina é-nos bem útil, pois somos admoestados
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através dessa para orar a Deus para que se compraza em nos guardar, visto que, estando neste
mundo, estamos como que em uma floresta cheia de bandidos. Eis também porque nas
Escrituras estes títulos aqui lhes são atribuídos: nosso escudo, broquel, muralha, trincheira,
baluarte, bastião, torre e fortaleza. Porque é que as Escrituras usam tantos termos para denotar
que a proteção de Deus é forte? É para que sejamos ensinados que sem ele pereceremos cem
mil vezes por dia e que ele deve velar incessantemente pela nossa segurança. Vedes, pois,
como eu disse, que é necessário que os homens saibam que sua vida nada é, que ela é mais
frágil que qualquer outra coisa, que ela está sujeita a uma infinidade de mortes, de modo que
através disso apela-se a eles para que orem a Deus a fim de que ele os guarde. E, quando tiver
chegado aquele dia de suas vidas, necessariamente conhecerão que Deus os sustentou, e
atribuir-lhe-ão o louvor de tudo. Isso é o que temos a observar nessa passagem. Ora, se
Satanás, que é o inimigo de toda verdade, confessa que é Deus a muralha dos homens (e é
constrangido a falar assim, como se estivesse sob tortura), considerando que Deus nos faz
provar a sua virtude, fazendo com que a sintamos, que ingratidão será se fizermos confissão
inferior à de Satanás, o qual, por suas mentiras, nada mais quer senão empanar, sim, anular
totalmente a graça divina, com o fito de que esta fique desconhecida? Desse modo, pois,
vemos que os que não refletem sobre essa proteção de Deus são piores que o diabo, e
forçosamente se tornam embrutecidos, sim, de todo enfeitiçados. Quanto a essa frase, é isso.
Subseqüentemente, é dito que Deus deu permissão a Satanás para fazer o que bem lhe
parecesse sobre todos os bens de Jó, menos tocar na pessoa desse. Aqui, à primeira vista,
pode-se admirar de Deus permitir que Jó, seu servo, ficasse ao arbítrio de Satanás. Convém
que o diabo tenha tal crédito para com Deus, que, quando pede licença a esse para nos fazer
mal, seja-lhe outorgada? E dá a impressão que Deus lhe favorece, dá a impressão que Deus,
no entretempo, brinca conosco como que com uma bola. Reparemos, porém, que, quando
Deus permitiu isso a Satanás, não foi para o agradar, ele não foi movido pelo pedido de
Satanás, tampouco induzido a consentir que Jó fosse afligido daquele jeito. Ele já havia
decretado isso em seu conselho antes de Satanás haver emitido qualquer palavra, antes de esse
haver feito tal pedido: Deus queria afligir seu servo, e o queria por causa justa, a qual nos foi
desvendada. Contudo, quando ela nos for desconhecida, devemos abaixar a cabeça, dizendo
que Deus é justo e imparcial em tudo o que faz. Este, então, é o primeiro ponto que temos que
notar, a saber, que Deus aqui não atendeu Satanás como se fosse movido por suas solicitações:
porém, pela sua boa vontade, querendo afligir Jó, concedeu a Satanás o que pediu. Sim, para
envergonhar a esse e para obter um triunfo maior contra ele, deixando-o confundido. Pois esse
calculava que Jó amaldiçoaria a Deus na face, isto é, blasfemaria de boca cheia quando fosse
maltratado daquela forma severa. E por que agiu assim? Porque Satanás leva em conta quem
nós somos, a saber, que logo nos derramamos como água, que nossa virtude nada é.
Entretanto, ele não apreende a graça de Deus, o quanto ela é forte e invencível em nós. É
verdade, apesar disso, ele a sente e experimenta, no entanto, não a conhece. E vedes como ele
se engana, vedes sobre o que ele faz o seu cálculo: que, quando consegue ter sua licença para
nos atormentar, seremos logo vencidos, seremos de imediato tragados pela tristeza e que,
nesse desespero, blasfemaremos de Deus. Eis o que Satanás espera e o que ele tenciona. Sim:
mas Deus lhe resiste, e zomba dessa sua esperança, visto que interpõe antes a graça de seu
Espírito Santo e Satanás fica confuso ao ver que não pode atingir aquilo que queria tentar
contra os servos de Deus, que tudo resultou no contrário, no oposto de sua intenção. Assim
sendo, Deus, conhecendo qual seria o resultado das aflições de Jó, havia determinado em seu
conselho afligi-lo, sim, sem ser incitado a isso por Satanás. Mas por que, então, as Sagradas
Escrituras nos dizem aqui que isso foi feito por requisição de Satanás? Ora, isso se dá por dois
motivos. Primeiro, para que, quando formos vergastados por Deus, saibamos que é Satanás
quem o solicita, sim, para com isso nos colocar em desespero. E São Paulo nos revela tal
coisa no trecho que citamos dias passados (Ef 6.12), que guerreamos contra as potências
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espirituais, não contra a carne e o sangue. Então, assim que nos sobrevier algum mal,
saibamos que Satanás o maquinou, a fim de que resistamos a ele pela fé e estejamos munidos
e armados do poder de Deus, conhecendo que aquele têm um tão grande poder contra nós,
para que recorramos àquele que pode nos fortalecer. Eis, pois, a que as Escrituras se referem.
