terça-feira, 7 de outubro de 2008

O MODELO DO ESVAZIAMENTO DA VONTADE.

Por: Glenio Fonseca Paranaguá
05/10/2008

Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Filipenses 2:5-8.

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. João 1:1-2. Cristo, o eterno Logos, o Verbo que estava com Deus, é absolutamente Deus. Ele estava com Deus, mas é o Filho eterno do Pai e eternamente Deus, por isso não teve princípio e não terá fim. Ele é gerado eternamente Filho, uma vez que na eternidade não há nem passado nem futuro. O presente eterno é o eterno presente da Trindade eterna.

A linguagem do apóstolo aqui é temporal. João fala da eternidade com uma visão dimensional e cronológica. A mente humana não consegue pensar sem as categorias de espaço e tempo, logo todos os idiomas têm idiotismos para tentar esclarecer a magnitude do infinito, sem, contudo poder defini-lo de fato. Se alguém pudesse definir o infinito, ele já não seria mais infinito.

Deus é infinito e incognoscível para a razão humana, pela simples razão de que a razão não consegue explicar a infinitude da divindade. Mas Deus é cognoscível, isto é, pode ser conhecido pessoalmente através da revelação que ele dá de si mesmo ao espírito do ser humano. A estatura enigmática da divindade que se torna mais compatível com a compreensão humana é a grandeza da encarnação de Cristo. Mesmo sem condições de elucidar o mistério da pessoa teantrópica de Cristo, Deus no calibre de um homem, esse é o tamanho adequado para se conhecer a Deus. "Se você quiser saber o que Deus tem a lhe dizer, observe o que Cristo foi e é: tão inteiramente Deus como se não fosse homem, tão inteiramente homem como se Deus não fosse".

Cristo é totalmente Deus, Jesus é homem por inteiro. Cristo Jesus é o Deus-Homem que veio revelar a grandiosidade divina no seio da humanidade corrompida pela teomania. Cristo teve que se esvaziar da plenitude da glória, sem perder nada da sua natureza. Eu, o Senhor, lhes serei por Deus, e o meu servo Davi será príncipe no meio delas; eu, o Senhor, o disse. Ezequiel 34:24.

O pecado tem como base de lançamento a proposta de fazer do ser humano um deus. Adão e Eva foram feitos à imagem e semelhança de Deus, todavia a serpente inoculou seu veneno, dando a entender que eles poderiam ser iguais a Deus. Assim, a queda foi muito grande. A criatura despencou-se quando escalava o trono da divindade. "O pecado é a declaração de independência de Deus feita pelo homem". Nos termos bíblicos, a pretensão de ser Deus é a fonte do pecado.

O pecador é um infrator pervertido pelo pecado de autonomia, praticando os pecados de rebeldia. O pecado no singular é o que somos e os pecados no plural é o que fazemos. O que somos determina o que fazemos. Se formos independentes de Deus, agiremos por conta própria, infringindo as ordens de Deus. Mas se formos dependentes do Pai, seremos submissos à sua vontade.

Cristo Jesus veio a terra para salvar e libertar o ser humano do seu pecado de insubmissão. "O pecado é a raiz e os pecados são os frutos". A questão do pecado é a emancipação da criatura do Criador e a arrogância em viver a sua vida indócil à vontade de Deus. Porém, o assunto da salvação é o contrário da presunção antropolátrica: Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou. João 6:38.

Como Salvador dos pecadores, Cristo não se agarrou à sua condição gloriosa de Deus. Sendo Deus, ele se despejou num vaso de barro, a fim de viver a vida de servo obediente. O pecado propõe tornar o homem em Deus. A salvação reduz Deus à condição de homem e homem totalmente submisso à vontade do seu Pai. O Senhor se revela como um servo subordinado. Eu nada posso fazer de mim mesmo; na forma por que ouço, julgo. O meu juízo é justo, porque não procuro a minha própria vontade, e sim a daquele que me enviou. João 5:30.

Adão foi uma criatura que desejava ser o Criador e sua raça ficou infectada pelo vírus titular, agente do inchaço. Cristo é o Criador se constituindo em criatura, para viver em dependência total da vontade do Pai. Para ele havia um só prato no seu cardápio: Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra. João 4:34.

"O pecado é o antepassado, os pecados são os descendentes". Adão é a causa da altivez e a matriz de uma existência ensimesmada. Ele é o caudilho da tropa humanista e cabeça dos autônomos. Mas Cristo Jesus é o esvaziamento da divindade e a exaltação da humanidade ao mesmo tempo, e os filhos de Aba têm o mesmo desprendimento daquele que é a vanguarda da humildade.