Depois, em segundo lugar, ele também nos quer mostrar a paternal bondade de Deus
para conosco ao nos sustentar como seus filhos, não dando a licença que nosso inimigo bem
desejaria ter sobre nós e também não deixando que ele tenha prazer em nos afligir, pois não
sabe esse que isso é apropriado para a nossa salvação. Verdade é que devemos ter isto como
algo inabalável: se não soubermos o porquê de Deus nos afligir, todavia, confessemos sempre
que ele é justo. No entanto, devemos ainda ter esta doutrina gravada em nossos corações, a
saber, que Deus nos ama tão ternamente que não quer senão nos abater, nos poupar, nos ter
como que em seu regaço – eis como as Escrituras falam disso. Agora, pois, quando vemos
Satanás querendo acender o fogo, pedindo a Deus que Jó seja perseguido, notemos que as
Escrituras nos revelam que Deus não nos trata tão severamente à toa, que não é para sermos
perseguidos por nosso inimigo, visto que ele não quereria outra coisa que não nos ter em
repouso e comodidade se nos fosse conveniente: mas porque é bom que sejamos assim
exercitados pelas aflições, sim, pelas mãos de Satanás. Então Deus a permite, posto que ele
sabe ser bom e proveitoso para nós. Isso, digo eu, é o que temos a observar. Ora, sendo assim,
tomemos um exemplo diverso. No primeiro livro dos Reis, no último capítulo, também se fala
de como ele realiza suas conferências decisórias (a tenu ses assises), há uma descrição tal
como está aqui, que o Profeta viu a ele, o qual estava assentado sobre seu trono e que lá
perguntava: “Quem enganará Acabe por mim?” Satanás não se antecipou a Deus nesse caso,
não veio dizer: “Se me deres permissão para iludir Acabe, eu farei tudo o que quiseres”.
Porém, é Deus quem inicia, dizendo: “Ó, encontrarei eu um espírito de mentira que vá
ludibriar Acabe? Porque quero que ele submerja até às profundezas do inferno”. Ora, por que
ele fala desse jeito? Porque se trata de executar uma justa vingança contra um hipócrita, um
desprezador cheio de crueldade, um inimigo mortal de todo bem. Este é Acabe, que perverteu
totalmente o serviço de Deus, que o profanou totalmente com seus ídolos, estando cheio de
rebelião e de maldade contra os Profetas e não querendo dar ouvidos a admoestação alguma.
Ao ficar esse endurecido dessa forma em suas depravações, de modo tal que nada se ganhava
ao querer trazê-lo de volta ao reto caminho, havendo Deus tentado tudo e visto que é um
homem perdido, então ele convoca uma reunião para deliberar (tient ses assises),
perguntando: “Quem enredará Acabe?” Porque Deus quer ali cumprir seu ofício de juiz.
Percebemos então que, quando Deus quer punir os maus e executar contra ele sua ira segundo
o que merecem, não espera para ser solicitado por Satanás, mas se antecipa a este. Nessa
passagem, quando se trata de afligir Jó, ou seja, de Deus tratar severamente um de seus filhos,
isso deve se suceder pela perseguição do inimigo. Eis a diferença que nos revela a razão pela
qual o pedido de Satanás nessa passagem é-lhe concedido. Sendo assim, atentemos bem para
o fato de que as Escrituras, de todos os modos, quer sempre nos instruir a glorificar a Deus e
que, conhecendo a bondade dele para conosco, tenhamos motivo para o exaltar. Todavia, que
aprendamos que a vingança divina contra todos os maus é justa, e que, se ele castiga, está
exercendo seu ofício, com o objetivo de ser temido, receado e honrado em todo o mundo. Isso
é o que temos que guardar.
Apesar disso, pode-se ainda achar estranho a maneira com que Deus se serve de
Satanás. Porém, já dissemos que, se não ficarmos bem resolvidos sobre este ponto – que os
demônios estão sob a direção de Deus, de tal modo que nada podem fazer sem sua licença –,
derramar-nos-emos como água. Há mais, a saber, que os demônios são como verdugos para
executar os juízos de Deus e as punições que ele quer realizar sobre os perversos. Eles são
também como açoites pelos quais Deus castiga seus filhos. Em resumo, o diabo tem que ser o
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instrumento da cólera de Deus, executando a vontade desse. Não que a faça de bom grado,
como dissemos, mas é por Deus deter o poder soberano sobre todas as criaturas, as quais
devem se sujeitar a ele e se voltarem para onde bem lhe parecer. Contudo, há aqui uma grande
divergência, a qual temos que notar, pois, quando Deus permitiu que Satanás afligisse Jó,
disse ao segundo: “Vê que podes destruir todos os seus haveres, mas não toques em sua
pessoa”. E, mesmo depois que esse arruinou todos os bens, diz: “Tu podes tocar na pessoa
dele, mas não te aproximes de sua alma”. Nisso ainda vemos que Deus sempre guarda a alma
de Jó, de modo tal que Satanás só o pode atormentar em seus bens, em sua vida mortal e em
sua honra, posto que não possui poder para entrar até na alma, para fazer Jó cair em erro e
extravasar em impaciência. Isso será melhor entendido pela analogia contrária. Quando Deus
consente que Satanás execute sua ira sobre os incrédulos, não somente permite que ele aflijaos
em seus bens, aflija-os com doenças ou de outra maneira qualquer; mas vai mais além,
dando-lhe o poder do erro e de poder enganar, como no já mencionado exemplo de Acabe.
Vede Deus dizendo: “Quem seduzirá Acabe por mim?” E Satanás diz: “Eu serei espírito de
mentira na boca dos Profetas dele”. Vemos aí uma licença que é muito maior do que esta aqui
citada: pois não é apenas questão de que Acabe seja ludibriado por algum meio exterior, mas
vedes os Profetas que o iludem sob aparência de verdade. E isto é o que São Paulo declara (2
Ts 2.10): que, quando os homens não querem obedecer a Deus e à sua verdade, nem se
resignar a isso, sobretudo quando Deus lhes dá a graça de se manifestar a eles e lhes mostrar o
caminho de salvação, se forem tão desgraçados a ponto de rejeitar e repelir semelhante graça
divina, eis, então, que Deus lhes envia os falsos Profetas e os enganadores, os quais não só
perverterão toda boa doutrina, mas também serão cridos, porque lhes dará a eficácia do erro.
É preciso ponderar bem sobre esse termo, já que possui grande significação. Pois o que se
quer dizer com eficácia do erro? Essa acontece quando Deus retira de nós sua iluminação e
ficamos com os espíritos fascinados, tornamo-nos de tal forma estúpidos que não temos
discernimento maior do que o dos animais irracionais. Conquanto a cilada seja de todo
patente, tropeçamos sem ver uma partezinha dela. E por quê? Porque não há mais conselho
nem prudência em nós, visto que Deus deu a Satanás o poder de nos ludibriar e enredar, sim,
de nos cegar totalmente e nos fascinar, de modo tal que não sabemos nos voltar para cá nem
para lá para não cairmos em algum logro novo. Vede, digo eu, como Deus trabalha com todos
os infiéis e réprobos, dando a Satanás a eficácia do erro, de tal maneira que os pode enganar
sem se eles se apercebam disso. Ora, não é assim que ele age para com os seus quando os
aflige: pois, malgrado Satanás os assaltar, são preservados e têm como repelir suas tentações,
porque Deus os armou da sua virtude, de tal forma que Satanás não pode fazer senão o que ele
permite. E ele coloca diante desse uma barreira, de sorte que toda a fúria procedente do
segundo é tão abreviada que nada pode contra quem porta o bom prazer de Deus. Isso é o que
temos a notar e, igualmente, observar que os juízos divinos são exercidos tanto sobre os bons
quanto sobre os maus. É verdade que, se quisermos seguir nossa opinião, poderemos nos
maravilhar de como isto é feito, de Deus dar tal autoridade e favor a Satanás para esse poder
nos engodar. Isso, pois, parecer-nos-á bem estranho à nossa imaginação. Mas, e daí? Devemos
nos humilhar ao ver as Escrituras falarem assim e esperar o dia em que entenderemos melhor
os segredos de Deus, os quais nos são hoje incompreensíveis. Logo, temos que aprender a
exaltá-los, temos que adorar os juízos divinos, os quais nos são tão admiráveis, até que nos
sejam melhor conhecidos. Porque temos uma medida pequena demais para conhecê-los agora
em sua totalidade. Então, devemos caminhar em humildade, conhecendo em parte, até que
tenhamos plenitude de revelação no último dia. Mas, seja como for, não devemos ignorar o
que as Escrituras nos revelam, a saber, que Deus se serve de tal modo de Satanás que este
sempre está pronto para fascinar os homens quando estes merecem, sobretudo quando
recusam a obedecer à verdade: devem então ser levados pela mentira.