O que governava a andança do Cristo encarnado na terra era o prazer da obediência a Deus. Então, eu disse: eis aqui estou, no rolo do livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei. Salmos 40:7-8. A vontade contente do Filho submisso é fazer a contento a vontade do seu Pai soberano. A vida cristã é uma peregrinação dentro do perímetro da vontade de Deus, por aqueles que foram conquistados pelo Espírito Santo, para fazerem de boa vontade a vontade do Pai celestial. Ora, se o pecado é a autonomia da criatura em relação ao Criador, a salvação, necessariamente, será a dependência total da nova criatura à vontade divina. Ensina-me a fazer a tua vontade, pois tu és o meu Deus; guie-me o teu bom Espírito por terreno plano. Salmos 143:10.

Cristo é a incorporação da vontade do Pai e o canal de propagação desta vontade na vida dos filhos legítimos de Aba. Ninguém poderá fazer a vontade de Deus, sem antes ser convencido pelo Espírito Santo do seu autonomismo. Se o pecado for autocracia, a salvação consistirá na vinculação total do pecador autônomo e respectivamente teomaníaco à pessoa de Cristo. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não crêem em mim; João 16:8-9. Crer é mais do que acreditar. Crer é confiar e depender somente de Cristo.

Nós somos dotados de instintos, desejos e vontade. Nossos instintos são animais, nossos desejos psicogênicos e a vontade é de caráter espiritual. Em razão do pecado todos estes itens estão poluídos pelo exclusivismo. Mas quando o Espírito Santo convence a nossa vontade e, pela graça, nos rendemos à vontade de Deus, então uma nova vontade assume o controle da antiga vontade e passamos a orar deste modo: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; Mateus 6:9-10.

Ruth Paxson afirmava: "desejar fazer a vontade de Deus é o maior privilégio do homem e sua mais divina prerrogativa. Viver inteiramente dentro da vontade de Deus é ter justiça, paz e harmonia reinando em todo lugar". Contudo, só uma pessoa quebrantada e desprendida de sua vontade pode ter vontade de fazer a vontade de Deus de boa vontade.
"A vontade é a força fundamental, a base da personalidade". Quando a nossa vontade é convencida pelo Espírito Santo e vencida pela pessoa e obra de Cristo, o nosso ego é conquistado. A vontade é o fator decisivo em tudo o que fazemos. Toda iniqüidade deve-se à disposição da vontade rebelde à vontade de Deus, e toda santidade à vontade conquistada pela vontade de Deus, pois, o que Deus espera ver é a nossa vontade segundo a sua vontade.

O esvaziamento da alma é a desocupação eletiva da própria vontade, enquanto a plenitude da vida espiritual é a apropriação da vontade de Deus, acima de tudo. Quando a nossa vontade egoísta é recrutada pela vontade de Deus e, voluntariamente, almejamos fazer a vontade divina de todo o nosso coração, então entramos no lugar sagrado da maior relevância espiritual. Como ensinava o cardeal François Fenelon, "faça desta regra simples o guia de sua vida: não ter vontades, a não ser a vontade de Deus", pois ela é a única capaz de nos manter realmente satisfeitos.

Cristo é o modelo da plena satisfação à vontade do Pai. Sua vontade pessoal foi posta no curso da vontade do seu Pai de tal modo, que era impossível desejar algo fora desta vontade suprema. No momento crucial da sua agonia, orou: Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade. Mateus 26:42. Foi William Temple quem disse: "a satisfação com a vontade divina é o melhor remédio que podemos aplicar aos infortúnios".

Para seguir a Cristo precisamos, antes de tudo, desistir de comandar a nossa história e estar sujeito à revelação da vontade de Deus. A fé cristã não é uma turnê movimentada por decisões pessoais. Ainda que tenhamos disposições e deliberações particulares, nossos anseios foram depositados aos cuidados da soberania divina. "A vontade de Deus não é um itinerário, mas sim uma postura em todo o trajeto". Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo. João 7:17.

O esvaziamento pronto, franco e sem reservas da minha vontade ambiciosa, calculista, mas fraca como a minha carne, e "uma perfeita conformidade com a vontade de Deus é a única liberdade soberana e completa" que posso experimentar na minha jornada de peregrino. A fórmula, segundo Jesus, é simples, mas é radical: Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

O querer do verdadeiro discípulo de Cristo implica na renúncia definitiva e irrevogável de si mesmo, na operação diuturna da cruz em seu ser e na disposição de acompanhar a marcha do Senhor sob a consciência, o controle e o comando da vontade soberana da Trindade divina. M. Guyon dizia: "há pessoas que querem dirigir a Deus, ao invés de resignarem-se com a direção divina. Insistem em indicar ao Todo-Poderoso o caminho a seguir, sem se deixarem conduzir por ele". Mas a vida cristã é sumariada nestas palavras: "não eu, mas Cristo".

"Minha vontade seja feita, e não a tua" – foi o que transformou o Jardim do Éden em deserto. "Tua vontade seja feita, e não a minha" – foi o que fez do deserto o Jardim das Oliveiras e do Getsêmani a sublime portaria da glória de Deus. Seja feita a tua vontade, Senhor, visto que esta é a minha única vontade. Amém
A DEUS TODA A GLÓRIA!

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