Quando se trata dos fiéis, Deus também permite que eles por vezes sejam iludidos por
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Satanás, visto como Jó, no fim, não fica isento desse mal. E também percebemos isso na
História Sagrada a respeito de Davi (1 Cr 21.1): porque, quando este fez a contagem do povo,
de onde é que adveio tal coisa? Traz o texto que foi o diabo quem suscitou todo esse mal,
quando Davi contou o povo de Deus daquele jeito. Davi então, não obstante ser do número
dos filhos de Deus, não deixa de algumas vezes ficar preso pelo poder de Satanás para ser
ludibriado. Mas, ao vermos isso, temos boa razão para orar a Deus e ir para debaixo da
sombra de suas asas, para que ele nos esconda lá: por que, se semelhante coisa sucedeu a
Davi, o que será de nós? Todavia, reparemos também que, quando Deus concede tal favor a
Satanás sobre os fiéis, isso não se dá senão por pouco tempo. Eis porque é dito que sua
virtude está sobre os incrédulos e sobre todos os rebeldes: não é sem motivo que São Paulo
(Ef 2.2) coloca ali tal distinção. Diz que ele opera agora em todos os incrédulos, ele coloca o
reino de Satanás nos que estão separados de Deus e cortados de sua Igreja. Por quê? Porque
vedes seus limites, mas, quando ele consegue consternar os filhos de Deus, nosso Senhor o
permite para os humilhar, a fim de que, quando estiverem atormentados dessa forma dura e,
sem embargo, resistindo aos ataques que lhes são perpetrados, saibam que isso não é deles,
mas que estão sustentados de outra parte, a saber, da graça de Deus e da virtude de seu Santo
Espírito. Sendo assim, normalmente, quando Deus permite a Satanás tentar os fiéis, é para que
tudo lhes sirva como remédio. E nisso vemos uma maravilhosa bondade de Deus, que
converte o mal em bem: pois o que é que Satanás pode dar que não peçonha e veneno? Porque
sabemos que nele só há morte, pois dela é chamado o príncipe (Hb 2.14). Assim, pois, tudo o
que Satanás pode produzir tende à ruína dos homens e para os fazer perecer. Entretanto, Deus
inventará o meio pelo qual o mal que vem de Satanás se nos seja convertido para salvação.
Eis São Paulo fora de si, segundo confessa, depois de haver falado das revelações tão altas
que lhe foram dadas. Deus, diz ele, mostrou que eu não me elevasse demais (2 Co 12.8). Essa
foi uma provisão boa e bem útil para São Paulo, porque sabemos que o orgulho nos precipita
nos abismos, posto que nada há que irrite mais a Deus. Pois este se declara sempre inimigo
dos orgulhosos e dos que presumem ser algo pela própria virtude. Ora, São Paulo estaria em
tal perigo se Deus não tivesse dado o remédio. E de que forma isso se deu? Diz que ele enviou
o mensageiro de Satanás para o estapear. Vedes Satanás trabalhando em São Paulo, sim, pela
permissão de Deus. E qual o desfecho disso? Satanás realmente cuidava prejudicar São Paulo,
sua intenção era desviá-lo para que deixasse o serviço de Deus e que, estando agastado dos
problemas e misérias que suportava incessantemente, retirasse-se um pouco do cristianismo.
Isso era o que Satanás pensava. Mas, e aí? Deus contemplava um outro fim: queria conservar
na rédea seu servo, para que esse não olvidasse de não se elevar demais. E por esse motivo é
esbofeteado. Ele usa essa símile particular, que Deus não o exercita como um militar a cavalo
no campo de batalha, para lhe dar uma vitória gloriosa, porém, estapeia-o com ignomínia e
opróbrio. Convém que o santo Apóstolo, estando dotado de tão excelentes dons do Espírito de
Deus, esteja assim sujeito a Satanás, que lhe cospe na vista, que lhe perpetra muitas
ignomínias. Vemos então como Deus converte o mal em bem quando faz com que todos os
aguilhões de Satanás se nos sirvam de remédio, e que por esse meio ele nos purga dos vícios
que estão ocultos em nós. Destarte, temos que louvar a Deus em tudo e por tudo, sim, apesar
de inicialmente seus juízos nos serem por demais severos à nossa imaginação e não o
possamos conceber senão segundo nosso sentido carnal. Quando, pois, houvermos ponderado
bem sobre tudo, teremos sempre do que exaltar a Deus. Quanto a essa passagem, onde se diz
que ele deu licença a Satanás para afligir Jó, é isso. Sim, mas Deus o impediu de tocar na
pessoa desse. Resumindo, temos que notar que, quando Deus permite que sejamos assaltados
assim por Satanás, que nos faz muitos ataques bem rudes, todavia, é por medida, ele sabe até
onde podemos agüentar e o que nos é conveniente.
Agora, para finalizar, é dito que Satanás saiu da presença do Senhor. Não que Satanás
fez o que bem lhe pareceu, como se Deus não mais tivesse visto, mas é para indicar qual a
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fúria dele, qual é o seu modo habitual, a saber, que fez o pior que pôde, sem atentar que estava
sujeito a Deus, que usou de sua rebelião e que brutal e subitamente destruiu os bens de Jó;
conquanto haja ainda uma outra coisa denotada nesse termo, qual seja, que Satanás
efetivamente demonstrou a licença que obteve. Porque dissemos que aqui esse conselho
estrito de Deus, desconhecido dos homens, foi-nos declarado. Pois as Escrituras falam assim
das coisas que nos são patentes, como logo depois Jó foi despojado de todos os seus bens,
como seus filhos são mortos, como foi afligido em sua pessoa, isso foi notório a todos, mas
esses desconheciam o que foi supramencionado, a saber, que Deus se faz ouvir em suas
conferências (tenu ses assises), e que tudo estava disposto por seu conselho, nada
acontecendo sem a sua providência. Os que possuíram os olhos da fé para compreender isso o
entenderam, mas os outros perceberam somente as coisas que se faziam. Vedes por que é dito
agora que Satanás saiu da presença do Senhor. Pois as Sagradas Escrituras distinguem entre as
coisas exteriores que se vão e o conselho de Deus, que não é conhecido senão por seus fiéis,
que se elevam acima de toda razão e de todos os sentidos naturais. Porque jamais chegaremos
ao conhecimento da majestade de Deus se não elevarmos todas as nossas faculdades. Agora as
Escrituras retornam à história, ao dizer que Satanás saiu da presença do Senhor, isto é, foi
visivelmente percebido e ficou patente como ele afligiu Jó. Eis o que é dito ali. O restante do
trecho é sempre para expressar a natureza de Satanás, o qual, transbordando de raiva, mete
fogo e chama, como se quisesse arruinar tudo: em suma, é seu múnus tentar, como dele se diz
quando se fala que Jesus foi tentado (Mt 4.3). Eis o tentador. Tal palavra e título são
atribuídos particularmente a Satanás. Por quê? Para que saibamos que ele nada mais quer que
não a ruína total, que não colocar a humanidade em confusão. Vede o motivo de ele não estar
desocupado: ele ronda, ele nos importuna para nos levar à perdição com ele e nada quer senão
ficar desobrigado da obediência a Deus e perverter tudo. Quando conhecermos isso, devemos
ser ainda mais incitados a orar a nosso Deus, para que nos receba em suas mãos e em sua
guarda, pois, quando tivermos sido assim recebidos, ficaremos a salvo contra as tribulações
que Satanás tramar contra nós. Mas, uma vez que Deus se afasta de nós, apenas tirando a
mão, seremos de imediato vencidos por Satanás. Eis então como somos instruídos, por um
lado, a nos humilhar, a caminhar em temor e cuidado e, por outro, invocar a Deus, sabendo
que, quando formos por ele socorridos, nada nos faltará. Sim, ainda que com grandes
dificuldades, devemos batalhar e, não obstante essas, asseguremo-nos da vitória que ele
prometeu a todos os seus.
Prostrar-nos-emos agora ante a majestade de nosso Deus...
Irmão João Calvino.
A Deus toda a Glória e Honra!

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